Monthly Archives: janeiro 2004

Jan 27

By rafaelreinehr | Uncategorized

Hoje é dia de crítica cinematográfica. Deixei de comentar 21 gramas e Adeus Lênin vistos no cemeço do ano, mas não vou deixar passar esses dois:

O sorriso de Mona Lisa

Bom filme. Sei que não se começa uma crítica assim, mas isso é passado e vamos logo às explicações.

Ìamos ver “O último Samurai” e, por decisão de minha namorada, que ouvira falar deste filme -onde uma professora vai a um colégio conservador e tenta mudar suas alunas-, decidimos – juntos – assisti-lo prioritariamente (sem muita expectativa, como é de se esperar e como deveria ser, para evitar grandes tombos – todos já aprendemos!).

Depois do início lento do filme, característica imanente de grande parte dos dramas, passamos a perambular por nuances humanas de várias gradações: encontramos o protótipo da mulher ideal da sociedade norte-americana da década de 50, jovem casada com sua dedicação total ao matrimônio; a jovem solteirona “que ninguém quer” que encontra seu amado e os percalços de sua vida de recém-amante; a jovem fácil e fogosa que além de apaixonada pelo professor faz de sua vida um jogo com vários homens; a brilhante jovem que tem sua chance de seguir carreira naquilo que escolheu mas deixa o sonho de lado pela imagem idealizada de um futuro com marido e filhos; e a professora subversiva – Julia Roberts – inicialmente encantada com toda pompa e circunstância da escola Wellselley e depois desiludida pelo excesso de rigidez e conservadorismo, ao descobrir que a escola não formava líderes e seres pensantes, mas sim boas donas-de-casa.

O ponto chave do filme certamente diz respeito ao título do filme ( poderia ser diferente?) em que é feito um questionamento de suma importância: o que importa realmente: o que somos e sentimos ou o que parecemos ou demonstramos sentir? Através do sorriso do quadro Mona Lisa, desenvolve-se uma crítica àquela sociedade estabelecida, onde as mulheres submetiam-se aos desejos da sociedade machista – com o auxílio mesmo de suas mães – sendo muitas vezes o retrato de uma mulher que, em público, transparecia satisfação quando em verdade, em sua vida íntima, estava quebrada em fragmentos. Seu ser desejante era impiedosamente massacrado pelo estabelecido e pouco restava de sua essência.

Mona Lisa estará sorrindo ou parece estar sorrindo? Somos realmente aquilo que demonstramos ou também usamos máscaras?

Bom filme.

Eu fui ver ” Mansão Mal-Assombrada”!

Era uma quinta-feira comum, a não ser pelo fato de que pela manhã iria trabalhar em Novo Hamburgo, das 10:00 às 14:00 e à tarde seguiria para São Leopoldo, cidade vizinha, para trabalhar das 16:00 às 20:00.

Por um desejo macabro não consigo imaginado e impetrado por quem, acabaram por não marcar meus pacientes em Novo Hamburgo. Pronto! Era só o que faltava! O que faria eu das 10:00 às 15:00? Voltar para Porto Alegre? Com o absurdo preço da gasolina? Nem pensar! Só havia uma solução: atravessar a rua e me esbaldar no Shopping Center. Foi o que fiz.

Depois de perambular por todo shopping, cansei os olhos e as pernas. Afinal de contas, meus cromossomos são XY e não XX (estes últimos conferem uma resistência absurda para longas aventuras em locais como shopping-centers, feiras de fábrica ou qualquer lugar onde estejam expostos roupas e sapatos). Comprei algumas revistas e resolvi sentar na Praça de Alimentação, para ler e esperar a fome chegar. Com a fome, veio uma idéia: por que não comer algo e passar as próximas duas horas no cinema, assistindo um filme? Boa idéia! Lá fui eu!

Almocei e me dirigi de pronto em direção ao cinema. Para meu pesar, só poderia assistir a um filme que estava sendo exposto no horário das 13:00: Mansão Mal-Assombrada. Ei, mas espera aí: comédia com Eddie Murphy! Deve ser bacana! (até aquele momento, não havia visto ou lido nenhum comentário acerca do filme, e fui com tudo comprar meu ingresso!).

Comprei meu ingresso, uma pipoquinhas e refrigerante e, quando faltavam dez minutos para o filme fui para a fila. Na fila, começou a bater o pavor. Na minha frente, meia dúzia de pré-adolescentes entre 12 e 13 anos. Atrás de mim ia se formando uma fila parecida, com exceção de um casal de jovens adolescentes entre 16 e 17 anos. Começou a vir um calor, que depois se transformou em frio e percorreu toda minha espinha, alojando-se em algum lugar entre a boca do meu estômago e minha testa, não podia definir bem.

A moça que pega os ingressos começo seu trabalho. Naquele momento, caminhando em direção à sala de cinema, me sentia qual gado indo para o matadouro. Já nem pensava mais no dinheiro gasto nem no tempo perdido, apenas na minha burrice. Note-se aqui uma forte carga de preconceito e também uma expectativa negativa criada pelo público assistente, diferente do meu grupo etário.

Para meu alento, vi entrarem na sala mais 3 adultos, sendo que um era um gigante que entrou com aqueles kits de pipoca gigante e refrigerante gigante (sozinho) e mais duas senhoras que acompanhavam suas filhas. O que ainda me deixava (um pouco) tranqüilo é que o filme tinha censura (12 anos, mas tinha!).

Quanto ao filme, bem, não foi tão ruim assim, mas, a não ser que realmente não tenha mais nada a fazer, não assista. Explico: quase não damos risadas, não é nem um pouco engraçado para um filme com Eddie Murphy e classificado como comédia além do mais, conta uma história decididamente esgotada por contos de fadas e histórias mil que ouvimos desde a infância.

Não cheguei a entrevistar criança alguma na hora da saída, mas não havia nem empolgação quanto menos excitação nos seus olhos ao sair da sala de cinema. Mas, colocam dinheiro fora em tanta coisa, não é mesmo Melhor que seja com algo que se aproxime de cultura. Mastigada, repetida e normalizada, mas cultura.

Jan 22

By rafaelreinehr | Uncategorized

São Paulo: 450 anos

Ao comemorarmos os 100 anos de algo ou alguém, nos referimos ao seu centenário, assim como ao completarmos 150 anos temos o sesquicentenário. Com 200 anos, comemoramos o bicentenário. Mas e com 450 anos?

Creio que na Língua Portuguesa brasileira não há denominação para utilizar nestas ocasiões. Seria quadrisesquicentenário (ou isso seria referente a quatro períodos de 150 anos, e conseqüentemente 600 anos? Epa, então que tal trisesquicentenário???)?

É possível que em Portugal, país definitivamente mais antigo e mão (pai?) de nossa língua, exista nomenclatura adequada para nos referirmos adequadamente aos 450 anos da cidade de São Paulo.

Digníssimos amigos portugueses, que a esta hora significam 5,6% dos acessos ao Escrever Por Escrever, se puderem, me ajudem!

A propósito, a estrela deste pôust é o último! Não deixem de ler, por favor!

Sugestão de visita 001

A partir de hoje começarei, ocasionalmente, a sugerir alguns sítios ou blógues de grande interesse pelo seu conteúdo artístico, literário, político, antropológico, enfim, de alguma humanidade qualquer.

O primeiro sítio que indico é o Brinquedo de Palavras editado pelo grande webdesigner (vê-se isso pelo site) Pipol.

No site, que para ser visualizado é necessário possuir Flash MX instalado, encontramos trechos literários que demonstram a absurda sensibilidade do artista entremeados de imagens linda e brilhantemente conectadas, fazendo do site um verdadeiro teatro digital.

Confiram! Ah! E não deixem de ler o último pôust!

Serviço Militar Obrigatório: uma indecência?

Indecência Militar

(Gabriel O Pensador)

.

Na porta do local do alistamento militar

Esperando pela hora de entrar

de saco cheio, estava eu lá (que paciência!)

Sem nenhuma mulher pra agarrrar e nem um som pra escutar

E um monte de marmanjos do meu lado eu vi

Então pensei “Pô o que que eu tô fazendo aqui?”

Pergunta sem resposta, e raiva batendo

Foi assim que eu fiz um rap pra passar o tempo

Serviço militar obrigatório é uma indecencia

Um ano sem mulher batendo continencia

Escravidão numa democracia

É uma incoerência

Um ano sem mulher batendo continencia

Serviço militar obrigatório é uma indecencia

Um ano sem mulher batendo continencia

Um ano sem mulher só ralando

E o salário?

Não leve a mal mas isso é coisa pra otário

Alguns podem até gostar da brincadeira

Mas o serviço só é bom pra quem quer seguir carreira militar

Mas rapá, pro Pensador não dá!

Servindo o exército, marinha, aeronáutica ou qualquer porra dessas

Não interessa eu ia ser um infeliz

Ia ficar revoltado como eu nunca quis

Servindo quem montou a ditadura aqui no meu país

Usando farda e lavando o chão

Sem reclama de nada pra não ser jogado na prisão

Hum mas que situação! Então

Batendo continencia e fazendo flexão

Para os caras que prenderam meu pai

E mataram tantos outros institucionalizando a repressão

Não! Agora acorda e concorda com esse refrão!

E porque não?

Nas mãos dos militares muito jovem já morreu

Não quero ser soldado! Quem manda em mim sou eu!

Esse é o defeito da nossa sociedade

Um ano da minha vida não pode ser gasto assim

Escravizado por quem nunca fez nada de bom por mim

Essa contradição me repudia

Serviço obrigatório não combina com democracia

A porta abre e todos entram

Tô torcendo pra sobrar enquanto isso dá vontade de cantar

Olha aí rapaz, como você fala das nossas instituições democráticas!

Instituições o que?

Ih! Eu acho que eu tô doidão, eu ouvi “democráticas”!

Ah tá…

Decidi escrever sobre este tema pois nos dois últimos dias passei pela experiência de uma seleção para a Aeronáutica, no V COMAR (Comando Regional da Aeronáutica), em Canoas, Rio Grande do Sul.

Depois de 10 anos que incluíram 6 anos de graduação em Medicina, 2 anos de especialização em Medicina Interna e 2 anos de especialização em Endocrinologia, sempre solicitando adiamento para realização de minha formação profissional, finalmente chegou a hora de “prestar contas à Pátria Amada Brasil”.

A obrigatoriedade do Serviço Militar não é exclusividade do Brasil, onde somente a população masculina presta necessariamente 1 ano de trabalhos para as forças armadas (em alguns países chega a dois anos a obigatoriedade).

A questão que se impõe paira sobre esta mesma obrigatoriedade: trabalho comunitário instituído ou indecência restritora de liberdade?

Existem bons argumentos que defendem cada ponto de vista.

Na defesa da obrigatoriedade, surgem vozes que reproduzem as necessidades da sociedade brasileira (defesa das fronteiras, proteção em caso de conflitos civis, acesso da saúde em áreas remotas, etc.), a responsabilidade que o recruta adquire ao servir (pfúú!) e, no caso dos formandos de Medicina, Farmácia, Odontologia e Medicina Veterinária, o retorno necessário a ser dado por esta pequena parcela da população que concluiu o terceiro grau graças ao financiamento ou subsídio do Estado.

Do lado oposto, gritam as vozes da Revolução Francesa e também interpretações radicais (quem sabe deturpadas) de Hannah Arendt, na defesa da liberdade do indivíduo enquanto membro de uma coletividade. Sugerem que deveria inexistir a obrigatoriedade de um serviço militar pois o mesmo seria inclusive uma contradição aos princípios liberais expressos na própria Constituição brasileira.

No caso de profissionais da área da saúde, a grande maioria que se apresenta especificamente à Aeronáutica é composta de muitos odontologistas e farmacêuticos voluntários, principalmente do sexo feminino, sendo menor a freqüência de voluntários na área médica.

Além do mais, conhecendo um pouco da estrutura e do funcionamento das forças armadas e sua relação com a comunidade, afirmo que seria praticamente impossível reduzir de pronto a quantidade de seu efetivo.

Então, deixa assim e vamos parar de falar desse assunto, chato pra caramba! Além do mais, você, raro cidadão que chegou até este ponto na leitura deve estar se perguntando: para que serve o que acabei de ler aí em cima… Ta bom, concordo! Este foi um legítimo exercício de escrever por escrever, que não acrescentou nada a ninguém… Deixa eu ir pro banho que ainda estou com a roupa com que fiz o teste físico lá na aeronáutica hoje…

Leia o próximo pôust!

Esquerda, Direitos e Devires

Pouco mais de um ano depois da mais aclamada vitória democrática da esquerda na história política recente da América Latina, cabe aqui uma discussão acerca da definição e da nova posição ocupada por esta esquerda.

Em rodas de amigos ou mesmo em discussões acadêmicas, muitos usualmente dizem que esquerda no poder deixa de ser esquerda para tornar-se direita e que, a partir de então, quem se tornaria esquerda seria a oposição (previamente no poder).

Teimo em discordar e para tanto buscarei basear minha argumentação em dois grandes amigos do pensamento contemporâneo: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Juntos, os dois pensadores escreveram obras clássicas como “Mil Platôs” e “O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia

De acordo com seu pensamento – e aqui me forço a uma interpretação pessoal – podemos chamar de ¿esquerda¿ todas aquelas forças oriundas das minorias negligenciadas pela ordem instituída que buscam, através da produção incessante de singularidades, encontrar seu lugar.

É na perene batalha entre instituinte e instituído que encontramos a verdadeira força (pulsão) da esquerda.

Guattari e Deleuze chamam de devires os constantes movimentos instituintes destas minorias, criando alguns devires que aqui posso exemplificar, como o devir homossexual, o devir negro, o devir mulher, o devir molecular só para citar alguns. Em nosso contexto sócio-econômico-político poderia eu acrescentar o devir sem-terra, o devir aposentado, o devir pequena empresa e o devir paciente na fila do SUS (embora todos exceto o primeiro dos últimos citados com pequeno poder de gerar tensão suficiente para incomodar o instituído).

Na busca de seu espaço, estes devires são geradores de tensão na superfície do estabelecido, naquilo que chamam de “Capitalismo Mundial Integrado“, representado pelas instituições oficiais dos Estados, Escola, Igreja e meios de comunicação de massa, entre outros.

No momento em que a minoria é açambarcada pelo meio instituído – ou se integra a ele voluntariamente – esta deixa de produzir subjetividade e se mescla à grande massa sem individualidade e normalizada pela ordem vigente.

Aqui, podemos ver que o governo que temos hoje em nosso país certamente deixou de ser esquerda, pois aceitou tacitamente algumas das ferramentas da organização instituída a que se filiou mas, ao mesmo tempo, não pode ser considerado direita (permanecendo parcialmente esquerda, então), pois germinam ainda, dentro de si, forças que buscam modificar o estabelecido, gerar o novo.

Recentes eventos, como a fissão dentro do próprio Partido dos Trabalhadores mostram bem essa faceta a qual me referi acima – e da qual só foi visualizada porção correspondente à ponta de um iceberg.

Nessa guerra de titãs entre a simbiose hoje estabelecida em nosso Estado e as cada vez mais gritantes “forças desejantes” das minorias, percalços são previsíveis mas a busca dos direitos – ou como preferem Deleuze e Guattari, do espaço para exercer a singularidade – não deve cessar, pois essa mesma é a essência da realidade.

Apesar de vozes da ultra-direita pós-diretas já tentarem se amplificar, o bom-senso e juízo crítico da direita moderada foi capaz de ouvir o clamor popular, a grita desta bastante suficiente minoria – não em número mas em voz ativa -, o que possibilitou grandes mudanças no contexto sócio-econômico, principalmente no que diz respeito às reformas previdenciária e tributária.

Finalmente, a forma que hoje se apresenta constituído, o governo brasileiro, outrora denominado ¿esquerda¿, encontra-se provisoriamente em um limbo cuja melhor definição seria “esquerda-direita”, ou, porquê não, “centro”, já que do centro é o melhor caminho para chegar às duas extremidades e seguir realizando o governo de coalizão pelo qual se caracteriza a atual administração. Há que se concordar, indubitavelmente, que ambas correntes – conciliadora e revolucionária – atuam simultaneamente na direção do país.

Quem sabe a escolha desse caminho – o caminho do meio do taoísmo chinês – não seja, enfim, aquele que nos levará a dias melhores em um futuro breve?

* imagem inspirada na capa do livro Sociologia e Antropologia, de Marcel Mauss, publicado originalmente em 1950 e reeditado em português em 2003 pela Editora Cosac & Naify

Jan 16

By rafaelreinehr | Uncategorized

Para hoje não consegui tempo suficiente para escrever nada original. Na verdade, escrevi várias coisas mas não consegui terminar nenhuma. Isso quer dizer que teremos uma sessão revival (pelo menos para mim!). Disporei aqui alguns textos já apresentados ou publicados em tempos idos em outros meios ou locais. No próximo pôust, textos inéditos.

Segue a agenda das postagens até 29 de fevereiro. A partir de então, não teremos mais datas fixas de postagem. As datas a seguir servem para guiar o amigo leitor para que não se ocupe de entrar neste blógue por mais de uma vez sem que o mesmo esteja atualizado (claro que é muita imbecilidade minha acreditar que alguém vá anotar estas datas e se utilizar delas, sendo mais fácil simplesmente dar um clique em um línque e “dar uma olhadinha” para ver se tem novidade… Mas, mesmo assim…

Pôust 7 – 16/01

Pôust 8 – 22/01

Pôust 9 – 27/01

Pôust 10 – 02/02

Pôust 11 – 07/02

Pôust 12 – 13/02

Pôust 13 – 18/02

Pôust 14 – 24/02

Pôust 15 – 29/02
(2004 é ano bissexto!)

Obesidade: a Epidemia dos Tempos Modernos

(texto originalmente publicado no Jornal Deutsche Integration de Agudo-RS)

A Obesidade, até há bem pouco tempo, passava despercebida entre a vasta gama de enfermidades que assolam o ser humano. Isso porque, até muito recentemente, era encarada como sinal de personalidade fraca, combinação de glutonice e maus cuidados com o próprio corpo. A relutância da própria Medicina em encarar a Obesidade como doença levou a uma demora na identificação de métodos eficazes para o seu controle. Tanto demorou que hoje vivemos uma epidemia, na qual cerca de um terço (33%) da população adulta brasileira apresenta sobrepeso e um quarto (25%) é obesa (e esses números estão crescendo ano após ano!)

Mas se consideramos a Obesidade uma doença, por que isso ocorre? Basicamente porque a presença de obesidade está associada ao surgimento em maior freqüência de uma série de enfermidades, como a hipertensão, o diabete melito, infarto do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais (derrames), gota, câncer de útero, osteoartrose de quadril, joelhos e tornozelos, cálculos na vesícula, varizes, cálculos renais, câncer de mama, irregularidades menstruais, excesso de pêlos e também infertilidade e morte prematura.

O que mudou nos últimos anos? Passou-se de uma visão permissiva para uma mais intromissiva no que tange a Obesidade. Sabe-se que praticamente a totalidade dos pacientes obesos apresentam algum transtorno do humor, quer seja o humor deprimido levando ao sedentarismo e a pouca busca por atividade física saudável e necessária, ou a ansiedade, associada a hábitos alimentares compulsivos e outros comportamentos auto-destrutivos.

E quais são as causas da obesidade? Além dos fatores genéticos, herdados de nossos pais e avós, temos a influência importante de fatores ambientais, quais sejam: ingestão de alimentos e atividade física.

As pessoas gordinhas e com a família também gordinha têm uma tendência herdada de gastar menos a energia ingerida do que uma pessoa magrinha com um mesmo grau de atividade física. A isso chamamos de metabolismo basal diminuído. É por isso que a pessoa obesa deve se esforçar mais (comer menos ou se exercitar mais) que uma pessoa com tendência familiar a ser magra.

Em relação ao ambiente, um dos fatores mais notórios associados à epidemia da obesidade diz respeito ao desenvolvimento tecnológico e o aumento do conforto de nossa sociedade ocidental contemporânea. Desta feita, controles remotos para aparelhos eletrônicos, direções hidráulicas e vidros elétricos nos automóveis, lavadoras de roupa e de louça, tele-entregas e outras comodidades jogam a favor de uma economia de energia e conseqüente ganho de peso. Não é mais preciso caçar, pescar ou colher o alimento. É só esticar o braço na prateleira do supermercado.

As comidas gordurosas nunca estiveram tão em voga: fast-foods, pizzas, hambúrgueres, massas, queijos, carnes… Que gostosura! É claro, comer é bom, todo mundo gosta, dá prazer! É por isso que é tão difícil perder peso: temos que castrar (ou pelo menos limitar) um de nossos maiores prazeres!

É tarefa difícil mas de jeito algum impossível! Com uma boa reeducação alimentar, trocando alimentos mais por menos calóricos, aprendendo a lidar com a compulsão, realizando exercícios físicos regulares de forma adequada e, ocasionalmente, com auxílio inicial de alguma medicação, podemos vencer esta batalha contra o excesso de peso e tornar a vida de muitas pessoas mais saudável e prazerosa.

(apesar da abordagem “popular”, é um texto simples que tem muito a dizer…)

Pensamentos Privados

Faço força para não pensar

Enquanto caem das minhas entranhas

Sentimentos digeridos e absorvidos

Que já não me servem mais

Libero, em toda minha impaciência

O vil odor que agora assola o ambiente

O hálito pensante sobrenada cansado,

Inerte, só, desesperado

Não quero mais essa angústia

Limpo minh’alma e sigo andando

Há muito que sei o meu caminho

Ele eu sigo, sorrindo contente

(esse poema foi o primeiro de uma série de 5 poemas escritos para participar de um concurso nacional promovido pela Editora Shan. Está publicado em “Antologia Poética Brasileira 1999”, da Série Gaivota e na edição 008 do site Simplicíssimo. O mesmo foi literalmente escrito sentado em uma privada, durante o ato de evacuar, e é uma reflexão profunda sobre o referido ato.)

Resenha do Texto “O Homem e a Câmera”, de Jean Rouch

(para a cadeira “Seminários Livres em Antropologia Visual” do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, apresentado em 8 de junho de 2001)

No texto “O Homem e a Câmera”, Jean Rouch traça um painel histórico do cinema na Antropologia, encarando essa entrada do seu ponto de vista extremamente peculiar e certamente validado pelo fato de que ele mesmo participou de grande parte da história do cinema etnográfico.

Para tanto, percorre os caminhos trilhados desde 1872, quando Eadweard Muybridge fez a primeira sequência fotográfica de um cavalo trotando, passando por Étienne-Jules Marey com seu cronofotógrafo, que trouxe movimento à fotografia, por Félix Regnault, que em 1900 foi o primeiro a usar os cilindros de Edison para gravar sons e chegando, na década de 20 aos “precursores” do cinema antropológico: Dziga Vertov e Robert Flaherty (ambos fazendo etnografia sem saberem!)

Flaherty, filmando um esquimó, Nanook, por volta de 1920, inserido no meio da cultura esquimó, inventou a “observação participante” e, com sua idéia de partilhar seu trabalho com os esquimós, criou o “feedback”, ou seja, o retorno da informação captada através das imagens para a própria cultura que havia sido focada pelas lentes.

Vertov trabalhando na mesma época, preocupou-se em filmar pequenas partículas da realidade, ao invés de embrenhar-se em um ambiente hostil e distante. Foi Vertov que criou o “cine-olho”, ou seja, uma perspectiva através da qual o espectador via nas imagens através dos olhos do etnógrafo, do cinegrafista. Vertov ia atrás dos acontecimentos à medida que estes iam se desenrolando, filmando as cenas cruas, sem preparações, introduzinho assim o “Cinéma-vérité” (cinema verdade), ou seja: a realidade em movimento.

Na década seguinte, com os progressos técnicos, ficou muito mais fácil a realização das filmagens, mas também, com o recém criado cinema falado, o cinema comercial “tomou conta da cena”. Em vez de ir ao encontro das pessoas, o novo cinema trouxe as pessoas para perto das câmeras, para dentro dos estúdios. Citou a crise do cinema etnográfico tentando se mesclar com o cinema comercial e os desastrosos resultados dessa tentativa naquela ocasião, como os filmes de Marcel Griaule e Patrick O¿Reilly.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de câmeras mais leves e equipamentos de som com gravação simultânea com as imagens, o desenvolvimento do cinema foi rápido. Em 1955, Rouch tenta definir o filme etnográfico, que entre outras coisas teria a função de imortalizar algum aspecto de uma cultura, um aspecto da realidade atual.

A partir de 1960, com equipamentos modernos, a qualidade dos filmes etnográficos cresceu. A partir daqui, Rouch começa a comentar alguns aspectos interessantes desse “Cinema etnográfico”.

Comenta o fato de a distribuição de filmes etnográficos ser restrita, ao contrário dos filmes comerciais, apesar de técnicas semelhantes serem usadas em ambos, excetuando-se documentários sensacionalistas como “Mondo Cane”. Questiona se o melhor seria um etnógrafo-cinegrafista ou um etnógrafo com uma equipe de filmagem, decidindo-se pelo primeiro, pela menor “invasividade” e pelo fato de que o etnógrafo seria o único a saber exatamente quando e para onde apontar a câmera. Acredita que a perda técnica resultante disso não seria problema tendo em vista os benefícios.

Compara câmeras em tripés com câmeras seguras somente pela mão e inclusive o uso de zoom ou somente de lentes fixas (necessitando assim o cinegrafista aproximar-se mais da cena para dar a impressão de “cine-eye”).

Passa pela edição das imagens, a inclusão de comentários, legendas e música e toca na questão da exposição do filme pronto à população estudada. Critica a exposição de muitas informações orais por parte do cientista, que poderiam dar uma interpretação (muitas vezes errada) daquilo que se está vendo e se pode interpretar com os próprios olhos. Também o faz em relação a legendas muito extensas e ao fato de que, muitas vezes, músicas e sons são inapropriados a determinadas cenas, citando o exemplo de Bataille sur le grand fleuve, onde ele próprio colocou músicas com instrumentos de cordas para dar um clima de ¿caçada¿ mas, quando mostrou o filme aos caçadores, estes solicitaram que a música fosse retirada, tendo em vista que a caçada necessitava extrema concentração e silêncio!

Analisando os comentários dos filmes desde 1930, verifica que eles passaram de um aspecto “barroco colonial” para um de “aventura exótica” e chegaram à “secura de um relato científico”.

Rouch pergunta-se: para quem os filmes são feitos? Para quem? Para quem? E por quê? Encontra algumas respostas, nenhuma definitiva. Talvez para si próprio, por achar que em certos lugares, em certos momentos e com certas pessoas que a câmera seja necessária. E porquê? Para deixar registrados aspectos de culturas que estão rapidamente mudando ou próximas da extinção, para demonstrar comportamentos em situações de revolta, para gravar um gesto, uma face que não pode deixar de ser filmada ou, simplesmente porque existe uma necessidade súbita de filmar. Mais tarde conclui que os filmes etnográficos devem ser feitos para a maior audiência possível, para todas as pessoas.

Assim, através da demonstração de conceitos interessantes como o da “câmera participante”, o da “antropologia compartilhada” e do “cine-eye”, Jean Rouch nos impregna de conhecimento e estímulo em busca da construção de um novo tempo no mundo do cinema antropológico, fornecendo a base e deixando em aberto o futuro, com uma visão: a de um tempo onde a câmera passará às mãos daqueles que hoje são estudados, e os mesmos farão o trabalho por si próprios, não sendo mais o antropólogo o indivíduo a monopolizar a observação das coisas.

PRÓXIMOS PÔUSTS: “Esquerda, Direitos e Devires”, “Serviço Militar Obrigatório – é uma indecência?”

Jan 11

By rafaelreinehr | Uncategorized

Che Guevara e seus novos modelos de boina

Antes de mais nada preciso dizer aos amigos da Esquerda que estamos do mesmo lado! Antes de qualquer atitude mais exaltada, saibam que esta é apenas uma brincadeira no Photoshop. Tenham por certo que Guevara não estaria se revirando no túmulo e sim dando risadas desta piada.

Agora sim, podemos seguir adiante. Se ainda assim a indignação permanece, tentem ler o texto abaixo sobre Norberto Bobbio e vejam como ele se auto-define ao fim do texto. Se mesmo assim continuares indignado, acho que precisas de umas aulas de yoga ou um retiro nas montanhas, coisa do gênero!

Perdemos Norberto Bobbio

Morreu anteontem, aos 94 anos, Norberto Bobbio, um dos principais filósofos políticos do século XX.

A despeito de ser socialista, não deixava de reconhecer os méritos do pensamento liberal, negando assim a crença maniqueísta de que todo o bem esteja de um lado e todo o mal de outro.

Autor de 50 livros sobre política, filosofia e direito, o professor emérito da Universidade de Turim e Senador vitalício, nascido a 18 de outubro de 1909, Bobbio estudou direito e filosofia e foi professor universitário e jornalista.

Entre suas idéias encontravam-se a “desconfiança de uma política excessivamente ideologizada que divide e exclui; a defesa do governo das leis contra o governo dos homens; a opção pelo laicismo como exercício do espírito crítico contra os dogmatismos opostos dos católicos e dos comunistas.”

Autobiografa-se como alguém de “nascimento em família burguesa, os estudos habituais de um rapaz de boa burguesia citadina, liceu clássico e universidade, vida sedentária transcorrida em grande parte entre as quatro paredes de um escritório, ou nas mais diversas bibliotecas do mundo, salvo algumas viagens para participar de congressos ou proferir conferências, um casamento feliz e vida familiar serena, vida pacífica num dos períodos mais dramáticos da história européia”.

Adepto da máxima de que “no meio está a virtude” – lembrando o pensamento taoísta – Norberto era um pessimista de mão cheia, agnóstico e inclinado a “achar as razões da dúvida mais convincentes do que as da certeza”, dizia viver como leigo em um mundo que ignorava a dimensão da esperança.

Para se auto-definir, usava um trecho que certamente resume todo seu legado de sabedoria e nos inspira a seguir seu exemplo:

“Aprendi a respeitar as idéias alheias, a deter-me diante de segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. E já que estou em veia de confidências, faço uma ainda, talvez supérflua: detesto os fanáticos com toda a alma”.

(sintetizado e adaptado a partir da página A10 da Folha de São Paulo de 10/01/2004, a partir de textos de Renato Janine Ribeiro e Rubens Ricupero)

A impossibilidade do SUS – o possível do impossível (parte II de II, a princípio…)

A gratuidade do Sistema Único de Saúde Brasileiro (SUS) está com seus dias contados. O que falta? Iniciativa para mudar uma situação que já beira o insustentável.

Não existem bolsos públicos do tamanho necessário para manter a UNIVERSALIDADE e a INTEGRALIDADE que constituem o cerne do SUS.

A solução que se apresenta seria a de cobrar pela utilização da rede pública de saúde, desde a consulta médica, odonto ou psicológica, até os exames diagnósticos ou tratamentos oferecidos.

Tal ônus seria proporcional à condição econômica do favorecido e se daria até mesmo àqueles sem as mínimas condições de pagar qualquer centavo. Ficariam isentos de custo tão somente as atividades de prevenção primária à saúde, tão negligenciadas atualmente por profissionais e mesmo pacientes ¿ e maiores responsáveis pela diminuição da incidência de enfermidades.

Para dar seqüência ao meu pensamento, transcrevo o editorial da edição 34 do Jornal Virtual Simplicíssimo, onde a idéia está posta de forma clara e breve com exemplos):

“Dia desses estava conversando com um amigo sobre o SUS. Isso, o “Sistema Único de Saúde” brasileiro. Desde os idos da década de 80 que essa utopia tenta se estabelecer. Sem sucesso. Aparentemente, cada vez mais aumenta a tecnologia necessária para o bem tratar do paciente, pois nossos incansáveis cientistas descobrem mais e mais formas de descobrir antes, ver melhor e também tratar mais adequadamente as doenças. Não é preciso dizer que toda essa melhoria que cresce vertiginosamente tem um custo. Que também cresce vertiginosamente! Fora dos parâmetros possíveis de serem abarcados por um sistema de saúde que busca ser universal (para todo e qualquer cidadão brasileiro), integral (da mais simples consulta médica e do pedido de hemograma até o mais elaborado PET scan ou angioressonância disponíveis) e gratuito.

Se a tecnologia não pára de se desenvolver, a qualidade da saúde possível de ser oferecida também não, e, ora, os custos acompanham este acréscimo de qualidade, nada mais justo do que pagar por todo esse novo conhecimento! É utópico, atualmente, conceber um sistema público de saúde que seja responsável por todo e qualquer gasto de toda a população de um país do tamanho do Brasil!

A proliferação da busca por planos privados de saúde é somente um dos sinais dessa insuficiência. Mas como então podemos resolver o problema desta saúde que anda tão capenga?

Em primeiro lugar, toda e qualquer consulta deveria ter um valor, um custo para o paciente, mesmo que simbólico. Isso evitaria, entre outras coisas, o que ocorre todos os dias em nosso sistema de saúde: consultas por frivolidades, ocupando a vez de quem realmente necessita; marcações desenfreadas para todo e qualquer tipo de especialista sem a devida avaliação ( o paciente só buscaria auxílio se realmente estivesse necessitando (sabemos que hoje não é assim) e assim por diante. O mesmo valeria para exames. Hoje, como os exames não são pagos, boa parte das pessoas nem se interessa por saber qual exame está sendo realizado. Vai consultar no clínico no Posto de Saúde em fevereiro e este lhe pede um hemograma, glicose, colesterol e triglicerídeos. Como estava com dor no peito, pede encaminhamento ao cardiologista, no Hospital A, que lhe pede uma glicose, colesterol e triglicerídeos, além de um eletrocardiograma. O paciente leva os exames ao clínico que diagnostica diabete e encaminha o paciente ao Endocrinologista. Chegando ao Endócrino no Hospital B, este solicita uma glicose, colesterol, triglicerídeos, já que o paciente não lembrou de trazer os exames nem sabe direito por que está consultando com aquele médico. Isso acontece TODOS os dias, acreditem! TODOS os dias!!!

Claro que um sistema informatizado integrado poderia resolver este último problema, mas mesmo assim, não há dinheiro público suficiente para açambarcar toda saúde da nação. Aí você vai dizer: e se o Zé Ninguém, pobre de marré de si, que mora na Rua do Sobe e Desce, número que não aparece, que não tem onde cair morto acaba caindo na Emergência do Hospital, vomitando sangue pelas orelhas depois de ter tomado todas e mais algumas, o que fazer? Cobrar como dessa figura? Tiramos-lhe as calças cagadas? De forma alguma! Este paciente precisa ser realmente ajudado! Seu problema é principalmente social. A este, se o Estado não ajudar, a morte vai logo logo pegar. Este pode ser supervisionado por uma equipe de médicos comunitários, auxiliado por uma assistente social e, inclusive, pensar em pagar seu atendimento com algum serviço voluntário. Pôxa, mas ele não tem dinheiro nem pra cachaça quanto mais pra pensar em fazer serviço voluntário! Aí é que você se engana! Para quem não ganha migalha, um serviço “voluntário” que ofereça residência temporária, alimentação e vestimenta é uma “baita mão na roda”. Mas o que você está dizendo: o mendigo bebum vai trabalhar pro governo? É isso aí que estou dizendo!!! O cara morava na rua, bebia até vomitar o fígado. Agora ele vai pra uma casa comunitária mantida pelo governo, vai ter uma assistente social lhe ajudando, orientação e supervisão de uma equipe composta por, no mínimo alguns médicos comunitários, psicólogos e voluntários e vai ser, ele mesmo, um voluntário. Pode ajudar a limpar os parques da cidade, pode ajudar na cozinha da casa comunitária, pode ajudar- depois da barba feita e de uma orientação – a cuidar de crianças em uma creche comunitária. Utopia? Menor do que a de um sistema público universal integral e gratuito de saúde pública!

A idéia é essa. Todos temos que colaborar com o Sistema Único de Saúde para que ele realmente possa beneficiar a todos, integralmente e de forma verdadeiramente efetiva. Não devemos ter vergonha em aceitar que não estamos ainda prontos para realizar nosso sonho. A idéia do SUS continua sendo, em essência, fenomenal e única. O momento, infelizmente, ainda não chegou. Hora de retroceder para ganhar fôlego. Só assim sairemos deste buraco que estamos nos enfiando e nos aproximaremos do conceito de saúde pregado pela Organização Mundial da Saúde: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade”. . Até lá!”

Uma Tentativa de uma Breve Análise Sócio-Psicológica das Letras de “Admirável Chip Novo”, “Máscara”, “O Lobo” e “Do Mesmo Lado”, de Pitty

Para realizar esta valorosa e curiosa tarefa resolvi convidar algumas pessoas, às quais agradeço inestimavelmente pelas idéias geradas e divididas. Essas pessoas são: Maurício Silveira dos Santos, Lia Shulz, Luciane Kessler e Carolina Schumacher, que de ontem à tardinha até o surgir da noite, sentados comigo em um bar na Rua da República se dedicaram à tarefa – entre uma e outra amenidade – de fazer uma avaliação crítica de algumas músicas desta surpreendente cantora brasileira.

Pitty na verdade é Priscilla Leoni, tem 25 anos, nasceu na Bahia e, no meio de todo aquele axé conseguiu sair uma verdadeira musa do rock brazuca.

Passo agora a transcrever a letra de 4 de suas músicas (todas de autoria da própria Pitty) seguida de uma breve análise sócio-psicológica de suas letras. As fotos foram retiradas do site oficial da Pitty.

Admirável Chip Novo

Pane no sistema alguém me desconfigurou

Aonde estão meus olhos de robô?

Eu não sabia, eu não tinha percebido

Eu sempre achei que era vivo

Parafuso e fluído em lugar de articulação

Até achava que aqui batia um coração

Nada é orgânico é tudo programado

E eu achando que tinha me libertado

Mais lá vem eles novamente e eu sei o que vou fazer:

Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba

Leia, vote não se esqueça

Use, seja, ouça, diga

Tenha, more gaste e viva

Não sinhô, Sim sinhô, Não sinhô, Sim sinhô

A música sugere que estamos atravessados por uma confusão entre nossa identidade humana e nossa identidade máquina. Afinal, vivemos em tempos onde o mundo todo é governado por máquinas, desde automóveis, trens ou aviões mas também computadores, caixas-registradoras, celulares e CD-players.

No momento em que refere “nada é orgânico é tudo programado”, além da visão óbvia vinda de um robô que achava que era gente e se descobre robô, temos justamente a visão contrária, oferecida por Félix Guattari: de que na verdade somos humanos normalizados pelo Capitalismo Mundial Integrado, as forças sociais instituídas como Escola, Igreja, meios de comunicação de massa que produzem seres humanos com individualidade embotadas, que querem as mesmas coisas, tem os mesmos objetivos de consumo ou ideais de vida. Na frase “e eu achando que tinha me libertado”, podemos lembrar destas forças que a todo custo tentam minar nossa humanidade, tentando nos trazer de volta à “normalização”, à ausência de singularidade.

No refrão “pense, fale, compre, beba…”, temos imperativos categóricos que demonstram o aspecto acima referido dos meios de comunicação de massa e também das outras instituições tentando – mesmo de forma adolescente – “prescrever um comportamento”.

No fim (“não sinhô, sim sinhô, não sinhô, sim sinhô”) podemos ter uma visão pessimista – de que tudo permanecerá igual e somente o que devemos fazer é acenar com a cabeça baixa e seguir como bonecos manipulados – ou, como prefiro, uma visão otimista de que temos capacidade de responder à altura e nos libertar das opressões e das “falsas necessidades” que são geradas em nós pelo meio em que vivemos e que somos estimulados.

Máscara

Diga quem você é, me diga

Me fale sobre a sua estrada

Me conte sobre a sua vida

Tira

A máscara que cobre o seu rosto

Se mostre e eu descubro se eu gosto

Do seu verdadeiro jeito de ser

Ninguem merece ser só mais um bonitinho

Nem transparecer… consciente ou inconsequente

Sem se preocupar em ser adulto ou criança

O importante é ser você

Mesmo que seja estranho, seja você

Mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro

Meu cabelo não é igual

A sua roupa não é igual

Ao meu tamanho, não é igual

Ao seu caráter, não é igual

Não é igual, não é igual…

Esta música é justamente uma ode à produção da diferença, da singularidade que referíamos acima.

Ela também faz alusão às máscaras sociais que muitas vezes devemos criar para podermos nos bem comunicar no meio profissional, familiar mas que na verdade não representam o verdadeiro eu, ou nossa “essência”. Pitty canta em favor deste verdadeiro eu que deve se apresentar em todas as circunstâncias para gerar relações verdadeiras entre os seres e não entre nossas máscaras.

Quando canta: “meu cabelo não é igual, a sua roupa não é igual, ao meu tamanho, não é igual, ao seu caráter, não é igual…” nos lembramos que somos realmente diferentes, pessoas com intelectos, idéias, corpos, formas de agir e pensar diferentes mas que muitas vezes (e cada vez mais) tendemos a pensar e a agir de forma monotonamente mecanizada e repetitiva, novamente uma crítica à produção massificada de indivíduos iguais pelo Capitalismo Mundial Integrado (Félix Guattari).

O Lobo

Houve um tempo em que os homens

em suas tribos eram iguais

Veio a fome e então a guerra

pra alimentá-los como animais

não Houve tempo em que o homem

por sobre a terra viveu em paz

Desde sempre tudo é motivo

pra jorrar sangue cada vez mais

O homem é, o lodo do homem, o lobo

O homem é, o lodo do homem, o lobo

Sempre em busca do próprio gozo

e todo zelo ficou pra trás

Nunca cede e nem esquece

o que aprendeu com seus ancestrais

Não perdoa e nem releva

nunca vê que já é demais

Em “O Lobo” temos uma visão interessante do homem como o “bom selvagem” de Rousseau, como podemos aferir do início da música “houve um tempo em que os homens em suas tribos eram iguais”. Esta era a época do Estado de Natureza com uma auto-organização suficiente.

Já no refrão, a idéia que se passa é diferente: depois de algum tempo vivendo em harmonia, criou o homem a guerra e fez jorrar sangue, lembrando Hobbes e sua idéia de que o homem é egoísta por princípio e que o mundo não satisfaz suas necessidades, defendendo que no Estado Natural haveria necessariamente competição pela riqueza, pela segurança e pela glória.

Da passagem “sempre em busca do próprio gozo e todo zelo ficou pra trás” podemos fazer várias interpretações:

A primeira delas através de uma leitura zen: a busca eterna da satisfação, o desejo infinito – quando conseguimos algo, queremos algo mais infinitamente, Deveríamos nos livras desta busca constante pelos objetos de nosso desejo. Para Lacan a única forma de vivenciar um estado de não-desejo seria a Morte.

Para Gilles Deleuze e Félix Guattari o “gozo” referido expressaria-se através de um desejo de produção – produção de arte, de matéria, de dinheiro.

Também podemos fazer , da mesma sentença uma alusão ao atual governo norte-americano, que, além de não assinar o Tratado de Kyoto pela redução dos poluentes atmosféricos justificando simplesmente que isso iria reduzir a produção industrial americana, também volveu guerra contra o Iraque sem justificativa cabível.

Do Mesmo Lado

Quem chegou a ouvir o som?

Quem ligou se não tá no tom?

Quem não viu e mesmo assim falou?

Quem tomou e não gostou?

Quem dividiu o tudo em dois?

Quem preferiu deixar pra depois?

Quem escolheu o bem e o mal?

Quem achou que tudo é normal?

E eu tô do mesmo lado que você

E eu tô no mesmo barco que você

Então pensa, ouve e vive a música

Quem chegou a ouvir o som?

Quem ligou se não tá no tom?

Quem não viu e mesmo assim falou?

Quem tomou e não gostou?

Quem partiu a Terra ao meio?

Quem decidiu o que era feio?

Quem acreditou no “tudo bem”?

Quem confiou em alguém?

E eu tô do mesmo lado que você

E eu tô no mesmo barco que você

Então pensa, ouve e vive a música

Esta música abre-se a numerosas interpretações. De uma forma geral, ela fala de solidariedade, busca uma lógica holística, plural e que, por isso mesmo induz à contradição – lembrando o pensamento complexo de Edgar Morin.

“Quem preferiu deixar pra depois?”- lembra um hábito muito presente nas sociedades ocidentais urbanas: o da procrastinação. Acabamos por empurrar as coisas com a barriga sempre para a última hora quando devemos faze-lo correndo para tender o prazo solicitado.

“Quem escolheu o bem e o mal?” – lembra o maniqueísmo a que muitos ainda somos afeitos e também levanta a questão taoísta do caminho do meio, a busca do equilíbrio entre o bem e o mal.

“Quem não viu e mesmo assim falou?” – lembra novamente a busca de armas de destruição em massa no Iraque, que apesar de não existirem foram o motivo para a invasão e destruição do país.

“Quem decidiu o que era feio?” faz lembrar Nietsche em seu questionamento sobre quem havia decidido quais os valores de nossa forma de viver.

Bem, é isso! Poderíamos ter desenvolvido mais idéias pois a fertilidade desta terra que são as letras da Pitty são enormes. Essa foi a primeira de uma série de “Tentativas” que irei fazer com auxílio de amigos nos mais variados bares de Porto Alegre. Até a próxima!

PRÓXIMOS PÔUSTS: a decidir

Jan 05

By rafaelreinehr | Uncategorized

Das delícias de preparar um pôust

Não sabia se escreveria em prosa

Ou ousaria tentar em poesia

Este pôust que versa sobre as delícias

Proporcionadas pela nova tecnologia

Decidi fazer uma mistura

Entre essas duas formas de escrever

Para tentar mostrar a quem lê

Como um blógue pode nos dar prazer

O bom blogueiro é um grande comentador. Pega o mundo, seleciona os principais ingredientes, coloca-os em um caldeirão e com temperos tirados de sua bolsa mágica de idéias cria pratos magníficos para alimentar e deliciar seus interlocutores.

Delícia que podemos comparar a um prato no seu sentido real, a uma música recém-composta e cheia de viço , a um quadro ou escultura cuidadosamente criados e saborosos de ver. Há também, é claro, aqueles feitos com desleixo, sem preocupação alguma com transferência de conhecimento, geração de informação estética ou ética e acabam por ser unicamente depósitos de acontecimentos do dia-a-dia, com relativamente pouco valor.

Neste mundo interessante

Que reúne iniciantes e iniciados

Existem blógues com muito humor

E outros mais embotados

Muitos versam sobre cinema, música e teatro

Outros sobre política, democracia e anarquia

Outros ainda sobre esportes

Tantos mais obre filosofia

E assim seguem os muitos

Sobre assuntos sem fim

Nesta mixórdia que agrada

A ele, a você ou a mim

O fim da residência médica e a perspectiva que se abre

Em 31 de dezembro último acabei minha residência médica em Endocrinologia e Metabologia, concluindo uma etapa de 10 anos dedicados majoritariamente à Medicina.

A formação do médico exige grande dedicação tanto no que se refere ao tempo diário necessário dispensado quanto ao cuidado e responsabilidade sobre aquilo que ele pretende lidar: a saúde e a vida de seres humanos.

A responsabilidade necessária requer uma personalidade apta a lidar com as demandas que ocorrem na vida de um médico, que deve estar pronto a cada – e em todo – momento para realizar sua tarefa. O tempo necessário para chegar à tranqüilidade de poder oferecer a cura para parte, alívio para muitos e o conforto para aqueles onde a Medicina ainda não chegou é definitivamente extenso.

O conhecimento técnico necessário para uma boa prática médica é volumoso e, nos dias de hoje, cresce assustadoramente e já se encontra fora do controle mesmo do mais dedicado profissional. Esse problema pode ser resolvido a contento mantendo-se atualizado através da leitura dos principais periódicos da área (que “resumem” as grandes novidades em suas páginas) e freqüentando Congressos médicos.

Aqui, defendo a necessidade de uma especialização para manter o atendimento primoroso de meu paciente. De outra forma, é impossível açambarcar o novo conhecimento gerado e proporcionar a forma mais rápida e precisa de diagnóstico e a terapêutica mais resolutiva e isenta de efeitos colaterais. Com isso, veja bem, não estou dizendo que só devam haver especialistas, PELO CONTRÁRIO!

A porta de entrada no sistema de saúde deve se realizar através de capacitados médicos generalistas, aqueles que sabem “um pouco de tudo” e conseguem resolver satisfatoriamente pelo menos oitenta por cento dos problemas de saúde que encontramos atualmente. No caso de encontrarem dificuldade, saberão qual o melhor especialista ao qual encaminhar.

Mas a questão chave de todo meu discurso inicia agora, justamente fundamentada em duas leituras que realizei durante a faculdade de Medicina: a “especialização ou fragmentação do conhecimento” e a falta da religação dos saberes abordados por Fritjof Capra e Edgar Morin.

Em todas áreas, a ciência fratura o conhecimento em pedaços cada vez menores, criando especialistas que sabem cada vez mais de cada vez menos. Tem em suas mãos, ao final, um pequeno mundo sob seu domínio que é incomunicável aos “outros mundos” dominados por seus colegas de outras áreas do conhecimento. Foi criada uma quase total incapacidade de se conhecer o mundo como um todo. Desmontamos o relógio, conhecemos a função de cada uma de suas peças mas não conseguimos mais montar o relógio e faze-lo funcionar!

Muitos de nós, ainda inspirados pelo pensamento cartesiano que nos foi imposto goela abaixo durante o ensino fundamental só consegue ver o mundo como uma caixa fechada onde os interruptores de luz só podem estar em duas posições: ligada ou desligada. O que temos dificuldade em perceber é que, este mesmo interruptor pode estar na posição “ligado” e a lâmpada queimada não irá acender; pode estar na posição “desligado” e um circuito cruzado por um inseto faz a lâmpada acender; ou, ainda, pode ocorrer da chave seletora ficar no meio do caminho, presa por uma “sujeirinha” e a lâmpada acender ou não. Assim é o mundo real: complexo e não composto de variáveis que podemos determinar em sua totalidade a todo instante.

É aí que entra a magia da arte!

Perceber este mistério, esta necessária incompletude que a Natureza e o real nos impõe e tratar de “nos completar em união à essência primeira” é um dos nossos principais objetivos. Nos dar conta das interrelações entre todas as coisas e percebermos que todas as coisas são Um é fundamental para que possamos lidar de forma verdadeira e justa para com os semelhantes e para com o mundo.

Assim, dada uma brevíssima introdução a minha forma de pensar esta Natureza que compartilhamos, posso voltar ao tema que me propus.

Como já disse, é findo um ciclo: o de aprendizado técnico intensivo, científico da Medicina. A busca furiosa e incessante de meus colegas cientistas médicos, físicos, químicos, biólogos não vai parar – e eu agradeço por isso. A mim cabe, de forma a otimizar meu tempo disponível, encontrar um local que sintetize este conhecimento e me ofereça de forma parcialmente digerida para que eu possa seguir tratando meus pacientes da forma mais “up to dated” possível.

Finalmente poderei dedicar-me de forma mais intensa àquilo que descobri ser peculiar à minha essência ( e que fica mais forte à medida que o tempo passa): o estudo das humanidades e tudo que lhes diz respeito: sua arte, sua forma de relacionar, sua produção econômica, política e social, sua cultura enfim. Já me dediquei a isso de forma incipiente durante a faculdade de Medicina em cursos realizados espontaneamente e através de leituras afins. Durante meu primeiro ano de especialização em Medicina Interna, em 2000, acabei prestando vestibular para Filosofia e cursei as cadeiras disponíveis deste que era um curso diurno. Ao término do semestre, sem mais cadeiras com horários compatíveis, pedi transferência para as Ciências Sociais, que, apaixonado, cursei por três semestres, até a ganância – entenda-se trabalhos noturnos remunerados em plantões e atendimentos ambulatoriais acabaram por suprimir.

Agora, tenho por certo que nos anos vindouros, contando a partir deste, poderei utilizar parte mais substanciosa do meu tempo à leitura de obras há tanto enfileiradas como fundamentais em minha longa lista de espera; poderei dedicar-me com mais afinco à pintura, negligenciada por tanto tempo; dedicar-me-ei mais à música tanto na apreciação quanto na composição ¿ o que já realizo há mais de 10 anos e ficou em segundo plano neste tempo todo; poderei quem sabe incursionar com mais vigor no reino da sétima arte, pondo em prática roteiros escritos e guardados na gaveta; destinarei parte do tempo para o cuidado com meu corpo, receptáculo material do meu intelecto, que me dá liberdade de ir e vir em busca de minhas conquistas e garante o pão que como e que meus filhos comerão; invadirei com ímpeto o mundo da fotografia, para o qual estou prestes a fazer um grande investimento para aquisição da máquina, lentes e material adequado para meus propósitos; seguirei mantendo o Simplicíssimo como uma porta de entrada para novos escritores e seus escritos; tratarei de organizar juntamente com o Eduardo Sabbi e o Milton Ribeiro um Sarau Literário em minha cidade, onde novos escritores poderão dar asas a sua produção e mostrar em público sua obra; seguirei minha missão de buscar solucionar os problemas do corpo em meus pacientes – sempre com a clara noção de que não posso dissociar uma célula de seu órgão, um órgão de seu corpo e seu corpo do meio social onde este vive, nem tampouco de sua produção subjetiva; deixarei o espírito aberto para que novas possibilidades de criação se aproximem e tenham seu lugar em minha vida.

Portanto, 2004 aponta para mim uma nova perspectiva, um horizonte fantasticamente repleto de atividades culturais e incrivelmente fértil em produções artísticas. Vinde a mim 2004!

A impossibilidade do SUS (parte I de II)

O SUS (Sistema Único de Saúde) brasileiro é uma grande utopia que já dura mais de 16 anos.

Nosso sistema de saúde é baseado em vários princípios básicos, sendo dois deles fundamentais: o da UNIVERSALIDADE e o da INTEGRALIDADE.

O princípio da UNIVERSALIDADE prega que todo e qualquer cidadão brasileiro tem direito de acesso gratuito à saúde e o princípio da INTEGRALIDADE diz que esse acesso deve ser irrestrito desde a consulta médica mais simples, até o exame diagnóstico mais elaborado e o tratamento mais complexo e caro disponível.

Tais princípios – e vou me ater somente a eles pois já provam meu ponto de vista – são bloqueados por alguns aspectos que discutirei agora.

O primeiro deles diz respeito à distribuição dos médicos pelos diferentes espaços do país. Todos sabemos que há médicos de todas especialidades sobrando nos grandes centros ao mesmo tempo em que há carência em muitas cidades do interior ou zonas rurais, causando o “fenômeno da multiplicação de ambulâncias e vans”, no qual grande parte da verba de um dado município é destinada não a programas de assistência à saúde no próprio município mas na compra e manutenção de veículos e serviços de assistência social para organizar o transporte de enfermos para cidades vizinhas (o que é muito mais barato) – sobrecarregando assim a rede pública do outro município.

O segundo aspecto diz respeito a este mesmo assunto: há insuficiência de leitos em hospitais de assitência secundária e terciária à saúde em praticamente todas as capitais, sem citar leitos de Unidades de Tratamento Intensivo adultos, infantis e neonatais.

Devido a essa mesma falta de especialistas nos locais afastados dos grandes centros foi criado um sistema de encaminhamento onde o paciente da Unidade de Saúde periférica é encaminhado, através de um gerenciamento centralizado das consultas, para consultar nos locais onde existem estes profissionais. A questão permanece: pela insuficiência de profissionais contratados – ou pela grande demanda, você quem escolhe o ponto de vista – acabam agendando consultas com espera de 6 meses ou mais para várias especialidades.

Existe ainda outra questão fundamental que devemos abordar: a insuficiência do dinheiro destinado à saúde.

Ano após ano os custos com despesas de saúde aumentam, quer seja pelo surgimento de novas tecnologias e métodos que se tornam necessários para o melhor diagnóstico das enfermidades ( e que não substituem e toa somente acrescentam ônus aos exames anteriores ) quer seja pelo custo dos tratamentos com novos fármacos que já surgem com preços exorbitantes para compensar os custos da pesquisa farmacêutica.

Nem mesmo grandes potências e países considerados desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e França conseguem manter um sistema de saúde público universal e integralmente gratuito. Não há disposição humana nem condições financeiras para sua manutenção.

Daí, surgiu a idéia para um novo SUS, melhor estruturado e pago, conforme as condições de cada usuário, ferramenta inclusive para uma melhor distribuição de renda no país, assunto já parcialmente abordado por mim no Editorial da edição número 34 do Simplicíssimo* e tema da parte II deste pôust.

* A propósito das auto-citações: quem me acompanha aqui no Escrever Por Escrever deve ter percebido que sou afeito a auto-citações. Tenho consciência que as mesmas são, senão forma de auto-promoção pelo menos uma ferramenta utilizada por alguém que escreve mais do que lê e muitas vezes acha que saba mais do que na realidade sabe. Tratarei de corrigir isto durante o ano, intensificando minhas leituras.

É mister também que evitemos extensas e cansativas citações, que muitas vezes tentam demonstrar um nível adquirido de cultura que soa brutalmente pegajoso e é desnecessário. Podemos fazê-lo para evitar injustiças quando nos utilizamos da obra de outrem, mas nunca de forma proposital para inflarmos as percepções de outros a nosso respeito ou para tentar induzir um proselitismo demasiada. Todos, de uma forma ou de outra, tentamos catequizar nossos leitores – espertos que somos – mas não devemos levar isto a extremos que ultrapassem a simples sugestão de uma idéia.

Também pretendo daqui para frente limitar o uso das mesóclises, com as quais inadvertidamente indiquei um nível de controle da língua portuguesa que não tenho. Quando as utilizar, tenham por certo que será por questão de estilo e estética e não uma busca constante de um linguajar culto necessariamente (puta que o pariu!).

Bem, é isso. Creio que o excesso de tempo livre neste “fim-de-semana prolongado” me deixou deveras prolixo. Tentarei me conter nas próximas ocasiões!

PRÒXIMOS PÔUSTS: “A impossibilidade do SUS” (parte II de II) e “Uma Tentativa de uma Breve Análise Sócio-Psicológica das Letras de “Admirável Chip Novo”, “Máscara”, “O Lobo” e “Do Mesmo Lado”, de Pitty”