2004 – A Odisséia do Fracasso

Odisséia, no Houaiss significa “longa perambulação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares”; “narração de viagem cheia de aventuras singulares e inesperadas”; “travessia ou investigação de caráter intelectual ou espiritual” – além de descrever, é claro, uma passagem de Ulisses na Odisséia de Homero, onde são apresentados os percalços do herói em seu retorno para Ítaca, sua terra natal.

Fracasso, no mesmo amansa-burro, significa “som estrepitoso provocado pela queda ou destroçamento de algo; barulho; estrondo“; “falta de êxito; malogro; derrota; baque; ruína; desgraça“.

Colocando tudo isto no nosso poderoso liqüidificador UltronMegaMixer 2004 ExtraPlus, podemos definir nosso título como uma tentativa de descrever, de forma singular e surpreendente as possíveis desgraças e malogros aos quais a humanidade estará sujeita no ano que adentramos.

Tarefa difícil para um mero Zé-ninguém como eu, diria Wilhelm Reich.

Tentando sair da inércia básica a que estamos acostumados, começo minha inglória tarefa. Decido principiar pela minha terra-pátria, o Brasil. Em concorde com o que por aí é dito, este que aqui vos fala também percebe o ano de 2004 como uma “chance aos homens de bem mostrarem seu valor”. Neste ano, nosso excelentíssimo Presidente da República, senhor Luis Inácio Lula da Silva, não deu conta nem sequer de se aproximar daquilo que nos havia induzido a imaginar. Mas, como por ele mesmo dito – de outra forma, é claro – está sendo preparado o terreno para o crescimento. Dê-se-lhe o tempo que é necessário. A traição aos princípios, teimo em acreditar, é esperteza para com o ambiente ardil e não uma traição verdadeira. Não esteja eu enganado, por favor.

Neste mesmo Brasil, surgirá uma intrépida trupe de valorosos cavaleiros afeitos às letras que buscará, de todo coração, através da união em torno de uma maravilhosa ferramenta ora denominada de Internet, através de seus blógues – e fora deles – organizar de forma crescente e importante o estímulo à leitura por parte daqueles menos favorecidos ou menos atentos às necessidades que se lhes impõe. A redescoberta da leitura por parte da população nativa se dará através de mecanismos não governamentais – e quisera eu também governamentais – como a organização de oficinas literárias gerenciadas por voluntários e pessoas de renome na área literária bem como a proliferação de Saraus Literários pelas capitais e cidades do país. Nesses Saraus novos escritores serão conhecidos, pois neles será dado amplo espaço para a leitura em público de trechos de suas obras ou mesmo trechos de clássicos da literatura. Um dos primeiros Saraus desse tipo – e com este objetivo – ouvem-se rumores, já está a ser arquitetado em Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul. A partir daí uma grande rede de comunicação usando a teia mundial irá disseminar mais e mais esta paradoxal “utopia possível”.

Nos Estados Unidos da América, o atual presidente “não-eleito” George W. Bush, a despeito do que teimam pensar seus partidários (ainda mais após a prisão de Saddam Hussein), terá grandes dificuldades em se reeleger. Minhas apostas são contrárias à sua reeleição.

No lado iraquiano, com seu estado destroçado, muitas mortes ainda ocorrerão até que o sistema judiciário e de controle da violência, vinculados às ferramentas estatais de comando sejam reestabelecidas. Muita fome e miséria, muito sofrimento é previsto. Para tal conclusão não é preciso ser nenhum gênio… Creio que mesmo Forrest Gump chegaria à mesma conclusão.

A China, potência em potencial ainda não desabrochará completamente. Apesar de toda sua energia humana capaz de gerar um produto interno bruto fenomenal, haverá dois principais aspectos a restringir seu crescimento: o controle por parte dos Estados Unidos e dos países da Comunidade Européia e, principalmente, sua restrição energética, que está quase alcançando o limite da produção naquele país.

A Nova Zelândia, infelizmente, não produzirá em suas terras nenhuma grande trilogia que impressionará o mundo inteiro em 2004.

No mundo blogueiro, haverá uma maior comunicação entre blogueiros brasileiros e portugueses, intensificando-se os laços em torno da “última flor do Lácio”. As interconexões entre estes dois mundos serão poderosamente frutíferas e benéficas para ambos lados.

Bem, acho que por enquanto me dou por satisfeito em minhas previsões para 2004. Mas… Esperemos aí… Eu não havia dito que ia falar sobre a Odisséia do Fracasso? E onde se encontra o tombo, a ruína, a derrota tão grande nestas previsões? Bem, a derrota, caro amigo leitor, será minha caso você não tenha chegado até esta linha.

Um 2004 fulgurante, resplandescente, espetacular, frondoso, brilhante, fantástico, maravilhoso, genial, belo, justo, bom, verdadeiro, pacífico, feliz, saudável, amoroso, cândido, solidário, endinheirado, sapiente, espiritualizado, artístico, literário, descansado, alimentado, musical, tranqüilo, colorido, estrondoso e iluminado para si e para os seus. São meus sinceros votos, de coração.

Abaixo transcrevo uma idéia desenvolvida inicialmente em 1995, texto iniciado no mesmo ano e concluído em 2001, publicado originalmente na edição número 3 do e-zine-sítio-blógue Simplicíssimo. Há, com certeza, muito a desenvolver nesta embrião-idéia e creio mesmo que nestes mais de 8 anos entre o surgimento do broto-idéia e os dias de hoje, muito foi construído em torno desta mesma concepção, isoladamente, em vários locais e tempos, mas nada sobreviveu à força do tempo e do mercado capitalista e seus meios de regulação. Mas, mesmo assim, vale o grito: Viva o escambo!

A Grande Cooperativa Mundial

Um dia pensei: nossa, com tantas pessoas neste planeta, a maioria delas com algum tempo por dia para pensar, outras com muito tempo para pensar… Mas pensar em quê, você dirá! Ora, pensar em soluções para nossos problemas. Aí surgem novos problemas (como sempre!!!): quais são os nossos problemas? Quem é capaz de identificar esses problemas? E que significa nossos? Bem acho que essas questões são ao mesmo tempo fáceis e difíceis de responder (a isso chamamos de paradoxo). Difíceis porque cada pessoa pode ter para si uma noção do que está lhe incomodando em sua vida e em suas relações com os demais, o que está lhe faltando para atingir a felicidade, quais são os valores e bens que mais lhe dão prazer e interessam. Cada um de nós se indagado sobre quais os problemas que afligem a humanidade atualmente iria responder ao menos algum dos seguintes: fome, guerra, falta de amor, desesperança, ganância, tristeza, incompreensão, egoísmo, violência, agressão à Natureza, poluição, barulho, incomunicabilidade entre semelhantes, invasão de privacidade, transportes caóticos, falta de energia, bens materiais excessivamente caros, assim como mão-de-obra ou muito cara ou de má qualidade, perda de valores morais e éticos, analfabetismo, carência de cultura, falta de inteligência por parte dos governantes, insatisfação sexual, tecnologização e desumanização progressivas e excessivas, desarmonia, injustiças dos mais variados tipos, barbárie e canibalização social, intolerância, falta de afeto, fraternidade e compaixão, falta de tempo e escuridão da alma humana. Fáceis porquê todos estamos carecas ou cabeludos de saber (ou pelo menos deveríamos ter essa consciência!) que para que os problemas do nosso microcosmo (pessoal, familiar, social estrito) sejam resolvidos satisfatoriamente, deixando-nos felizes, devemos colaborar e resolver os problemas do nosso macrocosmo (social amplo, a comunidade que habita este planeta como um todo). Dessa forma, se eu não quiser ter meu carro roubado ou não quiser dar dinheiro para o cara que vai ficar “cuidando” do meu carro não roubá-lo ou destruí-lo, ou, de outro modo, não quiser trair meus próprios princípios e minha namorada/esposa ao mesmo tempo (importante lembrar que a traição de uma esposa se aplica no nosso contexto social, pois existem culturas poligâmicas onde notáveis diferenças existem!), temos que pensar em resolver todos os problemas citados acima e mais alguns. É bom ressaltar que todas essas falhas da nossa atual sociedade humana são gerais, dizendo respeito a todos nós e cabe a nós como um todo ajudarmos a solucioná-la. Tá, e aí, você vai dizer. Não falou nada de novo! Tá parecendo aqueles livros de auto-ajuda, que só dizem coisas que todos sabemos mas que precisamos ouvir para nos estimularmos. Bom, eu estou fazendo a minha parte. Agora mesmo escrevendo esse texto, tentando fazer com que você ACORDE, SE SENSIBILIZE, VISTA A CAMISETA, TENHA UMA VISÃO MAIS AMPLA E HUMANA, NÃO SE DEIXE LEVAR POR MAUS EXEMPLOS E CAMINHOS FÁCEIS MAS MORALMENTE ERRADOS!!! Além disso, tenho uma proposta maluca para fazer. Eu a chamei de “A Grande Cooperativa Mundial”. Um nome um pouco megalomaníaco por enquanto mas adequado se chegar a ser o que idealizei. Vou explicar o que ela é:

Pelo Mundo afora, existem pessoas necessitando serviços, materiais, espaço, objetos, enfim, “coisas” em geral. Ao mesmo tempo, neste mesmo Mundo, existem pessoas dispostas a oferecer serviços, materiais, espaços e objetos que não necessitam em dado momento, “coisas” essas que ficam inutilmente paradas em um canto qualquer, sem que ninguém o(a) esteja usando. Por que não catalogar tais bens (i)materiais associando-os ao seu valor na área onde são oferecidos e distribuí-los a quem os necessita, em troca de uma outra contribuição para a Cooperativa por parte do beneficiado? Nos dias de hoje, com o advento estruturação e, definidamente, da entrada profunda da Grande Rede (Teia) Mundial em nossas vidas e culturas, esse trabalho torna-se bastante facilitado, podendo haver rápida comunicação entre as diversas “filiais” da Cooperativa espalhadas pelo planeta. Cada serviço ou bem oferecido e usado, geraria um crédito para o fornecedor deste bem ou serviço, ao mesmo tempo que seria criado um débito para o usuário do bem ou serviço para com a Cooperativa (veja bem, e não para com o fornecedor). Penso que os créditos possam ser ilimitados, mas os débitos devem ser restringidos a uma quantia máxima, talvez determinada pela capacidade de oferecer bens e serviços ou então, igual para todos. Certamente tornar-se-ia necessário realizar um projeto piloto desta Cooperativa em alguma localidade específica, para somente então tentar disseminar a idéia em uma área mais ampla. A estruturação completa desse projeto passa por um longo período de planejamento com uma equipe multidisciplinar envolvendo pessoas capacitadas em áreas do conhecimento como Política, Economia, Sociologia, Filosofia, Relações Interpessoais, Informática, e, provavelmente de áreas como física, matemática e mais especificamente estatística. Veja bem, a princípio essa é uma idéia de uma atividade essencialmente civil, feita por pessoas comuns para pessoas comuns, sem envolver entidades governamentais, mas não haveria empecilho algum em haver participação ou mesmo regulação das atividades da Cooperativa por parte dos diferentes Estados. Aproveitando o ensejo e o tema do Fórum Social Mundial: “Grande Cooperativa Mundial, em busca de um Mundo Melhor, impossível agora, mas certamente possível amanhã”.

PRÓXIMOS PÔUSTS: “Das delícias de preparar um pôust”, “Depoimento pessoal: o fim da residência médica e a perspectiva que se abre” e “A impossibilidade do SUS”

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