Doação de Tecidos e Órgãos: o que falta para que dê certo?

By Rafael Reinehr | Nossa Opinião

Out 02
As coisas mais importantes

(este post faz parte do projeto Nossa Opinião, em que um grupo de blogueiros de diferentes áreas e atividades desfere sua opinião acerca de um assunto comum, quinzenalmente. Leia minha opinião aqui e depois vá lá para ver a opinião dos confrades.)

 

    Hoje somos no Brasil cerca de 180 milhões de habitantes, alguns orgulhosos de cá viverem, outros loucos para pular do barco e a maioria indiferentes ao local de morada e a tudo o mais. Com freqüência ouve-se dizer que o brasileiro é um povo que só quer cerveja, futebol e mulher pelada. Apesar de entender a metáfora, posso afirmar com certeza que minha mulher não se encaixa nesse paradigma, tão pouco quanto um bom número de pessoas que conheço.

    O que se quer dizer – e neste ponto concordo – é que o brasileiro médio importa-se tanto mais com futilidades, a busca do prazer instantâneo quer seja na alimentação, ideal estético, produtos de consumo material ou intelectual (televisão) que já venham mastigados e digeridos – e já está tão disciplinado para isso – que a mudança de paradigma, para algo que lhe determine realizar um esforço ativo lhe parece estressante demais.

Esta mesma perspectiva, que agora aplico ao esforço necessário para comunicar a família de que se é um doador de órgão, para envolver os colegas de trabalho na percepção da importância de uma campanha assim, mesmo que seja organizando 1 hora de 1 semana de 1 mês por ano para debater o assunto e atualizá-lo, quer seja em sua empresa, agência de publicidade, restaurante, escola, posto de gasolina, consultório médico, dentário, psicológico…

As coisas mais importantes

 

    Quando falamos de engajamento social, geralmente paramos numa etapa anterior à efetiva: interrompemos nosso movimento na afinidade: “Ei, legal! Alguém precisava mesmo tocar nesse assunto”. A etapa seguinte: “Vamos entrar em contato com o Ministério da Saúde e solicitar que eles enviem alguns folders ou banners para cá para que possamos organizar, daqui a alguns dias uma mobilização em torno do assunto?” não chega a ser desvelada. Poucos são os que, sensibilizados com a campanha chegam em casa e dizem: “Pai, mãe (ou cônjuge), vocês sabem que sou doador de órgãos e tecidos, não sabem? Se, por acaso, eu estiver em morte encefálica, gostaria de doar meus órgãos, vocês compreendem e aceitam isso?”

    No Brasil, 28,5% das famílias com potenciais doadores por morte encefálica são contrários à doação, conforme o Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Na Espanha, país considerado o país mais avançado em relação a transplante de órgãos a recusa é de 15%.

 

Cicatrizes

    Apesar disso, parece que o motivo principal pela baixa na doação de órgãos neste ano diz respeito à falta de notificação do SNT pelas unidades de saúde de emergência e hospitais quando encontram um caso de morte encefálica. Apesar de obrigatória no Brasil, com a sobrecarga dos pronto-socorros e a falta de leitos em UTIs, pacientes que entram em morte encefálica não possuem condições de serem mantidos com ventilação e circulação ativas até que a equipe do SNT possa remover os órgãos.

  

Babaca     Conforme dados do Ministério da Saúde, o Brasil só é suplantado pela Espanha no número de transplantes realizados por um sistema público de saúde. Nos últimos 6 anos, foram realizados 87.444 transplantes pelo SUS, mas ainda encontram-se na fila de espera 71.152 pacientes. Veja quais os órgãos que estão faltando:

Coração

335

Córnea

26.807

Fígado

7.036

Pâncreas

167

Pulmão

135

Rim

34.098

Rim e Pâncreas conjugados (duplo)

511

Medula Óssea

2.063

    Voltando ao começo do nosso artigo, se mais e mais empresas – relacionadas a futebol, cerveja e sexo, mas não restritas a essas – participassem da Campanha para Doação de Tecidos e Órgãos, como estão fazendo a dupla Gre-Nal em conjunto com a ONG Via Vida, o painel da doação no Brasil teria uma mudança significativa em um espaço tão curto quanto 5 anos.

    As fotos das campanhas utilizadas neste artigo foram extraídas do site da ADOTE – Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos. Vale a visita: além das imagens aqui reproduzidas também encontras uma série de campanhas em vídeo para ajudar a divulgar esta importante ação.

    Se, você chegou aqui depois de ler este text, é porque certamente seu coração tem algo de bom a dizer para o mundo. Então não se cale. Não se contente com o silêncio indiferente de seus vizinhos. Como dizia Ghandi, "Seja a mudança que você quer ver no mundo." Se precisar de ajuda e quiser organizar algumas ações em conjunto, fique à vontade para entrar em contato comigo. Sempre terei um braço e um sopro para lhe ajudar.

Curiosidade: É importante perceber que cada órgão possui um tempo máximo de viabilidade após a retirada do doador:

Córneas: devem ser transplantadas em até sete dias.

Coração: tem que ser transplantado em 4 horas.

Pulmões: tem que ser transplantados em 4 horas.

Rins: devem ser transplantados entre 24 e 48 horas.

Pâncreas: tem de ser transplantado em 12 horas.

Fígado: tem de ser transplantado em 12 horas.

Ossos: podem ser transplantados em até seis meses.

Velório

 

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