Monthly Archives: janeiro 2013

Jan 29

História do CarnavalSofia

By Rafael Reinehr | Eventos Culturais

A ideia do CarnavalSofia surgiu na manhã de 20 de fevereiro de 2009, mas o primeiro evento só foi se realizar um ano depois, no Carnaval de 2010. Na ocasião, fiz uma ligeira postagem de blog apenas para registrar a ideia.

Em 2010, efetivamente, tivemos o primeiro CarnavalSofia. Foi bem mais simples do que o planejado mas rendeu ótimos momentos de reflexão, diálogo e também companhias agradáveis, inclusive do amigo Pedro Volkmann, que se deslocou de Porto Alegre para debater sobre o TAZ – Zona Autônoma Temporária, do Hakim Bey.

O segundo CarnavalSofia, em 2011, me pegou em Florianópolis, e acabou acontecendo no apartamento da Viviane Amaral, juntamente com a Márcia Brincas e a Gisela Franco. O papo rolou solto e foi um dia muito agradável, totalmente informal e celebrativo.

Já no terceiro CarnavalSofia, em 2012, as atividades e a presença de público começaram a se tornar “sérias”: dois dias de evento, 21 e 22 de fevereiro, acontecendo no Solar das Lagartixas, com presença de pessoas de Porto Alegre, Criciúma, Araranguá, Arroio do Silva e até do Ceará. A programação se tornou mais ampla e eclética e a interação entre as pessoas mais gostosa e divertida.

Finalmente, chegamos em 2013 e ao IV CarnavalSofia. Neste ano, 5 dias de folia, reflexão e ação e uma programação de arrasar quarteirão, cheia de atividades culturais, contraculturais, de integração e celebração da vida humana.

O que o próximo ano nos espera, só o tempo dirá!

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Jan 29

IV CarnavalSofia – 08 a 12 de fevereiro de 2013 – Uma folia para pensar e agir

By Rafael Reinehr | Eventos Culturais

Está chegando o CarnavalSofia 2013! Neste ano, serão 5 dias de folia e a pegada será, ao invés de libertina, libertária!

No seu quarto ano, o CarnavalSofia tem a honra de receber pessoas de Florianópolis, Criciúma, Porto Alegre e da vizinhas cidades da AMESC e AMREC. Neste ano, contaremos com a presença especial de vertov, do Centro de Inovação Social de Floripa, que será nosso oficineiro oficial e estará ministrando oficinas de rádio livre e debatendo os filmes antiautoritários conosco, no CineAvenida.

Todos os eventos são gratuitos e livres para qualquer pessoa. Basta chegar, não precisa se anunciar! Sinta-se livre (mas não constrangido) a trazer algo para beber ou comer. Sempre haverá algo para beliscar e bebericar, entretanto.

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Acompanhe abaixo a programação dos 5 dias de evento e veja, ao final, o endereço dos locais do evento:

08/FEVEREIRO

19h – 21h30′ – CineAvenida: Impasse – As manifestações contra o aumento da tarifa e o debate sobre o transporte coletivo em Florianópolis – no Galpão Cultural

Após cineclube: Instalação e configuração da rádio livre, que irá funcionar durante o CarnavalSofia (e além)

09/FEVEREIRO

7h30′- 10h30′ – Mutirão Especial de Carnaval da Horta Coletvia – no Solar das Lagartixas, entrada pela Rua Maranhão, pelo portão prateado em frente à casa de número 267 – traga sua enxada ou sua boa vontade!

14h – Bate-papo sobre rádio e mídia independente – no Solar das Lagartixas

15h – Oficina de rádio livre: como ocupar este espaço – no Solar das Lagartixas

19h – 22h – CineAvenida: No olho do furacão – no Galpão Cultural

23h – Festa da Integração – comes, bebes, devires e sentires, no Solar das Lagartixas – traga sua bebida ou então cerveja na hora baratinho

10/FEVEREIRO

13h30′ – Programa Contrabando especial em rede com o rizoma de rádios livres + bate papo especial sobre o Dia da Internet Segura – transmitindo do Solar das Lagartixas

15h – FotoClube Araranguá – Saída Fotográfica + Passeio e Piquenique na Fazenda Bom Encontro, no Pontão, em Araranguá

20h – CineAvenida – La Revolucion Penguin – no Galpão Cultural

11/FEVEREIRO

10hRecital no Cemitério: música, poesia e lágrimas para saudar nossas memórias – no Cemitério Municipal

14h – Programa de Rádio CarnavalSofia Especial – com relatos do evento – transmitindo do Solar das Lagartixas

19h – 22h – CineAvenida – O Panelaço – no Galpão Cultural

12/FEVEREIRO

10h – Encerramento da Programação OU Lançamento da Rádio Livre – transmitindo do Solar das Lagartixas

14h – Summercamp da Coolmeia + Reativação do Favo Araranguá + Socialismo Libertário & Utópico 101, no Solar das Lagartixas

19h – CineAvenida: O que fazer em caso de incêndio, no Galpão Cultural

 

ENDEREÇOS IMPORTANTES:

Solar das Lagartixas: Rua Sergipe 339, Jardim das Avenidas

Galpão Cultural: Rua Turvo nº 315, Urussanguinha

Horta Coletiva: Rua Maranhão, entrada pelo portão prateado em frente à casa de nro. 267 – Jardim das Avenidas (na rua dos fundos do Solar das Lagartixas)

Cemitério Municipal, próximo ao Angeloni

 

Saiba mais sobre a história do Carnavalsofia aqui: história do carnavalsofia

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Jan 28

O Anarquismo e suas Aspirações – parte IV

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

A Vida como um Todo

Implementar o Anarquismo como um projeto vivo se torna indissociável do Todo da Vida. Significa uma jornada em contínuo evoluir, com melhores (e piores) aproximações da liberdade aparecendo em vários tempos e lugares, apenas para aparentemente quase desaparecer um significativamente diminuir novamente. Contudo, a cada aproximação, a própria ideia de liberdade se expande com a noção do que é ser humano. Reminiscências da liberdade permanecem, em fatos ou na memória. Vestígios dos experimentos persistem. As pessoas se transformam e passam seus senso de potencialidade para outros.

hierarquia2É um momento de euforia quando, pela primeira vez, nos damos conta e arrancamos do nosso senso comum a percepção de que o racismo ou os estados são normais e necessários. A movimentação em direção a estados da mente, relações e instituições incrementalmente não-hierárquicos, abre um mundo inteiro de possibilidades – pelo menos como um começo, dentro de uma pessoa. O primeiro ato pode ser um pensamento crítico, um relacionamento menos estranho consigo mesmo e com os outros, ou a reapropriação da imaginação como um passo adiante em direção a uma sociedade não alienada.

Outra sensibilidade compartilhada entre anarquistas é sua tentativa de "escrutinizar" e alterar a totalidade da vida. O Anarquismo não se concentra somente nas esferas políticas, culturais, psicológicas ou outras. Nem separa uma questão singular de suas relações com outras questões, mesmo que cada um pessoalmente coloque ênfase em uma área em particular. Ele se preocupa com tudo que faz as pessoas humanas, incluindo o mundo não humano. O trabalho do Anarquismo acontece em todos os lugares, todos os dias, de dentro do corpo político até o corpo em si mesmo.

A esperança anarquista em transformar a vida se traduz em uma abordagem compartilhada, holística para viver a vida. Abraçar o Anarquismo é um processo de reavaliar cada asserção, cada certeza, tudo o que alguém pensa ou atua sobre e, com certeza, quem cada um é e então, basicamente, virar a vida desta pessoa de cabeça para baixo.

Acabar com relações coercitivas é uma jornada de refazer a si mesmo, como parte de um projeto de refazer o mundo. Mas se tornar um anarquista é também um processo – sem fim – de aplicar um compasso ético ao todo o que cada um (e todo mundo) é e pode ser individual e socialmente.

Os anarquistas não são necessariamente melhores ou piores do que qualquer outra pessoa. Eles são tão danificados pela teia intricada de hierarquias, ódio, e relações comodificadas que malformam a todos. Dentro dos círculos anarquistas, entretanto, várias tentativas pelo menos são feitas para se tornar aberto e auto-reflexivo acerca deste dano e, a partir daí, desenvolver formas humanas de abordá-lo e remediá-lo. O Anarquismo busca trabalhar pesado para reformar a cada um bem como a sociedade.

o-certo-a-fazerOs Anarquistas questionam a totalidade da vida, constantemente perguntando: "Qual é a coisa certa a fazer?". Eles lutam para aplicar as respostas a tudo, desde necessidades básicas até desejos complexos, de instâncias de opressão até a desigualdades institucionais. Eles não vivem vidas puras e éticas. Ao invés, a distância entre o que os anarquistas imaginam ser totalmente ético e a série de más escolhas que todos fazemos sob as atuais condições ilustra que as relações sociais hierárquicas irão para sempre bloquear nossa possibilidade de ser livres.

A ênfase anarquista na totalidade da vida lembra que a ordem social vigente já enquadra o mundo para todos dentro de pequeníssimas interações: "escolha", por si só, já é algo determinado dentro de certos parâmetros permissíveis. Os anarquistas criticam esta estrutura e constróem uma outra, ética, em seu lugar, ao contrário de promover uma avaliação moralista sobre se cada indivíduo é 100% ético agora – ou mesmo se está perto ou não. Os anarquistas não vivem vidas consistentemente éticas, mas seu esforço para fazê-lo é uma forma de desvelar as possibilidade de se mover para longe desse presente não ético.

Ao mesmo tempo, ser um anarquista não é sacrificar a si mesmo em nome da "revolução". Tentando transformar a totalidade da vida aproximando-se de uma série de valores, os anarquistas tanto revelam as contradições sociais e testam novas relações sociais. Eles também começam a experimentar como a vida por si própria poderia ser qualitativamente diferente nas mais variadas formas: para cada um e entre outros que estão fazendo o mesmo. Dessa maneira, os anarquistas compartilham um senso de vida mais autodeterminado, vidas articuladas nos fronts pessoais e sociais, e ajudam a gradativamente aproximar "o que é" do "que poderia ser". E isso não é tarefa pequena. A universalmente sentida alienação de uma totalidade da vida neste momento histórico em particular – existir em meio a uma forma de capitalismo globalizado – pode fazer parecer que atotalidade da vida está "fechada para a transformação".

abundanciaO Capitalismo apresenta possibilidades brilhantes para o futuro (nós podemos alimentar o mundo! sua própria compra vai fazê-lo feliz por muito tempo! esta rede social vai reduzir sua solidão!), mas nunca as preenche, então as pessoas precisam seguir atrás da próxima brilhante possibilidades. O último iPhone que atende a todas suas necessidades é, agora, uma casca inadequada, substituída pela próxima resposta a todos seus desejos. Se alguém tem "tudo" ou "nada", a "vida" no capitalismo é um vazio.

Os experimentos anarquistas expõe as rachaduras neste edifício. Elas permitem às pessoas a experimentar pessoalmente o que poderia ser a vida se ela fosse feita por elas mesmas. Essa retomada qualitativa do dia a dia revela os cálculos quantitativos atordoantes que  as pessoas são compelidas a fazer no capitalismo. Expandir o qualitativo pode ser uma chave para a superação do capitalismo, já que não adianta quanto o capitalismo tenta recuperar tudo o que faz as pessoas humanas, sua aparência quantitativa sempre parecerá estéril quando contrastada com um senso do que parece significar estar verdadeiramente vivo.

Essa é uma mudança sutil, é claro, especialmente sob condições limitantes e opressivas, mas é como as pessoas geralmente descrevem seu primeiro encontro com o anarquismo na prática. Pode ser a exuberância de formar um grupo de estudos para resgatar a educação ou a experiência visceral de poder durante um protesto com um grupo de afinidade. Pode ser o orgulho de tornar comum as capacidades e recursos para estabelecer um novo centro social. Ou talvez a graça de estabelecer maneiras coletivas de atender às necessidades materiais. Fazer nós mesmos juntos, não para acumular fortunas ou acumular poder, mas para cunhar ricas novas relações de compartilhamento e gentileza, sempre prioriza qualidade acima da quantidade, demarcando novos termos baseados em como cada um gostaria de ver tudo feito, cooperativamente e através de meios democraticamente diretos, voluntaria e solidariamente. É sobre mover-se para longe de uma visão de mundo instrumental para uma baseada no valor intrínseco de cada pessoa.

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Essa dimensão qualitativa dentro do Anarquismo não é somente uma sensação, ajudando as pessoas a sobrepujar o peso da alienação sob o Capitalismo. Muitos projetos anarquistas são também modelos de como alcançar as necessidades diárias, de forma a em última instância superar a deprivação material que o capitalismo impõe à maioria da humanidade. Ambos são elementos vitais da transformação revolucionária. O Capitalismo indicou que os seres humanos podem alcançar uma sociedade pós-escassez – um mundo no qual cada um tem o suficiente do que precisa para sustentar a vida. Mas a despeito de supermercados, confeitarias e lixões transbordando de comida, bilhões de pessoas passam fome; a despeito de tecnologias para reduzir o trabalho humano, a maior parte das pessoas trabalha mais por menos; a despeito de avanços nos cuidados de saúde, muitas morrem sem necessidade. Enquanto isso, o consumo foi transformado em um barômetro do valor de cada um, uma busca sem fim pela felicidade a partir de escolhas comodificadas. E sempre há a premissa de o que cada um tem para trocar por esta abundância, ou então ela o estará negada.

Os projetos anarquistas, em contraste, buscam reorientar o todo da produção. Como oposição direta ao capitalismo, eles buscam desenvolver formas auto-geridas de produção que permitam às pessoas ver elas mesmas naquilo que fazem e reconhecer outros naquilo que produzem. Elas transformam noções de produção e trabalho conjuntamente, de forma que as pessoas possam fazer coisas de acordo com suas inclinações pessoais, e assim o "trabalho" se torna uma forma prazerosa de preencher coletivamente as bases materiais da vida. Eles objetivam garantir plenitude também, baseado na crença de que todos merecem sustentabilidade material apenas em virtude de serem humanos. Os projetos anarquistas também tentam reorientar o consumo. Eles se constróem sobre a ideia de que quando as pessoas se vêem refletidas naquilo que criam, as "coisas" carregam um senso de "divindade" – o cuidado e a individualidade que vai em fazer coisas. Eles transformam noções de consumo conjuntamente, mudando o foco em direção ao uso e reuso, via compartilhamento, presenteamente e trocas. Destas formas, o Anarquismo caminha em direção a novos entendimentos sobre o que é felicidade, sem mencionar o "valor humano", fora da forma comodificada.

Os anarquistas desenham pequenos experimentos com grandes objetivos para permitir que as pessoas alcancem suas necessidades e desejos, sejam ecológicas, façam novas relações sociais, organizem espaços e organizações e tomem decisões conjuntamente – tudo em formas não hierárquicas. Um projeto chamado Food Not Bombs (Comida Não Bombas) iniciou em Cambridge, Massachussets, em 1980, e foi traduzido e adaptado a outros contextos pelo mundo. Ligado em nome e em ssensibilidade, mas operando autonomamente em cada localidade, Food Not Bombs desafiava as relações das pessoas com a produção e o consumo de alimentos. A ideia é que as pessoas estabeleçam contra-instituições bem como estilos de vida que ganhem força – porque elas capturam os corações, as mentes e a participação de pessoas suficientes – para em última instância existir ou até mesmo finalmente vencer, em uma contestação vitoriosa, ao poder centralizado.

Esforços como Food Not Bombs (ou derivativas como  Food Not Lawns (Comida Não Gramados), Homes Not Jails (Casas Não Celas), e Books Through Bars (Livros Através das Grades)), assim como muitos projetos anarquistas, muitas vezes operam largamente dentro de uma subcultura, que pode ser uma fase necessária para testar nossas ideias e desenvolver uma infraestrutura. Como qualquer alternativa, elas podem cair na cooptação ou simplesmente na confortável rotina. Como ninguém é dono destes projetos, anarquistas e outros podem brincar com e construir sobre eles. Se alguém contasse quantas pessoas foram "servidas" pelos projetos e iniciativas anti-autoritárias – o número de pessoas cujas necessidades por comida ou habitação são atendidas de uma forma razoavelmente consistente – este número chegaria facilmente a casa dos milhões, globalmente. Aqui, aparece novamente a necessidade de linhas mais claras de interdependência e apoio mútuo entre as diversas iniciativas, movimentos e coletivos que estão na luta anti-hierárquica.food-not-bombs2

Uma das coisas mais importantes sobre caminhar em direção ao um mundo melhor é entender como as pessoas o estão fazendo. As práticas anarquistas compartilham elementos distintivos, mesmo que implementados de formas diversas: as vidas e as comunidades que eles tentam estabelecer são baseadas na premissa de um compasso ético compartilhado. Essa é a chave, dado que a maior parte das forças sociais da atualidade negam e tentam destruir estas alternativas. Os esforços reconstrutivos para reestruturar a vida do cotidiano implica que pessoas podem trabalhar para destruir relações comodificadas e coercivas. Elas também sustentam pessoas pelo trabalho duro de fazer justamente isso.

Um Compasso Ético

O Anarquismo serve como uma pedra fundamental não simplemente para anarquistas mas especialmente para aqueles que encontram o desafio anarquista: "Qual é a coisa certa a fazer?". Os anarquistas clássicos a chamaram simplesmente de "a Ideia". O Anarquismo permanece como um farol através de sua história e suas práticas, e talvez mais especialmente através de seus ideais.

Outras filosofias políticas diferentes do Anarquismo aceitam o status quo como dado, e então buscam entender o que é possível dentro de um panorama pré-determinado. Não quer dizer que outras filosofias políticas não tenham suas próprias orientações éticas, mas o Anarquismo mantém suas éticas na frente, como uma questão central antes de tudo o mais.

eticaOs anarquistas também querem ser eficientes e efetivos. Mas para eles, a ética dá forma a como as pessoas pragmaticamente lutam pela mudança social. Por exemplo, antes de afirmar que não é factível incluir todos de uma ampla região nas decisões que afetam suas vidas, os anarquistas argumentarão que, pelo fato deste objetivo ser tanto desejável quanto ético, nós devemos descobrir como caminhar nesta direção e em última instância garanti-lo.

Os anarquistas não querem pular de uma sociedade baseada no estado para uma não estatista da noite para o dia; mas significa, isso sim que os anarquista vêem processos de tomada de decisão coletivos e inclusivos como parte integral e necessária de cada projeto. Quando anarquistas reúnem-se a seus vizinhos para salvar uma livraria local, eles sugerem uma assembléia geral como o "corpo organizativo", e oferecem suas habilidades para fazê-la funcionar. Eles irão se encontrar para determinar a melhor estrutura coletiva para seu novo "infoshop", mesmo que tome um pouco mais de tempo, ao mesmo tempo em que educam a si mesmos em direção a processos democráticos no micronível de forma a estender estas práticas ao todo da organização social.

Nunca é uma questão de ética versus pragmatismo: é uma questão de qual informa à outra. Humanos tem demonstrado capazes de uma imaginação e inovação quase ilimitada – qualidade que podem ser ditas definidoras dos seres humanos. As pessoas tem usado esta capacidade para fazer tanto um grande bem quanto um grande mal. Faz sentido primeiro perguntar às pessoas o que elas querem fazer e porquê, de um ponto de vista ético, e então ir às perguntas pragmáticas sobre como fazer. O próprio processo de perguntar o que é certo é como as pessoas preenchem de ética a prática, para atender novas demandas e dilemas, novas condições e contextos sociais.

O Anarquismo, então, traz uma ética igualitária em nosso mundo, fazendo-o transparente, público e compartilhado. Ele mantém uma orientação ética, enquanto continuamente tenta colocar estas noções em prática, independente de quão falho o esforço possa ser. Quando outras pessoas entram em contato com este compasso ético, elas irão esperançosamente "tomá-lo para si" e incorporar os mesmos valores em suas vidas. Ele oferece direcionalidade para o envolvimento político e fortalece os esforços das pessoas para refazer a sociedade. Ele transforma sobreviver em prosperar. Esta é a diferença crucial entre um impulso pragmático versus um ético: as pessoas, em acertos cooperativos, qualitativamente transformam a vida uns dos outros.

compartilharÉ claro, existe uma enorme barreira psicológica para pular de uma situação a outra. Muitas pessoas, afinal de contas, estão lutando apenas para continuar vivendo. O Anarquismo combina o projeto combinado de tentar criar as condições materiais que libertem as pessoas de forma suficiente para fazer esta mudança. Sua orientação ética implica em um humanismo subjacente e esforços vívidos de humanidade. Ele tenta praticar a boa sociedade, com outros, dentro da casca da "não-tão-boa sociedade". O objetivo do Anarquismo não é tornar todos anarquistas. É encorajar as pessoas a pensarem e agirem por elas mesmas, mas fazer isso a partir de um conjunto de valores emancipatórios.

Ética não é uma entidade fixa mas ao invés disso um questionamento contínuo do que significa ser uma boa pessoa em uma boa sociedade. Ela se desenha a partir da tríade clássica das aspirações filosóficas: o bom, o verdadeiro e o belo. Estes são os pontos de partida para as questões do anarquismo bem como seu modelamento das respostas. Em um mundo que parece – que é – crescentemente errado, o compasso ético do Anarquismo atua como um antídoto. Isso sozinho já é uma contribuição enorme.

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

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Jan 18

O Anarquismo e suas Aspirações – parte III

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Adiante!

 

"O objetivo do Anarquismo é estimular forças que levem a sociedade em uma direção libertária"
Sam Dolgoff, A relevância do Anarquismo para uma sociedade moderna, 1970

Durante o período comunista e fascista, as forças históricas levaram a sociedade a uma direção mortífera. O Anarquismo não desapareceu neste tempo, mas suas fileiras foram dizimadas. Figuras-chave foram mortas, como Gustav Landauer (1919) e Erich Mühsam (1934), Ricardo Flores Magón (1922) e Alexander Berkmann (1936).

Os anarquistas estavam cada vez mais isolados, e seu último encontro foi durante o funeral de Kropotkin, em 1921. Milhares de anarquistas pelo mundo foram encarcerados, exilados ou assassinados. Como consequência, foi como se a esquerda anti-autoritária tivesse pulado uma ou duas gerações.

Nesse interim: fascismo, bolchevismo e maoísmo; EUA desponta como uma superpotência global; nascimento das instituições financeiras multinacionais com o "avanço" do capitalismo; a guerra fria e a ameaça nuclear… Estes e outros fenômenos emergentes dramaticamente expandiram as fontes de dominação que qualquer plataforma libertária necessitava abordar.

antifascistaA partir dos anos 60, o Anarquismo começou a se redesenhar para o século XX, obtendo seus insights de outros movimentos afins, como os movimentos radicais de liberação feminina e gay, os Autonomen na Alemanha e os Zapatistas no México. Inspirou, de forma mais ou menos explícita, desde o provos de Amsterdan a novas formas de ecologia radical como o Movimento Antinuclear e o Earth First até a Revolta das Tarifas britânica.

No final do século XX, a Batalha de Seattle em 1999 foi, para o Anarquismo, apenas mais uma manifestação de uma cadeia de reinvenções de sua própria tradição. O que Seattle efetivamente fez foi colocar no foco esse Anarquismo revigorado, seja através de imagens de "black blocs" anarquistas jogando tijolos através de janelas da Starbucks ou explicações sobre como grupos de afinidade e o modelo de "spokescouncli" funcionavam na prática. Mais importante: deu visibilidade e voz ao Anarquismo em geral, ajudando a recapitular a imaginação política, juntamente com uma série de outros "movimentos vindos de baixo" ao redor do mundo.

Entretanto o Anarquismo não está imune à crescente fragmentação e  imediatismo que caracterizam a sociedade capitalista contemporânea. Ele tb e atingido pelo fenômeno que critica mesmo os anarquistas defendendo uma comunidade de comunidades, eles são, como a maior parte das pessoas hoje, alienados de qualquer senso de lugar e uns dos outros. Entretanto, permanece um profundo senso de reconhecimento entre anarquistas, baseado no compartilhamento de uma série de valores distintivos, que por sua vez estruturam suas vidas e projetos.

 

Filosofia da liberdade

 

"Possibilidade não é um luxo, é tão crucial como pão"
Judith Butler, "Undoing Gender", 2004

Uma instância revolucionária

auto2O Anarquismo é plenamente radical no verdadeiro senso da palavra: chegar até a raiz ou origem dos fenômenos, e daí realizar mudanças dramáticas nas condições existentes, sempre que necessário. O Anarquismo aspira fundamentalmente transformar a sociedade em direção a noções expansivas de liberdade individual e social. Muitas vezes, na prática, isso significa engajar-se em várias "reformas" ou melhoramentos, mas naqueles que ao mesmo tempo tentam explicitamente articular uma política revolucionária.

Essa "reforma-apontando-para-a-revolução" é certamente difícil de manejar, já que o capitalismo se organiza de forma a recuperar tudo que aparece à sua frente.

Apesar das dificuldades, os anarquistas nunca defendem uma atitude puramente reformista. Eles dão o seu melhor para nunca participar da reforma como um fim em si mesma, ou trazer melhoramentos que também tornem a ordem social atual parecer mais atrativa. Eles simultaneamente direcionam seus esforços organizativos a "restringir as atividades do Estado e bloquear sua influência em todos departamentos da vida social sempre que vejam uma oportunidade".

cap9Capitalismo e Estado possuem uma lógica interna separada mas frequentemente interrelacionada que consolida monopólio para poucos, sempre às custas de muitos. Isso demanda que cada sistema precisa continuamente expandir e marcar seu domínio. Para sobreviver, eles devem fazer parecer normal que a maioria das pessoas estejam materialmente empobrecidas e desempoderadas como atores econômicos e socialmente empobrecidas e desempoderadas como atores políticos.

O mundo que a maior parte da humanidade produz é, como resultado, negado à vasta maioria, e uma quantidade relativamente pequena consegue tomar decisões sobre todos aspectos da vida. Mover além do capitalismo e dos estados significa nada menos do que virar o mundo de cabeça para baixo, quebrando todos os monopólios e reconstituindo tudo em comum – de instituições à ética da vida cotidiana.

Assim, por exemplo, enquanto muitos dos movimentos de justiça climática e global focam nas corporações como a chave, os anarquistas vêem, estas entidades apenas como peças do capitalismo, e uma peça que, se removida, não destruiria o capitalismo, por pior que sejam estas corporações. Pode existir capitalismo sem corporações. A essência do capitalismo – garantir que a sociedade seja forjada ao redor de relações sociais compulsórias ao longo de inequidades de poder e condições materiais – permaneceria em seu lugar. E, devido à lógica "crescer ou morrer" do capitalismo, o capitalismo de pequena escala por definição se desenvolveria em larga escala novamente.

O capitalismo localizado, como nossas estruturas informacionais e em rede capitalista indicam, pode ser uma forma de esconder uma crescente concentração de controle social e injustiça. O capitalismo em si, em sua totalidade, e justamente pelo fato de buscar a totalidade, é o problema essencial.

As estruturas econômicas e valores do capitalismo passíveis de ataque, e que o marcam como um sistema são: corporações, bancos, propriedade privada, lucro, patrões, trabalho assalariado, alienação e comodificação, para citar algumas.

O capitalismo, por sinal, com frequência produz excessos em coisas como comida e habitação. Mas a não ser que este excesso possa ser trocado, ele é jogado fora ou permanecer vazio. Enquanto isso, muitas pessoas estão famintas ou dormindo nas ruas.  Tornar este excesso disponível para uso e não para troca – reclamando como algo COMUM – revela a habilidade das pessoas em se auto-organizar para alcançar suas necessidades. Também mostra que ser completamente humano encolve compartilhar o excedente livremente e tomar cuidado de todos, não apenas daqueles que conseguem se alimentar ou alojar por si próprios.

anarc1"Tudo para todos e o que mais houver, grátis"

"Ocupe tudo"

"Use ou perca" – "Direito à propriedade ou direito ao uso?"

Usufruto: Nossa capacidade de usar e aproveitar a moradia como um bem social, em contraposição ao valor de troca do capitalismo.

Sobre o Estado, não é uma questão de tentar tornar o Estado mais bondoso, mais multicultural, mais benigno, ou seguir a pé da letra sua própria lei. A própria lógica do Estado assegura que poucas pessoas serão mais aptas do que todos a determinar "a vida, a liberdade e a busca da felicidade".

Não é apenas o fato de que o Estado tem o monopólio da violência, mas também como ele compele o povo a abrir mão de seu poder – com armas, urnas ou pacificação através de uma participação já circunscrita – ele sempre está engajado em uma variedade de formas de controle social e engenharia social.

A maquinaria estatal, em essência, é sobre um pequeno corpo de pessoas legislando, administrando e criando políticas sociais. Em seu modo de atuar, ele também sustenta outros tipos de dominação como o racismo institucionalizado, a heteronormatividade.

Cada vez mais, o "Estado" está fazendo isso como parte de uma estrutura em rede de estados colaborando em blocos ou em instituições globais. Assim, menos e menos pessoas tem chance de determinar políticas que vão desde estados de guerra, a saúde da sociedade e a imigração. Mesmo a noção de democracia representativa neste regime global é quase anacrônica, dadas as camadas de governança não representativa que agora trabalham lado a lado com ONGs e corpos financeiros multinacionais igualmente não democráticos.

O ponto aqui é que os anarquistas concordam com a necessidade de um mundo sem capital e estados, precisamente de forma a permitir que todos façam o melhor de suas vidas, liberdades e felicidade – de ser capaz de continuamente definir bem como tomar parte na qualidade destas categorias.

anarc9Os anarquistas acreditam que juntas, as pessoas provavelmente visionam, deliberam sobre e vivem sobre uma organização social mais criativa, multidimensional.

Aqui, mais uma vez, os anarquistas oferecem uma prática revolucionária que envolve tanto condições atuais e aponta além delas. Um projeto que envolve providenciar alimentos excedentes para aqueles com fome também pode incluir uma assembléia de democracia direta, na qual todos envolvidos comecem a tomar decisões coletivas. Quando um lote vazio é colocado à venda para a maior oferta para um desenvolvimento de luxo, os anarquistas realizam uma chamada para que ele seja transformado em um parque, então se juntam com os vizinhos, não apenas para embelezar o espaço mas também para experenciar o poder político em reclamá-lo.

Mesmo no contexto de uma demonstração de massa orientada para a reforma, os anarquistas infundem sua perspectiva revolucionária – por exemplo, coordenando um dia de ação global não via uma organização central mas usando uma confederação de grupos e movimentos autônomos.

Os anarquistas mantém que o Estado e o Capitalismo devem desaparecer pois ambos mantém poder sobre a maioria do mundo humano e não-humano. Em seu coração, a filosofia política é sobre poder: quem o detém, o que faz com ele, e em direção a que fins. O Anarquismo, mais claramente do que qualquer outra filosofia política, responde que o poder deve ser feito horizontal, deve ser mantido em comum.

Hierarquia e Dominação em Geral

Essa concentração em arranjos de poder de baixo para cima levou o Anarquismo a se opor não somente ao Capitalismo e ao Estado mas também à hierarquia e dominação em geral. Nada mais natural, neste contexto, opor-se a outras instituições na qual a dominação e a hierarquia são a tônica, como o Exército, a Igreja e a Escola, por exemplo.

anarc1-4O Anarquismo, diferentemente do Marxismo, tira o foco dos problemas como supraestruturalmente sendo de ordem econômica, para passar a uma ordem anterior ao surgimento do Capitalismo e do Estado, buscando as raízes do surgimento da dominação, empurrando o Anarquismo a um libertarianismo horizontal mais abrangente ainda. Em seu livro A Ecologia da Liberdade (The Ecology of Freedom, 1982), Murray Bookchin explora a emergência da hierarquia pelos milênios e sua intricada relação com o legado da liberdade, repensando a forma de ser do Anarquismo e refletindo sobre todo tipo de experimentações, projetos e relacionamentos não hierárquicos, anarquistas ou não, da contracultura, da Nova Esquerda, dos movimentos autonomistas dos anos 60 em diante, todos eles ajudando a transformar o entendimento do Anarquismo acerca dele mesmo.

Essa mudança moderna de perspectiva significa que, mais do que nunca, o Anarquismo está interrogando a si mesmo e a todos acerca de quais formas nas quais a hierarquia e a dominação se manifestam ou desenvolvem, sob novos contextos históricos. Isso se traduziu em uma percepção profunda e sincera de que, mesmo que o capitalismo e o estado fossem abolidos, muitas formas de hierarquias ainda poderiam existir; e que ao longo do capitalismo e do estado, muitos outros fenômenos causam grave sofrimento.

E aqui aparece a importância das instâncias revolucionárias anarquistas no contexto histórico atual: enquanto os anarquistas defendem a abolição do trabalho assalariado, o contexto capitalista atual acaba por produzir isso à medida em que postos humanos são substituídos por máquinas; o que resta, entretanto, é que o bem-estar e a riqueza advindos da substituição humana por uma máquina acaba sendo centralizado nas mãos de poucos, ao invés de distribuído por muitos. As mesmas tecnologias desenvolvidas para realizar controle de estoques no mercado capitalista, podem ser subvertidas, modificadas e produzir sistemas de compartilhamento não alienantes de bens, serviços e tempo. Perceber esses diferentes lados na interação entre o Capital e o Comum-Livre é um dos papeis mais importantes do Anarquismo. E ainda vamos além.
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Existem possibilidades no presente, fissuras na dominação que apontam em direção à liberdade. A crescente incapacidade do Estado em proteger seus cidadãos de praticamente tudo – desde doença até violência – mina a própria justificativa da sua existência, enquanto também cria uma abertura para inovações federadas de base acerca de como garantir plenitude material e comunidades mais sadias e seguras sem o Estado. E, mais profundamente ainda: à medida em quem os anarquistas testam suas ideias, novas formas de liberdade descobrem camadas ainda mais escondidas de dominação.

A hierarquia e a dominação sempre servem para evitar um mundo consensual e igualitário. Os anarquistas lutam para desmantelar formas de relações e organizações sociais que permitam a algumas pessoas exercer dominância sobre outras pessoas ou coisas. Eles contrastam o uso do poder para ganhar algo de outros, quer seja dinheiro, status ou privilégios, com o uso do poder para coletivamente alcançar desenvolvimento individual e social, respeito mútuo e o alcance das necessidades e desejos de todos.

O Anarquismo se posiciona dizendo que toda instância de poder vertical ou centralizado deve ser reconstruida para permitir um poder coletivo horizontal e descentralizado.

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

Iluminismo
Jan 08

O Anarquismo e suas Aspirações – parte II

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Olhando para trás

 

"Harmonia… (é) obtida (através)… de livres acordos realizados entre vários grupos, territoriais e profissionais, livremente constituídos para o propósito de produção e consumo, e também para a satisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado"
Piotr Kropotkin, "Anarchism", 1910

O Anarquismo clássico enquanto filosofia política nasceu no meio do século XIX, enquanto um conjunto particular de práticas e crenças políticas. Houveram, antes disso, inumeráveis comportamentos humanos e formas de organização que datam de milênios que poderiam ser classificados como "anarquistas" (organização horizontal e sem divisão sexual do trabalho, das tribos caçadoras coletoras, por exemplo). Mas, como prática distinta, uma constelação de atributos que vamos explicar a seguir,surgiu em 1840.

Iniciou na Europa, um grupo não monolítico de países e cultura que por sua vez, espalharam uma variedade de tendências anarquistas. Dali, rapidamente viajou e se desenvolveu em outros lugares pelo mundo.
 

O Anarquismo na Europa Iluminismo surgiu a partir das, em parte, centenas de anos de rebeliões de escravos, levantes de camponenes e movimentos religiosos heréticos nos quais as pessoas deidiram que "já basta", e nas formas relacionadas de experimentação com várias formas de autonomia. Foi também em parte influenciado pelo Iluminismo através do século XVIII que, no seu melhor, popularizou as noções pivotais, em grande grau teorizadas por estes revoltados:

A primeira ideia era que indivíduos tem capacidade de raciocinar, de possuir razão própria. Pode parecer auto-evidente hoje, mas na época era uma revolução. Por séculos as pessoas cresceram acreditando que a razão só poderia ser verificada a partir da palavra de um monarca ou deus/sacerdote. O Iluminismo deu voz às ideias das lutas sociais e, espalhando-se pela sociedade, gradualmente fez desaparecer esta auto-abnegação e promoveu uma progressiva compreensão de que cada um teria a habilidade de pensar por si mesmo.

Isto levou à segunda ideia: se os humanos tem capacidade de racionalizar, então eles também tem a capacidade de agir sobre seus pensamentos. Uma noção explosiva, pois até então só se agia de acordo com um todo poderoso re ou deus, através de uma toda poderosa monarquia ou igreja.

Ainda, e talvez mais libertadora, a terceira ideia surgiu: se as pessoas podem pensar e agir por iniciativa própria, então literalmente salta ao juízo o fato de que elas podem potencialmente pensar e agir nas noções para gerar uma boa sociedade. Elas podem inovar, podem criar um mundo melhor.

Um grupo de pensadores do Iluminismo oferecia uma concepção completamente nova da organização social, retirada da prática mas inda articulada com a teoria, indo de direitos individuais a auto-governança.

Avanços tecnológicos na imprensa facilitaram a relativamente ampla disseminação desse material escrito pela primeira vez na história humana, através de livros, panfletos e periódicos. Novos espaços sociais comuns como cafés, bibliotecas públicas e "speaker corners" em parquers ampliaram a possibilidade de debate acerca destas ideias incendiárias e ajudaram a espalhá-las ainda mais.

Nada disso garantiu (e não garante até hoje) que as pessoas pensem por si mesmas, ajam por si mesmas ou ajam com uma preocupação com toda a humanidade. Mas o que foi pelo menos teoricamente revolucionário sobre esta virada copernicana foi que, antes disso, a vasta maioria das pessoas largamente não acreditava no seu próprio agenciamento ou habilidade para se auto-organizar de forma tão interconectada, auto-consciente e crucialmente, de forma tão disseminada. Eles nasciam em uma vila isolada como um servo com a expectativa de viver toda a vida assim. Em resumo, aceitavam sua carga e ordem social como uma rigidez natural ou dada por deus – com quaisquer esperanças de uma vida melhor colocada na vida após a morte.

Devido à relação catalítica entre teoria e prática, muitas pessoas acabaram abraçando estas 3 ideias iluministas, levando a um grupo de ideologias libertárias, desde os congregacionistas religiosos ao republicanismo secular, liberalismo e socialismo. Esses novos impulsos radicais tomaram a forma de vários motes políticos e econômicos, contribuindo para o surgimento de revoluções pela Europa e em lugares como o Haiti, EUA e México, período esse que iniciou por volta de 1789 e durou até cerca de 1871 (reaparecendo no início do século XX). Monarcas, aristocratas e deuses foram derrubados pelas indas das revoluções, e uma era de absolutismo e governos arbitrários estava chegando ao fim. Em seu lugar, frequentemente após lutas de poder entre os próprios radicais, um novo zeitgeist político aparecera: variações seculares de parlamentarismo ou democracia representativa.

O conceito de "terceira revolução" de Murray Bookchin captura isso bem: primeiro existe uma derrubada revolucionária de um regime despótico, então uma estrutura revolucionária com democracia direta emerge, apenas para ser esmagada por forças de dentro do ambiente revolucionário que então institui novas formas de tirania.

Este período foi testemunha de grande potencial libertário e revolucionário, e também presenciou a constituição e ascensão do Estado Moderno, que trouxe consugo uma nova hipercentralização e hiperindividualismo. Todo esse contexto era solo fértil para o desenvolvimento do Anarquismo como uma sensibilidade antiestatista e utópica.

O capitalismo surgia, Enclosuree a Revolução Industrial foi especialmente transformativa. Ela disfuncionou as economias de subsistência rurais (através dos Enclosures, cercamentos privados de pastos para pecuária de ovelhas voltadas para a produção de lã para a vicejante indústria têxtil, compelindo a uma migração em massa para as cidades crescentes e fábricas, para o trabalho assalariado ou para a servidão disfarçada (indentured). Essa mudança tectônica oferecia tanto uma promessa quanto uma nova forma de empobrecimento em massa. As pessoas estavam livres dos constrangimentos das tradições dos vilarejos, como relações de parentesco proibidas e crenças religiosas, para nõa mencionar as estruturas de poder emanando das catedrais e dos castelos. Eram expostas a várias culturas, ideias e experiências no mix urbano, o que para alguns representava novas formas de liberdade. Ao mesmo tempo, a vida nas rapidamente crescentes metrópoles também significava a piora das condições de vida para a maioria das pessoas, e o trabalho geralmente era explorado.

Sob a égide do capitalismo, a "economia" começou a ganhar importância sobre todo o resto, incluindo a vida humana e o mundo não humano, progressivamente reestruturando as relações sociais.

Mais do que ninguém em seu tempo, Karl marx capturou o caráter essencial do que viria a ser (até hoje) a estrutura social hegemônica – articulando estes saberes em seu "O Capital" (1867), bem como nos seus manuscritos anteriores, de 1844, Manuscritos Econômicos e Filosóficos.

Mais do que "simplesmente" uma forma de exploração econômica dividindo o mundo em alguns poucos "possuidores" e muitos "não possuidores", ou aqueles que possuem os meios de produção e aqueles escravizados pelo trabalho assalariado, a lógica inerente ao capitalismo de crescer ou morrer reconstituiria a totalidade da vida em sua imagem. Ele naturalizou valores como competição e dominação de humanos sobre outros humanos, como se estas fossem condições normais da vida, como respirar ou se alimentar, e tornou estes valores progressivamenta hegemônicos.

Essa lógica se abre dialeticamente a partir da commodity, ou "forma celular" do capitalismo: um objeto nõa é mais definido por quão valioso ele é (valor de uso) mas pela capacidade de troca (valor de troca). Ao invés das coisas possuirem valor inerente a elas mesmas, toda vida se torna instrumentalizada dentro do sistema capitalista. O capitalismo é necessariamente compelido a "comodificar" mais e mais coisas, materiais e imateriais, afetivas e ecológicas, o mundo todo, se possível. "Valor" é determinado por quanto alguém tem para trocar e acumular: dinheiro, propriedade, ou especialmente poder sobre outros.

"Coisas-como-commodities" – de bens e trabalho humano, a sistemas de valores e estruturas sociais – parecem cada vez mais independentes da criação humana. Dessa forma, as pessoas se tornam alienadas, estranhas ou aparentemente removidas de um mundo que é atualmente feito por elas e que poderia ser refeito de uma forma alternativa, humana.

Como a Internacional Situacionista operáriosmais tarde adicionou, as pessoas se tornam expectadoras ao invés de atoras de suas próprias vidas – vidas crescentemente controladas e mortificantes, ou mesmo mortais, dependendo se alguém está empregado ou não.

Tamanha "grande transformação", parafraseando Karl Polanyi, foi um solo fértil para o nascimento do socialismo revolucionário; com uma sensibilidade anticapitalista e emancipatória, as organizações e movimentos socialistas de massa se engajaram em uma variedade de lutas sociais.

Hoje, vemos uma situação similar com o advento e uso crescente das plataformas de rede e mídias sociais; iniciativas em vários campos surgem e são realizadas todos os dias. Entretanto, entre um e outro curtir, assinar manifesto ou petição, marcha ou intervenção, ainda precisamos voltar, nos entremeios, à realidade de sermos exploradores ou explorados.

Estamos exercendo uma pseudoliberdade ao agir conforme nossos propósitos, mas nossa mira erra o alvo sempre, pois ele está camuflado e nenhum ataque é feito, de forma sistemática, significativa, forte e relevante às bases do sistema capitalista, que se renova e – já sabemos disso desde maio de 68 – absorve as revoluções e as comodifica, vendendo camisetas, bandanas, livros e "programas especiais" na TV sobre a revolução.

Até o fim destes apontamentos, esperamos ter elencado um conjunto de caminhos viáveis para tornar a mudança social possível, desde já.

Seguindo a história, das diferentes lutas, contestações políticas, análises, objetivos e estratégias, surgiram duas linhas, com alguma frequência antagonistas, dentro do socialismo revolucionário, dois "campos de batalha": socialismo libertário x socialismo não libertário (ou, menos generosamente, autoritário). Ambos buscavam transformar a sociedade através da lita de classes, buscando abolir a propriedade privada e as classes, em favor de formas comunitárias de justiça e igualdade.

Como o capitalismo apenas continuará expandindo e não irá "negociar" com outros sistemas econômicos, os socialistas consideram a abolição do capitalismo como uma chave para a libertação humana.

Pessoalmente, acredito em uma fase de transição suave (mas nem tanto), em que indivíduos, coletivos, movimentos, cooperativas e redes passem a gradativamente construir sua interdependência fora do sistema capitalista, apreendendo conhecimento, materiais, meios de produção e, nesse caminhar, progressivamente passem a "desaparecer" do sistema atual, sistematicamente esvaziando-o e o fazendo colapsar pela incapacidade de lidar com suas incoerências. Isso acontecerá à medida em que estes indivíduos e grupos aperfeiçoem suas próprias redes de comunicação, fóruns permanentes, confederações e acordos de trocas e benefícios mútuos.

Precisamos entretanto galinhasficar atentos à medidas regulatórias estatais neofascistas que visam justamente impedir o avanço de medidas liberadoras, como por exemplo o impedimento de produção alimentar e de pequenos animais em ambientes urbanos (tomates na Nova Zelândia / galinhas na Bélgica, exemplos opostos); a crescente burocratização sanitária, impedindo o comércio de bens (geléias, pães, produtos alimentícios em geral) produzidos em pequena escala, em ambiente doméstico; regulamentações econômicas que visam tributar ou dificultar trocas diretas (meus nabos orgânicos pelo seu design de uma página web para mim); e a censura dos meios de comunicação, primariamente a internet (mas também as frequências e espectros de onda), através dos filtros prévios à publicação de conteúdo e outras normativas que só interessam a grandes corporações e instituições centralizadoras de poder e capital.
 

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Na época de Kropotkin e Bakunin, os anarquistas viam nas classes trabalhadoras das fábricas e dos campos, bem como nos artesãos, os principais agentes da revolução. Sentiam também que muitos socialistas estavam do lado "direito" ou não libertário do Anarquismo, suaves na sua crítica do Estado. Estes primeiros anarquistas já visualizavam o Estado como igualmente corresponsável em estruturar a dominação social. O Estado complementava e trabalhava com o Capitalismo, mas era uma entidade distinta. Como o Capitalismo, o Estado não "negocia" com outro sistema sócio-político. Ele busca tomar mais e mais espaço da governança. Ele não é neutro nem pode ser "checado e balanceado". O Estado tem sua própria lógica de comando e controle para monopolizar o poder político.

Como forma de contrabalançar o poder exercido pelo Estado, o Anarquismo pode estabelecer uma agenda pedagógico-política que visa, por exemplo, construir um "plano" que objetiva, no menor tempo possível, substituir a atual forma de governo por formas de deliberação baseadas na democracia direta, nos livres acordos, na cooperação e no apoio mútuo. Poderia fazer isso, por exemplo:

1. instituindo Conselhos Populares escada-participacaoem todos assuntos de interesse comum, mesmo que estes não sejam reconhecidos pelos órgãos oficiais (não os reconhecemos mesmo!);
2. criando espaços de livre debate em locais públicos, para reforçar o diálogo popular acerca da coisa pública;
3. criando fóruns permanentes que se abram para todos indivíduos e organizações da sociedade civil, em todas vizinhanças, vilarejos ou municipalidades;
4. exigindo a delegação cada vez maior de poder aos Conselhos Populares, e promover uma abertura cada vez maior destes (ver a Escada da Participação Cidadã, de Sherry Arnstein)
5. garantindo a transparência de todas reuniões e deliberações
6. mantendo um sistema de criação pública de boas práticas e bons costumes
7. estabelecendo centros de mediação de conflitos (punição máxima: exílio)

Enquanto os anarquistas afirmam que não podemos usar o Estado para desmontar o Capitalismo, eles defendem uma perspectiva "sem deuses, sem mestres" centrada em volta de 3 grandes preocupações de sua época – capital, estado e igreja. Não que os anarquistas não levassem a sério a máxima do Manifesto Comunista, que afirmava que "toda a história da sociedade é a história da luta de classes", mas é que para eles (bem como para nós, hoje em dia), existem outras histórias, outras lutas que o Anarquismo foi evidenciando nas décadas seguintes. As causas das minorias negra, gay, feminina, anti-guerra, anti-nuclear, anti-opressões econômicas, todas parecem ser justas e merecem nossa atenção. A utilizaçõa de ferramentas sociais pela internet tornou a disseminação de "causas" tão eficiente e fácil que acabou gerando uma profusão das mesmas, dando a sensação de que não existe uma "causa maior" pela qual se deva lutar. O ativismo de sofá e o ativismo de fim de semana, enquanto conseguem apoiar algumas destas causas menores, não está sendo capaz de sequer arranhar as estruturas do Estado e do Capitalismo, e os apelos do consumo e as necessidades básicas da vida distraem os olhares do humano médico, que precisa, na maior parte do seu dia, entregar seu tempo ao sistema para garantir sua subsistência e um grau variável de conforto e atendimento de desejos, alguns pessoais e intrínsecos e outros, em sua maioria, construídos pela máquina midiática e publicitária.

Para mudar esta situação não existe uma estratégia única eficaz. Várias abordagens simultâneas necessariamente devem ser postas em prática.

1. Estratégias de educação, conscientização e despertar – filmes, livros, periódicos, rádios, panfletos, seminários, intervenções urbanas, etc.
2. Ações práticas, que sirvam como exemplos visíveis e palpáveis de "o que e como fazer"
3. Insistência no "aprender fazendo e fazer enquanto se aprende", mudando a realidade um passo a cada vez (mas…)

O Anarquismo foi, é e continua vendo continuamente a si mesmo como "apenas um começo": desde seu princípio, a aspiração central do Anarquismo foi desenraizar e erradicar todas as relações sociais hierárquicas e coercitivas, e estabelecer relações consensuais e igualitárias em todas instâncias.

Para construir uma série de éticas reconstrutivas, os anarquistas se inspiraram tanto no que estava sendo perdido (de pequenas comunidades agrárias aos espaços comuns) até com o que estava sendo ganho (de tecnologias potencialmente liberatórias a estruturas politicamente mais democráticas).

O que mais chama atenção no Anarquismo é, no entando, a sua práxis. Naqueles momentos em que podemos realmente exercer relações horizontais e ampliar o horizonte de liberdade melhorando a qualidade de vida de todos no presente, no aqui e no agora.

Formas hierárquicas de organização social nunca conseguem atender as necessidades ou desejos da maior parte das pessoas, mas vez ou outra, formas não-hierárquicas demonstratam sua capacidade de chegar perto deste objetivo.

A ética anarquista vai precisar continuadamente se ajustar às condições históricas particulares se desejarem permanecer relevantes e vibrantes. De qualquer forma, desde o princípio, o Anarquismo se embasou em uma série de valores compartilhados e interconectados, como liberdade, solidariedade, associação voluntária, federação, educação, espontaneidade, harmonia e apoio mútuo. Os princípios anarquistas afirmam o potencial da humanidade em alcançar os desejos e necessidades de todos, através de formas cooperativas não hierárquicas e arranjos coletivos.

Faz parte do processo de tornar cada cidadão um "ser social articulado", que "luta" com outros por uma sociedade de, para e por cada um/todos.

Por isso mantemos a proposta Oficinas de Criação de Autonomiade plantação e disseminação de "Oficinas de Criação de Autonomia", espaços físicos e imaginários capazes de dar ao ser humano essa percepção de que ele pode exercer sua singularidade e liberdade, sempre atento à interdependência entre todos os seres e coisas, mantendo uma ética de respeito e responsabilidade para com o que lhe é alheio.

A base da nova sociedade se dá a partir da auto-organização, da autonomia, da autogestão e go autogeverno. A auto-organização é o impulso criativo que permite a unidade dentro da diversidade. Atingir isso é mais difícil do que falar. Assim como o balanço entre o self e a sociedade, os anarquistas também precisam misturar unidade e diversidade em direção a um feliz equilíbrio.

IndependenteCartaz da Revolução Civial Espanhola de 1936 da vertente ou visão que é representada dentro do Anarquismo, o Estado sempre é visto como artificial, alienante, coercitivo e representando os interesses de poucos e poderosos às expensas de muitos. Para se manter, ele conta com o monopólio da violência.

Historicamente, foram anarquistas que criaram os primeiros escritórios de coworking (as labor halls), sistemas de moedas locais, sociedades de apoio mútuo, organizações federadas, todas para mostrar a viabilidade da experiência social anarquista.

Um dos mais belos exemplos em larga escala, de um experiemnto autogerido coletivista aconteceu na Espanha, durante a Revolução de 30. Para um detalhamento acerca do que aconteceu na Espanha durante a Revolução Civil de 1936, leia o livro "A tragédia da Espanha", de Rudolf Rocker.

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

 

Jan 01

O Anarquismo e suas Aspirações – parte I

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

O Anarquismo e suas Aspirações

Os apontamentos a seguir foram retirados livremente do livro Anarchism and It's Aspirations de Cindy Milstein e estão entremeados por reflexões e comentários meus, reflexões essas que surgiram durante a leitura do mesmo, e inspiradas em leituras prévias da literatura libertária e da minha leitura particular do mundo em que vivemos. É muito importante frisar que, embora os comentários estejam realmente misturados com o texto original da autora, a grande maioria do conteúdo abaixo é de autoria da Cindy, e recomendo muito fortemente a leitura do texto original em inglês, publicado pela Editora AK Press e pelo Institute for Anarchist Studies.

Os apontamentos foram fragmentados em partes para facilitar a leitura e serão publicados semanalmente a partir de hoje, primeiro de janeiro de 2013, sempre às terças-feiras. Desejo uma ótima leitura e, se a leitura te "pegar de jeito", não deixe de entrar em contato. Temos muito o que prosear e conspirar!

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O objetivo destes escritos é contribuir com a construção de um melhor entendimento do Anarquismo, construir um melhor Anarquismo e encorajar novos anarquistas bem como o surgimento destes. Espera-se que estes apontamentos acendam um debate sobre o que o Anarquismo poderia ser, em primeiro lugar porque queremos que sejamos efetivos – que vençamos – e isso envolve um diálogo crítico, construtivo e integral para nossa prática prefigurativa.

Com este artigo, quero estender uma mão compassiva e solicitar que você, quer seja velho ou novo no Anarquismo, fique por perto e ajude a acelerar os processos pelos quais estamos lutando.

Eu quero todos nós lutando pelo que há de melhor no Anarquismo, não somente por nós mesmos mas de forma a construir uma sociedade livre, com indivíduos livres que o Anarquismo tão generosa e amorosamente luta para alcançar para todos.

Sim, o mundo está incrivelmente bagunçado; ao invés de se retirar, entretanto, é imperativo que avancemos em direção a uma "Comunidade de comunidades" igualitária.

Espero que ao final do livro tenhamos conseguido responder à pergunta: "Como é a sociedade que queremos?"

E, inspirados pelo bom, verdadeiro e belo que o Anarquismo objetiva, contagiá-lo a feliz e ainda assim diligentemente abraçar – ou continuar a fazê-lo com renovado vigor – o espírito libertário do Anarquismo.

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A primeira década do século XXI foi muito significativa para o Anarquismo, providenciando uma série de eventos (e exemplos) que começaram ainda no final do século passado (Chiapas, México, Exército Zapatista de Libertação Nacional, 1994) e a Batalha de Seattle, 1999) e seguiram-se com os eventos na Argentina (2001/2002), Genova, Oaxaca, Grécia, Primavera Árabe, Occupy Wall Street, 15M, …

Estes acontecimentos somados levaram a um "inchaço" no número de pessoas que se autodenominam anarquistas; isso, por sua vez, levou ao florescimento de uma "infraestrutura anarquista", desde um aumento dramático de cenários sociais e infoshops até um surto de projetos tocados coletivamente para suprir necessidades como suporte legal, comida e arte.

Foram desenvolvidas redes globais informais porém articuladas de troca e solidariedade, facilitadas por tudo desde usos compartilhados e seguros de tecnologias de comunicação e mídia independentes até redes de apoio mútuo nos mais diversos campos do conhecimento a atuação humanos.

Juntamente com cabeças afins, nos engajamos em fóruns de política cara-a-cara que nos forneceram uma nova imaginação radical através de numerosos dias de ação, consultas e convergências, e movimentos horizontais.

A primeira parte destes apontamentos, o Capítulo 1, reflete nosso otimismo de que a constelação anarquista de éticas, juntamente com suas práticas dinâmicas, pode nos unir e inspirar bem como a muitos outros, para o trabalho pesado que nos espera de forjar um mundo de baixo para cima.

"Mesmo quando eu amo o que faço, eu odeio o capitalismo"

"Não é como nos chamamos uns aos outros – anarquistas, socialistas, comunistas – que conta, mas como nos comportamos"

E, refletindo sobre a forma que os anarquistas escolhem agir, parece que existe algo de especial nela, apesar de todas as chances contra deste momento histórico: com empatia, tangivelmente dando de nós mesmos e fazendo-o nós mesmos, em direção a uma forma de organização social na qual será rotina agir de forma mutualista.

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Uma vez perguntaram a Ashanti Alston, anarquista dos Panteras Negras, como ele aguentou ficar 12 anos na cadeia, e ele respondeu, olhos brilhantes: "Foi o período mais cheio de esperança da minha vida, porque todos os dias nós estávamos esquematizando sobre como fugir da prisão".

Ninguém deveria viver nas celas do Capitalismo, do Estado, ou de outra forma de dominação ou opressão, mas já que vivemos, as aspirações anarquistas oferecem uma chave para acharmos nossa saída.

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Capítulo 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

"Por espírito anarquista eu quero dizer daquele sentimento humano profundo, que busca o bem de todos, solidariedade e amor entre as pessoas, o que não é exclusivamente uma característica dos autodeclarados anarquistas, mas inspira todas as pessoas que tem corações generosos e uma mente aberta"
Errico Malatesta, Umanita Nova, 13/04/1922

No seu centro, o Anarquismo é realmente um espírito – um que grita contra tudo que está errado com a sociedade atual, e claramente proclama tudo que poderia estar certo sob formas alternativas de organização social.

O que é o Anarquismo exatamente?

Muitas definições já foram feitas desde o surgimento da palavra como uma filosofia política distinta dentro da tradição revolucionária. Vamos tentar introduzi-lo com a vantagem de um ponto-de-vista do início do século XXI.

Em primeiro lugar, precisamos concordar que nossa humanidade está profundamente machucada pelo mundo alienado e controlado no qual habitamos. O Anarquismo defende que as pessoas seriam muito mais humanas sob relações e arranjos sociais não hierárquicos. A seguir, precisamos nos concentrar nas Éticas – os valores pertinentes a como os humanos conduzem a si mesmos – que tornam o Anarquismo uma sensibilidade política distinta. O Anarquismo serve como uma filosofia da liberdade, como uma consciência viva de que as pessoas e suas comunidades podem ser sempre melhores.

Em uma só sentença: o Anarquismo pode ser definido como uma busca/luta em direção a uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

Significado do "A"

O "A" representa a antiga palavra grega Anarkha – que combina a raiz an(a) – "sem" e arkh(os) – "governante, autoridade" – significando a ausência de autoridade.

Mais contemporaneamente, e de forma mais acurada, ela represetna tanto a ausência de dominação (controle de alguém sobre outro) e hierarquia (relações ranqueadas de poder de dominação e subordinação). O círculo pode ser considerado um "O", representando "ordem" ou, melhor ainda, "organização"; lembrando da seminal definição de Pierre-Joseph Proudhon em A Propriedade é um Roubo: "Da mesma forma que o homem busca justiça na igualdade, a sociedade busca a ordem na Anarquia."

O "A" simboliza o Anarquismo como um duplo processo: a abolição da dominação e formas hierárquicas de organização social – ou relações socieis "poder sobre" – e sua substituição por versões horizontais – ou "poder juntos e em comum" – novamente, uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

O Anarquismo é uma síntese do melhor do liberalismo e o melhor do comunismo, elevado e transformado pelo melhor das tradições de esquerda libertária que trabalham em direção a uma sociedade igualitária, voluntária e não hierárquica.

O projeto do liberalismo e o seu sentido mais amplo é garantir a liberdade pessoal. O projeto máximo do comunismo é garantir o bem comum. Um busca um indivíduo que pode viver uma vida emancipada e o outro busca uma comunidade estruturada ao longo de linhas coletivistas. Ambas são noções de valor. Infelizmente, a liberdade nunca pode ser alcançada desta maneira excludente: através do indivíduo OU da sociedade. Os dos necessitam necessariamente entrar em conflito, quase instantaneamente. A grande sacada do Anarquismo foi combinar o indivíduo e a sociedade em uma única visão política: ao mesmo tempo, eliminou o Estado e a propriedade como os pilares de suporte, baseando-se em seu lugar na auto-organização e o apoio mútuo.

O Anarquismo entende que qualquer forma de organização social, especialmente uma que busque uma erradicação completa da dominação, que se basear na premissa tanto da liberdade individual quanto coletiva – ninguém é livre a não ser que todos sejam livres, e todos só podem ser livres se cada pessoa puder individuar ou atualizar a si mesmo da forma mais ampla possível.

O Anarquismo também reconheceu, mesmo que intuitivamente, que tal tarefa é tanto um ato de balanço constante e "do que é feita" a vida real. A liberdade de uma pessoa necessariamente infringe a de outra, ou mesmo o bem de todos. Nenhum bem comum pode atender as necessidades e desejos de todo mundo. Isso não quer dizer lavar as mãos e escolher pelo caminho ou do liberalismo ou do comunismo – privilegiando um lado da equação, de forma artificial – na esperança de resolver esta tensão em andamento.

Desde o início, o Anarquismo perguntou a muito mais difícil mas em última instância pragmática questão: "Levando em conta estas "colisões" sociedade x indivíduo como parte da condição humana, como podem as pessoas coletivamente auto-determinar suas vidas para se tornarem quem elas querem ser e ao mesmo tempo criar comunidades que são tudo o que elas poderiam ser também?"

O Anarquismo entendeu que esta tensão é positiva, como uma parte criativa e inerente à existência humana. Ele destaca que as pessoas não são todas iguais, nem precisam ser, nem necessitam, querem ou desejam as mesmas coisas.

No seu melhor, a aspiração anarquista básica por uma sociedade livre composta de indivíduos livres dá transparência ao que deve ser uma dissonância harmônica e produtiva: encontrar caminhos para coexistir e nos desenvolver em nossas diferenças.

Anarquistas criam processos que são humanos e substancialmente participativos. São sonestos sobre o fato de que sempre haverá mal-estar entre a liberdade individual e social. Garantem que será uma luta contínua encontrar o equilíbrio ideal. Esta luta é justamente aquela na qual o Anarquismo se localiza, aparece, acontece.

Ele acontece, hoje em dia, em situações nas quais nem nos damos conta. Em projetos de pequena escala como cooperativas de cicloativistas, escolas livres – situações em que as pessoas coletivamente fazem decisões cara-a-cara sobre assuntos grandes ou mundanos.

Isso não é algo que a maior parte das pessoas na maioria das partes do mundo é encorajada a ensinar (ou aprender); pois isto contém o kernel, o código-fonte, o coração do que é necessário para destruir o atual sistema de arranjos sociais verticais. Desta forma, não somos nem particularmente bons nem eficientes em processos democráticos diretos. Mecanismos de tomada de decisão em conselhos são trabalho duro. Eles levantam questõs difíceis, como por exemplo "como lidar com conflito de formas não punitivas". Mas através deles, as pessoas se "escolarizam" no que pode ser a base para a auto-governança coletiva, para redistribuir poder a todos. Quando funciona bem, temos um profundo senso dos tipos de processos ou acordos que podemos fazer e manter uns com os outros.

Ocupa BarcelonaNo micronível e em outros muito maiores, o anarquismo forma "a estrutura da nova sociedade dentro da casca da velha", como o preâmbulo da constituição mundial dos trabalhadores industriais afirma. De forma ainda mais crucial, ele auto-determina a estrutura do novo a partir dos espaços de possibilidade dentro do velho.

O Anarquismo precisa permanecer dinâmico se ele realmente quiser desmascarar novas formas de dominação e substitui-las por novas formas de liberdade, precisamente devido a sempre presente tensão entre liberdade individual e coletiva.

Auto-organização necessita a participação de todos, o que requer estar sempre aberto a novas questões e ideias.

Quando as pessoas são introduzidas ao anarquismo hoje, esta abertura combinada com a propensão cultural a esquecer o passado, pode fazer com que pareça uma invenção recente – sem uma tradição elástica, preenchida com debates, lições e experimentos, para construir sobre. Pior ainda, pode parecer uma prática política do tipo "tudo vale" – libertino sem o libertário – sem consideração por como os atos de uma pessoa impactam outra pessoa (ou pessoas) ou mesmo a comunidade.

Precisamos estudar a história anarquista para evitar repetir os erros, mas também para saber que não estamos sozinhos no que tem sido e vai ser a pedregosa e cheia de desvios "via para a utopia".

(continua…)

 

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)