Um polímata autodidata eclético

Posted By Rafael Reinehr on fev 29, 2020 | 0 comments


Volta e meia, aqui e acolá, me defino como um “polímata autodidata eclético“. Mas o que significa isso?

Vejamos o que diz o dicionário:

polímata: Pessoa que tem conhecimento em muitas ciências; quem conhece ou estudou muitas ciências: Leonardo da Vinci é mais famoso polímata do nosso tempo. Pessoa que possui um vasto conhecimento em muitas áreas. Alguém cujo conhecimento não está restrito a um único âmbito científico;

autodidata: Pessoa que aprendeu alguma coisa sozinha, por si mesma, sem a ajuda de um professor, mentor ou instrutor: Exemplo: o médico era autodidata em fotografia e guitarra e formado em Medicina.

eclético: Eclético é sinônimo de diverso, vasto, variado. O que escolhe o que parece melhor em todas as manifestações do pensamento.

E essas três palavras, sem uma pretensa falsa humildade nem tampouco uma esnobe arrogância, me definem, em parte. Vou te explicar, abaixo dessa selfie que tirei no terraço do Eko Residence Hotel, em Porto Alegre, em fevereiro de 2020.Rafael Reinehr em PoA

 

Aprendi a ler muito cedo. Aos 3 anos e meio, pelo que me contaram, já lia classificados de jornais e os nomes e números da lista telefônica. Quem me ensinou a ler foi minha querida tia Solange, dentista, que desenvolveu, de forma totalmente autônoma, um método próprio de alfabetização que, para mim, caiu como uma luva.

O gosto da leitura para mim sempre foi nativo. Não era um esforço, era um enorme prazer. E continua sendo. Amo estudar, ler, pesquisar, aprender, saber! Desde sempre! Isso ia desde revistas em quadrinhos, livros de ficção e não-ficção e enciclopédias. Tenho uma história com a leitura que, olhando para trás, agora parece cândida, mas foi profundamente assustadora quando aconteceu. Vou te contar:

Creio que eu deveria ter cerca de 9 ou 10 anos. Como eu amava ler, e era simplesmente apaixonado por revistas em quadrinhos, eu tinha mais vontade de ler do que dinheiro para comprar e ter acesso às revistinhas. Minha avó Helga (que neste ano irá completar 90 anos, amada!) me dava dinheiro para comprar merenda na escola. Pois tudo que uma avó quer é ver seu netinho bem alimentado, não é mesmo? Entretanto, a minha fome maior era pela leitura! Então, com alguma frequência, eu juntava o dinheiro de duas ou três merendas para comprar revistinhas na banca do seu Lidor Drews, que ficava a 2 quadras de distância da minha casa. Mas, para fazer isso, eu precisava fazer escondido pois ai de mim se minha avó descobrisse que eu comprava gibis ao invés de comprar merenda!

Eu aproveitava a ida da minha avó ao supermercado ou à padaria para minhas incursões de busca literária! O detalhe é que a padaria ficava a apenas uma quadra de distância da minha casa. Então eu precisava ser rápido. Me lembro até hoje das corridas que fazia para ir e voltar antes que minha avó voltasse!

Por muito tempo, esta estratégia deu certo, e minha avidez por leitura era satisfeita e minha coleção de gibis só fazia aumentar. Mas houve um dia que não deu certo! Não lembro se eu fiquei entretido escolhendo gibis, ou se minha vozinha simplesmente pegou um pão e logo voltou, o fato é que ela estava em casa antes de mim, e me pegou no flagra, com a “boca na botija” ou, literalmente, com as mãos nas revistinhas.

A vergonha foi imediata. E aumentou ainda mais, quando ela me ordenou ir até a banca do seu Lidor, devolver as revistinhas e pegar o dinheiro de volta! Mein Lieben Gott, que vergonha! Lá foi o pequeno Rafinha, pé ante pé, pensando o que iria dizer ao seu Lidor para pedir o dinheiro de volta!

O fato é que foi um pequeno aprendizado. Como minha vó era bastante justa, depois eu comecei a ganhar um dinheirinho ajudando a varrer a calçada, a cozinha e a sala, secando pratos e consegui continuar comprando minhas revistinhas! Mas ela fez certo: naquela hora precisava mesmo me dar uma lição e mostrar que eu estava quebrando a confiança dela!

Passaram-se alguns anos…

Na sexta-série do ensino fundamental, li espontaneamente, 67 livros ao longo do ano letivo, sem que nenhum professor houvesse solicitado. Era porque realmente gostava de ler. Nessa época, mesmo jovem, já tinha um conhecimento enciclopédico. Era aquele menino que, se fosse levado para aquelas competições de conhecimento que aparecem na TV, muito provavelmente ganharia ou chegaria pelo menos nas finais. Foi nessa época que devorei a Série Vaga Lume e também que li, pela primeira vez, o livro O Homem Que Calculava, de Malba Tahan, que recomendo a qualquer pessoa que esteja lendo estas palavras agora.

À medida em que envelhecia, este gosto pela leitura nunca me deixou. As leituras passaram a ser um pouco mais profundas mas não menos divertidas… O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, Analectos, de Confúcio, O Tao da Física e O Ponto de Mutação de Fritjof Capra, Ensaios de Complexidade e O método, de Edgar Morin, A Teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner, Inteligência Emocional de Daniel Goleman, O valor do amanhã, de Eduardo Gianetti, A Utopia de Tomas Morus, A Desobediência Civil de Henry David Thoreau…só para citar alguns…

Durante a própria graduação em Medicina, entre 1994 e 1999, nunca consegui ficar aprendendo “só Medicina”. Para algumas pessoas, isso pode parecer estranho: mas é possível estudar algo mais quando se cursa Medicina. A resposta é SIM! Um grande e estrondoso SIM! Principalmente se você desligar a televisão, ou consumi-la com geniosa moderação! Nestes anos, fiz um curso de Introdução à Filosofia incluindo a Lógica, curso de Antropologia de Culturas Urbanas, História da Ciência, Pensando a Complexidade com Edgar Morin, Finalizei minhas especializações avançadas em língua inglesa, cursei Alemão e, isso tudo, sem deixar de me divertir, estar com amigos, namorar, escrever e criar ideias e projetos variados. 1999 foi também o ano em que publiquei meu primeiro livro.

Em 2000 e 2001, logo após finalizar a graduação em Medicina, passei a fazer a Residência em Medicina Interna, no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre. Em 2002 e 2003, fiz a Residência em Endocrinologia e Metabologia, no mesmo hospital. Em 2000, prestei novo vestibular para Filosofia na UFRGS, e fiquei em quinto lugar, sem ter estudado nada depois de 6 anos longe dos livros do ensino médio. Fazia a residência de dia e, à noite, cursava Filosofia no Campus do Vale, em Viamão. Entretanto, Como haviam muitas cadeiras diurnas na Filosofia (que eu sempre amei), solicitei transferência para Ciências Sociais noturno, que cursei até o final de 2002, quando decidi interromper para dedicar-me à prova de título de especialista, que haveria no final de 2003. E assim fiz.

Gostaria de seguir esta história, provavelmente o farei em outro momento, pois ela tem fatos divertidos, alguns tristes, outros até incômodos – mas sinto que ela já está ficando longa demais!

Em algum momento no futuro, compartilho com mais detalhes especificamente sobre o meu caminho do autodidatismo: as lições que aprendi em relação ao tempo que estive apoiado por tutores e naquele em que escolhi caminhar solo como forma de produzir e alcançar conhecimento e como foi minha experiência com estes dois modos de ser e viver. Antecipo: ambos teu seu valor, suas vantagens e desvantagens!

Espero ter deixado um pouco mais clara minha jornada, mesmo que de forma incompleta, sem narrar com detalhes esse período e mesmo sem pincelar o que aconteceu entre 2004 e 2020. Mas isso é assunto para outra história!

Tenha um ótimo dia e que ele seja recheado de boas escolhas!

Namaskar

PS: Enquanto isso, que tal ler um artigo que escrevi sobre Autodidatismo e Desescolarização e outro sobre Recursos Educacionais Abertos?

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