Já fazem alguns anos que não participo do circo eleitoral. Minhas últimas eleições nas quais efetivamente depositei meu voto nas urnas foram em 2000. Depois disso, votei em branco uma vez e, nas últimas eleições, nem saio mais de casa para votar, tampouco justifico o voto. Então, segue-se uma explicação sobre como fazer para não perder meus direitos civis e bla bla bla...
 
Para muitas pessoas, isso representa uma indiferença ao ato político. Para mim, muito pelo contrário. Meu sentimento não é de indiferença.
 
É de certeza de que outra política é possível. De que outros caminhos são desejáveis e necessários. E estes caminhos passam pela reunião de pessoas sensíveis, humanas, inteligentes e dedicadas ao bem comum em redes cooperativas significativas como a Coolmeia e outras afins.
 
Não precisamos mais ficar acuados acreditando que a via político-partidária é a única saída. Precisamos dedicar uma parcela de nossa atenção e nossas vidas a praticar, aqui e agora, a vida em comunidade e em redes autogestionadas, horizontais e confederadas que acreditamos sejam possíveis inverter este sistema opressor, excludente e corrupto que ora vigora.
 
A infraestrutura está sendo criada, modelos baseados em compartilhamento, peer to peer, sistemas de software, hardware e conhecimento aberto implementados. O "novo humano" está começando a entender os processos de tomada de decisão horizontais e já não se choca quando os reconhece.
 
No processo, muito mais do que uma mudança de cima para baixo, uma mudança cultural, na percepção de como as coisas são e como deveriam ser levam a um despertar gradual e o surgimento de uma massa crítica, que progressivamente se afasta dos caminhos da hierarquia e da pseudorepresentatividade e se aproxima da vida significativa e singular.
 
Neste dia 5 de outubro, exercite sua consciência e juízo crítico, e comece a se aproximar de redes, coletivos e movimentos que lutam e afirmam o bem coletivo sem criação de lados ou partidos. Se ainda não souber onde procurar, fale comigo. Procuraremos juntos, enquanto caminhamos e compartilhamos nosso sonho comum.

 



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Sociedade - Saúde da Sociedade


(esta história relaciona-se com uma passagem bem particular da minha vida, e qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência).

O que falta responder? Falta descobrir o que aconteceu com o cristal. O cristal quebrou? Ou ele está envolto em uma grossa camada de barro, oculto embaixo dela? Se quebrou, não tem como ser consertado. Não tem mais como ser "aquele cristal" de antes. Sem jeito. Se está coberto de barro, basta lavá-lo, cuidadosa e persistentemente. O barro vai sair e o cristal continuará lá, lindo e transparente.
Mas a complexidade da imaginação humana consegue, ainda encontrar mais soluções além destas duas que surgem à primeira vista (aceitar a perda do cristal ou tirar-lhe a sujeira).
Podemos adquirir outro cristal ou então, ao invés disso, podemos "remixar o cristal". Adquirir outro cristal pode ser o caminho mais fácil. Nos desapegamos do cristal antigo e buscamos, quer seja em um antiquário ou então em uma loja qualquer, um cristal para substituir aquele que quebrou. O novo cristal é a negação do antigo. É a busca de outra história, mesmo que seja repetindo os mesmos caminhos (queremos, novamente, um cristal).
Mas existe ainda uma quarta solução, advinda da cultura japonesa, chamada Kintsugi. Kintsugi é a arte de reconstruir cerâmicas quebradas com uma resina misturada com pigmentos de ouro, prata ou platina. (Veja algumas imagens em http://www.pinterest.com/egurian/kintsugi-repaired-in-gold/). A filosofia por trás do Kintsugi nos ensina que o quebrar e reparar se torna uma parte da história do objeto, ao invés de simplesmente rejeitá-lo.
O Kintsugi pode se relacionar à filosofia japonesa do "no mind", que encompassa os conceitos de desapego, aceitação da mudança e destino como aspectos da vida humana.
Significa respeitar e abraçar amorosamente a história do objeto, e buscar o novo através de novos caminhos – já não precisamos de um cristal perfeito, mas valorizamos a história daquele cristal que a partir de agora, é único, não mais "fabricado em série".
Saberemos ser artesãos de nossas próprias vidas? Ou buscaremos outros cristais, outras histórias, para logo ali na frente descobrir que estamos repetindo o mesmo padrão de sempre?
A resposta encontra-se dentro de cada um, e somente cada um de nós consegue submergir e resgatá-la.
Bom mergulho!

(este texto foi escrito para uma pessoa muito especial, que está em um caminho de descoberta, compreensão e busca de si mesma, mas serve como reflexão para cada um de nós, em nossas próprias buscas pessoais)

Viena, 18 de setembro de 2014.

 



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Efervescências - Quase Filosofia


Sou mesmo um desses. Tento escapar, mas capitulo. Estou de volta, de mansinho.



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Efervescências - Cotidianices


"Nossos pés deixam pegadas na areia do tempo. Se estivermos no caminho

errado, muitos nos seguirão, desviando-se do que é correto. Quando

pensamos que uma ação é só por aquele momento e esquecemos que ela

deixa um rastro atrás de si, não estamos sendo responsáveis.

Todas as nossas ações afetam os seres humanos, dando-lhes alívio ou

tristeza. Podemos fortalecê-los ou não. Podemos causar ferimentos ou curas.

Podemos gerar conflitos ou resolvê-los. Podemos criar cataclismas ou algo

nobre para a sociedade." - B.K.Jagdish

 

Hoje, vamos viajar um pouco: vamos falar de futuros desejados...

 

Para criar uma "Nova Economia", vamos precisar de uma boa dose de

utopia: precisamos promover o Despertar. Quando falo em "Despertar", me

refiro não a um acordar biológico tão somente, e também não uso o termo

como um fenômeno puramente místico mas, mais ainda, a um fenômeno

que abraça em si as necessárias mudanças biológicas, espirituais e sociais

necessárias a uma Reforma do Pensamento.

Esta Reforma do Pensamento, que começa com uma Reforma da Percepção

e passa por uma Reforma do Julgamento, é o sentido último que

precisamos buscar. Tenho forte convicção de que as mudanças que urgem

passam por este processo que, em última instância, deverá modificar a

forma com que percebemos, julgamos, pensamos e, finalmente, agimos.

Entretanto, e agora me dobro a evidências empíricas, nem sempre é através

da palavra - leitura, discurso, palestra, aula, seminários e cursos - que se

consegue promover o "Despertar". Muitas vezes, precisamos da prática, da

ação, do exemplo como ferramenta para que a mudança ocorra.

Hoje, infelizmente, ainda precisamos ser violentados, maltratados,

desrespeitados, perder o emprego, ter nossa honra machucada ou

precisamos ser retirados de nossa "zona de conforto" para perceber que

alguma coisa está muito errada no mundo aí fora. Os sinais da degeneração

da qualidade de vida estão cada vez mais salientes e, apesar do crescimento

do consumo de bens materiais, pouquíssimas vezes conseguimos escutar a

palavra felicidade. E esta, por incrível que possa parecer a este ser humano

individualista, capitalista e competidor que é a regra hoje em dia, é mais

ouvida em ambientes onde a confraternização, a socialização e a

cooperação estão presentes. Paradoxal? Nem tanto, quando lemos alguns

estudos científicos ¹ a respeito.

Pois é deste fluxo de que todos devemos tratar: o fluxo contínuo de linguagear,

emocionar e conversar - para utilizar os neologismos criados por Humberto

Maturana - em direção a um porvir mais voltado para o social do que para o

individual, que tenda à cooperação entre as pessoas e o ambiente. Por

incrível que pareça, você não precisará abrir mão de seu conforto para isso.

Se estivermos abertos e dispostos, aprenderemos juntos como seguir este caminho. O primeiro passo está dado. Agora me dê sua mão e vamos caminhar juntos.

 

"- Utopia [...] ella está en el horizonte. Me acerco dos pasos, ella se aleja dos

pasos. Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. Por

mucho que yo camine, nunca la alcanzaré. Para que sirve la utopia? Para eso

sirve: para caminar." - Francesco Berri

 

Referências:

1. O Dinheiro como empecilho ao senso de comunidade - Alternativas para

um mundo sem dinheiro: http://reinehr.org/sociedade/saude-dasociedade/

o-dinheiro-como-empecilho-ao-senso-de-comunidadealternativas-

para-um-mundo-sem-dinheiro



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Medicina e Saúde - Medictando


De que serve ler palavras?

As lerei com meu corpo.

Como pode um enfermo beneficiar-se

lendo um livro de medicina?

Shantideva

 

Na edição passada, fiz um convite aos leitores: que me ajudassem a esclarecer como se faz

para transformar teoria em prática. Hoje começaremos a investigar esta questão.

Um aspecto interessante da vida médica diz respeito ao caminho necessário a trilhar entre o

conhecimento e a aplicação prática daquilo que foi aprendido.

Sabemos, tanto por experiência quanto pela análise de estudos científicos, que quanto mais

complexas as medidas que precisamos implementar em nossas vidas, menor é a aderência a tais

Por exemplo, é muito mais fácil conseguir aderência de uma paciente a um tratamento

medicamentoso por curta duração do que por longo prazo. A aderência ao tratamento de uma

pneumonia é muito mais provável do que a de osteoporose, diabetes ou obesidade. Dentro de

tratamentos de curto prazo, aquelas medicações com uma só tomada ao dia tem chances muito

maiores de adesão por parte do paciente do que aquelas que necessitam, por exemplo, três ingestas

diárias. E, finalmente, tratamentos em que o uso de medicações são as responsáveis principais pela

melhora dos pacientes acabam resultando em melhores resultados em geral do que aqueles em que a

mudança de hábito de vida - incluindo, por exemplo, mudanças nos hábitos alimentares e realização

de atividades físicas - são necessários.

Não se beneficia um paciente ofertando-lhe um livro de medicina - uma série de orientações

práticas, detalhadas, factíveis e, de preferência, com pequenos passos por vez se faz necessária; em

nossa vida profissional e pessoal também precisamos de certo planejamento e organização para

transladarmos o conhecimento que adquirimos em ações práticas para benefício próprio e daqueles

E quais seriam estas orientações que nos ajudariam a transformar teoria em prática? Chamo

o fluxograma a seguir de “Vamos acampar?”, pois ele nos incita a fazer uma lista do que

precisamos levar, por exemplo, quando vamos fazer um acampamento:

- Definir objetivos claros: o que queremos? para onde vamos? como vamos? com quem vamos? do

que precisamos? como vamos conseguir o que precisamos?

- Antecipar possibilidades - e se não der certo, quais são as alternativas?

- Transformar crenças pessoais em problemas, para motivar mudanças

- Quebrar o complexo em partes menores

- Compreender o que se quer transformar e, finalmente

- Acompanhar o andamento do processo, corrigindo imediatamente o rumo quando necessário

Indo para a prática, então: há pouco mais de dois anos decidimos, minha esposa e eu, deixar

de lado a vida de “sucesso” profissional que nos consumia por 12 horas dentro de um consultório

cheio e mudamos de cidade e de vida, em busca daquilo que realmente fazia sentido para nós, em

contraponto ao que a sociedade (e nossa família) espera de uma pessoa bem sucedida.

Este caminho, o que começa em saber exatamente o que se quer e não termina nunca, pois

estamos sempre acompanhando e reavaliando o processo de caminhar, é o que estamos trilhando

nesse momento. Só se aprende a viver vivendo. Como disse Thomas Fuller, “o conhecimento dirige

a prática, mas a prática aumenta o conhecimento”.

Algo precisando ser mudado na sua vida? Leia a mudança não com o pensamento mas com

sua própria vida. Depois me conte. Mãos à obra!



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Medicina e Saúde - Medictando


Publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2010 na Revista DOC

Muitas vezes, a forma mais fácil de solucionar um determinado problema é não participar dele. É desistir. Desistir muitas vezes significa respeitar seus desejos mais íntimos. Significa recusar pressões sociais e tornar-se quem você realmente é. Da próxima vez que surgir um problema, desista:

-    Desista de ser legal;
-    Desista de ser alguém famoso;
-    Desista de querer ser diferente apenas para ser único;
-    Desista de tentar ser perfeito;
-    Desista de manter relações com pessoas das quais você realmente não gosta;
-    Desista de ser o centro das atenções;
-    Desista de tentar ser importante (focar na comunidade é usualmente mais engrandecedor);
-    Desista de buscar uma série de objetivos voltados ao ego;
-    Desista de se preocupar em possuir uma montanha de coisas legais, que distraem você do fato de que você não gosta do que você está fazendo com a sua vida;
-    Desista de tentar ser muito feliz todo o tempo: em vez disso, busque ser mais tranquilo;
-    Desista de ser tudo para todo mundo;
-    Desista de sacrificar sua vida atrás de um grau que lhe dê a ilusão de que você é superimportante;
-    Desista de ser ultraprodutivo, especialmente se a produtividade lhe deixa esgotado;
-    Desista de aperfeiçoar-se constantemente: muitas vezes, aperfeiçoamento exagerado nos faz perder a vista do aqui e do agora;
-    Desista de pensar que você não tem tempo ou habilidade para tornar seus sonhos realidade;
-    Desista de tentar viver conforme a expectativa de seus pais, seus amigos, seu chefe ou seus colegas;
-    Desista de ter um corpo perfeito, um rosto perfeito, ou um guarda-roupas perfeito: preocupe-se mais em embelezar sua mente e ser uma pessoa que faz belas ações.

Tentar fazer as coisas acontecerem a todo tempo cria uma ansiedade desnecessária. É estressante tentar negar aquilo que é. Quando eu desisto, aceito a vida como ela é, sem desejar que as coisas sejam diferentes. Se uma ação é necessária, eu aceito. Eu faço. Mas podemos desistir de deixar nossa felicidade depender de uma coisa ou de alguém. É interessante perceber como parecemos ter tantos problemas e tantos dilemas. A maior parte das vezes, no entanto, a resposta para resolvê-los é não fazer nada. Simplesmente desistir.

Bom... Jogar (e ler) um monte de frases soltas em tom de aconselhamento realmente é algo fácil de fazer. Transformar teoria em prática são outros quinhentos. Nossas crenças ou nossa hierarquia de prioridades pode até estar parcialmente afinada com algumas mudanças que esperamos para nossas vidas, mas daí, para tornarmos realidade aquilo em que acreditamos, seguir uma série de passos se torna necessário.

Gostaria de deixar uma pergunta e um convite ao leitor da DOC: como você faz para transformar ideia em ação? Como transladar teoria em prática? Se você tem uma boa resposta a estas perguntas, envie-a para o e-mail <medictando@revistadoc.com.br> e na próxima coluna faremos uma síntese do pensamento dos leitores, enriquecendo nosso diálogo. Até lá.

*Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas



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Medicina e Saúde - Medictando


Publicado originalmente em 16 de outubro de 2009 na Revista DOC

Na Medicina, bem como em praticamente todas as áreas científicas e humanas, somos treinados para encontrar e oferecer respostas. Quando um paciente nos procura, ele quer saber o que tem e como fazer para resolver uma questão de saúde que lhe aflige.

Para que possamos de fato ajudá-lo, o primeiro passo é – através da integração entre o conhecimento que acumulamos e o reconhecimento de padrões que temos acumulado através da nossa experiência – fazer as perguntas que nos levarão ao diagnóstico correto da enfermidade ou da necessidade de quem nos solicita ajuda. Nunca damos (ou não deveríamos) oferecer um tratamento sem nos perguntar duas coisas:

A primeira é: o que está acontecendo de fato com este paciente? A segunda é: o grau de certeza que tenho é suficiente para tratá-lo, devo seguir investigando ou devo solicitar ajuda a alguém mais? São perguntas importantes que, mesmo de modo inconsciente sempre nos fazemos durante o processo diagnóstico de uma doença.

Entretanto, me pergunto: por que muitas vezes não fazemos perguntas tão ou mais importantes no decorrer de nossas vidas? Por que encontramos colegas tão absortos em seu dia a dia sem uma meta específica a ser alcançada? Ou, poeticamente, por que navegamos sem norte, sem porto ou terra à vista para atracar?

A edição anterior da Revista DOC foi prolífica em uma série de perguntas importantes que precisamos, cedo ou tarde, fazer: Márcio Iavelberg, em sua coluna DOC.Finanças perguntou: quantos pacientes preciso atender em um mês para terminá-lo no azul? E qual será minha remuneração ao final do mês?. Ainda, na mesma edição, uma belíssima reportagem de Fernanda Fernandes nos faz questionar: e agora, José? Devo seguir atendendo convênios ou me aventuro em um consultório somente particular?

A essas perguntas, claramente associadas ao critério financeiro da nossa labuta diária, acrescento mais uma – na verdade, uma pergunta bastante composta: quanto mereço ou quero ganhar e o que vou fazer quando atingir esta meta? Ou seja: o que irei fazer ao atingir a meta por mim estabelecida? Dedicar-me a atividades de lazer, contemplação, descanso? Produzir capital social ou envolver-me em trabalhos altruístas, para dividir um pouco da boa venturança que me coube na vida com quem não teve a mesma sorte? Passar um bom tempo com minha família e amigos, dedicado a cuidar da minha saúde, melhorar minha alimentação e praticar exercícios físicos? Trabalharei tanto mais horas quanto pacientes houver, para aproveitar o momento. Afinal, posso viver depois e é bom continuar fazendo um bom pé-de-meia?

São perguntas que costumeiramente não fazemos, já que não elegemos uma meta em relação a quanto merecemos ou queremos ganhar (ou, mais comumente, subvertemos nossa decisão no andar da carruagem). É certo ver que teremos vidas completamente diferentes se escolhermos uma ou outra opção.
Como é praxe na Medic(t)ando, deixo você, prezado colega, refletindo acerca das implicações que boas perguntas feitas em momentos importantes podem ter em nossas vidas. Afinal, nosso objetivo é ajudá-lo a fazer as perguntas, mas a melhor resposta quem poderá dar é você mesmo.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas



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Medicina e Saúde - Medictando


Publicado originalmente em 08 de setembro de 2009 na Revista DOC

Em meados do século passado, o psicólogo americano Abraham Maslow propôs o que viríamos a conhecer como “Hierarquia das necessidades de Maslow”, uma pirâmide composta de degraus os quais deveríamos escalar para atingir nossa autorrealização, desenvolver nossos potenciais e nos tornar tudo que fôssemos capazes de ser.

Começando por atender a nossas necessidades fisiológicas (como respiração, comida, água e sono), passando pela necessidade de sentir-se seguro em casa, com um emprego estável, poderíamos então atingir o terceiro degrau da escada, em que poderíamos nos dedicar às necessidades sociais ou de amor e afeto, bem como pertencer a determinados grupos ou clubes.

No degrau seguinte, exercitaríamos nossa autoestima, buscaríamos o respeito dos outros frente às funções que desempenhamos e cultivaríamos o respeito aos outros para só então, finalmente, chegar ao ápice da pirâmide da realização pessoal em que conviveriam harmonicamente a moralidade, a criatividade, a espontaneidade, a ausência dos preconceitos e a aceitação dos fatos.

Várias críticas podem ser feitas ao modelo de Maslow e a mais dura delas ataca seu âmago: no momento em que reconhecemos, por exemplo, pessoas sem estabilidade financeira que exibem na prática diária qualidades morais exemplares e apresentam-se mais realizadas do que qualquer magnata do petróleo. Da mesma forma, na sociedade de consumo na qual estamos inseridos, a influência da mídia e da propaganda sobre o que “devemos ter” e “como devemos nos portar” acaba gerando mudanças na hierarquia, trazendo a necessidade de status para um primeiro plano, antes mesmo que algumas necessidades mais básicas sejam atingidas.

Anedoticamente, vou ilustrar com o exemplo daquele médico residente que, em dada época, com salário equivalente a R$1.200, adquiriu um automóvel no valor de R$45 mil, sem antes ter garantido sua segurança financeira, tampouco possuir moradia própria. O que justifica este ato senão o desejo de demonstrar uma espécie de “capacidade” ilusória ao mundo que lhe observa?

Como curiosidade, a psicanálise de nosso eminentíssimo colega Sigmund Freud nos lembra que temos a tendência de repetir os erros de nossos pais e, ainda, repetir nossos próprios erros ao longo do tempo. Quantos de nós continuam sub-repticiamente manipulados pelo desejo de status e consumo desconectados de qualquer sinal de alerta e, mesmo quando nos perguntam: “por que você continua trabalhando até às 22 horas na sexta-feira?”, respondemos: “porque tenho que pagar a faculdade dos filhos”?

Longe de propor qualquer tipo de julgamento, esta coluna apenas pede um pequeno espaço no seu pensamento e um olhar mais demorado sobre sua própria vida e sobre as escolhas que você tem feito. Em vez de apresentar respostas definitivas, elaboraremos perguntas que busquem gerar reflexão, para que o leitor rumine, medite e chegue as suas próprias conclusões.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas.



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Medicina e Saúde - Medictando


Os artigos abaixo foram publicados em 2004 em vários sites da internet, em duas partes que estão reunidas nesta publicação. Foram, entre outros locais, publicados no Duplipensar , no Simplicíssimo e no Escrever por Escrever)

Eles representam uma visão pessoal que eu tinha naquela época e não necessariamente representam na totalidade minha visão atual sobre o assunto.



A impossibilidade do SUS

 

O SUS (Sistema Único de Saúde) brasileiro é uma grande utopia que já dura mais de 16 anos.

Nosso sistema de saúde é baseado em vários princípios básicos, sendo dois deles fundamentais: o da universalidade e o da integralidade.

O princípio da universalidade prega que todo e qualquer cidadão brasileiro tem direito de acesso gratuito à saúde e o princípio da integralidade diz que esse acesso deve ser irrestrito desde a consulta médica mais simples, até o exame diagnóstico mais elaborado e o tratamento mais complexo e caro disponível.

Tais princípios - e vou me ater somente a eles pois já provam meu ponto de vista - são bloqueados por alguns aspectos que discutirei agora.

O primeiro deles diz respeito à distribuição dos médicos pelos diferentes espaços do país. Todos sabemos que há médicos de todas especialidades sobrando nos grandes centros ao mesmo tempo em que há carência em muitas cidades do interior ou zonas rurais, causando o "fenômeno da multiplicação de ambulâncias e vans", no qual grande parte da verba de um dado município é destinada não a programas de assistência à saúde no próprio município mas na compra e manutenção de veículos e serviços de assistência social para organizar o transporte de enfermos para cidades vizinhas (o que é muito mais barato) - sobrecarregando assim a rede pública do outro município.

O segundo aspecto diz respeito a este mesmo assunto: há insuficiência de leitos em hospitais de assitência secundária e terciária à saúde em praticamente todas as capitais, sem citar leitos de Unidades de Tratamento Intensivo adultos, infantis e neonatais.

Devido a essa mesma falta de especialistas nos locais afastados dos grandes centros foi criado um sistema de encaminhamento onde o paciente da Unidade de Saúde periférica é encaminhado, através de um gerenciamento centralizado das consultas, para consultar nos locais onde existem estes profissionais. A questão permanece: pela insuficiência de profissionais contratados - ou pela grande demanda, você quem escolhe o ponto de vista - acabam agendando consultas com espera de 6 meses ou mais para várias especialidades.

Existe ainda outra questão fundamental que devemos abordar: a insuficiência do dinheiro destinado à saúde.

Ano após ano os custos com despesas de saúde aumentam, quer seja pelo surgimento de novas tecnologias e métodos que se tornam necessários para o melhor diagnóstico das enfermidades ( e que não substituem e toa somente acrescentam ônus aos exames anteriores ) quer seja pelo custo dos tratamentos com novos fármacos que já surgem com preços exorbitantes para compensar os custos da pesquisa farmacêutica.

Nem mesmo grandes potências e países considerados desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e França conseguem manter um sistema de saúde público universal e integralmente gratuito. Não há disposição humana nem condições financeiras para sua manutenção.

A gratuidade do Sistema Único de Saúde Brasileiro (SUS) está com seus dias contados. O que falta? Iniciativa para mudar uma situação que já beira o insustentável.

Não existem bolsos públicos do tamanho necessário para manter a UNIVERSALIDADE e a INTEGRALIDADE que constituem o cerne do SUS.

A solução que se apresenta seria a de cobrar pela utilização da rede pública de saúde, desde a consulta médica, odonto ou psicológica, até os exames diagnósticos ou tratamentos oferecidos.

Tal ônus seria proporcional à condição econômica do favorecido e se daria até mesmo àqueles sem as mínimas condições de pagar qualquer centavo. Ficariam isentos de custo tão somente as atividades de prevenção primária à saúde, tão negligenciadas atualmente por profissionais e mesmo pacientes ¿ e maiores responsáveis pela diminuição da incidência de enfermidades.

Dia desses estava conversando com um amigo sobre o SUS. Desde os idos da década de 80 que essa utopia tenta se estabelecer. Sem sucesso. Aparentemente, cada vez mais aumenta a tecnologia necessária para o bem tratar do paciente, pois nossos incansáveis cientistas descobrem mais e mais formas de descobrir antes, ver melhor e também tratar mais adequadamente as doenças. Não é preciso dizer que toda essa melhoria que cresce vertiginosamente tem um custo. Que também cresce vertiginosamente! Fora dos parâmetros possíveis de serem abarcados por um sistema de saúde que busca ser universal (para todo e qualquer cidadão brasileiro), integral (da mais simples consulta médica e do pedido de hemograma até o mais elaborado PET scan ou angioressonância disponíveis) e gratuito.

Se a tecnologia não pára de se desenvolver, a qualidade da saúde possível de ser oferecida também não, e, ora, os custos acompanham este acréscimo de qualidade, nada mais justo do que pagar por todo esse novo conhecimento! É utópico, atualmente, conceber um sistema público de saúde que seja responsável por todo e qualquer gasto de toda a população de um país do tamanho do Brasil!

A proliferação da busca por planos privados de saúde é somente um dos sinais dessa insuficiência. Mas como então podemos resolver o problema desta saúde que anda tão capenga?

Em primeiro lugar, toda e qualquer consulta deveria ter um valor, um custo para o paciente, mesmo que simbólico. Isso evitaria, entre outras coisas, o que ocorre todos os dias em nosso sistema de saúde: consultas por frivolidades, ocupando a vez de quem realmente necessita; marcações desenfreadas para todo e qualquer tipo de especialista sem a devida avaliação ( o paciente só buscaria auxílio se realmente estivesse necessitando (sabemos que hoje não é assim) e assim por diante. O mesmo valeria para exames. Hoje, como os exames não são pagos, boa parte das pessoas nem se interessa por saber qual exame está sendo realizado. Vai consultar no clínico no Posto de Saúde em fevereiro e este lhe pede um hemograma, glicose, colesterol e triglicerídeos. Como estava com dor no peito, pede encaminhamento ao cardiologista, no Hospital A, que lhe pede uma glicose, colesterol e triglicerídeos, além de um eletrocardiograma. O paciente leva os exames ao clínico que diagnostica diabete e encaminha o paciente ao Endocrinologista. Chegando ao Endócrino no Hospital B, este solicita uma glicose, colesterol, triglicerídeos, já que o paciente não lembrou de trazer os exames nem sabe direito por que está consultando com aquele médico. Isso acontece TODOS os dias, acreditem! TODOS os dias!!!

Claro que um sistema informatizado integrado poderia resolver este último problema, mas mesmo assim, não há dinheiro público suficiente para açambarcar toda saúde da nação. Aí você vai dizer: e se o Zé Ninguém, pobre de marré de si, que mora na Rua do Sobe e Desce, número que não aparece, que não tem onde cair morto acaba caindo na Emergência do Hospital, vomitando sangue pelas orelhas depois de ter tomado todas e mais algumas, o que fazer? Cobrar como dessa figura? Tiramos-lhe as calças cagadas? De forma alguma! Este paciente precisa ser realmente ajudado! Seu problema é principalmente social. A este, se o Estado não ajudar, a morte vai logo logo pegar. Este pode ser supervisionado por uma equipe de médicos comunitários, auxiliado por uma assistente social e, inclusive, pensar em pagar seu atendimento com algum serviço voluntário. Pôxa, mas ele não tem dinheiro nem pra cachaça quanto mais pra pensar em fazer serviço voluntário! Aí é que você se engana! Para quem não ganha migalha, um serviço "voluntário" que ofereça residência temporária, alimentação e vestimenta é uma "baita mão na roda". Mas o que você está dizendo: o mendigo bebum vai trabalhar pro governo? É isso aí que estou dizendo!!! O cara morava na rua, bebia até vomitar o fígado. Agora ele vai pra uma casa comunitária mantida pelo governo, vai ter uma assistente social lhe ajudando, orientação e supervisão de uma equipe composta por, no mínimo alguns médicos comunitários, psicólogos e voluntários e vai ser, ele mesmo, um voluntário. Pode ajudar a limpar os parques da cidade, pode ajudar na cozinha da casa comunitária, pode ajudar- depois da barba feita e de uma orientação - a cuidar de crianças em uma creche comunitária. Utopia? Menor do que a de um sistema público universal integral e gratuito de saúde pública!

A idéia é essa. Todos temos que colaborar com o Sistema Único de Saúde para que ele realmente possa beneficiar a todos, integralmente e de forma verdadeiramente efetiva. Não devemos ter vergonha em aceitar que não estamos ainda prontos para realizar nosso sonho. A idéia do SUS continua sendo, em essência, fenomenal e única. O momento, infelizmente, ainda não chegou. Hora de retroceder para ganhar fôlego. Só assim sairemos deste buraco que estamos nos enfiando e nos aproximaremos do conceito de saúde pregado pela Organização Mundial da Saúde: "Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade". . Até lá!



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Sociedade - Saúde da Sociedade


O plano é reproduzir em Araranguá o Plano das Bicicletas Brancas, desenvolvido originalmente por Luud Schimmelpennink em 1964, em Amsterdam. A ideia de Ludd era distribuir 20 mil bicicletas pela cidade para melhorar o trânsito caótico da cidade holandesa, mas isso foi negado pelas autoridades. Não se dando por vencido, Ludd e seus parceiros do coletivo PROVOS pintaram 50 bicicletas de branco e as distribuiram pela cidade, e qualquer pessoa poderia pegá-la, utilizá-las e depois devolvê-las.

Nossa ideia é fazer o mesmo, distribuindo uma série de 50 bicicletas que receberíamos a partir de doações e, sob os cuidados da rede Coolmeia, Ideias em Cooperação, e com apoio da iniciativa privada, comércio e indústria da cidade, reformaremos estas bicicletas pintando-as de violeta. Ao mesmo tempo, realizaremos uma campanha educativa em nosso município, mostrando que é possível experienciar situações em que os objetos de uso diário podem ser bens comuns, podem ser de todos e de ninguém ao mesmo tempo.

Este projeto traz consigo uma série de benefícios, tanto para os cidadãos araranguaenses quanto para a cidade como um todo:

1. Melhora da saúde do cidadão:

- diretamente, pela atividade física (atividade física científicamente reduz os níveis de colesterol, triglicerídeos, pressão alta, diabetes e o índice de doenças cardiovasculares como infartos e derrames, por exemplo.), além de reduzir a recorrência de depressão;

- indiretamente, pela redução da poluição ambiental que acontece quando se utiliza menos o automóvel como meio de transporte e mais um veículo de mobilidade auto-propelida como a bicicleta

2. Economia para os cofres públicos

Imagina-se que estimular o uso de bicicletas pode gerar uma economia gigantesca com gastos na área da saúde. Estima-se que para cada 1 real gasto em mudar o hábito dos cidadãos de uma transporte motorizado para um cicloativado, se economizariam 280 reais em gastos de saúde, desde medicamentos até internações hospitalares e dias ausentes do trabalho. (Na França, o governo está lançando o Plano Nacional da bicicleta, e vai subsidiar as empresas cujos funcionários vierem trabalhar de bicicleta. Cada funcionário ganhará 21 centavos de euro por km rodado. Foi calculado um gasto de 20 milhões no subsídio e uma economia de 5,6 bilhões em gastos na área da saúde - http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/27/sociedad/1388172257_849294.html )

Neste momento, precisamos reunir a sociedade civil para nos ajudar com as seguintes necessidades:

1 - 50 bicicletas, novas ou usadas, em bom estado de funcionamento

2 - Uma ou mais pessoas com entendimento em conserto e reforma de bicicletas

3 - Uma ou mais pessoas com conhecimento em pintura de bicicletas

4 - Tintas específicas para pintura de bicicletas + pintura dos raios + lateral dos pneus

5 - Auxílio na divulgação do projeto, em todas suas etapas, desde a inicial (de captação de recursos) até a etapa de lançamento e manutenção da ideia

5.1 - design gráfico de material de divulgação para as campanhas 

5.2 - criação de um hotsite para informar sobre O Plano

5.3 - criação de um spot de áudio para divulgar O Plano

5.4 - criação de um vídeo informativo sobre O Plano

6 - Comunicação aos poderes governamentais

7 - Bicicletas às ruas

8 - Registro na forma de um documentário sobre todo o processo (opcional)

Nosso cronograma é o seguinte:

Janeiro a Março de 2014 - itens 1, 2, 3 e 4

Fevereiro a Abril de 2014 - itens 5 e 6

Maio em diante - item 7

(o documentário poderá ocorrer durante todo o processo - serão registradas imagens em fotos, vídeos e registros de áudio e textos da imprensa local)

Um pequeno auxílio financeiro também é muito bem-vindo, para ajudar a cobrir os custos de alimentação das reuniões e mutirões para pintura e consertos das bicicletas, para compra de pães, frutas, geléias e café. Todos os valores doados serão tornados públicos de forma a manter a transparência d'O Plano das Bicicletas Violetas.

Agora é com você: com o que te sentes chamado a ajudar?

 

Assinam: membros do Favo Araranguá da Coolmeia, Ideias em Cooperação

 

(artigo original em http://net.coolmeia.org/pages/view/17757/o-plano-das-bicicletas-violetas-qual-e-o-plano

faça parte do grupo de trabalho do projeto em http://net.coolmeia.org/groups/profile/17314/o-plano-das-bicicletas-violetas



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Coolmeia - Ideias


Está no ar um grande sensação de que tem algo sobrando e, ao mesmo tempo, tem algo faltando. A cada dia, mais e mais pessoas estão deixando de morder o anzol da máquina publicitária, que vende como ideal uma vida repleta de posses, pautada por um consumo infinito que, ao mesmo tempo, consome todo o nosso dia. Exemplos advindos dos quatro cantos do mundo mostram como é possível construir uma vida mais significativa, baseada em laços de solidariedade, apoio mútuo, confiança, empatia e gratidão.

Estamos progressivamente mais antenados com as vantagens mas também com as limitações que uma vida altamente tecnológica nos impõe. Ao mesmo tempo, temos nossas distâncias encurtadas, toda comunicação acontece de forma extremamente rápida. O mundo em uma casca de noz. Ao mesmo tempo, a hiperinformação nos deixa mais confusos e estabanados do que nunca. Não sabemos como processar tantos dados e estímulos. Estamos sofrendo de fadiga de escolha. Todas as escolhas que aqueles que dizem nos governar tem sistematicamente feito, não tem ajudado a reduzir a injustiça, a violência, a opressão e a desigualdade e, em alguns casos, tem feito aumentar. A percepção deste "abandono" por parte das instituições oficiais, que estão mais preocupadas em se autogovernar e se autossustentar do que prover as necessidades - mesmo as básicas - à população que outrora nelas confiava, tem gerado uma "corrida às montanhas", uma busca de alternativas por parte de um grupo de pessoas que não irá esperar o barco afundar para depois telefonar de seu micoPhone encomendando um par de salva-vidas furado da China.

Estas pessoas estão se organizando em coletivos, movimentos, redes e grupos de afinidades através das planícies, colinas e urbes. Estão decididamente criando novas-velhas formas de se relacionar, baseadas em uma série de princípios libertários, que negam a opressão, a dominação e a hierarquia para fundar uma nova base, horizontal, colaborativa, empática e entremeada pela confiança mútua, há muito perdida na sociedade contemporânea. Este retorno a práticas ancestrais precisa ser celebrado.

Junte-se a nós no Solar das Lagartixas para um jantar e potluck comunal. No dia 22 de janeiro iremos cozinhar um jantar vegano simples, mas encorajamos outros a trazerem coisas para comer: frutas, vegetais para cozinhar ou comer crus, pães e queijos, vinhos e sucos, sobremesas ou o que desejar.

-- Será um momento para compartilhar alguns momentos juntos, fora dos espaços nos quais nos encontramos sempre instrumentalizando, profissionalizando e racionalizando nosso tempo, relações, decisões e vidas.

-- Um tempo para comer, falar, encontrar uma o outro, para diretamente se contrapor à fragmentação social, individualismo e solidão que vemos em qualquer lugar para o qual olhamos.

-- Para nos mover em direção a nos sustentarmos coletivamente fora das nossas relações individuais com o mercado e o estado; para conquistar uma maior autonomia material coletivamente Isso significa iniciar e prosseguir com uma série de práticas e relações; ser consistente e confiável; estabelecer uma fundação forte para uma nova forma de vida. Isso é parte de uma estratégia para resistir ao que nossas vidas se tornarão se não nos organizarmos.

Nós queremos uma política que leve a sério nossa prória realidade como base para a auto-organização. Uma política que reconheça que se organizar coletivamente ao redor das nossas necessidades com amigos, camaradas, amantes, vizinhos, colegas de trabalho e membros da família se tornará a base para as nossas comunas. Nossa habilidade de sobrepujar a degradação trazida pela atual crise social, política, econômica e ambiental se dá na medida da nossa capacidade para sermos solidários e do nosso desejo em estarmos auto-organizados.

Em 2014, mostraremos que nossa capacidade de comunicação e articulação está mais vicejante do que nunca. E é só o começo.

22 de janeiro de 2014, 20 horas 
Solar das Lagartixas
Rua Sergipe, 339
Jardim das Avenidas
Araranguá - SC
(Sacola mágica estará recebendo contribuições espontâneas para a Coolmeia)

Ou em qualquer local e horário perto de você. Inspire-se: conspire!
 

Referências:

Referências:

1. Inspiração para convite: jantar de solstício do The Base, NY - dezembro de 2013
2. BAUWENS, M. - Reestruturando a economia com a empatia em seu centro 
- bclog.p2pfoundation.net/restructuring-the-economy-with-empathy-as-its-center/2013/12/29
3. Center for Building a Culture of Empathy - http://cultureofempathy.com/


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Efervescências - Quase Filosofia


Capítulo 4 - Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular

     "A ação direta obtém os resultados", proclamaram os Trabalhadores Industriais do Mundo há quase um século atrás. Ocupar as ruas e demonstrar poder em resistir de uma forma que os modelos para uma boa sociedade visionaram: uma forma verdadeiramente democrática.

     Mas é realmente assim que a democracia se parece?

     O impulso de "retomar as ruas" é compreensível. Ao início do capitalismo industrial, suas maquinações eram relativamente visíveis. Veja os Cercamentos. Áreas de pasto que eram usadas de forma comunal por séculos para prover aos vilarejos seu sustento foram sistematicamente cercadas de forma a pastorear ovelhas, cuja lã era necessária à indústria têxtil de burguesia. A vida comunal foi rispidamente jogada para o lado em favor da privatização, forçando as pessoas para desagradáveis fábricas em cidades abarrotadas.

     O capitalismo avançado, à medida em que se expande para além dos grilhões dos estados-nação em sua insaciável jornada pelo crescimento, enclausura a vida de uma forma muito mais expansiva mas geralmente invisível: as cercas são substituídas por uma cultura de consumo. Nós crescemos em um mundo quase totalmente comodificado, no qual nada vem de graça, mesmo tentativas fúteis de remover a si mesmo da economia de mercado. Essa comodificação infiltra-se não somente no que comemos, vestimos ou fazemos por prazer mas também em nossa linguagem, relações e mesmo em nossa própria biologia e mente. Nós não perdemos somente nossas comunidades e espaços públicos mas o controle sobre nossas próprias vidas; nós perdemos a habilidade de definir a nós mesmos fora da compreensão capitalista, e assim o próprio significado genuíno começa a se dissolver.

     Fechar temporariamente as ruas durante uma ação direta oferece espaços momentâneos nos quais praticar um processo democrático, e mesmo oferece um senso de empoderamento, mas tais eventos deixam o poder pelo próprio poder bem como o próprio pavimento embaixo de nossos pés, inalterado. Apenas quando uma série de protestos é escalado até formar uma luta pelo poder popular ou horizontal que poderemos criar rachaduras neste concreto figurativo, abrindo assim caminhos para desafiar o capitalismo, os estados-nação e outros sistemas de dominação.

     Nós não estamos jogando a ideia de uma sociedade boa para um futuro distante, mas tentando escavar espaço para ela aqui e agora, embora de forma dificultosa e contorcida pela ordem social vigente. Como agimos agora é como queremos que os outros comecem a agir, também. Nós tentamos modelar uma noção de bondade mesmo à medida em que estamos lutando por ela.

     Isso pode ser visto de forma implícita nos grupos de afinidade e estruturas de "conselhos de falantes" (spokescounsils) para a tomada de decisão e ações diretas. Ambos oferecem os espaços necessários no qual nos instrumentalizarmos para a democracia direta. Neles, podemos no melhor dos casos, proativamente definir a agenda, cuidadosamente deliberar juntos acerca de variadas questões, e chegar a decisões que tentar tomar em conta as necessidades e desejos de todos. Uma discussão substancial substitui o voto em urnas; a participação cara a cara substitui a entrega de nossas vidas a representantes; soluções graduadas e arrazoadas substituem aquelas grosseiras e tomadas por duas ou três pessoas. O processo democrático utilizado durante as demonstrações descentraliza o poder mesmo enquanto oferece uma solidariedade tangível; por exemplo, os grupos de afinidade concedem  a uma maior e mais diverso número de pessoas uma real parcela do processo de decisão, enquanto os "conselhos de falantes" permitem uma coordenação intrincada - mesmo ao nível global. Isso é, como os ativistas da década de 60 colocaram, o poder de criar ao invés de destruir.

     A beleza do movimento de ação direta é que ele esforça-se para realizar seus próprios ideais de coração. Em fazer isso, ele talvez, até de forma involuntária, criou a demanda por estas práticas de democracia direta em uma forma mais permanente. Contudo a perplexa questão subjacente à "democracia episódica das ruas" continua sem resposta: Como podem todos reunir-se para tomar decisões que afetam a sociedade como um todo de uma forma participativa, mutualística e ética? Em outras palavras, como pode cada um de nós - não apenas a contracultura ou um movimento de protesto - realmente transformar e em última instância controlar nossas próprias vidas e a de nossas comunidades?

     Essa é, em essência, a questão do poder - quem o possui, como ele é usado e com que finalidade. Em vários graus, todos nós sabemos a resposta em relação as atuais instituições e sistemas. Nós geralmente explicamos sobre o que somos contra. Isso é exatamente o porque de estarmos protestando, quer seja contra o capitalismo ou a mudança climática, cúpulas de nações ou econômicas ou guerras. No que temos amplamente falhado em articular entretanto, é algum tipo de resposta em relação aos sistemas e instituições liberatórias. Nós freqüentemente não conseguimos expressar, especialmente em nenhuma forma coerente e utópica, ao que somos favoráveis. Mesmo à medida em que prefiguramos uma forma de fazer o poder horizontal, equânime e, como conseqüência, esperançosamente parte de uma sociedade livre, nós ignoramos a visão reconstrutiva que o processo democraticamente direto exibe bem na frente dos nossos narizes.

     Para todos os intentos e propósitos, os protestos de ação direta permanecem presos. Por um lado, eles revelam e confrontam a dominação e a exploração. A pressão política exercida por tal agitação disseminada pode até ser capaz de influenciar as atuais estruturas de poder a reformar alguns dos piores excessos de seu modus operandi; os poderes existentes terão que escutar e responder, de alguma forma, quando as vozes se tornam muito numerosas e muito altas. Apesar disso, a maioria das pessoas ainda estão excluídas do processo de tomada de decisão e, conseqüentemente, tem pouco poder tangível sobre suas próprias vidas. Sem essa habilidade de se autogovernar, as ações nas ruas se traduzem em nada mais do que uma versão contracultural de um lobby de um grupo de interesse, mesmo que muito mais radical que a maioria e em geral não pago.

     O que se esquece em relação às mobilizações de ação direta é a promessa implícita em sua própria estrutura: de que o poder não apenas precisa ser contestado; ele deve também ser constituído "de novo" de uma forma igualitária e liberatória. Isso implica levar os processos de democracia direta a sério - não simplesmente como uma tática para organizar protestos mas como a própria forma de organizar a sociedade, especificamente a esfera política. A questão que então sobrevém: Como começamos a mudar a estratégia, estrutura e valores da ação direta das ruas para o mais básico nível de construção de políticas públicas?

     O nível mais fundamental de tomada de decisão é o grupo de afinidade. Aqui, nos reunimos como amigos ou devido a uma identidade em particular, ou uma combinação de ambos. Nós compartilhamos algo em particular; na verdade, essa identidade é freqüentemente refletida no nome que escolhemos para nossos grupos. Podemos nem sempre concordar em tudo uns com os outros, mas existe uma quantidade razoável de homogeneidade precisamente porque nós conscientemente escolhemos nos reunir por uma razão específica - usualmente tendo pouco a ver com mera geografia. Esse senso de identidade compartilhada permite um funcionamento  suave de um processo de tomada de decisão por consenso, já que partimos do um local de comunalidade. Em um grupo de afinidade, quase por definição, nossa unidade precisa ter precedência sobre nossa diversidade, ou nossa suposta afinidade se quebra por completo.

     Compare isso ao que pode ser o nível de tomada de decisão mais fundamental em uma sociedade: uma vizinhança ou um bairro. Agora, a geografia possui um papel muito maior. Em função de razões históricas, econômicas, culturais, religiosas e outras, nós podemos acabar morando lado a lado com uma ampla gama de indivíduos e suas várias identidades. A maioria dessas pessoas não são nossos amigos per se. Ainda, esta mesma diversidade que encontramos é a própria vida de uma cidade vibrante. Os acidentes e/ou numerosas decisões pessoais que nos uniram freqüentemente criam uma quantidade suficiente de heterogeneidade precisamente porque não escolhemos todos nos reunir por uma razão específica. Nesse contexto, o ponto do qual iniciamos é um de diferença, e os mecanismos de tomada de decisão precisam ser muito mais capazes de permitir a divergência; quer dizer, a diversidade necessita ser claramente retida dentro de qualquer noção de unidade. Como tal, os processos de tomada de decisão majoritários começam a fazer mais sentido. (???)

     Então, também, surge a questão da escala. É difícil imaginar ser amigo de centenas, ou mesmo milhares de pessoas, ou mesmo manter uma identidade única com tantos indivíduos. Mas podemos compartilhar um senso de comunidade e esforçar-nos em direção a um bem comum que permita a cada um de nós florescer. Por sua vez, quando números maiores de pessoas se reúnem cara a cara para remodelar suas vizinhanças e bairros, os assuntos e os pontos de vista se multiplicam, e as alianças sem dúvida mudam de acordo com o tópico específico que está sendo debatido. Por conseguinte a necessidade de um espaço no qual podemos nos encontrar como seres humanos ao nível mais cara a cara possível - qual seja, uma assembleia de seres politicamente ativos - para compartilhar nossas muitas identidades e interesses na esperança de harmonizá-los com os interesses da nossa comunidade em tudo que fizemos.

     Assim também, a confiança e a responsabilização funcionam de forma diferente nos grupos de afinidade e ao nível da sociedade civil. Nós geralmente revelamos mais de nós aos nossos amigos; e essas ligações não escritas de amor e afeição nos mantém mais juntos, ou pelo menos nos dão um ímpeto adicional para resolver as coisas. Por baixo disto existe um grau de confiança maior do que a média, que serve para nos tornar responsáveis um com o outro.

     Ao nível da comunidade, o reverso é mais freqüente: a responsabilização nos permite confiar um no outro. Esperançosamente, compartilhamos laços de solidariedade e respeito; mas desde que não podemos conhecer bem todos uns aos outros, tais vínculos apenas fazem sentido se nós primeiro os determinarmos juntos, e então os gravarmos, escrevermos, para que todos possam a eles se referir no futuro, e mesmo os revise se for necessário. Estruturas democráticas e responsáveis feitas por nós mesmos, provém as fundações para a confiança, desde que o poder de decidir é tanto transparente como continuadamente aberto ao escrutínio.

     Existem também questões relativas ao tempo e ao espaço. Os grupos de afinidade são geralmente configurações temporárias - eles podem durar alguns meses, ou alguns anos, mas geralmente não mais do que isso. Uma vez que a razão particular pela qual nos reunimos não é mais um imperativo imediato, ou à medida em que nossa amizade esmorece, tais grupos freqüentemente caem ao largo da estrada. E mesmo durante o tempo de vida de um grupo, no intervalo entre as ações diretas, não existe um local fixo ou regularidade, tampouco registro de quem decidiu o quê e quando. Além do mais, os grupos de afinidade não são abertos a todos mas apenas aqueles que compartilham uma identidade ou ligação específica. Desta forma, mesmo que um grupo de afinidade pode certamente decidir fechar uma rua, existe em certa instância algo levemente autoritário em pequenos grupos tomando os problemas em suas próprias mãos, não interessando qual sua persuasão política.

     Decidir o que fazer com as ruas em geral - digamos, como organizar o transporte, encorajar a vida das ruas, ou oferecer espaços verdes - deveria ser um assunto aberto a todos os interessados se é pra ser realmente participativo e não-hierárquico. Isso implica na existência de instituições abertas e diretamente democráticas, para tudo desde a tomada de decisões até a resolução de conflitos. Nós precisamos ser capazes de saber onde as assembleias populares estão se encontrando; nós precisamos nos encontrar regularmente e usar procedimentos não arbitrários; precisamos registrar quais decisões tem sido tomadas. Mas mais importante, se assim escolhermos, nós todos devemos ter acesso ao poder de discutir, deliberar e tomar decisões sobre as questões que afetam nossas comunidades e além.

     De fato, muitas decisões tem um impacto muito maior do que em apenas uma cidade; transformar as formas de transporte, por exemplo, poderia implicar uma coordenação a nível regional, continental ou mesmo global. Os radicais já muito entenderam tal confiança em si mesmo como uma "comuna de comunas", ou confederação. O modelo de "conselho de falantes" usado durante as ações diretas insinua tal visão alternativa da globalização. Durante um encontro de "conselho de falantes", delegados enviados pelos grupos de afinidade se reúnem com o propósito de coordenação, compartilhamento de recursos e habilidades, a construção de solidariedade e assim por diante, sempre retornando ao nível de base que tem o último arbítrio. Se as assembleias populares fossem nossa unidade básica de tomada de decisão, a confederação de comunidades poderia servir como uma forma de transcender o paroquialismo e criar a interdependência quando desejável. Por exemplo, ao invés de um capitalismo global e corpos regulatórios internacionais, no qual o comércio é gerenciado de cima para baixo e orientado pelo lucro, as confederações poderiam coordenar a distribuição entre as regiões de forma ecológica e humana, enquanto permitem que as políticas em relação à produção, por exemplo, permaneçam ao nível das comunidades.

     Os Zapatistas, a partir de 2001, provaram que as municipalidades podem esforçar-se para se tornar autônomas da máquina do estado e do capital, para colocar preocupações ecológicas e humanas em primeiro lugar, enquanto mantém ligações regionais e globais de solidariedade e apoio mútuo. "Esse método de governo autônomo não foi simplesmente inventado pelo EZLN (Exército Zapatista de Liberação Nacional), mas vem de vários séculos de resistência indígena e da própria experiência dos Zapatistas. É a auto-governança das comunidades. Em outras palavras, ninguém de fora chega para governar, mas as próprias pessoas decidem, entre elas, quem governa e como… E também, através das Juntas de Bom Governo, a coordenação melhorou entre as Municipalidades Autônomas".

     Outro exemplo recente foi o movimento de assembleias de vizinhança que eclodiu na Argentina em 2001-02 em resposta a uma crise econômica que simultaneamente deslegitimou a política parlamentar. No final do Dezembro de 2001, um senso crescente de desespero e falta de poder se combinaram para forçar as pessoas não apenas às ruas para protestar de forma barulhenta batendo em seus potes e panelas (e destruindo caixas 24h) mas também para um diálogo de empoderamento com seus vizinhos sobre o que fazer a seguir - ao nível local, nacional e global. Cerca de cinqüenta vizinhanças em Buenos Aires começaram a manter encontros semanais e enviar delegados todos os Domingos para o encontro de uma coordenação geral entre vizinhanças. O Conselho Local da Federação Libertária Argentina explica que as assembleias "eram formadas por desempregados, subempregados e pessoas marginalizadas e excluídas da sociedade capitalista: incluindo profissionais, trabalhadores, pequenos vendedores, artistas, artesãos e todos eles também vizinhos". Como a Federação Libertária notou, "Os encontros são abertos e qualquer um poderia participar", e comum a todas assembleias era a "não delegação do poder, o autogoverno, e uma estrutura horizontal". Enquanto as assembleias acabaram por não substituir a estrutura do estado, elas forneceram aos argentinos uma visão de sua própria capacidade de fazer políticas públicas coletivamente. "O medo em nossa sociedade se transformou em coragem".

     De fato, estes esforços inovadores, mesmo quando não chegam aos resultados esperados de transformação social, terminam inspirando outras tentativas. Na pior das hipóteses, estas frágeis mas espetacularmente belas experiências irão para sempre mudar aquelas pessoas que delas participam, para melhor, por auto-orientar uma nova geração de rebeldes através da prática vivenciada de constituir uma comunidade coletivamente. Elas irão oferecer o suporte moral e material, e servir como a continuidade entre outros esforços similares, em outras partes do mundo. E elas irão também servir como mensagens em uma garrafa para gerações futuras, dizendo que formas confederadas e diretamente democráticas de tomar decisões sociais, econômicas, políticas e culturais são uma alternativa tangível. Na melhor hipótese, entretanto, tais formas de liberdade irão se expandir até a formação de poderes duais que podem contestar e em última instância substituir as formas de dominação. Elas irão se tornar a base para uma nova política de auto-legislação, auto-governo e auto-julgamento, para sempre estilhaçando o gelado mundo dos estados, do capital e das prisões.
     
     Qualquer visão de uma sociedade livre, se for para ser verdadeiramente democrática, deve é claro ser trabalhada por todos nós - primeiro nos movimentos e, mais tarde, em nossas comunidades e federações. Mesmo assim, nós provavelmente descobriremos que entendimentos há pouco definidos do que significa ser uma pessoa politicamente engajada são necessários no lugar de grupos de afinidade; um híbrido entre a tomada de decisão por consenso e métodos de decisão por votação majoritária que esforçam-se em manter a diversidade são preferíveis ao consenso simples e modelos informais; acordos escritos articulando direitos e deveres são cruciais para preencher a cultura não verbalizada dos protestos; e espaços institucionalizados para a criação de políticas são chave em garantir que nossa liberdade para tomar decisões não desapareça na linha de choque da polícia.

     Chegou o tempo de ir além do caráter oposicionista da ação direta infundindo-a com uma visão reconstrutiva. Isso significa iniciar, agora, a traduzir as estruturas do movimento em instituições que corporifiquem a boa sociedade; em resumo, cultivar a democracia direta no local que chamamos de casa. Isso irá envolver o duro trabalho de revigorar ou iniciar encontros cívicos e públicos, encontros de bairro, assembleias de vizinhança, conselhos de mediação comunitária, todo e qualquer forum no qual podemos nos reunir e decidir nossas vidas, mesmo que apenas em estruturas extralegais inicialmente. Então, também, significará reinvindicar a globalização , não como uma nova fase do capitalismo, mas sua substituição por comunidades confederadas diretamente democráticas coordenadas para o benefício mútuo.

     Chegou o tempo de mover do protesto para a política, de fechar as ruas para abrir espaços públicos, de demandar restos daqueles poucos no poder para segurar este poder firmemente nas nossas mãos. Por fim, isso significa ir além da questão "Ruas de quem?". Devemos perguntar ao invés "Cidades de quem?". Então, e só então, seremos capazes de refazê-las como se realmente fossem nossas. E serão.

Epílogo - Caminhos para a Utopia

Caminhos nunca são linhas retas. Eles ziguezagueiam, sobem e descem colinas e vales. Eles chegam a becos sem fim. Mas quando colocamos nosso melhor pé adiante, podemos nos aventurar na direção da utopia, em direção a um mundo que venha de baixo, para todos e por todos.

Com grande cuidado encontramos pedras nas quais podemos pisar para os destinos mais maravilhosos. Então nos esforçamos para emendar paisagens inteiras de práticas não-hierárquicas. Chutamos os vidros quebrados do nosso caminho. Às vezes nos perdemos. Mas a passagem precária em si mesma é um mapa para uma sociedade liberadora.

Nos damos as mãos, desejando atravessar de novo. Quando a escuridão desce, construimos acampamentos de fogo a partir das fagulhas da possibilidade, e vemos outras chamas à distância.



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Anarquia e Escritos Libertários - Apontamentos Anarquistas

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rafael-reinehr160Rafael Reinehr é médico endocrinologista, mas seus olhos vasculham o horizonte em busca de soluções para criar um Mundo Melhor através de iniciativas como a Coolmeia, Ideias em Cooperação.

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