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Abr 18

Recursos Educacionais Abertos na Aprendizagem Informal e no Autodidatismo

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia


“O objetivo da educação é aprender, não ensinar.”

Russel Ackoff


A maior parte das pessoas tem a maior parte de seus insights, constroem conhecimentos e competências fora da escola, da universidade ou de outros espaços formais de aprendizagem. E a maior parte do que aprendemos na escola, esquecemos rapidamente ou se mostra errado ou obsoleto em um curto espaço de tempo.

De forma aparentemente paradoxal, uma das formas mais eficazes de aprender é ensinar. É sempre aquele que ensina que apreende e aprende mais, de forma permanente. É aquele aprendizado que fazemos por gostar de um determinado assunto, é aquele no qual nos aprofundamos quando precisaremos dele na prática, para nosso uso diário ou para transmitir para mais alguém que fica indelevelmente “colado” em nossa memória.

Todos já experimentamos os dois lados da moeda: quando somos obrigados a estudar um determinado tema ou matéria para adquirir algum tipo de graduação imposta pelo sistema no qual vivemos e quando escolhemos aprender algo pelo bel prazer de saber mais sobre aquele assunto. E todos lembramos da sensação que experienciamos em uma e em outra situação.

Além disso, a educação compulsória se comporta como uma loteria compulsória, em que alguns ganham mas a maioria perde, pois o mercado de trabalho não absorve a totalidade dos estudantes e, se não bastasse, a Indústria do Diploma exige que cada vez mais seja necessário um grau mais alto para conseguir os mesmos resultados Isso tudo fez com que muitas pessoas abandonem o Monopólio da Educação pelas Instituições formais em busca de formas alternativas de aprendizagem.

Estas perspectivas criam um novos tipos de Aprendizes. São desbravadores natos de Recursos Educacionais Abertos. São os navegadores do Éter Universal em busca de Informação que é transformada em Conhecimento e de Conhecimento que pode ser transmutado em Sabedoria.

Esses novos e intrépidos visionários ou excluídos são a vanguarda de um movimento que ainda dá seus primeiros passos, mas já chega aos milhões. São aqueles que, inspirados pelo chamado de Illich, se deram conta de que “Somente uma revolução cultural e institucional que reestabeleça o controle do homem sobre o seu ambiente pode erradicar a violência pela qual o desenvolvimento das instituições agora é imposto por alguns poucos para o seu próprio interesse.” [1]

Podemos aprender de duas formas: “batendo a cabeça”, por conta própria, aproveitando inclusive nossos erros como aprendizado ou, alternativamente, aprendendo o que os outros querem que aprendamos. No primeiro caso, enveredamos para o auto-didatismo, para o alter-didatismo e para formas de educação mais informais ou não-formais. No segundo caso, escolhemos a educação formal, por todas as ofertas vistosas que ela nos faz – e cumpre – caso sejamos escolhidos pelo toque de Midas.

Os REAs na Educação Não-formal e no auto-didatismo permitem, entre outras coisas, a transformação de todos os lugares em uma escola. Não uma escola na acepção comum do termo, como um espaço em que professores e alunos se dividem hierarquicamente para então ocorrer a transmissão de conteúdo. Mas uma escola na qual prepondera o aprendizado distribuído, em que cada indivíduo é, ao mesmo tempo, um educador e um aluno, um aprendente. Existe um estímulo para se aprender com as coisas, com os lugares, com as pessoas (com todas as pessoas).

Como estabelecido na Carta das Cidades Educadoras, em Barcelona 1990 e depois ratificado em Bologna, em 1994: [2]

“Primeiro, investir na educação de cada pessoa, de maneira que esta seja cada vez mais capaz de exprimir, afirmar e desenvolver o seu potencial humano, assim como a sua singularidade, a sua criatividade e a sua responsabilidade.”

“Segundo, promover as condições de plena igualdade para que todos possam sentir-se respeitados e serem respeitadores, capazes de diálogo.”

“Terceiro, conjugar todos os fatores possíveis para que se possa construir, cidade a cidade, uma verdadeira sociedade do conhecimento sem exclusões, para a qual é preciso providenciar, entre outros, o acesso fácil de toda a população às tecnologias da informação e das comunicações que permitam o seu desenvolvimento.”

Segundo os princípios que derivam da Carta das Cidades Educadoras, utilizar a cidade como suporte para o aprendizado é um dos caminhos viáveis para nos tornarmos aprendizes de uma vida inteira. Partindo do conceito de uma cidade digital, em que todos tenham acesso livre à internet e às suas ferramentas educativas, vamos além e recorremos a outros instrumentos de aprendizagem que podem e devem ser abertos como museus, bibliotecas, roteiros turísticos, turismo comunitário e científico, acesso a laboratórios e centros de pesquisa, centros culturais, gastronômicos, oficinas e todos espaços em que o saber pode ser co-criado pelos indivíduos.

Muito do que se vê como educação ainda é derivado de um princípio centralizador, homogeinizador e vê educação como transmissão de conhecimento de cima para baixo. Em contraposição a este paradigma, surge o conceito de Edupunk, inspirado na cultura do Faça você mesmo. [3]

Derivam ou estão associados a este conceito uma série de noções cujo escopo deste artigo não permite aprofundar, mas que merecem ser citadas para fins de pesquisa ulterior: educação democrática, aprendizado auto-direcionado, educação centrada no estudante, desescolarização, escola livre anarquista, aprendizagem livre, educação popular, pedagogia crítica, pedagogia libertária, todos termos pouco ou nada abordados dentro da educação formal.

Neste caminho e nesta luta pelos REA em todas as instâncias, acadêmicas, formais e não-formais, estamos sempre em busca de uma sociedade mais convivial. Como dizia Illich, em Tools for Conviviality: “Uma sociedade convivial é uma sociedade que oferece ao homem a possibilidade de exercer uma ação mais autônoma e mais criativa, com auxílio das ferramentas menos controláveis pelos outros.” [4] E é justamente neste espaço – o Social – que acontecem as interações que nos caracterizam enquanto humanos. E é fora da lógica do ensino pré-formatado que acontecem as verdadeiras possibilidade de evolução. É no exercício da autonomia que se aprende a ser humano e não peça de uma maquinaria construída para servir a alguns. É na cosnciência da liberdade que podemos exercer a singularidade e não sermos normalizados pelos processos massificadores da educação que vem de cima para baixo, que serve para produzir “catálogos” de seres humanos para serem escolhidos por empresas e corporações com a finalidade de auferir lucro ao invés de produzir felicidade, bem-estar e qualidade de vida. Em última instância, é disso que tratam, também os Recursos Educacionais Abertos: possibilitar a qualquer pessoa que queira, ter acesso a materiais, métodos, ferramentas e informações relacionadas aquilo que se deseja aprender.

“Um bom sistema educacional deve ter três propósitos: dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos disponíveis, em qualquer época de sua vida; capacitar a todos que queiram partilhar o que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e, finalmente, dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto a que tenham possibilidade de que seu desafio seja conhecido.” [5]

Avançando no pensamento de Illich, ele escreve, no início da década de 70, que a mais radical alternativa para a escola seria uma rede ou um sistema de serviços que desse a cada homem a mesma oportunidade de partilhar seus interesses com outros motivados pelos mesmos interesses.

Hoje em dia, temos tecnologia mais do que suficiente para fazer chegar, a qualquer pessoa do mundo que esteja interessada em aprender, conteúdo gratuito através dos nossos sistemas de comunicação, caso houvesse esta vontade por parte de quem regula o acesso a estas ferramentas comunicacionais.

As Universidades, como tuitou recentemente Pierre Levy, já não tem mais o monopólio do conhecimento, apenas do diploma. Como nos lembra Augusto de Franco, o conhecimento não pode mais ser aprisionado, e os caminhos para ele são múltiplos. [6] Essa noção de que o aprendizado pode e deve ser distribuído, participativo e ativo está presente no conceiro de MOOCs, ou Massive Open Online Courses. [7]

Os MOOCs são Cursos Onlines Abertos fornecidos para dezenas, centenas ou milhares de pessoas ao mesmo tempo, através de uma plataforma online. É um curso que estimula a participação, é distribuído e fomenta o aprendizado continuado em rede durante a vida. De certa forma, é uma forma de conectar e colaborar em um ambiente digital ao mesmo tempo em que se engaja em um processo de aprendizado, é um evento em que as pessoas que se interessam por um dado tópico se reúnem em torno do mesmo para falar dele, debater, trocar experiências e conhecimentos.

Todas as discussões realizadas, o material produzido e o acesso ao curso são gratuitos.

O curso é distribuído, e todas as postagens de blog, de fóruns, respostas de vídeo, artigos, tweets e tags são colocadas em rede para criar o curso. Não há um “caminho certo” entre todos estes dados para fazer o curso, todos são válidos e o aprendiz define qual o melhor caminho para si.

Algo que já foi descoberto pelos pesquisadores das redes, mas ainda não está introjetado ou é percebido pelo senso comum, é que o poder não reside nas instituições, nem no estado nem mesmo nas grandes corporações. Ele está localizado nas redes que constituem a sociedade. Essa descoberta, quando organizada de forma biopolítica, mudará a configuração do que hoje conhecemos como sociedade, e o grande motor para esta mudança está justamente no aprendizado distribuído. [8] e [9]

George Siemens, um dos postulantes da teoria do Conectivismo, afirma que a educação formal é irrelevante para o aprendizado significativo, pois o aprendizado significativo significa estar envolvido de forma ativa com o processo de aprendizado. [10] Ao mesmo tempo em que é inegável o quanto a abordagem positivista e reducionista e o método científico  contribuíram para o conhecimento que hoje temos das coisas, da mesma forma é inegável a falta de controle e a incapacidade desta mesma abordagem em religar todo este conhecimento em uma forma sistêmica e inteligível para grande parte da humanidade. A fragmentação do saber e a sua inacessibilidade se tornam mais uma moeda de troca na Sociedade do Conhecimento. Avançamos rapidamente para a noção de que o conhecimento não está mais tanto nos livros ou nas instituições mas sim nas pessoas com as quais nos relacionamos. Elas são o verdadeiro repositório dos saberes essenciais à nossa vida. Estamos experienciando, de forma acelerada, uma retribalização digital de nossas existências, onde as conexões que temos – e a riqueza dos saberes nelas contidas – e não o que sabemos de imediato, enquanto indivíduos, representam a verdadeira riqueza e sabedoria que podemos carregar conosco.

Vejamos a seguir alguns ótimos exemplos de como o mundo está sendo moldado por experimentos educacionais abertos nos mais variados campos de conhecimento humano:

Repositórios de Saberes:

Wikipedia – wikipedia.org [11]

A Wikipédia é talvez o melhor exemplo de como se pode produzir um conteúdo de forma cooperativa e mantê-lo acessível ao público, de forma livre e sustentável. Ela é um projeto de enciclopédia multilíngue livre baseado na web , colaborativo e apoiado pela organização sem fins lucrativos Wikimedia Foundation. Possui 19 milhões de artigos (712 851 em português em 06 de fevereiro de 2012) que foram escritos de forma colaborativa por voluntários ao redor do mundo e quase todos os seus verbetes podem ser editados por qualquer pessoa com acesso ao site. Em maio de 2011 havia edições da Wikipédia em 281 idiomas. A Wikipédia foi lançada em 15 de janeiro de 2001 por Jimmy Wales e Larry Sanger e tornou-se a maior e mais popular obra de referência geral na Internet  além de ser utilizado em todo o mundo como referência para pesquisa escolar, a despeito das críticas sobre a acurácia de seu conteúdo. [12]

Knol – knol.google.com [13]

Knol é uma enciclopédia da internet, projeto da Google, cujo conteúdo é gerado pelos utilizadores, e com tópicos que variam de “conceitos científicos, a informação médica, de informação geográfica e histórica a entretenimento, de informação sobre produtos a instruções genéricas.”Foi anunciado publicamente em 13 de dezembro de 2007. As páginas do Knol pretendem “ser a primeira coisa que alguém que procure pelo tópico pela primeira vez vai querer ler”, de acordo com Udi Manber, vice-presidente da área de engenharia na Google. O termo knol, cunhado pela Google para significar “unidade de conhecimento (knowledge)”, refere-se tanto ao projeto quanto a um artigo no projeto.O site tem sido visto como uma tentativa do Google para competir com a Wikipedia. No dia 1 de maio de 2012 o Knol foi descontinuado, para que a Google possa priorizar produtos de maior impacto.

Uma das suas características principais era de que cada um dos artigos ou knols fosse criado e escrito completamente pela mesma pessoa. Uma vez que o nome do autor está destacado no artigo, algo que em outras enciclopédias online como a Wikipédia não ocorre, a Google acreditava que isso poderia incentivar a redação de knols por parte de especialistas nos temas, e que estes alcancem uma qualidade aceitável com poucas edições. Adicionalmente, permitia que múltiplos artigos ou knols pudessem ser criados para um mesmo tópico, o que estimula o desenvolvimento dos mesmos em termos de competência, para aumentar a qualidade.
Estimula-se a redação de knols completos e de qualidade, porque a comunidade de leitores podia comentar, avaliar, fazer perguntas e propor conteúdo adicional para os enriquecer.
A Google não actua como editor, já que a ideia e a responsabilidade pelo conteúdo de cada artigo cai por completo sobre o autor, que desta forma põe a sua reputação em jogo ao redigi-lo.

MERLOT – merlot.org [14]

A MERLOT é uma comunidade online gratuita e livre de recursos destinados primariamente para estudantes de ensino superior compartilharem seus materiais pedagógicos e de aprendizagem. É uma plataforma centrada no usuário, organizada através de coleções ou temas e também dispões de artigos revisados pelos próprios usuários, materiais de aprendizagem online que são catalogados por usuários registrados e revisados por uma equipe indicada por uma Comissão Editorial, com vistas a garantir a qualidade do material compartilhado.

Khan Academy – khanacademy.com [15]

A Khan Academy é uma organização sem fins lucrativos criada e sustentada por Salman Khan. Com a missão de “fornecer educação de alta qualidade para qualquer um, em qualquer lugar”, oferece uma coleção grátis de mais de 2.800 vídeos de matemática, ciência, ciências humanas, economia, física, entre outras matérias. Em 2010, a Khan Academy ganhou US$ 2 milhões do projeto 10 100 do Google, para ampliar os tutoriais e traduzi-los para outras línguas.

Atualmente, oferece ferramentas de gamificação, premiando os estudantes por aprenderem os conteúdos bem como fornece aos usuários e também a professores ferramentas para acompanhar o andamento de alunos. As aulas apresentadas podem ser usadas tanto em um ambiente formal de educação quanto em um sistema de educação domiciliar ou mesmo de forma completamente independente e autodidata.

Banco Internacional de Objetos Educacionais – objetoseducacionais2.mec.gov.br [16]

Este Repositório possui objetos educacionais de acesso público, em vários formatos e para todos os níveis de ensino. Os objetos podem ser acessados isoladamente ou em coleções.
Nesse momento o Banco possui 16.082 objetos publicados, 2.220 sendo avaliados ou aguardando autorização dos autores para a publicação e um total de 2.665.657 visitas de 170 países.

Apesar de ter sido desenhado para auxiliar a educação formal, nada impede que seja usado por qualquer indivíduo para buscar conhecimentos de forma autodidata. O Banco de Dados possui conteúdos em diversos formatos: Animação/Simulação, Áudio, Vídeo, Hipertexto, Experimento Prático, Imagem, Mapa e Software Educacional. Pode ser pesquisado em vários idiomas e também por nível de ensino.

Appropediaappropedia.org [17]

A Appropedia é uma wiki criada com o objetivo de apresentar soluções colaborativas nas áreas de sustentabilidade, tecnologias apropriadas e redução da pobreza. Ao mesmo tempo, ela é uma plataforma de auto-aprendizagem acerca das técnicas ali apresentadas.

Na Appropedia se pode aprender sobre técnicas de bioconstrução, conservação de alimentos, extração de óleos vegetais em pequena escala, produção doméstica de energia, fogões solares e outras técnicas e soluções de fácil reprodutibilidade.


Repositórios do tipo “Aprenda a fazer por sua própria conta”

Instructables – instructables.com [18]

O Instructables é uma plataforma de documentação online em que pessoas compartilham o que fazem e como fazem, além de aprenderem e colaborarem com outros. Nele, você encontra tutoriais detalhados em texto, imagens e pdf sobre como fazer de quase tudo, desde como fazer um chapéu “Ataque de um Tubarão” [19], passando por como fazer um delicioso Onde Onde (sobremesa típica da Malasia) [20] até como fazer um gerador eólico que produza 1000W de potência [21].


Shred Academy – shredacademy.com [22]

A Shred Academy é um exemplo bem específico de como o autodidatismo pode se espalhar em várias áreas do conhecimento. Neste caso específico, a Shred Academy especializou-se em ensinar, com vídeos de alta qualidade, bastante detalhados e com ótima didática, sobre como se deve tocar guitarra.

Vários guitarristas-professores voluntariam seu tempo para compartilhar seus conhecimentos em aulas que variam desde conceitos mais básicos sobre tons e escalas até conhecimentos avançados, que há uma década atrás só teríamos acesso através da aquisição de complicados métodos de música oud e aulas particulares com professores ou conservatórios musicais.


Lifehacker – lifehacker.com [23]

O site do Lifehacker é uma coleção de dicas, truques e materiais para download sobre como fazer as coisas de uma forma eficiente, para melhorar a vida. É um site para a turma do “faça-você-mesmo”, o coração da aprendizagem informal e do autodidatismo.

Um local para aprender desde “como encontrar comida comestível e água potável na cidade”, passando por “como permanecer seguro durante um desastre”, até “como começar a entrar em forma com 20 minutos por dia”.




Bibliotecas Livres

AAAAARG.ORG – aaaaarg.org [24]

AAAAARG é uma plataforma de conversação que funciona como uma escola, como um grupo de leituras e como um jornal, dependendo de como você interage com ela. Foi criada com a intenção de desenvolver um discurso crítico fora de uma estrutura institucional. Entretanto, ela é construída em cima das arquiteturas já existentes, ou seja, ela se apropria de publicações e construtos já publicados e os utiliza de forma a liberar espaços e instâncias de comunicação e saber.

Em outras palavras, utiliza todo e qualquer tipo de conteúdo que seus membros julgam apropriados para a auto-aprendizagem e se apropria deles, independente de possuirem ou não copyrights. Em função disso, o antigo site aaaarg.org foi fechado por determinação judicial, surgindo em seu lugar quase instantaneamente o aaaaarg.org, ainda disponível online e crescendo. Talvez seja uma das melhores bibliotecas de “literatura crítica” atualmente disponíveis, com conteúdo na íntegra.

The Anarchist Library – theanarchistlibrary.org [25]

Uma biblioteca online que visa compular todo conteúdo digitalmente disponível no que diz respeito a livros, ensaios, histórias e artigos sobre o pensamento anarquista. Utilizam-se somente de softwares livres e formatos abertos, além de oferecerem uma ferramenta chamada de Book Builder, que permite aos usuários criarem seus próprios livros com o conteúdo que selecionarem da biblioteca.

Ambientes e Plataformas que favorecem a Livre Aprendizagem Online

UDEMY – udemy.com [26]

Udemy é a “Academia de Você” (“youdemy”, em inglês). Ela possibilita que qualquer pessoa possa aprender ou criar cursos online. O objetivo da plataforma é democratizar a educação e permitir que qualquer pessoa possa aprender com especialistas renomados ou auto-entitulados e também compartilhar seu conhecimento. Os professores ou instrutores podem usar vídeos, slideshows, pdfs, audio, arquivos zip e aulas ao vivo para construir um curso e compartilhar seus conhecimentos.

Os estudantes podem fazer cursos dentro de áreas variadas como negócios e empreendedorismo, artes, saúde, línguas, música, tencologia, economia e outros.

A maior parte dos cursos é gratuita, mas alguns são pagos, e o valor varia na faixa entre 5 e 250 dólares.



The Faculty Project – facultyproject.com [27]

Professores de várias universidades renomadas terão seu conhecimento compartilhado gratuitamente a partir deste projeto. Todos cursos serão gratuitos com inscrições abertas para qualquer um com uma conexão à internet, via computador, tablets ou smartphones.

Os cursos são dados através de vídeos ou slideshows narrados pelos professores, e contam com um sistema de comentários, um fórum e um sistema de avaliação das aulas, possibilitando a interação entre os usuários e os instrutores.



Academic Earth – academicearth.org [28]

O Academic Earth foi criado para levar conhecimento gerado dentro de Universidades pelo mundo para todas as pessoas. Aulas tradicionais, dadas dentro das universidades, são registradas em vídeo e compartilhadas como REAs para quem tiver acesso ao portal. Universidades como Berkeley, Columbia, Georgetown, Harvard, Michigan, MIT, Princeton, Stanford, UCLA e Yale estão entre algumas que fazem parte do projeto.

Assim como em tantos outras iniciativas que estão liberando conteúdo gratuitamente pela internet, no Academic Earth perguntaram-se quais são as barreiras que impedem uma educação global de qualidade. Para resolver a questão, propuseram-se a construir um ecossistema educacional que possibilite aos usuários pelo mundo a facilmente encontrarem, interagirem e aprenderem com cursos e aulas em vídeo de professores de grandes Universidades. Seu objetivo é concentrar em um lugar este conteúdo e criar um ambiente o qual seja muito fácil de usar e no qual as contribuições dos usuários tornem o conteúdo existente cada vez mais valioso.




P2PU – p2pu.org [29]

A P2PU é um ambiente de aprendizagem online em que podemos aprender com outras pessoas, de forma gratuita.

Na P2PU as pessoas trabalham juntas para aprender um tópico em particular, completando tarefas, observando e avaliando trabalhos individuais e em grupo e oferecendo uma retroalimentação construtiva.

Ela tenta fornecer um modelo de estudo continuado apesar e além da educação formal terciária, utilizando a internet e materiais educacionais amplamente disponíveis online, além de buscar criar um sistema de acreditação baseado nos “peers”. Assim como nas comunidades open source, os participantes de um grupo de aprendizagem oferecem avaliações uns aos outros, revisando e melhorando o trabalho de cada um. Parceiros de curso irão acessar o trabalho uns dos outros e a P2PU irá conferir certificados para sinalizar que uma pessoa concluiu um determinado curso. Isso será feito a despeito da valoração por parte de “certificadores oficiais”, fazendo com que, pelo menos por ora, os certificados da P2PU sejam mais “trabalhos de arte” do que “graus de acreditação”.

OCW – Open Courseware


OpenCourseWare, também identificado com a sigla OCW, é um termo aplicado aos conteúdos, gerados pelas universidades, e compartilhado livremente para todos pela internet. O movimento OCW foi liderado pelo MIT em outubro de 2002 pelo lançamento do MIT OpenCourseWare.
A partir deste movimento do MIT, várias outras universidades começaram a criar os seus próprios projetos OCW. Hoje já existem mais de 200 universidades do mundo trabalhando neste novo conceito de liberar o conhecimento gerado na academia para todos. Uma perfeita socialização do conhecimento disponibilizando-o tanto para professores, alunos e autodidatas do mundo todo.
De acordo com o OCW Consorcium solicita-se que alguns requisitos sejam seguidos, tais como:

  • Não pode ter fins comerciais;
  • Deve incluir uma referência à instituição que o publica originalmente e, caso seja procedente, o nome do autor do material;
  • O material resultante do uso do OCW deve ser livre para utilização por terceiros e ficará sujeito a estes mesmos requisitos.


O MIT OCW [30] é uma plataforma que fornece gratuitamente anotações de aulas, provas e vídeos do MIT. Não requer nenhum tipo de registro para acessar e é aberto ao mundo.

Oferece materiais de cursos dados no MIT que refletem quase todos os assuntos de graduação ensinados no MIT, sem no entanto oferecer qualquer tipo de grau ou certificação, tampouco acesso às dependências das faculdades do MIT ou ao conteúdo completo dos cursos. Permite a cada usuário que acompanhe os materiais no seu próprio ritmo.

Segundo informações do próprio MIT, cada curso que é publicado requer um investimento de 10 a 15 mil dólares para compilar o material, garantir um licenseamento adequado para o compartilhamento aberto e formatar os materiais para distribuição global. Cursos com materiais em vídeo custam cerca de duas vezes mais.

No Brasil, a FGV é a primeira Instituição de Ensino brasileira a apresentar um projeto OCW.

Seguem algumas referências de alguns dos diversos OCWs disponíveis atualmente:


Essa tendência parece só estar crescendo. Cada vez mais Universidades estão oferecendo cada vez mais cursos de forma livre e gratuita. Recentemente foi publicada uma lista com mais de 400 cursos gratuitos disponíveis [31], oferecidos por Universidades de renome, em áreas tão diversas como Arqueologia, Arquitetura, Arte e História da Arte, Economia, Cinema, Geografia, História, Jornalismo, Direito, Saúde Pública, Literatura, Música, Filosofia, Ciências Políticas, Relações Internacionais, Sociologia, Astronomia, Química, Medicina, Biologia, Ciências da Computação, Inteligência Artificial (e a lista não para)…

iTunesU – apple.com/education/itunes-u [32]

O iTunes U é um serviço da Apple que permite a educadores de Universidades ou Escolas desenhar e realizar cursos completos em áudio, vídeo, livros, apresentações, pdfs, livros em formato epub e outros conteúdos e distribuí-los de forma gratuita para seres acessados por estudantes e aprendizes de todos os lugares, acessíveis através de aplicativos para os produtos da Apple e mais recentemente para produtos Android, tornando-os assim Recursos Educacionais Abertos.

Os cursos podem ter um índice, quizzes e outros questionários. O material enviado é hospedado pela Apple e disponível a qualquer um com acesso a web. O material pode ser compilado de seu arquivo pessoal, da internet ou de um bando de dados da própria iTunes U, incluindo mais de 500 mil arquivos em audio e vídeo de musus, universidades, instituições culturais e outras fontes.

Atualmente já se encontram cadastrados materiais de universidades como Stanford, Yale, Oxford e Berkeley, entre outras e de instituições como o MoMA e a Biblioteca Pública de Nova Iorque.



Ambientes e Plataformas que favorecem a Livre Aprendizagem Presencial

School of Everything – schoolofeverything.com [33]

A “Escola de Tudo” é mais uma plataforma que permite a professores, organizações e indivíduos compartilharem conhecimento, muitas vezes de forma gratuita e outras de forma paga.

Não existe nenhum tipo de parâmetro pré-estabelecido, e você pode encontrar aulas sobre assuntos tão variados quanto yoga, artes marciais e criação de jóias. Entretanto, diferente de outros sites, ela não é uma plataforma de e-learning: ela apenas facilita o encontro de pessoas, ela funciona como um ponto de encontro entre quem quer aprender e quem tem algo a ensinar e promove encontros reais entre as pessoas.

Ao se cadastrar, informa-se quem você é, quais são os seus interesses e o site ajuda a encontrar professores e aulas perto de onde cada pessoa mora. Da mesma forma, o site ajuda a professores a acharem alunos para aquilo que gostariam de ensinar.

A inspiração para a Escola de Tudo foi a Free U, na Califórnia. Reza a lenda que em 1960 um grupo de pessoas colocou uma folha em branco em um quadro de notícias pedindo o que as pessoas poderiam ensinar e uma vez que os assuntos foram listados e existiam pessoas suficientes para cada um dos assuntos disponíveis eles organizavam as aulas.

Totalmente de acordo com o espírito do autodidatismo e do aprendizado informal, eles acreditam:

1. Que todos tem algo a ensinar
2. Que todos tem algo que podem ensinar a alguma outra pessoa
3. Que todos tem sua própria forma de aprendizado
4. Que é melhor aprender da forma que gostamos. Nós sabemos o que nos cai melhor.
5. Aprender é melhor com amigos.
6. As pessoas são brilhantes, inspiradoras, generosas e espertas. Estar com outros torna mais fácil e divertido aprender mais.
7. Você não deve parar nunca de aprender.
8. Você pode continuar aprendendo independentemente da sua idade, muito além de seus dias de escola.
9. A educação não deve ser cara.
10. Com um pouco de ingenuidade você pode aprender coisas novas sem gastar toneladas de dinheiro.
11. Todos os sujeitos são importantes.
12. Aprender é aprender, e aprender é bom. Saber como consertar um plug é tão valoroso quanto entender funções trigonométricas inversas.
13. Qualificações são supervalorizadas.
14. Uma boa educação é sobre as coisas que você aprender pelo caminho, não um pedaço chique de papel.
15. O mundo real é melhor do que a internet.
16. Afaste-se do seu computador, por favor. Sair e tentar coisas novas é melhor do que ficar sentado em frente ao computador o dia inteiro.


Trade School – tradeschool.ourgoods.org [34]

Na “Escola das Trocas“, cada conhecimento passado é trocado por algo que pode ser oferecido. É também um exercício prático de economia solidária, em que se pratica a sabedoria, o respeito mútuo e a natureza social das trocas.

Ao invés de trocas simples entre produtos e coisas, a Trade School favorece trocas entre conhecimento e coisas ou serviços. O primeiro ciclo de aulas aconteceu em março e abril de 2010, e mais de 800 pessoas participaram de 76 aulas, que variaram de como iniciar uma compostagem a como viver como ghost writer. Em troca das instruções, os professores receberam de tudo um pouco, desde sapatos de corrida, CDs, cartas a um estranho e queijo cheddar.

Em resumo, é um espaço de convivência em que o conhecimento é o centro das atenções, mas em que as pessoas se reúnem em torno dos interesses e paixões comuns que compartilham com outros.

The Public School – thepublicschool.org [35]

The Public School é uma escola sem currículo. Bastante inspirada no modelo de Teias de Aprendizagem proposto por Ivan Illich, ela funciona da seguinte forma:

Primeiro, as aulas são propostas pelos usuarios (eu quero aprender isso, ou eu quero ensinar aquilo); então, as pessoas podem se cadastrar para as aulas (eu também quero aprender isso); finalmente, quando pessoas suficientes tiverem expressado seu interesse, a escola acha um professor e oferece uma (ou mais de uma) aula sobre o assunto proposto para aqueles que se cadastraram. Funciona, assim como a School of Everything e a Trade School, no nível local, com encontros presenciais.

A The Public School não é uma escola acreditada, não fornece diplomas, não tem afiliação com o sistema educacional formal. Apenas é uma plataforma que dá suporte a atividades autodidatas, operando de acordo com a assunção de que tudo está em tudo.

Atualmente, existem instâncias da The Public School em Berlim, Bruxelas, Durham, Los Angeles, Nova Iorque, Helsinque, Filadélfia e San Juan. Muito aprendizado pode ser tomado a partir das referências deixadas nos comentários das aulas propostas e seria muito interessante se os encontros e os grupos de estudo fossem registrados em formato de áudio ou vídeo.

Nós Vc – nos.vc [36]

O Nós.vc é uma plataforma de intermediação de aprendizagem, parecida com o The Public School, entretanto com a intermediação organizada pelos administradores do site e os cursos pagos pelos usuários que querem aprender algo. Para inaugurar a tendência, cunhou-se o termos crowdlearning, ou seja, uma plataforma que agrega pessoas com interesses de aprendizagem comuns e tem seu desejo atendido através da plataforma.



Ambientes de co-criação de saberes

Adote um parágrafo – adoteumparagrafo.pbworks.com [37]

Adote um parágrafo foi um projeto aberto para traduzir para o português e disponibilizar na rede textos sobre comunicação e internet desenvolvido por Juliano Spyer.

A idéia foi inicialmente proposta pelo Twitter em 24 de março de 2009 como um experimento. No dia seguinte os 31 parágrafos estavam traduzidos e o texto, pronto para ser publicado. Este wiki é uma continuação dessa proposta para verificar se é possível fazer essas traduções regularmente e criar um repositório online (aberto, obviamente) desse conteúdo.

No momento encontra-se parado mas pode ser reativado ou replicado.


Ferramentas de busca e agregação

Class Central – class-central.com [38]

Class Central é um agregador dos OCW disponíveis em Stanford, MIT e na Udacity, com o intuito de centralizar a oferta de cursos e facilitar ao aprendiz a escolha do que ele realmente deseja cursar. Como todos os demais, não oferece nenhum tipo de crédito universitário, apenas conhecimento gratuito advindo de uma Universidade conceituada.

Ambientes de inspiração

TED ted.com [39]

O TED é uma organização sem fins lucrativos dedicado a Ideias que merecem ser espalhadas. Iniciou em 1984 como uma conferência fazendo convergir pessoas de três mundos: Tecnologia, Entretenimento e Design. Desde então seu foco se tornou cada vez mais amplo e, além das 2 conferências anuais, em Long Beach e Palm Springs em cada primavera, e uma conferência global em Edimburgo a cada verão, o TED possibilita a criação de TEDx, eventos descentralizados organizados sob o mesmo modelo de conferência, com cerca de 18 minutos ou menos para cada apresentador falar sobre sua ideia, seu projeto e sua vida.

Todas as apresentações são então compiladas, é feita uma tradução em várias línguas e disponibilizada na forma de subtítulos juntamente com os vídeos, que são distribuídos sob uma licença Creative Commons BY-NC-ND, de forma que possam ser compartilhados e postados em outros lugares.

TED-Ed – http://www.youtube.com/user/TEDEducation [40]

É uma campanha do TED que solicita professores a compartilharem suas melhores aulas. Depois de selecionadas, as aulas passam por um processo de animação e são aprimoradas antes de passarem a ser usufruidas publicamente. É uma espécie de espaço para capturar e amplificar a voz dos melhores professores do mundo, com a curadoria dos usuários da internet e por todos aqueles interessados em educação, que podem indicar estes professores e difundir suas aulas.


Comunidades de Criação e Compartilhamento de REAs

Le Mill – lemill.net [41]

A Le Mill é uma comunidade internacional dedicada a encontrar, criar e compartilhar recursos educacionais abertos. Funciona como uma rede social e apresenta Conteúdos, Métodos e Ferramentas baseados em REAs.

Escola de Redes – escoladeredes.net [42]

A Escola de Redes é um espaço para aprendizagem sobre redes sociais, relações não hierárquicas e criação e transferência de tecnologias de animação de redes. Como diz Augusto de Franco, seu idealizador: “A escola é a rede”.

A Escola de Redes apresenta uma série de documentos, textos, artigos e livros para download e leitura online, bem como promove discussões e debates sobre assuntos relacionados ao tema Redes.

Neste momento, está em processo de instalação de espaços físicos de co-criação, denominados de Dojo-Nave.

Open Source Ecology – opensourceecology.org [43]

O Open Source Ecology é uma rede de fazendeiros, engenheiros e apoiadores que estão desenvolvendo um “Kit de Construção de uma Aldeia Global”. Também chamado de GVCS (Global Village Construction Set), este Kit é um plataforma de alta performance modular, de baixo custo, estilo faça-você-mesmo que permite a fabricação de 50 Máquinas Industriais diferentes, que objetivam construir uma pequena e sustentável civilização com os confortos da modernidade.

Entre as ferramentas que estão sendo desenvolvidas e ensinadas estão um, uma impressora 3D, um gerador de calor, um scanner 3D, um gerador eólico de 50kW, um modelador de plásticos e um automóvel, todos open source, ou seja, com seus “códigos livres” para poderem ser replicados, a baixo custo.

Nuvem de Soluções – nuvem.coolmeia.org [44]

A Nuvem de Soluções é uma rede social criada em torno de um banco de dados de tecnologias sociais e de tecnologias de aprendizagem autônomas a serem apropriadas por indivíduos, coletivos e organizações para um processo de mudança social, ambiental e cultural.

Apresenta iniciativas pautadas pelo pensamento convivial e solidário, buscando a criação de Capital Social e Bem Comum, gerando justiça social e ambiental, resiliência comunitária e sustentabilidade planetária, através do compartilhamento, aperfeiçoamento e criação de modelos, técnicas, ferramentas e atitudes que reproduzem os princípios elencados anteriormente.

Os indivíduos que constituem a rede pesquisam e adaptam soluções que promovem regeneração social, ambiental e inovação ou preservação cultural, compartilhando os resultados de suas pesquisas, impressões e práticas, além de usarem a rede como ferramenta de comunicação para a aplicação em suas comunidades das estratégias e modelos aprendidos.

“Você não pode ensinar nada a ninguém. Você apenas pode ajudá-lo a descobri-lo dentro de si mesmo.”

Galileu Galilei


Os exemplos não param por aí. Poderíamos produzir um livro tão somente com exemplos de espaços atualmente disponíveis para um ser humano aprender por conta própria ou com auxílio de seus pares, sem necessitar de nenhuma instituição formal. Como toda lista, ela não pretende elencar todas iniciativas que estão revolucionando a forma de aprender de forma livre e aberta hoje.

Se deseja compartilhar alguma iniciativa que você acredita que deva ser lembrada , fique à vontade para incluir novas iniciativas na página wiki do REA-Brasil, no endereço http://reabrasil.wikispaces.com/Recursos+Educacionais+Abertos+na+Aprendizagem+Informal+e+no+Autodidatismo (ou http://bit.ly/reaauto)


E o futuro? Ao que tudo indica, o novo se transforma mas não necessariamente substitui o velho. É chegada a vez dos REA, cada vez mais usados e disseminados. A Educação se torna construtiva, combinatória e aberta, bem como o seu próprio futuro.

Para ilustrar a dinamicidade do mundo atual, enquanto concluo este texto, em um canto do planeta, Howard Rheingold está tentando organizar a literatura atualmente disponível sobre “peeragogy”, ou seja, a pedagogia do alterdidatismo, sobre como podemos aprender de forma auto-organizada com nossos pares [45]. Em outro canto, pesquisa-se como um aprendiz escolhe conectar-se com outros aprendizes de forma a criar sua rede pessoal de aprendizado [46]. Propostas ainda inovadoras, como a Sala de aula invertida, ou Flipped Classroom, prometem ser ainda experimentadas, favorecendo uma espécie de “reforma” ou “revitalização do sistema escolar atual. [47] Nesse modelo, os alunos aprendem em casa e fazem as atividades e tarefas na Escola, com uma orientação posterior sobre aquilo que aprenderam. O professor não é mais o centro do aprendizado, mas aquilo que os jovens, por conta própria, decidem como as melhores ferramentas para aprender por si mesmos.

Esses são apenas alguns esboços do mundo que o aprendizado distribuído, em rede, gerido pelos próprios aprendentes está ajudando a construir. Uma miríade de possibilidades está nascendo das experimentações autônomas de indivíduos em uma sociedade cada vez mais conectada mas também sobrecarregada de informações.

Nunca foi tão difícil realizar um exercício de futurologia e saber o que vem por aí.

Como dito anteriormente, as habilidades necessárias para navegar satisfatoriamente pelo mundo atual não necessariamente passam pelos saberes transmitidos na educação formal. Captar o pensamento emergente, extrair padrões, regras e protótipos das experiências vividas; buscar significados, a verdade, a pertinência, objetivos e metas; interpretar e usar adequadamente os símbolos, sinais, a arte e o design para fazer as coisas e ver além; descrever, definir, elaborar conclusões e explicar os dados;  exercitar uma sensibilidade ecológica, a colocação de algo dentro de seu contexto, perceber o sentido das coisas, viver a mudança, ter compreensão do fluxo, a adaptação e a progressão das coisas, todas são coisas que podemos apreender sem um aprendizado formal, nos lembra Stephen Downes. Mas todos estes saberes e sentires requerem de cada um algo que parece estar em falta nos dias de hoje: atenção e paixão. Foco para definir o que se quer buscar e e desejo real para ter a perseverança necessárias para conquistar o que se almeja.

Em 1946, Viktor Frankl escreveu seu famoso livro “Em Busca do Sentido” [48], no qual nos exortava a perceber que, quando não temos um horizonte a perseguir, é muito mais fácil quedarmos às vicissitudes da vida, e a alegria e contentamento em viver mais facilmente dão lugar à apatia, à tristeza e mesmo ao desespero. É talvez nesse sentido que Eduardo Galeano se refere à busca das utopias, aquelas instâncias do viver e do sonhar que nos fazem voar alto e nos fazem sentir vivos e humanos:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

E é também nesse sentido que temos que entender os Recursos Educacionais Abertos: como uma ferramenta de aprendizado em constante diálogo com a Natureza e com os construtos da humanidade. Inextricavelmente ligados, seguem em um processo histórico e dialógico que não pode ser congelado ou encerrado em matérias, campos de conhecimento estáticos, disciplinas e outras categorizações artificiais que estão longe de conseguir representar a visão sistêmica e viva do Mundo. É tão somente a partir de uma relação sempre aberta, permeável e em rede entre conhecimentos e seres desejantes de saber, aprendendo a respeitar a multiplicidade de saberes não formais que se inserem na realidade das relações humanas, que poderemos caminhar juntos enquanto seres sociais que somos.

Há ainda algumas equações a resolver, mas quem sabe o companheiro aí do lado não tem uma parte da resposta?








Referências:

[1] Ivan Illich – Sociedade Desescolarizada – http://reinehr.org/anarquia-e-escritos-libertarios/apontamentos-anarquistas/ivan-illich-sociedade-desescolarizada

[2] Carta das Cidades Educadoras – http://www.fpce.up.pt/ciie/OCE/docs/Cartadascidadeseducadoras.pdf

[3] Edupunk – http://en.wikipedia.org/wiki/Edupunk

[4] Tools for Conviviality – http://opencollector.org/history/homebrew/tools.html

[5] Ivan Illich – Sociedade Desescolarizada – http://www.preservenet.com/theory/Illich/Deschooling/intro.html

[6] Augusto de Franco e Nilton Lessa – Multiversidade – Da Universidade dos anos 1000 à Multiversidade dos anos 2000 – http://www.slideshare.net/augustodefranco/multiversidade-10753463

[7] MOOC – Massive Open Online Course – http://mooc.ca/

[8] Power does not reside in institutions, not even the state or large corporations. It is located in the networks that structure society – http://www.demos.co.uk/files/File/networklogic17castells.pdf

[9] Helen McCarthy, Paul Miller, Paul Skidmore – Network Logic – http://www.demos.co.uk/publications/networks

[10] Conectivismo – http://en.wikipedia.org/wiki/Connectivism

[11] Wikipedia – wikipedia.org

[12] – Wikipedia, pela própria Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia

[13] Knol – knol.google.com

[14] MERLOT – merlot.org

[15] Khan Academy – khanacademy.com

[16] Banco Internacional de Objetos Educacionais – objetoseducacionais2.mec.gov.br

[17] Appropedia – appropedia.org

[18] Instructables – instructables.com

[19] Como fazer um chapéu Ataque de um Tubarão – http://www.instructables.com/id/Shark-Attack-Hat/

[20] Como fazer Onde Onde – http://www.instructables.com/id/Onde-Onde-Malaysian-Coconut-Balls/

[21] Como fazer um gerador eólico – http://www.instructables.com/id/DIY-1000-watt-wind-turbine/

[22] Shred Academy – shredacademy.com

[23] Lifehacker – lifehacker.com

[24] AAAAARG.ORG – aaaaarg.org

[25] The Anarchist Library – theanarchistlibrary.org

[26] UDEMY – udemy.com

[27] The Faculty Project – facultyproject.com

[28] Academic Earth – academicearth.org

[29] P2PU – p2pu.org

[30] MIT OCW – ocw.mit.edu/courses

[31] Artigo com links para mais de 400 cursos online gratuitos – http://www.openculture.com/freeonlinecourses

[32] iTunesU – apple.com/education/itunes-u

[33] School of Everything – schoolofeverything.com

[34] Trade School – tradeschool.ourgoods.org

[35] The Public School – thepublicschool.org

[36] Nós Vc – nos.vc

[37] Adote um parágrafo – adoteumparagrafo.pbworks.com

[38] Class Central – class-central.com

[39] TED ted.com

[40] TED Ed – http://www.youtube.com/user/TEDEducation

[41] Le Mill – lemill.net

[42] Escola de Redes – escoladeredes.net/

[43] Open Source Ecology – opensourceecology.org

[44] Nuvem de Soluções – nuvem.coolmeia.org

[45] Literature review of material related to self-organized peer learning (“peeragogy”) – http://bitly.com/peeragogy_2012


[46] Understanding personal learning networks: Their structure, content and the networking skills needed to optimally use them – http://bit.ly/redesdeaprendizado

[47] Flipped Classes – http://www.mentormob.com/learn/i/articles-about-the-21st-century-education

[48] Man’s Search for Meaning – http://en.wikipedia.org/wiki/Man’s_Search_for_Meaning




i-had-a-dream125
Jan 01

I had a dream…

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

i-had-a-dream125

One of the best things we could have in life is starting the year among a bunch of friends. It's even better when we're able to extend this moment that usually last a couple of hours to days, months or even years. Be surrounded by friends, people with shared interests, people that are able to hear and dialogue in a human and intelligent way, is a gift for which we should be grateful.

Among the people that are receiving this message today, are friends of several moments and several histories of different interlacings: some that i already know for long time, some with whom i've already had breakfast, some whose ideas and conquests only know from the internet, some with whom i've already shared megalomaniac journeys, some with whom i haven't dare to co-criate…

Everybody, although, I think , share with me a dream. Many times the words, images, symbols and paths we describe in this dream are different, but not divergent. All converge to a point in common: the well being and the happiness of whole humanity.

There's is some time now that I dedicate myself to the study of humankind, its constitution, necessities, desires, decisions and implications of it to himself, for those who surround them and to Nature. Maybe this started, in a subtle and unconscious warm during my medical course, in the nineties. But for sure it was not that time that this study developed. Our university courses aim to develop technical-scientific tools, not human beings sensible to environment that surround us. Other stimuli, other reading and examples, arising from self determination in wanting to know more that leading me to study the human affairs. But i'm not intending to  talk longer, since this is to be the start of a dialogue, not a monologue.

I'll tell you about a dream I had, and wish to share with everyone of you, my friends that, by chance or destiny, crossed with me in this exact moment and space in Universe. This dream talks about a future that we only can imagine, for now. In common sense, talks about a Utopia. Utopia, as Berri states, that exists to make us to continue to walking. (1)

In this dream, You and I were facing each other, talking. Talking without the mediation of no technological equipment. We decided to let them at home, even liking them so much, because we wanted a conversation a la "old way". While one talked, the other listened carefully. We responded empatically, showing we were really tuned on the same frequency. We knew that, if some kind of resistance or change were going to happen, this would be by the means of horizontal relationships permeated by a profound respect and mutual aid.

In this dream, we remembered how humanity went thru more than 2 million years living in a cooperative and sustainable way, hunting and gathering, without labour division between sex. A naive nostalgia, that send us to an idilic world that, we knew, wouldn't come back. If we wouldn't go back to the Stone Age, maybe we could start using better the technology we developed so brilliantly the last thousand years, even more intensely the last decades. Maybe we could develop a model yet not fully designed, capable to make us return to our lost humanity. Maybe we could start do unveil a bio-ethic-political-economical-social-spiritual horizon not fully theorized yet, neither consciously practiced, in a scale enough to generate a significant change in our society.

We perceived, in this dream, that people around us started to express more and more a desire for an autonomy that could happen by means of association and cooperation, and that the emergency here and there of movements that do not only protest against the misery of our lives but joyously affirm the possibility of a radically different life were already unmistakable signs  that this horizon we were eager to unveil is each time more ready to be appreciated.

We knew, in our dream, that one of our main roles were to help the development of this collective consciousness, through creation, improvement and implantation of models, tools and attitudes capable of molding actual reality according to our necessities and desires.

We have then stated a common goal:

"To make the world work for 100% of humanity in the shortest possible time through spontaneous cooperation without ecological offense or the disadvantage of anyone." (2)

We felt that we don't needed to enter in shock with the stablished powers, because those already have a crashing power, that could end with our aims. We could, instead, create a mixed mechanism of resistance and creation of alternatives (3). We could create a detour in the river natural flow, digging another riverbed, built with the help of those who believed in our shared dream.

 

We knew also that not all truths would be already written, at the moment we started to walk our path.

 

"Paths are never straight lines. They zigzag, journey uphill & down. They reach dead-ends. But when we put out best foot forward, we just might venture in utopia's direction, toward a world from below, by & for all.

 

We gingerly find stepping-stones to more marvelous destinations. Then strive to cobble together whole landscapes out of nonhierarchical practices. We kick broken glass from our way. Sometimes get lost. But the precarious passage itself is our road map to a liberators society.

 

We hold hands, desiring to traverse anew. When darkness descends, we build campfires from the embers of possibility, & see other flames in the distance." (4)

 

We knew in first place, in our dream, that the change we hoped to co-build would come from a continuos, cooperative work, made from hundreds of thousands of people, during a prolonged period of time. But we knew also that it would be funny and enriching to walk this way together.

 

"Revolutionary change does not come as one cataclysmic moment (beware of such moments!) but as an endless succession of surprises, moving zigzag toward a more decent society. We don't have to engage in grand, heroic actions to participate in the process of change. Small acts, when multiplied by millions of people, can transform the world. Even when we don't "win," there is fun and fulfillment in the fact that we have been involved, with other good people, in something worthwhile. We need hope.

An optimist isn't necessarily a blithe, slightly sappy whistler in the dark of our time. To be hopeful in bad times is not just foolishly romantic. It is based on the fact that human history is a history not only of cruelty but also of compassion, sacrifice, courage, kindness. What we choose to emphasize in this complex history will determine our lives." (5)

 

And, in a moment, I was awake. The funny thing is that i woke up but the dream wasn't gone: it was there, its presence screaming and asking, with a visceral urgence, that I helped him to came to reality. And here am I, surrounded by far than special people, with whom I wish to share this dream and, much more than this, wish that let me share their dreams.

That said, i ask:

What you that is reading this text right now, and who I am calling to compose this dream with me, would add that is YOURS to make this at the same time a common and a completely yours dream?

A fraternal hug and a special walk through the paths of 2014…

Rafael Reinehr

 

References:

 

(1) Fernando Berri – "Utopia is on the horizon. I move two steps closer, it moves two steps further away. I walk another ten steps and the horizon runs ten steps further away. As much as I walk, I'll never reach it. So what's the point of utopia? The point is this: to keep walking."

 

(2) R. Buckminster Fuller

(3) R. Buckminster Fuller – "You never change something by fighting the existing reality. To change something, build a new model that makes the existing model obsolete."

(4) excerpt from Paths toward Utopia, ilustrated by Erik Ruin and words of Cindy Milstein

(5) Howard Zinn, in Optimism of Uncertainty – this text continues as goes: "If we see only the worst, it destroys our capacity to do something. If we remember those times and places–and there are so many–where people have behaved magnificently, this gives us the energy to act, and at least the possibility of sending this spinning top of a world in a different direction. And if we do act, in however small a way, we don't have to wait for some grand utopian future. The future is an infinite succession of presents, and to live now as we think human beings should live, in defiance of all that is bad around us, is itself a marvelous victory."

(text originally written on January 1st, 2012)

pathways-to-utopia4125
Jan 01

Eu tive um sonho…

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

pathways-to-utopia4125

Uma das melhores coisas que podemos ter na vida é começar o ano rodeado de amigos. Melhor ainda é quando conseguimos prolongar este momento que dura horas para dias, meses anos. Estar cercado de amigos, pessoas com interesses afins, pessoas capazes de ouvir e dialogar de forma humana e inteligente, é uma dádiva pela qual devemos ser gratos.

Entre as pessoas que estão recebendo esta mensagem hoje, encontram-se amigas e amigos de vários momentos e com várias histórias de diferentes entrelaçamentos: alguns que já conheço de longa data, outros com os quais já tomei café da manhã, outros ainda cujas ideias e feitos só conheço através do mundo da internet, alguns com os quais já compartilhei jornadas megalomaníacas, outros com os quais ainda não me atrevi a co-criar…

Todos, entretanto, creio eu, compartilham comigo de um sonho. Muitas vezes as palavras, as imagens, os símbolos e os caminhos que descrevemos neste sonho são diferentes, mas não divergentes. Todos convergem para um ponto em comum: o bem-estar e a felicidade da humanidade.

Há algum tempo me dedico a estudar o homem, sua constituição, suas necessidades, seus desejos, suas decisões e as implicações das mesmas para si, aqueles que o rodeiam e a Natureza. Talvez isso tenha começado, de forma ainda inconsciente, durante o curso de Medicina, na década de 90. Mas não foi aí que este estudo mais se desenvolveu, propriamente. Nossos cursos universitários servem para formar técnicos-científicos e não humanos sensíveis ao ambiente que nos cerca. Foram outros estímulos, outras leituras e exemplos, oriundos da autodeterminação em querer conhecer mais, saber mais, que me levaram a estudar o que é do humano. Mas não vou me delongar, afinal este não é pra ser um monólogo e sim o começo de um diálogo.

Vou falar de um sonho que tive, e que quero compartilhar com cada um de vocês, minhas amigas e amigos que, por acaso ou destino, cruzaram comigo nesse exato instante e espaço no Universo. Esse sonho fala de um porvir que só podemos, por enquanto, imaginar. Em termos comuns, fala de uma Utopia. Utopia, como diz Berri, que nos serve para que não deixemos de caminhar (1).

Nesse sonho, estávamos Eu e Tu, um de frente para o outro, e conversávamos. Isso mesmo, conversávamos face a face, sem a mediação de nenhum equipamento tecnológico. Resolvemos deixá-los em casa, apesar de gostar muito deles, pois queríamos uma conversa "à moda antiga". Enquanto um falava, o outro ouvia atentamente. Respondíamos empaticamente, mostrando que realmente estávamos sintonizados na mesma freqüência. Sabíamos que, se algum tipo de resistência ou mudança iria acontecer, seria assim: através de relações horizontais permeadas por um profundo respeito e apoio mútuo.

Nesse sonho, lembrávamo-nos como a humanidade percorreu mais de 2 milhões de anos vivendo de forma cooperativa e sustentável, da caça e da coleta, sem divisão do trabalho entre os sexos. Uma nostalgia ingênua e rápida, que apenas nos remete a um mundo idílico que, sabemos não voltaria mais. Se não voltaríamos à idade das cavernas, talvez pudéssemos, isso sim, passar a usar melhor a tecnologia que desenvolvemos nesses milhares de anos, e cada vez mais intensamente nas últimas décadas. Talvez pudéssemos desenvolver um modelo ainda não completamente desenhado, capaz de nos fazer retomar nossa humanidade. Pudéssemos, quem sabe, começar a desvelar hoje um horizonte bio-ético-político-econômico-social-espiritual ainda não completamente teorizado tampouco conscientemente praticado, em escala suficiente para gerar uma mudança significativa em nossa sociedade.

Percebíamos, neste sonho, que as pessoas ao nosso redor passavam cada vez mais a expressar um desejo por uma autonomia que pudesse ser realizada de forma associativa, cooperativa, e que a emergência aqui e acolá de movimentos que não só protestam contra a miséria de nossas vidas, mas alegremente afirmam a possibilidade de uma vida radicalmente diferente já eram sinais inconfundíveis de que este horizonte que pretendíamos desvelar está cada vez mais pronto para ser apreciado.

Sabíamos, em nosso sonho, que um dos nossos principais papéis era ajudar a desenvolver esta consciência coletiva, através da criação, aperfeiçoamento e implantação de modelos, ferramentas e atitudes capazes de moldar a realidade atual de acordo com nossas necessidades e desejos.

Tínhamos então declarado um objetivo comum:

 

"Fazer o mundo funcionar para 100% da humanidade no menor tempo possível através da cooperação espontânea sem ofensa ecológica ou desvantagens para qualquer um." (2)

 

Sentíamos que não precisaríamos bater de frente com os poderes já estabelecidos, pois estes possuem uma força esmagadora, que poderia acabar com nossos intentos. Poderíamos, isso sim, criar um mecanismo misto de resistência e criação de alternativas (3). Poderíamos criar um desvio no fluxo do rio, cavando um outro leito, construído com a ajuda de todos aqueles que acreditassem em nosso sonho.

Sabíamos também que nem todas as verdades já estariam escritas, quando começássemos a trilhar nosso caminho.

 

"Caminhos nunca são linhas retas. Eles ziguezagueiam, sobem e descem colinas e vales. Eles chegam a becos sem fim. Mas quando colocamos nosso melhor pé adiante, podemos nos aventurar na direção da utopia, em direção a um mundo que venha de baixo, para todos e por todos.

 

Com grande cuidado encontramos pedras nas quais podemos pisar para os destinos mais maravilhosos. Então nos esforçamos para emendar paisagens inteiras de práticas não-hierárquicas. Chutamos os vidros quebrados do nosso caminho. Às vezes nos perdemos. Mas a passagem precária em si mesma é um mapa para uma sociedade liberadora.

 

Nos damos as mãos, desejando atravessar novamente, de um jeito novo. Quando a escuridão desce, construimos acampamentos de fogo a partir das fagulhas da possibilidade, e vemos outras chamas à distância." (4)

 

Sabíamos principalmente, em nosso sonho, que a mudança que esperávamos co-construir viria de um trabalho continuado, cooperativo, de centenas de milhares de pessoas, ao longo de um período prolongado de tempo. Mas sabíamos também que seria divertido e enriquecedor trilhar esse caminho, juntos.

 

"A mudança revolucionária não vem como um momento cataclísmico… mas como uma sucessão sem fim de surpresas, movendo-se em zigue-zague em direção a uma sociedade mais decente. Não temos que nos engajar em grandes e heróicas ações para participar do processo de mudança. Pequenos atos, quando multiplicados por milhões de pessoas, podem transformar o mundo.

 

Mesmo se não "vencermos", existe diversão e preenchimento no fato de estarmos envolvidos, com outras pessoas boas, em algo que vale a pena. Nós precisamos de esperança. Um otimista não é necessariamente um indiferente, um cantarolador levemente sentimental no meio da escuridão do nosso tempo. Pois ter esperança em tempos ruins não é apenas romantismo bobo. É basear-se no fato de que a história humana é uma história de crueldade, mas também de compaixão, sacrifício, coragem e bondade. O que escolhemos enfatizar nesta complexa história é que irá determinar nossas vidas." (5)

 

E assim acordei. O engraçado é que acordei mas o sonho não foi embora: ele estava ali, presente, gritando e pedindo, como urgência visceral, que eu o ajudasse a se tornar realidade. E aqui estou eu, cercado de pessoas pra lá de especiais, com as quais gostaria de compartilhar este sonho e, muito mais do que isso, gostaria que me deixassem compartilhar dos seus sonhos.

Em virtude disso, pergunto:

O que você, que está lendo este texto agora, e que estou chamando para compor este sonho comigo, acrescentaria de seu para que este sonho seja um sonho ao mesmo tempo comum e completamente seu?

 

Um abraço fraterno e ótimo caminhar pelas sendas de 2014…

Rafael Reinehr

 

Referências:

 

(1) Fernando Berri – "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar"

(2) R. Buckminster Fuller

(3) R. Buckminster Fuller – "Você nunca muda a realidade lutando contra ela. Para mudar algo você cria um novo modelo que torna o modelo existente obsoleto."

 

(4) trecho retirado de Paths toward Utopia, com ilustrações de Erik Ruin e palavras de Cindy Milstein

(5) Howard Zinn, em O Otimismo da Incerteza – este texto continua assim: "Se virmos apenas o pior, ele destrói nossa capacidade de fazer algo. Se lembrarmos daqueles tempos e lugares – e existem tantos – em que as pessoas se comportaram de forma magnífica, isso nos dá energia para agir, e ao menos a possibilidade de mandar esse topo giratório do mundo em uma direção diferente. E se nós agirmos, mesmo de uma forma pequena, nós não precisaremos esperar por um grande e utópico futuro. O futuro é uma sucessão infinita de presentes, e viver agora da forma que acreditamos que os seres humanos devem agir, em oposição a tudo que existe de tuim ao nosso redor, já é por si uma vitória maravilhosa."

(texto preparado para o grupo Lux, do Tao – grupo de amigos dedicado a "Fazer o mundo funcionar para 100% da humanidade no menor tempo possível através da cooperação espontânea sem ofensa ecológica ou desvantagens para qualquer um, e publicado orignalmente em Primeiro de Janeiro de 2012" )

Out 09

Sobre a Felicidade

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Humanos são capazes de avaliar sua vida de duas formas. Temos em comum com todos animais superiores o fato de que podemos avaliar nossa situação afetivamente. Nos sentimos bem ou mal acerca de coisas particulares e nosso nível de humor mostra uma adaptação de acordo. Como nos animais, essas adaptações afetivas são automáticas, mas ao contrário de outros animais, os humanos podem refletir sobre essa experiência. Nós temos ideia de como nos sentimos ao longo do último ano, enquanto um gato, acredita-se, não o faz. Humanos também podem julgar a vida cognitivamente comparando “a vida como ela é” com “a vida como deveria ser”.

(Grato a Ruut Veenhoven)

Ruut Veenhove

 

Ago 06

Resistência à mudança, Inovação e Conservadorismo

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Retirado de um seminário da STRO (Social Trade Organization):

Devemos ter em mente que não há nada mais difícil e perigoso, ou mais duvidoso de sucesso do que a tentativa de introduzir uma nova ordem de coisas em qualquer situação. O inovador tem todos os indivíduos que obtiveram vantagens com a antiga ordem das coisas como inimigos, enquanto aqueles que esperam ser beneficiados com as novas instalações, serão defensores moderados. Essa indiferença surge, em parte por medo de seus adversários, que eram os favorecidos pelas leis existentes e, em parte, pela incredulidade daqueles que não acreditam em nenhuma coisa nova, que não seja o resultado de uma experiência bem-sucedida. Por isso é que, sempre que os opositores da nova ordem das coisas têm a oportunidade de atacá-la, eles o farão com o zelo dos partidários, enquanto os outros o defendem, mas com pouca intensidade, assim, resulta ser perigoso confiar nestes últimos.” (Nicolau Maquiavel, em O Príncipe)

E o texto segue (agora fala o autor do texto, Hen van Arkel):

Certamente, quando você se propõe a repensar as estruturas básicas da sociedade, há uma grande resistência. E, de fato, durante muitos anos, era essencial que os ricos tivessem uma espécie de dinheiro disponível que lhes permitisse transferir poder ao longo do tempo e do espaó. No entanto, temos sobrevivido a esse episódio. Hoje as pessoas que têm muito, enfrentam o risco de perder tudo, vivendo neste planeta ecológico e socialmente frágil. Isso não significa que todas as pessoas ricas estão conscientes disto ou que sabem como melhorar seu comportamento. A opção por tais “mudanças” tanto atrai quanto assusta as pessoas. Nós, seres humanos, na grande maioria, desconhecemos que a história cria mudanças o tempo todo. A verdadeira questão é: nós vamos nos atrever a começar e apoiar as mudanças nas regras fundamentais existentes por trás da atual organização da sociedade, ou vamos esperar até que as coisas mudam, como resultado dessas regras em vigor ou devido a outras forças?

Para algumas pessoas, saber que a mudança de um estado de organização social para outro parece ser algo impossível, posto que todas as forças do tabuleiro jogam contra, basta para que se recolham à rotina de TV a cabo e churrascos de domingo.

Para outros, ela só reforça a noção de que o que está errado precisa de soluções ainda mais engenhosas e criativas, partindo para a prancheta e para a colaboração em rede para buscar as respostas aos problemas que se apresentam.

Como disse-me o amigo Luiz Algarra, depois que lhe encaminhei esta reflexão:

“Tenho refletido sobre o fato de que a inovação é apenas um estágio da conservação.
Inovamos para conservar.
As empresas inovamprocessos para conservar posições de mercado.
Partidos inovam propostas para se adaptar ao desejo dos eleitores, e se conservar no poder.
Somos seres conservadores po natureza. Conservamos nosso viver.
Então hoje para mim a questão é: o que desejo conservar?
Tudo de organiza em congruência ao redor de um sistema que conserva uma determinada classe de coisas.

Pergunta importante: “o que desejo conservar?“. É o meu desejo egoísta, altruísta? Estou respeitando o outro, a diversidade ou apenas o meu dinheiro e o meu poder? Qual é minha compreensão acerca do mundo que me cerca? Biologia do Amar e Biologia do Conhecer, disciplinas que não são ensinadas nas Escolas do Mundo ao Avesso…

Vamos estudar juntos, vamos apreender estes conceitos e com eles aprender a nos tornar humanos?

Abr 07

De esquilos e bolotas

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Texto originalmente entitulado Collapse Competitively, de autoria de Dmitry Orlov. Leia e compreenda a mensagem.

We are heading
toward economic, political and social collapse, and every day that
passes brings it closer. But we just don’t know when to stop, do
we? Which part of “the harder we try, the harder we fail” can’t we
understand? Why can’t we understand that each additional dollar of
debt will drive us into national bankruptcy faster, harder and
deeper? Why can’t we grasp the concept that each additional dollar
of military spending further undermines our security? Is there some
sort of cognitive impairment that prevents us from understanding
that each additional dollar sunk into the medical industry will
only make us sicker? Why can’t we see that each incremental child
we bear into this untenable situation will make life harder for all
children? In short, what on earth is our problem?

Why can’t we stop? We can blame evolution, which has produced in
us instincts that compel us to gorge ourselves when food is abundant,
to build up fat reserves for the lean months. These instincts are
not helpful to us when there is an all-you-can-eat buffet nearby
that’s open year-round. These instincts are not even specifically
ours: other animals don’t know when to stop either. Butterflies
will feast on fermented fruit until they are too drunk to fly. Pigs
will eat acorns until they are too fat to stand up and have to
resort to crawling about on their bellies in order to, yes of course,
eat more acorns. Americans who are too fat to walk are considered
disabled and the government issues them with little motorized
scooters so that they don’t have to suffer the indignity of crawling
to the all-you-can-eat buffet on their bellies. This is considered
progress.

Or we can blame our education, which puts mathematical reasoning
ahead of our common sense. Mathematics uses inductionthe idea that
if 1 + 1 is 2 then 2 + 1 must be 3, and so on up to an arbitrarily
large quantity. In the real world, if you are counting acorns, then
1 + 1 acorns is not the same as 1,000,000 + 1 acornsnot if there
are squirrels running around, which there will be once they find
out that you are the one who’s been stealing their acorns. A million
acorns is just too many for you to keep track of, and your concerted
effort to keep adding one more to the pile while fighting off
squirrels may cause small children to start calling you silly names.
The bigger the pile grows, the more likely you are to have to take
inventory, and in the process you are increasingly likely to make
a mistake, so that it turns out that 1,000,000 + 1 is in fact
1,000,001 – d, where d is the number of acorns you have lost track
of, somehow. Once d > 0, you have achieved diminishing returns, and
once d > 1, you have achieved negative returns. In the real world,
the bigger you think a number should be, the smaller it actually
turns out to be. At some point, trying to add one more to the pile
becomes a particularly wasteful way of making the pile smaller.
This result is not intellectually pleasing, and there is no theory
to back it up, but it is observable anywhere you care to look. The
fact that we are unable to adequately explain any given phenomenon
by using our feeble primate brains does not make it any less real.

The concept of diminishing returns is quite simple for most people
to understand and to observe, but notoriously difficult to detect
for the person who is at the point of achieving them. The point of
negative returns is even harder to detect, because by that point
we tend to be too far gone to detect much of anything. If you already
had N drinks, can you tell if you are at the point of diminishing
returns yet? Will another drink make you happier and more sociable,
or will it not make much of a difference? Or will it cause you to
embarrass yourself and spend the next day nursing a debilitating
hangover? Or will it send you to the emergency room to be treated
for vomit inhalation? As a general rule, the more you imbibe, the
more difficult it becomes for you to draw such fine distinctions.
This rule does not seem to be limited to drinking, but applies to
almost all behaviors that produce a feeling of euphoria rather than
the simple satisfaction of needs. Most of us can stop ourselves
from drinking too much water, or eating too much porridge, or
stacking too many bales of hay. Where we do tend to run into trouble
with self-control is when it comes to things that are particularly
pleasurable or addictive, such as drugs, tobacco, alcohol, and rich
and delicious food. And we tend to lose it completely when it comes
to euphoria-inducing social semi-intangibles: satisfaction of greed,
status-seeking, and power over others.

Is this the best we can do? Certainly not! Human culture is full
of examples where people stood up and successfully opposed such
primitive tendencies within themselves. The ancient Greeks made a
virtue of moderation:

the temple of Apollo at Delphi bore the inscription MH?EN AGAN”Nothing
in excess.” Taoist philosophy focuses on the idea of balance between
yin and yang (? ?)seemingly contrary natural forces that in fact
work together and must be kept in balance. Even in contemporary
engineering culture one sometimes hears the motto “Better is the
enemy of good enough.” Sadly, though, engineers who are good enough
to abide by it are something of a rarity. At the micro level of
solving specific problems most engineers do strive to achieve the
clever optimum rather then the stupid maximum, but at the macro
level the surrounding business culture forces them to always go for
the stupid maximum (maximum growth, revenue and profits) or the
stupid minimum (minimum cost, product cycle time and maintainability).
They are forced to do so by the influence of a truly pernicious
concept that has insinuated itself into most aspects of our culture:
the concept of competition.

The concept of competition seems to have first been elevated to
cult status by games that were played as a form of sacrifice before
gods, in cultures as different as ancient Greece and the Mayan
civilization, where competitive events were held to please their
various deities. I much prefer the Olympic version, where the object
of the games was to express the ideal of human perfection in both
form and function, rather than the Mayan version, where the outcome
of the game was used to decide who would be sacrificed on the altar
of some peculiar cultural archetype, but being open-minded I am
ready to accept either as valid, because both are competitions in
defense of principle. It was Aristotle who pointed out that pursuit
of principle is the one area where moderation is not helpful, and
who am I to refute Aristotle?

But when moving from defending an ideal or a principle to performing
mundane, practical, utilitarian functions it is the idea of competition
itself that should be offered up as a nice, sizzling-fat burnt
offering on the altar of our common sense.

If the goal is to achieve an adequate result with a minimum of
effort, then why would two people want to compete to do the job of
one? And if there is in fact work enough for two, then why wouldn’t
they want to cooperate instead of wasting their precious energies
in competition? Well, they may have been brainwashed into thinking
that they must compete in order to succeed, but that’s beside the
point. The point is that there is a major difference between competing
for the sake of a principlesuch as the perfection of divine creationand
competing for mere money. There is nothing divine about a big pile
of money, and, just as with a big pile of acorns, the bigger the
pile, the more “squirrels” it tends to attract. In fact, those who
are sitting on some of the bigger piles of acorns often seem rather
squirrely themselves. To mix metaphors, they also tend to be
chicken-like, roosting on their acorns and expecting them to hatch
into more acorns. But be they squirrels or be they chickens, or be
they drug-addled mutant chicken-squirrels on steroids, they are
certainly not gods, and their acorns are not worthy of our sacrifice.

Once we dispense with the idea that competition is in any sense
necessary, or even desirable, new avenues of thought open up. How
much is enough? Probably much less than we have now. How hard do
we need to work for it? Probably a lot less hard than we are working
now. What happens if we don’t have enough? Well, perhaps then it’s
time to try working just a tiny bit harder, or, better yet, perhaps
it is time to take a few acorns from those who still have too many.
Since having too much is such hard work (mind the damn squirrels!)
we’d only be helping them. We certainly don’t want to keep up with
them, because we know where they are headed  a quaint, exclusive
little place called collapse. What we should probably be trying to
do instead is to establish some sort of balance, where enough is,
in fact, enough.

* * * * *

Artigo publicado originalmente no ClubOrlov

Dez 11

O Sentido da Vida não precisa ser procurado fora dela mesma

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

A idéia de que a moralidade necessariamente foi “colocada” em nós me é totalmente estranha. Da religião cristã, retiro toda a teologia e cosmogonia e fico apenas com seus preceitos éticos. Não há que existir Deus, ou louvar a um Deus para ser generoso, justo e bom. A moralidade é uma característica que pode ser cultivada em ateus e que pode grosseiramente estar faltando naqueles que crêem em Deus.

Os seres humanos são fracos. Temos fraqueza de querer. Nós nem sempre fazemos aquilo que sabemos muito bem que deveríamos fazer. E isso, em muitas pessoas, produz o fenômeno da culpa, do remorso. A culpa é uma força negativa poderosa na cabeça das pessoas. As pessoas não gostam de sentir culpa, é um mau sentimento. Assim, a idéia de Deus, mais forte do que a simples ideia de uma moralidade, acaba por dar um motivo mais forte às pessoas para fazer o certo de forma regular. Assim, a existência de Deus pode ser uma necessidade para algumas pessoas. Se a força que possuem não lhes permite ser moralmente corretos somente pelo fato de que esta seria a escolha certa a ser feita, então há que se ter um Deus para regular e “fiscalizar” os atos dos homens.

É muito melhor fazer as coisas certas porque são boas e SOMENTE porque são boas do que fazer porque algum Deus está nos olhando e irá nos recompensar!

Um dos principais argumentos para não acreditar em Deus diz respeito ao fato de que, se ele é todo-poderoso, onisciente e todo-generoso, como pode haver tanto sofrimento na terra? Tantas catástrofes naturais, tanta maldade, doenças genéticas que trazem sofrimento às famílias e aos portadores das enfermidades? Se existe um Deus todo-poderoso que poderia evitar isso e ele não o faz, não é o Deus ao qual quero me reportar ou com o qual quero me relacionar. Se um ser humano resolve fazer experiências colocando dificuldades e sofrimento na vida das pessoas, como Joseph Menguele por exemplo, você acharia isso correto? Imputar sofrimento às pessoas somente para ver “como elas enfrentarão as dificuldades”, dando-lhes o livre arbítrio?

Ioga do Caos
Out 27

Todas as nossas ações refletem no mundo em que vivemos

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Nossos pés deixam pegadas na areia do tempo. Se estivermos no caminho errado, muitos nos seguirão, desviando-se do que é correto. Quando pensamos que uma ação é só por aquele momento e esquecemos que ela deixa um rastro atrás de si, não estamos sendo responsáveis.
Todas as nossas ações afetam os seres humanos, dando-lhes alívio ou tristeza. Podemos fortalecê-los ou não. Podemos causar ferimentos ou curas. Podemos gerar conflitos ou resolvê-los. Podemos criar cataclismas ou algo nobre para a sociedade.
” B.K.Jagdish

Este fantástico pensamento, por mim retirado há mais de uma década do “Almanaque Gaúcho”, publicado em Zero Hora e que agora reside não só naquela folha amarelada que guardo comigo, conseguiu realizar uma mudança gigantesca na forma que percebo o mundo e as coisas ao meu redor.

Posso dizer que, na experiência da minha vida, esse talvez tenha sido o chacoalhar que deu início ao meu processo de Despertar. Sempre que me referir a este termo, “Despertar“, me refiro não a um acordar biológico tão somente, e também não uso o termo como um fenômeno puramente místico mas, mais ainda, a um fenômeno que abraça em si as necessárias mudanças biológicas, espirituais e sociais necessárias a uma Reforma do Pensamento.

Esta Reforma do Pensamento, que começa com uma Reforma da Percepção e passa por uma Reforma do Julgamento, é o sentido último do meu esforço intelectual dos últimos 14 anos. Tenho forte convicção de que as mudanças que urgem passam por este processo que, em última instância, deverá modificar a forma com que percebemos, julgamos e pensamos.

Entretanto, e agora me dobro a evidências empíricas, nem sempre é através da palavra – como ocorreu comigo – que se consegue promover o “Despertar“. Muitas vezes, precisamos da prática, da ação, do exemplo como ferramenta para que a mudança ocorra.

Hoje, infelizmente, ainda precisamos ser violentados, maltratados, desrespeitados, perder o emprego, ter nossa honra machucada ou precisamos ser retirados de nossa “zona de conforto” para perceber que alguma coisa está muito errada no mundo aí fora. Os sinais da degeneração da qualidade de vida estão cada vez mais salientes e, apesar do crescimento do consumo de bens materiais, pouquíssimas vezes conseguimos escutar a palavra felicidade. E esta, por incrível que possa parecer a este ser humano individualista, capitalista e competidor que é a regra hoje em dia, é mais ouvida em ambientes onde a confraternização, a socialização e a cooperação estão presentes. Paradoxal? Nem tanto, quando lemos alguns estudos científicos a respeito.

Pois é deste fluxo que trataremos aqui: o fluxo contínuo de linguagear, emocionar e conversar – para utilizar os neologismos criados por Humberto Maturana – em direção a um porvir mais voltado para o social do que para o individual, que tenda à cooperação entre as pessoas e o ambiente. Por incrível que pareça, você não precisará abrir mão de seu conforto para isso. Aprenderemos juntos como seguir este caminho. O primeiro passo está dado. Agora me dê sua mão e vamos caminhar juntos.

– Utopia […] ella está en el horizonte. Me acerco dos pasos, ella se aleja dos pasos. Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. Por mucho que yo camine, nunca la alcanzaré. Para que sirve la utopia? Para eso sirve: para caminar.Eduardo Galeano

(publicado originalmente na Coolmeia, em 6 de abril de 2009)

mosca
Out 02

Eu deixei uma mosca morrer

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Hoje, enquanto estava tomando banho, deixei uma mosca morrer.

Falando assim, pode parecer uma banalidade. Quantas vezes matamos insetos ou mesmo outros animais para nos alimentarmos ou, no caso de algumas pessoas, até para diversão?

moscaEntretanto, desde janeiro, quando Carol e eu passamos a aderir uma dieta vegetariana, tenho repensado minha relação com o reino Animal.

Normalmente, quando um grupo de vespas começava a formar um vespeiro na aba do teo aqui de casa, eu ia com uma tocha e queimava o ninho e, junto dele, algumas de suas moradoras. Hoje, prefiro apenas derrubar o ninho com um cabo longo, sem machucar fisicamente as vespas. Não, ainda não consegui chegar ao ponto de preocupar-me “socialmente” com as vespas e com o local que elas deverão procurar para morar…

Sobre a mosca de hoje, a história foi assim: eu estava tomando banho quando, não mais do que de repente, uma mosca pousou no chão do banheiro, mas pousou em cima de uma poça de água, e acabou ficando de cabeça para baixo. Instintivamente, acabei levando meu braço com algumas gotas de água por sobre a poça de água, pensando, maldosamente, que a gota pudesse ajudar a “afogar” a mosca. Esse pensamento só me ocorreu por menos do que um instante, mas consegui captá-lo na minha cabeça. O que aconteceu, com a minha gota, no entanto, foi que a mosca acabou virando-se de barriga para baixo, mas ainda presa na água. No mesmo instante, pensei em dar-lhe um peteleco e tirá-la daquela situação, mas continuei ali, banhando-me e, de vez em quando, observando a tentativa da mosquinha de sair de lá.

Ao final do meu banho, a mosca não mais se mexia. Acho que estava exausta ou, então, morreu. Fico pensando: qual era minha responsabilidade sobre a vida daquele inseto específico? Moralmente, sei que pertenço a uma espécie chamada Homo sapiens (nem sempre tão sapiens assim) e que, para minha permanência e sobrevivência, acabamos realizando mudanças no meio-ambiente que agridem ou mesmo exterminam com a biodiversidade, incluindo a vida de muitos animais.

O vegetarianismo é um passo para tentar reduzir este impacto que nós, humanos, causamos ao lar que nos abriga. É uma escolha, no meu caso, mais moral do que de saúde. É uma escolha que nos faz refletir, continuamente, sobre nossas relações com outros humanos, outros animais e, também, com outras espécies não animais como os próprios vegetais que consumimos.

Geralmente, um dos argumentos que os carnívoros (ou onívoros) mantém para seguir comendo carne diz respeito ao fato de que os vegetais também são seres vivos e merecem nosso respeito tanto quanto os animais. Não haveria diferença moral entre comer um animal ou um vegetal: é apenas uma questão de sobrevivência (queria ouvir isso de quem come vitela e foier gras). Outros ainda, admitem que não conseguem viver sem carne, pois o hábito, a cultura e o paladar vencem qualquer fibra moral que possuam naquele dado momento. Há que se respeitar esta decisão, afinal, somos humanos, e cada um de nós tem suas forças e fraquezas. Eu mesmo, posso ter fibra para passar uma vida inteira sem comer carne mas, em uma situação como um incêndio, por exemplo, possa não ser capaz de invadir uma casa em chamas para salvar a vida de uma pessoa (isso nunca aconteceu, e também espero não ser posto a prova nesta situação).

Mas ainda, sobre a mosca: não, não espero ser o guardião das moscas e também não me imagino ajoelhado frente a uma formiga, em prantos, quando eu acabar por pisar acidentalmente nela. O que gostaria de saber, mesmo, é até onde vai minha responsabilidade pela vida dos animais à minha volta. O que fazer com a questão dos cães de rua, por exemplo? E com os moradores de rua? E com os meus desejos de consumo? E agora, José, o que você me diz?