Monthly Archives: abril 2015

Abr 30

Polícia para quem precisa de polícia – O caso dos professores do Paraná e o ocaso da políca militar

By Rafael Reinehr | Anarquia e Escritos Libertários , Apontamentos Anarquistas , Uncategorized

Sonhei que morria por causa de uma bactéria no coração. Acordei febril. Mas podia ser pior, eu podia ter sonhado que era um professor paranaense.” – Pedro Rios Leão

charge de Odyr Bernardi

 

O Beto Richa, e nossos governantes em geral, sabem muito bem o perigo que os professores representam. O que aconteceu hoje em Curitiba não foi uma fatalidade ou um ato de descontrole. Foi apenas uma ação condizente com a cultura política do nosso país. Qualquer esboço de mudança passa por uma auto-reflexão. Somos todos responsáveis. Quem não está ATIVAMENTE contra essa ideologia vigente, está a favor dela e é diretamente culpado pelos acontecimentos de hoje.

Espero que o ocorrido encerre de vez essa sandice de intervenção militar. Quem quiser provar um “pouquinho” de intervenção militar, dá um pulo aqui no Centro Cívico pra tomar bomba e cacetete na cara. Porque protestar em bairro nobre com roupinhas da moda e voltar pra casa de taxi, limpinho e bem feliz é fácil, qualquer imbecil consegue.

Hoje, mais do que nunca, vale a célebre frase de Martin Luther King Jr.: a maior tragédia desse momento de crise não será o grito dos homens maus e sim o silêncio dos homens de bem!” – Jaque Bohn Donada

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Sugestão de campanha: Você conhece algum filho de policial militar no PR? Conhece a esposa de algum deles? Ligue para ela, ele e sugira que chame o pai à consciência. POlicial também é trabalhador. Hoje eles bateram nos professores de seus próprios filhos, nas professoras de suas filhas, e talvez em alguns que foram ou poderiam ter sido seus professores no passado recente. Sugiro que seus vizinhos não os rejeitem, mas que os chamem ao motim, que os convidem à desobediência baseada no RDE ou no código militar “ORDEM ABSURDA NÃO SE CUMPRE” é dever do militar desobedecer e ir preso se for o caso. Trabalhador não bate em trabalhador. peça aos filhos e amigos, parentes e esposas de policiais militares que se mobilizem e ajudem estes a dar o passo que falta …. e ficarem do lado do bem da justiça. Estes homens e mulheres fardados, em sua maioria, e ao seu modo, querem o mesmo que todos os demais trabalhadores: paz e justiça.” – Claudio Oliver

FB_IMG_1430355752080Outra informação, do Paraná Portal, afirma que 50 policiais serão exonerados pois recusaram-se a atirar contra os manifestantes.

Os surtos de lucidez são penalizados, enquanto os rompantes de afronta à democracia e ao direito de protesto são fortemente reprimidos. Vivemos há muito em uma sociedade de hipercontrole, em que a Polícia não serve ao propósito de defender a população de bandidos, ladrões e criminosos em geral mas, pelo contrário, está presente apenas para garantir a propriedade privada (daqueles que a possuem) e a manutenção do estado das coisas de forma a favorecer quem está no poder.

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“Não é suficiente para mim parar em frente a vocês nesta noite e condenar os levantes. Seria moralmente irresponsável fazer isso sem, ao mesmo tempo, condenar as contingências e condições intoleráveis que existem em nossa sociedade. Essas condições são as coisas que fazem os indivíduos sentir que não possuem outra alternativa senão engajar-se em rebeliões violentas para chamar a atenção. E eu devo dizer hoje que uma revolta é a linguagem daqueles que não são ouvidos.” – Martin Luther King Jr., 14 de março de 1968

Voltaire já dizia: “É perigoso estar certo quando o governo está errado.” Isso está mais do que certo, haja vista que o aparelho ideológico do Estado e a estrutura hierárquica militar, disciplinada e aparelhada que está a seu serviço tem poder de desmonte truculento de qualquer confronto direto com a população.

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Isso, no entanto, não é razão para quedarmos acomodados em frente às nossas “caixas anestesiadoras” – que alguns chamam de televisores. A cooperação crescente e o avanço das estratégias de participação cidadã – indo para muito além da mera participação, evoluindo até a interação – com troca efetiva de saberes e a evolução da tomada de consciência sobre o verdadeiro estado das coisas (que nos é obscurecido pela Escola, pela Igreja e pelo Estado) poderão acabar por gerar as faíscas da transformação social que precisamos.

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“Se o governo não respeita nossos direitos, porque nós respeitamos suas leis?”

Por que somos condescendentes? Conformistas? Acomodados? Porque estamos conseguindo comprar nossos eletrodomésticos, televisores de LCD ou automóveis em 12, 24, 36 ou 72 vezes? Porque seguimos acreditando na promessa de um “paraíso na terra”, através de reformas e mais reformas – políticas, econômicas, tributárias – que sempre são paliativas e logo ali na frente são revogadas (como no caso da rotulação dos transgênicos)?

Será que não percebemos que nossas liberdades são mais e mais cerceadas em troca de uma suposta “segurança” para nós e nossas famílias, sendo que esta segurança na verdade é uma ilusão posta na mesa para manter o processo de enriquecimento de famílias e grupos corporativos cada vez mais famintos?

FB_IMG_1429453709381A postagem é séria. É tão séria que precisamos de um pouco de humor para atenuar a carga emocional pesada de tudo que precisamos digerir ao refletir sobre o assunto:

FB_IMG_1430358865408Para finalizar, uma foto de um membro do Black Block que foi “capturado” pela PM do Paraná, em sua vestimenta característica de confronto com a polícia. Estes baderneiros… tsc… tsc… (ATENÇÃO, AVISO AOS INCAUTOS, PARA EVITAR COMENTÁRIOS INAPROPRIADOS: SIM, ISTO É UMA IRONIA)

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A tempo: no início da madrugada caí em uma postagem de Gustavo Lisboa que cita Brecht. Suas palavras caem como uma luva para encerrar este ato:

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” – Bertold Brecht

Abr 29

A verdadeira face da política: o caso da rotulação dos transgênicos

By Rafael Reinehr | O Mundo às Avessas , Saúde da Sociedade , Sociedade

A Câmara dos Deputados aprovou em plenário o PL 4148/2008, do deputado ruralista Luiz Carlos Heinze (PP/RS). Foram 320 votos a favor e 120 contra. O projeto prevê a não obrigatoriedade da rotulagem de alimentos que possuem ingredientes transgênicos.
O projeto ruralista é um atentado ao direito à informação da população e só beneficia as empresas de agronegócio que querem esconder a origem do produto comercializado. Além do mais, quanto mais transgênicos, mais agrotóxicos. E já consumimos 7,3 litros de venenos agrícolas.
Temos o direito de saber o que colocamos no nosso prato!
” – do site do MST

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Os deputados tem preço, a tua comida tem veneno.” – Henrique Sant´Anna

E a Câmara dos Deputados (competindo pau a pau com o Sensacionalista) mais uma vez decide tirar nossos direitos: dessa vez é para piorar a transparência (que está mais para opaca) com relação à informação sobre o que comemos.
A situação já não era legal e tende a piorar.
A solução é cada vez mais consumir alimento local (tendo contato direto com os produtores) e/ou produzir o que for capaz. Deixar de depender das grandes empresas que ditam as leis: essa é a verdadeira revolução.” – Álvaro Justen

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Há poucos dias, eu mesmo tinha avisado que, onde há fumaça, há fogo, em uma postagem na mídia social facebook:
Salgadinho de milho sem o logo do TRANSGÊNICO, no Brasil? Será? Difícil acreditar… Yoki alimentos… vamos conferir…
No outro dia vi também uma farofa de milho sem o logo. Já achei esquisito…
Efeito antecipado da quebra da lei solicitada pelo tristíssimo deputado Luiz Carlos Heinze, que até agora obriga as empresas a notificar quando seus produtos contém transgênicos na formulação?
” – Rafael Reinehr, em postagem do facebook

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A própria rotulação dos transgênicos, da forma que foi realizada, sem uma campanha mais ampla para toda a população, já estava sendo insuficiente. Um estudo demonstrou que a maior parte das pessoas nem sabia o que o triângulo amarelo com um T preto dentro significava:

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Enquanto isso nossos pseudorepresentantes da classe corja política continuam atendendo a seus próprios interesses e de seus financiadores. Alguns de nós, ainda acreditam no sistema e, tal qual gado, de tempos em tempos comparecem aos currais eleitorais para depositar seu voto de confiança.

Enquanto a resistência não se organiza de forma suficiente, através da criação de redes cada vez mais capilarizadas e interdependentes de produtores autônomos autogestionados fortalecidos por redes de comunicação e suporte como a Coolmeia, seguimos caminhando acorrentados a um modelo que drena boa parte da nossa energia e riqueza produzida para as mesmas famílias e seus asseclas.

Neste interim, ficam algumas SUGESTÕES:

1. Empresas conscientes, sustentáveis e éticas devem começar a rotular alimentos LIVRES DE TRANSGÊNICOS!

2. Criar uma Coalisão Nacional entre produtores orgânicos e Livres de Transgênicos e criar uma LISTA, a ser tornada pública, com alimentos definitivamente livres de transgênicos. Associações como a ABRANGE, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e a Campanha Nacional por um Brasil Livre de Transgênicos, entre outros, podem liderar esta coalisão.

3. Organizar Campanhas contínuas de conscientização ampla da população, para que a mudança seja através da informação e do contágio. Incluir professores de séries iniciais e educação básica para que o conhecimento seja retransmitido aos jovens desde cedo. Elaboração de cartilhas informativas, histórias em quadrinhos, memes para toda sorte de mídia a que estes jovens tem acesso, incluindo games e aplicativos para smartphones

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Sugestão de logomarca para produtos livres de transgênicos. Arte: Rico Silva

 

Finalizo com uma postagem do Coletivo Até o Talo, nos lembrando sobre o papel do Estado nesta triste situação:

Pra quem acha que o Estado tem qualquer preocupação com o bem estar e a saúde das pessoas, esse breve exemplo da realidade parece suficiente – essa instituição aposta na ignorância na qual mantém as pessoas para garantir as vendas das corporações transnacionais por cujos interesses se pauta.

Pra quem serve o Estado? Pra quem nele manda; pras grandes corporações, pros empresários, pra quem controla, distribui e detém os direitos sobre as sementes transgênicas e que fabrica os agrotóxicos que já éramos economicamente e por meio de pesadas campanhas publicitárias coagidos a comer e que agora, tendo o nosso direito à realidade negado, seremos enganados e obrigados a consumir.

O ônus de comprovar a procedência da sua produção não recai sobre as grandes empresas milionárias que envenenam o mundo e esgotam as terras mas, outra vez, sobre o pequeno produtor agroecológico que se vê cada vez mais prejudicado por um Estado que impõe selos e certificações caras e burocráticas no desejo de inviabilizar a pequena produção que respeita o meio ambiente e as pessoas.

O Estado é criminoso e não existe consenso ético na sua organização que leve em consideração a situação, as necessidades e a opinião das pessoas sob o seu controle. A própria existência do Estado se opõe à autonomia e autogestão dessas pessoas, porque depende que a hierarquia social e a exploração das terras, dos animais, das mulheres se mantenham. Depende da dependência inventada – forjada nas pessoas desde o seu nascimento – do seu controle. Depende do capitalismo e de um modo de produção que mata e esgota todo o tipo de vida e recursos para a vida todos os dias sem pensar duas vezes.

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Abr 28

Os Centros de Educação em Saúde (CES): uma proposta para melhorar a saúde da população brasileira

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

(texto publicado originalmente na edição de número 9 da Revista Doc)

Há aqueles que vivem em meio à abundância, promovendo a escassez. E há outros que, em meio à escassez, promovem a abundância.
Há muito, existem no Brasil condições materiais e humanas para levar à população educação suficiente para que esta possa, cada vez mais, tomar as rédeas de seus próprios cuidados básicos e intermediários em saúde, desafogando o sistema público e até mesmo privado de atenção à saúde.
O atual sistema, centrado no médico e em outros terapeutas exclusivamente enquanto ferramentas de diagnóstico e tratamento, basicamente reforça um conceito ultrapassado que promove a escassez do acesso à saúde, ao invés de promovê-lo.
Frente a esta percepção, se propõe aqui uma alternativa que possa aumentar substancialmente o atendimento de todas as camadas da população no que diz respeito à maior riqueza que se pode ter em relação aos cuidados com a saúde: o conhecimento.
Possuímos, todos, uma capacidade de autocura impressionante e, tanto nas doenças agudas como crônicas, a importância de reconhecer sintomas como autolimitados ou ameaçadores à vida pode fazer a diferença entre a cura e o controle da doença em tempo hábil ou a morte de um indivíduo.
Propõe-se aqui a criação, em todo país, de Centros de Educação em Saúde. Nestes espaços – que poderão ser criados em locais tão formais quanto uma Escola ou uma Unidade de Saúde, ou tão informais quanto embaixo de uma mangueira* – se oferecerá à população informações detalhadas acerca das patologias que a aflige.
Assim, se eu sou portador de Diabete Melito, me inscrevo no Curso de Diabete Melito, com duração de, digamos, 30 horas, que acontece a cada 2 ou 3 meses na Unidade de Saúde da Zona Norte, por exemplo. Se, ao contrário, eu tenho Diabete Insípido (uma enfermidade mais rara), e não houver nenhum curso sobre a mesma em minha cidade, poderei acessar a RIES (Rede Integrada de Educação em Saúde), um banco de dados composto pelos Cursos dados em todo o território nacional e poderei buscar a cidade e estado em que um curso sobre Diabete Insípido (ou outra doença de meu interesse) estará sendo ministrado nos próximos meses.
Na RIES, além da divulgação dos cursos presenciais, ficarão armazenados tanto os materiais didáticos de todos os CES, que serão disponibilizados como Recursos Educacionais Abertos (folders, cartilhas, folhetos explicativos, algoritmos, áudios e vídeos), sempre em linguagem acessível e de fácil compreensão.
Além de cursos focados em “patologias”, teríamos também cursos fixos, repetindo-se sazonalmente, com foco na manutenção da saúde: nutrição, atividade física de acordo com idade e condição de saúde, tratamento e prevenção da obesidade, controle de estresse, grupos de estudo em saúde (autogeridos) e assim por diante.
O aluno-paciente ou seu familiar sai do Centro de Educação em Saúde com conhecimento, jamais com uma receita médica…
É lamentável verificar esta tendência – e parece ser vedado falar sobre isso – mas nos dias de hoje, em linhas gerais, a indústria da medicina trata de guardar a sete chaves o conhecimento médico, mantendo tempos de consulta e contato com o paciente tão pequenos quanto sejam necessários apenas para detectar um ou outro sinal ou sintoma de alerta e ajustar as medicações de acordo. Muito pouco tempo é – relativamente – dedicado a esta poderosa ferramenta de saúde pública que é a Educação. Me perdoem os colegas que fazem parte da exceção à regra.
Ainda há tempo para mudar. E ainda há tempo para que sejamos, nós, os protagonistas dessa mudança. Em uma sociedade que a cada ano que passa se torna mais e mais aberta, transparente e consciente de seus desejos e necessidade, acabou-se o tempo para mordaças e processos educativos que mantenham as pessoas na ignorância. Chegou a hora de trazer a luz e a informação libertadoras, de forma ampla e irrestrita.
Chegou a hora de médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, dentistas e outros terapeutas juntarem suas forças em prol da saúde da população. E quem sabe, daqui a uma década, não possamos dizer que, juntos, mudamos de forma inovadora o rumo de uma nação, nos tornando exemplo em educação em saúde para o mundo inteiro.
E assim sigo, utopicamente medic(t)ando, imaginando que um outro mundo, melhor, é possível.

*em alusão a Tião Rocha, do CPCD (http://www.cpcd.org.br/)
Acompanhe o desenvolvimento do projeto dos Centros de Educação em Saúde em http://ces.reinehr.org

Abr 24

Retomando as atividades do blog

By rafaelreinehr | Efervescências , Novidades!

ipe_amareloDepois de um longo tempo de entressafra – ou poderíamos chamar de hibernação, ou pousio, termo que prefiro – estou voltando à carga com este blog, mantendo o nome original que utilizei tanto em uma série de escritos livres redigidos a partir de 2000 quanto no blog que iniciou em 14 de dezembro de 2003: Escrever Por Escrever

As postagens linkadas acima podem dar uma luz sobre o nome do blog. Mas não espere muita luz. Uma nesga, talvez.

O fato é que, depois de tanto tempo expressando-me “coletivamente”, através da Coolmeia, Ideias em Cooperação – depositei lá boa parte das minhas criações, do meu ímpeto, da minha energia, vontade, potência – decidi me posicionar como indivíduo novamente. Como criador, como autor, como ser singular que sou.

De forma alguma isso significa que abandono meus ideais coletivos, de convivialidade, solidariedade e busca de Bem Comum. Apenas significa que tenho uma verve e uma pulsão minha, que voltarei a expressar, sempre que isto for melhor do que apresentado para e em nome de um coletivo.

Nas primeiras semanas, estarei “requentando” uma série de escritos que andei publicando aqui e acolá nestes anos todos (no Simplicíssimo, n’O Pensador Selvagem, n’o Mutatis Mutandis, na Revista DOC, na Coolmeia e outros artigos escritos e nunca publicados. Entremeando este “revival”, artigos novos, fresquinhos, destilando um pouco das percepções que se construíram nos últimos anos e que, em muito, aperfeiçoaram (ou pelo menos “remoldaram”) minha visão de mundo.

Convido você, amici, a compartilhar desta jornada, adicionando, sempre que tiver vontade, suas impressões acerca dos assuntos abordados e, até, sugerindo pautas ou então participando como articulista convidado.

Novas seções e colunas irão surgir, algumas serão reativadas e a maioria ficará na história. Vez ou outra, no processo de revisar os artigos antigos, vou repostá-los para torná-los “vivos” mais uma vez, sempre que a seriedade, atualidade ou o humor fizerem com que esta vontade se faça premente.

Sem mais, seja bem-vindx ao Escrever Por Escrever. Sinta-se em casa. Críticas construtivas e sugestões serão sempre bem-vindas. Mau humor, trollagens e depreciações gratuitas, bem como discriminações de qualquer tipo serão sumariamente amputadas.

😉

[harmonia]
Abr 21

Viktor Frankl e O Sentido da Vida

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

Não é verdade que o homem, propriamente
e originalmente, aspira a ser feliz? Não foi o
próprio Kant quem reconheceu tal fato, apenas
acrescentando que o homem deve desejar ser
digno da felicidade? Diria eu que o homem
realmente quer, em derradeira instância, não
é a felicidade em si mesma, mas, antes, um
motivo para ser feliz

(Viktor Frankl)

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Viktor Frankl foi um psiquiatra austríaco que, durante a Segunda Guerra Mundial, passou por quatro campos de concentração, inclusive Auschwitz, sobreviveu e compartilhou suas experiências conosco, em um fabuloso livro chamado Man’s Search for Meaning (Em Busca de Sentido, no Brasil).

Neste livro Frankl afirma que  é uma orientação em direção ao futuro – em direção a uma tarefa, uma tarefa pessoal, que esteja nos aguardando para ser realizada no futuro; ou alguma outra pessoa que estejamos amando, a ser encontrada novamente, a se reunir conosco novamente no futuro – isto foi o que decisivamente manteve as pessoas vivas na experiência do campo.  A questão não foi apenas de sobrevivência, mas tinha que haver uma razão para a sobrevivência. A questão era sobreviver para quê; a não ser que houvesse alguma coisa ou alguém, uma causa pessoal pela qual viver, a sobrevivência era altamente improvável.

Aplicando este conceito para nossa vida rotineira, Frankl lembra que nossa sociedade de “bem-estar social” se propõe a satisfazer e gratificar cada uma das necessidades humanas, exceto uma delas – talvez a mais fundamental que exista no ser humano: a necessidade de um significado. As sociedades de consumo, estão até mesmo criando necessidades, mas a necessidade de significado – ou, como ele costuma dizer – o desejo de encontrar um significado – permanece inatingido.

E não é isso mesmo que percebemos ao nosso redor? Pessoas cada vez mais ansiosas, cada vez mais deprimidas, cada vez mais apressadas e, ao mesmo tempo, desprovidas de um norte essencial, ou, como diz Humberto Maturana, de um “sul” fundamental. Falta um sentido para organizar todas estas atividades. Ao final do dia, cansados, muitas vezes silenciamos as perguntas que nos martelam mesmo sem sentir: “Para quê”? “Para quem”?

Se conseguimos encontrar um sentido, um algo a ser realizado para si ou para alguém e se estamos cientes disso, então ficamos fortes e aptos a sofrer, a trabalhar, a nos sacrificar e prontos a enfrentar o estresse, a tensão e as dificuldades cotidianas, sem que, fazendo isso, estejamos pondo em risco nossa saúde. Por outro lado, se não conseguirmos perceber um significado para nossos esforços, todo e qualquer dispêndio de energia pode representar um peso insuportável, gerando infelicidade e, até, enfermidades.

Em uma entrevista, Frankl relembra: “Hans Selye, o homem que criou o conceito de stress, recentemente publicou um estudo em que ele diz que o stress é o sal da vida, que o homem necessita de tensões – eu diria de forma mais cautelosa que o que ele necessita é de uma quantidade saudável de tensão. Não tensões muito grandes, nem tensões muito pequenas, mas uma dose, uma dose saudável de tensão, tal como a tensão que se estabelece em um campo polar em que um pólo é representado por um homem e o outro pólo por um significado único e específico que esteja aguardando por ele para ser realizado, e exclusivamente por ele.”

Não é possível discutir Qualidade de Vida sem antes nos aventurarmos pela investigação do Sentido da Vida. Com a queda dos valores tradicionais e universais que nos diziam o que fazer – a Igreja passa a exercer um constrangimento cada vez menor, por exemplo – muitos deixaram de saber o que tem que ser feito ou o que deveria ser feito e, algumas vezes, até o que desejariam fazer. Como consequência,  acaba-se por fazer o que outras pessoas estão fazendo (conformismo) ou então fazendo apenas aquilo que outras pessoas querem que se faça (totalitarismo). É preciso identificar, em nós mesmos e em nossos pacientes, se nos encaixamos nesta ou naquela vertente e, mais importante, precisamos “sulear”, encontrar um sentido para nossa existência.

A partir daí, todos nossos diálogos, com o outro, com a sociedade e com a Natureza, deixam de ser vazios e repetitivos e passam a ser cheios de significado, significado esse produzido pela nossa singularidade, resultado do exercício genuíno da nossa característica mais valiosa: nossa humanidade.