Futuro Primitivo – John Zerzan e o Anarquismo Primitivista

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Jan 29

Em Futuro Primitivo, John Zerzan nos introduz à base do que pode ser considerado  o Anarquismo Primitivista, uma argumentação a favor não de um retrocesso aos tempos primitivos, mas a uma valorização das culturas paleolíticas no que tinham de melhor: autogestão, noção de igualdade, ausência de violência, generosidade, respeito à individualidade e à autonomia pessoal, o sentido democrático e a proteção mútua.

É muito importante salientar, no texto abaixo, as noções de cultura simbólica e uma inversão da lógica na qual se imagina que a criação de cada vez mais tecnologia seja a responsável por liberar o homem da escravidão do trabalho, como poderia se supor. Na verdade o que vemos hoje é justamente o contrário: o Capital apropriado por poucos e sendo usado para explorar multidões.

A seguir, passo a elencar alguns trechos selecionados de minha leitura, tendo retirado as vastas referências bibliográficas, que podem ser consultadas na obra original):

“Durante o vasto período do Paleolítico, houve notavelmente poucas modificações na tecnologia. Segundo Gerhard Kraus, a inovação, “ao longo de dois milhões de anos e meio, medida pela evolução do instrumento de pedra é praticamente nula”. Visto à luz do que agora sabemos da inteligência pré-histórica, esta “estagnação” é especialmente desanimadora para muitos especialistas das ciências sociais. Para Wymer, “É difícil compreender um desenvolvimento de uma tal lentidão”. Ao invés, a mim, parece muito plausível, que a inteligência, a consciência da riqueza que proporciona a existência do caçador-coletor, seja a razão da marcada ausência de “progresso”. Parece evidente que a espécie tem, deliberadamente, recusado a divisão do trabalho, a domesticação  e a cultura simbólica até uma data recente.”

“Eu gostaria de manifestar, de passagem, meu acordo com Goldshmidt quando escreve que “a dimensão oculta da construção do mundo simbólico é o tempo”. E como afirma Norman O. Brown, “a vida não reprimida não se situa num tempo histórico”, a qual considero um lembrete ao fato de que o tempo como materialidade não é inerente à realidade, mas uma imposição cultural, talvez o primeiro fato cultural imposto à realidade. É à medica que evolui esta dimensão elementar do progressos de cultura simbólica que se estabelece, aos mesmos passos, a alienação do natural.”

“Uma hipótese razoável, na minha opinião, é que a divisão do trabalho, despercebida por causa do seu passado glacialmente lento, e não suficientemente lento, e não suficientemente entendido por causa da sua novidade, começou a causar pequenas fissuras na comunidade humana e práticas insalubres com relação à natureza.”

“A aparição repentina de atividades simbólicas (por exemplo rituais e artes) no Paleolítico superior é inegável, para os arqueólogos uma das “grandes surpresas” da pré-história, dada sua ausência no Paleolítico médio. Mas os efeitos da divisão do trabalho e a especialização fizeram sentir sua presença enquanto ruptura da totalidade da ordem natural – uma ruptura que é necessária explicar. O que é surpreendente é que esta transição para a civilização possa ainda ser vista como benigna. Foster parece fazer-lhe apologia quando conclui que “o mundo simbólico se revelou como extraordinariamente adaptativo. Senão, como Homo sapiens pode chegar a ser materialmente o senhor do mundo?”. Ele está exatamente correto, como se podem ver em “ a manipulação dos símbolos, a essência da cultura”, mas ele parece esquecer que esta adaptação conseguiu iniciar a separação do homem e a natureza, bem como a destruição progressiva desta, até a terrível amplitude atual destes dois fenômenos.”

“Ao princípio mais abstrato como a linguagem, depois de uma maneira mais orientada como ritual e a arte, a cultura entra em cena para responder artificialmente às angústias espirituais ou sociais”.

“A arte, como a religião, nasce do desejo insatisfeito.”

“O ritual aponta para um vazio que é exigido falsamente para senti-lo, como faz a cultura simbólica em geral.”

“A aparição da cultura simbólica, transformada por sua necessidade de manipular e de dominar, abriu o caminho à domesticação da natureza. Depois de dois milhões de anos de vida humana, respeitando a natureza, em equilíbrio com outras espécies, a agricultura modificou toda nossa existência e nossa maneira de adaptar-nos, de uma maneira desconhecida até o momento. Nunca antes uma espécie tinha conhecido uma mudança radical tão profunda e rápida. A auto-domesticação pela linguagem, pelo ritual e pela arte inspirou a dominação de animais e plantas que lhe seguem. Aparecida há apenas 10.000 anos, a agricultura triunfou rapidamente; pois a dominação, por si mesma, gera e exige continuadamente, seu reforço. Uma vez difundida, a vontade de produzir foi tanto mais produtiva quanto mais se exercia eficazmente, e de fato tanto mais predominante e adaptativa.
A agricultura possibilita o nascimento desmedido da divisão do trabalho, cria os fundamentos materiais da hierarquia social e inicia a destruição ambiental. Os sacerdotes, os reis e o trabalho obrigatório, a desiguldade sexual, as guerras são algumas das consequências imediatas.”

“O fim do modo de vida dos caçadores-coletores implicou um declínio do tamanho, da estatura e da robustez do esqueleto, e a introdução da cárie dental, as carências alimentárias e as doenças infecciosas. “Em conjunto… uma diminuição da qualidade – e seguramente da duração – da vida humana”, concluem Cohen e Aremelagos.”

“Conformismo, repetição e regularidade são as claves da civilização triunfante, substituindo a espontaneidade, o encantamento e a descoberta característicos da sociedade humana pré-agrícola que sobreviveu desta maneira durante muito tempo. Clark fala da “amplitude do tempo de lazer” dos caçadores-coletores, e conclui que “foi isso e o modo de vida agradável que o acompanhava, e não as penúrias e o longo trabalho cotidiano, o que explica porquê a vida social foi tão estática”. Um dos mitos mais vivos e mais antigos é a existência de uma Idade de Ouro, caracterizada pela paz e pela inocência, antes que, alguma coisa, destruísse aquele mundo idílico e nos reduzisse à miséria e o sofrimento. O Éden, ou qualquer que seja o nome que se lhe dê, era o mundo dos nossos antepassados primevos, e estes mitos expressam a nostalgia daqueles que trabalham sem respirar, na servidão, ante uma vida livre e relativamente muito mais fácil, mas já perdida.”

“Duffy nota que os caçadores-coletores que estudou, os Pigmeus Mbuti da África Central, foram aculturados pelos agricultores e cidadãos dos arredores durante centenas de anos e, em menor medida por gerações de contato com a administração colonial e os missionários. E parece que um impulso em direção à vida autêntica que vem do fundo dos séculos persiste entre eles: “tente imaginar”, pede nos Duffy, “um modo de vida onde a terra, o alojamento e a alimentação são gratuitos, e onde não há dirigentes, nem patronos, nem políticos, nem crime organizado, nem impostos, nem leis. Acrescente a isso os benefícios de pertencer a uma sociedade onde tudo se reparte, onde não há ricos nem pobres e onde o bem-estar não signica a acumulação de bens materiais”. Os Mbuti nunca domesticaram animais nem cultivaram vegetais.”

“Como Hole e Flannery resumiram: “nenhum grupo sobre a terra dispõe de mais lazer do que os caçadores e coletores, que consagram o melhor do tempo ao jogo, à conversa e descontração”. Eles dispõe de mais tempo livre, acrescenta Binford, “que os operários industriais ou agrícolas modernos, ou inclusive mais do que os professores de arqueologia”.
Como disse Vaneigem, os não-domesticados sabem que só o presente pode ser total. Isto significa que vivem a vida com uma imediação, uma densidade e uma paixão incomparavelmente maior do que nós vivemos. Diz-se que dias revolucionários valem séculos; até lá “olhemos antes e depois”, como Shelley escreveu, “E suspiremos para o que não é…

“O ramo !Kung dos San coleta mais de uma centena de vegetais diferentes e não apresentam nenhuma carência alimentícia. Isto se assemelha a dieta saudável e variada dos coletores australianos. A dieta geral dos caçadores-coletores é melhor do que dos agricultores, a desnutrição é muito rara e seu estado geral de saúde é geralmente superior, com menos doenças crônicas.”

“Os habitantes das ilhas Andaman, ao oeste da Tailândia, não se submetem a nenhum líder, ignoram toda representação simbólica e não criam nenhum tipo de animal doméstico. Observou-se igualmente entre eles a ausência de agressividade, de violência, de doenças; suas feridas curam com uma rapidez surpreendente, e a sua vista e a audição são particularmente agudas. Diz-se que declinaram desde a invasão dos europeus em meados do século XIX, mas apresentam ainda traços físicos extraordinários, como uma imunidade natural à malária, uma pele elástica o suficiente para excluir marcas de estiramento pós-parto e a rugosidade que associamos com o envelhecimento, e uma força “incrível” de dentes. Cipriani relata ter visto garotos de 10 a 15 anos dobrando pregos entre as mandíbulas. Ele também testemunhou a prática Andamese de coletar o mel sem nenhuma roupa protetora: “não lhes picam nunca, vendo-lhes tinha a impressão de estar frente a algum mistério antigo, perdido pelo mundo civilizado”. De Vries citou uma larga variedade de contrastes pelos quais a saúde superior de caçadores-coletores pode ser estabelecida, inclusive uma ausência de doenças degenerativas e inabilidades mentais, e parto sem dificuldade ou dor.”

“Rohrlich-Leavitt notou que “os dados que dispomos mostram que geralmente os caçadores-coletores não procuram delimitar um território próprio e bilocal; rejeitam agressão coletiva e recusam competição; repartem livremente os recursos; apreciam o igualitarismo e a autonomia pessoal no quadro da cooperação de grupo e são indulgentes e carinhosos com as crianças”. Dezenas de estudos fazem da partilha e do igualitarismo o caráter distintivo destes grupos (Marshall 1961 e 1976, Sahlins 1968, Pilbeam 1972, Damas 1972, Diamond 1974, Lafitau 1974, Tanaka 1976 e 1980, Weissner 1977, Morris 1982, Riches 1982, Smith 1988, Mithen 1990). Lee tem falado da “universalidade da distribuição entre os caçadores-coletores”, igualmente, no trabalho de Marshall de 1961, vê-se uma “ética de generosidade e humanidade” demonstrando uma “forte tendência igualitária” entre os caçadores-coletores. Tanaka fornece um exemplo típico: “a característica do caráter mais apreciado é a generosidade, e o mais desprezado é o egoísmo e a mesquinhez”.
Baer enumerou que “o igualitarismo e o sentido democrático, a autonomia pessoal e a individualização, o sentido protetor” como as virtudes principais dos não civilizados; e Lee fala “de uma aversão absoluta pelas distinções hierárquicas entre os povos caçadores-coletores do mundo inteiro”. Leacock e Lee frism que “toda presunção de autoridade” no seio do grupo “provova brigas e raiva entre os !Kung, como foi observado também entre os Mbuti, os Hazda e os montanheses de Montagnais-Naskapi, entre outros. “Até o pai de uma família espalhada não pode dizer a seus filhos e filhas o que tem de fazer. A maioria dos indivíduos parecem atuar sobre suas próprias regras internas”, escreve Lee sobre os !Kung de Botswana. Ingold julga que “a maior parte das sociedades de caçadores-coletores dão um valor supremo ao princípio de autonomia individual”, equivalente a descoberta de Wilson de uma “ética de independência” que é comum nas “sociedades abertas em questão”.
O estimado antropólogo de campo Radin vai a ponto de dizer que “na sociedade primitiva se deixa campo livre a todas as formas concebíveis de expressão da personalidade. Não se emite nenhum juízo moral sobre nenhum aspecto da personalidade humana como tal”. Observando a estrutura social dos Mbuti, Turnbull se surpreende ao encontrar um “vazio aparente, uma ausência de sistema interno, quase anárquico”. Segundo Duffy, “os Mbuti são naturalmente acéfalos, sem chefes – não tem nem líderes nem soberanos, e as decisões que dizem respeito ao grupo são tomadas por consenso”.

“Quando a alienação progressiva da natureza se converteu em domesticação social patente (agricultura) não mudaram somente os comportamentos sociais. Os relatos dos marinheiros e exploradores que chegaram às terras “recém-descobertas” asseguram que nem os pássaros, nem os mamíferos selvagens tinham medo dos invasores humanos. Alguns grupos de coletores-caçadores não caçavam antes de ter contato com o exterior, por exemplo, os Tasadai das Filipinas; mas quando a maior parte praticavam a caça “não se tratava de um ato agressivo”. Turnbull observou os Mbuti que caçam sem qualquer espírito agressivo, e até é executado com uma espécie de desgosto. Hewitt notou laços de simpatia que unem caçador e caça entre os Bosquímanos Xan que contatou no século XIX” (alguma semelhança com o que podemos ver no filme Avatar, de James Cameron?)

“A respeito da violência entre os caçadores-coletores, Lee descobriu que “os !Kung odeiam lutar e acham estúpido quem luta”. Segundo a narração de Duffy, os Mbuti “consideram toda violência entre indivíduos com muito horror e desgosto e não as representam nunca em suas danças e jogos teatrais”. O homicídio e o suicídio, conclui Bodley, são “realmente excepcionais” entre os tranquilos caçadores-coletores. A natureza guerreira dos povos indígenas nativos da América foi frequentemente fabricada para adicionar legitimidade nas conquistas européias; os caçadores-coletores Comanches conservaram suas maneiras não-violentas durante séculos antes da invasão européia, e só foram violentos com o contato com uma civilização dedicada ao roubo” (e, acrescento, ao estupro das nativas).

“Bloch descobriu uma correlação entre os níveis de rituais e hierarquia. Posto negativamente, Woodburn estabeleceu uma conexão entre a falta de rituais e a ausência de papéis especializados e hierarquia entre os Hazda da Tanzânia. O estudo de Turner sobre os Ndembu do oeste africano revela uma profusão de estruturas ritualísticas e de cerimônias destinadas a equilibrar os conflitos gerados numa ruptura de uma sociedade anterior mais unida. Estas cerimônias e estas estruturas tem uma função política de integração. O ritual é uma atividade repetitiva para a qual as consequências e resultados que engendra tem o efeito de um contrato social; ele transmite a mensagem que a prática simbólica, através da participação do grupo e das regras sociais, fornece o controle. O ritual nutre a aceitação da dominação e, como de demonstra, conduz à criação de papéis de comando e de estruturas políticas centralizadas. O monopólio das instituições cerimoniais prolonga lentamente a noção de autoridade e pode ser, inclusive, a forma original de autoridade.”

“Vemos no papel do xamã uma prática concreta da contribuição dos rituais para a dominação na sociedade humana.
Radin descreve “a mesma tendência característica” entre os povos asiáticos e norte-americano, de xamãs ou homens da medicina em “organizar e desenvolver a teoria segundo a qual somente eles estão em comunicação com o sobrenatural”. Este acesso exclusivo parece dar-lhes um poder a custa dos outros. Lommel constata “um aumento da potência psíquica do xamã… contrabalançado com um enfraquecimento da potência dos outros membros do grupo”. Esta prática tem implicações muito evidentes sobre as relações de poder em outros domínios da vida, e contrasta com períodos anteriores em que as autoridades religiosas estavam ausentes.”

“ De fato, o xamã é frequentemente o indivíduo mais influente das sociedades pré-agrícolas e está em posição de institucionalizar mudanças.”

“Mas a sociedade de caçadores-coletores, por sua própria natureza, negam os rituais em sua potencialidade de domesticar as mulheres. A estrutura (ausência de estrutura?) dos grupos igualitários, inclusive aqueles mais concentrados na caça, comportam, com efeito, a garantia da autonomia dos dois sexos. Esta garantia é pelo fato de que os produtos da subsistência estares disponíveis igualmente para as mulheres e para os homens e, ainda mais, o sucesso do grupo depende da cooperação fundamentada sobre a autonomia.
As esferas de cada sexo estão frequentemente separadas de uma maneira ou outra, mas na medida que a contribuição das mulheres é ao menos igual a dos homens, a igualdade social entre os sexos é uma “chave das sociedades caçadoras-coletoras”. Aliás, numerosos antropólogos constataram que nos grupos de caçadores-coletores o status das mulheres é superior quando comparado a qualquer outro tipo de sociedade”

“Deve-se acrescentar, a respeito da divisão do trabalho, comum entre os caçadores-coletores contemporâneos, que esta diferenciação de papéis não é de nenhum modo universal. Não foi universal quando o historiador romano Tácitus escreveu a propósito dos Fenni da região báltica, que “as mulheres sustentam a si próprias caçando, exatamente como os homens… e contam seu lote mais feliz do que aqueles outros que gemem sobre o trabalho no campo”. Ou quando Procopius encontrou, no século VI a.C., que os Serithifinni da região onde atualmente fica a Finlândia, “não trabalham nunca no campo, nem fazem suas mulheres cultivarem, sendo que suas mulheres se juntam aos homens para caçar”.
As mulheres Tiwi da Ilha Melville caçam normalmente, como as mulheres Agta das Filipinas. Na sociedade Mbuti, “há pouca especialização segundo o sexo. Mesmo a caça é um esforço conjunto”, nota Turnbull; e Cotlow, certifica que “os esquimós tradicionais, são (ou eram) uma empresa cooperativa administrada por todo o grupo familiar”.
Darwin descobriu outro aspecto da igualdade sexual: “estre as tribos totalmente bárbaras, as mulheres tem mais poder para escolher, negar e seduzir seus amantes, ou, em consequência, mudar de marido, do que se poderia crer. Os Bosquímanos !Kung e os Mbuti são bons exemplos desta autonomia feminina, como notam Marshall e Thomas. “Aparentemente as mulheres trocam de marido cada vez que estão insatisfeitas com a relação”, conclui Begler. Marshall descobriu também que a violação é extraordinariamente rara, quase desconhecida, entre os !Kung.”

“Duffy descobriu que cada criança de um acampamento Mbuti chama todos os homens de pai e todas mulheres de mãe. As crianças dos caçadores-coletores se beneficiam de mais atenção, cuidados e tempo de dedicação que das famílias nucleares isoladas pela civilização. Post e Taylor descreveram um “contato quase permanente” com suas mães e com outros adultos de que se beneficiam as crianças bosquímanas. Os bebês !Kung estudados por Ainsworth apresentam uma precocidade marcada do desenvolvimento de habilidades cognitivas e motoras. Isso foi atribuído tanto à estimulação favorecida por uma liberdade de movimentos sem restrições, como ao nível do calor e proximidade física entre os pais e as crianças.”

“As mulheres exercem um papel fundamental na agricultura tradicional, mas não se beneficiam com o status correspondente de sua contribuição, ao contrário do que se passava nas sociedades de caçadores-coletores. Com a chegada da agricultura, as mulheres, assim como as plantas e os animais, também foram domesticadas.”

“Os astecas, fortemente domesticados e conscientes sobre o tempo, praticavam o sacrifício humano como um rito destinado a acalmar as forças rebeldes e manter o equilíbrio de uma sociedade muito alienada. Como Norbeck apontou, as sociedades não-domesticadas, “culturalmente empobrecidas”, são desprovidas de cabibalismo e sacrifício humano.”

“Barnes descobriu que “na literatura etnográfica, os testemunhos de lutas territoriais” entre caçadores-coletores são “extremamente raras”. As fronteiras !Kung são vagas e nunca vigiadas; os territórios dos Pandaram se sobrepõe, e os indivíduos vão aonde eles querem; os Hazda se deslocam livremente de uma região à outra; as noções de fronteira possuem pouco significado ou nenhum entre os Mbuti; e os aborígenes australianos rechaçam qualquer demarcação territorial ou social. Uma ética de generosidade e hospitalidade toma lugar da exclusividade.
Os povos caçadores-coletores não desenvolveram “nenhuma concepção de propriedade prinvada”, na perspectiva de Kitwood.”

“Existem muitos caçadores-coletores que poderiam transportar tudo o que eles necessitam usando uma mão, que morrem com praticamente tudo o que eles tinham ao vir ao mundo. Houve um tempo em que a humanidade compartilhou tudo: com a agricultura, a propriedade se transformou em algo essencial, e uma espécie pretendeu possuir o mundo. Nos encontramos ante a uma distorção que a imaginação dificilmente poderia ter concebido.
Sahlins falou disso de uma maneira eloquente: “Os povos primitivos do mundo possuem poucas posses, mas não são pobres. A pobreza não é uma determinada quantidade pequena de bens, não é uma relação entre meios e fins; acima de tudo, é uma relação entre as pessoas. A pobreza é um status social, bem como uma invenção da civilização.”

“Definir” um mundo desalienado seria impossível, inclusive indesejável, mas podemos e devemos tentar desmascarar o não-mundo de hoje em dia e como chegamos a ele. Temos tomado um caminho monstruosamente errado com a cultura simbólica e a divisão do trabalho, de um lugar de entendimento, encanto, compreensão e totalidade para a ausência em que nos encontramos, no coração da doutrina do progresso. Vazia e cada vez mais vazia, a lógica da domesticação, com suas exigências de total dominação, nos mostram a ruína de uma civilização que arruína todo o resto. Presumir a inferioridade da natureza favorece a dominação de sistemas culturais que logo tornarão a Terra um lugar inabitável.
O pós-modernismo nos diz que uma sociedade sem relações de poder não pode ser mais que uma abstração (Foucault, 1982). Isso é uma mentira, a menos que aceitemos a morte da natureza e de tudo aquilo que foi e poderia ser novamente.
Turnbull fala da intimidade dos Mbuti e a floresta, e da sua maneira de dançar como se fizessem amor com a floresta. Numa vida onde os seres são iguais, que não é uma abstração e se esforça para existir, eles “DANÇAM COM A FLORESTA, DANÇAM COM A LUA”.“

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