Distúrbio Eletrônico – Critical Art Ensemble

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Ago 19

O termo que melhor descreve a condição social de hoje é liquidação. Os outrora inquestionáveis marcos de estabilidade, como Deus ou a natureza, caíram no buraco negro do ceticismo, dissolvendo a identificação fixa de sujeito ou objeto.

    Movimentar-se no tanque de poder líquido não precisa ser necessariamente um ato de aquiescência e cumplicidade. A despeito de sua situação difícil, o ativista político e o ativista cultural (anacronicamente conhecido como artista) ainda podem produzir distúrbios. Embora tal movimento possa assemelhar-se mais aos gestos de quem se afoga, e não esteja claro exatamente o que esta sendo perturbado, nesta situação o lance do dado pós-moderno favorece o ato de distúrbio. Para saber o que subverter seria preciso que as forças de opressão fossem estáveis e pudessem ser identificadas e separadas-uma hipótese demasiado fantástica em uma era de dialéticas em ruínas. Saber como subverter pressupõe uma compreensão da oposição que existe no domínio da certeza, ou (pelo menos) no da alta probabilidade.

PODER NÔMADE E RESISTÊNCIA CULTURAL

O termo que melhor descreve a condição social de hoje é liquidação. Os outrora inquestionáveis marcos de estabilidade, como Deus ou a natureza, caíram no buraco negro do ceticismo, dissolvendo a identificação fixa de sujeito ou objeto.

Movimentar-se no tanque de poder líquido não precisa ser necessariamente um ato de aquiescência e cumplicidade. A despeito de sua situação difícil, o ativista político e o ativista cultural (anacronicamente conhecido como artista) ainda podem produzir distúrbios. Embora tal movimento possa assemelhar-se mais aos gestos de quem se afoga, e não esteja claro exatamente o que esta sendo perturbado, nesta situação o lance do dado pós-moderno favorece o ato de distúrbio. Para saber o que subverter seria preciso que as forças de opressão fossem estáveis e pudessem ser identificadas e separadas-uma hipótese demasiado fantástica em uma era de dialéticas em ruínas. Saber como subverter pressupõe uma compreensão da oposição que existe no domínio da certeza, ou (pelo menos) no da alta probabilidade.

A velocidade com que as estratégias de subversão são cooptadas indica que a adaptabilidade do poder é muitas vezes subestimada. O modelo arcaico de poder nômade, outrora um meio para formar um império instável, evoluiu para um meio sustentável de dominação. Em um estado de duplo sentido, a sociedade contemporânea de nômades se torna tanto um campo difuso de poder sem localização quanto uma maquina de ver que aparece como espetáculo. A primeira prerrogativa abre caminho ao aparecimento da economia global, enquanto a segunda age como uma guarnição militar em vários territórios, mantendo a ordem da mercadoria com uma ideologia especifica a cada área.

Embora tanto o campo de poder difuso quanto a máquina de ver estejam integrados através da tecnologia, e sejam peças indispensáveis ao império global, foi o campo de poder difuso o que realizou plenamente o mito cita. A passagem de um espaço arcaico para uma rede eletrônica acrescenta um complemento às vantagens do poder nômade: os nômades militarizados sempre estão na ofensiva. A obscenidade do espetáculo e o terror da velocidade são seus companheiros fiéis.

Na maioria dos casos, populações sedentárias se submetem à obscenidade do espetáculo, e alegremente pagam o tributo que lhes é exigido sob a forma de trabalho, bens materiais e lucro. Primeiro mundo, terceiro mundo, nação, classes, raças e gêneros diferenciados e hierárquicos da sociedade sedentária moderna, todos se fundem sob o domínio nômade e passam a ter o papel de prestadores de serviços – zeladores da ciberelite. Esta divisão, mediada pelo espetáculo, oferece táticas que ultrapassam o modelo nômade arcaico. Em vez de uma pilhagem hostil de m adversário, tem lugar uma pilhagem amigável, conduzida de modo sedutor contra o passivo em êxtase. A hostilidade do oprimido é recanalizada para a burocracia, que desvia a antagonismo para longe do campo de poder nômade.

O refúgio na invisibilidade da não-localização impede que aqueles que foram pegos nos enquadramentos espaciais do panóptico 4 definam um local de resistência (um teatro de operações), ficando, pelo contrário, presos por uma fita adesiva aos monumentos do capital morto. (Direito ao aborto? Faça uma manifestação nas escadas da Suprema Corte. Para a liberação de drogas que retardam o desenvolvimento do HIV, invada o NIH 5.) A maior vantagem dos nômades resiste em não terem mais necessidade de manter uma posição defensiva. A elite nômade em si é frustrantemente difícil de aprender. Como se pode avaliar criticamente um objeto que não pode ser localizado, examinando ou sequer visto? A análise de classe chega a um ponto de exaustão. Subjetivamente há um sentimento de opressão, e no entanto é difícil localizar, quanto mais identificar, um opressor.

A ciberelite é hoje uma entidade transcendente que só pode ser imaginada. Não se sabe se unificaram objetivos programados. Talvez sim, ou talvez suas ações predatórias fragmentem sua solidariedade, deixando trilhas eletrônicas comuns e pilhas de informação como única base de unidade. A paranóia da imaginação é o fundamento para milhares de teorias conspiratórias-todas as quais são verdadeiras. Lancem os dados. Para o produtor cultural, vários exemplos de participação cínica povoam a paisagem da resistência. A experiência de Baudelaire vem à mente. Na Paris de 1848, ele lutou nas barricadas, guiado pela noção de que “a propriedade é um roubo”: contudo, voltou-se para o niilismo cínico depois do fracasso da revolução. (Baudelaire nunca conseguiu render-se totalmente. O seu emprego do plágio como estratégia colonial invertida evoca claramente a noção de que a propriedade é um roubo.) o projeto surrealista inicial de André Breton-que sintetizava a libertação do desejo com a libertação do trabalhador – se desfez diante da ascensão do fascismo. (As discussões pessoais de Breton com Louis Aragon sobre a função do artista enquanto agente revolucionário não devem ser ignoradas. Breton nunca conseguiu abandonar a idéia do eu poético como uma narrativa privilegiada.) Breton abraçou cada vez mais o misticismo na década de 30, e terminou se refugiando no transcendentalismo. A tendência do trabalhador cultural desiludido a recuar na direção da introspecção para evitar a questão iluminista: “O que deve ser feito da situação social à luz do poder sádico?”, é a representação da vida através da negação.

Não é que a libertação interior seja indispensável e desnecessária, mais sim que não pode se tornar singular ou privilegiada. Virar as costas à revolução da vida quotidiana, e colocar a resistência cultural sob a autoridade do eu poético, sempre levou à produção cultural que é mais fácil de coisificar e burocratizar. O surrealista que caiu no ostracismo, Georges Bataille, oferece uma opção que ainda não foi totalmente explorada: na vida quotidiana, em vez de confrontar a estética da atualidade, ataque pela retaguarda, por meio da economia irracional do perverso e do sacrificial. A chocante constatação feita por Artaud de que o corpo sem órgão havia aparecido, embora ele não pudesse ter certeza sobre o que isto poderia ser, limita-se à tragédia e ao apocalipse. Apesar de tudo, há um espaço decisivo para a comédia e o humor como meio de resistência. Talvez esta seja a maior contribuição da Internacional Situacionista à estética pós-moderna. O Nietzsche dançante está vivo.

Além do retrocesso estetizado, uma variedade mais sociológica atrai a resistência romântica – uma versão primitiva do desaparecimento nômade. Trata-se da retirada desiludida para áreas fixas que escapam à vigilância. Tipicamente, o recuo é para as áreas rurais que mais negam a cultura, ou para áreas urbanas desterritorializadas. O princípio básico é alcançar a autonomia escondendo-se da autoridade social.

Assim como a autoridade localizada nas ruas era combatida por meio de manifestações e barricadas, a autoridade que se localiza no campo eletrônico deve ser combatida através da resistência eletrônica.

A resistência ao poder nômade deve ser dar no ciberespaço e não no espaço físico. O jogador pós-moderno é um jogador eletrônico. Um pequeno mais coordenado grupo de hackers poderia introduzir vírus e bombas eletrônicas em bancos de dados, programas e redes de autoridade, colocando a força destrutiva da inércia contra o domínio nômade. A inércia prolongada se iguala ao colapso da autoridade nômade em nível global. Tal estratégia não requer uma opção unificada de classe, e nem uma ação simultânea em varias áreas geográficas. Os mesmos niilistas poderiam ressuscitar a estratégia de ocupação mantendo como reféns dados em vez de propriedades. O mais óbvio é que aqueles que se engajaram na ciberrealidade formam em geral um grupo despotilizado.

A maioria dos casos de infiltração no ciberespaço tem sido um simples vandalismo por diversão ou vingança pessoal contra uma fonte particular de autoridade. Aprimorando-se da autoridade legitimizada da “criação artística”, e usando-a como meio para estabelecer um fórum público para discutir modelos de resistência dentro da tecnocultura emergente, o produtor cultural pode contribuir para a perpétua luta contra o autoritarismo. Além disso, as estratégias concretas de comunicação por imagem /texto, desenvolvidas por uso de tecnologia que escapa pelas brechas da máquina de guerra, vão facilitar a criação de materiais explosivos para serem jogados nas casamatas político-econômicas por aqueles que se interessarem.

Cartazes, panfletagem, teatro de rua, arte pública – todos foram úteis no passado. Mas como mencionamos acima, onde esta o “público”, quem está na rua? A julgar pelo número de horas que uma pessoa comum assiste televisão, aparece que o público está envolvido com a eletrônica. O mundo eletrônico, no entanto, não esta de forma alguma totalmente estabelecido, e está ma hora de tirar vantagem desta fluidez através da criação. Antes que nos reste apenas a critica como arma.

A casamata nômade – o produto da “aldeia global”- tem tanto uma forma eletrônica quanto uma forma arquitetônica. A forma eletrônica é testemunhada como mídia, e como tal, tenta colonizar a residência particular. Distrações informativas fluem numa corrente incessante de infecções produzidas por Hollywood, pela Madison Avenue e pela CNN. Protegida na casamata eletrônica, uma vida de auto – experiência alienada (uma perda do social) pode prosseguir em tranqüila aquiescência e profunda privação. O espectador é levado ao mundo, o mundo ao espectador, tudo mediado pela ideologia da tela.

Da mesma forma que a casamata eletrônica, a casamata arquitetônica é outro local onde a hipervelocidade e a hiperinércia se cruzam. Casamatas como estas não estão restritas a fronteiras nacionais. Na verdade, abarca o mundo. Embora não possam se mover realmente pelo espaço físico, simulam a aparência de estarem em toda a parte ao mesmo tempo. A própria arquitetura pode variar consideravelmente, mesmo em termos de tipos específicos. No entanto, o logotipo ou o totem de um tipo especifico é universal, assim como seus artigos de consumo. De um modo geral, é a existência destas características redundantes que a torna tão sedutora. Durante a Contra-Reforma, quando a igreja Católica percebeu, no Concílio de Trento (1545-63), que a presença universal era uma chave para o poder na era da colonização, este tipo de casamata chegou à maioridade. O McDonald’s`’e global.

Existem também casamatas sedentárias. Este tipo é claramente de caráter nacional, sendo assim a casamata preferida dos governos.

Em alguns casos estas casamatas são o último vestígio do poder nacional centralizado (a Casa Branca). Em outros casos são os locais onde se forja uma elite cultural cúmplice (a universalidade), ou ainda locais da continuidade fabricada (monumentos históricos). O jogo pós-moderno consiste no incitamento ao pânico em toda a parte.

4- Idealizado pelo inglês Jeremy Bentham (1748-1832) no fim do século XVIII, o panóptico era um modelo de prisão cuja arquitetura permitia que os guardas vigiassem os detentos sem ser vistos. Com o tempo, passou a designar qualquer estrutura de controle onde o pode ser identificado. (N. E).

VÍDEO E RESISTÊNCIA:

CONTRA DOCUMENTÁRTIOS

A diminuição da factualidade do objeto sensível devido aos elementos subjetivos da memória e a insuficiência da representação escrita como meio de preservar a história fizeram com que o problema posto pela memória fosse transformado em um problema posto pela memória fosse transformado em um problema tecnológico. Este problema finalmente ficou resolvido com a invenção da fotografia. A fotografia podia fornecer um registro visual concreto (a visão sendo o mais fidedigno dos sentidos), como uma descrição do passado. Ela representava fatos em vez de subjetivamente dissolvê-los na memória, ou abstraí-los como na escrita. Enfim passou a existir algo que fizesse réplicas visuais, produzindo deste modo um registro desvinculado da testemunha. A apresentação visual de dados factuais permitia que se testemunhasse objetivamente a injustiça da historia, fornecendo aos que foram eliminados do registro histórico um modo de tornar conhecido seu lugar. Robert Flaherty introduziu no documentário a narrativa complexa, em seu filme Nanook of the North.Este filme era marcado por uma gramática cinematográfica ultracodificada, que abstrusamente gerava uma historia a partir de pretensos fatos brutos. Os abismos entre as discrepantes imagens representadas tinham de ser juntados pela cola da ideologia romântica, a preferida pelo cineasta. Isto era inevitável, uma vez que não havia fatos para o começo da conversa, mas apenas lembranças reconstituídas. O desejo de Flaherty de produzir o exótico levou-o a simular um passado que nunca existiu. Na seqüência mais famosa do filme, Flaherty recria uma caçada à morsa. Nanook nunca tinha estado em uma caçada sem armas de fogo, mais Flaherty insistiu que ele usasse arpões. Nanook se lembrava de que seu pai tinha lhe contado sobre a tradição da caça, e tinha visto antigos desenhos esquimós destas caçadas. A partir dessas lembranças, mescladas com os conceitos românticos de Flaherty, a caçada à morsa foi reencenada. O resultado foi uma representação de uma representação sob o pretexto de uma originalidade inalcançável. O filme não é hoje, nem jamais foi, a tecnologia da verdade. Mente a uma velocidade de vinte e quatro quadros por segundo. Seu valor não esta em registrar a historia, mas apenas em ser um meio de comunicação, um meio pelo qual é gerado significado. Sem o principio cientifico da causalidade estruturando rigorosamente a narrativa, a autoridade do documentário rapidamente se dissipa, revelando sua verdadeira natureza de propaganda ficcional. O documentário de qualidade não se revela, e é essa trapaça ilusionista – aperfeiçoada pela primeira vez pelo realismo hollywodiano – que infelizmente guia a grande, maioria dos documentários e obras testemunhais em vídeo que trabalhadores culturais da esquerda produzem hoje em torrentes infindáveis.

Esta exibição deplorável é particularmente insidiosa porque transforma os trabalhadores culturais da esquerda naquilo que eles mais temem: legitimadores da matriz interpretativa conservadora. Se o principio fundamental da política conservadora é manter a ordem em prol da elite econômica e desencorajar a heterogeneidade social, então o documentário, em sua forma atual é cúmplice desta ordem, mesmo se levanta a bandeira da justiça social sobre sua fortaleza ideológica. Isto é assim porque o documentário não cria uma oportunidade para o livre-pensamento, mas instila autocensura no espectador, que deve absorver suas imagens dentro da estrutura de uma narrativa totalizante. Para parar com essa manipulação, os documentaristas devem se recusar a sacrificar a subjetividade do espectador. É necessário abandonar a suposição de que a imagem contém e revela uma fidelidade em relação a seu referente. Isso por sua vez significa que não se pode usar o código da causalidade como instrumento para construir a continuidade da imagem. De preferência, deve-se usar estruturas associativas fluidas que convidem a várias interpretações. De fato, todos os sistemas de geração de imagens são mediados pelo espectador: a questão é a que grau. Poucos sistemas são um convite à interpretação, e por conseguinte o significado é mais freqüente imposto do que criado. O momento de confusão é a precondição para o ceticismo necessário ao surgimento do pensamento radical. O vídeo associativo é, por sua própria natureza, recombinante. Ele agrupa e reagrupa imagens culturais fragmentadas, permitindo que os significados gerados vagueiem sem limites pela grade de possibilidades culturais. Para os produtores de resistência, o vídeo recombinante não oferece nenhuma solução. Pelo contrário, atua como base de dados para que o espectador tire suas próprias conclusões. Esse aspecto do filme recombinante pressupõe um desejo por parte do espectador de assumir o controle da matriz interpretativa e de construir seus próprios significados. Não se deve forçar um ponto de vista particular com propósitos pedagógicos. O que é mais lamentável é que obras como essas são freqüentemente vistas como elitistas, porque o uso que fazem da estética da confusão no presente não atrai o apoio popular.

O TEATRO RECOMBINANTE E A MATRIZ PERFORMATIVA

Essa estranha intuição talvez mostre a percepção de que, na medida em que uma representação do eu se expande, a matriz performática fica atravancada com personas simuladas que podem usurpar o papel da auto – representação orgânica.

O corpo como representação renuncia à sua soberania, deixando a imagem do corpo disponível para apropriação e para seu restabelecimento em redes de símbolos distintas daquelas do mundo real. De um ponto de vista contemporâneo, isso não é necessariamente negativo, já que sugere a possibilidade e o nosso papel, para que desse modo se ajustem melhor aos nossos desejos. À luz dessa possibilidade, deveríamos renunciar a noções essencialistas do eu, da personalidade e do corpo, e assumir papéis dentro da grade dramatúrgica da vida quotidiana. Entretanto, há sempre uma inquietação que acompanha essa possibilidade utópica. Essa ansiedade não vem tanto da curiosa não – posição criada pela ausência de qualidades fixas, mas sim pelo medo de que o poder da reinvenção se encontre em outra parte. Sente-se que forcas externas hostis, e não forcas automotivas, estão nos construindo enquanto indivíduos.

Esse problema se torna cada vez mais complexo na tecnocultura, onde as pessoas se encontram em teatros virtuais alheios à vida quotidiana, mas que têm um tremendo impacto sobre ela. Representações abstratas do eu e do corpo, separadas do indivíduo, estão simultaneamente presentes em vários locais, interagindo e recombinando com outras, alem do controle do individuo e freqüentemente em seu detrimento. Para o artista critico, explorar e examinar as perambulações e manipulações dos vários dopplegänger (1) eletrônicos dentro dos muitos teatros do virtual, deveria ser fundamental.

Considere o seguinte cenário: uma pessoa (P) entra em um banco pensando em conseguir um empréstimo. De acordo com a estrutura dramatúrgica dessa situação, é necessário que a pessoa se apresente como uma candidata a empréstimo responsável e confiável. Sendo uma boa atriz, e sentido-se a vontade no papel. P se vestiu adequadamente colocando roupas e jóias que indicam um bom nível econômico. P segue adequadamente os procedimentos para pedido de empréstimo, e utiliza boas técnicas de montagem, com os apertos de mão adequados, levantando-se e sentando-se de acordo com as expectativas sociais e assim por diante. Além disso, P preparou e memorizou um roteiro bem escrito que explica totalmente sua necessidade de um empréstimo, assim como sua capacidade de pagá-lo. Por mais cuidadosa que P seja em se ajustar aos códigos da situação, logo fica claro que sua performance em si não é suficiente para garantir o empréstimo. Tudo o que P conseguiu com a performance foi convencer o funcionário a entrevistar seu duplo eletrônico.

O funcionário levanta seu histórico financeiro no computador. É esse corpo, um corpo de dados, que agora controla o palco. Ele é, a verdade, o único corpo que interessa ao funcionário. O duplo eletrônico de P revela que ela atrasou o pagamento de empréstimos no passado, e que está envolvida numa disputa financeira com outro banco. O empréstimo é negado: fim da performance.

Esse cenário poderia facilmente ter tido um final feliz, mas sua importância real é mostrar que a performance orgânica era basicamente redundante. A realidade da pretendente era duvidosa. Sua imagem abstrata na forma de dados financeiros determinou o resultado da performance. A estrutura do palco, representada pela arquitetura do banco, foi consumida pelo teatro virtual. O palco da superfície da tela, apoiado pelos bastidores constituídos de bancos de dados e internets, mantém um privilégio ontológico em relação ao teatro da vida quotidiana. As ondas infindáveis de autoperformance, que se manifestam como recordações nostálgicas do passado, quando a matriz performativa era centrada na vida quotidiana e focalizada em atores orgânicos. Como obra de resistência cultural, a intenção subversiva da autoperformace aparece em sua tentativa fútil de restabelecer o sujeito no palco arquitetônico. Como a maior parte do teatro restauracionista, sua causa nasceu morta. Por mais que pareça chocante, o pessoal não é político na cultura recombinante.

  1. Em alemão, “sósia”, “duplicata”, igual”.(N.E)

  2. O Living Theater foi um grupo de teatro experimental fundado por Julian Beck e Judith Malina em 1951, em Nova York. (N.E)

Espasmos da Língua

A boca fragmenta o corpo. O que sobra? Uma estreita constipação, um violento significado que faz do vômito razão. A grotesca colonização da cavidade oral rumina o corpo silenciado e cospe uma bestialidade de sinais. O que sobra? Espasmos.

O olho tem um espasmo diante da língua virtual, cegando a dominante necessidade de apropriação. O que resta depois que o sistema digere tudo? Uma língua nômade surfando as ondas de suas secreções digitais. Um canibalismo pós-biológico que redelimita o corpo. O que sobra?

O mamilo é a matriz de uma causa perdida, uma nostalgia de uma pluralidade de redes na qual um é pouco e dois é apenas uma possibilidade. O que sobra? Quando as línguas da tela se fendem e sugam a chupeta de ideologias irreais e referentes irreais, o câncer da tecnodemocracia se revela. Os mamilos decretam a paixão eletrônica de duplos diacrônicos que tornam indistintos o desejo e o trabalho.

O espasmo de bytes digitais legitima a violência da informação. Tanto a mão esquerda quanto a direita são levadas pelo ritual da representação e do sacrifício ante o teclado da velocidade dromográfica. O que sobra? Mãos hiper-reais, máquinas de desejo sociologicamente inconscientes, sempre já possuídas. O que sobra?

O novo teatro deveria dizer ao espectador como resistir à autoridade, independentemente da sua identidade política. Se buscamos a libertação através do controle de nossas próprias imagens, a performance deveria ilustrar os processos de resistência e mostrar explicitamente como alcançar a autonomia, por mais temporária que ela pudesse ser.

Na imagem eletrônica pode-se detectar os sinais mais claros da ciberelite, mas o mais importante é que essa imagem também é a fonte que redistribui identidades e estilos de vida para sobreconsumo. Essa nova relação social entre o corpo eletrônico (o corpo sem órgãos) e o corpo orgânico é um dos melhores recursos de material performático.

Existem todos os motivos para se desejar um corpo eletrônico, e todos os motivos para desprezá-lo. Essa luta patológica ocorre quando se vê o corpo eletrônico. Resultado na implosão de sentimentos de atração (Husserl) e inveja (Benjamin) em um instante esquizofrênico.

Como afirma Baudrillard: “a despeito de si mesmo, o esquizofrênico está aberto a tudo e vive na mais estrema confusão. O esquizofrênico não se caracteriza, como geralmente se afirma, por sua perda de contato com a realidade, mas por uma absoluta proximidade e total instantaneidade com as coisas, uma superexposição à transparência do mundo”.

Nos destroços da intersubjetividade, o orgânico e o eletrônico ficam face a face. O corpo eletrônico parece muito real. Ele se move, responde ao olhar, se comunica. Sua aparência é a nossa aparência. A identidade se manifesta e é reforçada, na medida em que a subjetividade é extraída/imposta pelo outro eletrônico.

Como pode tal percepção não levar a uma resposta positivista? No entanto, nesse mesmo instante de unidade surge um sentimento abrasador de separação nascido da inveja. A identidade do corpo eletrônico não é a nossa. Devemos eternamente consumir algo para tornar nossa aparência mais próxima da sua. O desejo por maior acesso aos símbolos de beleza, saúde e inteligência, através do incessante acúmulo de artefatos culturais, brutalmente nos lembra que a perfeição do corpo eletrônico não é a nossa. As limitações do orgânico são abundantes, e o que é alcançado se torna vulgar e desnecessário no momento da realização. A revolução dialética acabou. A celebridade é o nome que comumente se dá ao fenômeno da posse da carne pelo Cs0. é de se espantar que a celebridades sejam perseguidas em busca de autógrafos ou de quaisquer outros artefatos que possam agir como um consolo para aqueles que desejam as garantias da ordem pré-eletrônica? A performance do hacker politizado deve ser a última palavra em resistência performática. O pobre e patético corpo orgânico esta sempre num estado de devir. Se consumisse só mais um produto, talvez pudesse se tornar inteiro, talvez também pudesse se tornar um corpo sem órgãos existindo no espaço eletrônico. É insensato esperar ate que a realidade virtual tenha a decoração de um teatro clássico – teatro no qual o ator e o espectador podem entrar fisicamente e que é envolvido por ambientes (eletrônicos) artificiais. Como dissemos antes, os atores da resistência devem estabelecer palcos recombinantes interligados, que oscilem entre o teatro da vida quotidiana e o teatro virtual.

PLÁGIO UTÓPICO. HIPERTEXTUALIDADE E PRODUÇÃO CULTURAL ELETRÔNICA

Numa sociedade dominada por uma explosão de “conhecimentos”, explorar as possibilidades de significados naquilo que já existe é mais premente do que acrescentar informações redundantes (mesmo quando produzidas por meio da metodologia e da metafísica do “original”).

O plagio historicamente se colocou contra o privilégio de qualquer texto fundado em mitos espirituais, científicos ou quaisquer outros mitos legitimadores. O plagiador sempre vê todos os objetivos como iguais, e assim horizontaliza o plano do fenômeno. Todos os textos se tornam potencialmente utilizáveis e reutilizáveis. Aqui temos uma epistemologia da anarquia, de acordo com a qual o plagiador sustenta que se a ciência, a religião ou qualquer outra instituição social impossibilita a certeza além do domínio do privado, então é melhor dotar a consciência de tantas categorias de interpretação quanto possível.

Durante a Guerra Civil Americana, Lincoln ficava sentado pacientemente junto ao telégrafo esperando os relatórios de seus generais no front. Ele não tinha paciência com a retórica prolixa do passado, e exigia de seus generais uma economia eficaz de linguagem. Não havia tempo para as firulas tradicionais de um ensaísta elegante. A velocidade cultural e a informação continuaram a crescer a uma taxa geométrica desde então, resultando em um pânico informativo. A produção e a distribuição da informação (ou de qualquer outro produto) devem ser imediatas: não pode haver lapso de tempo entre as duas. A tecnocultura cumpriu essa exigência com bases de dados e redes eletrônicas que rapidamente deslocam qualquer tipo de informação. O gênio de um inventor como Leonardo da Vinci residia em sua capacidade de recombinar os sistemas ate então separados, da biologia, matemática, engenharia e arte. Ele era mais um sintetizador do que um criador. Existiram poucas pessoas como ele porque a habilidade de reter tantos dados em uma única memória biológica é rara. Agora, no entanto, a tecnologia da recombinação está disponível no computador. Por volta de 1960, quando começou a estudar programação de computadores na faculdade, Theodor Nelson percebeu:

A idéia de Nelson, que ele chamou de hipertexto, infelizmente, a convenção da leitura e escrita linear, assim como o fato físico da bidimensionalidade das paginas e a necessidade de costurá-las em uma única seqüência possível, sempre limitou o verdadeiro potencial desse tipo de texto. Um dos problemas é que o leitor é frequentemente forçado a procurar por todo o texto (ou forçando a largar o livro e ir procurar em outro lugar) informações a fins. Esse é um processo confuso e que consome tempo: em vez de ser capaz de se movimentar com facilidade e instantaneamente entre áreas de armazenamento de informação fisicamente remotas ou inacessíveis, o leitor tem que enfrentar obstáculos físicos incômodos a sua pesquisa ou trabalho criativo. Com o advento do hipertexto, tornou-se possível a movimentação em meio a áreas correlatas de informação com uma velocidade e uma flexibilidade que ao menos chegam perto de finalmente se adaptarem ao funcionamento do intelecto humano, a um grau que livros e leituras seqüenciais não poderiam permitir.

Barthes e Foucault podem ser louvados por terem teorizado a morte do autor. Contudo a ausência de autor é mais uma questão da vida quotidiana para a tecnocrata que recombina e acrescenta informações no computador ou no console de edição de vídeo. Ele está vivendo o sonho do capitalismo que ainda está sendo refinado na área da produção industrial.

A noção japonesa de “entrega justin-in-time” onde as peças são entregues na linha de montagem exatamente na hora em que são necessárias, foi um primeiro passo para modernizar os trabalhos de montagem. Em tal sistema, não há capital sedentário, mas um fluxo constante de matérias-primas. A mercadoria montada é entregue ao distribuidor exatamente no momento em que o consumidor necessita. Esse sistema nômade elimina a estocagem de produtos. (Ainda resta algum tempo morto. No entanto, os japoneses o diminuíram para uma questão de minutos.) Dessa forma, produção, distribuição e consumo são implodidos em um único ato, sem inicio nem fim, apenas circulação ininterrupta. Da mesma maneira, o texto on line flui em uma corrente ininterrupta pela rede eletrônica. Não pode haver lugar para lapsos que criem unidades descontínuas na sociedade da velocidade. Conseqüências, noções de origem não tem lugar na realidade eletrônica. A produção do texto pressupõe sua distribuição, seu consumo e sua revisão imediatos. Todos que participam da rede também participam da interpretação e da mutação da corrente textual. O conceito de autor não morreu exatamente, é mais uma questão de ter simplesmente cessado de funcionar. O autor se tornou um agrupamento abstrato que não pode ser reduzido à biologia ou à psicologia da personalidade. De fato, tal desenvolvimento tem conotações apocalípticas – o medo de que a humanidade se perca no fluxo textual. Talvez os seres humanos não sejam capazes de participar na hipervelocidade. Deve-se responder que nunca existiu uma época em que os humanos fossem capazes, todos, de participarem da produção cultural. Agora pelo menos o potencial para uma democracia cultural é maior. O singular biogênico não precisa servir de duble para toda a humanidade. A verdadeira preocupação é exatamente a mesma de sempre: a necessidade de acesso aos recursos culturais.

As descobertas da arte e da critica pós-modernos concernentes a estruturas analógicas das imagens demonstram que, quando dois objetos são colocados juntos, não importa quão distantes possam ser seus contextos, forma-se uma relação. Restringir-se a uma única de duas expressões independentes suplanta os elementos originais e produz uma organização sintética de mais amplas possibilidades. (C, vide notas, p.113)

O livro absolutamente não desapareceu. A industria do livro continua a resistir à emergência do texto recombinante, e se apõe a aumentos na velocidade cultural. Colocou-se na lacuna entre a produção e o consumo de textos, a qual por motivos de sobrevivência esta constrangida a manter. Se for permitido que a velocidade aumente, o livro está fadado a desaparecer, junto com a pintura e a escultura. Seus companheiros da renascença. É por isso que a industria tem tanto medo do texto recombinante. O texto recombinante fecha a lacuna entre a produção e o consumo, e abre a industria para aqueles que não são celebridade literárias. Se a industria for incapaz de diferenciar seus produtos através do espetáculo da originalidade e unidade, sua lucratividade será ameaçada. Consequentemente, a indústria caminha com dificuldade, levando anos para publicar informações imediatas necessárias.

No entanto há uma peculiar ironia nessa situação. A fim de diminuir a velocidade, ela deve também participar da velocidade em sua forma mais intensa, a do espetáculo. Ela deve declarar que defende “a qualidade e os padrões”, e tem de inventar celebridades. Essas ações exigem a instantaneidade da propaganda – ou seja, a total participação nos simulacros que serão a destruição da própria industria.

Daí que para o burocrata, de uma perspectiva quotidiana, o autor vai muito bem, obrigado. Ele pode ser visto e tocado, e sinais de sua existência estão nas capas dos livros e revistas em toda a parte, sob a forma da assinatura. Contra tais provas, a teoria só pode responder com a máxima de que o significado de qualquer texto tem sua origem exclusivamente em sua relação com outros textos. Tais textos dependem dos que vieram antes deles, do contexto no qual estão colocados e da habilidade interpretativa do leitor. Esse argumento, é claro, não convence os segmentos sociais presos no atraso cultural. Enquanto for este o caso, nenhuma legitimação histórica reconhecida apoiará os produtores dos textos recombinantes, que sempre serão suspeitos aos olhos dos mantenedores da “alta” cultura.

FRAGMENTOS SOBRE O PROBLEMA DO TEMPO

Dada um dos objetivos –chaves para o trabalhador cultural da resistência é perturbar a solidificação da nova ideologia antes que ela se torne uma ordem simbólica de uma tirania ainda maior do que a existe, e recanalizar a fusão do hardware (vídeo, telefone, e computador) para uma forma descentralizada acessível a outros além da elite do poder. Não é realmente possível diferenciar entre ficção e historia em um período de sobrecarga de informações. A avalanche perpétua de informações não aclarou a situação corrente, pelo contrario, confundiu-a, deixando os autrora seguros binários da dialética em ruínas. A historia não existe mais: apenas a reflexão especulativa perdura no que é agora o fractal do tempo. Quanto maior a velocidade, maior a intensidade da fragmentação. Mudanças na ideologia são muito lentas, visto que em seu sentido mais grandioso a ideologia consiste de grandes narrativas que dão a ilusão de estabilidade e segurança necessárias para tornar a vida quotidiana inteligível. Há uma peculiar contradição entre a ideologia econômica e a ideologia “moral”, já que esta última pode agir como resistência à primeira. Muitas das grandes narrativas bíblicas, por exemplo, estão em desacordo com o valor da velocidade tão essencial ao setor em desacordo com o valor da velocidade tão essencial ao setor econômico. A solução para essa contradição é encontrada no setor político. Sua função é mediar as contradições. Como exemplo, a grande narrativa do Estado do bem-estar social tem sido um ponto-chave da inércia nos Estados Unidos. A idéia de que se deve dar aos pobres uma segunda chance, cuidar dos doentes e educar os ignorantes é diametralmente oposta á construção e manutenção da economia burguesa. O papel do governo nesse conflito é manter uma ordem simbólica que leve à percepção de que o Estado do bem-estar social. Isso pode ser feito, por exemplo, sugerindo pequenos aumentos no salário mínimo ao mesmo tempo em que se assina acordos de livre comércio com países do Terceiro Mundo que permitem a colonização irrestrita de suas fontes de mão-de-obra. O universo de vida dos indivíduos da classe tecnocrática indubitavelmente forma um enorme contraste com o dos indivíduos da classe trabalhadora, em parte por causa das enormes diferenças na tecnologia de produção. Enquanto a primeira classe trabalha em um meio eletrônico que está em constante transformação, a segunda ainda procede de acordo com um modelo de produção que na melhor das hipóteses ingressou na zona de tempo da tecnologia mecânica pós-industrial. Em termos de lazer mediado, as duas podem compartilhar uma zona de tempo semelhante, já que ambas têm acesso à televisão, embora isso seja muito mais um subproduto do espectro do mercado que intercepta todas as zonas de tempo. A própria vida quotidiana se torna um definido caminho através de determinados segmentos da historia sem jamais sair do presente.

O que deve ficar claro desta discussão é que não existe um presente histórico monolítico. O presente foi estilhaçado em milhares de cacos, todos os quais requerem distintas estratégias de resistência. Agora, mais do que nunca, deve adotar uma epistemologia anarquista, uma epistemologia que leve a um conhecimento de cada circunstância. Deve ser uma epistemologia que permita a pesquisa e exploração em qualquer zona de tempo ou zona segura de uma única casamata. Quem for capaz deve estar livre para se mover através do tempo, utilizando-se de quaisquer meios necessários.

A questão não deve ser quem é culpado, já que isso pressupõe que haja indivíduos com autonomia total em relação às instituições sociais. De preferência, a questão deve ser: quais são os mecanismos institucionais que promovem a situação corrente? Macroestruturas, em grande parte, são independentes de ação individual. A associação de macroestruturas, frequentemente denominada máquina de guerra pela cultura da resistência, não esta sob controle de um grupo de pessoas, nem é controlada por um aglomerado de Estados-nação. A razão de ser tão temida é justamente porque ela esta fora de controle. Ela não pode ser desligada, mesmo quando algumas de suas utilidades para a cultura dominante tenham cessado. Localizar sua fonte de vida é mais complicado do que dizer que ela está na psique de homens brancos heterossexuais, ou de qualquer outra fonte construída apenas em torno do conceito de capacidade de ação. Esta é uma redução absurda que só faz desviar as energias para debates reformistas quase inconseqüentes, na medida em que não irão mudar a estrutura ou a dinâmica da maquina de guerra. Uma quantidade avassaladora de obras eletrônicas aborda questões de identidade, catástrofes ambientais, guerra e paz e todas as outras questões geralmente associadas à representação ativista.

Um exame da própria tecnocultura ainda está para ser feito. Quando tal investigação ensaia ser feita, acaba sempre se encaixando em narrativas ativistas mais tradicionais. Como era de se esperar, uma grande parte das obras é sobre a desinformação da mídia – a investigação eletrônica da realidade – e elas sempre estão ligadas a argumentos persuasivos que tentam convencer o espectador a seguir uma interpretação alternativa de um dado fenômeno específico “do modo real”. Os ativistas não mostram nenhum interesse particular em questionar a cibernética da vida quotidiana, a fenomenologia da superfície da tela, a construção da identidade eletrônica, e assim por diante.

Foi exatamente o oposto o que ocorreu no desenvolvimento do vídeo-televisão. Embora o hardware para a produção esteja começando a ficar descentralizado, a rede de distribuição é quase que totalmente centralizada, com poucos indícios de que essa tendência esteja mudando.

Deve-se resistir a esse estado de coisas: não se pode permitir que a ideologia que sanciona o controle das faixas de freqüência por uma elite da classe capitalista domine toda a tecnologia. Os trabalhadores culturais devem lutar pela descentralização do acesso a redes eletrônicas.

Há um fator imprevisível nessa situação. O computador poderia seguir qualquer um dos dois caminhos. Os acessos a hardware, educação e redes estão atualmente sendo descentralizados. Diferentemente do telefone e da televisão, os computadores ainda não penetram a vida quotidiana de quase nenhuma das classes. Essa tecnologia primariamente de elite fincou uma raiz profunda na classe burocrática. A classe de serviços eletrônicos esta crescendo, mas ainda está longe de se universalizar.

Por isso, aqueles que estão em zonas de tempo atrasadas vêem os computadores como uma tecnologia importante. Essa visão prejudica a resistência à centralização dos sistemas de comunicação, já que tal diferença permite que a elite capitalista imponha princípios de auto – regulamentação e exclusão à tecnologia sem ter de prestar contas ao público. A tecnologia é perdida antes que o público nem sequer tenha consciência de suas ramificações.

Uma das funções críticas essenciais dos trabalhadores culturais é inventar meios estéticos e intelectuais de comunicar e distribuir idéias. Se a elite nômade controlar totalmente as linhas de comunicação, os trabalhadores culturais da resistência ficarão sem voz, sem função, sem nada. Se é para ter voz, os trabalhadores culturais devem consolidar e ampliar seu atual grau de autonomia no espaço eletrônico.

Existe um lado mais otimista. O vinculo do computador com o computador e o telefone é muito maior do que com a televisão. Na verdade, o computador e o telefone irão provavelmente usar sistemas a cabo. Se a visão da descentralização puder ser mantida, redes de fibra ótica irão proporcionar o espaço eletrônico democrático que há tanto tempo tem sido um sonho. Cada lar poderia se tornar seu próprio estúdio de transmissão. Isso não significa que a transmissão em rede vá entrar em colapso, u que haverá acesso livre a bancos de dados: mas significa que existirá um método barato de distribuir globalmente produções populares complexas e redes alternativas de informações contendo imagens, textos e sons baseados no tempo – tudo acessível sem necessidade burocrática. Será tão fácil quanto dar um telefonema.

PARADOXOS E CONTRADIÇÕES

Esse tipo de escolha entre duas opções não pode escapar de contradições lógicas (paradoxo de Gödel (2)) é pressuposto que se deve resistir à transferência do poder do individuo para o Estado. A resistência em si é a ação que recupera ou expande a soberania do indivíduo. Ou, o que dá no mesmo, é aquela ação que enfraquece o Estado. Portanto, a resistência pode ser vista como uma questão de grau: uma destruição total do sistema não é a única opção, e pode nem mesmo ser uma opção viável.

Ao longo deste Trabalho, duas questões aparentemente contraditórias foram apontadas: a situação atual é parcialmente caracterizada por uma sobrecarga de informações, e ao mesmo tempo pelo acesso insuficiente à informação. Como podem ocorrer ambas ao mesmo tempo? Este é um problema de ausência e presença – a presença de uma sobrecarga de informações sob a forma de espetáculo (presença) que rouba soberania, e uma ausência de informação que devolve a soberania ao indivíduo. De fato, informações para o consumismo e ideologia governamental são abundantes. Bancos de dados estão cheios de fatos inúteis, mas como se pode ter acesso a informações que afetam diretamente a vida quotidiana?

O corpo de dados de um indivíduo esta totalmente fora de seu controle. Informações sobre padrões de consumo, associações políticas, históricos de credito, cadastros bancários, educação, estilos de vida e por aí em diante são coletadas e cruzadas por instituições político – econômicas para controlar nossos destinos, desejos e necessidades. Finalmente, onde está a rede que permite que demandas de massa sejam expressas? Simplesmente não existe.

Esse é um caso peculiar de censura. Em vez de parar o fluxo de informações, gera-se muito mais do que pode ser digerido. A estratégia é tornar secreta ou privatizar todas as informações que poderiam ser usadas pelo indivíduo para seu autofortalecimento, e enterrar as informações úteis sob montanhas de dados inúteis e propaganda que são oferecidos ao público. Em vez do tradicional ocultamento de informações (blackout), enfrentamos uma tempestade de informações (whiteout). Isso força o individuo a depender de uma autoridade que o ajuste a priorizar a informação a ser selecionada. Este é o fundamento da catástrofe de informações, uma reciclagem interminável da soberania que a leva de volta ao Estado sob o pretexto da liberdade de informação. O problema que investigamos é: como a descentralização tecnológica poderá devolver a soberania ao individuo em vez de retirá-la? Grande parte da resposta está vinculada à tecnologia ser aceita como um meio passivo de consumo ou como um meio ativo de produção. Como um número suficiente destas células agindo – mesmo se seus pontos de vista divergem – pode-se apostar que uma corrente social de resistência emergirá… Uma corrente que não será fácil desviar, encontrar ou monitorar. Dessa maneira, pessoas com pontos de vista diferentes e especialidades diferentes podem trabalhar em uníssono, sem concessões e sem a renuncia da individualidade em prol de um agrupamento centralizado.

2. Kurt Gödel (1906-1978), matemático austríaco. O paradoxo de Gödel estabelece que dentro de qualquer sistema matemático lógico rígido existem proposições que não podem ser provadas falsas a partir dos axiomas do próprio sistema (N. E).

 

 Os trechos acima foram extraídos do livro Distúrbio Eletrônico, do Critical Art Ensemble, na versão traduzida por Leila Souza Mendes para o Coletivo Baderna, publicado pela Editora Conrad.