Monthly Archives: dezembro 2003

Dez 31

By rafaelreinehr | Uncategorized

2004 – A Odisséia do Fracasso

Odisséia, no Houaiss significa “longa perambulação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares”; “narração de viagem cheia de aventuras singulares e inesperadas”; “travessia ou investigação de caráter intelectual ou espiritual” – além de descrever, é claro, uma passagem de Ulisses na Odisséia de Homero, onde são apresentados os percalços do herói em seu retorno para Ítaca, sua terra natal.

Fracasso, no mesmo amansa-burro, significa “som estrepitoso provocado pela queda ou destroçamento de algo; barulho; estrondo“; “falta de êxito; malogro; derrota; baque; ruína; desgraça“.

Colocando tudo isto no nosso poderoso liqüidificador UltronMegaMixer 2004 ExtraPlus, podemos definir nosso título como uma tentativa de descrever, de forma singular e surpreendente as possíveis desgraças e malogros aos quais a humanidade estará sujeita no ano que adentramos.

Tarefa difícil para um mero Zé-ninguém como eu, diria Wilhelm Reich.

Tentando sair da inércia básica a que estamos acostumados, começo minha inglória tarefa. Decido principiar pela minha terra-pátria, o Brasil. Em concorde com o que por aí é dito, este que aqui vos fala também percebe o ano de 2004 como uma “chance aos homens de bem mostrarem seu valor”. Neste ano, nosso excelentíssimo Presidente da República, senhor Luis Inácio Lula da Silva, não deu conta nem sequer de se aproximar daquilo que nos havia induzido a imaginar. Mas, como por ele mesmo dito – de outra forma, é claro – está sendo preparado o terreno para o crescimento. Dê-se-lhe o tempo que é necessário. A traição aos princípios, teimo em acreditar, é esperteza para com o ambiente ardil e não uma traição verdadeira. Não esteja eu enganado, por favor.

Neste mesmo Brasil, surgirá uma intrépida trupe de valorosos cavaleiros afeitos às letras que buscará, de todo coração, através da união em torno de uma maravilhosa ferramenta ora denominada de Internet, através de seus blógues – e fora deles – organizar de forma crescente e importante o estímulo à leitura por parte daqueles menos favorecidos ou menos atentos às necessidades que se lhes impõe. A redescoberta da leitura por parte da população nativa se dará através de mecanismos não governamentais – e quisera eu também governamentais – como a organização de oficinas literárias gerenciadas por voluntários e pessoas de renome na área literária bem como a proliferação de Saraus Literários pelas capitais e cidades do país. Nesses Saraus novos escritores serão conhecidos, pois neles será dado amplo espaço para a leitura em público de trechos de suas obras ou mesmo trechos de clássicos da literatura. Um dos primeiros Saraus desse tipo – e com este objetivo – ouvem-se rumores, já está a ser arquitetado em Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul. A partir daí uma grande rede de comunicação usando a teia mundial irá disseminar mais e mais esta paradoxal “utopia possível”.

Nos Estados Unidos da América, o atual presidente “não-eleito” George W. Bush, a despeito do que teimam pensar seus partidários (ainda mais após a prisão de Saddam Hussein), terá grandes dificuldades em se reeleger. Minhas apostas são contrárias à sua reeleição.

No lado iraquiano, com seu estado destroçado, muitas mortes ainda ocorrerão até que o sistema judiciário e de controle da violência, vinculados às ferramentas estatais de comando sejam reestabelecidas. Muita fome e miséria, muito sofrimento é previsto. Para tal conclusão não é preciso ser nenhum gênio… Creio que mesmo Forrest Gump chegaria à mesma conclusão.

A China, potência em potencial ainda não desabrochará completamente. Apesar de toda sua energia humana capaz de gerar um produto interno bruto fenomenal, haverá dois principais aspectos a restringir seu crescimento: o controle por parte dos Estados Unidos e dos países da Comunidade Européia e, principalmente, sua restrição energética, que está quase alcançando o limite da produção naquele país.

A Nova Zelândia, infelizmente, não produzirá em suas terras nenhuma grande trilogia que impressionará o mundo inteiro em 2004.

No mundo blogueiro, haverá uma maior comunicação entre blogueiros brasileiros e portugueses, intensificando-se os laços em torno da “última flor do Lácio”. As interconexões entre estes dois mundos serão poderosamente frutíferas e benéficas para ambos lados.

Bem, acho que por enquanto me dou por satisfeito em minhas previsões para 2004. Mas… Esperemos aí… Eu não havia dito que ia falar sobre a Odisséia do Fracasso? E onde se encontra o tombo, a ruína, a derrota tão grande nestas previsões? Bem, a derrota, caro amigo leitor, será minha caso você não tenha chegado até esta linha.

Um 2004 fulgurante, resplandescente, espetacular, frondoso, brilhante, fantástico, maravilhoso, genial, belo, justo, bom, verdadeiro, pacífico, feliz, saudável, amoroso, cândido, solidário, endinheirado, sapiente, espiritualizado, artístico, literário, descansado, alimentado, musical, tranqüilo, colorido, estrondoso e iluminado para si e para os seus. São meus sinceros votos, de coração.

Abaixo transcrevo uma idéia desenvolvida inicialmente em 1995, texto iniciado no mesmo ano e concluído em 2001, publicado originalmente na edição número 3 do e-zine-sítio-blógue Simplicíssimo. Há, com certeza, muito a desenvolver nesta embrião-idéia e creio mesmo que nestes mais de 8 anos entre o surgimento do broto-idéia e os dias de hoje, muito foi construído em torno desta mesma concepção, isoladamente, em vários locais e tempos, mas nada sobreviveu à força do tempo e do mercado capitalista e seus meios de regulação. Mas, mesmo assim, vale o grito: Viva o escambo!

A Grande Cooperativa Mundial

Um dia pensei: nossa, com tantas pessoas neste planeta, a maioria delas com algum tempo por dia para pensar, outras com muito tempo para pensar… Mas pensar em quê, você dirá! Ora, pensar em soluções para nossos problemas. Aí surgem novos problemas (como sempre!!!): quais são os nossos problemas? Quem é capaz de identificar esses problemas? E que significa nossos? Bem acho que essas questões são ao mesmo tempo fáceis e difíceis de responder (a isso chamamos de paradoxo). Difíceis porque cada pessoa pode ter para si uma noção do que está lhe incomodando em sua vida e em suas relações com os demais, o que está lhe faltando para atingir a felicidade, quais são os valores e bens que mais lhe dão prazer e interessam. Cada um de nós se indagado sobre quais os problemas que afligem a humanidade atualmente iria responder ao menos algum dos seguintes: fome, guerra, falta de amor, desesperança, ganância, tristeza, incompreensão, egoísmo, violência, agressão à Natureza, poluição, barulho, incomunicabilidade entre semelhantes, invasão de privacidade, transportes caóticos, falta de energia, bens materiais excessivamente caros, assim como mão-de-obra ou muito cara ou de má qualidade, perda de valores morais e éticos, analfabetismo, carência de cultura, falta de inteligência por parte dos governantes, insatisfação sexual, tecnologização e desumanização progressivas e excessivas, desarmonia, injustiças dos mais variados tipos, barbárie e canibalização social, intolerância, falta de afeto, fraternidade e compaixão, falta de tempo e escuridão da alma humana. Fáceis porquê todos estamos carecas ou cabeludos de saber (ou pelo menos deveríamos ter essa consciência!) que para que os problemas do nosso microcosmo (pessoal, familiar, social estrito) sejam resolvidos satisfatoriamente, deixando-nos felizes, devemos colaborar e resolver os problemas do nosso macrocosmo (social amplo, a comunidade que habita este planeta como um todo). Dessa forma, se eu não quiser ter meu carro roubado ou não quiser dar dinheiro para o cara que vai ficar “cuidando” do meu carro não roubá-lo ou destruí-lo, ou, de outro modo, não quiser trair meus próprios princípios e minha namorada/esposa ao mesmo tempo (importante lembrar que a traição de uma esposa se aplica no nosso contexto social, pois existem culturas poligâmicas onde notáveis diferenças existem!), temos que pensar em resolver todos os problemas citados acima e mais alguns. É bom ressaltar que todas essas falhas da nossa atual sociedade humana são gerais, dizendo respeito a todos nós e cabe a nós como um todo ajudarmos a solucioná-la. Tá, e aí, você vai dizer. Não falou nada de novo! Tá parecendo aqueles livros de auto-ajuda, que só dizem coisas que todos sabemos mas que precisamos ouvir para nos estimularmos. Bom, eu estou fazendo a minha parte. Agora mesmo escrevendo esse texto, tentando fazer com que você ACORDE, SE SENSIBILIZE, VISTA A CAMISETA, TENHA UMA VISÃO MAIS AMPLA E HUMANA, NÃO SE DEIXE LEVAR POR MAUS EXEMPLOS E CAMINHOS FÁCEIS MAS MORALMENTE ERRADOS!!! Além disso, tenho uma proposta maluca para fazer. Eu a chamei de “A Grande Cooperativa Mundial”. Um nome um pouco megalomaníaco por enquanto mas adequado se chegar a ser o que idealizei. Vou explicar o que ela é:

Pelo Mundo afora, existem pessoas necessitando serviços, materiais, espaço, objetos, enfim, “coisas” em geral. Ao mesmo tempo, neste mesmo Mundo, existem pessoas dispostas a oferecer serviços, materiais, espaços e objetos que não necessitam em dado momento, “coisas” essas que ficam inutilmente paradas em um canto qualquer, sem que ninguém o(a) esteja usando. Por que não catalogar tais bens (i)materiais associando-os ao seu valor na área onde são oferecidos e distribuí-los a quem os necessita, em troca de uma outra contribuição para a Cooperativa por parte do beneficiado? Nos dias de hoje, com o advento estruturação e, definidamente, da entrada profunda da Grande Rede (Teia) Mundial em nossas vidas e culturas, esse trabalho torna-se bastante facilitado, podendo haver rápida comunicação entre as diversas “filiais” da Cooperativa espalhadas pelo planeta. Cada serviço ou bem oferecido e usado, geraria um crédito para o fornecedor deste bem ou serviço, ao mesmo tempo que seria criado um débito para o usuário do bem ou serviço para com a Cooperativa (veja bem, e não para com o fornecedor). Penso que os créditos possam ser ilimitados, mas os débitos devem ser restringidos a uma quantia máxima, talvez determinada pela capacidade de oferecer bens e serviços ou então, igual para todos. Certamente tornar-se-ia necessário realizar um projeto piloto desta Cooperativa em alguma localidade específica, para somente então tentar disseminar a idéia em uma área mais ampla. A estruturação completa desse projeto passa por um longo período de planejamento com uma equipe multidisciplinar envolvendo pessoas capacitadas em áreas do conhecimento como Política, Economia, Sociologia, Filosofia, Relações Interpessoais, Informática, e, provavelmente de áreas como física, matemática e mais especificamente estatística. Veja bem, a princípio essa é uma idéia de uma atividade essencialmente civil, feita por pessoas comuns para pessoas comuns, sem envolver entidades governamentais, mas não haveria empecilho algum em haver participação ou mesmo regulação das atividades da Cooperativa por parte dos diferentes Estados. Aproveitando o ensejo e o tema do Fórum Social Mundial: “Grande Cooperativa Mundial, em busca de um Mundo Melhor, impossível agora, mas certamente possível amanhã”.

PRÓXIMOS PÔUSTS: “Das delícias de preparar um pôust”, “Depoimento pessoal: o fim da residência médica e a perspectiva que se abre” e “A impossibilidade do SUS”

Dez 25

By rafaelreinehr | Uncategorized

…(continuação do pôust de 20/12/2003)

O livro contra-ataca (parte II)

Sob o subtítulo de “nexo hipertextual”, Umberto Eco passa a tentar responder a segunda questão que ele mesmo havia formulado: “Os livros desaparecerão como objetos virtuais?“.

Para tanto, Eco considera o surgimento de textos em que a infinidade de interpretações não depende só do leitor mas também da “mobilidade física” do próprio texto. Creio que presenciamos isto a cada entrada na Internet, onde através de um línque somos remetidos a outro lugar e de lá a outro e assim por diante. Utilizando o exemplo dos blógues, acabamos construindo nosso próprio texto, único e pessoal. Ontem mesmo: entrei no blógue Liberal Libertário Libertino, li o pôust sobre Ateus e Crentes e de lá fui remetido ao blógue do Alexandre Soares Silva. Depois de ter lido o brilhante texto ali postado fui aos comentários e me interessei pelo que escreveu um digníssimo colega blogueiro denominado O Velho da Montanha. Cliquei no línque do comentário e fui catapultado para o blógue do Velho, cujo pôust de 22 de dezembro versava sobre o “fundamentalismo laico“. Assim, nesta seqüência que não pára nunca, criamos nossas próprias leituras de textos hipertextuais disponíveis ao clicar de um mouse. Acontece o mesmo com todos impacientes como eu que ainda se aventuram a tentar assistir algo na televisão aberta, que conseguem no máximo ficar zapeando entre um e outro canal em busca de algo interessante.

Umberto diferencia os sistemas de textos propriamente ditos. Para ele, sistema seria a totalidade das possibilidades apresentadas por uma dada língua natural. Gramáticas, dicionários e enciclopédias seriam sistemas, com os quais poderíamos produzir todos os textos que quisermos. Já um texto propriamente dito não é um sistema lingüístico ou enciclopédico. “Um texto dado reduz as possibilidades infinitas ou indefinidas de um sistema para criar um universo fechado. Se pronuncio a frase “nesta manhã, comi no desjejum…”, por exemplo, o dicionário me permite listar muitas unidades possíveis, contanto que todas elas sejam orgânicas. Mas, se eu produzo meu texto de forma definida e pronuncio a frase “nesta manhã, comi no desjejum pão e manteiga”, excluí o queijo, caviar, o pastrami e as maçãs. Um texto castra as possibilidades infinitas de um sistema”. Ainda deixamos de especificar se o pão era um pão francês, integral, de centeio, preto ou de linhaça, mas isto não vem ao caso, é somente meu devir criança invadindo uma conversa séria! Com certeza, a poesia, por não produzir um texto tão definido e fechado, freqüentemente possibilita múltiplas possibilidades de interpretação. Quando se consegue passar esta mesma percepção para a prosa, o painel que se descortina é fulgurante! É dado o exemplo de Finnegans Wake, de Joyce, obra aberta a numerosas interpretações, mas com certeza – diz Eco – o texto nunca dará uma demonstração do teorema de Fermat ou uma bibliografia completa de Woody Allen (com o que concordo!).

Para tornar um texto fisicamente ilimitado, Umberto lembra o exemplo atual de histórias criadas por múltiplos autores, quer seja seqüencialmente ou mesmo simultaneamente, com várias possibilidades de continuação seguindo-se a cada bifurcação determinada possibilitando incontáveis desfechos. Isso que escrevi agora me faz lembrar de Ilia Prigogyne, químico-físico russo que ganhou o prêmio Nobel de Física em 1976 se não me engano por seu estudo com estruturas dissipativas, baseado na segunda lei da Termodinâmica.

Em seu livro Order Out of Chaos ele faz um correlação entre suas pesquisas científicas e os sistemas sociais. É nesse momento, enquanto discute acaso e determinismo, que se encontra o gancho que me trouxe até aqui: para Prigogyne, o mundo não é nem todo somente acaso nem todo somente determinismo. Existem caminhos determinados até uma bifurcação. Quando chegamos nesta bifurcação, quem manda é o acaso (ou o livre arbítrio,

em se tratando de seres humanos).

Voltando a Umberto Eco, diz ele que estas histórias de múltiplos autores já ocorrera no passado,citando então a commedia dell’arte italiana em que, a partir de uma sinopse histórica, cada apresentação diferia das demais, conforme a imaginação dos atores, sendo que dessa forma não se identificava uma obra única, escrita por um autor único.

Outro exemplo citado pelo autor é uma sessão de jazz, onde o improviso e a possibilidade de múltiplos resultados para uma mesma “música” são classicamente aceitos. Sobre a questão do fim da autoria, Umberto acha que a produção destas histórias coletivas e infinitas por meio da Internet não acabarão com a literatura autoral. Diz ele: “A rigor, marchamos rumo a uma sociedade mais liberada, em que a criatividade livre vai coexistir com a interpretação de textos já escritos. Eu gosto disso. Mas não podemos dizer que substituímos uma coisa antiga por uma nova. Temos as duas.”.

Um último aspecto abordado pelo romancista e semiólogo italiano dentro da textualidade livre possibilitada pela Internet diz respeito às possíveis modificações que poderíamos facilmente fazer se tivéssemos os livros de forma interativa e hipertextual. Cita-se o exemplo de Guerra e Paz de Tolstói. Poderia-se criar um texto em que “Pierre Besuchov consegue matar Napoleão ou, conforme as tendências da pessoa, Napoleão consegue uma vitória completa contra o general Kutuzóv”, o que é impossível com o livro já escrito. O romance Guerra e Paz já escrito – diz Eco – não nos põe frente a frente com as possibilidades infinitas da nossa imaginação, mas sim com as leis severas que governam a vida e a morte.

Para concluir, o autor de “A Ilha do Dia Anterior” e “O Pêndulo de Foulcault” usa o livro “O Miseráveis” de Victor Hugo, onde a batalha de Waterloo é descrita do ponto de vista de Deus, que a acompanha em todos os detalhes, dominando o cenário com a sua perspectiva narrativa para encerrar com uma brilhante defesa a favor dos livros:

“A beleza trágica da Waterloo de Hugo reside em que os leitores sentem que as coisas se passam de forma independente de seus desejos. O encanto da literatura trágica reside em que sentimos que seus heróis poderiam ter escapado de seu destino, mas não o conseguem em razão de sua fraqueza, de seu orgulho, de sua cegueira. Além disso, Hugo nos diz: “Tamanha vertigem, tamanho engano, tamanha ruína, tamanha queda, que assombrou a história inteira, será algo sem uma causa? Não… O desaparecimento desse grande homem foi necessário para a vinda do novo século. Alguém, a quem ninguém pode fazer objeções, cuidou do evento… Deus omitiu-se, Dieu a passé”. Isso é o que todo grande livro nos diz, que Deus se omitiu, e Ele se omitiu para o crente e para o cético. Há livros que não podemos reescrever porque sua função é nos instruir acerca da necessidade e, só quando respeitados tal como são, podem eles nos fornecer tal sabedoria. Sua lição repressiva é indispensável para alcançarmos uma condição mais elevada de liberdade intelectual e moral.”

Digo muito obrigado por essa lição de humildade digníssimo Umberto Eco! Sigamos nosso misto de criação-transformação-recriação sempre em busca de algo melhor para todos que nos cercam.

Pôust Natalino

É Natal. Sei, sei… és agnóstico como eu, ateu ou mesmo um cristão que não tá nem aí com essa função toda. Ou, pelo contrário (e mais provavelmente) és alguém imerso plenamente nesta época de Natal (ou Hanukah). Pois é… Motivo pra comemorar não temos muito, mas, mesmo não acreditando mais no Natal, deixando o cristianismo de lado (e lá já se vão 9 anos, vivo e bem!) não consigo me tornar um ser estranho a toda esta festividade! Foram muitos anos com pinheirinhos enfeitados, canções de Natal, papais-noéis atirando balinhas na rua, visitas de papais-noéis entregando presentes em casa, muitos brinquedos (e muitas roupas (bléeeeeeeeeeeeeeeee!!!) é verdade!)… E, mais importante que tudo isso, o fato de que todos ao meu redor entram no “espírito natalino”. É namorada, mãe, vó, tia, colegas de trabalho, pessoas na rua… Difícil se desvencilhar! Como vou deixar de desejar um Feliz Natal àqueles que desejam isso para mim? Não dá! Então, acabo entrando junto na função, sem compartilhar a mesma crença mas compartilhando o desejo de um mundo melhor daqui por diante. Se não me baseio no aniversário de Jesus, pelo menos aceito o momento como um período de ¿reflexão espiritual¿;

– Reflexão espiritual? Agora consumismo mudou de nome? As pessoas só pensam em comprar, comprar, comprar! Isso é Natal?

Hmmmm… Deixa esse papo pra outra hora! O importante é ser feliz, “o importante é ser você, mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro”…

De qualquer forma, um Feliz Natal para aqueles que acreditam e também para aqueles que não acreditam! Para os crentes e para os céticos, como nos ensinou Victor Hugo, o melhor dos mundos é o agora e é o porvir. Desejos sinceros e vigorosos de um final de 2003 portentoso e exuberante.

Da freqüência ideal dos pôusts em um blógue

Já de cara quero dizer que não existe uma freqüência ideal para postar em um blógue.

Mas então, por que cargas d’água este título? Já explico: creio que a freqüência ideal dos pôusts de um blógue deve ser determinada por pelo menos 3 variáveis:

1. Tempo e disposição do blogador (fator limitante primário)

2. Tempo e disposição dos leitores do blógue (levando em conta que o blógue seja feito para alguém ler, é claro. Acredito que os blógues “não-públicos” devam ser grande minoria a esta altura…) – para que este fator tenha influência na freqüência da postagem, o blogador deveria conhecer muito bem seu público-alvo, seus leitores…

3. Tipo de assunto abordado (por exemplo: um blógue que trate de humor, pode ter pôusts diários, pois geralmente são assuntos de fácil digestão; o mesmo se pode dizer a respeito de um blógue com “rapidinhas” ou outro que narre as peripécias do dia-a-dia da figura escrevente. Já um blógue que se propõe a discutir temas mais densos ou extensos deveria (embora não necessariamente) se deter mais antes de apresentar um novo pôust, para que o anterior seja devidamente absorvido e internalizado pelos leitores.)

Outro aspecto que pode influir na freqüência da postagem de um blógue é o número de visitantes e/ou comentadores. No caso do blógue ser mais visitado e comentado, a freqüência das postagens pode ser maior, já que o efeito esperado (a resposta do leitor) já foi evidenciada. Em casos de blógues como esse que agora estais a ler, o tempo entre cada postagem necessariamente deve ser maior para possibilitar o alcance de cada pôust a um maior número de cabeças pensantes. Veja-se que o contrário não é verdadeiro, ou seja: um blógue com muitos acessos e comentários pode muito bem ter um longo intervalo entre os pôusts sem que isso prejudique de forma alguma seu desempenho ou aceitação!

Não acho – e ouso discordar de minha namorada – que só mantém um blógue uma pessoa que aspire “sucesso” com a exposição do mesmo, mas também acredito ser hipocrisia que alguém o mantenha, principalmente com um espaço destinado a comentários e um contador na página, sem ter a intenção de provocar uma resposta e angariar leitores, preferentemente um público fiel. Várias “campanhas de marquetching” como visitas repetidas a milhares de blógues, elogios enfadonhos porém exultantes e línques generosos em troca de outros línques podem fazer com que seu blógue seja visitado e comentado por dezenas ou centenas de pessoas mas isso não irá, de forma alguma, garantir a qualidade daqueles que te visitarão e muito menos a qualidade dos comentários deixados em seus pôusts (que acredito ser, consoante ao meu amigo Milton Ribeiro, a maior riqueza que podemos dispor nesta Blogosfera).

Assim, quer seja postemos diariamente, semanalmente ou a cada 6 e 5 dias alternados como eu farei aqui no Escrever Por Escrever por tempo (in)determinado (até 29 de fevereiro de 2004 pelo menos), o importante é saber que não é a freqüência da postagem que vai determinar o valor do blógue e sim o sincero sentimento de uma busca de utilidade para o mesmo e, é claro, a qualidade do escritor, aquela valiosa pecinha que fica atrás do teclado na longa cadeia de bits e impulsos elétricos que fazem destas maravilhas tecnológicas que são a informática e a internet uma janela para um mundo melhor.

PRÓXIMO PÔUST: “2004 – A Odisséia do Fracasso” e “A Grande Cooperativa Mundial”

Dez 20

By rafaelreinehr | Uncategorized

O livro contra-ataca

O texto aqui comentado foi publicado na Folha de São Paulo no dia 13 de dezembro de 2003 e é uma tradução de uma palestra proferida por Umberto Eco na Biblioteca de Alexandria, publicada originalmente no jornal egípcio Al Ahram.

Cena: século XV, após a invenção da imprensa. Livro: “Nossa Senhora de Paris“, de Victor Hugo. O padre Claude Frollo olha de forma tristonha para as torres de sua catedral. A catedral medieval na época era o referencial “destinado a transmitir às pessoas tudo o que era indispensável para a sua vida cotidiana, assim como para a sua salvação eterna”

Na cena descrita, Frollo tem sobre sua mesa um livro impresso e sussurra: “Ceci tuera cela” – isto vai matar aquilo ou “o livro vai matar a catedral”, “o alfabeto vai matar as imagens”. Isso significaria que o livro desviaria as pessoas de seus valores mais importantes, incentivaria informação supérflua, a livre interpretação das Escrituras sagradas, uma curiosidade insana.

Pulando para 1960, vemos Marshall McLuhan escrevendo “A Galáxia de Gutemberg“, afirmando que a maneira linear de pensar representada pela invenção da imprensa estava prestes a ser substituída por uma forma “mais global de percepção e compreensão, por meio de imagens de TV ou outros tipos de aparelho eletrônico”!

Durante sua palestra Eco pretende responder a duas perguntas:

1. Os livros desaparecerão como objetos físicos?

2. Os livros desaparecerão como objetos virtuais?

Respondendo à primeira pergunta, Umberto lembra que mesmo logo após a invenção da imprensa não era somente através dos livros que se poderia adquirir informação: haviam pinturas, imagens populares impressas, lições orais (peças teatrais) e assim por diante. Ele separa os livros em dois tipos: os que são para ler e os que são para consultar.

O primeiro tipo de livro, acredita, dificilmente será substituído pela simples expansão da “grande rede”. Seria aquele “livro de cabeceira”, que você começa na página um e segue em ordem até o fim, seguindo o roteiro, a trama, a história em sua seqüência natural. Já existem mídias como os e-books e até leitores eletrônicos portáteis para e-books mas os mesmos não emplacaram. Todos sabemos quão cansativa é realizar uma leitura direto da tela do computador e, geralmente, acabamos usando a impressora para colocar no papel textos muito extensos.

Quanto ao segundo tipo de leitura, a de consulta, representada por dicionários e enciclopédias principalmente, esse sim torna-se facilmente substituível pela mídia eletrônica e mais recentemente pela internet. Hoje já existem enciclopédias inteiras em um ou em poucos CDs e, melhor ainda, podemos formular complexas perguntas que podem ser respondidas em minutos sendo que antes necessitavam de consulta a vários volumes de uma enciclopédia ou mesmo a vários livros diferentes.

A necessidade de ter uma enciclopédia que muitos de nós sente (ou sentia) está cada vez menor nas novas gerações. Questões como custo e espaço físico – além da praticidade de transporte de um CD-ROM estão vencendo o gostoso cheiro do papel e sepultando definitivamente os livros de consulta impressa.

Umberto Eco também cita uma nova invenção prestes a ser explorada industrial e comercialmente: a impressão por encomenda (na qual o leitor, após fuçar nos catálogos de várias bibliotecas ou editoras, pode selecionar o livro desejado e mandar imprimir e encadernar um único exemplar usando a fonte escolhida.

Seguindo a leitura do texto, encontro duas passagem em que discordo do autor. A primeira, quando ele diz:

“…há numerosas criações tecnológicas que não tornaram obsoletas as anteriores. Carros correm mais do que bicicletas, mas não tornaram obsoletas as bicicletas, e nenhum aprimoramento tecnológico pode tomar uma bicicleta melhor do que foi antes”.

Contra-argumento afirmando que, e usando o mesmo exemplo dado, daquelas antigas bicicletas com a roda dianteira 20 vezes maior que a traseira até nossas modernas e estilosas “mountain-bikes” com freio a disco, câmbio de 24 marchas e amortecedor com pressão regulável houve uma grande melhoria, indubitavelmente (apesar de concordar que o conceito bicicleta não mudou – e nem poderia, pois do contrário bicicleta não mais seria!).

A segunda passagem de que discordo ocorre quando afirma-se que “…O computador cria novas modalidades de produção e difusão de documentos impressos. Para reler um texto e corrigi-lo, se não for apenas uma breve carta, é preciso imprimir, depois reler, em seguida corrigir no computador e reimprimi-lo. Não creio que alguém possa escrever um texto de centenas de páginas e corrigi-lo sem reimprimi-lo várias vezes”.

Com a primeira sentença concordo: o computador realmente ampliou a perspectiva de produção de papel impresso. Cada ser vivente com sua impressora, quer seja matricial, jato de tinta ou laser, tem sua própria gráfica expressa em casa. Discordo veementemente entretanto que seja necessário imprimir um texto para corrigi-lo. Inicialmente podemos usar os modernos corretores ortográficos para buscar palavras “nonsense” criadas por ignorância ou descuido ao teclar e, em um segundo momento podemos – e é o que faço – corrigir sentenças e palavras quanto à concordância, função e estilo na própria tela do computador, desde que não nos delonguemos por horas a fio nesta ingrata tarefa. Corrigir e reimprimir o texto várias vezes para mim é desperdício de tempo, dinheiro e árvores!

Puxa! Estou chegando somenrte à metade do que me propus escrever e o texto já está ficando muito grande. Já sei: vou continuar as seções subentituladas “nexo hipertextual“, “comedia dell’arte“, “ausência de autoria“, “chapeuzinho come o lobo” e “para salvar Napoleão” em uma “parte II” deste pôust. Do contrário, cansarei os olhos de quem está frente a esta colorida tela!

Quero agradecer aos primeiros visitantes deste “recém-rebento blógue” e compartilhar com vocês a felicidade de tê-los como amigos e cúmplices nesta grande viagem que é a teia mundial. Espero não decepcioná-los (muito) nesta trajetória, mesmo sabendo que é impossível agradar a todos (disse-me Deus em um lançamento de livro ou vernissage dia desses…).

Assim como meu amigo Cirillo, em seu blógue Simples Coisas da Vida referiu, em seu pôust do dia 18 de dezembro de 2003, não tomem seu tempo, incautos visitantes, para comentários do tipo “Oi! Gostei do seu blógue! Venha visitar o meu!”. Se tens algo interessante, original, criativo ou então um sentimento sincero, amigo ou crítica construtiva para registrar, tudo bem. Se não, nada de comentar por comentar no Escrever Por Escrever! Te liga bico, te liga bico de luz!

PRÓXIMOS PÔUSTS: “O livro contra-ataca (parte II)” , “Pôust Natalino” e “Da freqüência ideal dos pôusts em um blógue”.

Dez 20

By rafaelreinehr | Uncategorized

O livro contra-ataca

O texto aqui comentado foi publicado na Folha de São Paulo no dia 13 de dezembro de 2003 e é uma tradução de uma palestra proferida por Umberto Eco na Biblioteca de Alexandria, publicada originalmente no jornal egípcio Al Ahram.

Cena: século XV, após a invenção da imprensa. Livro: “Nossa Senhora de Paris“, de Victor Hugo. O padre Claude Frollo olha de forma tristonha para as torres de sua catedral. A catedral medieval na época era o referencial “destinado a transmitir às pessoas tudo o que era indispensável para a sua vida cotidiana, assim como para a sua salvação eterna”

Na cena descrita, Frollo tem sobre sua mesa um livro impresso e sussurra: “Ceci tuera cela” – isto vai matar aquilo ou “o livro vai matar a catedral”, “o alfabeto vai matar as imagens”. Isso significaria que o livro desviaria as pessoas de seus valores mais importantes, incentivaria informação supérflua, a livre interpretação das Escrituras sagradas, uma curiosidade insana.

Pulando para 1960, vemos Marshall McLuhan escrevendo “A Galáxia de Gutemberg“, afirmando que a maneira linear de pensar representada pela invenção da imprensa estava prestes a ser substituída por uma forma “mais global de percepção e compreensão, por meio de imagens de TV ou outros tipos de aparelho eletrônico”!

Durante sua palestra Eco pretende responder a duas perguntas:

1. Os livros desaparecerão como objetos físicos?

2. Os livros desaparecerão como objetos virtuais?

Respondendo à primeira pergunta, Umberto lembra que mesmo logo após a invenção da imprensa não era somente através dos livros que se poderia adquirir informação: haviam pinturas, imagens populares impressas, lições orais (peças teatrais) e assim por diante. Ele separa os livros em dois tipos: os que são para ler e os que são para consultar.

O primeiro tipo de livro, acredita, dificilmente será substituído pela simples expansão da “grande rede”. Seria aquele “livro de cabeceira”, que você começa na página um e segue em ordem até o fim, seguindo o roteiro, a trama, a história em sua seqüência natural. Já existem mídias como os e-books e até leitores eletrônicos portáteis para e-books mas os mesmos não emplacaram. Todos sabemos quão cansativa é realizar uma leitura direto da tela do computador e, geralmente, acabamos usando a impressora para colocar no papel textos muito extensos.

Quanto ao segundo tipo de leitura, a de consulta, representada por dicionários e enciclopédias principalmente, esse sim torna-se facilmente substituível pela mídia eletrônica e mais recentemente pela internet. Hoje já existem enciclopédias inteiras em um ou em poucos CDs e, melhor ainda, podemos formular complexas perguntas que podem ser respondidas em minutos sendo que antes necessitavam de consulta a vários volumes de uma enciclopédia ou mesmo a vários livros diferentes.

A necessidade de ter uma enciclopédia que muitos de nós sente (ou sentia) está cada vez menor nas novas gerações. Questões como custo e espaço físico – além da praticidade de transporte de um CD-ROM estão vencendo o gostoso cheiro do papel e sepultando definitivamente os livros de consulta impressa.

Umberto Eco também cita uma nova invenção prestes a ser explorada industrial e comercialmente: a impressão por encomenda (na qual o leitor, após fuçar nos catálogos de várias bibliotecas ou editoras, pode selecionar o livro desejado e mandar imprimir e encadernar um único exemplar usando a fonte escolhida.

Seguindo a leitura do texto, encontro duas passagem em que discordo do autor. A primeira, quando ele diz:

“…há numerosas criações tecnológicas que não tornaram obsoletas as anteriores. Carros correm mais do que bicicletas, mas não tornaram obsoletas as bicicletas, e nenhum aprimoramento tecnológico pode tomar uma bicicleta melhor do que foi antes”.

Contra-argumento afirmando que, e usando o mesmo exemplo dado, daquelas antigas bicicletas com a roda dianteira 20 vezes maior que a traseira até nossas modernas e estilosas “mountain-bikes” com freio a disco, câmbio de 24 marchas e amortecedor com pressão regulável houve uma grande melhoria, indubitavelmente (apesar de concordar que o conceito bicicleta não mudou – e nem poderia, pois do contrário bicicleta não mais seria!).

A segunda passagem de que discordo ocorre quando afirma-se que “…O computador cria novas modalidades de produção e difusão de documentos impressos. Para reler um texto e corrigi-lo, se não for apenas uma breve carta, é preciso imprimir, depois reler, em seguida corrigir no computador e reimprimi-lo. Não creio que alguém possa escrever um texto de centenas de páginas e corrigi-lo sem reimprimi-lo várias vezes”.

Com a primeira sentença concordo: o computador realmente ampliou a perspectiva de produção de papel impresso. Cada ser vivente com sua impressora, quer seja matricial, jato de tinta ou laser, tem sua própria gráfica expressa em casa. Discordo veementemente entretanto que seja necessário imprimir um texto para corrigi-lo. Inicialmente podemos usar os modernos corretores ortográficos para buscar palavras “nonsense” criadas por ignorância ou descuido ao teclar e, em um segundo momento podemos – e é o que faço – corrigir sentenças e palavras quanto à concordância, função e estilo na própria tela do computador, desde que não nos delonguemos por horas a fio nesta ingrata tarefa. Corrigir e reimprimir o texto várias vezes para mim é desperdício de tempo, dinheiro e árvores!

Puxa! Estou chegando somenrte à metade do que me propus escrever e o texto já está ficando muito grande. Já sei: vou continuar as seções subentituladas “nexo hipertextual“, “comedia dell’arte“, “ausência de autoria“, “chapeuzinho come o lobo” e “para salvar Napoleão” em uma “parte II” deste pôust. Do contrário, cansarei os olhos de quem está frente a esta colorida tela!

Quero agradecer aos primeiros visitantes deste “recém-rebento blógue” e compartilhar com vocês a felicidade de tê-los como amigos e cúmplices nesta grande viagem que é a teia mundial. Espero não decepcioná-los (muito) nesta trajetória, mesmo sabendo que é impossível agradar a todos (disse-me Deus em um lançamento de livro ou vernissage dia desses…).

Assim como meu amigo Cirillo, em seu blógue Simples Coisas da Vida referiu, em seu pôust do dia 18 de dezembro de 2003, não tomem seu tempo, incautos visitantes, para comentários do tipo “Oi! Gostei do seu blógue! Venha visitar o meu!”. Se tens algo interessante, original, criativo ou então um sentimento sincero, amigo ou crítica construtiva para registrar, tudo bem. Se não, nada de comentar por comentar no Escrever Por Escrever! Te liga bico, te liga bico de luz!

PRÓXIMOS PÔUSTS: “O livro contra-ataca (parte II)” , “Pôust Natalino” e “Da freqüência ideal dos pôusts em um blógue”.

Dez 14

Primeira postagem do Escrever Por Escrever

By rafaelreinehr | Uncategorized

Quando decidi iniciar este blógue, estava inundado por um sentimento de “falta de espaço”. Explico: sempre gostei de me expressar através da palavra escrita (e nunca fui de deixar estes apontamentos guardados!). Desde criança fazia fanzines – Nuclear Trash, Joe Volume, Simplicíssimo… – sendo que este último acabou por se transformar em e-zine e desde 26 de junho deste ano também em site. No início, o Simplicíssimo dava conta à vazão de minhas idéias e produção literária (se é que assim posso chamar). Hoje, com o crescimento do site e do número de colaboradores, meu espaço para contribuições tornou-se deveras limitado. Solução óbvia e natural: criar meu próprio blógue! Assim, fica o Simplicíssimo como uma espécie de “portal” para brilhantes escritores e seus escritos e este blógue para acolher minhas tantas outras tantãs idéias.

Desta forma, creio estar restabelecendo o equilíbrio e a harmonia em minha vida: abrindo este espaço para poder me expressar, valorizo o misto de acaso e determinismo que regem nosso caminho e espero trazer ordem do caos (ou caos da ordem) para aqueles que forem estimulados pelas palavras que aqui encontrarem.

Sejam extremamente bem-vindos a este “Armazém de Idéias” como gostaria de chamá-lo. Que fique absurdamente claro que, como jovem aprendiz na “Escola da Vida”, posso incorrer em erros e, portanto, a ajuda do digníssimo leitor será inestimável na correção dos mesmos, para que inverdades não se propaguem.

Sua participação é ardentemente desejada, para abrilhantar, apimentar e esquentar os temas aqui propostos. Tudo que se pede é amplitude de visão e pensamento. Que se liberte das amarras do pensamento convencional, linear e se mova em direção ao pensamento complexo – idealizado por Edgar Morin – que será figura freqüente nas páginas do Escrever por Escrever.

Começo então minhas incursões poético-filosófico-artístico-músico-cinematográfico-fotográfico-médico-tecnológico-humanitário-místico-sociológico-político-antropológico-literário-culturais analisando um artigo publicado no caderno mais! da Folha de São Paulo em 7 de dezembro de 2003. O artigo a que me refiro é assinado por Jurandir Freire Costa e versa sobre o lançamento de um interessante livro no Reino Unido: “Therapy Culture – Cultivating Vulnerability in na Uncertain Age“, traduzido pelo articulista como “Cultura da Terapia – Cultivando a Vulnerabilidade em uma Era de Incerteza” (sendo que acreditava eu ser correto “em uma Era Incerta”, pois incerteza seria “uncertainty” – ou estou errado?). O livro foi escrito por Frank Furedi, professor de sociologia da Universidade de Kent, Inglaterra.

Neste livro, assim como nos seus predecessores “Paranoid Parenting” e “Culture of Fear“, o autor analisa o impacto das crenças culturais na fundação da subjetividade.

Como subjetividade podemos entender todo o arcabouço de idéias concebidas e geradas pelo meio em que vivemos, também chamado de Capitalismo Mundial Integrado por Felix Guattari.

Assim, os meios de comunicação de massa e a literatura especializada vêm levando a um desmedido “emocionalismo” e “vitimização” que contaminam todos os setores da sociedade.

O “emocionalismo” é a prática cultural que incentiva a expressão de afetos privados em público. Os indivíduos, na ausência de paixões ideológicas, encontraram nas confissões emocionais a céu aberto um sucedâneo tosco e precário dos clássicos vínculos da cidadania. O espaço público foi, assim, parasitado pelas idiossincrasias emocionais das celebridades ou “pessoas comuns”, e, os sujeitos, levados a se reconhecerem mutuamente, não como cidadãos, mas como membros da confraria dos heróis do coração” – interpreta Jurandir.

Essa passagem não lembra alguns programas televisivos de hoje? Não lembra também o “fenômeno blog” em algumas de suas facetas?

Além disso, como diz Furedi “uma das piores seqüelas do emocionalismo é justamente um rebaixamento da dignidade individual. Hoje, o cidadão ou é consumidor ou vítima de alguma opressão. A ideologia emocionalista, de um só golpe, espremeu a sociedade em um sala-e-dois-quartos, fez da cena pública um espetáculo para alcoviteiros e, da vida privada, um laboratório improvisado de obviedades do senso comum, enunciadas como descobertas científicas”.

Já indo em direção à conclusão do artigo, Freire Costa critica a tendência de Furedi a propor um retorno à intimidade sentimental, valorizado os processos ditos “familiares”. Para tanto ele cita Arendt (suponho tratar-se de Hannah Arendt): “um dos mais tenazes equívocos do pensamento político-filosófico liberal consiste em empregar o termo liberdade como sinônimo de soberania. Liberdade não é um predicado da existência humana solitária, um estado mental autárquico que se possa gozar dando as costas ao mundo. Ser livre é a maneira que o indivíduo tem de se distinguir e exprimir sua distinção diante da sociedade dos iguais. Sem a visão plural dos outros, o recuo para o reino da intimidade pode redundar em quimeras, delírios, grandes idéias ou idéias insignificantes, mas nada disso importa ao exercício da liberdade“.

O fechamento que o psicanalista e professor de medicina social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (autor de “Sem Fraude nem Favor” e “Razões Públicas, Emoções Privadas“) dá à sua análise crítica do livro é um grande convite à leitura do mesmo:

Furedi mostra, de forma convincente, como a exibição grotesca e despudorada da intimidade não indica coragem ou vontade de verdade, mas auto-indulgência e servilismo consentido. Ninguém se engrandece moralmente ao se apresentar em público como um manual de mazelas psicológicas, exploradas pela ganância de uns, pela idiotia cívica de outros ou pela estupidez política de muitos… …por fim, em brevíssimas palavras, um livro para ser lido e relido. Um olho para o horizonte da “hetero-ajuda” em meio à poluição tóxica de tanta “auto-ajuda”.

Precisa mais propaganda? O livro já está encomendado pela Livraria Cultura.

Quanto a esta questão da auto-ajuda “infestar” o mundo literário em nossos dias, lembro-me de uma Feira do Livro em Porto Alegre, há uns 4 anos atrás, quando esta invasão já ocorria. Passeava eu na companhia de minha amiga Evelise e meu amigo Fabiano quando, em um lampejo, surgiu a idéia para um paralelepípedo condensado de ensaios:

PARE DE SE AUTO-AJUDAR…

…e ajude aos outros

Um ensaio sobre a visão antropocêntrica de vida e de mundo

A idéia ainda não caiu no papel (nem no disco rígido) mas já encontrei um parceiro com idéias semelhantes sobre o assunto, o digníssimo Eduardo Sabbi, médico psiquiatra e grande colaborador do Simplicíssimo. Quem sabe até as cercanias de 2005 esta semente não se torne árvore esbelta e frondosa?

PRÓXIMO POST: “O livro contra-ataca” – análise da discussão proposta por Umberto Eco sobre os limites do mundo virtual

Dez 14

By rafaelreinehr | Uncategorized

Quando decidi iniciar este blógue, estava inundado por um sentimento de “falta de espaço”. Explico: sempre gostei de me expressar através da palavra escrita (e nunca fui de deixar estes apontamentos guardados!). Desde criança fazia fanzines – Nuclear Trash, Joe Volume, Simplicíssimo… – sendo que este último acabou por se transformar em e-zine e desde 26 de junho deste ano também em site. No início, o Simplicíssimo dava conta à vazão de minhas idéias e produção literária (se é que assim posso chamar). Hoje, com o crescimento do site e do número de colaboradores, meu espaço para contribuições tornou-se deveras limitado. Solução óbvia e natural: criar meu próprio blógue! Assim, fica o Simplicíssimo como uma espécie de “portal” para brilhantes escritores e seus escritos e este blógue para acolher minhas tantas outras tantãs idéias.

Desta forma, creio estar restabelecendo o equilíbrio e a harmonia em minha vida: abrindo este espaço para poder me expressar, valorizo o misto de acaso e determinismo que regem nosso caminho e espero trazer ordem do caos (ou caos da ordem) para aqueles que forem estimulados pelas palavras que aqui encontrarem.

Sejam extremamente bem-vindos a este “Armazém de Idéias” como gostaria de chamá-lo. Que fique absurdamente claro que, como jovem aprendiz na “Escola da Vida”, posso incorrer em erros e, portanto, a ajuda do digníssimo leitor será inestimável na correção dos mesmos, para que inverdades não se propaguem.

Sua participação é ardentemente desejada, para abrilhantar, apimentar e esquentar os temas aqui propostos. Tudo que se pede é amplitude de visão e pensamento. Que se liberte das amarras do pensamento convencional, linear e se mova em direção ao pensamento complexo – idealizado por Edgar Morin – que será figura freqüente nas páginas do Escrever por Escrever.

Começo então minhas incursões poético-filosófico-artístico-músico-cinematográfico-fotográfico-médico-tecnológico-humanitário-místico-sociológico-político-antropológico-literário-culturais analisando um artigo publicado no caderno mais! da Folha de São Paulo em 7 de dezembro de 2003. O artigo a que me refiro é assinado por Jurandir Freire Costa e versa sobre o lançamento de um interessante livro no Reino Unido: “Therapy Culture – Cultivating Vulnerability in na Uncertain Age“, traduzido pelo articulista como “Cultura da Terapia – Cultivando a Vulnerabilidade em uma Era de Incerteza” (sendo que acreditava eu ser correto “em uma Era Incerta”, pois incerteza seria “uncertainty” – ou estou errado?). O livro foi escrito por Frank Furedi, professor de sociologia da Universidade de Kent, Inglaterra.

Neste livro, assim como nos seus predecessores “Paranoid Parenting” e “Culture of Fear“, o autor analisa o impacto das crenças culturais na fundação da subjetividade.

Como subjetividade podemos entender todo o arcabouço de idéias concebidas e geradas pelo meio em que vivemos, também chamado de Capitalismo Mundial Integrado por Felix Guattari.

Assim, os meios de comunicação de massa e a literatura especializada vêm levando a um desmedido “emocionalismo” e “vitimização” que contaminam todos os setores da sociedade.

O “emocionalismo” é a prática cultural que incentiva a expressão de afetos privados em público. Os indivíduos, na ausência de paixões ideológicas, encontraram nas confissões emocionais a céu aberto um sucedâneo tosco e precário dos clássicos vínculos da cidadania. O espaço público foi, assim, parasitado pelas idiossincrasias emocionais das celebridades ou “pessoas comuns”, e, os sujeitos, levados a se reconhecerem mutuamente, não como cidadãos, mas como membros da confraria dos heróis do coração” – interpreta Jurandir.

Essa passagem não lembra alguns programas televisivos de hoje? Não lembra também o “fenômeno blog” em algumas de suas facetas?

Além disso, como diz Furedi “uma das piores seqüelas do emocionalismo é justamente um rebaixamento da dignidade individual. Hoje, o cidadão ou é consumidor ou vítima de alguma opressão. A ideologia emocionalista, de um só golpe, espremeu a sociedade em um sala-e-dois-quartos, fez da cena pública um espetáculo para alcoviteiros e, da vida privada, um laboratório improvisado de obviedades do senso comum, enunciadas como descobertas científicas”.

Já indo em direção à conclusão do artigo, Freire Costa critica a tendência de Furedi a propor um retorno à intimidade sentimental, valorizado os processos ditos “familiares”. Para tanto ele cita Arendt (suponho tratar-se de Hannah Arendt): “um dos mais tenazes equívocos do pensamento político-filosófico liberal consiste em empregar o termo liberdade como sinônimo de soberania. Liberdade não é um predicado da existência humana solitária, um estado mental autárquico que se possa gozar dando as costas ao mundo. Ser livre é a maneira que o indivíduo tem de se distinguir e exprimir sua distinção diante da sociedade dos iguais. Sem a visão plural dos outros, o recuo para o reino da intimidade pode redundar em quimeras, delírios, grandes idéias ou idéias insignificantes, mas nada disso importa ao exercício da liberdade“.

O fechamento que o psicanalista e professor de medicina social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (autor de “Sem Fraude nem Favor” e “Razões Públicas, Emoções Privadas“) dá à sua análise crítica do livro é um grande convite à leitura do mesmo:

Furedi mostra, de forma convincente, como a exibição grotesca e despudorada da intimidade não indica coragem ou vontade de verdade, mas auto-indulgência e servilismo consentido. Ninguém se engrandece moralmente ao se apresentar em público como um manual de mazelas psicológicas, exploradas pela ganância de uns, pela idiotia cívica de outros ou pela estupidez política de muitos… …por fim, em brevíssimas palavras, um livro para ser lido e relido. Um olho para o horizonte da “hetero-ajuda” em meio à poluição tóxica de tanta “auto-ajuda“.

Precisa mais propaganda? O livro já está encomendado pela Livraria Cultura.

Quanto a esta questão da auto-ajuda “infestar” o mundo literário em nossos dias, lembro-me de uma Feira do Livro em Porto Alegre, há uns 4 anos atrás, quando esta invasão já ocorria. Passeava eu na companhia de minha amiga Evelise e meu amigo Fabiano quando, em um lampejo, surgiu a idéia para um paralelepípedo condensado de ensaios:

PARE DE SE AUTO-AJUDAR…

…e ajude aos outros

Um ensaio sobre a visão antropocêntrica de vida e de mundo

A idéia ainda não caiu no papel (nem no disco rígido) mas já encontrei um parceiro com idéias semelhantes sobre o assunto, o digníssimo Eduardo Sabbi, médico psiquiatra e grande colaborador do Simplicíssimo. Quem sabe até as cercanias de 2005 esta semente não se torne árvore esbelta e frondosa?

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