…(continuação do pôust de 20/12/2003)

O livro contra-ataca (parte II)

Sob o subtítulo de “nexo hipertextual”, Umberto Eco passa a tentar responder a segunda questão que ele mesmo havia formulado: “Os livros desaparecerão como objetos virtuais?“.

Para tanto, Eco considera o surgimento de textos em que a infinidade de interpretações não depende só do leitor mas também da “mobilidade física” do próprio texto. Creio que presenciamos isto a cada entrada na Internet, onde através de um línque somos remetidos a outro lugar e de lá a outro e assim por diante. Utilizando o exemplo dos blógues, acabamos construindo nosso próprio texto, único e pessoal. Ontem mesmo: entrei no blógue Liberal Libertário Libertino, li o pôust sobre Ateus e Crentes e de lá fui remetido ao blógue do Alexandre Soares Silva. Depois de ter lido o brilhante texto ali postado fui aos comentários e me interessei pelo que escreveu um digníssimo colega blogueiro denominado O Velho da Montanha. Cliquei no línque do comentário e fui catapultado para o blógue do Velho, cujo pôust de 22 de dezembro versava sobre o “fundamentalismo laico“. Assim, nesta seqüência que não pára nunca, criamos nossas próprias leituras de textos hipertextuais disponíveis ao clicar de um mouse. Acontece o mesmo com todos impacientes como eu que ainda se aventuram a tentar assistir algo na televisão aberta, que conseguem no máximo ficar zapeando entre um e outro canal em busca de algo interessante.

Umberto diferencia os sistemas de textos propriamente ditos. Para ele, sistema seria a totalidade das possibilidades apresentadas por uma dada língua natural. Gramáticas, dicionários e enciclopédias seriam sistemas, com os quais poderíamos produzir todos os textos que quisermos. Já um texto propriamente dito não é um sistema lingüístico ou enciclopédico. “Um texto dado reduz as possibilidades infinitas ou indefinidas de um sistema para criar um universo fechado. Se pronuncio a frase “nesta manhã, comi no desjejum…”, por exemplo, o dicionário me permite listar muitas unidades possíveis, contanto que todas elas sejam orgânicas. Mas, se eu produzo meu texto de forma definida e pronuncio a frase “nesta manhã, comi no desjejum pão e manteiga”, excluí o queijo, caviar, o pastrami e as maçãs. Um texto castra as possibilidades infinitas de um sistema”. Ainda deixamos de especificar se o pão era um pão francês, integral, de centeio, preto ou de linhaça, mas isto não vem ao caso, é somente meu devir criança invadindo uma conversa séria! Com certeza, a poesia, por não produzir um texto tão definido e fechado, freqüentemente possibilita múltiplas possibilidades de interpretação. Quando se consegue passar esta mesma percepção para a prosa, o painel que se descortina é fulgurante! É dado o exemplo de Finnegans Wake, de Joyce, obra aberta a numerosas interpretações, mas com certeza – diz Eco – o texto nunca dará uma demonstração do teorema de Fermat ou uma bibliografia completa de Woody Allen (com o que concordo!).

Para tornar um texto fisicamente ilimitado, Umberto lembra o exemplo atual de histórias criadas por múltiplos autores, quer seja seqüencialmente ou mesmo simultaneamente, com várias possibilidades de continuação seguindo-se a cada bifurcação determinada possibilitando incontáveis desfechos. Isso que escrevi agora me faz lembrar de Ilia Prigogyne, químico-físico russo que ganhou o prêmio Nobel de Física em 1976 se não me engano por seu estudo com estruturas dissipativas, baseado na segunda lei da Termodinâmica.

Em seu livro Order Out of Chaos ele faz um correlação entre suas pesquisas científicas e os sistemas sociais. É nesse momento, enquanto discute acaso e determinismo, que se encontra o gancho que me trouxe até aqui: para Prigogyne, o mundo não é nem todo somente acaso nem todo somente determinismo. Existem caminhos determinados até uma bifurcação. Quando chegamos nesta bifurcação, quem manda é o acaso (ou o livre arbítrio,

em se tratando de seres humanos).

Voltando a Umberto Eco, diz ele que estas histórias de múltiplos autores já ocorrera no passado,citando então a commedia dell’arte italiana em que, a partir de uma sinopse histórica, cada apresentação diferia das demais, conforme a imaginação dos atores, sendo que dessa forma não se identificava uma obra única, escrita por um autor único.

Outro exemplo citado pelo autor é uma sessão de jazz, onde o improviso e a possibilidade de múltiplos resultados para uma mesma “música” são classicamente aceitos. Sobre a questão do fim da autoria, Umberto acha que a produção destas histórias coletivas e infinitas por meio da Internet não acabarão com a literatura autoral. Diz ele: “A rigor, marchamos rumo a uma sociedade mais liberada, em que a criatividade livre vai coexistir com a interpretação de textos já escritos. Eu gosto disso. Mas não podemos dizer que substituímos uma coisa antiga por uma nova. Temos as duas.”.

Um último aspecto abordado pelo romancista e semiólogo italiano dentro da textualidade livre possibilitada pela Internet diz respeito às possíveis modificações que poderíamos facilmente fazer se tivéssemos os livros de forma interativa e hipertextual. Cita-se o exemplo de Guerra e Paz de Tolstói. Poderia-se criar um texto em que “Pierre Besuchov consegue matar Napoleão ou, conforme as tendências da pessoa, Napoleão consegue uma vitória completa contra o general Kutuzóv”, o que é impossível com o livro já escrito. O romance Guerra e Paz já escrito – diz Eco – não nos põe frente a frente com as possibilidades infinitas da nossa imaginação, mas sim com as leis severas que governam a vida e a morte.

Para concluir, o autor de “A Ilha do Dia Anterior” e “O Pêndulo de Foulcault” usa o livro “O Miseráveis” de Victor Hugo, onde a batalha de Waterloo é descrita do ponto de vista de Deus, que a acompanha em todos os detalhes, dominando o cenário com a sua perspectiva narrativa para encerrar com uma brilhante defesa a favor dos livros:

“A beleza trágica da Waterloo de Hugo reside em que os leitores sentem que as coisas se passam de forma independente de seus desejos. O encanto da literatura trágica reside em que sentimos que seus heróis poderiam ter escapado de seu destino, mas não o conseguem em razão de sua fraqueza, de seu orgulho, de sua cegueira. Além disso, Hugo nos diz: “Tamanha vertigem, tamanho engano, tamanha ruína, tamanha queda, que assombrou a história inteira, será algo sem uma causa? Não… O desaparecimento desse grande homem foi necessário para a vinda do novo século. Alguém, a quem ninguém pode fazer objeções, cuidou do evento… Deus omitiu-se, Dieu a passé”. Isso é o que todo grande livro nos diz, que Deus se omitiu, e Ele se omitiu para o crente e para o cético. Há livros que não podemos reescrever porque sua função é nos instruir acerca da necessidade e, só quando respeitados tal como são, podem eles nos fornecer tal sabedoria. Sua lição repressiva é indispensável para alcançarmos uma condição mais elevada de liberdade intelectual e moral.”

Digo muito obrigado por essa lição de humildade digníssimo Umberto Eco! Sigamos nosso misto de criação-transformação-recriação sempre em busca de algo melhor para todos que nos cercam.

Pôust Natalino

É Natal. Sei, sei… és agnóstico como eu, ateu ou mesmo um cristão que não tá nem aí com essa função toda. Ou, pelo contrário (e mais provavelmente) és alguém imerso plenamente nesta época de Natal (ou Hanukah). Pois é… Motivo pra comemorar não temos muito, mas, mesmo não acreditando mais no Natal, deixando o cristianismo de lado (e lá já se vão 9 anos, vivo e bem!) não consigo me tornar um ser estranho a toda esta festividade! Foram muitos anos com pinheirinhos enfeitados, canções de Natal, papais-noéis atirando balinhas na rua, visitas de papais-noéis entregando presentes em casa, muitos brinquedos (e muitas roupas (bléeeeeeeeeeeeeeeee!!!) é verdade!)… E, mais importante que tudo isso, o fato de que todos ao meu redor entram no “espírito natalino”. É namorada, mãe, vó, tia, colegas de trabalho, pessoas na rua… Difícil se desvencilhar! Como vou deixar de desejar um Feliz Natal àqueles que desejam isso para mim? Não dá! Então, acabo entrando junto na função, sem compartilhar a mesma crença mas compartilhando o desejo de um mundo melhor daqui por diante. Se não me baseio no aniversário de Jesus, pelo menos aceito o momento como um período de ¿reflexão espiritual¿;

– Reflexão espiritual? Agora consumismo mudou de nome? As pessoas só pensam em comprar, comprar, comprar! Isso é Natal?

Hmmmm… Deixa esse papo pra outra hora! O importante é ser feliz, “o importante é ser você, mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro”…

De qualquer forma, um Feliz Natal para aqueles que acreditam e também para aqueles que não acreditam! Para os crentes e para os céticos, como nos ensinou Victor Hugo, o melhor dos mundos é o agora e é o porvir. Desejos sinceros e vigorosos de um final de 2003 portentoso e exuberante.

Da freqüência ideal dos pôusts em um blógue

Já de cara quero dizer que não existe uma freqüência ideal para postar em um blógue.

Mas então, por que cargas d’água este título? Já explico: creio que a freqüência ideal dos pôusts de um blógue deve ser determinada por pelo menos 3 variáveis:

1. Tempo e disposição do blogador (fator limitante primário)

2. Tempo e disposição dos leitores do blógue (levando em conta que o blógue seja feito para alguém ler, é claro. Acredito que os blógues “não-públicos” devam ser grande minoria a esta altura…) – para que este fator tenha influência na freqüência da postagem, o blogador deveria conhecer muito bem seu público-alvo, seus leitores…

3. Tipo de assunto abordado (por exemplo: um blógue que trate de humor, pode ter pôusts diários, pois geralmente são assuntos de fácil digestão; o mesmo se pode dizer a respeito de um blógue com “rapidinhas” ou outro que narre as peripécias do dia-a-dia da figura escrevente. Já um blógue que se propõe a discutir temas mais densos ou extensos deveria (embora não necessariamente) se deter mais antes de apresentar um novo pôust, para que o anterior seja devidamente absorvido e internalizado pelos leitores.)

Outro aspecto que pode influir na freqüência da postagem de um blógue é o número de visitantes e/ou comentadores. No caso do blógue ser mais visitado e comentado, a freqüência das postagens pode ser maior, já que o efeito esperado (a resposta do leitor) já foi evidenciada. Em casos de blógues como esse que agora estais a ler, o tempo entre cada postagem necessariamente deve ser maior para possibilitar o alcance de cada pôust a um maior número de cabeças pensantes. Veja-se que o contrário não é verdadeiro, ou seja: um blógue com muitos acessos e comentários pode muito bem ter um longo intervalo entre os pôusts sem que isso prejudique de forma alguma seu desempenho ou aceitação!

Não acho – e ouso discordar de minha namorada – que só mantém um blógue uma pessoa que aspire “sucesso” com a exposição do mesmo, mas também acredito ser hipocrisia que alguém o mantenha, principalmente com um espaço destinado a comentários e um contador na página, sem ter a intenção de provocar uma resposta e angariar leitores, preferentemente um público fiel. Várias “campanhas de marquetching” como visitas repetidas a milhares de blógues, elogios enfadonhos porém exultantes e línques generosos em troca de outros línques podem fazer com que seu blógue seja visitado e comentado por dezenas ou centenas de pessoas mas isso não irá, de forma alguma, garantir a qualidade daqueles que te visitarão e muito menos a qualidade dos comentários deixados em seus pôusts (que acredito ser, consoante ao meu amigo Milton Ribeiro, a maior riqueza que podemos dispor nesta Blogosfera).

Assim, quer seja postemos diariamente, semanalmente ou a cada 6 e 5 dias alternados como eu farei aqui no Escrever Por Escrever por tempo (in)determinado (até 29 de fevereiro de 2004 pelo menos), o importante é saber que não é a freqüência da postagem que vai determinar o valor do blógue e sim o sincero sentimento de uma busca de utilidade para o mesmo e, é claro, a qualidade do escritor, aquela valiosa pecinha que fica atrás do teclado na longa cadeia de bits e impulsos elétricos que fazem destas maravilhas tecnológicas que são a informática e a internet uma janela para um mundo melhor.

PRÓXIMO PÔUST: “2004 – A Odisséia do Fracasso” e “A Grande Cooperativa Mundial”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *