Monthly Archives: agosto 2008

Ago 31

A Visão Sistêmica da Vida: Noções de Metabolismo e Rede

By Rafael Reinehr | Vida

Na anteconferência a seguir, Fritjof Capra nos relembra que "sustentabilidade" não se trata de sustentar o crescimento econômico ou a capacidade de competição de uma nação no mercado internacional, mas sim conseguir entender como a Natureza faz para perpetuar a vida.

"A sobrevivência de toda nossa civilização pode depender, em última instância, de nossa habilidade em perceber a totalidade da natureza e a arte de viver com ela em harmonia."

Uma das formas de fazer isso seria utilizando os conhecimentos adquiridos a partir do estudo do metabolismo animal e aplicando tais descobertas em uma ciência social ampla, que replicaria nas relações humanas e sociais os conhecimentos advindos das ciências naturais. O Metabolismo, no âmbito das ciências sociais chama-se "network", ou "rede" ou ainda "teia" em português. O vídeo a seguir é em inglês.

 

Arthur Cecil Pigou
Ago 31

Aplicando as Taxas Pigovianas para Aumentar a Saúde da População

By Rafael Reinehr | Saúde da Sociedade

Arthur Cecil PigouArthur Cecil Pigou foi um economista inglês que no começo do século XX idealizou um sistema de compensações que viria depois a ser chamado de “Taxas Pigovianas”. Segundo Pigou, cada ato em que uma instituição promove algo deletério à comunidade (poluição, desemprego…) deve necessariamente ser cobrado desta instituição através de uma taxação.
Assim, se uma empresa produz detritos industriais que causam poluição de um rio próximo da sede da empresa, a mesma é responsável pelos custos necessários à limpeza deste rio. O refinamento desta idéia levou, nos dias de hoje, à criação dos créditos de carbono e do atual sistema de comércio de créditos de carbono, utilizado para compensar a poluição causada por uma empresa e a retirada do CO2 e outros poluentes por outras empresas.
Levando em conta a idéia de Pigou, fiquei imaginando um sociedade não ideal e fictícia, onde a restrição da liberdade individual poderia acabar elevando o nível de saúde de seus indivíduos. Funcionaria assim: além de elevar os impostos de produtos como álcool e tabaco e também dos combustíveis fósseis a níveis que inibissem severamente o uso de tais produtos bem como obrigasse às empresas de transporte a investirem em formas menos poluentes de transporte de produtos como as vias férreas, também seriam elevados os impostos de alimentos ricos em gordura e açúcar e, com o mesmo dinheiro daí advindo, seriam subsidiados produtos provenientes da agricultura familiar, priorizando-se aí produtos orgânicos, integrais, legumes, verduras e frutos frescos.
Seria chamada a Ditadura das Hortaliças. Em seguida, aconteceria o famoso levante popular de gordinhos. A terra literalmente iria tremer com uma passeata organizada pelos defensores do buffet livre, das redes de fast food e das churrascarias Hortaliçasrodízio. Milhões de pessoas preenchendo o abaixo-assinado a favor da manutenção dos preços da batata-frita e do provolone a milanesa. Milhares se deslocando de ônibus até Brasília e ficande de vigília na frente do Congresso pedindo para a lei ser revogada…
E para aqueles que acham absurdo controlar índices deletérios com taxas, Pigou, do fundo de sua cova nos traz um exemplo bem atual. Nos Estados Unidos, a incidência de acidentes de trânsito fatais está declinando à medida em que o valor do galão de gasolina aumenta. Neste ano, com a chegada do galão à casa dos 4 dólares, estima-se que haverão taxas quase tão baixas de acidentes quanto em 1961. Os motivos para a queda dos acidentes podem ser vários. Os motoristas parecem ter mudado não só a quantidade de quilômetros dirigidos mas também a forma de dirigir e quando dirigem. No mês de junho, os americanos dirigiram 12,2 bilhões de milhas a menos do que no ano anterior. Além disso, jovens e idosos, os mais afetados pelo aumento dos preços da gasolina e também os mais propensos a acidentes, tenderam a diminuir o tempo ao volante. Os motoristas também tendem a aliviar o pé do acelerador buscando poupar combustível, o que também reduz a incidência de acidentes. Por último, a redução do tráfego parece ter sido maior nas estradas rurais, onde os acidentes fatais são mais freqüentes e também no período da noite e nos fins-de-semana, durante o período de lazer. Nestas horas, os acidentes também tendem a ser mais graves do que durante o horário de trabalho, quando são mais comuns pequenos acidentes em baixa velocidade nas ruas cogestionadas da cidade.
Por vezes, nossa lógica precisa ser posta à prova ou mesmo subvertida, para que possamos passar a pensar o mundo de uma forma diferente. Precisamos passar a ver possibilidades em lugares onde não se costuma imaginar saídas para os problemas crônicos da atualidade.
As taxas pigovianas não são, certamente, a solução para todos os males. Entretanto, se dosadas sabiamente e utilizadas para equilibrar discrepâncias grosseiras, podem ajudar a solucionar algumas das questões que afligem nossa sociedade atualmente. A sobretaxação dos combustíveis fósseis poderia, por exemplo, acelerar uma mudança da matriz energética em direção a uma energia mais limpa assim como meios de transporte também mais limpos. Isso já foi visto no Brasil na época do Pró-Álcool. Na Alemanha, o excesso de custo utilizado na construção de casas energiticamente positivas é compensado pelo fato de que, em muitos lares, além de não haver conta de luz a pagar o cidadão ainda vende a energia excendente para o sistema público.
Se o coletado com determinada taxa fosse investido em subsídios dentro da própria área, buscando soluções mais efetivas do que as tradicionais, em questão de algumas décadas estaríamos colhendo resultados positivos surpreendentes na educação, saúde, transportes, energia e demais áreas da sociedade. É uma experiência que seria interessante ver implementada.

Alguns links interessantes para complementar a leitura:

Taxa de Carbono
Comércio de Carbono

Absyntho
Ago 30

Absyntho

By Rafael Reinehr | ABZ do Rock

AbsynthoGrupo carioca formado no início da década de 80, que mescla o que há de mais kitsch da mitologia pop, isto é, letras centradas em contos de fadas e seus bichinhos de pelúcia, com o velho som da new wave. Assim, em 1983, com o seu bubblegum-rock Ursinho Blau Blau, o grupo inauguraria sua famosa galeria de tipos. Logo a seguir, viriam gênios, lobos e outros personagens da fauna. Atrás deste som, é difícil acreditar que estejam o guitarrista Fernando Sá, que participara do grupo Acidente, na época do antológico LP Guerra Civil (Tok Cine, 1982) e Wanderley Pigliasco, ex-baixista da Banda 22. Integram ainda o veneno: Sylvinho (vocal), Sérgio Diamante (teclados) e Darcy (bateria).

Discografia (clique nos links para fazer o download)

Banda 22

CD, Maio/Rio/A Luz Que Brilha Meu Viver/Pouco Adiante (Coomusa).

Absyntho

CS, Ursinho Blau Blau (RCA, 1983)

CS, Palavra Mágica (RCA, 1983)

LP, Absyntho (RCA, 1985)

Wanderley Pigliasco (solo) 

CS, Besame Mucho (RCA, 1984)

Propaganda China
Ago 29

Livro: o último reduto – Um mundo operário, um mundo literário

By Rafael Reinehr | Quase-Idéias

A leitura transformou-se de instrumento de lazer em peça de uma engrenagem utilizada para compensar as angústias de um mundo normalizado, individualista e competitivo. São poucos entre nós que conseguem comer e sentir o devido gosto nas refeições. Uma sucessão de garfadas que se sucedem uma em cima da outra, com mínimos espaços para a respiração é a tônica. Como conseqüência, a obesidade encontra-se em índices epidêmicos. Até as relações sexuais parecem que passaram a ser feitas por obrigação e precisam terminar o quanto antes para que se possa assistir ao filmezinho ou fazer outra coisa qualquer (dormir para enfrentar o dia seguinte?)… Sintomas conversivos e psicossomáticos são realçados neste mundo sem sentidos, em que o corpo oblitera até onde agüenta a angústia da crise de percepção mas cedo ou tarde acaba cedendo à pressão que vem de todos os lados.” (Um mundo operário, um mundo literário, de Rafael Reinehr) Continue lendo

Barcos em Natal
Ago 28

Fotos de Quinta #037 – 28/08/2008

By Rafael Reinehr | Fotos de Quinta

Nesta quinta-feira bem como nas próximas semanas, o Fotos de Quinta viaja a Natal e Fernando de Noronha, com alguns registros da nossa lua-de-mel feitos em abril de 2008. Para ver outras edições, clique a seguir em Fotos de Quinta – outras edições.

Barcos em Natal
Barcos em Natal

Primeira Janta em Natal
Primeira Janta em Natal

A Ponte de Todos em Natal
A Ponte de Todos em Natal

A Fragata, Carol e o Peixe
Carol, o Peixe e A Fragata

Castanha-do-pará
Ago 27

Castanha-do-pará ou Castanha-do-brasil: selênio para uma vida longa e saudável

By Rafael Reinehr | Curtas da Saúde

Castanha-do-paráUma castanha do pará (rebatizada recentemente como castanha-do-brasil) por dia garante a quantidade mínima de selênio necessária ao nosso organismo, recarregando este mineral que combate o envelhecimento celular e garante uma vida longa e saudável. Para se ter uma idéia, a mesma quantidade de selênio encontrada em 5g de castanha-do-pará (uma unidade) é encontrada em 3 filés de frango (100g cada), 16 pães franceses (50g cada), 26 camarões (20g cada), 2 latas de sardinha em conserva (130g cada), 10 ostras (33 gramas cada) ou 100 copos de leite (200ml por copo). O selênio é fundamental para acionar as enzimas que combatem os radicais livres. Além de manter mais ativo nosso sistema imunológico, também acaba por proteger as células do sistema nervoso das doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer. Como se já não fosse o bastante, o selênio também ajuda a tireóide na síntese de seus hormônios e também está associado à capacidade do organismo de eliminar metais pesados. O excesso deve ser evitado. A médio e longo prazo, a ingestão diária de mais de 2 a 4 castanhas-do-brasil pode levar à dores de cabeça, unhas fracas e queda de cabelo.

The Boy With The Stripped Pajamas
Ago 26

The Boy in The Stripped Pajamas – O Menino do Pijama Listrado (2008)

By Rafael Reinehr | Vem por aí

The Boy With The Stripped Pajamas

Baseado no romance de John Boyne, The Boy in the Striped Pajamas é uma  história fictícia que oferece uma perspectiva única sobre como o ódio e a violência afetam pessoas inocentes, principalmente crianças, durante tempos de guerra. Através da lente de um menino de oito anos filtrada pela realidade da Segunda Guerra Mundial, somos testemunhas de uma amizade proibida entre Bruno, o filho de um comandante nazista e Schmuel, um garoto judeu mantido cativo em um campo de concentração. Apesar de estarem separados fisicamente por uma cerca de arame farpado, suas vidas tornam-se inevitavelmente entrelaçadas. A história imaginada de Bruno e Schmuel coloca luz na brutalidade, falta de sentido e conseqüências devastadoras da guerra de um ponto de vista não usual. A trágica jornada de ambos ajuda a lembrar das milhões de vítimas inocentes do Holocausto.

A direção é de Mark Herman e a estréia está prevista para este outono nos EUA.

Clique no link a seguir para ver o trailer de The Boy in The Stripped Pajamas.

Sustentabilidade
Ago 25

Decrescimento Sustentável – Uma Nova Forma de Pensar e Evoluir

By Rafael Reinehr | Sustentabilidade e Resiliência

Pois será uma satisfação perfeitamente positiva ingerir alimentos sadios, ter menos barulho, estar num meio ambiente equilibrado, não mais sofrer restrições de circulação etc.” Jacques Ellul

SustentabilidadeDesde bem cedo, ainda não havia entrado em uma faculdade de Medicina tampouco tinha ainda cursado Filosofia nem Ciências Sociais, sempre tive uma curiosa aversão à idéia de que crescimento significava explorar mais, produzir mais, construir mais estradas e edifícios e consumir mais. Para um jovem adolescente, a idéia de que quanto mais rápido explorássemos o meio-ambiente mais rápido ele se extingüiria pode ser assustadora. Razões mais imediatas, como paquerar, escutar música e um concurso vestibular que se aproxima afastam um pouco o horror daquele pensamento.

Recentemente, entretanto, o Roda de Ciência trouxe o tema à tona e não consegui deixar de voltar a refletir mais profundamente sobre ele.

Se você, como eu, sente-se vivendo dentro de 1984 – ficção de George Orwell acerca de um estado totalitário em que este Estado é onipresente, tem capacidade de alterar a história e o idioma com o objetivo de manter sua estrutura inabalada – quando o presidente dos Estados Unidos do Norte da América, George Bush, solta afirmações como “Economic growth is the key to environmental progress, because it is growth that provides the resources for investment in clean technologies. Growth is the solution, not the problem.” (O crescimento econômico é a chave para o progresso ambiental, porque este crescimento provê as condições para investir em tecnologias limpas. O crescimento é a solução, e não o problema), você vai gostar de ler o que tenho a dizer nas linhas abaixo.

Como o francês Serge Latouche, acredito que, muito mais além de planejarmos um “Desenvolvimento Sustentável”, precisamos mesmo é arquitetar um “Decrescimento Sustentável”.

Em seu artigo As vantagens do decrescimento, publicado no Le Monde Diplomatique em novembro de 2003, Serge constata: “Depois de algumas décadas de desperdício frenético, parece que entramos na zona das tempestades – no sentido próprio e no figurado… As perturbações climáticas são acompanhadas pelas guerras do petróleo, que serão seguidas pela guerra da água, mas também por possíveis pandemias, desaparecimento de espécies vegetais e animais essenciais como conseqüência de catástrofes biogenéticas previsíveis. Nessas condições, a sociedade de crescimento não é sustentável, nem desejável. É urgente, portanto, que se pense numa sociedade de “decrescimento”, se possível serena e convivial.

Em 1972, o Clube de Roma encomendou ao MIT um estudo transformado em livro e chamado de Os limites do crescimento onde já se afirmava que o Planeta Terra não agüentaria o ritmo de crescimento mesmo com o avanço da tecnologia devido à pressão sobre os recursos naturais e energéticos e o aumento da poluição.

HiperconsumoA conclusão do Clube de Roma em 1972 não poderia ter sido mais trágica: Se as tendências atuais de crescimento na população mundial, industrialização, poluição, produção de alimentos e depleção de recursos continuarem imutáveis, os limites do crescimento neste planeta serão atingidos nos próximos 100 anos. O resultado mais provável será uma súbita e descontrolada queda na população e na capacidade industrial*.

Alguns críticos como Herman Kahn responderam: Com a atual e próxima tecnologia, poderemos suportar 15 bilhões de pessoas no mundo com 20 mil dólares per capita por um milênio – e isso parece ser uma afirmação bastante conservadora**. Julian Simon acrescentou: As condições materiais da vida continuarão a melhorar para a maioria das pessoas, na maioria dos países, na maioria do tempo, indefinidamente. Em um século ou dois, todas as nações e a maioria da humanidade estará no mesmo nível de vida do padrão Ocidental ou acima dele***.

O consenso atual parece ser: Seres humanos e o mundo natural estão em curso de colisão. As atividades humanas infligem danos por vezes irreversíveis ao ambiente e em recursos críticos. Se não reavaliadas, muitas de nossas práticas colocam em sério risco o futuro que queremos para a sociedade humana e os reinos animal e vegetal, e podem alterar o mundo em que vivemos a ponto de se tornar insustentável viver da maneira que conhecemos. Mudanças fundamentais são urgentes se quisermos evitar a colisão à qual nosso presente curso está nos levando.****

ColméiaEm entrevista para a Revista Vida Simples, Serge Latouche propõe a libertação da ditadura econômica e do consumo para a reinvenção de um futuro sustentável. Afirma que “uma sociedade não pode sobreviver se não respeitar os limites dos recursos naturais”, e propõe “um círculo virtuoso de descrescimento: Reavaliar, Reconceitualizar, Reestruturar, Relocalizar, Redistribuir, Reduzir, Reutilizar, Reciclar . (…) Reconceitualizar é mudar nossa maneira de pensar. É uma verdadeira revolução cultural.

Não há como acabar com as drogas sem educar os drogaditos. Os drogaditos, no caso, somos cada um de nós. Se continuarmos com o ritmo de consumo acelerado e excessivo, estamos dando poder àqueles que pretendem manter a situação do jeito que está. Não basta somente consumir menos mas saber que com as escolhas do que consumimos conseguimos mudar a forma com que os produtos são produzidos. Na mesma entrevista citada acima, Serge ilustra a afirmação com o seguinte exemplo: “Você pode comer um bife em que o gado é criado em pastos naturais ou um bife de uma fazenda que obedece à lógica do mercado. No último caso, você come petróleo. Ele incorpora 6 litros de petróleo. Como isso é possível? O gado é alimentado com soja que é plantada na Amazônia. Os tratores destróem florestas, fazem a plantação e despejam os pesticidas. Tudo isso é petróleo. Devemos colocar esse sistema em causa, e não o fato de comermos um bife.

HarmoniaO crescimento da produção e do consumo de produtos orgânicos certificados, produzidos por famílias de agricultores é um alento e caminha na direção que precisamos.

Quando passamos a discutir a matriz energética, muito antes de pensar em desenvolver e explorar fontes renováveis de energia, deveríamos isso sim nos preocupar com maneiras de reduzir este consumo.

É interessante observar que o que hoje alguns chamam de desenvolvimento sustentado, outros de anti-produtivismo e outros ainda de decrescimento sustentado têm um objetivo comum: reduzir a “pegada” humana, o impacto que o homem imprime sobre o ambiente em que vive, garantindo a possibilidade da permanência da raça humana sobre a Terra pelo máximo de tempo possível. Apesar de muito se discutir acerca do tema, precisamos entender o que nos impede de desejar uma vida mais simples e feliz. Qual é a ilusão que nos é vendida (e que compramos) que está a obliterar nossa visão.

O altruísmo deveria preceder o egoísmo, a cooperação, preceder a competição desenfreada, o prazer do lazer, preceder a obsessão pelo trabalho, a importância da vida social, preceder o consumo ilimitado, o gosto pela bela obra, preceder a eficiência produtivista, o razoável, preceder o racional etc. O problema é que os valores atuais são sistêmicos. Isso significa que são suscitados e estimulados pelo sistema e que, em contrapartida, contribuem para reforçá-lo. É claro que a escolha de uma ética pessoal diferente, como a simplicidade voluntária, pode mudar a direção da tendência e solapar as bases imaginárias do sistema, mas sem um questionamento radical deste último, a mudança corre o risco de ser limitada.” Serge Latouche

Em seu artigo The globe downshifted, publicado em 2006, Serge Latouche lembra os Principles of Political Economy, de John Stuart Mill, publicados em 1848, onde o autor escreveu que “todas atividades humanas que não envolvam o consumo desarrazoado de materiais insubstituíveis ou não danificam o ambiente de forma irrevogável podem ser desenvolvidas indefinidamente”. Ele ainda adicionou que poderiam então florescer aquelas atividades que a maioria consideram como as mais desejáveis e satisfatórias, como educação, arte, religião, pesquisa fundamental, esportes e relações humanas.

"O Produto Interno Bruto mede tudo exceto aquilo que faz a vida valer a pena." Robert Kennedy

E seria a idéia do descrescimento sustentável compatível com o atual sistema capitalista? A resposta é Sim. O Instituto Wupperthal para o Clima, o Ambiente e e Energia desenvolveu uma série de estratégias do tipo ganha-ganha para a interação da natureza com o capital. O esquema Negawatt busca cortar o consumo de energia em três quartos sem uma drástica redução nas necessidades humanas. Ela propõe um sistema de taxas, normas, bônus e subsídios seletivos para tornar um ambiente virtuoso uma alternativa economicamente interessante e evitar perdas em larga escala. Um bom exemplo é estimular a construção de casas energeticamente mais eficientes, mesmo mais caras, concedendo créditos a serem trocados posteriormente.

Em seu texto de 2006, Latouche propõe uma pequena série de mudanças que, segundo ele seriam capazes de colocar os ciclos virtuosos em movimento. São elas:

  • Reduzir nossa pegada ecológica ao ponto de que a mesma passe a ser igual ou inferior aos recursos do Planeta Terra. Isso significa trazer a produção de materiais de volta aos níveis da década de 60 ou 70.

  • Internalizar os custos de transporte

  • Relocalizar todas as formas de atividades

  • Retornar a uma produção em pequena escala

  • Estimular a produção de “bens relacionais” – atividades que dependem de relações interpessoais fortes, tais como cuidar de enfermos ou pessoas terminalmente doentes, massagens e até psicanálise, sendo negociadas comercialmente ou não, ao invés da exploração dos recursos.

  • Reduzir o gasto energético em três quartos

  • Taxar severamente os gastos com publicidade

  • Decretar uma moratória na inovação tecnológica, levando a uma avaliação profunda de suas conquistas e uma reorientação da pesquisa técnica e científica de acordo com novas aspirações.

Uma das chaves para o sucesso deste programa é a interiorização de diseconomias externas, ou seja, os custos provocados por um ator que são herdados pela comunidade, como por exemplo a poluição. Se as empresas poluidoras passarem a pagar pela poluição produzida como sugeriu Arthur Cecil Pigou, certamente teríamos um painel atual diferente do atual. Suas Taxas Pigovianas, idealizadas no começo do século passado e publicadas em 1912 e 1920 na sua obra Wealth and Welfare podem ser consideradas as precursoras da idéia do atual sistema de comércio e créditos de carbono.

A sociedade moderna ainda vive impregnada pela ilusão de que o consumo de massa deve ser o principal motor da economia e esta ilusão é alimentada pelo fato de que nas nações assim ditas desenvolvidas os bens que antes eram reservados a uma elite econômica são agora disponíveis em grande escala e, promete-se, o luxo de hoje será acessível a todos amanhã. E neste ritmo vamos vivendo enquanto a nação-exemplo deste sistema de vida, os Estados Unidos do Norte da América estão chegando à impressionante marca de 9,5 trilhões de dólares para sua dívida interna.

It is the emergence of mass media which makes possible the use of propaganda techniques on a societal scale. The orchestration of press, radio and television to create a continuous, lasting and total environment renders the influence of propaganda virtually unnoticed precisely because it creates a constant environment. Mass media provides the essential link between the individual and the demands of the technological society.” ( É a emergência de uma mídia de massa que torna possível o uso de técnicas de propaganda em uma escala de sociedade. A orquestração de imprensa, rádio e televisão para criar um ambiente contínuo, duradouro e total leva a uma influência praticamente não notada da propaganda, justamente pela criaçào deste ambiente constante. A mídia de massa providencia uma ligação essencial entre o indivíduo e as demandas da sociedade tecnológica) Jaques Ellul

A sociedade do crescimento é capaz de, numa só tacada, produzir o aumento das desigualdades e das injustiças, criar um bem-estar amplamente ilusório e deixar de promover para os “favorecidos” uma sociedade convivial, lhes oferecendo uma anti-sociedade doente pela sua própria riqueza, onde a violência, a depressão e a anestesia dos sentidos são a marca primordial.

ComunidadeA estratégia proposta pelo decrescimento imagina que a regulação desenhada para forçar uma mudança, aliada a uma utopia de convivência ideal levará a uma descolonização do imaginário (termo cunhado por Cornelius Castoriadis) e encorajará um comportamento virtuoso suficiente para produzir uma solução razoável: uma democracia ecológica local. Para os mais desatentos, “democracia ecológica local” é um outro termo para anarquia.

A revitalização do “local” além de reaproximar as pessoas é capaz de manter viva a diversidade cultural em contraposição à normalização proposta pela globalização, mais uma das mentiras vomitadas diariamente pelo etnocentrismo ocidental.

Para o economista Takis Fotopoulos, a verdadeira democracia só pode subsistir em comunidades pequenas, com até 30 mil pessoas, um tamanho no qual todas as necessidades básicas poderiam ser supridas.

Utopicamente, o urbanista italiano Alberto Magnaghi sugere um longo e complexo período de purificação, durando de 50 a 100 anos, no qual as pessoas não continuariam a buscar mais e mais áreas para produção e criação de vias de transporte entre elas, mas concentrariam seus esforços na limpeza e reconstrução dos sistemas ambientais e territoriais que foram destruídos e contaminados pela presença humana.

Do ponto de vista de Fotopoulos, concentrar-se nas eleições e atividades locais nos dá a chance de mudar as coisas iniciando “por baixo”, o que é a única estratégia verdadeiramente democrática. É completamente diversa dos métodos baseados no estado (que tentam mudar a sociedade de cima tomando o controle do estado) e das atividades da “sociedade civil” (que não tentam mudar o sistema em nenhum momento).

A principal mensagem que um foco no descrescimento deve passar é a de que consumindo menos estaremos não só reduzindo danos à Natureza mas também, por conseqüência, necessitaremos trabalhar menos, fazendo com que todos possam também trabalhar menos e viver melhor. Com isso, teremos mais tempo livre para gastar com coisas que só podem nos fazer bem, como ler, escutar música, criar, brincar, passear, cuidar e educar nossos filhos, interagir com nossos amigos e familiares e até mesmo contemplar a vida e o mundo.

Reduzir intensamente o tempo de trabalho é fator sine qua non para garantir a todos um emprego satisfatório. Aqueles sem emprego terão um e aqueles que já têm um trabalharão menos. Já em 1981, Jacques Ellul, um dos primeiros pensadores da sociedade do descrescimento, já determinava como objetivo para o trabalho não mais do que duas horas por dia. Apesar de concordar ferozmente com Jacques e acreditar que, em comunidades fechadas este ideal possa ser de fato atingido até o fim deste século, a disseminação deste ideal para a grande massa da população encontra-se em um horizonte escondido atrás de densas nuvens de poluição, produzidas pela sede exploradora das grandes corporações e pelo desejo hiperconsumista da sociedade atual e que, de forma chocante, germina em cada grito e choro desconsolado de uma criança que pede para os pais o último modelo de celular, aquele com uma câmera de X megapixels.

Como diz Eduardo Galeano, um dos meus pensadores preferidos, "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Rafael Reinehr

Para caminhar junto: O Pensador Selvagem e, em breve, A Coolméia.

Para ler mais:

The Story of Stuff – A História das Coisas

Entrevista de Serge Latouche para a Revista do Instituto Humanitas da Unisinos

O sul e o ordinário etnocentrismo do desenvolvimento

Indicador de Progresso Autêntico

Mr Corcoran, meet Mr. Orwell – sobre as Taxas Pigovianas

* "If the present growth trends in world population, industrialization, pollution, food production, and resource depletion continue unchanged, the limits to growth in this planet will be reached sometime within the next 100 years. The most probable result will be a rather sudden and uncontrolled decline in both population and industrial capacity"

** "With current and near current technology, we can support 15 billion people in the world at twenty thousand dollars per capita for a millennium – and that seems to be a very conservative statement."

*** "The material conditions of life will continue to get better for most people, in most countries, most of the time, indefinitely. Within a century or two, all nations and most of humanity will be at or above today´s Western living standards."

**** "Human beings and the natural world are on a collision course. Human activities inflict harsh and often irreversible damage on the environment and on critical resources. If not checked, many of our current practices put at serious risk the future that we wish for human society and the plant and animal kingdoms, and may so alter the living world that it will be unable to sustain life in the manner that we know. Fundamental changes are urgent if we are to avoid the collision our present course will bring about."

(trechos em inglês retirados do blog Futuro Comprometido)

 

Bafo
Ago 25

Como fazer churrasco VII – A churrasqueira

By Rafael Reinehr | Caldeirão de Sabores

A seguir, uma lista das principais formas de assar churrasco, dentre elas a famosa churrasqueira.

BafoChurrasqueira de alvenaria – pode ser construída de tijolos ou com material pré-fabricado. Deve ser construída longe de correntes de vento e é o modelo ideal para quem faz churrascos com freqüência. Deve ser construída no tamanho ideal para você, pensando na quantidade de pessoas que costuma convidar para suas festas. O risco de fazer uma churrasqueira muito grande é desperdiçar combustível colocando muito carvão – o combustível mais comum em pedaços ou barras. O carvão queima devagar e liberam calor de forma constante.

Churrasqueira portátil – barata, composta de uma vasilha de metal apoiada sobre uma armação. Não tem sistema de ventilação nem tampa mas é fácil de acender e simples de controlar. Existem churrasqueiras deste tipo “movidas” a gás, com tijolos refratários que se aquecem no calor da chama produzida pelo gás. Este tipo de churrasqueira manter o calor constante e, se possuir interruptor duplo, permite que se tenha carvão quente de um lado e morno de outro. Existe também o modelo elétrico, que também dispõe de tijolos refratários para espalhar o calor de forma uniforme. O problema é que estas levam cerca de 10 minutos para aquecer e, por geralmente não possuirem tampa, não podem ser levadas para a chuva.

Defumadoras – especialmente projetadas para defumar os alimentos, podendo ser utilizados para defumação seca ou úmida. Custam caro e são difíceis de achar no mercado. Para defumar em uma churrasqueira comum, basta encontrar um modo de colocar um recipiente de água entre o fogo e a carne, para que a fumaça e o vapor d’água cheguem à carne, realçando o sabor. O processo deve ser prolongado por horas, lentamente, em uma churrasqueira coberta.

Fogo de ChãoChurrasqueira com tampa – utilizada para fazer o churrasco ao bafo, geralmente são feitas com um tambor serrado ao meio no sentido do seu comprimento e colocadas horizontalmente sobre uma base. No meio do tambor se coloca uma grelha e abaixo dela uma gavetinha central com um telhado (para não deixar a grelha pingar gordura e outros líquidos). A parte de cima é a tampa com uma ou duas chaminés com borboletas para controlar o fluxo de fumaça e calor. Suas principais vantagens são a economia de carvão, a praticidade, já que não há necessidade de virar a carne o tempo todo, evita o contato da fumaça branca, já que a gordura não cai sobre a brasa e deixa a carne com sabor diferenciado, semidefumado.

Churrasqueira a gás – pronuncia-se parrilha ou parridja e é o sistema comum nos países portenhos ou hispânicos. É composta por uma ou mais grelhas fixas e/ou móveis onde são colocadas as carnes. No modelo de parrilha argentina, a grelha é formada por canaletas em forma de “v” que drenam o suco e a gordura da carne para um depósito, evitando o excesso de fumaça. No modelo uruguaio, a grelha é uma telha ou grade, o que facilita sua confecção. A parrilha geralmente é utilizada para cortes menores ou steaks.

Fogo-de-chão – sistema gaúcho de assar que consiste em fazer fogueiras ou fileiras de fogueiras e colocar espetos (ou fileiras de espetos) para assar a carne. É a forma ideal para preparar a costela inteira (costelão), geralmente utilizando-se 6 ou mais horas para seu preparo.

Leitão no RoleteRolete – sistema onde se coloca o novilho, porco, leitão, carneiro, pernil ou outras carnes a rodar em um rolete e vai se virando a carne com uma manivela ou em casas comerciais através de um motor.

Churrasqueiras alternativas

A Forquilha – a mais primitiva de todas as churrasqueiras é constituída de duas forquilhas de árvore, um outro galho ou taquara como espeto e um braseiro por baixo. Quebra o galho em acampamentos.

Espeto vertical – é a forma mais tradicional de churrasqueira, comporta por dois espetos de taquara fincados no chão, inclinados na direção do fogo, um contra o outro. Basta calcular bem a altura, a inclinação, evitando que o fogo pegue no espeto e também controlar o braseiro, evitando que o calor se disperse pelo espaço aberto

Espeto em cruz – em geral usado para grandes pedaços de carne que precisam ser estendidas em direção ao fogo no chão. Como a carne não fica pronta toda ao mesmo tempo, o churrasqueiro vai tirando a carne aos nacos e, ao mesmo tempo, movimentando a carne em direção ao calor.

Valeta – é a forma mais prática para fazer um churrasco para mais de 100 pessoas. Cava-se uma valeta com 1 metro de largura e 50 cm de profundidade com o comprimento necessário para receber a carne e a quantidade de espetos necessária. Nesse caso, um espeto será a medida para duas pessoas. Após a churrascada, é só recolocar a terra no lugar.

Uma dúzia de tijolos – a mais simples das churrasqueiras é feita com duas fileiras de três tijolos encostado de cada lado. É muito usada pelos funcionários da construção civil. É claro que quanto mais carne a ser utilizada, mais tijolos serão utilizados na “contrução” desta prática churrasqueira.

Todos artigos da série “Como Fazer Churrasco

Como fazer churrasco I – Introdução e História
Como fazer churrasco II – Material indispensável para um Bom Churrasco
Como fazer churrasco III – Conheça os Melhores Cortes de Carne
Como fazer Churrasco IV – Como temperar carne para churrasco
Como fazer churrasco V – Quanta carne comprar para um churrasco?
Como fazer churrasco VI – Quanto tempo demora para a carne ficar pronta?
Como fazer churrasco VII – A churrasqueira
Como fazer churrasco VIII – Dicas e Conselhos Úteis (I de II)
Como fazer churrasco IX – Dicas e Conselhos Úteis (II de II)
Como fazer churrasco X – Links úteis para o bom churrasqueiro

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