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O termo que melhor descreve a condição social de hoje é
liquidação. Os outrora inquestionáveis marcos
de estabilidade, como Deus ou a natureza, caíram no buraco
negro do ceticismo, dissolvendo a identificação fixa de
sujeito ou objeto.
Movimentar-se no tanque de poder líquido não precisa
ser necessariamente um ato de aquiescência e cumplicidade. A
despeito de sua situação difícil, o ativista
político e o ativista cultural (anacronicamente conhecido como
artista) ainda podem produzir distúrbios. Embora tal movimento
possa assemelhar-se mais aos gestos de quem se afoga, e não
esteja claro exatamente o que esta sendo perturbado, nesta situação
o lance do dado pós-moderno favorece o ato de distúrbio.
Para saber o que subverter seria preciso que as forças de
opressão fossem estáveis e pudessem ser identificadas e
separadas-uma hipótese demasiado fantástica em uma era
de dialéticas em ruínas. Saber como subverter pressupõe
uma compreensão da oposição que existe no
domínio da certeza, ou (pelo menos) no da alta probabilidade.
PODER NÔMADE E RESISTÊNCIA CULTURAL
O termo que melhor descreve a condição social de hoje é
liquidação. Os outrora inquestionáveis marcos
de estabilidade, como Deus ou a natureza, caíram no buraco
negro do ceticismo, dissolvendo a identificação fixa de
sujeito ou objeto.
Movimentar-se no tanque de poder líquido não precisa
ser necessariamente um ato de aquiescência e cumplicidade. A
despeito de sua situação difícil, o ativista
político e o ativista cultural (anacronicamente conhecido como
artista) ainda podem produzir distúrbios. Embora tal movimento
possa assemelhar-se mais aos gestos de quem se afoga, e não
esteja claro exatamente o que esta sendo perturbado, nesta situação
o lance do dado pós-moderno favorece o ato de distúrbio.
Para saber o que subverter seria preciso que as forças de
opressão fossem estáveis e pudessem ser identificadas e
separadas-uma hipótese demasiado fantástica em uma era
de dialéticas em ruínas. Saber como subverter pressupõe
uma compreensão da oposição que existe no
domínio da certeza, ou (pelo menos) no da alta probabilidade.
A velocidade com que as estratégias de subversão
são cooptadas indica que a adaptabilidade do poder é
muitas vezes subestimada. O modelo arcaico de poder nômade,
outrora um meio para formar um império instável,
evoluiu para um meio sustentável de dominação.
Em um estado de duplo sentido, a sociedade contemporânea de
nômades se torna tanto um campo difuso de poder sem localização
quanto uma maquina de ver que aparece como espetáculo. A
primeira prerrogativa abre caminho ao aparecimento da economia
global, enquanto a segunda age como uma guarnição
militar em vários territórios, mantendo a ordem da
mercadoria com uma ideologia especifica a cada área.
Embora tanto o campo de poder difuso quanto a máquina de
ver estejam integrados através da tecnologia, e sejam peças
indispensáveis ao império global, foi o campo de poder
difuso o que realizou plenamente o mito cita. A passagem de um espaço
arcaico para uma rede eletrônica acrescenta um complemento às
vantagens do poder nômade: os nômades militarizados
sempre estão na ofensiva. A obscenidade do espetáculo e
o terror da velocidade são seus companheiros fiéis.
Na maioria dos casos, populações sedentárias
se submetem à obscenidade do espetáculo, e alegremente
pagam o tributo que lhes é exigido sob a forma de trabalho,
bens materiais e lucro. Primeiro mundo, terceiro mundo, nação,
classes, raças e gêneros diferenciados e hierárquicos
da sociedade sedentária moderna, todos se fundem sob o domínio
nômade e passam a ter o papel de prestadores de serviços
– zeladores da ciberelite. Esta divisão, mediada pelo
espetáculo, oferece táticas que ultrapassam o modelo
nômade arcaico. Em vez de uma pilhagem hostil de m adversário,
tem lugar uma pilhagem amigável, conduzida de modo sedutor
contra o passivo em êxtase. A hostilidade do oprimido é
recanalizada para a burocracia, que desvia a antagonismo para longe
do campo de poder nômade.
O refúgio na invisibilidade da não-localização
impede que aqueles que foram pegos nos enquadramentos espaciais do
panóptico 4 definam um local de resistência (um teatro
de operações), ficando, pelo contrário, presos
por uma fita adesiva aos monumentos do capital morto. (Direito ao
aborto? Faça uma manifestação nas escadas da
Suprema Corte. Para a liberação de drogas que retardam
o desenvolvimento do HIV, invada o NIH 5.) A maior vantagem dos
nômades resiste em não terem mais necessidade de manter
uma posição defensiva. A elite nômade em si é
frustrantemente difícil de aprender. Como se pode avaliar
criticamente um objeto que não pode ser localizado, examinando
ou sequer visto? A análise de classe chega a um ponto de
exaustão. Subjetivamente há um sentimento de opressão,
e no entanto é difícil localizar, quanto mais
identificar, um opressor.
A ciberelite é hoje uma entidade transcendente que só
pode ser imaginada. Não se sabe se unificaram objetivos
programados. Talvez sim, ou talvez suas ações
predatórias fragmentem sua solidariedade, deixando trilhas
eletrônicas comuns e pilhas de informação como
única base de unidade. A paranóia da imaginação
é o fundamento para milhares de teorias conspiratórias-todas
as quais são verdadeiras. Lancem os dados. Para o produtor
cultural, vários exemplos de participação cínica
povoam a paisagem da resistência. A experiência de
Baudelaire vem à mente. Na Paris de 1848, ele lutou nas
barricadas, guiado pela noção de que “a propriedade é
um roubo”: contudo, voltou-se para o niilismo cínico depois
do fracasso da revolução. (Baudelaire nunca conseguiu
render-se totalmente. O seu emprego do plágio como estratégia
colonial invertida evoca claramente a noção de que a
propriedade é um roubo.) o projeto surrealista inicial de
André Breton-que sintetizava a libertação do
desejo com a libertação do trabalhador – se desfez
diante da ascensão do fascismo. (As discussões pessoais
de Breton com Louis Aragon sobre a função do artista
enquanto agente revolucionário não devem ser ignoradas.
Breton nunca conseguiu abandonar a idéia do eu poético
como uma narrativa privilegiada.) Breton abraçou cada vez mais
o misticismo na década de 30, e terminou se refugiando no
transcendentalismo. A tendência do trabalhador cultural
desiludido a recuar na direção da introspecção
para evitar a questão iluminista: “O que deve ser feito da
situação social à luz do poder sádico?”,
é a representação da vida através da
negação.
Não é que a libertação interior seja
indispensável e desnecessária, mais sim que não
pode se tornar singular ou privilegiada. Virar as costas à
revolução da vida quotidiana, e colocar a resistência
cultural sob a autoridade do eu poético, sempre levou à
produção cultural que é mais fácil de
coisificar e burocratizar. O surrealista que caiu no ostracismo,
Georges Bataille, oferece uma opção que ainda não
foi totalmente explorada: na vida quotidiana, em vez de confrontar a
estética da atualidade, ataque pela retaguarda, por meio da
economia irracional do perverso e do sacrificial. A chocante
constatação feita por Artaud de que o corpo sem órgão
havia aparecido, embora ele não pudesse ter certeza sobre o
que isto poderia ser, limita-se à tragédia e ao
apocalipse. Apesar de tudo, há um espaço decisivo para
a comédia e o humor como meio de resistência. Talvez
esta seja a maior contribuição da Internacional
Situacionista à estética pós-moderna. O
Nietzsche dançante está vivo.
Além do retrocesso estetizado, uma variedade mais sociológica
atrai a resistência romântica – uma versão
primitiva do desaparecimento nômade. Trata-se da retirada
desiludida para áreas fixas que escapam à vigilância.
Tipicamente, o recuo é para as áreas rurais que mais
negam a cultura, ou para áreas urbanas desterritorializadas. O
princípio básico é alcançar a autonomia
escondendo-se da autoridade social.
Assim como a autoridade localizada nas ruas era combatida por meio de
manifestações e barricadas, a autoridade que se
localiza no campo eletrônico deve ser combatida através
da resistência eletrônica.
A resistência ao poder nômade deve ser dar no ciberespaço
e não no espaço físico. O jogador pós-moderno
é um jogador eletrônico. Um pequeno mais coordenado
grupo de hackers poderia introduzir vírus e bombas eletrônicas
em bancos de dados, programas e redes de autoridade, colocando a
força destrutiva da inércia contra o domínio
nômade. A inércia prolongada se iguala ao colapso da
autoridade nômade em nível global. Tal estratégia
não requer uma opção unificada de classe, e nem
uma ação simultânea em varias áreas
geográficas. Os mesmos niilistas poderiam ressuscitar a
estratégia de ocupação mantendo como reféns
dados em vez de propriedades. O mais óbvio é que
aqueles que se engajaram na ciberrealidade formam em geral um grupo
despotilizado.
A maioria dos casos de infiltração no ciberespaço
tem sido um simples vandalismo por diversão ou vingança
pessoal contra uma fonte particular de autoridade. Aprimorando-se da
autoridade legitimizada da “criação artística”,
e usando-a como meio para estabelecer um fórum público
para discutir modelos de resistência dentro da tecnocultura
emergente, o produtor cultural pode contribuir para a perpétua
luta contra o autoritarismo. Além disso, as estratégias
concretas de comunicação por imagem /texto,
desenvolvidas por uso de tecnologia que escapa pelas brechas da
máquina de guerra, vão facilitar a criação
de materiais explosivos para serem jogados nas casamatas
político-econômicas por aqueles que se interessarem.
Cartazes, panfletagem, teatro de rua, arte pública – todos
foram úteis no passado. Mas como mencionamos acima, onde esta
o “público”, quem está na rua? A julgar pelo número
de horas que uma pessoa comum assiste televisão, aparece que o
público está envolvido com a eletrônica. O mundo
eletrônico, no entanto, não esta de forma alguma
totalmente estabelecido, e está ma hora de tirar vantagem
desta fluidez através da criação. Antes que nos
reste apenas a critica como arma.
A casamata nômade – o produto da “aldeia global”- tem
tanto uma forma eletrônica quanto uma forma arquitetônica.
A forma eletrônica é testemunhada como mídia, e
como tal, tenta colonizar a residência particular. Distrações
informativas fluem numa corrente incessante de infecções
produzidas por Hollywood, pela Madison Avenue e pela CNN. Protegida
na casamata eletrônica, uma vida de auto – experiência
alienada (uma perda do social) pode prosseguir em tranqüila
aquiescência e profunda privação. O espectador é
levado ao mundo, o mundo ao espectador, tudo mediado pela ideologia
da tela.
Da mesma forma que a casamata eletrônica, a casamata
arquitetônica é outro local onde a hipervelocidade e a
hiperinércia se cruzam. Casamatas como estas não estão
restritas a fronteiras nacionais. Na verdade, abarca o mundo. Embora
não possam se mover realmente pelo espaço físico,
simulam a aparência de estarem em toda a parte ao mesmo tempo.
A própria arquitetura pode variar consideravelmente, mesmo em
termos de tipos específicos. No entanto, o logotipo ou o totem
de um tipo especifico é universal, assim como seus artigos de
consumo. De um modo geral, é a existência destas
características redundantes que a torna tão sedutora.
Durante a Contra-Reforma, quando a igreja Católica percebeu,
no Concílio de Trento (1545-63), que a presença
universal era uma chave para o poder na era da colonização,
este tipo de casamata chegou à maioridade. O McDonald’s`’e
global.
Existem também casamatas sedentárias. Este tipo é
claramente de caráter nacional, sendo assim a casamata
preferida dos governos.
Em alguns casos estas casamatas são o último vestígio
do poder nacional centralizado (a Casa Branca). Em outros casos são
os locais onde se forja uma elite cultural cúmplice (a
universalidade), ou ainda locais da continuidade fabricada
(monumentos históricos). O jogo pós-moderno consiste no
incitamento ao pânico em toda a parte.
4- Idealizado pelo inglês
Jeremy Bentham (1748-1832) no fim do século XVIII, o panóptico
era um modelo de prisão cuja arquitetura permitia que os
guardas vigiassem os detentos sem ser vistos. Com o tempo, passou a
designar qualquer estrutura de controle onde o pode ser identificado.
(N. E).
VÍDEO E RESISTÊNCIA:
CONTRA DOCUMENTÁRTIOS
A diminuição da factualidade do objeto sensível
devido aos elementos subjetivos da memória e a insuficiência
da representação escrita como meio de preservar a
história fizeram com que o problema posto pela memória
fosse transformado em um problema posto pela memória fosse
transformado em um problema tecnológico. Este problema
finalmente ficou resolvido com a invenção da
fotografia. A fotografia podia fornecer um registro visual concreto
(a visão sendo o mais fidedigno dos sentidos), como uma
descrição do passado. Ela representava fatos em vez de
subjetivamente dissolvê-los na memória, ou abstraí-los
como na escrita. Enfim passou a existir algo que fizesse réplicas
visuais, produzindo deste modo um registro desvinculado da
testemunha. A apresentação visual de dados factuais
permitia que se testemunhasse objetivamente a injustiça da
historia, fornecendo aos que foram eliminados do registro histórico
um modo de tornar conhecido seu lugar. Robert Flaherty introduziu no
documentário a narrativa complexa, em seu filme Nanook of
the North.Este filme era marcado por uma gramática
cinematográfica ultracodificada, que abstrusamente gerava uma
historia a partir de pretensos fatos brutos. Os abismos entre as
discrepantes imagens representadas tinham de ser juntados pela cola
da ideologia romântica, a preferida pelo cineasta. Isto era
inevitável, uma vez que não havia fatos para o começo
da conversa, mas apenas lembranças reconstituídas. O
desejo de Flaherty de produzir o exótico levou-o a simular um
passado que nunca existiu. Na seqüência mais famosa do
filme, Flaherty recria uma caçada à morsa. Nanook nunca
tinha estado em uma caçada sem armas de fogo, mais Flaherty
insistiu que ele usasse arpões. Nanook se lembrava de que seu
pai tinha lhe contado sobre a tradição da caça,
e tinha visto antigos desenhos esquimós destas caçadas.
A partir dessas lembranças, mescladas com os conceitos
românticos de Flaherty, a caçada à morsa foi
reencenada. O resultado foi uma representação de uma
representação sob o pretexto de uma originalidade
inalcançável. O filme não é hoje, nem
jamais foi, a tecnologia da verdade. Mente a uma velocidade de vinte
e quatro quadros por segundo. Seu valor não esta em registrar
a historia, mas apenas em ser um meio de comunicação,
um meio pelo qual é gerado significado. Sem o principio
cientifico da causalidade estruturando rigorosamente a narrativa, a
autoridade do documentário rapidamente se dissipa, revelando
sua verdadeira natureza de propaganda ficcional. O documentário
de qualidade não se revela, e é essa trapaça
ilusionista – aperfeiçoada pela primeira vez pelo realismo
hollywodiano – que infelizmente guia a grande, maioria dos
documentários e obras testemunhais em vídeo que
trabalhadores culturais da esquerda produzem hoje em torrentes
infindáveis.
Esta exibição deplorável é
particularmente insidiosa porque transforma os trabalhadores
culturais da esquerda naquilo que eles mais temem: legitimadores da
matriz interpretativa conservadora. Se o principio fundamental da
política conservadora é manter a ordem em prol da elite
econômica e desencorajar a heterogeneidade social, então
o documentário, em sua forma atual é cúmplice
desta ordem, mesmo se levanta a bandeira da justiça social
sobre sua fortaleza ideológica. Isto é assim porque o
documentário não cria uma oportunidade para o
livre-pensamento, mas instila autocensura no espectador, que deve
absorver suas imagens dentro da estrutura de uma narrativa
totalizante. Para parar com essa manipulação, os
documentaristas devem se recusar a sacrificar a subjetividade do
espectador. É necessário abandonar a suposição
de que a imagem contém e revela uma fidelidade em relação
a seu referente. Isso por sua vez significa que não se pode
usar o código da causalidade como instrumento para construir a
continuidade da imagem. De preferência, deve-se usar estruturas
associativas fluidas que convidem a várias interpretações.
De fato, todos os sistemas de geração de imagens são
mediados pelo espectador: a questão é a que grau.
Poucos sistemas são um convite à interpretação,
e por conseguinte o significado é mais freqüente imposto
do que criado. O momento de confusão é a precondição
para o ceticismo necessário ao surgimento do pensamento
radical. O vídeo associativo é, por sua própria
natureza, recombinante. Ele agrupa e reagrupa imagens culturais
fragmentadas, permitindo que os significados gerados vagueiem sem
limites pela grade de possibilidades culturais. Para os produtores de
resistência, o vídeo recombinante não oferece
nenhuma solução. Pelo contrário, atua como base
de dados para que o espectador tire suas próprias conclusões.
Esse aspecto do filme recombinante pressupõe um desejo por
parte do espectador de assumir o controle da matriz interpretativa e
de construir seus próprios significados. Não se deve
forçar um ponto de vista particular com propósitos
pedagógicos. O que é mais lamentável é
que obras como essas são freqüentemente vistas como
elitistas, porque o uso que fazem da estética da confusão
no presente não atrai o apoio popular.
O TEATRO RECOMBINANTE E A MATRIZ PERFORMATIVA
Essa estranha intuição talvez mostre a percepção
de que, na medida em que uma representação do eu se
expande, a matriz performática fica atravancada com personas
simuladas que podem usurpar o papel da auto – representação
orgânica.
O corpo como representação renuncia à sua
soberania, deixando a imagem do corpo disponível para
apropriação e para seu restabelecimento em redes de
símbolos distintas daquelas do mundo real. De um ponto de
vista contemporâneo, isso não é necessariamente
negativo, já que sugere a possibilidade e o nosso papel, para
que desse modo se ajustem melhor aos nossos desejos. À luz
dessa possibilidade, deveríamos renunciar a noções
essencialistas do eu, da personalidade e do corpo, e assumir papéis
dentro da grade dramatúrgica da vida quotidiana. Entretanto,
há sempre uma inquietação que acompanha essa
possibilidade utópica. Essa ansiedade não vem tanto da
curiosa não – posição criada pela ausência
de qualidades fixas, mas sim pelo medo de que o poder da reinvenção
se encontre em outra parte. Sente-se que forcas externas hostis, e
não forcas automotivas, estão nos construindo enquanto
indivíduos.
Esse problema se torna cada vez mais complexo na tecnocultura, onde
as pessoas se encontram em teatros virtuais alheios à vida
quotidiana, mas que têm um tremendo impacto sobre ela.
Representações abstratas do eu e do corpo, separadas do
indivíduo, estão simultaneamente presentes em vários
locais, interagindo e recombinando com outras, alem do controle do
individuo e freqüentemente em seu detrimento. Para o artista
critico, explorar e examinar as perambulações e
manipulações dos vários dopplegänger (1)
eletrônicos dentro dos muitos teatros do virtual, deveria
ser fundamental.
Considere o seguinte cenário: uma pessoa (P) entra em um banco
pensando em conseguir um empréstimo. De acordo com a estrutura
dramatúrgica dessa situação, é necessário
que a pessoa se apresente como uma candidata a empréstimo
responsável e confiável. Sendo uma boa atriz, e
sentido-se a vontade no papel. P se vestiu adequadamente colocando
roupas e jóias que indicam um bom nível econômico.
P segue adequadamente os procedimentos para pedido de empréstimo,
e utiliza boas técnicas de montagem, com os apertos de mão
adequados, levantando-se e sentando-se de acordo com as expectativas
sociais e assim por diante. Além disso, P preparou e memorizou
um roteiro bem escrito que explica totalmente sua necessidade de um
empréstimo, assim como sua capacidade de pagá-lo. Por
mais cuidadosa que P seja em se ajustar aos códigos da
situação, logo fica claro que sua performance em si não
é suficiente para garantir o empréstimo. Tudo o que P
conseguiu com a performance foi convencer o funcionário a
entrevistar seu duplo eletrônico.
O funcionário levanta seu histórico financeiro no
computador. É esse corpo, um corpo de dados, que agora
controla o palco. Ele é, a verdade, o único
corpo que interessa ao funcionário. O duplo eletrônico
de P revela que ela atrasou o pagamento de empréstimos no
passado, e que está envolvida numa disputa financeira com
outro banco. O empréstimo é negado: fim da performance.
Esse cenário poderia facilmente ter tido um final feliz, mas
sua importância real é mostrar que a performance
orgânica era basicamente redundante. A realidade da pretendente
era duvidosa. Sua imagem abstrata na forma de dados financeiros
determinou o resultado da performance. A estrutura do palco,
representada pela arquitetura do banco, foi consumida pelo teatro
virtual. O palco da superfície da tela, apoiado pelos
bastidores constituídos de bancos de dados e internets, mantém
um privilégio ontológico em relação ao
teatro da vida quotidiana. As ondas infindáveis de
autoperformance, que se manifestam como recordações
nostálgicas do passado, quando a matriz performativa era
centrada na vida quotidiana e focalizada em atores orgânicos.
Como obra de resistência cultural, a intenção
subversiva da autoperformace aparece em sua tentativa fútil de
restabelecer o sujeito no palco arquitetônico. Como a maior
parte do teatro restauracionista, sua causa nasceu morta. Por mais
que pareça chocante, o pessoal não é
político na cultura recombinante.
-
Em
alemão, “sósia”, “duplicata”, igual”.(N.E)
-
O
Living Theater foi um grupo de teatro experimental fundado por
Julian Beck e Judith Malina em 1951, em Nova York. (N.E)
Espasmos da Língua
A boca fragmenta o corpo. O que sobra? Uma estreita constipação,
um violento significado que faz do vômito razão. A
grotesca colonização da cavidade oral rumina o corpo
silenciado e cospe uma bestialidade de sinais. O que sobra? Espasmos.
O olho tem um espasmo diante da língua virtual, cegando a
dominante necessidade de apropriação. O que resta
depois que o sistema digere tudo? Uma língua nômade
surfando as ondas de suas secreções digitais. Um
canibalismo pós-biológico que redelimita o corpo. O que
sobra?
O mamilo é a matriz de uma causa perdida, uma nostalgia de uma
pluralidade de redes na qual um é pouco e dois é apenas
uma possibilidade. O que sobra? Quando as línguas da tela se
fendem e sugam a chupeta de ideologias irreais e referentes irreais,
o câncer da tecnodemocracia se revela. Os mamilos decretam a
paixão eletrônica de duplos diacrônicos que tornam
indistintos o desejo e o trabalho.
O espasmo de bytes digitais legitima a violência da informação.
Tanto a mão esquerda quanto a direita são levadas pelo
ritual da representação e do sacrifício ante o
teclado da velocidade dromográfica. O que sobra? Mãos
hiper-reais, máquinas de desejo sociologicamente
inconscientes, sempre já possuídas. O que sobra?
O novo teatro deveria dizer ao espectador como resistir à
autoridade, independentemente da sua identidade política. Se
buscamos a libertação através do controle de
nossas próprias imagens, a performance deveria ilustrar os
processos de resistência e mostrar explicitamente como alcançar
a autonomia, por mais temporária que ela pudesse ser.
Na imagem eletrônica pode-se detectar os sinais mais claros da
ciberelite, mas o mais importante é que essa imagem também
é a fonte que redistribui identidades e estilos de vida para
sobreconsumo. Essa nova relação social entre o corpo
eletrônico (o corpo sem órgãos) e o corpo
orgânico é um dos melhores recursos de material
performático.
Existem todos os motivos para se desejar um corpo eletrônico, e
todos os motivos para desprezá-lo. Essa luta patológica
ocorre quando se vê o corpo eletrônico. Resultado na
implosão de sentimentos de atração (Husserl) e
inveja (Benjamin) em um instante esquizofrênico.
Como afirma Baudrillard: “a despeito de si mesmo, o
esquizofrênico está aberto a tudo e vive na mais estrema
confusão. O esquizofrênico não se caracteriza,
como geralmente se afirma, por sua perda de contato com a realidade,
mas por uma absoluta proximidade e total instantaneidade com as
coisas, uma superexposição à transparência
do mundo”.
Nos destroços da intersubjetividade, o orgânico e o
eletrônico ficam face a face. O corpo eletrônico parece
muito real. Ele se move, responde ao olhar, se comunica. Sua
aparência é a nossa aparência. A identidade se
manifesta e é reforçada, na medida em que a
subjetividade é extraída/imposta pelo outro eletrônico.
Como pode tal percepção não levar a uma resposta
positivista? No entanto, nesse mesmo instante de unidade surge um
sentimento abrasador de separação nascido da inveja. A
identidade do corpo eletrônico não é a nossa.
Devemos eternamente consumir algo para tornar nossa aparência
mais próxima da sua. O desejo por maior acesso aos símbolos
de beleza, saúde e inteligência, através do
incessante acúmulo de artefatos culturais, brutalmente nos
lembra que a perfeição do corpo eletrônico não
é a nossa. As limitações do orgânico são
abundantes, e o que é alcançado se torna vulgar e
desnecessário no momento da realização. A
revolução dialética acabou. A celebridade é
o nome que comumente se dá ao fenômeno da posse da carne
pelo Cs0. é de se espantar que a celebridades sejam
perseguidas em busca de autógrafos ou de quaisquer outros
artefatos que possam agir como um consolo para aqueles que desejam as
garantias da ordem pré-eletrônica? A performance do
hacker politizado deve ser a última palavra em resistência
performática. O pobre e patético corpo orgânico
esta sempre num estado de devir. Se consumisse só mais um
produto, talvez pudesse se tornar inteiro, talvez também
pudesse se tornar um corpo sem órgãos existindo no
espaço eletrônico. É insensato esperar ate que a
realidade virtual tenha a decoração de um teatro
clássico – teatro no qual o ator e o espectador podem entrar
fisicamente e que é envolvido por ambientes (eletrônicos)
artificiais. Como dissemos antes, os atores da resistência
devem estabelecer palcos recombinantes interligados, que oscilem
entre o teatro da vida quotidiana e o teatro virtual.
PLÁGIO UTÓPICO. HIPERTEXTUALIDADE E PRODUÇÃO
CULTURAL ELETRÔNICA
Numa sociedade dominada por uma explosão de “conhecimentos”,
explorar as possibilidades de significados naquilo que já
existe é mais premente do que acrescentar informações
redundantes (mesmo quando produzidas por meio da metodologia e da
metafísica do “original”).
O plagio historicamente se colocou contra o privilégio de
qualquer texto fundado em mitos espirituais, científicos ou
quaisquer outros mitos legitimadores. O plagiador sempre vê
todos os objetivos como iguais, e assim horizontaliza o plano do
fenômeno. Todos os textos se tornam potencialmente utilizáveis
e reutilizáveis. Aqui temos uma epistemologia da anarquia, de
acordo com a qual o plagiador sustenta que se a ciência, a
religião ou qualquer outra instituição social
impossibilita a certeza além do domínio do privado,
então é melhor dotar a consciência de tantas
categorias de interpretação quanto possível.
Durante a Guerra Civil Americana, Lincoln ficava sentado
pacientemente junto ao telégrafo esperando os relatórios
de seus generais no front. Ele não tinha paciência com a
retórica prolixa do passado, e exigia de seus generais uma
economia eficaz de linguagem. Não havia tempo para as firulas
tradicionais de um ensaísta elegante. A velocidade cultural e
a informação continuaram a crescer a uma taxa
geométrica desde então, resultando em um pânico
informativo. A produção e a distribuição
da informação (ou de qualquer outro produto) devem ser
imediatas: não pode haver lapso de tempo entre as duas. A
tecnocultura cumpriu essa exigência com bases de dados e redes
eletrônicas que rapidamente deslocam qualquer tipo de
informação. O gênio de um inventor como Leonardo
da Vinci residia em sua capacidade de recombinar os sistemas ate
então separados, da biologia, matemática, engenharia e
arte. Ele era mais um sintetizador do que um criador. Existiram
poucas pessoas como ele porque a habilidade de reter tantos dados em
uma única memória biológica é rara.
Agora, no entanto, a tecnologia da recombinação está
disponível no computador. Por volta de 1960, quando começou
a estudar programação de computadores na faculdade,
Theodor Nelson percebeu:
A idéia de Nelson, que ele chamou de hipertexto, infelizmente,
a convenção da leitura e escrita linear, assim como o
fato físico da bidimensionalidade das paginas e a necessidade
de costurá-las em uma única seqüência
possível, sempre limitou o verdadeiro potencial desse tipo de
texto. Um dos problemas é que o leitor é frequentemente
forçado a procurar por todo o texto (ou forçando a
largar o livro e ir procurar em outro lugar) informações
a fins. Esse é um processo confuso e que consome tempo: em vez
de ser capaz de se movimentar com facilidade e instantaneamente entre
áreas de armazenamento de informação fisicamente
remotas ou inacessíveis, o leitor tem que enfrentar obstáculos
físicos incômodos a sua pesquisa ou trabalho criativo.
Com o advento do hipertexto, tornou-se possível a movimentação
em meio a áreas correlatas de informação com uma
velocidade e uma flexibilidade que ao menos chegam perto de
finalmente se adaptarem ao funcionamento do intelecto humano, a um
grau que livros e leituras seqüenciais não poderiam
permitir.
Barthes e Foucault podem ser louvados por terem teorizado a morte do
autor. Contudo a ausência de autor é mais uma questão
da vida quotidiana para a tecnocrata que recombina e acrescenta
informações no computador ou no console de edição
de vídeo. Ele está vivendo o sonho do capitalismo que
ainda está sendo refinado na área da produção
industrial.
A noção japonesa de “entrega justin-in-time”
onde as peças são entregues na linha de montagem
exatamente na hora em que são necessárias, foi um
primeiro passo para modernizar os trabalhos de montagem. Em tal
sistema, não há capital sedentário, mas um fluxo
constante de matérias-primas. A mercadoria montada é
entregue ao distribuidor exatamente no momento em que o consumidor
necessita. Esse sistema nômade elimina a estocagem de produtos.
(Ainda resta algum tempo morto. No entanto, os japoneses o diminuíram
para uma questão de minutos.) Dessa forma, produção,
distribuição e consumo são implodidos em um
único ato, sem inicio nem fim, apenas circulação
ininterrupta. Da mesma maneira, o texto on line flui em uma corrente
ininterrupta pela rede eletrônica. Não pode haver lugar
para lapsos que criem unidades descontínuas na sociedade da
velocidade. Conseqüências, noções de origem
não tem lugar na realidade eletrônica. A produção
do texto pressupõe sua distribuição, seu consumo
e sua revisão imediatos. Todos que participam da rede também
participam da interpretação e da mutação
da corrente textual. O conceito de autor não morreu
exatamente, é mais uma questão de ter simplesmente
cessado de funcionar. O autor se tornou um agrupamento abstrato que
não pode ser reduzido à biologia ou à psicologia
da personalidade. De fato, tal desenvolvimento tem conotações
apocalípticas - o medo de que a humanidade se perca no fluxo
textual. Talvez os seres humanos não sejam capazes de
participar na hipervelocidade. Deve-se responder que nunca existiu
uma época em que os humanos fossem capazes, todos, de
participarem da produção cultural. Agora pelo menos o
potencial para uma democracia cultural é maior. O singular
biogênico não precisa servir de duble para toda a
humanidade. A verdadeira preocupação é
exatamente a mesma de sempre: a necessidade de acesso aos recursos
culturais.
As descobertas da arte e da critica pós-modernos concernentes
a estruturas analógicas das imagens demonstram que, quando
dois objetos são colocados juntos, não importa quão
distantes possam ser seus contextos, forma-se uma relação.
Restringir-se a uma única de duas expressões
independentes suplanta os elementos originais e produz uma
organização sintética de mais amplas
possibilidades. (C, vide notas, p.113)
O livro absolutamente não desapareceu. A industria do livro
continua a resistir à emergência do texto recombinante,
e se apõe a aumentos na velocidade cultural. Colocou-se na
lacuna entre a produção e o consumo de textos, a qual
por motivos de sobrevivência esta constrangida a manter. Se for
permitido que a velocidade aumente, o livro está fadado a
desaparecer, junto com a pintura e a escultura. Seus companheiros da
renascença. É por isso que a industria tem tanto medo
do texto recombinante. O texto recombinante fecha a lacuna entre a
produção e o consumo, e abre a industria para aqueles
que não são celebridade literárias. Se a
industria for incapaz de diferenciar seus produtos através do
espetáculo da originalidade e unidade, sua lucratividade será
ameaçada. Consequentemente, a indústria caminha com
dificuldade, levando anos para publicar informações
imediatas necessárias.
No entanto há uma peculiar ironia nessa situação.
A fim de diminuir a velocidade, ela deve também participar da
velocidade em sua forma mais intensa, a do espetáculo. Ela
deve declarar que defende “a qualidade e os padrões”, e
tem de inventar celebridades. Essas ações exigem a
instantaneidade da propaganda – ou seja, a total participação
nos simulacros que serão a destruição da própria
industria.
Daí que para o burocrata, de uma perspectiva quotidiana, o
autor vai muito bem, obrigado. Ele pode ser visto e tocado, e sinais
de sua existência estão nas capas dos livros e revistas
em toda a parte, sob a forma da assinatura. Contra tais provas, a
teoria só pode responder com a máxima de que o
significado de qualquer texto tem sua origem exclusivamente em sua
relação com outros textos. Tais textos dependem dos que
vieram antes deles, do contexto no qual estão colocados e da
habilidade interpretativa do leitor. Esse argumento, é claro,
não convence os segmentos sociais presos no atraso cultural.
Enquanto for este o caso, nenhuma legitimação histórica
reconhecida apoiará os produtores dos textos recombinantes,
que sempre serão suspeitos aos olhos dos mantenedores da
“alta” cultura.
FRAGMENTOS SOBRE O PROBLEMA DO TEMPO
Dada um dos objetivos –chaves para o trabalhador cultural da
resistência é perturbar a solidificação da
nova ideologia antes que ela se torne uma ordem simbólica de
uma tirania ainda maior do que a existe, e recanalizar a fusão
do hardware (vídeo, telefone, e computador) para uma forma
descentralizada acessível a outros além da elite do
poder. Não é realmente possível diferenciar
entre ficção e historia em um período de
sobrecarga de informações. A avalanche perpétua
de informações não aclarou a situação
corrente, pelo contrario, confundiu-a, deixando os autrora seguros
binários da dialética em ruínas. A historia não
existe mais: apenas a reflexão especulativa perdura no que é
agora o fractal do tempo. Quanto maior a velocidade, maior a
intensidade da fragmentação. Mudanças na
ideologia são muito lentas, visto que em seu sentido mais
grandioso a ideologia consiste de grandes narrativas que dão a
ilusão de estabilidade e segurança necessárias
para tornar a vida quotidiana inteligível. Há uma
peculiar contradição entre a ideologia econômica
e a ideologia “moral”, já que esta última pode agir
como resistência à primeira. Muitas das grandes
narrativas bíblicas, por exemplo, estão em desacordo
com o valor da velocidade tão essencial ao setor em desacordo
com o valor da velocidade tão essencial ao setor econômico.
A solução para essa contradição é
encontrada no setor político. Sua função é
mediar as contradições. Como exemplo, a grande
narrativa do Estado do bem-estar social tem sido um ponto-chave da
inércia nos Estados Unidos. A idéia de que se deve dar
aos pobres uma segunda chance, cuidar dos doentes e educar os
ignorantes é diametralmente oposta á construção
e manutenção da economia burguesa. O papel do governo
nesse conflito é manter uma ordem simbólica que leve à
percepção de que o Estado do bem-estar social. Isso
pode ser feito, por exemplo, sugerindo pequenos aumentos no salário
mínimo ao mesmo tempo em que se assina acordos de livre
comércio com países do Terceiro Mundo que permitem a
colonização irrestrita de suas fontes de mão-de-obra.
O universo de vida dos indivíduos da classe tecnocrática
indubitavelmente forma um enorme contraste com o dos indivíduos
da classe trabalhadora, em parte por causa das enormes diferenças
na tecnologia de produção. Enquanto a primeira classe
trabalha em um meio eletrônico que está em constante
transformação, a segunda ainda procede de acordo com um
modelo de produção que na melhor das hipóteses
ingressou na zona de tempo da tecnologia mecânica
pós-industrial. Em termos de lazer mediado, as duas podem
compartilhar uma zona de tempo semelhante, já que ambas têm
acesso à televisão, embora isso seja muito mais um
subproduto do espectro do mercado que intercepta todas as zonas de
tempo. A própria vida quotidiana se torna um definido caminho
através de determinados segmentos da historia sem jamais sair
do presente.
O que deve ficar claro desta discussão é que não
existe um presente histórico monolítico. O presente foi
estilhaçado em milhares de cacos, todos os quais requerem
distintas estratégias de resistência. Agora, mais do que
nunca, deve adotar uma epistemologia anarquista, uma epistemologia
que leve a um conhecimento de cada circunstância. Deve ser uma
epistemologia que permita a pesquisa e exploração em
qualquer zona de tempo ou zona segura de uma única casamata.
Quem for capaz deve estar livre para se mover através do
tempo, utilizando-se de quaisquer meios necessários.
A questão não deve ser quem é culpado, já
que isso pressupõe que haja indivíduos com autonomia
total em relação às instituições
sociais. De preferência, a questão deve ser: quais são
os mecanismos institucionais que promovem a situação
corrente? Macroestruturas, em grande parte, são independentes
de ação individual. A associação de
macroestruturas, frequentemente denominada máquina de guerra
pela cultura da resistência, não esta sob controle de um
grupo de pessoas, nem é controlada por um aglomerado de
Estados-nação. A razão de ser tão temida
é justamente porque ela esta fora de controle. Ela não
pode ser desligada, mesmo quando algumas de suas utilidades para a
cultura dominante tenham cessado. Localizar sua fonte de vida é
mais complicado do que dizer que ela está na psique de homens
brancos heterossexuais, ou de qualquer outra fonte construída
apenas em torno do conceito de capacidade de ação. Esta
é uma redução absurda que só faz desviar
as energias para debates reformistas quase inconseqüentes, na
medida em que não irão mudar a estrutura ou a dinâmica
da maquina de guerra. Uma quantidade avassaladora de obras
eletrônicas aborda questões de identidade, catástrofes
ambientais, guerra e paz e todas as outras questões geralmente
associadas à representação ativista.
Um exame da própria tecnocultura ainda está para ser
feito. Quando tal investigação ensaia ser feita, acaba
sempre se encaixando em narrativas ativistas mais tradicionais. Como
era de se esperar, uma grande parte das obras é sobre a
desinformação da mídia – a investigação
eletrônica da realidade - e elas sempre estão ligadas a
argumentos persuasivos que tentam convencer o espectador a seguir uma
interpretação alternativa de um dado fenômeno
específico “do modo real”. Os ativistas não mostram
nenhum interesse particular em questionar a cibernética da
vida quotidiana, a fenomenologia da superfície da tela, a
construção da identidade eletrônica, e assim por
diante.
Foi exatamente o oposto o que ocorreu no desenvolvimento do
vídeo-televisão. Embora o hardware para a produção
esteja começando a ficar descentralizado, a rede de
distribuição é quase que totalmente
centralizada, com poucos indícios de que essa tendência
esteja mudando.
Deve-se resistir a esse estado de coisas: não se pode permitir
que a ideologia que sanciona o controle das faixas de freqüência
por uma elite da classe capitalista domine toda a tecnologia. Os
trabalhadores culturais devem lutar pela descentralização
do acesso a redes eletrônicas.
Há um fator imprevisível nessa situação.
O computador poderia seguir qualquer um dos dois caminhos. Os acessos
a hardware, educação e redes estão atualmente
sendo descentralizados. Diferentemente do telefone e da televisão,
os computadores ainda não penetram a vida quotidiana de quase
nenhuma das classes. Essa tecnologia primariamente de elite fincou
uma raiz profunda na classe burocrática. A classe de serviços
eletrônicos esta crescendo, mas ainda está longe de se
universalizar.
Por isso, aqueles que estão em zonas de tempo atrasadas vêem
os computadores como uma tecnologia importante. Essa visão
prejudica a resistência à centralização
dos sistemas de comunicação, já que tal
diferença permite que a elite capitalista imponha princípios
de auto – regulamentação e exclusão à
tecnologia sem ter de prestar contas ao público. A tecnologia
é perdida antes que o público nem sequer tenha
consciência de suas ramificações.
Uma das funções críticas essenciais dos
trabalhadores culturais é inventar meios estéticos e
intelectuais de comunicar e distribuir idéias. Se a elite
nômade controlar totalmente as linhas de comunicação,
os trabalhadores culturais da resistência ficarão sem
voz, sem função, sem nada. Se é para ter voz, os
trabalhadores culturais devem consolidar e ampliar seu atual grau de
autonomia no espaço eletrônico.
Existe um lado mais otimista. O vinculo do computador com o
computador e o telefone é muito maior do que com a televisão.
Na verdade, o computador e o telefone irão provavelmente usar
sistemas a cabo. Se a visão da descentralização
puder ser mantida, redes de fibra ótica irão
proporcionar o espaço eletrônico democrático que
há tanto tempo tem sido um sonho. Cada lar poderia se tornar
seu próprio estúdio de transmissão. Isso não
significa que a transmissão em rede vá entrar em
colapso, u que haverá acesso livre a bancos de dados: mas
significa que existirá um método barato de distribuir
globalmente produções populares complexas e redes
alternativas de informações contendo imagens, textos e
sons baseados no tempo – tudo acessível sem necessidade
burocrática. Será tão fácil quanto dar um
telefonema.
PARADOXOS E CONTRADIÇÕES
Esse tipo de escolha entre duas opções não pode
escapar de contradições lógicas (paradoxo de
Gödel (2)) é pressuposto que se deve resistir à
transferência do poder do individuo para o Estado. A
resistência em si é a ação que recupera ou
expande a soberania do indivíduo. Ou, o que dá no
mesmo, é aquela ação que enfraquece o Estado.
Portanto, a resistência pode ser vista como uma questão
de grau: uma destruição total do sistema não é
a única opção, e pode nem mesmo ser uma opção
viável.
Ao longo deste Trabalho, duas questões aparentemente
contraditórias foram apontadas: a situação atual
é parcialmente caracterizada por uma sobrecarga de
informações, e ao mesmo tempo pelo acesso insuficiente
à informação. Como podem ocorrer ambas ao mesmo
tempo? Este é um problema de ausência e presença
– a presença de uma sobrecarga de informações
sob a forma de espetáculo (presença) que rouba
soberania, e uma ausência de informação que
devolve a soberania ao indivíduo. De fato, informações
para o consumismo e ideologia governamental são abundantes.
Bancos de dados estão cheios de fatos inúteis, mas como
se pode ter acesso a informações que afetam diretamente
a vida quotidiana?
O corpo de dados de um indivíduo esta totalmente fora de seu
controle. Informações sobre padrões de consumo,
associações políticas, históricos de
credito, cadastros bancários, educação, estilos
de vida e por aí em diante são coletadas e cruzadas por
instituições político – econômicas para
controlar nossos destinos, desejos e necessidades. Finalmente, onde
está a rede que permite que demandas de massa sejam expressas?
Simplesmente não existe.
Esse é um caso peculiar de censura. Em vez de parar o fluxo de
informações, gera-se muito mais do que pode ser
digerido. A estratégia é tornar secreta ou privatizar
todas as informações que poderiam ser usadas pelo
indivíduo para seu autofortalecimento, e enterrar as
informações úteis sob montanhas de dados inúteis
e propaganda que são oferecidos ao público. Em vez do
tradicional ocultamento de informações (blackout),
enfrentamos uma tempestade de informações (whiteout).
Isso força o individuo a depender de uma autoridade que o
ajuste a priorizar a informação a ser selecionada. Este
é o fundamento da catástrofe de informações,
uma reciclagem interminável da soberania que a leva de volta
ao Estado sob o pretexto da liberdade de informação. O
problema que investigamos é: como a descentralização
tecnológica poderá devolver a soberania ao individuo em
vez de retirá-la? Grande parte da resposta está
vinculada à tecnologia ser aceita como um meio passivo de
consumo ou como um meio ativo de produção. Como um
número suficiente destas células agindo – mesmo se
seus pontos de vista divergem – pode-se apostar que uma corrente
social de resistência emergirá... Uma corrente que não
será fácil desviar, encontrar ou monitorar. Dessa
maneira, pessoas com pontos de vista diferentes e especialidades
diferentes podem trabalhar em uníssono, sem concessões
e sem a renuncia da individualidade em prol de um agrupamento
centralizado.
2. Kurt Gödel (1906-1978),
matemático austríaco. O paradoxo de Gödel
estabelece que dentro de qualquer sistema matemático lógico
rígido existem proposições que não podem
ser provadas falsas a partir dos axiomas do próprio sistema
(N. E).
Os trechos acima foram extraídos do livro Distúrbio Eletrônico, do
Critical Art Ensemble, na versão traduzida por Leila Souza Mendes para
o Coletivo Baderna, publicado pela Editora Conrad.
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Shikalukakuta: saiba seu nome em japonês
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Shikalukakuta: saiba seu nome em japonês
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Shikalukakuta: saiba seu nome em japonês
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