Na segunda parte do livro, Hakim Bey questiona-se:
E, questiono-me eu: não é justamente esse o objetivo da propaganda, do Estado e das demais instituições (Escola, Igreja, Exército, Polícia, Legislativo, Judiciário...) - o de manter o status quo inalterado, para que as forças de sempre comandem o tabuleiro? O que vem sendo feito, década após década, não é uma mudança na consciência de cada indivíduo, que vai se adaptando às novas dificuldades que lhe são impostas sem questionar o sistema que as impõe? Grades são colocadas nas janelas e em volta das casas. Uma fechadura mais segura, sistemas de vigilância particulares contratados já que a violência aumenta e a segurança declina. Professores particulares são requisitados, já que a escola não cumpre seu papel. Necessita-se comprar um automóvel, já que o transporte público é deficitário e a distância até o local de trabalho só faz aumentar. Este, por sinal, é cada vez mais volumoso e o número de horas necessárias para manter uma subsistência digna só faz aumentar. Abre-se mão das horas de lazer e também dos dias de férias. Come-se cada vez pior. Alimentos mais ricos em gorduras, açúcares, sódio, corantes, conservantes e agrotóxicos. E mesmo assim, as forças que poderiam mudar isso – aquelas assim chamadas de instituídas – lutam para manter a situação do mesmo jeito, tratando de convencer a cada um de que o melhor para si é permanecer nesta rotina massacrante até o fim dos dias, e dar o mesmo remédio para seus filhos, e netos, e para as gerações que estão por vir. Olho ao redor e parece que esse objetivo foi alcançado com louvor. Mas não pretendo ficar calado ou parado. Ainda tenho muito a dizer e fazer. Sigamos com Bey:“O que foi feito do sonho anarquista, do fim do Estado, da comuna, da zona autônoma com duração, da sociedade livre, da comuna livre? Devemos abandonar esta esperança em troca de um acte gratuit existencialista? A idéia não é mudar a consciência, mas mudar o mundo”.
“Não queremos dizer que a TAZ é um fim em si mesmo, substituindo todas as outras formas de organização, táticas e objetivos. Nós a recomendamos porque ela pode fornecer a qualidade do enlevamento associado ao levante sem necessariamente levar à violência e ao martírio. A TAZ é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la.”
“Uma postura realista exige não apenas que desistamos de esperar pela “Revolução”, mas também que desistamos de desejá-la. “Levantes”, sim – sempre que possível, até mesmo com o risco de violência. Os espasmos do Estado Simulado serão “espetaculares”, mas na maioria dos casos a tática mais radical será a recusa de participar da violência espetacular, retirar-se da área de simulação, desaparecer.
A TAZ é um acampamento de guerrilheiros ontologistas: ataque e fuja. Continue movendo sua tribo inteira, mesmo que ela seja apenas dados na web. A TAZ deve ser capaz de se defender; mas, se possível, tanto o “ataque” quanto a “defesa” devem evadir a violência do Estado, que já não é uma violência com sentido. O ataque é feito às estruturas de controle, essencialmente às idéias. As táticas de defesa são a “invisibilidade”, que é uma arte marcial, e a “invulnerabilidade”, uma arte “oculta” dentro das artes marciais. A “máquina de guerra nômade” conquista sem ser notada e se move antes do mapa ser retificado. Quanto ao futuro, apenas o autônomo pode planejar a autonomia, organizar-se para ela, criá-la. É uma ação conduzida por esforço próprio. O primeiro passo se assemelha a um satori – a constatação de que a TAZ começa com um simples ato de percepção.”
“História, materialismo, monismo, positivismo e todos os “ismos” desse mundo são ferramentas velhas e enferrujadas que já não preciso ou com as quais eu não me preocupo mais. Meu princípio é a vida, meu fim é a morte. Gostaria de viver minha vida intensamente para poder abraçar minha morte tragicamente.
Você está esperando pela revolução? A minha começou há muito tempo atrás! Quando você estará preparado? (Meu Deus, que espera sem fim!) Não me importo em acompanhá-lo por um tempo. Mas quando você parar, eu prosseguirei emmeu caminho insano e triunfal em direção à grande e sublime conquista do nada!
Qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para além dos limites de qualquer sociedade os desregrados e heróicos vagabundos vagarão, com seus pensamentos selvagens e virgens – aqueles que não podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis rebeliões!
Quero estar entre eles!
E atrás de mim, como à minha frente, estarão aqueles dizendo a seus companheiros: “Voltem-se a si mesmos em vez de aos seus deuses ou ídolos. Descubra o que existe em você; traga-o à luz; mostrem-se!”
Porque toda pessoa que, procurando por sua própria interioridade, descobre o que estava misteriosamente escondido dentro de si, é uma sombra eclipsando qualquer forma de sociedade que possa existir sob o sol!
Todas as sociedades tremem quando a desdenhosa aristocracia dos vagabundos, dos inacessíveis, dos únicos, dos que governam sobre o ideal, e dos conquistadores do nada, avança resolutamente.
Iconoclastas, avante!
“O céu em pressentimento já torna-se escuro e silencioso!”.
Toda a série TAZ - Zona Autônoma Temporária:
TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Utopias Piratas (parte I de VII)
TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Esperando pela Revolução (parte II de VII)TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Psicotopologia da Vida Cotidiana (parte III de VII)
TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - A Internet e a Web (parte IV de VII)
TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Fomos para Croatã (parte V de VII)
TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - A Ânsia de Poder como Desaparecimento (parte VI de VII)
TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey - Caminhos de Rato na Babilônia da Informação (final)
Rafael Reinehr é médico endocrinologista, mas seus olhos vasculham o horizonte em busca de soluções para criar um Mundo Melhor através de iniciativas como a Coolmeia, Ideias em Cooperação.
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Comentários
Gostaria de saber a quantas anda os projetos da coolméia. Tentei me registrar, mas não deu certo, parece que o sistema está fora do ar.
Invisibilidade e indiferença estão bem distantes. A invisibilidade se presta para realizar os atos necessários nas rachaduras do sistema. A indiferença não tem função, e não é desejada. O texto tem uma sutileza sublime, difícil de apreender em uma primeira leitura. Mas o esforço para compreendê-lo sob um prisma mais amplo (caçando as entrelinhas, o subtexto) vale a pena.
Ser indiferente a tudo, não crer nem rejeitar, retira a possibilidade de sustentar sociedades, na qual se sustenta um ideal, pois se é indiferente, seu centro é tua presença única e inexplicável, todo o resto, o rio da experiência.
O movimento então se caracteriza apenas por cada vez mas ser indiferente, ou não, ele sutenta um ideal?
Pois como o mesmo texto dá aparecer, isso é liberdade, você vive, faz coisas, mas nunca arma uma barraca e sustenta o ideal de que ela será o novo modelo de organização do futuro.
Não estaria a própria teoria servindo de anti-tese a ela mesma?
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