Monthly Archives: outubro 2013

Out 19

O Anarquismo e suas Aspirações – parte X

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Capítulo 4 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular

     "A ação direta obtém os resultados", proclamaram os Trabalhadores Industriais do Mundo há quase um século atrás. Ocupar as ruas e demonstrar poder em resistir de uma forma que os modelos para uma boa sociedade visionaram: uma forma verdadeiramente democrática.

     Mas é realmente assim que a democracia se parece?

     O impulso de "retomar as ruas" é compreensível. Ao início do capitalismo industrial, suas maquinações eram relativamente visíveis. Veja os Cercamentos. Áreas de pasto que eram usadas de forma comunal por séculos para prover aos vilarejos seu sustento foram sistematicamente cercadas de forma a pastorear ovelhas, cuja lã era necessária à indústria têxtil de burguesia. A vida comunal foi rispidamente jogada para o lado em favor da privatização, forçando as pessoas para desagradáveis fábricas em cidades abarrotadas.

     O capitalismo avançado, à medida em que se expande para além dos grilhões dos estados-nação em sua insaciável jornada pelo crescimento, enclausura a vida de uma forma muito mais expansiva mas geralmente invisível: as cercas são substituídas por uma cultura de consumo. Nós crescemos em um mundo quase totalmente comodificado, no qual nada vem de graça, mesmo tentativas fúteis de remover a si mesmo da economia de mercado. Essa comodificação infiltra-se não somente no que comemos, vestimos ou fazemos por prazer mas também em nossa linguagem, relações e mesmo em nossa própria biologia e mente. Nós não perdemos somente nossas comunidades e espaços públicos mas o controle sobre nossas próprias vidas; nós perdemos a habilidade de definir a nós mesmos fora da compreensão capitalista, e assim o próprio significado genuíno começa a se dissolver.

     Fechar temporariamente as ruas durante uma ação direta oferece espaços momentâneos nos quais praticar um processo democrático, e mesmo oferece um senso de empoderamento, mas tais eventos deixam o poder pelo próprio poder bem como o próprio pavimento embaixo de nossos pés, inalterado. Apenas quando uma série de protestos é escalado até formar uma luta pelo poder popular ou horizontal que poderemos criar rachaduras neste concreto figurativo, abrindo assim caminhos para desafiar o capitalismo, os estados-nação e outros sistemas de dominação.

     Nós não estamos jogando a ideia de uma sociedade boa para um futuro distante, mas tentando escavar espaço para ela aqui e agora, embora de forma dificultosa e contorcida pela ordem social vigente. Como agimos agora é como queremos que os outros comecem a agir, também. Nós tentamos modelar uma noção de bondade mesmo à medida em que estamos lutando por ela.

     Isso pode ser visto de forma implícita nos grupos de afinidade e estruturas de "conselhos de falantes" (spokescounsils) para a tomada de decisão e ações diretas. Ambos oferecem os espaços necessários no qual nos instrumentalizarmos para a democracia direta. Neles, podemos no melhor dos casos, proativamente definir a agenda, cuidadosamente deliberar juntos acerca de variadas questões, e chegar a decisões que tentar tomar em conta as necessidades e desejos de todos. Uma discussão substancial substitui o voto em urnas; a participação cara a cara substitui a entrega de nossas vidas a representantes; soluções graduadas e arrazoadas substituem aquelas grosseiras e tomadas por duas ou três pessoas. O processo democrático utilizado durante as demonstrações descentraliza o poder mesmo enquanto oferece uma solidariedade tangível; por exemplo, os grupos de afinidade concedem  a uma maior e mais diverso número de pessoas uma real parcela do processo de decisão, enquanto os "conselhos de falantes" permitem uma coordenação intrincada – mesmo ao nível global. Isso é, como os ativistas da década de 60 colocaram, o poder de criar ao invés de destruir.

     A beleza do movimento de ação direta é que ele esforça-se para realizar seus próprios ideais de coração. Em fazer isso, ele talvez, até de forma involuntária, criou a demanda por estas práticas de democracia direta em uma forma mais permanente. Contudo a perplexa questão subjacente à "democracia episódica das ruas" continua sem resposta: Como podem todos reunir-se para tomar decisões que afetam a sociedade como um todo de uma forma participativa, mutualística e ética? Em outras palavras, como pode cada um de nós – não apenas a contracultura ou um movimento de protesto – realmente transformar e em última instância controlar nossas próprias vidas e a de nossas comunidades?

     Essa é, em essência, a questão do poder – quem o possui, como ele é usado e com que finalidade. Em vários graus, todos nós sabemos a resposta em relação as atuais instituições e sistemas. Nós geralmente explicamos sobre o que somos contra. Isso é exatamente o porque de estarmos protestando, quer seja contra o capitalismo ou a mudança climática, cúpulas de nações ou econômicas ou guerras. No que temos amplamente falhado em articular entretanto, é algum tipo de resposta em relação aos sistemas e instituições liberatórias. Nós freqüentemente não conseguimos expressar, especialmente em nenhuma forma coerente e utópica, ao que somos favoráveis. Mesmo à medida em que prefiguramos uma forma de fazer o poder horizontal, equânime e, como conseqüência, esperançosamente parte de uma sociedade livre, nós ignoramos a visão reconstrutiva que o processo democraticamente direto exibe bem na frente dos nossos narizes.

     Para todos os intentos e propósitos, os protestos de ação direta permanecem presos. Por um lado, eles revelam e confrontam a dominação e a exploração. A pressão política exercida por tal agitação disseminada pode até ser capaz de influenciar as atuais estruturas de poder a reformar alguns dos piores excessos de seu modus operandi; os poderes existentes terão que escutar e responder, de alguma forma, quando as vozes se tornam muito numerosas e muito altas. Apesar disso, a maioria das pessoas ainda estão excluídas do processo de tomada de decisão e, conseqüentemente, tem pouco poder tangível sobre suas próprias vidas. Sem essa habilidade de se autogovernar, as ações nas ruas se traduzem em nada mais do que uma versão contracultural de um lobby de um grupo de interesse, mesmo que muito mais radical que a maioria e em geral não pago.

     O que se esquece em relação às mobilizações de ação direta é a promessa implícita em sua própria estrutura: de que o poder não apenas precisa ser contestado; ele deve também ser constituído "de novo" de uma forma igualitária e liberatória. Isso implica levar os processos de democracia direta a sério – não simplesmente como uma tática para organizar protestos mas como a própria forma de organizar a sociedade, especificamente a esfera política. A questão que então sobrevém: Como começamos a mudar a estratégia, estrutura e valores da ação direta das ruas para o mais básico nível de construção de políticas públicas?

     O nível mais fundamental de tomada de decisão é o grupo de afinidade. Aqui, nos reunimos como amigos ou devido a uma identidade em particular, ou uma combinação de ambos. Nós compartilhamos algo em particular; na verdade, essa identidade é freqüentemente refletida no nome que escolhemos para nossos grupos. Podemos nem sempre concordar em tudo uns com os outros, mas existe uma quantidade razoável de homogeneidade precisamente porque nós conscientemente escolhemos nos reunir por uma razão específica – usualmente tendo pouco a ver com mera geografia. Esse senso de identidade compartilhada permite um funcionamento  suave de um processo de tomada de decisão por consenso, já que partimos do um local de comunalidade. Em um grupo de afinidade, quase por definição, nossa unidade precisa ter precedência sobre nossa diversidade, ou nossa suposta afinidade se quebra por completo.

     Compare isso ao que pode ser o nível de tomada de decisão mais fundamental em uma sociedade: uma vizinhança ou um bairro. Agora, a geografia possui um papel muito maior. Em função de razões históricas, econômicas, culturais, religiosas e outras, nós podemos acabar morando lado a lado com uma ampla gama de indivíduos e suas várias identidades. A maioria dessas pessoas não são nossos amigos per se. Ainda, esta mesma diversidade que encontramos é a própria vida de uma cidade vibrante. Os acidentes e/ou numerosas decisões pessoais que nos uniram freqüentemente criam uma quantidade suficiente de heterogeneidade precisamente porque não escolhemos todos nos reunir por uma razão específica. Nesse contexto, o ponto do qual iniciamos é um de diferença, e os mecanismos de tomada de decisão precisam ser muito mais capazes de permitir a divergência; quer dizer, a diversidade necessita ser claramente retida dentro de qualquer noção de unidade. Como tal, os processos de tomada de decisão majoritários começam a fazer mais sentido. (???)

     Então, também, surge a questão da escala. É difícil imaginar ser amigo de centenas, ou mesmo milhares de pessoas, ou mesmo manter uma identidade única com tantos indivíduos. Mas podemos compartilhar um senso de comunidade e esforçar-nos em direção a um bem comum que permita a cada um de nós florescer. Por sua vez, quando números maiores de pessoas se reúnem cara a cara para remodelar suas vizinhanças e bairros, os assuntos e os pontos de vista se multiplicam, e as alianças sem dúvida mudam de acordo com o tópico específico que está sendo debatido. Por conseguinte a necessidade de um espaço no qual podemos nos encontrar como seres humanos ao nível mais cara a cara possível – qual seja, uma assembleia de seres politicamente ativos – para compartilhar nossas muitas identidades e interesses na esperança de harmonizá-los com os interesses da nossa comunidade em tudo que fizemos.

     Assim também, a confiança e a responsabilização funcionam de forma diferente nos grupos de afinidade e ao nível da sociedade civil. Nós geralmente revelamos mais de nós aos nossos amigos; e essas ligações não escritas de amor e afeição nos mantém mais juntos, ou pelo menos nos dão um ímpeto adicional para resolver as coisas. Por baixo disto existe um grau de confiança maior do que a média, que serve para nos tornar responsáveis um com o outro.

     Ao nível da comunidade, o reverso é mais freqüente: a responsabilização nos permite confiar um no outro. Esperançosamente, compartilhamos laços de solidariedade e respeito; mas desde que não podemos conhecer bem todos uns aos outros, tais vínculos apenas fazem sentido se nós primeiro os determinarmos juntos, e então os gravarmos, escrevermos, para que todos possam a eles se referir no futuro, e mesmo os revise se for necessário. Estruturas democráticas e responsáveis feitas por nós mesmos, provém as fundações para a confiança, desde que o poder de decidir é tanto transparente como continuadamente aberto ao escrutínio.

     Existem também questões relativas ao tempo e ao espaço. Os grupos de afinidade são geralmente configurações temporárias – eles podem durar alguns meses, ou alguns anos, mas geralmente não mais do que isso. Uma vez que a razão particular pela qual nos reunimos não é mais um imperativo imediato, ou à medida em que nossa amizade esmorece, tais grupos freqüentemente caem ao largo da estrada. E mesmo durante o tempo de vida de um grupo, no intervalo entre as ações diretas, não existe um local fixo ou regularidade, tampouco registro de quem decidiu o quê e quando. Além do mais, os grupos de afinidade não são abertos a todos mas apenas aqueles que compartilham uma identidade ou ligação específica. Desta forma, mesmo que um grupo de afinidade pode certamente decidir fechar uma rua, existe em certa instância algo levemente autoritário em pequenos grupos tomando os problemas em suas próprias mãos, não interessando qual sua persuasão política.

     Decidir o que fazer com as ruas em geral – digamos, como organizar o transporte, encorajar a vida das ruas, ou oferecer espaços verdes – deveria ser um assunto aberto a todos os interessados se é pra ser realmente participativo e não-hierárquico. Isso implica na existência de instituições abertas e diretamente democráticas, para tudo desde a tomada de decisões até a resolução de conflitos. Nós precisamos ser capazes de saber onde as assembleias populares estão se encontrando; nós precisamos nos encontrar regularmente e usar procedimentos não arbitrários; precisamos registrar quais decisões tem sido tomadas. Mas mais importante, se assim escolhermos, nós todos devemos ter acesso ao poder de discutir, deliberar e tomar decisões sobre as questões que afetam nossas comunidades e além.

     De fato, muitas decisões tem um impacto muito maior do que em apenas uma cidade; transformar as formas de transporte, por exemplo, poderia implicar uma coordenação a nível regional, continental ou mesmo global. Os radicais já muito entenderam tal confiança em si mesmo como uma "comuna de comunas", ou confederação. O modelo de "conselho de falantes" usado durante as ações diretas insinua tal visão alternativa da globalização. Durante um encontro de "conselho de falantes", delegados enviados pelos grupos de afinidade se reúnem com o propósito de coordenação, compartilhamento de recursos e habilidades, a construção de solidariedade e assim por diante, sempre retornando ao nível de base que tem o último arbítrio. Se as assembleias populares fossem nossa unidade básica de tomada de decisão, a confederação de comunidades poderia servir como uma forma de transcender o paroquialismo e criar a interdependência quando desejável. Por exemplo, ao invés de um capitalismo global e corpos regulatórios internacionais, no qual o comércio é gerenciado de cima para baixo e orientado pelo lucro, as confederações poderiam coordenar a distribuição entre as regiões de forma ecológica e humana, enquanto permitem que as políticas em relação à produção, por exemplo, permaneçam ao nível das comunidades.

     Os Zapatistas, a partir de 2001, provaram que as municipalidades podem esforçar-se para se tornar autônomas da máquina do estado e do capital, para colocar preocupações ecológicas e humanas em primeiro lugar, enquanto mantém ligações regionais e globais de solidariedade e apoio mútuo. "Esse método de governo autônomo não foi simplesmente inventado pelo EZLN (Exército Zapatista de Liberação Nacional), mas vem de vários séculos de resistência indígena e da própria experiência dos Zapatistas. É a auto-governança das comunidades. Em outras palavras, ninguém de fora chega para governar, mas as próprias pessoas decidem, entre elas, quem governa e como… E também, através das Juntas de Bom Governo, a coordenação melhorou entre as Municipalidades Autônomas".

     Outro exemplo recente foi o movimento de assembleias de vizinhança que eclodiu na Argentina em 2001-02 em resposta a uma crise econômica que simultaneamente deslegitimou a política parlamentar. No final do Dezembro de 2001, um senso crescente de desespero e falta de poder se combinaram para forçar as pessoas não apenas às ruas para protestar de forma barulhenta batendo em seus potes e panelas (e destruindo caixas 24h) mas também para um diálogo de empoderamento com seus vizinhos sobre o que fazer a seguir – ao nível local, nacional e global. Cerca de cinqüenta vizinhanças em Buenos Aires começaram a manter encontros semanais e enviar delegados todos os Domingos para o encontro de uma coordenação geral entre vizinhanças. O Conselho Local da Federação Libertária Argentina explica que as assembleias "eram formadas por desempregados, subempregados e pessoas marginalizadas e excluídas da sociedade capitalista: incluindo profissionais, trabalhadores, pequenos vendedores, artistas, artesãos e todos eles também vizinhos". Como a Federação Libertária notou, "Os encontros são abertos e qualquer um poderia participar", e comum a todas assembleias era a "não delegação do poder, o autogoverno, e uma estrutura horizontal". Enquanto as assembleias acabaram por não substituir a estrutura do estado, elas forneceram aos argentinos uma visão de sua própria capacidade de fazer políticas públicas coletivamente. "O medo em nossa sociedade se transformou em coragem".

     De fato, estes esforços inovadores, mesmo quando não chegam aos resultados esperados de transformação social, terminam inspirando outras tentativas. Na pior das hipóteses, estas frágeis mas espetacularmente belas experiências irão para sempre mudar aquelas pessoas que delas participam, para melhor, por auto-orientar uma nova geração de rebeldes através da prática vivenciada de constituir uma comunidade coletivamente. Elas irão oferecer o suporte moral e material, e servir como a continuidade entre outros esforços similares, em outras partes do mundo. E elas irão também servir como mensagens em uma garrafa para gerações futuras, dizendo que formas confederadas e diretamente democráticas de tomar decisões sociais, econômicas, políticas e culturais são uma alternativa tangível. Na melhor hipótese, entretanto, tais formas de liberdade irão se expandir até a formação de poderes duais que podem contestar e em última instância substituir as formas de dominação. Elas irão se tornar a base para uma nova política de auto-legislação, auto-governo e auto-julgamento, para sempre estilhaçando o gelado mundo dos estados, do capital e das prisões.
     
     Qualquer visão de uma sociedade livre, se for para ser verdadeiramente democrática, deve é claro ser trabalhada por todos nós – primeiro nos movimentos e, mais tarde, em nossas comunidades e federações. Mesmo assim, nós provavelmente descobriremos que entendimentos há pouco definidos do que significa ser uma pessoa politicamente engajada são necessários no lugar de grupos de afinidade; um híbrido entre a tomada de decisão por consenso e métodos de decisão por votação majoritária que esforçam-se em manter a diversidade são preferíveis ao consenso simples e modelos informais; acordos escritos articulando direitos e deveres são cruciais para preencher a cultura não verbalizada dos protestos; e espaços institucionalizados para a criação de políticas são chave em garantir que nossa liberdade para tomar decisões não desapareça na linha de choque da polícia.

     Chegou o tempo de ir além do caráter oposicionista da ação direta infundindo-a com uma visão reconstrutiva. Isso significa iniciar, agora, a traduzir as estruturas do movimento em instituições que corporifiquem a boa sociedade; em resumo, cultivar a democracia direta no local que chamamos de casa. Isso irá envolver o duro trabalho de revigorar ou iniciar encontros cívicos e públicos, encontros de bairro, assembleias de vizinhança, conselhos de mediação comunitária, todo e qualquer forum no qual podemos nos reunir e decidir nossas vidas, mesmo que apenas em estruturas extralegais inicialmente. Então, também, significará reinvindicar a globalização , não como uma nova fase do capitalismo, mas sua substituição por comunidades confederadas diretamente democráticas coordenadas para o benefício mútuo.

     Chegou o tempo de mover do protesto para a política, de fechar as ruas para abrir espaços públicos, de demandar restos daqueles poucos no poder para segurar este poder firmemente nas nossas mãos. Por fim, isso significa ir além da questão "Ruas de quem?". Devemos perguntar ao invés "Cidades de quem?". Então, e só então, seremos capazes de refazê-las como se realmente fossem nossas. E serão.

Epílogo – Caminhos para a Utopia

Caminhos nunca são linhas retas. Eles ziguezagueiam, sobem e descem colinas e vales. Eles chegam a becos sem fim. Mas quando colocamos nosso melhor pé adiante, podemos nos aventurar na direção da utopia, em direção a um mundo que venha de baixo, para todos e por todos.

Com grande cuidado encontramos pedras nas quais podemos pisar para os destinos mais maravilhosos. Então nos esforçamos para emendar paisagens inteiras de práticas não-hierárquicas. Chutamos os vidros quebrados do nosso caminho. Às vezes nos perdemos. Mas a passagem precária em si mesma é um mapa para uma sociedade liberadora.

Nos damos as mãos, desejando atravessar de novo. Quando a escuridão desce, construimos acampamentos de fogo a partir das fagulhas da possibilidade, e vemos outras chamas à distância.

Out 12

O Anarquismo e suas Aspirações – parte IX

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Capítulo 3 – Democracia é Direta

     Por estes dias, as palavras parecem jogadas por aí como se fossem trocados. "Democracia" não é uma exceção. 

     Ouvimos demandas para democratizar tudo desde organizações nacionais e supranacionais até certos países até tecnologias. Muitos defendes que democracia é o padrão para um bom governo. Outros ainda alegam que "mais", "melhor" ou mesmo uma democracia "participativa" são os antídotos necessários para nossos problemas. No coração desses sentimentos bem-intencionados porém mal guiados bate um desejo genuíno: ganhar controle sobre nossas vidas.

     Isso é facilmente compreensível dado o mundo em que vivemos. Eventos e instituições anônimas, frequentemente distantes – quase impossíveis de descrever, muito menos confrontar – determinam se e com o quê nós trabalhamos, se bebemos água limpa, ou se temos um telhado sobre nossas cabeças. A maioria das pessoas sente que a vida não é o que deveria ser; muitos reclamam do "governo" ou das "corporações". Mas além disso, as fontes de nossa miséria social são tão mascaradas que podem até parecer amigas.

     Já que as causas reais parecem intocáveis e incompreensíveis, as pessoas tendem a deslocar a culta para alvos imaginários com uma face: indivíduos ao invés de instituições, pessoas ao invés de poder. A lista de bodes espiatórios é longa: de muçulmanos a negros e judeus, de imigrantes e gays, e assim por diante. É bem mais fácil gritar com aqueles que, como nós, tem pouco ou nenhum poder.

     Um desejo por comunidade – um lugar no qual podemos cuidar de nossa própria vida, compartilhá-la com outros, e construir algo junto que seja de nossa própria escolha – está sendo distorcido ao redor do mundo como nacionalismos, fundamentalismos, separatismos, e como resultado crimes de ódio, homens-bomba suicidas e genocídios.

     Comunidade não mais implica um rico reconhecimento do indivíduo e da sociedade: ela se traduz em uma batalha até a morte entre um pequeno "nós" contra outro pequeno "eles", à medida em que as rodas da dominação rolam por sobre nós todos. Os sem poder atropelam os desempoderados, enquanto os poderosos seguem majoritariamente intocados.

     De forma mais grave, o horizonte de ação parece ter sido encurtado para uma dualidade pré-determinada pelo próprio sistema. A esquerda não vê escolhas "realistas" fora daquelas que são apresentadas de cima: organizações não-governamentais, participação do Sul global em corpos de tomada de decisão internacionais ou a reforma ou "enverdejamento" dos processos incorretos do capitalismo. Esta e outras demandas são o mínimo dentro do atual sistema. Estão muito longe de poderem ser considerados uma resposta liberatória. Elas trabalham dentro de uma noção circunscrita e neutralizada de democracia, na qual a democracia não é nem das pessoas, pelas pessoas, nem para as pessoas mas, ao invés, apenas supostamente em nome das pessoas.

     "No instante em que uma Pessoa dá a si mesma Representantes, ela cessa de estar livre", proclamou Jean-Jacques Rousseau em "Do Contrato Social". Liberdade, particularmente liberdade social, é claramente antitética ao Estado, mesmo um que seja representativo. No nível mais básico, a representação nos "pede" que doemos nossa liberdade para outrem; ela assume, em essência, que alguns devem ter poder e muitos outros não devem. Sem poder, igualmente distribuído entre todos, nós renunciamos a nossa própria capacidade de se juntar com qualquer um de forma a significativamente moldar nossa sociedade. Nós renunciamos a nossa habilidade de nos auto-determinar e, assim, à nossa liberdade. Assim, não importa quão iluminados os líderes possam ser, eles estão governando como tiranos assim mesmo desde que – nós, as pessoas – somos servis às suas decisões.

     Isso não quer dizer que um governo representativo é comparável com formas mais autoritárias de governo. Um sistema representativo que falha na sua promessa de, digamos, direitos humanos universais é claramente preferível a um governo que nem ao menos tem esta pretensão. Mas é insuficiente. Mesmo o sistema representativo mais gentil necessariamente carrega consigo uma perda de liberdade. Como o capitalismo, um imperativo do tipo crescer-ou-morrer está impregnado na própria estrutura do estado. Como Karl Marx explicou em seu O Capital, o objetivo do capitalismo é – de fato, precisa ser – "o movimento incessante de criar lucro". Assim, também, existe este objetivo subjacente ao estado: o movimento incessante de criar poder. O impulso para o lucro e o impulso para o poder, respectivamente, precisam se tornar fins em si mesmos. Pois sem estes impulsos, não teríamos nem o capitalismo nem o estado; esses "objetivos" são parte de sua essência. Assim, os dois sistemas de exploração e dominação frequentemente interligados devem fazer o que for necessário para se sustentar, do contrário serão incapazes de manter seu "movimento incessante".

     O que o estado precisa fazer, então, precisa ser feito em seu próprio interesse. Algumas vezes, é claro, os interesses do estado coincidem com os de vários grupos de pessoas eles podem até se sobrepor com conceitos como justiça e compaixão. Mas essas convergências não são de forma alguma centrais ou mesmo essenciais ao seu suave funcionamento. Elas são apenas degraus instrumentais à medida em que o estado se move para manter, solidificar e consolidar seu poder.

     Em função disso, gostem ou não, todos os estados são forçados a lutar pelo monopólio do poder. "A mesma competição", escreveu Mikhail Bakunin em Estatismo e Anarquismo, "que no campo econômico aniquila e engole pequenos e mesmo médios empreendimentos… em benefício daqueles com vasto capital… também opera no caso dos Estados, levando à destruição e absorção de Estados de pequeno e médio porte em benefício de impérios". Os estados devem, como Bakunin notou, "devorar para não serem devorados". Esse processo de tomada de poder deve quase invariavelmente tender em direção à centralização, hegemonia e métodos crescentemente mais sofisticados de comando, coerção e controle. Em poucas palavras, na jornada em busca do monopólio do poder, sempre deverão  existir sujeitos a serem dominados.

     Como sistemas institucionalizados de dominação, então, nem o estado nem o capital são controláveis. Nem podem ser emendados ou tornados benignos. Assim, o grito de guerra de qualquer ativista progressivo ou de esquerda que aceita os termos do estado-nação e/ou do capitalismo é, em última instância, apenas esse: "Sem explocação sem representação! Sem dominação sem representação!"

     A democracia direta, por outro lado, está em completa oposição tanto com o estado quanto com o capitalismo. Como um "governo do povo", a lógica subjacente da democracia é essencialmente o movimento incessante de criar liberdade. E liberdade, como vimos, é impossibilitada por padrão em qualquer sistema representativo.

     N.T. Talvez os novos modelos de democracia líquida, no qual se delega o poder de decidir somente quando é conveniente a cada um, sendo sempre possível diretamente decidir e, quando preferível por cada um, delegar seu poder de decisão a outrem, seja um exemplo de representação que ainda poderá mostrar seu valor a partir dos exemplos que começam a ser utilizados pelo mundo.

     A democracia direta, entretanto, é fortemente rechaçada pelas pequenas elites econômicas e políticas que estão no poder, pois se constitui em uma ameaça a quem quer que sejam eles, monarcas, aristocratas, ditadores, governantes eleitos ou presidentes (e mesmo acionistas!) de grandes corporações.

     Precisamos retomar aquele projeto ainda não terminado de "viver livremente em cidades livres", em contraposição a aceitar "o estado"como a única forma de governo, como Piotr Kropotkin argumentou em um livro de mesmo nome – se quisermos ter esperança de contestar a dominação instituída.

     Como John Dewey colocou em seu "The Public and Its Problems", "A política democrática americana desenvolveu-se a partir de uma vida comunitária genuína… O bairro ou uma área não muito maior era a unidade política, o encontro de bairro o meio político, e ruas, escolas e a paz na comunidade eram os objetivos políticos". Assim era a América na época do século XVIII, constituída por capítulos que se organizavam a partir de encontros locais, nos quais os cidadãos podiam se encontrar regularmente para determinar as políticas públicas da comunidade e compartilhar suas necessidades.

     Participando dos debates, deliberações e decisões da sua própria comunidade tornou-se parte de uma vida plena e vibrante; não apenas deu aos colonizadores a experiência e as instituições que mais tarde iriam dar suporte à revolução mas também uma forma tangível de liberdade pela qual valia a pena lutar. Consequentemente, eles lutavam para preservar o controle sobre suas vidas diárias; primeiro com os ingleses pela independência e, mais tarde, entre eles mesmos sobre formas rivais de governança. A constituição final dos Estados Unidos da América, é claro, definiu uma república federativa e não uma democracia direta. Mas antes, durante e mesmo depois da revolução, vez ou outra, encontros de bairro, conselhos populares e assembleias confederativas exerceram seus poderes de auto-gestão ou criaram novos quando estes foram bloqueados – tanto em instituições legais quanto extra-legais – tornando ainda mais radical o processo.

     Uma das grandes limitações da esquerda libertária tem sido ignorar a política em si – quer dizer, a necessidade de um lugar garantido para a liberdade emergir.

     A banda The Clash cantou anos atrás sobre "rebeldes dançando no ar", e parece que estivemos modelando nossas lutas políticas desse jeito. Podemos nos sentir fortes nas ruas ou construindo ocupações, em nossos infoshops e dentro de nossos encontros coletivos, mas essa é uma sensação momentânea e com frequência privada. Ela nos permite ser políticos, como em reação a, oposição, contraposição, ou mesmo tentando trabalhar fora das políticas públicas. Mas ela não nos deixa fazer política, como em fazer política pública ela mesma. É apenas uma "liberdade de", daquelas coisas que não gostamos, ou mais acuradamente, liberação.

     "Liberação e liberdade não são a mesma coisa", lembra Hannah Arendt em "Sobre a Revolução. Certamente, a liberação é uma necessidade básica: as pessoas necessitam estar livres de perigo, fome e ódio. Mas a liberação é muito menos do que a liberdade. Se em algum momento formos para alcançar todos nossas necessidades e desejos, se quisermos tomar controle de nossas vidas, cada um de nós precisa de liberdade de "liberdade para" se auto-desenvolver – individualmente, socialmente e politicamente. Como Arendt adicionou, "[A liberação] é incapaz de mesmo alcançar, quanto mais compreender, a ideia central da revolução, que é a fundação da liberdade".

     A questão revolucionária se torna: Onde as decisões que afetam a sociedade como um todo são feitas? Pois é aí que o poder reside. É tempo de redescobrir o "tesouro perdido" que surge espontaneamente durante todas as revoluções – o conselho, e todas suas variedades imaginativas – como a base para constituir locais de poder para todos. Pois somente quando todos nós tivermos acesso igual e continuado aos espaços nos quais as políticas públicas são feitas – a esfera política – a liberdade terá uma chance de lutar para ganhar um espaço.

     Espremendo Montesquieu e seu "O Espírito das Leis", podemos depreender que ele afirmava que o problema não é o poder em si, mas o poder sem limites, ou o poder como um fim em si mesmo. O poder precisa sempre estar ligado à liberdade; a liberdade precisa ser o limite colocado ao poder. Tom Paine, em seu "Os Direitos do Homem", por sua vez disse: "O governo no antigo sistema é uma assunção de poder para o engrandecimento de si mesmo; no novo governo, a delegação de poder para o benefício comum da sociedade."

     Se a liberdade é um objetivo social, o poder deve ser mantido horizontalmente. Nós todos devemos ser os criadores das regras e estar sob suas orientações ao mesmo tempo. Todos nós devemos manter o poder igualmente em nossas mãos se a liberdade deve coexistir com o poder. A liberdade, em outras palavras, só pode ser mantida através do compartilhamento do poder político, e esse compartilhamento acontece através das instituições políticas. Ao invés de construir um monopólio, o poder deve ser distribuído a todos nós, desta forma permitindo a todos nossos variados "poderes" (de razão, persuasão, tomada de decisão, e assim por diante) aflorar. Esse é o poder de criar ao invés de dominar.

     É claro, institucionalizar a democracia direta garante apenas o esqueleto de uma sociedade livre. A liberdade nunca é um negócio fechado, nem uma noção fixa. Novas formas de dominação surgem a cada momento, historicamente. Mas minimamente, as instituições democraticamente diretas abrem um espaço público no qual qualquer um, se assim escolher, pode chegar junto em um corpo deliberativo e de tomada de decisão; um espaço onde todos tem a oportunidade de persuadir e ser persuadido; um espaço no qual nenhuma discussão ou decisão é feita de forma escondida, e onde ela pode retornar para o escrutínio, responsabilização e reimaginação. Embrionariamente dentro da democracia direta, mesmo que funcione apenas como um mecanismo de construção de políticas verdadeiramente aberto, estão valores como igualdade, diversidade, cooperação e respeito aos valores humanos – esperançosamente, os blocos fundadores de uma ética liberatória à medida em que começamos a autogerir nossas comunidades, a economia e a sociedade em um círculo cada vez crescente de assembleias confederadas.

     Como uma prática, a democracia direta precisará ser aprendida. Como um princípio, ela terá que embasar todas as tomadas de decisão. Como uma instituição, ela terá que ser conquistada. Ela não irá aparecer magicamente da noite para o dia. Ao invés, ela irá emergir pouco a pouco a cada luta, como Murray Bookchin escreveu, "democratizar nossa república e radicalizar nossa democracia".

     Temos que infundir todas nossas atividades políticas com política. Chegou a hora de uma nova Revolução, mas desta vez uma que quebre os laços do estado-nação, uma que não conheça fronteiras ou mestres, e uma que desenhe a potencialidade da autogovernança libertária ao seu extremo, plenamente emancipando a todos com o poder de agir democraticamente. Isso começa reinvindicando a palavra democracia em si – não como uma melhor versão de representação mas como um processo radical para diretamente reconstruir nosso mundo.

Out 05

O Anarquismo e suas Aspirações – parte VIII

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Consolidar a Liberdade

"Nós podemos não ver os desfechos
Embora possamos ver as pistas
Mas quando você planta uma semente
Ela deve crescer antes de desabrochar" 
– Ryan Harvey, "Ain't Gonna Come Today" – 2006

     Os últimos quarenta ou mais anos desembocaram em uma nova era, por alguns chamada de sociedade em rede, idade da informação ou simplesmente globalização. Ao mesmo tempo em que as trasnformações no capitalismo, nos estados-nação, tecnologia e cultura abrem novas possibilidades, também são causa pra graves preocupações.Agora o Capitalismo está se tornando "verde"; as redes sociais e as tecnologias de comunicação reduzem cada vez mais os laços humanos; as democracias representativas oferecem relações públicas ao invés de redes de segurança, além de monitorização constante e total e neotorturas.

     A exacerbação da sensação de insegurança é agora a forma principal de pequenas redes da elite global buscam, para exercer diferentes formas de controle social após os eventos de Seattle em 1999 e os "atentados" de 2001 às torres gêmeas em Nova Iorque.

     Para muitos fora dessas redes, isso involve viver no fogo cruzado das ocupações, guerras civis e sofrer de grande restrição devido a crises ecológicas e econômicas. A noção de cidadãos protegidos por um estado agora parece antiquada, já que milhões de refugiados e excluídos do sistema (educacional, de saúde, de segurança) vivem em espaço de precariedade e ilegalidade. Para a maioria das pessoas, a vida diária é uma fonte de ansiedade, não apenas material mas também em termos de clara desumanização.

     Em contraste, o anarquismo reemergiu como uma das mais potentes correntes dentro dos atuais milieus radicais. Uma variedade de movimentos antiautoritários pipocaram mundo afora nas últimas duas décadas, mas o anarquismo parece ser a única forma de socialismo libertário que fala ao tempo e aos sonhos das pessoas. Aliás, o anarquismo pode muito bem ter estado além do seu tempo no século XIX, defendendo um mundo de identidades transnacionais e multidimensionais, em lugar por um humanismo substancial baseado no mutualismo e na diferenciação. Os valores anarquistas são estranhamente similares a muitas das mudanças estruturais acontecidas sob a globalização – como a descentralização e a cooperação – tornando-as mais práticas e potencialmente mais atraentes do que nunca. O estado, preocupação primária do anarquismo de longa data, ao lado do capitalismo, também foi para sempre alterado, se não totalmente minado. Parece não mais deter o monopólio da violência, nem pode mais oferecer o suficiente bem-estar social de modo a garantir a passividade de parte de seu eleitorado, e isso oferece novas aberturas para o mutualismo e a auto-governança.

     À medida em que a globalização progressivamente permite que a homogeneidade e a heterogeneidade coexistam, mesmo que frequentemente somente para fins instrumentais, os esforços em andamento do anarquismo para construir uma unidade em nossa diversidade mais do que nunca sugerem uma práxis revolucionária.

     Esse pode muito bem ser lembrando como o "século anarquista", como David Graeber e Andrej Grubacic afirmam. O número de pessoas se identificando com o anarquismo tem crescido espontaneamente no passado recente. Como os camaradas dos dias que passaram, esses novos anarquistas tem estado ocupados tentando prefigurar seus ideais. Uma melhor sociedade pode ser pré-visualizada em produções culturais (e sociais)  do tipo "faça você mesmo", inclusive formas organizacionais, infraestruturas autônomas mas ainda assim enredadas, e nas numerosas formas de de-comodificar as necessidades e os desejos. O anarquismo do século XXI tem se mostrado crescentemente dinâmico e expansivo. Mais e mais escolas tem se juntado ao adjetivo "anarquista" para amplificar a totalidade do indivíduo e da sociedade – de anarquistas negros a anarquistas tecnológicos (ou ciberanarquistas), de anarquistas pós-estruturalistas a anarquistas gays, e aqueles concentrando-se em questões previamente ignoradas dentro do anarquismo como a saúde mental. As pessoas estão chegando ao anarquismo de outras tradições, reformatando-o no processo. Anarquistas são abertos a, aliados a, e criticamente solidários com – e buscam aprender de – toda sorte de movimentos de base do mundo. Eles são, mais do que nunca, formas práticas de auto-organização nos níveis micro, continental e global. Mais importante talvez, as formas de relação social anarquista se tornaram a posição "suave", alógica implícita e frequentemente não  creditada, dentro dos movimentos radicais e progressivos globalmente.

     Eu concentrei aqui no que o anarquismo luta por na forma de suas mais amplas e ambiciosas visões, afirmando que tão belas aspirações servem como uma consciência necessária em um mundo crescentemente inconsciente. Eu argumentei que mesmo que o anarquismo fosse apenas uma sensibilidade ética, a ideia de uma liberdade expansiva pode algumas vezes ser o suficiente para determinar a forma que as pessoas, anarquistas ou não, tentam constituir a liberdade na prática. Felizmente, quando tudo está dito e feito, o anarquismo é esta grande mas ainda assim modesta crença, abraçada por pessoas através da história humana, de que nós podemos imaginar e também implementar uma sociedade totalmente maravilhosa e materialmente abundante. Esse é o espírito do Anarquismo, o fantasma que assombra a humanidade: de que nossas vidas e comunidades realmente podem ser apreciavelmente melhor. E melhor, e então ainda melhor.

 Capítulo 2 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

     Esta política radical de resistência e reconstrução a qual chamamos Anarquismo tem transformado a si mesma por décadas. Além de ajudar a dar forma ao atual movimento anticapitalista, ele também ilumina os princípios de liberdade que podem potencialmente deslocar a hegemonia da democracia representativa e o capitalismo.

     Desde seu início no século XIX, o Anarquismo sempre sustentou uma série de noções éticas que, defende, melhor nos aproxima de uma sociedade livre. Durante sua vida, o anarquista Errico Malatesta (1853-1932) há muito tempo descreveu o Anarquismo como uma "forma de vida social na qual os homens vivem como irmãos, onde ninguém está em posição de oprimir ou explorar ninguém, e na qual todas as formas de atingir o máximo de desenvolvimento moral e material estão disponíveis a todos". Essa simples definição ainda captura os principais objetivos do Anarquismo. Se esta forma libertária de socialismo pode atender ao seu próprias aspirações ainda está por ser visto.

                    A Visão Tornada Invisível

     Enquanto as formas de organização e valores desenvolvidos pelos anarquistas podem ser encontrados de forma embrionária ao redor do mundo em muitas diferentes épocas, a estréia do anarquismo como uma filosofia distinta aconteceu na Europa no meio do século XIX. O "filósofo da liberdade" inglês William Godwin (1756-1836) foi o primeiro pensador do Iluminismo a escrever uma teoria sustentada da sociedade sem Estados em seu An Inquiry concerning Politic Justice em 1793, mas não foi até Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) escrever "a sociedade busca a ordem na anarquia" em seu "O que é a Propriedade?" em 1840, que o termo "anarquismo" lentamente começou a se organizar nas próximas várias décadas em torno de um núcleo central de princípios reconhecíveis.

     Muitas críticas podem ser feitas a Godwin e a Proudhon, este último com sua incapacidade em  lidar com a lógica inerente ao capitalismo e suas crenças patriarcais e anti-semíticas. De fato, foi necessário que o aristocrata russo Piotr Kropotkin (1842-1921) e o intelectual judeu alemão Gustav Landauer (1870-1919) e muitos outros menos proeminentes e menos conhecidos radicais pintassem um quadro mais agradável do anarquismo clássico: uma filosofia política utópica que negue todas as formas de autoridade e coerção imposta.

     Como socialistas, os anarquistas sempre foram particularmente preocupados com o capitalismo, que durante a Revolução Industrial estava causando sofrimento em uma escala inimaginável. Anarquistas primariamente colocaram suas esperanças em transformar as relações sociais entre os trabalhadores, utilizando categorias econômicas que iam desde a luta de classes até o fim da propriedade privada. Toda esquerda revolucionária concordava que o capitalismo não podia ser reformado;  ele deveria ser abolido. Mas ao contrário de outros socialistas, os anarquistas sentiam que o estado era tão culpado quanto em escravizar a humanidade, e assim não se poderia usar a máquina do estado – mesmo de uma forma transitória – para nos movermos do capitalismo para o socialismo.

     Como o anarco-sindicalista Rudolf Rocker (1873-1958) proclamou em 1938, "O socialismo será livre, ou não será".  Por esta razão e outras, o anarquismo evoluiu do socialismo para indicar uma oposição não somente ao capitalismo mas também aos estados e outras instituições compulsórias interligadas, como a religião organizada, a escola mandatória, o serviço militar e o casamento. Por isso é dito sobre o anarquismo em um senso mais geral que "todos anarquistas são socialistas, mas nem todos socialista são anarquistas". Ou, como Joseph A. Labadie colocou, "O Anarquisto é um Socialismo voluntário. Existem dois tipos de Socialismo… autoritário e libertário, estatal e livre".

     Ao invés de organizações sociais de cima para baixo, os anarquistas desenvolveram vários tipos de modelos horizontais que podem prefigurar a boa sociedade no presente. Ou seja, os anarquistas mantém que as pessoas podem tentar construir um mundo novo na casca do velho através de auto-organização ao invés de passivamente esperar até um período pós-revolucionário. Daí a ênfase anarquista na práxis. As alternativas anarquistas eram enraizadas em conceitos-chave tais como associação voluntária, liberdade pessoal e social, comunidades descentralizadas e confederadas, igualdade de condições, solidariedade humana e espontaneidade. As experiências anarquistas pelo mundo nos mostraram a criação de federações, vida comunal, escolas livres, conselhos de trabalhadores, moedas locais e sociedades de apoio mútuo.

     O Anarquismo foi parte de uma grande esquerda internacionalista  desde 1880 até a Ameaça Vermelha dos anos 20 e a Revolução Espanhola de 1936. Então, desacreditados, desencantados ou mortos, os anarquistas pareceram desaparecer e, com eles, a filosofia em si. Após a Segunda Guerra Mundial e a derrota do nazismo, pareceu que as duas escolhas políticas eram "democracia" (capitalismo de livre mercado) ou "comunismo" (capitalismo de estado). Perdidos na equação, entre outras coisas, estavam o questionamento da autoridade e a asserção concorrente da utopia trazida pelo anarquismo.

                    Reemergência como Convergência

     Quando o Anarquismo começou a ser redescoberto na década de 50 pelos esquerdistas procurando uma alternativa ao marxismo ortodoxo, ele então tentou fortemente refazer-se a si mesmo. Os pensadores anarquistas se ocuparam com novas preocupações, que iam desde o consumo compulsivo até a urbanização; novas possibilidades como o feminismo e a liberação cultural; e velhos fantasmas como uma orientação voltada ao trabalho e táticas antiautoritárias e, até, terroristas. O Anarquismo renovado que finalmente emergiu era, de fato, uma convergência de vários impulsos antiautoritários do pós-guerra. Apesar de que a sensibilidade libertária dos anos 60 e a Nova Esquerda estarem na base, cinco fenômenos são especialmente cruciais à práxis que se tornou famosa em Seattle.

     Primeiro, houve a Internacional Situacionista (1962-1972), um pequeno grupo de intelectuais e artistas avant-farge que tentaram descrever um capitalismo em transição. De acordo com os Situacionistas, a alienação básica à produção capitalista que Karl Marx observou agora preenchia cada orifício; as pessoas não estavam mais alienadas só em relação aos bens que produziam, mas também suas próprias vidas, seus próprios desejos. A forma comodificada agora colonizava também a esfera da vida cotidiana. Como Guy Debord (1931-1994) escreveu, o capitalismo moderno forjou uma "sociedade do espetáculo", ou sociedade do consumo que prometia uma satisfação ainda nunca entregue, tendo a nós como expectadores passivos. Os Situacionistas defendiam disrupções práticas do cotidiano, desde a mídia até a paisagem das cidades, de forma a fragmentar o espetáculo através da imaginação e substituir a drogadição com prazer.

     Dos anos 70 em diante, os trabalhos interdisciplinares do teórico Murray Bookchin (1921-2006) também ajudaram a transformar o Anarquismo em uma teoria política moderna. Aproximando a velha e a nova esquerdas, Bookchin fez mais do que qualquer um ampliando a crítica antiestatista/anticapitalista do anarquismo a uma crítica da hieraquia por si. Ele também trouxe a ecologia como preocupação ao anarquismo, por conectá-la à dominação. Em uma sentença, parafraseando-o, a crise ecológica é uma crise social. Bookchin enfatizou a possibilidade nascente no presente de uma sociedade ecológica pós-escassez, na qual o uso "racional" da tecnologia, poderia livrar a humanidade para preencher sua potencialidade em harmonia com o mundo natural. De forma mais significante, ele mandou embora a necessidade de um estado e o substituiu por uma forma de auto-governo democraticamente direto, chamado de "municipalismo libertário". Os escritos de Bookchin apontavam para a cidade ou vizinhança como o local do enfrentamento, radicalização, poder dual e finalmente revolução, com confederações de assembleias de cidadãos livres substituindo o estado e o capital.

     Emergindo da contracultura rural na Nova Inglaterra e então ca Costa Oeste – uma contracultura que incluia pacifistas radicais tanto de origem anarquista quanto religiosa – o movimento antinuclear dos anos 70 e 80 dos Estados Unidos usou a desobediência civil, mas infundida com uma sensibilidade anarquista e feminista: uma rejeição de toda a hierarquia, uma preferência por um processo democrático direto, um foco na espontaneidade e na criatividade. Níveis variáveis de confronto não violento nas plantas nucleares, desde bloqueios até ocupações, além do uso de bonecos e solidariedade nas prisões foram decididas nos grupos de afinidades e nos conselhos.

     Iniciando nos anos 80, os Autonomen da Alemanha Ocidental deixaram uma marca no anarquismo também. Os Autonomen rejeitavam tudo desde o sistema existente até todos os rótulos ideológicos, inclusive o de anarquistas. Como uma rede espontânea, descentralizada de revolucionários antiautoritários, eles eram autônomos de partidos políticos e sindicatos; eles também tentavam ser autônomos de estruturas e atitudes impostas "de fora". Isso levava em conta uma estratégia dupla: primeiro, criar espaços comunais livres como ocupas nos quais viver as próprias vidas; em segundo lugar, utilizar a confrontação militante tanto para defender sua contracultura e tomar a ofensiva contra o que eles consideravam repressivo, ou mesmo elementos fascistas. O lançamento de um black bloc mascarado em uma demonstração em Berlin em 1988 durante um encontro do Banco Mundial e do FMI se tornou um evento emblemático dos Autonomen quando, na ocasião, organizaram a criação de vizinhanças autônomas e info-stores, além de batalhas com a polícia e com neo-nazistas. Os anarquistas sentiram afinidade com os fluxos de autonomia política e os importaram, lincando e modificando ambos no processo.

     Por último, mas não menos importante, o dramático Primeiro de Janeiro de 1994, o aparecimento dos Zapatistas no cenário mundial para contestar o Acordo de Livre Mercado Norte Americano chamou atenção dos anarquistas para a importância da globalização como uma preocupação contemporânea com proporções frequentemente delimitantes de vida ou morte. A tomada zapatista dos vilarejos em Chiapas também religou a noção de que a resistência é possível, tanto em regiões pobres quanto ricas. "So você nos perguntar o que queremos, nós iremos sem vergonha responder: Abrir um buraco na História", declarou o Subcomandante Insurgente Marcos. "Nós iramos construir um outro munto… Democracia! Liberdade! Justiça!". Para os anarquistas, o uso criativo de altas tecnologias como a internet e baixas tecnologias como encontros na floresta, princípios comunicados e avanços práticos, e a tentativa de reclamar o poder popular através de municipalidades autônomas foi especialmente eletrizante. Subitamente, anarquistas de todos cantos apareceram em Chiapas para dar suporte à rebelião, carregando para casa lições para aplicar a um movimento anticapitalista global que um anarquismo remodelado iria logo ajudar a iniciar.

                    Mais do que a soma de suas partes

     Todas estas fibras de resistência, cada uma delas empurrada por momentos anteriores, costuraram-se e formaram o tecido do anarquismo contemporâneo. Dos Situacionistas, o anarquismo abraçava a crítica da alienação e da sociedade do consumo, e fé na imaginação; de Bookchin, a conexão entre o anticapitalismo, democracia direta, ecologia e pós-escassez; do movimento antinuclear, o foco em grupos de afinidade e conselhos bem como ação direta não violenta; dos Autonomen, confrontação militante, a estratégia dos black blocs e uma ênfase no faça-você-mesmo; e dos zapatistas o poder da internet, a solidariedade cultural cruzada e a globalização para a resistência transnacional. Mas o anarquismo que ganhou notoriedade em Novembro de 1999 é mais do que a soma dessas partes. É a única filosofia política hoje que aspira equilibrar uma variedade de agentes sociais de mudança e estratégias – ou, em última instância, uma diversidade de táticas, visões e pessoas – com noções universalistas de liberdade participativa fora das instituições e comportamentos impostos.

     Ao mesmo tempo em que os anarquistas humildemente compreendem que fazem parte de um grupo maior dentro das múltiplas lutas antiautoritárias, o anarquismo trouxe um conjunto de qualidades únicas e inseparáveis a estes movimento: uma instância abertamente revolucionária, colorida por uma orientação eminentemente ética, feita para além do ordinário por uma utopia deliciosamente e democraticamente direta.

                     O Momento Anarquista

     Mas ainda, por que Anarquismo?

     Porque o anarquismo definiu os termos do debate. Sua ênfase na revolução social com transparência significa que os anarquistas nunca tiveram medo de nomear a realidade concreta mascarada pelo termo globalização: ou seja, sociedade capitalista.

     Mas ainda, por que agora?

     Porque a globalização faz as aspirações anarquistas crescentemente necessárias. Longe de ser anti-globalização por si, os anarquistas há muito sonhavam com um mundo sem fronteiras cujo processo de globalização agora torna potencialmente factível. Algumas das caracteristicas defendidas pelos anarquistas estão postas, como a descentralização e a interconectividade, identidades elásticas e a fragmentação das dualidades, empréstimos criativos, cooperação e abertura. E, mais impressionante, a globalização está estruturalmente detonando com o centralismo estatal!

     Em seus dias, Karl Marx (1818-1883) anteviu a crescimento da hegemonia capitalista e sua habilidade cancerosa de reestruturar todas as relações sociais de acordo com sua própria imagem distorcida. Para Marx, estava destinado a atores sociais certos, em certas condições específicas, a "fazerem história" – ou seja, fazer a revolução e alcançar o comunismo no seu melhor e mais geral senso. Muito do que Marx apontou na época continua verdadeiro até hoje. O projeto heróico de Marx e múltiplos outros socialistas de abolir o capitalismo permanece mais pungente do que nunca, assim como a necessidade de um movimento revolucionário realizá-lo. Daí, o poder do "anticapitalismo".

     O Anarquismo tradicionalmente anteviu outro desenvolvimento hegemônico que Marx ignorou: o Estado. Ao contrário do capitalismo, levou muitas décadas mais para que ganhasse o estado de naturalidade que a economia de mercado ganhou. Ironicamente, tanto para estatistas quanto anarquistas, justamente quando a democracia representativa do estilo norte-americano finalmente alcançou a hegemonia como a forma "legítima" de governança, a globalização começou  seu trabalho de reduzir o poder dos estados de certas formas – formas que passaram a permitir aberturas para formas horizontais de política. Pensar fora da "caixa estatista" agora faz mais senso a muitas pessoas e rapidamente está se tornando uma realidade, potencialmente oferecendo ao anarquismo a relevância que há muito desejou.

     À medida em que as economias nacionais vão cedendo lugar para outras globais, por exemplo, os estados são menos hábeis de prover seus cidadãos com qualquer rede de segurança social; quanto mais pessoas são forçadas ao status de refugiadas, o estado é menos apto a oferecer proteções legais e de direitos humanos. Por necessidade, as pessoas são compelidas a se voltarem a "algo mais" – com frequência uma espécie de abordagem de "auto-ajuda".

     Nesse contexto, os experimentos anarquistas de organização democrática direta, confederação e apoio mútuo, entre outros, evidencia quão adequadas tais formas são para um mundo cada vez menos estatista e cada vez mais interdependente.

     No atual mundo globalizado, entretanto, "não estatista" pode significar tudo desde instituições supranacionais governadas por elites econômicas e organizações não governamentais internacionais até cortes mundiais e zonas de negócios regionais ou indivíduos flutuantes querendo empregar táticas de terror. A globalização dentro da estrutura capitalista pode muito bem dar origem a novas hierarquias e aprofundar a alienação, conformando tudo a sua própria imagem.

     Assim como o Marxismo precisou ser repensado no meio do século XX à luz da falha do socialismo de estado em alcançar a emancipação humana, o anarquismo precisa ser reteorizado em resposta à mudança em relação ao não-estatismo que impõe reconfigurações multiculturais de monopólios políticos bem como possíveis fissuras para uma ética alternativa. As práticas altamente participativas do anarquismo de hoje precisam ser continuamente re-imaginadas tanto para manterem-se três passos adiante daqueles que as quiserem cooptar quanto para estar a altura da tarefa de refazer a sociedade.

     Tanto teoria e prática precisam estar grudadas no presente se a política anarquista deve se tornar mais do que apenas uma nota de rodapé histórica acerca de um momento perdido.

     O extraordinário mix de humanos que apareceu nas ruas de Seattle pode encontrar unidade na diversidade precisamente porque os anarquistas puseram em prática seus modelos teóricos, como por exemplo a organização em grupos de afinidade e os conselhos e assembleias, permitindo que centenas de questões díspares encontrassem uma conectividade íntima e pudessem ser apresentadas.

     O projeto do presente movimento anticapitalista, e do anarquismo em geral, é prover uma luz guia, mesmo que não sejamos nós aqueles a finalmente encestarmos a bola.

     Em 1919, os anarquistas tomaram o poder em Munique por uma semana durante o curso da Revolução Germânica e rapidamente iniciaram toda sorte de projetos imaginativos para empoderar a sociedade como um todo. Mesmo Landauer sabia que o melhor que ele poderia fazer era construir um modelo para as futuras gerações: "Embora seja possível que a república do conselho seja apenas curta, eu tenho o desejo – e assim todos meus camaradas – de que deixe atrás de si efeitos duradouros na Bavária, de forma que, esperamos, quando um governo retornar (o que deve ser esperado), círculos sábios possam dizer que nós não fizemos um mau começo, e que não teria sido mau se nos fosse permitido continuar nosso trabalho". Landauer foi morte por uma onda de reação de extrema direita logo após isto, e quatorze anos após os nazistas chegaram ao poder.

     Ainda, os grandes experimentos do passado que buscavam uma sociedade livre e auto-governada não se extinguiram – eles reemergiram nas correntes anarquistas contadas aqui e, de forma promissora, a atual contenda contra o capitalismo segue sua luta ao logo de linhas antiautoritárias.

     Não é um mau começo para o século XXI.

 

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)