O Anarquismo e suas Aspirações – parte VI

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Abr 07

Orientação Ecológica
 

Humanos acreditam que podem dominar o mundo natural não humano porque, para eles, é natural dominar outros seres humanos. A ética do apoio mútuo, entretanto, afirma que humanos, outros animais e as plantas desenvolvem-se melhor sob formas de cooperação holística – ecossistemas. Ela sugere que as pessoas muito mais provavelmente viveriam em harmonia uns com os outros e com o mundo não humano – ser ecológico – em uma sociedade não hierárquica.

Além do ativismo ecológico revolucionário – desde sentar em árvores para evitar seu corte, passando pela ecosabotagem e chegando  às eco-tecnologias – uma orientação ecológica dentro do anarquismo significa uma lógica evolutiva porém dialética: assim como a natureza não humana se desenvolve com o passar do tempo, com múltiplas possibilidades acerca do que virá a ser, assim os humanos evoluem com o passar da vida e das gerações.

Essa lógica, a de que os humanos não são seres fixos mas estão sempre "se tornando" – é subjacente ao dinamismo anarquista. Ver toda forma de vida como apta a evoluir destaca a ideia de que as pessoas e a sociedade podem mudar. Que as pessoas e o mundo podem se tornar mais do que são, melhores do que são atualmente. É claro, não há garantia. O desenvolvimento não é necessariamente linear ou progressivo.

 

Associação Voluntária e Responsabilidade

Os seres humanos distinguem-se (mas não podem ser colocados acima) do outras formas de vida pela sua capacidade de imaginação, inovação, de racionalizar, fazer julgamentos e intervir com intencionalidade. Assim, outra ética anarquista compartilhada destaca a capacidade humana de livre escolha, ou associação voluntária, em direção a várias formas de relações e organizações consensuais e não coercivas. Associação voluntária não significa que os indivíduos sempre farão tudo do seu próprio jeito, tampouco que irão gostar de todas tarefas ou todas pessoas em um projeto. Elas podem até sentir-se cansadas no final do dia. Ainda assim, significa reunir-se com outros não pela força ou compulsão mas porque cada um assim escolheu, livremente.

Associação voluntária é sobre fazer coisas porque em geral nos sentimos satisfeitos em uma variedade de formas, porque realiza metas e necessidades pessoais e comunitárias, e porque as pessoas não são compelidas a se engajar se não quiserem fazê-lo.

Isso significa responsabilidade e confiabilidade. Associação voluntária apenas se torna relevante quando ligada com formas de responsabilidade e solidariedade. Associação voluntária e confiança são, em seu núcleo, pessoas fazendo promessas livres umas às outras, sem nenhuma força externa compelindo-os a seguirem por ou além dos seus comprometimentos mútuos.

As pessoas podem se associar e dissociar, e irão fazer isso várias vezes em suas vidas, Ainda, anarquistas tomam tanto a associação quando a dissociação muito a sério, pelo fato de tomarem processos inclusivos e como as pessoas tratam umas às outras muito seriamente.

Promessas mútuas necessitam vários acordos, sejam não falados mas completamente compreendidos, ou escritos para serem revistos quando necessário. Tais acordos se aplicam em uma série de coisas, incluindo o que acontecerá quando alguém não cumprir o acordado em suas tarefas e como lidar com o conflito. Os indivíduos não deixarão uns aos outros em situação desprotegida, uma vez que combinaram implementar uma decisão coletiva.

Como em todos atos harmonicamente pesados no Anarquismo, encontrar o balanço entre a livre associação e os acordos livremente constituídos é muito mais difícil na prática, especialmente além do nível dos pequenos grupos. Mas esse balanço é crucial.  Ele vai direto ao centro da problemática do Anarquismo: como encorajar um mundo em que indivíduos e sociedade são simultaneamente livres. A organização política anarquista testa esta dupla noção, em parte, compondo princípios de unidade e posicionamentos de missões. Eles destacam porque estão se associando livremente. Eles também definem os parâmetros, se é que existem alguns, para participação nos grupos. Isso pode variar desde simplesmente aparecer e entrar até ter que atender a um certo número de encontros antes de poder participar dos processos de tomada de decisão.

É assim que os anarquistas praticam o que pode ser considerado a constituição de uma "associação voluntária" e confiança mútua em um nível societal. É claro, uma ética da associação voluntária não pode ser universalmente aplicada. Associações livres para perpetrar violência contra gays e simpatizantes, por exemplo, é completamente contra outras éticas anarquistas.O ato de harmonização não é somente entre associação voluntária e confiança. Não está em jogo uma sensibilidade do tipo "tudo vale" com a ideia de que estamos todos juntos nisso. Diz respeito à totalidade das aspirações anarquistas.

 

Prazer e Espontaneidade

Associação voluntária e confiança não são obrigações sine qua nom para fazer as coisas. Parte do projeto revolucionário, para o Anarquismo, é instituir a beleza e caminhar em direção à uma felicidade substancial, bem como encorajar a espontaneidade necessária para realizar ambos. Prazer e amor motivam as pessoas a aspirar um mundo melhor. Estes e outros sentimentos não são luxos separados das necessidades materiais das pessoas. Eles são parte das necessidades para uma vida plena, singular e genuinamente social. Nós precisamos de comida suficiente para comer E precisamos de comida que gostamos para comer. Nós precisamos de formas prazerosas de cultivar a comida e cozinhar uns para os outros e, se necessário, descobrir mecanismos justos e compartilhados para limpar os pratos, quando eles começam a empilhar. Existe divertimento no processo, também. Ou haveria divertimento, se os processos que rotineiramente moldam o mundo pertencessem a todos.

Pode parecer ingênuo lutar por uma transformação social revolucionária para que as pessoas possam encontrar alegria em suas vidas, para que possam criar e tirar satisfação em tudo que é bonito e amoroso. Mas essa é a essência de uma boa sociedade: que pessoas sejam capazes de sentir bondade nelas mesmas e nos outros tanto quanto possível; que mesmo que as coisas estejam difíceis ou a vida dolorosa, que as pessoas suportem umas às outras; que as formas pelas quais realizamos as coisas sejam também as formas que esculpimos espaços para em sua totalidade vermos e apreciarmos uns aos outros. E nos divertirmos.

Como todas éticas anarquistas, esta não é uma que se desvela "até que a revolução" chegue, permitindo à maioria da humanidade viver miseravelmente ou zanzar na depressão. Significa trazer prazer e diversão, bondade e compaixão, em tudo que as pessoas fazem. Não significa fingir que tudo está ok. Mesmo em uma sociedade melhor, as pessoas continuarão a sentir tristeza. Os anarquistas vigilantemente resistem ao mundo que aí está, enquanto simultaneamente se engajam naqueles comportamentos esperançosos que apontam em direção a novas relações sociais. Eles praticam a beleza que os seres humanos estão buscando atingir no mundo que "poderá ser". As atividades anarquistas enfatizam a estética e o divertimento. Protestos contemporâneos combinam festas de rua e bonecos com ação direta; potlucks são partes regulares de muitos encontros anarquistas; pôsteres maravilhosos geralmente anunciam feiras do livro anarquistas ,que com frequência incluem jogos de futebol ao longo de oficinas. Um jogo prazeroso é tão parte do impulso revolucionário dentro do anarquismo quanto é a luta – e ambos são essenciais para a liberdade com qualidade.

Unidade na Diversidade

Outra ética anarquista é o comprometimento em harmonizar o aparentemente incompatível. Anarquistas tentam encontrar harmonia na dissonância, como instrumentos em uma orquestra. Eles fazem isso em todos contextos; é o conteúdo da vida real, ou como notado acima, o reconhecimento de que as coisas se desdobram de formas complexas e interconectadas. Quer sejam as contradições entre o local e o global, a independência e a interdependência, autonomia ou democracia direta, os anarquistas lutam honesta e transparentemente para encontrar unidades que não neguem as diferenças. A maior parte do que os anarquistas fazem na prática envolve criar relações, processos e acordos, pessoalmente e dentro de instituições auto-organizadas, que são precisamente sobre encontrar o balanço de uma unidade na diversidade.

Um exemplo proeminente é a "diversidade de táticas" de abordagem em mobilizações de massa, desenvolvidas pelos anarquistas no Canadá durante os dias de ação global do movimento anticapitalista na virada deste século. A noção era determinar uma série de acordos para uma demonstração específica – baseada neste contexto –  que permitiria diferentes táticas, estratégias e mesmo zonas geográficas específicas de engajamento, todas dentro da bandeira compartilhada de uma oposição ao capitalismo e defesa de formas não estatistas, diretamente democráticas de organização. Isso não significava que "tudo vale", nem significava "consenso". Aqueles que viviam na cidade e tinham feito meses de trabalhos de organização antes da mobilização assentaram-se em acordos de diversidade de táticas, através de um processo de debates e consultas. Conselhos durante a mobilização eram tanto informacionais quanto serviam para pequenas decisões de último minuto, através de um processo que buscava consenso mas que recorria ao voto quando necessário. No alto deste movimento, a diversidade de táticas de abordagem realmente abriu espaço para uma sensação poderosa de pluralismo interconectado. Esse é apenas um exemplo de uma ética muito mais ampla que encompassa uma gama de esforços para garantir que os comprometimentos compartilhados respeitem e concretamente abram espaço para pessoas com ideias e táticas divergentes.

(continua…)

 

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

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