Posts made in junho, 2004


Já está no ar a nova edição do site “A Fábrica“. Tá… E aí? O que que tem de legal nesta joça? A Fábrica é uma idéia bem bacana de Luiz Coutinho, que explora nuances da literatura contemporânea que praguejantemente caminha tal andarilho sem rumo pela internet.

O bom de tudo isto é que este quem vos fala tem um textículo publicado lá. Está dentro de “projeto blog: rafael reinehr”. O tema da edição é Tudo muito blue. Deixem seus comentários por lá mesmo!

Cinema e Antropologia

Dia desses, em uma aula de Antropologia Visual deparei-me com um texto de Claudine de France, onde a mesma disserta sobre uma das duas tendências essenciais do cinema antropológico: o filme de exposição (em contraposição ao filme de exploração). Claudine tem publicado no Brasil o livro “Cinema e Antropologia”, de onde extraí as informações para esta resenha. Uma das maiores expoentes da Antropologia Fílmica, ao lado de Jean Rouch, o “pai dos documentários e etnografias fílmicas”, Claudine é figurinha básica para todos aqueles que querem aventurar-se nesta instigante área do cinema que é a da realidade colocada na tela.

A primeira afirmação feita é a de que o filme de exposição é, historicamente, anterior ao filme de exploração, justamente pelo caráter clássico pré-existente na realização das etnografias: através de longos períodos de acompanhamento das culturas estudadas, através da realização de entrevistas, etc. Com o surgimento do cinema, simplesmente manteve-se o mesmo trabalho inicial mas acrescentou-se, ao final, o registro daquilo que o olho do etnógrafo havia captado, de certa forma já com uma espécie de “pré-edição” mental realizada.

Quais seriam alguns aspectos que, então, privilegiariam o desenvolvimento de uma assim dita “filmagem de exposição”? Bem, um deles diz respeito a situações em que o ato a ser gravado repete-se várias vezes em curtos períodos de tempo, podendo assim ser facilmente estudado, questionado e, assim, melhor preparado o seu registro.

Outro aspecto que, pelo menos inicialmente, foi importante para o desenvolvimento da filmagem de exposição foi o pouco desenvolvimento tecnológico até então existente, dificultando o trânsito fácil necessário a gravações “intensivas”, por assim dizer. Devido ao uso de películas não suscetíveis a revelação imediata e câmeras mecânicas, que obrigavam tempos curtos de filmagem, o cineasta era obrigado, por uma questão de economia, a planejar uma única sessão de gravações. Frase que resume isso tudo que eu disse: “A pesquisa extra-cinematográfica, sendo uma etapa antecipatória de um futuro registro, encontra sua finalização lógica num filme concebido como procedimento de reconhecimento mais do que de descoberta” (digo eu, exatamente o que o diferencia de um filme de exploração).

Claudine separa, concorde às possibilidades técnicas da década de 50, as alternativas possíveis em relação à gravação das imagens: ou se aceitava a apresentação descontínua dos processos, respeitando o desenvolvimento natural e tentando ressaltar os aspectos fortes, a partir de uma estratégia prévia ou, com certa “vergonha”, recusava-se a fragmentação e “simulava-se” a continuidade com procedimentos de interrupção e reinício dos atos e processos a serem registrados.

A seguir, analisa-se a historicamente “observação direta” dos acontecimentos e seu registro clássico através da escrita e a resistência inicial em relação ao filme. Considerava-se este apenas como uma cópia, um “testemunho da observação direta”. “Temia-se a artificialidade de sua elaboração” (como se não devesse temer a artificialidade da produção de um texto julgado “etnográfico”, menos passível de ser confrontado e questionado, principalmente em eventos raros, longínquos ou que exijam grande demanda de tempo).

Mais tarde, Luc de Heusch faz uma análise favorável à imagem animada, chegando a propor que nas filmagens de rituais, por exemplo, podem aparecer, pela primeira vez, detalhes não obtidos nos levantamentos orais e que, além disso, a imagem exerce função de controle sobre a observação direta, que pode ser corrigida posteriormente.

Aí não se incluem outras facilidades do registro fílmico, como o uso da câmera lenta para estudar aspectos de técnicas corporais como fizeram Jean Rouch e Gilbert Rouget.

A seguir, são enumeradas algumas técnicas utilizadas para “maquiar” os filmes, como por exemplo ocorria para produzir a ilusão de uma continuidade temporal, através do uso do “plano de cobertura”. Usando esta técnica, quando ocorria uma interrupção forçada da filmagem, usava-se um registro de distração, como um “close” do rosto do ator ou um animal doméstico que ronda o lugar, para depois voltar à sequência normal, em uma etapa posterior do desenrolar da ação.

Um problema constatado é o que se chama de pró-filmia, ou seja, o filme em primeiro lugar, mesmo sacrificando a naturalidade das ações. Muitas vezes se tenta negar, mas para conseguir a sequência adequada de eventos o cineasta-antropólogo solicita ao ator da ação que repita determinado gesto que foi perdido na filmagem, caracterizando novamente mais um tipo de mis en scène.

Bruscamente concluindo, o filme de exposição objetiva apresentar ao espectador a idéia que o cineasta-antropólogo faz de um processo, mais do que simplesmente apresentar o processo em sua forma crua. Isso é evidenciado pelas “encenações”, pelas “maquiagens” e pela escolha dos atos marcantes de um protagonista. O cineasta apresenta o resultado final de uma decupagem que inevitavelmente surgiu de uma leitura prévia condicionada à linguagem, quer seja esta interior ou escrita. Disto, conclui-se que os melhores filmes de exposição são possivelmente aqueles previamente construídos com maior esmero, com um fio condutor já determinado possibilitando concisão e simplicidade, sem deixar de escrutinar e esmiuçar o objeto de estudo. Finalmente, Claudine de France sugere que mesmo que novas formas de instrumentação audiovisual gerem novas concepções, ainda encontra-se distante o dia em que as obras provenientes deste novo arranjo metodológico venham a suplantar a qualidade dos melhores filmes de exposição.

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– Pai, olha só: estão reclamando que não chove há 4 anos ali no setão pernambucano.

– Pois é filho – lendo o jornal – que coisa não?

– É, pai. E dizem que isso só pode ser coisa sua…

– É mesmo? – dobrando o jornal e passando aprestar atenção.

– É. Dizem que você esqueceu deles…

– Mas como! Isto é uma falácia! – com uma ira de deixar até o Diabo com inveja – Não mandei há pouco uma chuva para irrigar todo o litoral e interior brasileiros?

– Sim papai! Mas é que ela começou no Rio Grande do Sul, se concentrou em São Paulo e erminou em Minas Gerais, antes de chegar no Nordeste!

– É?

– É, sim!

– Hummm – visivelmente contrariado – Mas é que essa história de Bush e Iraque está me dando nos nervos. Está tomando toda minha atenção. Maldito livre-arbítrio! Por que sua mãe foi inventar essa maluquice?!

– Agora é uclpa da mãe???

– Não filho, é que…

– Haaaaja paciência!

Blãm! – Jesus sai batendo a porta.

– Vai entender esses jovens! – e volta a ler o jornal.

PS: a propósito, se houvesse um concurso de blógues com o pior design e a pior aparência, pior combinação de cores, etc., você nãoa cha que este blógue ganharia disparado? Se conheceres algum pior, por favor me diga que vou correndo ver com meus próprios olhos!!!

PS2!: acabei de recuperar todos meus artigos do Escrever Por Escrever antigo lá do Blogger.br. Agora, toda a história deste site (exceto os comentários antigos – que sumiram – estão juntos em um bloco só, neste endeeço! Felicidade! tal como trazer os filhos de volta para uma festa em família que dura pela eternidade!

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Um vaso de flores

Um vaso de flores


Posted By on jun 20, 2004

Escrever Por Escrever logo360.jpg

Agora o Escrever Por Escrever tem um logotipo. Não sei como cheguei a ele. Fui indo, indo, e iu!

Entro na sala e não encontro nada exceto um galão de vinte litros de água. Naquela altura, as cadeiras, a pia, o ventilador, a cafeteira e o pequeno aparelho de som não chamam minha atenção. Fixo meu olhar naquele curioso galão de água.

Em menos do que um instante, um turbilhão de perguntas invadiu minha mente cansada e atordoada pelas preocupações corriqueiras – entretanto volumosas – do dia-a-dia:

– Quem levou aquele galão até lá?

– O que estará ele fazendo naquele canto?

– Para onde ele será levado e utilizado?

– De onde vem a água que nele se encontra?

– Quanto custou e onde foi comprado?

– Poderia ser só um enfeite no canto da sala?

– A cor azul do plástico que envolve a água é por motivo de legislação específica ou tão somente por falta de criatividade da empresa que envasa a água?

– Qual o percentual de cada sal mineral contido na água?

– Quais os caminhos que a água trilhou nos últimos anos até chegar àquele galão?

– Um galão de vinte litros de água mineral pesa o mesmo que um galão de vinte litros de água potável da torneira?

E as perguntas surgiam sem fim, me fazendo esquecer meu objetivo naquela sala e as cacofonias que produzia. O tempo passou, a noite caiu. Com ela o silêncio (alguém havia apagado o rádio, pouco antes da escuridão tomar conta da sala).

Não mais que de repente, o galão de água era apenas um corpo pouco nítido, mas claro o bastante para ver minha própria imagem nele refletida, com ajuda da parca iluminação vinda do corredor.

Nunca antes havia vislumbrado minhas formas: pernas finas, assim como os ombros e parte superior do corpo; cintura e abdômen largos, algo que poder-se-ia chamar de “aspecto cilíndrico quase-esférico”; do alto de minha cabeça, lindas extensões filiformes verdes com corpos multi-petalados coloridos – amarelos, vermelhos, brancos e cor-de-laranja. Gostei do que vi. Nada mau para um vaso de flores.

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Cinco Marias


Posted By on jun 17, 2004

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando…

Maria Quitéria tinha quatro filhas moças: Maria Antônia, Maria Júlia, Maria Cristina e Maria Solange, a primogênita.

Desde que se mudaram de Santa Maria para Piraporinha do Bem-Te-Vi, no meio da Campanha, a vida da família Boitempo havia ido para as cucuias.

Seu Bonifácio, ex-funcionário da extinta R.F.F.S.A. havia sido transferido para São Miguel oito anos antes, e mesmo com o fim da empresa que lhe sustentava decidiu que era lá que iria fincar sua bandeira.

E assim foi: apesar das dificuldades do começo, seu Bonifácio conseguiu fazer seu pequeno Armazém se destacar entre as vendas do lugarejo e, em pouco tempo, já era um dos mais respeitados comerciantes da região.

É claro que tamanho sucesso nunca vem só: chamou a atenção de algumas espertas e serelepes “senhoras” da vizinhança, que passaram a gastar boa parte de suas tardes na venda do “Seu Bona”, como era conhecido.

Por um tempo, Maria Quitéria fez vista grossa e agiu como se nada estivesse acontecendo. Um dia, ao entrar no bolicho, chegou a ver Dona Gertrudes, viúva do falecido Anastácio pular no pescoço de seu marido e lhe roubar uma bitoca. Fez que não viu.

O tempo passou, as meninas cresceram. Maria Solange já havia casado e morava em uma casinha construída atrás da casa dos pais. Foi então que os problemas realmente começaram.

Bonifácio, que já há alguns anos havia ficado adepto de um ou dois copinhos de pinga, já não mais chegava em casa sóbrio.

A gota d’água aconteceu em uma noite de outono: Maria Quitéria ainda não havia chegado do encontro de senhoras no clube local, Maria Júlia e Maria Cristina estavam na casa da irmã mais velha, nos fundos do terreno e Maria Antônia, com 15 anos na ocasião, estava no banho. Bonifácio chegou em casa com as bochechas rosadas – mistura das duas garrafas de vinho e do frio que se insinuava – e, ao ouvir o barulho de água caindo do chuveiro, foi direto ao banheiro, esperando achar por lá sua esposa a se banhar.

Ao lá chegar deu de cara com sua filha mais moça – assustada e nua – e, embriagado como poucos, não se intimidou e foi logo agarrando a menina, que tentava afastar o pai a tapas e gritos.

Quando Quitéria chegou, encontrou Bonifácio deitado na cama, roncando tranqüilamente com sua barriga para cima, pernas para fora da cama, ferrado no sono. Não imaginava o que houvera acontecido até entrar no banheiro. No canto, encolhida até os joelhos quase adentrarem o tórax, Maria Antônia jazia, em um misto de soluços e gemidos baixos, sentada em uma poça de sangue.

O breve olhar que sua filha lhe dirigiu antes de desabar em choro compulsivo foi o suficiente para Quitéria dirigir-se até a cozinha e selecionar sua mais afiada faca.

Adentrou o quarto do outrora feliz casal e consumou um fato que tinha a impressão devia ter praticado há tempos.

Ao sentir o frio metal invadir sua carne, Bonifácio só teve tempo de arregalar seus já esbugalhados e vermelhos olhos. Morreu estrebuchando qual porco carneado. Não conseguiu nem entender o que estava lhe acontecendo.

Assim que Bonifácio exalou seu derradeiro suspiro, Júlia, Cristina e Solange irromperam no quarto de Quitéria e se depararam com a mãe ajoelhada, imóvel, observando o corpo igualmente inerte, entretanto sem vida, de seu pai.

Por algum motivo, não houve espanto nem tampouco comoção. A serenidade naquele quarto era assombrosa. Só faltava resolver mais uma coisa. Com o corpo ainda quente.

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando.

Próximo pôust: Diálogos com Deus: Deus e a fome no mundo – Entrevista Coletiva

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O filme que estreiou mundialmente em 28 de maio mostra as conseqüências de algo que sentimos em nossas vidas ano após ano: o aquecimento global derivado das emissões incontroladas de dióxido de carbono. No site do filme (www.thedayaftertomorrow.com), além de anteciparmos o que podemos ver na telona, podemos aprender como fazer para diminuir ou compensar nossa contribuição ao aquecimento global, diminuindo nossa produção individual de dióxido de carbono, no site Future Forests, lá indicado. É claro que o custo da façanha não é nada barato (US$ 514,93 por ano seria o custo estimado para neutralizar as 22 toneladas de CO2 que cada um de nós produz anualmente).

Quero deixar bem claro que esta idéia não é original: o grupo musical Pink Floyd, ícone de rock progressivo da década de 70 foi quem estabeleceu a vanguarda da proteção ambiental através da orientação sobre como compensar a emissão de gases tóxicos – a idéia do Carbono-Neutro. No site http://www.pinkfloyd.com/echoes.html os artistas convocavam seus fãs e a todos com sentimentos ecológicos a plantarem uma árvore em três áreas que o grupo havia comprado, no Canadá, na Índia e na Escócia. Ensinavam que todo cidadão, através do uso de automóveis ou ônibus, através da produção de lixo, utilização de eletrodomésticos contribui com muitos quilos de CO2 anualmente e, da mesma forma, quantos quilos de CO2 cada árvore plantada é capaz de transformar em O2. Desta forma, saberíamos quantas árvores cada pessoa deveria plantar para compensar o estrago que fazemos diariamente ao nosso ambiente. A proposta do Pink Floyd seria de que cada ser humano devesse tornar-se um Carbono-Neutro.

Voltando ao filme, que tem cunho futurista (e fatalista), mostra as conseqüências de algo que vem sendo aventado com mais intensidade pelo menos nos últimos 12 anos, após a história Convenção Eco-Rio 92, onde foram planejados alguns ditames a serem seguidos por nações ecologicamente responsáveis. Não é preciso dizer que, da teoria para a prática existe um lapso quilométrico e pouca coisa entrou realmente em ação. Outro marco na busca da redução da poluição atmosférica e do aquecimento global foi o Tratado de Kyoto. Segundo o mesmo, as nações assinantes deveriam se comprometer a reduzir em 5% a emissão de gases tóxicos até 2012 em relação a 1990. A questão é que os Estados Unidos da América, país que sozinho é responsável por 25% da emissão de gases poluentes de todo o planeta, na figura de seu atual presidente George Bush, se recusou a assiná-lo, gerando um impasse difícil de ser solucionado. A argumentação do presidente norte-americano seria a de que nenhum tratado pode reduzir a capacidade industrial norte-americana e assim possibilitar que o povo americano seja lesado economicamente.

O filme, do mesmo diretor de Independence Day, dá uma radical guinada do ufanismo quase doentio deste último em direção a uma bofetada sem luva de pelica na face do governo norte-americano, parece até iluminada pelo clarão ofuscante chamado Michael Moore.

Sem julgamentos de juízo, o filme é uma patada demolidora. Para os adeptos do anti-americanismo, a consagração. Para os moderados, apenas mais um filme de ficção científica. Só mais uma coisa: não deixe para ver em vídeo!

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