Para hoje não consegui tempo suficiente para escrever nada original. Na verdade, escrevi várias coisas mas não consegui terminar nenhuma. Isso quer dizer que teremos uma sessão revival (pelo menos para mim!). Disporei aqui alguns textos já apresentados ou publicados em tempos idos em outros meios ou locais. No próximo pôust, textos inéditos.

Segue a agenda das postagens até 29 de fevereiro. A partir de então, não teremos mais datas fixas de postagem. As datas a seguir servem para guiar o amigo leitor para que não se ocupe de entrar neste blógue por mais de uma vez sem que o mesmo esteja atualizado (claro que é muita imbecilidade minha acreditar que alguém vá anotar estas datas e se utilizar delas, sendo mais fácil simplesmente dar um clique em um línque e “dar uma olhadinha” para ver se tem novidade… Mas, mesmo assim…

Pôust 7 – 16/01

Pôust 8 – 22/01

Pôust 9 – 27/01

Pôust 10 – 02/02

Pôust 11 – 07/02

Pôust 12 – 13/02

Pôust 13 – 18/02

Pôust 14 – 24/02

Pôust 15 – 29/02
(2004 é ano bissexto!)

Obesidade: a Epidemia dos Tempos Modernos

(texto originalmente publicado no Jornal Deutsche Integration de Agudo-RS)

A Obesidade, até há bem pouco tempo, passava despercebida entre a vasta gama de enfermidades que assolam o ser humano. Isso porque, até muito recentemente, era encarada como sinal de personalidade fraca, combinação de glutonice e maus cuidados com o próprio corpo. A relutância da própria Medicina em encarar a Obesidade como doença levou a uma demora na identificação de métodos eficazes para o seu controle. Tanto demorou que hoje vivemos uma epidemia, na qual cerca de um terço (33%) da população adulta brasileira apresenta sobrepeso e um quarto (25%) é obesa (e esses números estão crescendo ano após ano!)

Mas se consideramos a Obesidade uma doença, por que isso ocorre? Basicamente porque a presença de obesidade está associada ao surgimento em maior freqüência de uma série de enfermidades, como a hipertensão, o diabete melito, infarto do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais (derrames), gota, câncer de útero, osteoartrose de quadril, joelhos e tornozelos, cálculos na vesícula, varizes, cálculos renais, câncer de mama, irregularidades menstruais, excesso de pêlos e também infertilidade e morte prematura.

O que mudou nos últimos anos? Passou-se de uma visão permissiva para uma mais intromissiva no que tange a Obesidade. Sabe-se que praticamente a totalidade dos pacientes obesos apresentam algum transtorno do humor, quer seja o humor deprimido levando ao sedentarismo e a pouca busca por atividade física saudável e necessária, ou a ansiedade, associada a hábitos alimentares compulsivos e outros comportamentos auto-destrutivos.

E quais são as causas da obesidade? Além dos fatores genéticos, herdados de nossos pais e avós, temos a influência importante de fatores ambientais, quais sejam: ingestão de alimentos e atividade física.

As pessoas gordinhas e com a família também gordinha têm uma tendência herdada de gastar menos a energia ingerida do que uma pessoa magrinha com um mesmo grau de atividade física. A isso chamamos de metabolismo basal diminuído. É por isso que a pessoa obesa deve se esforçar mais (comer menos ou se exercitar mais) que uma pessoa com tendência familiar a ser magra.

Em relação ao ambiente, um dos fatores mais notórios associados à epidemia da obesidade diz respeito ao desenvolvimento tecnológico e o aumento do conforto de nossa sociedade ocidental contemporânea. Desta feita, controles remotos para aparelhos eletrônicos, direções hidráulicas e vidros elétricos nos automóveis, lavadoras de roupa e de louça, tele-entregas e outras comodidades jogam a favor de uma economia de energia e conseqüente ganho de peso. Não é mais preciso caçar, pescar ou colher o alimento. É só esticar o braço na prateleira do supermercado.

As comidas gordurosas nunca estiveram tão em voga: fast-foods, pizzas, hambúrgueres, massas, queijos, carnes… Que gostosura! É claro, comer é bom, todo mundo gosta, dá prazer! É por isso que é tão difícil perder peso: temos que castrar (ou pelo menos limitar) um de nossos maiores prazeres!

É tarefa difícil mas de jeito algum impossível! Com uma boa reeducação alimentar, trocando alimentos mais por menos calóricos, aprendendo a lidar com a compulsão, realizando exercícios físicos regulares de forma adequada e, ocasionalmente, com auxílio inicial de alguma medicação, podemos vencer esta batalha contra o excesso de peso e tornar a vida de muitas pessoas mais saudável e prazerosa.

(apesar da abordagem “popular”, é um texto simples que tem muito a dizer…)

Pensamentos Privados

Faço força para não pensar

Enquanto caem das minhas entranhas

Sentimentos digeridos e absorvidos

Que já não me servem mais

Libero, em toda minha impaciência

O vil odor que agora assola o ambiente

O hálito pensante sobrenada cansado,

Inerte, só, desesperado

Não quero mais essa angústia

Limpo minh’alma e sigo andando

Há muito que sei o meu caminho

Ele eu sigo, sorrindo contente

(esse poema foi o primeiro de uma série de 5 poemas escritos para participar de um concurso nacional promovido pela Editora Shan. Está publicado em “Antologia Poética Brasileira 1999”, da Série Gaivota e na edição 008 do site Simplicíssimo. O mesmo foi literalmente escrito sentado em uma privada, durante o ato de evacuar, e é uma reflexão profunda sobre o referido ato.)

Resenha do Texto “O Homem e a Câmera”, de Jean Rouch

(para a cadeira “Seminários Livres em Antropologia Visual” do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, apresentado em 8 de junho de 2001)

No texto “O Homem e a Câmera”, Jean Rouch traça um painel histórico do cinema na Antropologia, encarando essa entrada do seu ponto de vista extremamente peculiar e certamente validado pelo fato de que ele mesmo participou de grande parte da história do cinema etnográfico.

Para tanto, percorre os caminhos trilhados desde 1872, quando Eadweard Muybridge fez a primeira sequência fotográfica de um cavalo trotando, passando por Étienne-Jules Marey com seu cronofotógrafo, que trouxe movimento à fotografia, por Félix Regnault, que em 1900 foi o primeiro a usar os cilindros de Edison para gravar sons e chegando, na década de 20 aos “precursores” do cinema antropológico: Dziga Vertov e Robert Flaherty (ambos fazendo etnografia sem saberem!)

Flaherty, filmando um esquimó, Nanook, por volta de 1920, inserido no meio da cultura esquimó, inventou a “observação participante” e, com sua idéia de partilhar seu trabalho com os esquimós, criou o “feedback”, ou seja, o retorno da informação captada através das imagens para a própria cultura que havia sido focada pelas lentes.

Vertov trabalhando na mesma época, preocupou-se em filmar pequenas partículas da realidade, ao invés de embrenhar-se em um ambiente hostil e distante. Foi Vertov que criou o “cine-olho”, ou seja, uma perspectiva através da qual o espectador via nas imagens através dos olhos do etnógrafo, do cinegrafista. Vertov ia atrás dos acontecimentos à medida que estes iam se desenrolando, filmando as cenas cruas, sem preparações, introduzinho assim o “Cinéma-vérité” (cinema verdade), ou seja: a realidade em movimento.

Na década seguinte, com os progressos técnicos, ficou muito mais fácil a realização das filmagens, mas também, com o recém criado cinema falado, o cinema comercial “tomou conta da cena”. Em vez de ir ao encontro das pessoas, o novo cinema trouxe as pessoas para perto das câmeras, para dentro dos estúdios. Citou a crise do cinema etnográfico tentando se mesclar com o cinema comercial e os desastrosos resultados dessa tentativa naquela ocasião, como os filmes de Marcel Griaule e Patrick O¿Reilly.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de câmeras mais leves e equipamentos de som com gravação simultânea com as imagens, o desenvolvimento do cinema foi rápido. Em 1955, Rouch tenta definir o filme etnográfico, que entre outras coisas teria a função de imortalizar algum aspecto de uma cultura, um aspecto da realidade atual.

A partir de 1960, com equipamentos modernos, a qualidade dos filmes etnográficos cresceu. A partir daqui, Rouch começa a comentar alguns aspectos interessantes desse “Cinema etnográfico”.

Comenta o fato de a distribuição de filmes etnográficos ser restrita, ao contrário dos filmes comerciais, apesar de técnicas semelhantes serem usadas em ambos, excetuando-se documentários sensacionalistas como “Mondo Cane”. Questiona se o melhor seria um etnógrafo-cinegrafista ou um etnógrafo com uma equipe de filmagem, decidindo-se pelo primeiro, pela menor “invasividade” e pelo fato de que o etnógrafo seria o único a saber exatamente quando e para onde apontar a câmera. Acredita que a perda técnica resultante disso não seria problema tendo em vista os benefícios.

Compara câmeras em tripés com câmeras seguras somente pela mão e inclusive o uso de zoom ou somente de lentes fixas (necessitando assim o cinegrafista aproximar-se mais da cena para dar a impressão de “cine-eye”).

Passa pela edição das imagens, a inclusão de comentários, legendas e música e toca na questão da exposição do filme pronto à população estudada. Critica a exposição de muitas informações orais por parte do cientista, que poderiam dar uma interpretação (muitas vezes errada) daquilo que se está vendo e se pode interpretar com os próprios olhos. Também o faz em relação a legendas muito extensas e ao fato de que, muitas vezes, músicas e sons são inapropriados a determinadas cenas, citando o exemplo de Bataille sur le grand fleuve, onde ele próprio colocou músicas com instrumentos de cordas para dar um clima de ¿caçada¿ mas, quando mostrou o filme aos caçadores, estes solicitaram que a música fosse retirada, tendo em vista que a caçada necessitava extrema concentração e silêncio!

Analisando os comentários dos filmes desde 1930, verifica que eles passaram de um aspecto “barroco colonial” para um de “aventura exótica” e chegaram à “secura de um relato científico”.

Rouch pergunta-se: para quem os filmes são feitos? Para quem? Para quem? E por quê? Encontra algumas respostas, nenhuma definitiva. Talvez para si próprio, por achar que em certos lugares, em certos momentos e com certas pessoas que a câmera seja necessária. E porquê? Para deixar registrados aspectos de culturas que estão rapidamente mudando ou próximas da extinção, para demonstrar comportamentos em situações de revolta, para gravar um gesto, uma face que não pode deixar de ser filmada ou, simplesmente porque existe uma necessidade súbita de filmar. Mais tarde conclui que os filmes etnográficos devem ser feitos para a maior audiência possível, para todas as pessoas.

Assim, através da demonstração de conceitos interessantes como o da “câmera participante”, o da “antropologia compartilhada” e do “cine-eye”, Jean Rouch nos impregna de conhecimento e estímulo em busca da construção de um novo tempo no mundo do cinema antropológico, fornecendo a base e deixando em aberto o futuro, com uma visão: a de um tempo onde a câmera passará às mãos daqueles que hoje são estudados, e os mesmos farão o trabalho por si próprios, não sendo mais o antropólogo o indivíduo a monopolizar a observação das coisas.

PRÓXIMOS PÔUSTS: “Esquerda, Direitos e Devires”, “Serviço Militar Obrigatório – é uma indecência?”

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