O Anarquismo e suas Aspirações – parte VI

Orientação Ecológica
 

Humanos acreditam que podem dominar o mundo natural não humano porque, para eles, é natural dominar outros seres humanos. A ética do apoio mútuo, entretanto, afirma que humanos, outros animais e as plantas desenvolvem-se melhor sob formas de cooperação holística – ecossistemas. Ela sugere que as pessoas muito mais provavelmente viveriam em harmonia uns com os outros e com o mundo não humano – ser ecológico – em uma sociedade não hierárquica.

Além do ativismo ecológico revolucionário – desde sentar em árvores para evitar seu corte, passando pela ecosabotagem e chegando  às eco-tecnologias – uma orientação ecológica dentro do anarquismo significa uma lógica evolutiva porém dialética: assim como a natureza não humana se desenvolve com o passar do tempo, com múltiplas possibilidades acerca do que virá a ser, assim os humanos evoluem com o passar da vida e das gerações.

Essa lógica, a de que os humanos não são seres fixos mas estão sempre "se tornando" – é subjacente ao dinamismo anarquista. Ver toda forma de vida como apta a evoluir destaca a ideia de que as pessoas e a sociedade podem mudar. Que as pessoas e o mundo podem se tornar mais do que são, melhores do que são atualmente. É claro, não há garantia. O desenvolvimento não é necessariamente linear ou progressivo.

 

Associação Voluntária e Responsabilidade

Os seres humanos distinguem-se (mas não podem ser colocados acima) do outras formas de vida pela sua capacidade de imaginação, inovação, de racionalizar, fazer julgamentos e intervir com intencionalidade. Assim, outra ética anarquista compartilhada destaca a capacidade humana de livre escolha, ou associação voluntária, em direção a várias formas de relações e organizações consensuais e não coercivas. Associação voluntária não significa que os indivíduos sempre farão tudo do seu próprio jeito, tampouco que irão gostar de todas tarefas ou todas pessoas em um projeto. Elas podem até sentir-se cansadas no final do dia. Ainda assim, significa reunir-se com outros não pela força ou compulsão mas porque cada um assim escolheu, livremente.

Associação voluntária é sobre fazer coisas porque em geral nos sentimos satisfeitos em uma variedade de formas, porque realiza metas e necessidades pessoais e comunitárias, e porque as pessoas não são compelidas a se engajar se não quiserem fazê-lo.

Isso significa responsabilidade e confiabilidade. Associação voluntária apenas se torna relevante quando ligada com formas de responsabilidade e solidariedade. Associação voluntária e confiança são, em seu núcleo, pessoas fazendo promessas livres umas às outras, sem nenhuma força externa compelindo-os a seguirem por ou além dos seus comprometimentos mútuos.

As pessoas podem se associar e dissociar, e irão fazer isso várias vezes em suas vidas, Ainda, anarquistas tomam tanto a associação quando a dissociação muito a sério, pelo fato de tomarem processos inclusivos e como as pessoas tratam umas às outras muito seriamente.

Promessas mútuas necessitam vários acordos, sejam não falados mas completamente compreendidos, ou escritos para serem revistos quando necessário. Tais acordos se aplicam em uma série de coisas, incluindo o que acontecerá quando alguém não cumprir o acordado em suas tarefas e como lidar com o conflito. Os indivíduos não deixarão uns aos outros em situação desprotegida, uma vez que combinaram implementar uma decisão coletiva.

Como em todos atos harmonicamente pesados no Anarquismo, encontrar o balanço entre a livre associação e os acordos livremente constituídos é muito mais difícil na prática, especialmente além do nível dos pequenos grupos. Mas esse balanço é crucial.  Ele vai direto ao centro da problemática do Anarquismo: como encorajar um mundo em que indivíduos e sociedade são simultaneamente livres. A organização política anarquista testa esta dupla noção, em parte, compondo princípios de unidade e posicionamentos de missões. Eles destacam porque estão se associando livremente. Eles também definem os parâmetros, se é que existem alguns, para participação nos grupos. Isso pode variar desde simplesmente aparecer e entrar até ter que atender a um certo número de encontros antes de poder participar dos processos de tomada de decisão.

É assim que os anarquistas praticam o que pode ser considerado a constituição de uma "associação voluntária" e confiança mútua em um nível societal. É claro, uma ética da associação voluntária não pode ser universalmente aplicada. Associações livres para perpetrar violência contra gays e simpatizantes, por exemplo, é completamente contra outras éticas anarquistas.O ato de harmonização não é somente entre associação voluntária e confiança. Não está em jogo uma sensibilidade do tipo "tudo vale" com a ideia de que estamos todos juntos nisso. Diz respeito à totalidade das aspirações anarquistas.

 

Prazer e Espontaneidade

Associação voluntária e confiança não são obrigações sine qua nom para fazer as coisas. Parte do projeto revolucionário, para o Anarquismo, é instituir a beleza e caminhar em direção à uma felicidade substancial, bem como encorajar a espontaneidade necessária para realizar ambos. Prazer e amor motivam as pessoas a aspirar um mundo melhor. Estes e outros sentimentos não são luxos separados das necessidades materiais das pessoas. Eles são parte das necessidades para uma vida plena, singular e genuinamente social. Nós precisamos de comida suficiente para comer E precisamos de comida que gostamos para comer. Nós precisamos de formas prazerosas de cultivar a comida e cozinhar uns para os outros e, se necessário, descobrir mecanismos justos e compartilhados para limpar os pratos, quando eles começam a empilhar. Existe divertimento no processo, também. Ou haveria divertimento, se os processos que rotineiramente moldam o mundo pertencessem a todos.

Pode parecer ingênuo lutar por uma transformação social revolucionária para que as pessoas possam encontrar alegria em suas vidas, para que possam criar e tirar satisfação em tudo que é bonito e amoroso. Mas essa é a essência de uma boa sociedade: que pessoas sejam capazes de sentir bondade nelas mesmas e nos outros tanto quanto possível; que mesmo que as coisas estejam difíceis ou a vida dolorosa, que as pessoas suportem umas às outras; que as formas pelas quais realizamos as coisas sejam também as formas que esculpimos espaços para em sua totalidade vermos e apreciarmos uns aos outros. E nos divertirmos.

Como todas éticas anarquistas, esta não é uma que se desvela "até que a revolução" chegue, permitindo à maioria da humanidade viver miseravelmente ou zanzar na depressão. Significa trazer prazer e diversão, bondade e compaixão, em tudo que as pessoas fazem. Não significa fingir que tudo está ok. Mesmo em uma sociedade melhor, as pessoas continuarão a sentir tristeza. Os anarquistas vigilantemente resistem ao mundo que aí está, enquanto simultaneamente se engajam naqueles comportamentos esperançosos que apontam em direção a novas relações sociais. Eles praticam a beleza que os seres humanos estão buscando atingir no mundo que "poderá ser". As atividades anarquistas enfatizam a estética e o divertimento. Protestos contemporâneos combinam festas de rua e bonecos com ação direta; potlucks são partes regulares de muitos encontros anarquistas; pôsteres maravilhosos geralmente anunciam feiras do livro anarquistas ,que com frequência incluem jogos de futebol ao longo de oficinas. Um jogo prazeroso é tão parte do impulso revolucionário dentro do anarquismo quanto é a luta – e ambos são essenciais para a liberdade com qualidade.

Unidade na Diversidade

Outra ética anarquista é o comprometimento em harmonizar o aparentemente incompatível. Anarquistas tentam encontrar harmonia na dissonância, como instrumentos em uma orquestra. Eles fazem isso em todos contextos; é o conteúdo da vida real, ou como notado acima, o reconhecimento de que as coisas se desdobram de formas complexas e interconectadas. Quer sejam as contradições entre o local e o global, a independência e a interdependência, autonomia ou democracia direta, os anarquistas lutam honesta e transparentemente para encontrar unidades que não neguem as diferenças. A maior parte do que os anarquistas fazem na prática envolve criar relações, processos e acordos, pessoalmente e dentro de instituições auto-organizadas, que são precisamente sobre encontrar o balanço de uma unidade na diversidade.

Um exemplo proeminente é a "diversidade de táticas" de abordagem em mobilizações de massa, desenvolvidas pelos anarquistas no Canadá durante os dias de ação global do movimento anticapitalista na virada deste século. A noção era determinar uma série de acordos para uma demonstração específica – baseada neste contexto –  que permitiria diferentes táticas, estratégias e mesmo zonas geográficas específicas de engajamento, todas dentro da bandeira compartilhada de uma oposição ao capitalismo e defesa de formas não estatistas, diretamente democráticas de organização. Isso não significava que "tudo vale", nem significava "consenso". Aqueles que viviam na cidade e tinham feito meses de trabalhos de organização antes da mobilização assentaram-se em acordos de diversidade de táticas, através de um processo de debates e consultas. Conselhos durante a mobilização eram tanto informacionais quanto serviam para pequenas decisões de último minuto, através de um processo que buscava consenso mas que recorria ao voto quando necessário. No alto deste movimento, a diversidade de táticas de abordagem realmente abriu espaço para uma sensação poderosa de pluralismo interconectado. Esse é apenas um exemplo de uma ética muito mais ampla que encompassa uma gama de esforços para garantir que os comprometimentos compartilhados respeitem e concretamente abram espaço para pessoas com ideias e táticas divergentes.

(continua…)

 

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

O Anarquismo e suas Aspirações – parte V

O Conteúdo Ético

Vamos apreciar a seguir os parâmetros, em breves pinceladas, desta ética anarquista comunal. Isso não significa mostrar a pintura completa, já que uma ética da liberdade deve ser construída e expandir com o tempo. Mas podemos tocar em algumas das aspirações mais proeminentes que unem os anarquistas.
 

Liberação e Liberdade

O Anarquismo promove uma noção dual de liberdade. Ele afirma a ideia de liberação, ou o que pode ser chamado de liberdade negativa: "estar livre de". Mas está igualmente preocupado com o que pode ser chamado de liberdade positiva: "liberdade para". Não é suficiente para as pessoas serem livres, por exemplo, do estado dizer a elas o que podem fazer com o seu corpo – como se elas podem fazer aborto ou não. Elas também precisam ser livres para fazerem coisas com o seu corpo – expressar várias sexualidades e gêneros, o que vai bastante além do que qualquer estado pode garantir ou tirar.

Se entendermos este senso de liberdade negativa e positiva, o que parece uma instância contraditória dentro do anarquismo passa a fazer perfeito sentido. Um anarquista pode firmemente acreditar que o povo Palestino merece ser liberado da ocupação, mesmo que isso signifique que eles criem seu próprio estado. O mesmo anarquista poderá firmemente acreditar que um estado Palestino, assim como todos estados, deve sofrer oposição em favor de instituições não estatistas. Um senso completo de liberdade sempre incluirá tanto os sensos negativos e positivos – neste caso a liberação da ocupação e simultaneamente a liberdade para se autodeterminar. De outro modo, como tanto os regimes Comunistas e liberais tem demonstrado, "estar livre de" tão somente apenas servirá para escravizar a potencialidade humana e, nos casos mais extremos, os próprios humanos; auto-governo é negado em favor de alguns governando outros. E "liberdade para" sozinha, como o capitalismo tem mostrado, servirá apenas para promover um individualismo egoísta e colocar cada um contra o outro; a autodeterminação atropela as noções de bem coletivo.

Constantemente trabalhar para trazer tanto a liberação quanto a liberdade à mesa,  nos momentos de resistência e reconstrução, faz parte do mesmo ato de aproximar  um mundo crescentemente diferenciado mas ainda harmonioso.
 

A Igualdade dos Desiguais

As pessoas não são iguais, e isso é algo bom. Comunidades, geografica e socialmente, também são diferentes umas das outras. Eis porque os humanos precisam ser livres para descobrir o que faz mais sentido para cada pessoa em cada situação. O Anarquismo acredita na habilidade de cada um em tomar parte do processo de pensar e agir sobre, de formas compassionadas, o mundo em que habitamos.  Ele mantém que todos merecem dar forma e compartilhar a sociedade – um princípio subjacente a toda ordem não-hierárquica. Mas não significa que todas as pessoas tem necessidades e desejos iguais, tampouco que estes sejam estáveis. As pessoas querem coisas diferentes através de suas vidas, bem como as comunidades tem demandas diferentes ao longo do tempo.

A ética anarquista da igualdade dos desiguais esmaga a noção desumanizante do capitalismo que todas as coisas, incluindo cada pessoa, é substituível – igual a uma coisa, e assim sem valor inerente – substituindo-a com o conceito rehumanizante do valor de cada indivíduo. Ela dá sentido qualitativo à justiça. Nas democracias representativas, a justiça é cega à singularidade de cada pessoa e à especificidade de cada circunstância. As particularidades dificilmente são medidas, e a "justiça"  é medida de formas largamente injustas. No anarquismo, ser justo significa estar atento às diferenças entre as pessoas e suas situações, o que por sua vez torna ao menos possível negociar relações pessoais e sociais, incluindo conflitos, de formas que são substantivamente justas. Todos e todas coisas tem valor igual e devem igualmente ser dadas condições de forma a se desenvolver completamente. Quais são estas condições, entretanto, pode diferir em quantidade e qualidade, baseado nas diferenças nas necessidades e desejos. Por exemplo: um cuidado de saúde ético não será uma lista básica de serviços, como se os corpos das pessoas fossem todos iguais. Nem será distribuído em porções exatamente iguais. Ela será, pelo contrário, ajustada de acordo com as necessidades de bem-estar individuais como um bem social sempre disponível, de forma tão abundante quanto possível.
 

A Cada, de Cada

Além da crença fundamental no valor de cada pessoa, uma ética igualitária anarquista também segue a noção comunista de "de cada um de acordo com suas habilidades, a cada um de acordo com suas necessidades". Mas o Anarquismo lhe dá um ajuste crucial: "de cada um de acordo com suas habilidades e paixões, a cada um de acordo com seus desejos e necessidades". Com esta visão, as pessoas contribuem de várias formas entre se e para suas comunidades e não simplesmente de uma forma econômica. Essa ética ajuda a colocar "a economia" dentro da totalidade da vida, e não o contrário, como vemos hoje. Nunca mais as contribuições serão desigualmente recompensadas por salários ou status, ou tornadas invisíveis quando elas não se encaixam na matriz econômica. A pletora das contribuições humanas será baseada no que as pessoas são boas em fazer, o que elas gostam e também o que elas coletivamente determinarem como desejável bem como necessário. As necessidades de uma pessoa (luvas de lã, maçãs ou livros) podem ser o desejo de outra pessoa. Em uma boa sociedade, as pessoas poderão satisfazer tanto quanto possível de ambos.

Todas as contribuições tem valor social, desde construir casas a cuidar de bebês a atuar em uma peça de teatro. Cada um deveria ser apto a focar nas coisas que querem fazer. Mesmo que algumas pessoas não possam trabalhar em diferentes pontos da vida – por exemplo, como uma criança muito jovem ou quando doentes – todos ainda receberiam o que necessitam e desejam. O trabalho em si mesmo teria um significado totalmente diferente, talvez até mesmo outro nome. A produção e a distribuição não iriam envolver compulsão ou adição, nem se tornar distintas de "tempo livre". Elas seriam partes íntimas do que traz prazer substância à vida humana. As contribuições sociais assim, passar a ir além da noção limitada acerca daquilo que cada um é pago para fazer. Em seu lugar, a sensibilidade do "de cada, para cada" entende que cada um contribui para a sociedade mesmo que não esteja produzindo bens ou ofertando serviços. Ela garante que cada um é merecedor das bases materiais e não materiais para se desenvolver completamente.

Sem coerção ou escassez deliberadamente construída e mantida, as pessoas iriam fazer praticamente tudo que as comunidades precisassem ou quisessem, e as pessoas iriam escolher livremente aquilo que mais lhes dá prazer e gostam de fazer, como cultivar a terra, preparar comidas, escrever, pintar, apagar incêndios e desenvolver softwares… Aquilo que ninguém quiser fazer, como por exemplo, limpar um sistema de esgoto, seria dividido entre todos, ao menos entre todos aptos a fazê-lo. Assim, mesmo um médico poderia, uma vez ao ano, por exemplo, ficar responsável por este trabalho, para garantir o harmônico funcionamento da sociedade.

Essa ética também sustenta a ideia de que todos devem ser providos e cuidados, ou então, que as pessoas irão prover e cuidar umas das outras. Ela afirma que as comunidades humanas devem garantir que todos tenham o suficiente para se sustentar, como cuidados de saúde, e se enriquecer, como acesso a artes. Em caso de um acidente natural como um terremoto, por exemplo, as pessoas irão fazer seu máximo para distribuir os recursos limitados de forma a tomar cuidado de todos.

Uma biblioteca é um exemplo atual de como isso funcionaria: as pessoas veem as bibliotecas como algo necessário, útil e justo, todos podem usar a biblioteca, mais ou menos, conforme sua necessidade, e não sentem o senso de escassez. Tudo está gratuitamente disponível para todos. Elas podem usar a biblioteca gratuitamente ou, se desejarem, podem retribuir na forma de doações de tempo, serviços, livros ou dinheiro. Agora, imaginemos que tudo, desde energia até a educação funcionasse com esta ética do "de cada, para cada". Muitos dos melhores experimentos anarquistas da atualidade estão tentando colocar esta noção em prática, desde cooperativas de alimentos e bicicletas, a comaprtilhamento de habilidades e clínicas grátis.
 

Apoio Mútuo

Baseado na premissa de que os humanos e o mundo não-humano parecem evoluir melhor quando existe cooperação, mesmo reconhecendo a competição como parte inerente da vida, é quando os humanos trabalham juntos que eles realmente florescem!

O apoio mútuo necessita relações complexas e intricadas bem como uma diferenciação harmoniosa para que hajam trocas recíprocas verdadeiras. Quando as pessoas cooperam, são aptas a produzir mais, materialmente e de outras formas. Mesmo quando não produzem mais, o senso de benefício individual e grupal é amplificado. A competição simplifica. Quando humanos competem, apenas alguns ganham. Isso faz sentido quando falamos de jogos; no contexto da sociedade, onde todos deveriam "ganhar" um mundo melhor, a competição é amplamente deletéria. Isso é particularmente verdadeiro quando se torna naturalizado como o valor chave da economia, jogando todos contra todos. Os anarquistas praticam há muito tempo formas de mutualismo como a base de uma economia não capitalista, onde a cooperação liga todos com todos.

O apoio mútuo é uma das éticas anarquistas mais belas. Implica em um senso de generosidade sem amarras, no qual as pessoas suportam umas às outras bem como os projetos uns dos outros. Ele expressa um espírito de mão aberta, de abundância, no qual a gentileza nunca está em falta. Ele aponta para novas relações de compartilhamento e ajuda, orientação e retribuição, como a verdadeira base da organização social. O apoio mútuo torna a compaixão comunal, traduzindo-se em mais "segurança social" para todos, sem a necessidade de instituições top-down. É a solidariedade em ação, escrita em letras grandes, quer seja ao nível local ou global.

Quando sentida e vivida fora da sensibilidade diária, em combinação com outras éticas anarquistas, a cooperação cria relações sociais diferentes, que oferecem à humanidade as melhores chances de transformar os valores da sociedade hierárquica. Em uma sociedade hierárquica, a caridade é uma forma de "dar" que não importa quão benevolente seja, acaba forjando relações paternalistas. Quem doa está em posição de autoridade; quem recebe sempre à sua mercê.

O apoio mútuo sugere relações recíprocas, independente de se o que é trocado é igual em tipo, forma ou quantidade. Humanos retribuem de várias formas – a desigualdade dos iguais. Indivíduos e sociedades florescem porque as diferentes contribuições  não tem o mesmo valor mas combinam-se para criar um todo maior.

 

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)