Tudo muito blue / Cinema e Antropologia

Já está no ar a nova edição do site “A Fábrica“. Tá… E aí? O que que tem de legal nesta joça? A Fábrica é uma idéia bem bacana de Luiz Coutinho, que explora nuances da literatura contemporânea que praguejantemente caminha tal andarilho sem rumo pela internet.

O bom de tudo isto é que este quem vos fala tem um textículo publicado lá. Está dentro de “projeto blog: rafael reinehr”. O tema da edição é Tudo muito blue. Deixem seus comentários por lá mesmo!

Cinema e Antropologia

Dia desses, em uma aula de Antropologia Visual deparei-me com um texto de Claudine de France, onde a mesma disserta sobre uma das duas tendências essenciais do cinema antropológico: o filme de exposição (em contraposição ao filme de exploração). Claudine tem publicado no Brasil o livro “Cinema e Antropologia”, de onde extraí as informações para esta resenha. Uma das maiores expoentes da Antropologia Fílmica, ao lado de Jean Rouch, o “pai dos documentários e etnografias fílmicas”, Claudine é figurinha básica para todos aqueles que querem aventurar-se nesta instigante área do cinema que é a da realidade colocada na tela.

A primeira afirmação feita é a de que o filme de exposição é, historicamente, anterior ao filme de exploração, justamente pelo caráter clássico pré-existente na realização das etnografias: através de longos períodos de acompanhamento das culturas estudadas, através da realização de entrevistas, etc. Com o surgimento do cinema, simplesmente manteve-se o mesmo trabalho inicial mas acrescentou-se, ao final, o registro daquilo que o olho do etnógrafo havia captado, de certa forma já com uma espécie de “pré-edição” mental realizada.

Quais seriam alguns aspectos que, então, privilegiariam o desenvolvimento de uma assim dita “filmagem de exposição”? Bem, um deles diz respeito a situações em que o ato a ser gravado repete-se várias vezes em curtos períodos de tempo, podendo assim ser facilmente estudado, questionado e, assim, melhor preparado o seu registro.

Outro aspecto que, pelo menos inicialmente, foi importante para o desenvolvimento da filmagem de exposição foi o pouco desenvolvimento tecnológico até então existente, dificultando o trânsito fácil necessário a gravações “intensivas”, por assim dizer. Devido ao uso de películas não suscetíveis a revelação imediata e câmeras mecânicas, que obrigavam tempos curtos de filmagem, o cineasta era obrigado, por uma questão de economia, a planejar uma única sessão de gravações. Frase que resume isso tudo que eu disse: “A pesquisa extra-cinematográfica, sendo uma etapa antecipatória de um futuro registro, encontra sua finalização lógica num filme concebido como procedimento de reconhecimento mais do que de descoberta” (digo eu, exatamente o que o diferencia de um filme de exploração).

Claudine separa, concorde às possibilidades técnicas da década de 50, as alternativas possíveis em relação à gravação das imagens: ou se aceitava a apresentação descontínua dos processos, respeitando o desenvolvimento natural e tentando ressaltar os aspectos fortes, a partir de uma estratégia prévia ou, com certa “vergonha”, recusava-se a fragmentação e “simulava-se” a continuidade com procedimentos de interrupção e reinício dos atos e processos a serem registrados.

A seguir, analisa-se a historicamente “observação direta” dos acontecimentos e seu registro clássico através da escrita e a resistência inicial em relação ao filme. Considerava-se este apenas como uma cópia, um “testemunho da observação direta”. “Temia-se a artificialidade de sua elaboração” (como se não devesse temer a artificialidade da produção de um texto julgado “etnográfico”, menos passível de ser confrontado e questionado, principalmente em eventos raros, longínquos ou que exijam grande demanda de tempo).

Mais tarde, Luc de Heusch faz uma análise favorável à imagem animada, chegando a propor que nas filmagens de rituais, por exemplo, podem aparecer, pela primeira vez, detalhes não obtidos nos levantamentos orais e que, além disso, a imagem exerce função de controle sobre a observação direta, que pode ser corrigida posteriormente.

Aí não se incluem outras facilidades do registro fílmico, como o uso da câmera lenta para estudar aspectos de técnicas corporais como fizeram Jean Rouch e Gilbert Rouget.

A seguir, são enumeradas algumas técnicas utilizadas para “maquiar” os filmes, como por exemplo ocorria para produzir a ilusão de uma continuidade temporal, através do uso do “plano de cobertura”. Usando esta técnica, quando ocorria uma interrupção forçada da filmagem, usava-se um registro de distração, como um “close” do rosto do ator ou um animal doméstico que ronda o lugar, para depois voltar à sequência normal, em uma etapa posterior do desenrolar da ação.

Um problema constatado é o que se chama de pró-filmia, ou seja, o filme em primeiro lugar, mesmo sacrificando a naturalidade das ações. Muitas vezes se tenta negar, mas para conseguir a sequência adequada de eventos o cineasta-antropólogo solicita ao ator da ação que repita determinado gesto que foi perdido na filmagem, caracterizando novamente mais um tipo de mis en scène.

Bruscamente concluindo, o filme de exposição objetiva apresentar ao espectador a idéia que o cineasta-antropólogo faz de um processo, mais do que simplesmente apresentar o processo em sua forma crua. Isso é evidenciado pelas “encenações”, pelas “maquiagens” e pela escolha dos atos marcantes de um protagonista. O cineasta apresenta o resultado final de uma decupagem que inevitavelmente surgiu de uma leitura prévia condicionada à linguagem, quer seja esta interior ou escrita. Disto, conclui-se que os melhores filmes de exposição são possivelmente aqueles previamente construídos com maior esmero, com um fio condutor já determinado possibilitando concisão e simplicidade, sem deixar de escrutinar e esmiuçar o objeto de estudo. Finalmente, Claudine de France sugere que mesmo que novas formas de instrumentação audiovisual gerem novas concepções, ainda encontra-se distante o dia em que as obras provenientes deste novo arranjo metodológico venham a suplantar a qualidade dos melhores filmes de exposição.

Diálogos com Deus: Deus e a seca no nordeste brasileiro

– Pai, olha só: estão reclamando que não chove há 4 anos ali no setão pernambucano.

– Pois é filho – lendo o jornal – que coisa não?

– É, pai. E dizem que isso só pode ser coisa sua…

– É mesmo? – dobrando o jornal e passando aprestar atenção.

– É. Dizem que você esqueceu deles…

– Mas como! Isto é uma falácia! – com uma ira de deixar até o Diabo com inveja – Não mandei há pouco uma chuva para irrigar todo o litoral e interior brasileiros?

– Sim papai! Mas é que ela começou no Rio Grande do Sul, se concentrou em São Paulo e erminou em Minas Gerais, antes de chegar no Nordeste!

– É?

– É, sim!

– Hummm – visivelmente contrariado – Mas é que essa história de Bush e Iraque está me dando nos nervos. Está tomando toda minha atenção. Maldito livre-arbítrio! Por que sua mãe foi inventar essa maluquice?!

– Agora é uclpa da mãe???

– Não filho, é que…

– Haaaaja paciência!

Blãm! – Jesus sai batendo a porta.

– Vai entender esses jovens! – e volta a ler o jornal.

PS: a propósito, se houvesse um concurso de blógues com o pior design e a pior aparência, pior combinação de cores, etc., você nãoa cha que este blógue ganharia disparado? Se conheceres algum pior, por favor me diga que vou correndo ver com meus próprios olhos!!!

PS2!: acabei de recuperar todos meus artigos do Escrever Por Escrever antigo lá do Blogger.br. Agora, toda a história deste site (exceto os comentários antigos – que sumiram – estão juntos em um bloco só, neste endeeço! Felicidade! tal como trazer os filhos de volta para uma festa em família que dura pela eternidade!

Um vaso de flores

Escrever Por Escrever logo360.jpg

Agora o Escrever Por Escrever tem um logotipo. Não sei como cheguei a ele. Fui indo, indo, e iu!

Entro na sala e não encontro nada exceto um galão de vinte litros de água. Naquela altura, as cadeiras, a pia, o ventilador, a cafeteira e o pequeno aparelho de som não chamam minha atenção. Fixo meu olhar naquele curioso galão de água.

Em menos do que um instante, um turbilhão de perguntas invadiu minha mente cansada e atordoada pelas preocupações corriqueiras – entretanto volumosas – do dia-a-dia:

– Quem levou aquele galão até lá?

– O que estará ele fazendo naquele canto?

– Para onde ele será levado e utilizado?

– De onde vem a água que nele se encontra?

– Quanto custou e onde foi comprado?

– Poderia ser só um enfeite no canto da sala?

– A cor azul do plástico que envolve a água é por motivo de legislação específica ou tão somente por falta de criatividade da empresa que envasa a água?

– Qual o percentual de cada sal mineral contido na água?

– Quais os caminhos que a água trilhou nos últimos anos até chegar àquele galão?

– Um galão de vinte litros de água mineral pesa o mesmo que um galão de vinte litros de água potável da torneira?

E as perguntas surgiam sem fim, me fazendo esquecer meu objetivo naquela sala e as cacofonias que produzia. O tempo passou, a noite caiu. Com ela o silêncio (alguém havia apagado o rádio, pouco antes da escuridão tomar conta da sala).

Não mais que de repente, o galão de água era apenas um corpo pouco nítido, mas claro o bastante para ver minha própria imagem nele refletida, com ajuda da parca iluminação vinda do corredor.

Nunca antes havia vislumbrado minhas formas: pernas finas, assim como os ombros e parte superior do corpo; cintura e abdômen largos, algo que poder-se-ia chamar de “aspecto cilíndrico quase-esférico”; do alto de minha cabeça, lindas extensões filiformes verdes com corpos multi-petalados coloridos – amarelos, vermelhos, brancos e cor-de-laranja. Gostei do que vi. Nada mau para um vaso de flores.

Cinco Marias

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando…

Maria Quitéria tinha quatro filhas moças: Maria Antônia, Maria Júlia, Maria Cristina e Maria Solange, a primogênita.

Desde que se mudaram de Santa Maria para Piraporinha do Bem-Te-Vi, no meio da Campanha, a vida da família Boitempo havia ido para as cucuias.

Seu Bonifácio, ex-funcionário da extinta R.F.F.S.A. havia sido transferido para São Miguel oito anos antes, e mesmo com o fim da empresa que lhe sustentava decidiu que era lá que iria fincar sua bandeira.

E assim foi: apesar das dificuldades do começo, seu Bonifácio conseguiu fazer seu pequeno Armazém se destacar entre as vendas do lugarejo e, em pouco tempo, já era um dos mais respeitados comerciantes da região.

É claro que tamanho sucesso nunca vem só: chamou a atenção de algumas espertas e serelepes “senhoras” da vizinhança, que passaram a gastar boa parte de suas tardes na venda do “Seu Bona”, como era conhecido.

Por um tempo, Maria Quitéria fez vista grossa e agiu como se nada estivesse acontecendo. Um dia, ao entrar no bolicho, chegou a ver Dona Gertrudes, viúva do falecido Anastácio pular no pescoço de seu marido e lhe roubar uma bitoca. Fez que não viu.

O tempo passou, as meninas cresceram. Maria Solange já havia casado e morava em uma casinha construída atrás da casa dos pais. Foi então que os problemas realmente começaram.

Bonifácio, que já há alguns anos havia ficado adepto de um ou dois copinhos de pinga, já não mais chegava em casa sóbrio.

A gota d’água aconteceu em uma noite de outono: Maria Quitéria ainda não havia chegado do encontro de senhoras no clube local, Maria Júlia e Maria Cristina estavam na casa da irmã mais velha, nos fundos do terreno e Maria Antônia, com 15 anos na ocasião, estava no banho. Bonifácio chegou em casa com as bochechas rosadas – mistura das duas garrafas de vinho e do frio que se insinuava – e, ao ouvir o barulho de água caindo do chuveiro, foi direto ao banheiro, esperando achar por lá sua esposa a se banhar.

Ao lá chegar deu de cara com sua filha mais moça – assustada e nua – e, embriagado como poucos, não se intimidou e foi logo agarrando a menina, que tentava afastar o pai a tapas e gritos.

Quando Quitéria chegou, encontrou Bonifácio deitado na cama, roncando tranqüilamente com sua barriga para cima, pernas para fora da cama, ferrado no sono. Não imaginava o que houvera acontecido até entrar no banheiro. No canto, encolhida até os joelhos quase adentrarem o tórax, Maria Antônia jazia, em um misto de soluços e gemidos baixos, sentada em uma poça de sangue.

O breve olhar que sua filha lhe dirigiu antes de desabar em choro compulsivo foi o suficiente para Quitéria dirigir-se até a cozinha e selecionar sua mais afiada faca.

Adentrou o quarto do outrora feliz casal e consumou um fato que tinha a impressão devia ter praticado há tempos.

Ao sentir o frio metal invadir sua carne, Bonifácio só teve tempo de arregalar seus já esbugalhados e vermelhos olhos. Morreu estrebuchando qual porco carneado. Não conseguiu nem entender o que estava lhe acontecendo.

Assim que Bonifácio exalou seu derradeiro suspiro, Júlia, Cristina e Solange irromperam no quarto de Quitéria e se depararam com a mãe ajoelhada, imóvel, observando o corpo igualmente inerte, entretanto sem vida, de seu pai.

Por algum motivo, não houve espanto nem tampouco comoção. A serenidade naquele quarto era assombrosa. Só faltava resolver mais uma coisa. Com o corpo ainda quente.

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando.

Próximo pôust: Diálogos com Deus: Deus e a fome no mundo – Entrevista Coletiva

O Dia Depois de Amanhã – 28 de maio

O filme que estreiou mundialmente em 28 de maio mostra as conseqüências de algo que sentimos em nossas vidas ano após ano: o aquecimento global derivado das emissões incontroladas de dióxido de carbono. No site do filme (www.thedayaftertomorrow.com), além de anteciparmos o que podemos ver na telona, podemos aprender como fazer para diminuir ou compensar nossa contribuição ao aquecimento global, diminuindo nossa produção individual de dióxido de carbono, no site Future Forests, lá indicado. É claro que o custo da façanha não é nada barato (US$ 514,93 por ano seria o custo estimado para neutralizar as 22 toneladas de CO2 que cada um de nós produz anualmente).

Quero deixar bem claro que esta idéia não é original: o grupo musical Pink Floyd, ícone de rock progressivo da década de 70 foi quem estabeleceu a vanguarda da proteção ambiental através da orientação sobre como compensar a emissão de gases tóxicos – a idéia do Carbono-Neutro. No site http://www.pinkfloyd.com/echoes.html os artistas convocavam seus fãs e a todos com sentimentos ecológicos a plantarem uma árvore em três áreas que o grupo havia comprado, no Canadá, na Índia e na Escócia. Ensinavam que todo cidadão, através do uso de automóveis ou ônibus, através da produção de lixo, utilização de eletrodomésticos contribui com muitos quilos de CO2 anualmente e, da mesma forma, quantos quilos de CO2 cada árvore plantada é capaz de transformar em O2. Desta forma, saberíamos quantas árvores cada pessoa deveria plantar para compensar o estrago que fazemos diariamente ao nosso ambiente. A proposta do Pink Floyd seria de que cada ser humano devesse tornar-se um Carbono-Neutro.

Voltando ao filme, que tem cunho futurista (e fatalista), mostra as conseqüências de algo que vem sendo aventado com mais intensidade pelo menos nos últimos 12 anos, após a história Convenção Eco-Rio 92, onde foram planejados alguns ditames a serem seguidos por nações ecologicamente responsáveis. Não é preciso dizer que, da teoria para a prática existe um lapso quilométrico e pouca coisa entrou realmente em ação. Outro marco na busca da redução da poluição atmosférica e do aquecimento global foi o Tratado de Kyoto. Segundo o mesmo, as nações assinantes deveriam se comprometer a reduzir em 5% a emissão de gases tóxicos até 2012 em relação a 1990. A questão é que os Estados Unidos da América, país que sozinho é responsável por 25% da emissão de gases poluentes de todo o planeta, na figura de seu atual presidente George Bush, se recusou a assiná-lo, gerando um impasse difícil de ser solucionado. A argumentação do presidente norte-americano seria a de que nenhum tratado pode reduzir a capacidade industrial norte-americana e assim possibilitar que o povo americano seja lesado economicamente.

O filme, do mesmo diretor de Independence Day, dá uma radical guinada do ufanismo quase doentio deste último em direção a uma bofetada sem luva de pelica na face do governo norte-americano, parece até iluminada pelo clarão ofuscante chamado Michael Moore.

Sem julgamentos de juízo, o filme é uma patada demolidora. Para os adeptos do anti-americanismo, a consagração. Para os moderados, apenas mais um filme de ficção científica. Só mais uma coisa: não deixe para ver em vídeo!

Diálogos com Deus: Deus e a cólica biliar

Maria e Jesus levam Deus às pressas ao Pronto Socorro:

– Maria, me ajuuuude! Não agüento mais a dor!

Maria: – Doutor, doutor, acuda! Meu marido está passando muit mal! Ele não é de fazer fita!

– Não se preocupe dona! Seu marido sairá daqui são e salvo ou não me chamo Doutor Baratta!

Depois que o médico lhe examina e faz alguns exames de sangue e uma ultrassonografia abdominal, chega o diagnóstico: cólica biliar.

-Seu Deus, o senhor está com uma pedra na vesícula. Vamos ter que lhe operar.

– Operar? Sem essa! Quem opera milagres aqui sou eu!

– Mas… – tenta interceder o médico…

– Deixa comigo – diz Maria.

– Escuta aqui, senhor Deus Oni da Silva! Vamos deixar de agir como criança! Se o médico diz que vai ter que operar, vamos operar sim senhor!

– Mas, mas… Querida!…

– Sem mas-mas-mas! Não tem discussão! Viu no que deu todos aqueles churrascos, aquela carne gordurosa? Agora agüenta as pontas queridinho!

Voltando-se para o doutor: – Ele vai operar sim doutor. É só marcar.

– Bem, assim sendo, vejo que entraram em um consenso. A cirurgia será daqui a 2 horas. Vou me preparar.

E deu de costas rumo à sala de emergência para tomar as providências cabíveis, enquanto Deus olhava seu algoz se afastar, com olhinhos pequeninos qual cachorro pidão, ainda tentando reverter a situação.

– Maria…

– Que foi!? – ollhando séria.

(vendo que não havia mais o que fazer) – Fica comigo na sala de cirurgia?

PRÓXIMO PÔUST: O Dia Depois de Amanhã

Temos mais pessoas escrevendo poesia (e prosa) do que lendo

Temos mais pessoas escrevendo poesia (e prosa) do que lendo.

Essa é a conclusão que podemos chegar com a proliferação mais do que descontrolada dos blógues (note que não intenciono falar dos “blógues-diário” e similares, mas tão somente daqueles com caráter literário-artístico ou até político)

A verborragia está rolando solta e cada vez mais generaliza-se a tendência de tentar divulgar seu pedaço de terra de todas formas possíveis, como viram no pôust anterior.

A propaganda em si não é o mal. O mal encontra-se em fazer mal e porcamente um ajuntado de coisas escritas que se quer fazer passar por arte ou literatura.

Todos temos (excluindo um ou outro de nós com impulsos depressivos ou com complexos de inferioridade) a tendência de achar que aquilo que fizemos é bom o suficiente para que alguém se interesse e queira “comprar” de uma forma ou de outra.

Dizia William Carlos Williams: “Arte ruim é aquela que não serve ao contínuo serviço de limpar a linguagem de todas as fixações sobre usos mortos, mal-cheirosos do passado”. Apesar de ter sido usada em uma situação diversa da que comento, aproveito a frase para lembrar da arte como técnica E busca de inovação/novidade. Sem esta última, resta somente a técnica, que só, já não é mais arte.

Lendo uma recente crítica de Rodrigo Garcia Lopes, poeta brasileiro, ao Jornal Literário “Rascunho”, deparei-me com a seguinte constatação:

“…muitas vezes também tenho a impressão de que poetas diferentes estão escrevendo um mesmo poema. Digo isso em relação a um tipo de poema curto, que muitas vezes são fragmentos de descrições estilizadas, geralmente da janela de um apartamento, com o poeta entre reproduções de Mondrian, tomando um chá de camomila, lendo livros chatos e fazendo cara de inteligente. Para mim, esses poemas também escondem sob uma pretensa concisão, uma falta danada do que dizer… …esses procedimentos, fraturas e personificações geralmente mascaram um pensamento superficial, pobre de vida, sem viço.

Ainda, parafraseando Gilles Delleuze ( já citado previamente por mim em um Editorial do Simplicíssimo): “Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer”.

Assim, creio que somente poucos de nós, entusiasmados blogueiros, persistiremos ao teste do tempo. Posso ver entre meus amigos lincados uma boa dezena que se sustenta sem ajuda de ninguém, mais uma dúzia que segue caminho ascendente em qualidade. Outros, como eu, ainda têm muito o que aprender. Mas resta sempre a esperança de que, mantendo contato com os grandes mestres da literatura mundial e com os novos mestres da rapidamente crescente literatura hipertextual, nosso aperfeiçoamento se desenvolva com êxito e possamos brindar juntos nossa permanência nesta bela estrada que é o percurso das letras, o caminho das artes.

Boa sorte nesta trajetória, companheiros!

Técnicas para chegar aos “mais visitados”

Nascer do Sol em PoA.jpg

Existem várias “táticas” usadas pelos blogueiros no intuito de chegarem aos “primeiros lugares da parada”. Vou enumerar algumas delas:

1. Em blógues como os do provedor Sapo (português), basta entrar na área de edição do seu blógue no horário de pico de acessos (algo como fim de tarde e começo da noite durante a semana ou durante os fins-de-semana) e ficar “atualizando” seu blógue repetidamente. Se não tiver nada que escrever, não tem problema! Só tire um “ç” e coloque um “c” em algum lugar e clique “gravar” e depois “reconstruir blog”. Aí, seu blógue aparecerá entre os 10 mais recentemente atualizados, chamando a atenção daqueles que estão a navegar pela página do Provedor, obviamente angariando uma pá de novos leitores.

Descobri isso por acaso, já que, freqüentemente após atualizar o site, via que curiosamente de 3 a 6 pessoas passavam a estar simultaneamente no Escrever Por Escrever. Curioso que sou, fui às estatísticas de acesso e descobri que todas estas pessoas eram encaminhadas pelo próprio http://blogs.sapo.pt , devido aquela ferramenta que indica os blógues recentemente atualizados.

Se você tiver paciência ( e tempo) de fazer isso por horas a fio, por vários dias seguidos, é batata: seu blógue estará na lista dos 25 mais acessados do Sapo e daí pra frente se garante na vitrine sem esforço, angariando mais outra pá de leitores.

2. A segunda técnica utilizada tira proveito dos programas de busca, como o Google, Cadê e Altavista, por exemplo. Consiste em incluir no site palavras de assuntos que estão “na moda”, como utilizar a expressão “Antonela Nua na Playboy BBB4” como fez o digníssimo Alexandre do Liberal Libertário Libertino. Essa técnica funciona principalmente se as palavras chaves são colocadas em áreas nobres para as ferramentas de busca , como é o caso do título ou das tags e metatags (que não aparecem visualmente) no código do site. Assim, no Escrever Por Escrever tenho na minha metatag o seguinte:

< meta http-equiv="Content-Type" content="sociologia escrever antropologia cultura filosofia culinária fotografia economia politica ">

Para conseguir mais acessos, poderia colocar ali por exemplo palavras como “sexo”, “XXX” ou outras palavras que estão entre as mais procuradas pelos internautas. Poderia também colocar o nome de todo e qualquer escritor, diretor de filme, ator ou personalidade política famosa, além de eventos históricos ou qualquer coisa provável de ser pesquisada na Internet, para incluir eu blógue/site na busca do Google, por exemplo. Funciona, acreditem.

3. A terceira (e chata) alternativa é criar listas de I-1/2s coletados pelas andanças de Internet e ficar mandando avisos (não solicitados) de atualização do seu blógue. Provavelmente, você conseguirá ao menos um acesso daquela pessoa para o qual enviou o e-mail, já que ela gostará de descobrir quem é a mala que fez esta puta sacanagem e quem sabe, até ganhará um par de palavras desaforadas em sua caixa de comentários.

4. A quarta e mais difundida – e também a mais cansativa – forma de conseguir visitas aos borbotões é entrar em todo e qualquer blógue que aparecer pela frente e deixar lá um comentário. Esta forma de “angariar visitantes” é a mais efetiva, principalmente quando se deixa no blógue visitado um comentário simpático e elogioso.

No caso de você efetivamente ler o último pôust (ou os pôusts mais recentes ao menos) e deixar um comentário relevante ao assunto abordado, a chance de ser visitado em retribuição é próxima a 100%, e, de cara, gera uma espécie de dívida para o blogueiro visitado, que terá, pelo menos inconscientemente, a necessidade de lhe retribuir o gesto.

Visitar e conhecer novos blógues e deixar lá seus comentários é normal. Fazer isso compulsivamente me parece doentio. É muita necessidade de autoafirmação.

Se você se encaixou em uma ou outra das categorias abaixo, não se preocupe: acontece com todos pelo menos em algum momento e em algum grau nesta nossa já não tão nova brincadeira de conhecer e nos tornarmos conhecidos por nossas idéias, agora tão facilmente distribuídas e espalhadas por esta rede virtual mundial.

O importante é não exagerar na dose, tendo o bom-senso de discernir quando passamos a ser trapaceiros e trazemos para nosso convívio pessoas que não tem afinidade nenhuma com nossas idéias – objetivo mais importante desta função toda.

Ademais, um pouco de movimento no blógue sempre é agradável e faz muito bem ao nosso ego.

A propósito, comprei um novo domínio: www.armazemdeideias.org e comecei lentamente minha mudança para lá. Como o tempo é realmente escasso, acho que levarei pelo menos 6 meses para completar meu êxodo. De qualquer forma, o dia em que poderei finalmente exercer com plenitude minha liberdade (fotos gigantes!) está próximo!