TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - A Internet e a Web (parte IV de VII)


Web teia net contra-webHakim Bey utiliza a seguinte nomenclatura:
- net: a internet “oficial”, criada para fins militares e que ainda encontra-se com dados restritos, como os de segurança nacional, informações bancárias e monetárias
- web: uma net dentro da net, uma estrutura aberta e horizontal de troca de dados, não hierárquica
- contra-net: o uso clandestino, ilegal e rebelde da web, incluindo pirataria de dados e outras formas de parasitar a própria net
Importante salientar que elas não são compartimentos distintos mas se mesclam em vários pontos.
Já na década de 80, quando o que se tinha eram alguns zines marginais, redes BBS, alguns softwares piratas, alguma influência (pequena) na mídia impressa e no rádio (e nenhuma nas redes de TV) Bey já percebia a importância fundamental que esta nova “ferramenta” poderia ter para a organização e para o apoio logístico de TAZs. Nas suas palavras:
“Nesse ponto de evolução da web, e considerando nossas exigências por algo que seja palpável e sensual, devemos considerar a web fundamentalmente como um sistema de suporte, capaz de transmitir informações de uma TAZ a outra, ou defender a TAZ, tornando-a “invisível” ou dando-lhe garras, conforme a situação exigir. Porém mais do que isso: se a TAZ é um acampamento nômade, então a web ajuda a criar épicos, canções, genealogias e lendas da tribo. Ela fornece as trilhas de assalto e as rotas secretas que compõe o fluxo da economia tribal. Ela até mesmo contém alguns dos caminhos que as tribos seguirão só no futuro, alguns dos sonhos que eles viverão como sinais e presságios.”
Computador


Apesar de poderem utilizar como “web” o boca-a-boca, os correios, a rede marginal de zines, as “árvores telefônicas”, o uso da internet como forma de “pseudo-telepatia” tornou mais eficaz e dinâmica a comunicação.
Hakim Bey imagina como será o mundo quando efetivamente estiver se realizando o que chama de “hacking da realidade”.
“Por uma característica de sua própria natureza, a TAZ faz uso de qualquer meio disponível para concretizar-se – pode ganhar vida tanto numa caverna quanto numa cidade espacial – mas, acima de tudo, ela vai viver, agora ou o quanto antes, sob qualquer forma, seja ela suspeita ou desorganizada. Espontaneamente, sem preocupar-se com ideologias ou anti-ideologias. Ela vai fazer uso do computador porque o computador existe, mas também usará poderes tão completamente divorciados da alienação e da simulação que lhe garantirão um certo paleolitismo psíquico, um espírito xamânico primordial que vai “infectar” até a própria net. Porque a TAZ é uma intensificação, um excesso, uma abundância, um potlach, a vida vivida em vez de sobrevivida, e não pode ser definida como tecnológica ou anti-tecnológica. Ela se contradiz, como alguém que verdadeiramente despreza fantasmas e aparições, porque deseja ser, a qualquer custo ou prejuízo para a “perfeição” ou imobilidade final.”

Neste mesmo capítulo H.B. Faz uma pergunta aos “hackativistas”: Se os computadores já são capazes de possibilitar trocas, de realizar o desejo de alguém por comidas, drogas, sexo, sonegação fiscal, porque isso não está acontecendo? Seria a capacidade de “fiscalização” e opressão do Estado maior do que se imagina?
Em meu artigo sobre a possibilidade de um mundo menos dependente do sistema monetário, onde explico a possibilidade de uma Grande Cooperativa Mundial, escrito em 1999, estão as principais diretrizes para uma livre troca de bens e serviços sem a necessidade de uso de dinheiro e, obviamente, sem a incidência de impostos sobre a troca. Nada de empresas ou pessoas jurídicas. Trocas entre indivíduos. Pessoas físicas que querem trocar algo que possuem por outro algo que outrem possua, quer seja um bem ou um serviço.

Toda a série TAZ - Zona Autônoma Temporária:

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Utopias Piratas (parte I de VII)

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Esperando pela Revolução (parte II de VII)

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Psicotopologia da Vida Cotidiana (parte III de VII)

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - A Internet e a Web (parte IV de VII)

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Fomos para Croatã (parte V de VII)

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - A Ânsia de Poder como Desaparecimento (parte VI de VII)

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Caminhos de Rato na Babilônia da Informação (final)




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Comentários  

 
0 #3 Rafael Reinehr 25-03-2009 15:13
Keyne, como alguém suportaria manter um ideal de monopólio em uma "sociedade livre"? Ele iria monopolizar o quê? Talvez sua própria incompreensão, já que ninguém lhe daria ouvidos.

Mas, para ser mais claro, todas as propostas libertárias tem algo em comum: não há um plano pronto ou perfeito para todas as situações. Sabe-se o que está errado (opressão, exploração, propriedade dos meios de produção, censura, violência, etc), então lute-se para acabar com isso. Mas, antes de mais nada, aja. Faça acontecer. Ficar elocubrando , antecipando problemas só conseguirá fazer uma coisa: te deixar imóvel, que é justamente o que quem toma conta do sistema quer.
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0 #2 Keyne 25-03-2009 12:21
E se nessas sociedades livres, certas pessoas sustentarem ideais de estado, de monopólio e de sistemas monetários? E se no meio da troca houvesse roubo e persuasão para conseguir trocar algo que seja de "baixo" valor por algo de "alto" valor, enganando o próximo?

Onde a moral se sustenta? Naquilo que não desejaríamos que acontecesse com nós mesmos? Desta forma não faríamos com o outro? Mas se uma dessas pessoas for simplesmente diferente e gostar de fazer algo que o outro não gosta causando assim a divergência e por fim a corrupção, gerando guerra?

Consideramos matar algo brutal, mas e o leão, por exemplo, que mata por fome? É a sua natureza brutalidade? Ou seria apenas cadeia alimentar? Bastando apenas deixá-lo viver em sua natureza e cabendo aos seres humanos portadores da "racionalidade" ser diferente?

E o que dizer sobre a loucura, quando o ser humano deixa de ser sociável e é rotulado como doido? O que dizer sobre todas as pessoas presas em hospícios por serem de natureza diferente? O que dizer sobre os altistas? Os esquizofrênicos ... Seria mesmo um problema médico ou apenas uma divergência de natureza? O que dizer sobre pensamentos alegóricos que não seguem a lógica?

O que dizer quando forças que vão além de nosso entendimento nos obrigam a seguir destinos na qual não queríamos? Imagine a extinção de uma espécie por eventos ecológicos, o que dizer sobre isso? Brutalidade ou curso natural?

O que fazer quando tudo o que dizemos parece não ter objetivo? O que dizer quando a vida nos apresenta como solução, talvez, o silêncio interior e nada mais?

Apesar de por em dúvida, vibro com este ideal, mas me iludo ao pensar assim. Será que pode clarear minha mente?

Gosto de pensar, mas sempre sou levado ao enjoo pelos meus própios pensamentos :-x
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0 #1 Daise 04-01-2009 17:01
Olá, meu querido amigo. Andei desaparecida desse mundo blogueiro... Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Não conhecia esse seu novo espaço... Muito eclético. Como sempre você é o dinamismo em pessoa. Referindo-me ao artigo publicado, confesso que não li o livro do autor, mas pelos seus escritos pude compreender um pouco mais sobre as elucubrações deste anarquista ontológico que só tinha ouvido falar por alto... Tenha um ótimo 2009! Grande abraço.
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