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mar 12

Araranguá

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Escrever sempre foi um prazer para mim. Um prazer, uma terapia e, sobretudo, uma forma de me organizar. Através da escrita, punha minhas idéias no papel para ficarem mais claras e para que meus planos ficassem mais sólidos.

Nos últimos meses, desde aproximadamente dezembro, quando Carol e eu decidimos fazer uma empreitada que está mudando radicalmente nossas vidas, não tive tempo sequer uma vez de me concentrar na escrita. Isso é temerário, ainda mais em se tratando de um editor de site literário que, além disso, escreve artigos sobre medicina e saúde para vários jornais do país. O fato é que a correria dos últimos dias sugou tanto minha energia física e psíquica que estou precisando que alguém encontre e aperte um botão de pause no meu corpo, para que este e minha mente possam se reenergizar. Sozinho, parece que não consigo achar este descanso necessário.

Sempre fui alguém idealista, sonhador ao extremo. Idéias brilhantes, a maior parte delas não saíram do mundo do ideal ou, no máximo, do papel. Sempre acreditei que o dinheiro não era necessário para construção dos sonhos. Depois me rendi à realidade e descobri que, de uma forma ou de outra, o dinheiro no mundo atual ajuda a tornar reais nossos sonhos e de outras pessoas. Passei, em algum momento, a acreditar que o dinheiro poderia me libertar dele mesmo. Se tivesse o suficiente para não mais trabalhar, seria livre para finalmente só trabalhar por prazer. Me dei conta que esse dia tardaria a chegar. Julgava que 15 anos seria um prazo que poderia esperar.

De repente, este prazo passou a ser longo demais. Hoje com 30, me imaginei com 45 e visualizei tudo que teria deixado pra trás nestes 15 anos, em busca da renda que me garantisse um futuro seguro e independente financeiramente. A tempo, acredito, decidi camaleonicamente, mudar mais uma vez. Em concordância com minha companheira, deixamos de lado um consultório bem movimentado e um concurso público em busca de uma possibilidade diferente de vida, que nos aproximasse novamente de nossos ideais, que nos alçasse ao céu mais próximo de nossos primitivos sonhos.

A leitura dos pensadores, quer sejam eles filósofos, cientistas sociais, economistas, matemáticos, físicos, escritores ou mesmo alguns teólogos sempre me encantou, pelo tanto de humano que se depreende de seus estudos e descobertas. Esta leitura me faz falta. Faz minha terra secar, não me propicia produzir o tanto que gosto e que me faz sentir vivo. O carinho de minha esposa, a atenção e o zelo de meus familiares, o abraço e a lembrança de meus amigos são estimulantes mas, sozinhos, não conseguem me nutrir o suficiente. Não sou alguém que possa dizer que viva somente de amor. Preciso temperar minha vida com doses generosas de música, cinema, literatura, gastronomia, estudo e discussão das humanidades, ciência e espiritualidade.

Tenho bons amigos, alguns deles com interesses em comum e com os quais posso discutir alguns ou mesmo todos os temas supracitados. Fico apreensivo em imaginar que vou ficar longe destas pessoas queridas daqui a alguns anos. Fico temeroso em não encontrar, na nova morada, amigos com os quais Carol e eu possamos nos identificar plenamente e desenvolver as atividades das quais gostamos. Este temor é natural e, espero, mostre-se infundado em breve.

Em Araranguá, até agora, tudo vai correndo muito bem. Fizemos um investimento muito grande em nossa nova clínica, a MedSpa (http://clinicamedspa.com), que a deixou extremamente linda – melhor do que eu pudesse imaginar que teria em qualquer dia de minha vida. Nos dias de carnaval, fui pedreiro, carpinteiro, pintor, carregador, eletricista e o que mais se possa imaginar para deixar aquela clínica do jeito que queríamos. Posso dizer, com muito orgulho e em falsa humildade, que praticamente 50 por cento da reforma foi feita com as minhas próprias e hoje calejadas mãos.

O temor e a insegurança de que não possa dar certo necessariamente tiveram que ser escondidos para que pudéssemos seguir adiante com uma investida tão ambiciosa. Ainda bem que não faltou coragem. Preciso agora dar mais um passo: deixar de trabalhar na região de Porto Alegre. É de lá que vem hoje a maior parte da renda que sustenta nossa família (Carol e eu). É triste olhar para o lado e ver médicos muito mais velhos do que eu sujeitando-se (da mesma forma que eu), a trabalhos com remuneração pífia, sem perspectiva aparente de melhora. Poderia-se afirmar que são pessoas que aprenderam a contentar-se satisfatoriamente nas condições oferecidas, mas não é esse o caso: pergunte a qualquer um deles se é desejo deles continuar trabalhando indefinidamente naquele lugar e a resposta é invariável: claro que não! Mas, fazer o quê? É a opção que lhes resta. Cansei desta opção: atender de forma seriada, sem tempo para respirar ou relaxar. Falando assim, parece que sou submetido a trabalho quase escravo. Bem, não é totalmente verdade: existem pacientes que faltam à consulta, outras consultas são somente revisão ou mostra de exames, então sempre sobra um tempo para um cafezinho ou um bate-papo com os colegas das clínicas. Entretanto, não é, ainda, a qualidade de vida que busco. Quero dedicar-me à Medicina no máximo 6 horas por dia. No restante do tempo quero ler, escrever, escutar e criar música, ver e produzir cinema, fotografar, editar meus sites e criar novos, pensar em formas de ajudar os outros, em ajudar muitas pessoas, amar minha esposa e meus filhos que virão, preparar pratos diferentes e saboreá-los com calma, convidar amigos para rir, conversar e dividir felicidade, fazer exercícios, meditar, me religar à minha essência e ao Universo, à Natureza, descobrir o sentido de todas as coisas e ter uma boa noite de sono depois de um sexo gostoso.

Fazendo tudo isso, quero ser alguém normal, exatamente igual a todo mundo mas singular em minha percepção sobre o mundo e as cousas. Singularidade essas que me permitirá desfrutar de maneira única o sol, o mar e o infinito que se apreende num grão de areia.

Preciso me lembrar das datas de aniversário de pessoas queridas, preciso aprender a presentear com carinho as pessoas de que gosto e que me fazem bem. Preciso fazer listas de coisas a fazer. Tenho que agradecer todos os dias pela família que tenho e pelas pessoas que dia-a-dia me incitam a continuar pelo caminho que alterna trilhas retas e bifurcações tão característico do mundo natural. Preciso ler mais citações. Gosto delas.
Vou dormir. Voltarei.

dez 14

Ler é gostoso & Inventário Literário

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

            Ler é gostoso. Ler faz bem para o corpo e para o espírito, para a mente e para o coração. Ler é viajar, é conhecer, é aprender.

            Amo ler desde meus 3 anos, quando efetivamente aprendi a ler. Tenho na memória algumas lembranças daquela época, em que me concentrava em ler placas de carros e logo depois, classificados de jornal. Claro, as revistas em quadrinhos vieram logo depois.

            Sempre li tudo que caía nas minhas mãos, desde livros e revistas (inclusive as famigeradas Nova e Cláudia, que aos 11 anos me introduziram a uma técnica chamada CAT (Coital Assisted Technique), que prometia a você e sua (seu) parceira (o) uma chegada simultânea ao orgasmo) até bilhetes de passagem, receitas de bolo, bolinhos e bolões e até avisos fúnebres.

            Minha sede de leitura nunca teve tamanho. Lembro que, na sexta série, devorei 67 livros da Biblioteca do colégio durante o ano letivo. Ninguém precisava me pedir para estudar. Prestava atenção na aula e, podiam até querer insinuar que eu fosse CDF, mas aquilo garantia que eu não precisasse estudar nada em casa o que me deixava mais tempo livre para brincar. Muito tempo livre!

            Só reduzi minha leitura de livros variados durante a faculdade, onde acabei me concentrado na leitura dos livros técnicos que a faculdade de Medicina exigia. Mesmo assim, não deixei de fazer minhas aulas de inglês, aulas de alemão, aulas de guitarra (lia partituras e tablaturas) e também meus “cursos 2” de introdução à filosofia, cursos de antropologia de culturas urbanas (com professor Ruben Oliven) e de história da Medicina (com Moacyr Scliar e Ivan Isquierdo). Claro que li romances, mas em muito menor número do que estava acostumado.

            Foi nessa época, da faculdade, que começou a surgir – e a ficar forte – a vontade de escrever. Desde criança, tive minhas experiências como editor. Editei um fanzine chamado “Nuclear Trash”, que não saiu do esboço. Depois, já na faculdade, veio o Joe Volume, nome estapafúrdio que me veio em sonho. O Joe Volume, impresso numa HP caseira, acabou dando origem ao fanzine Simplicíssimo – nome que deriva de Simplicissimus, jornal de humor político alemão do meio do século XIX. O Simplicíssimo acabou virando um e-zine, alguns meses depois um website que já completou quatro anos em 2006 e é acessado por dezenas de milhares de pessoas todos os meses.

            No último ano da faculdade, acabei entrando em um concurso literário. A história é engraçada, e eu tenho que registrar: estava almoçando na casa da minha mãe, no centro de Porto Alegre e ao sentar no sofá após o almoço vi um anúncio de um concurso nacional de poesias, organizado pela Editora Shan. Era um Domingo, e para concorrer, era preciso que eu enviasse 5 poesias até o dia seguinte. Fui para casa com a idéia de participar do concurso na cabeça. Cheguei no meu apartamento e fui procurar as poesias que já tinha feito, a maior parte delas na época do segundo grau, quando tínhamos nossa banda “Fuckers on Duty” e um grupo de amigos que se auto-entitulavam “Os Sete”. Aquela poesias fediam! Que coisa mais horrível aquele acento adolescente! Dei risada de mim mesmo, e achei graça de ter escrito aquilo. Foi bom revisitar meus escritos de anos antes. Mas não servia. Com aquilo, não ganharia nem uma jujuba chupada.

            Naquele momento, uma urgência fisiológica me chamou. Resolvi pegar um caderno e fui para a privada, resolver minhas necessidades, enquanto pensava sobre o que escrever. De repente, não mais que de repente: EUREKA! É isso! Vou escrever sobre o ato de evacuar! E surgiu o meu primeiro poema “adulto”: “Pensamentos Privados”

            Escrevi todo ele enquanto fazia “o serviço de limpeza interna”. Quando me levantei, na empolgação, escrevi os outros quatro poemas, escutando Terrorvision e Stereophonics, em seus singles que tinha recentemente trazido da minha viagem à Inglaterra. Pronto! Missão cumprida! Cinco poemas em questão de uma hora. Já posso participar. O que aconteceu? Bem, meus 5 poemas foram selecionados, de um universo de mais de 3.000 poesias e estão publicados na Antologia Poética 1999 da Editora Shan. Não acreditei. Será que eles entenderam o real sentido daquela primeira poesia, “Pensamentos Privados”? Unbelievable!

            É, são tantas histórias… Desde lá, tantos livros lidos, alguns com calma, de forma intermitente, outros devorados em 2, 3, 4 horas de leitura incessante… Hoje sinto falta de um registro dos livros que li, quando e onde os adquiri ou ganhei, quando os li, das impressões que tive… Como dizem que nunca é tarde para começar, vou tratar de, a partir de hoje, anotar na capa dos livros a data e o local em que comprei os livros e também tratar de deixar uma impressão, mesmo que breve, aqui no reinehr.org. Assim, quando quiser recorrer à minha “memória eletrônica”, vou ter uma bela forma de recordar estes momentos.

 

            Começo já, com livros adquiridos na semana passada. Os primeiros, “Bartleby, o escrivão”, de Herman Melville e “O círculo de giz caucasiano”, de Bertold Brecht, comprei dia 4/DEZ/2006, da Conrad Editora; No mesmo dia, adquiri os livros “Farabeuf”, do escritor mexicano Salvador Elizondo (dica do amigo Marcelo Barbão), “Uma temporada no Inferno”, de Arthur Rimbaud e “Esboço para uma Teoria das Emoções”, de Jean-paul Sartre. Ontem, dia 13/DEZ/2006, adquiri o livro “Quem mexeu no meu queijo”, de Spencer Johnson, que comecei a ler ontem à noite (até que o sono me agarrou) e terminei hoje pela manhã, no intervalo das consultas.

            Quando conseguir fazer uma pausa, pretendo fazer um inventário dos livros que tenho em casa. Muitos se perderam, estão emprestados, na casa de minha avó ou espalhados mundo afora.
Esse, não terei pudor em “esquecer”. Entretanto, se por sorte voltarem a cair em minhas mãos, os incluirei no inventário.

            Uma última observação, antes que me esqueça: tenho um “desejo de organização” muito grande. Ele pode ser observado pela minha intenção de padronizar certas coisas que faço como, por exemplo, dois parágrafos acima:

– o nome dos livros em negrito

– o nome dos autores em negrito e itálico

– a data de aquisição, no padrão dia/mês abreviado com 3 letras/ano com 4 dígitos

            Essa padronização, desejaria eu, que se repetisse em minhas outras anotações. O padrão, entretanto, é algo que mais idealizo do que consigo fazer na prática. Quando vejo, já mudei involuntariamente minha programação e depois, automaticamente, sinto-me mal. Sei que esta forma de “querer agir” pode parecer um tanto quanto obsessiva mas ela é tão somente teórica pois, na prática, sou Caos.

dez 14

Ler é gostoso & Inventário Literário

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

            Ler é gostoso. Ler faz bem para o corpo e para o espírito, para a mente e para o coração. Ler é viajar, é conhecer, é aprender.

            Amo ler desde meus 3 anos, quando efetivamente aprendi a ler. Tenho na memória algumas lembranças daquela época, em que me concentrava em ler placas de carros e logo depois, classificados de jornal. Claro, as revistas em quadrinhos vieram logo depois.

            Sempre li tudo que caía nas minhas mãos, desde livros e revistas (inclusive as famigeradas Nova e Cláudia, que aos 11 anos me introduziram a uma técnica chamada CAT (Coital Assisted Technique), que prometia a você e sua (seu) parceira (o) uma chegada simultânea ao orgasmo) até bilhetes de passagem, receitas de bolo, bolinhos e bolões e até avisos fúnebres.

            Minha sede de leitura nunca teve tamanho. Lembro que, na sexta série, devorei 67 livros da Biblioteca do colégio durante o ano letivo. Ninguém precisava me pedir para estudar. Prestava atenção na aula e, podiam até querer insinuar que eu fosse CDF, mas aquilo garantia que eu não precisasse estudar nada em casa o que me deixava mais tempo livre para brincar. Muito tempo livre!

            Só reduzi minha leitura de livros variados durante a faculdade, onde acabei me concentrado na leitura dos livros técnicos que a faculdade de Medicina exigia. Mesmo assim, não deixei de fazer minhas aulas de inglês, aulas de alemão, aulas de guitarra (lia partituras e tablaturas) e também meus “cursos 2” de introdução à filosofia, cursos de antropologia de culturas urbanas (com professor Ruben Oliven) e de história da Medicina (com Moacyr Scliar e Ivan Isquierdo). Claro que li romances, mas em muito menor número do que estava acostumado.

            Foi nessa época, da faculdade, que começou a surgir – e a ficar forte – a vontade de escrever. Desde criança, tive minhas experiências como editor. Editei um fanzine chamado “Nuclear Trash”, que não saiu do esboço. Depois, já na faculdade, veio o Joe Volume, nome estapafúrdio que me veio em sonho. O Joe Volume, impresso numa HP caseira, acabou dando origem ao fanzine Simplicíssimo – nome que deriva de Simplicissimus, jornal de humor político alemão do meio do século XIX. O Simplicíssimo acabou virando um e-zine, alguns meses depois um website que já completou quatro anos em 2006 e é acessado por dezenas de milhares de pessoas todos os meses.

            No último ano da faculdade, acabei entrando em um concurso literário. A história é engraçada, e eu tenho que registrar: estava almoçando na casa da minha mãe, no centro de Porto Alegre e ao sentar no sofá após o almoço vi um anúncio de um concurso nacional de poesias, organizado pela Editora Shan. Era um Domingo, e para concorrer, era preciso que eu enviasse 5 poesias até o dia seguinte. Fui para casa com a idéia de participar do concurso na cabeça. Cheguei no meu apartamento e fui procurar as poesias que já tinha feito, a maior parte delas na época do segundo grau, quando tínhamos nossa banda “Fuckers on Duty” e um grupo de amigos que se auto-entitulavam “Os Sete”. Aquela poesias fediam! Que coisa mais horrível aquele acento adolescente! Dei risada de mim mesmo, e achei graça de ter escrito aquilo. Foi bom revisitar meus escritos de anos antes. Mas não servia. Com aquilo, não ganharia nem uma jujuba chupada.

            Naquele momento, uma urgência fisiológica me chamou. Resolvi pegar um caderno e fui para a privada, resolver minhas necessidades, enquanto pensava sobre o que escrever. De repente, não mais que de repente: EUREKA! É isso! Vou escrever sobre o ato de evacuar! E surgiu o meu primeiro poema “adulto”: “Pensamentos Privados”

            Escrevi todo ele enquanto fazia “o serviço de limpeza interna”. Quando me levantei, na empolgação, escrevi os outros quatro poemas, escutando Terrorvision e Stereophonics, em seus singles que tinha recentemente trazido da minha viagem à Inglaterra. Pronto! Missão cumprida! Cinco poemas em questão de uma hora. Já posso participar. O que aconteceu? Bem, meus 5 poemas foram selecionados, de um universo de mais de 3.000 poesias e estão publicados na Antologia Poética 1999 da Editora Shan. Não acreditei. Será que eles entenderam o real sentido daquela primeira poesia, “Pensamentos Privados”? Unbelievable!

            É, são tantas histórias… Desde lá, tantos livros lidos, alguns com calma, de forma intermitente, outros devorados em 2, 3, 4 horas de leitura incessante… Hoje sinto falta de um registro dos livros que li, quando e onde os adquiri ou ganhei, quando os li, das impressões que tive… Como dizem que nunca é tarde para começar, vou tratar de, a partir de hoje, anotar na capa dos livros a data e o local em que comprei os livros e também tratar de deixar uma impressão, mesmo que breve, aqui no reinehr.org. Assim, quando quiser recorrer à minha “memória eletrônica”, vou ter uma bela forma de recordar estes momentos.

 

            Começo já, com livros adquiridos na semana passada. Os primeiros, “Bartleby, o escrivão”, de Herman Melville e “O círculo de giz caucasiano”, de Bertold Brecht, comprei dia 4/DEZ/2006, da Conrad Editora; No mesmo dia, adquiri os livros “Farabeuf”, do escritor mexicano Salvador Elizondo (dica do amigo Marcelo Barbão), “Uma temporada no Inferno”, de Arthur Rimbaud e “Esboço para uma Teoria das Emoções”, de Jean-paul Sartre. Ontem, dia 13/DEZ/2006, adquiri o livro “Quem mexeu no meu queijo”, de Spencer Johnson, que comecei a ler ontem à noite (até que o sono me agarrou) e terminei hoje pela manhã, no intervalo das consultas.

            Quando conseguir fazer uma pausa, pretendo fazer um inventário dos livros que tenho em casa. Muitos se perderam, estão emprestados, na casa de minha avó ou espalhados mundo afora. Esse, não terei pudor em “esquecer”. Entretanto, se por sorte voltarem a cair em minhas mãos, os incluirei no inventário.

            Uma última observação, antes que me esqueça: tenho um “desejo de organização” muito grande. Ele pode ser observado pela minha intenção de padronizar certas coisas que faço como, por exemplo, dois parágrafos acima:

– o nome dos livros em negrito

– o nome dos autores em negrito e itálico

– a data de aquisição, no padrão dia/mês abreviado com 3 letras/ano com 4 dígitos

            Essa padronização, desejaria eu, que se repetisse em minhas outras anotações. O padrão, entretanto, é algo que mais idealizo do que consigo fazer na prática. Quando vejo, já mudei involuntariamente minha programação e depois, automaticamente, sinto-me mal. Sei que esta forma de “querer agir” pode parecer um tanto quanto obsessiva mas ela é tão somente teórica pois, na prática, sou Caos.

dez 04

Que se faz da vida?

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

    Nos útlimos dias ando poético. Não sei se foi o convite para participar de uma antologia de poesias, se é este sol todo ou se a proximidade de um possível casamento. Pode ser também que sejam as decisões que tomei (tomamos) acerca de nossa futura estabilidade financeira, novos projetos, café sem açúcar ou 9 quilos a menos. Pode ser qualquer coisa. O fato é: estou poético.

    Há algumas semanas comprei um gravador digital e estou com ele pra cima e pra baixo. Todas idéias que me surgem – e brotam que nem erva daninha – estou gravando para desenvolvê-las mais tarde. Uma delas: preciso, preciso mesmo, de um secretário(a) particular para me ajudar com todos projetos e idéias que PRECISAM tomar corpo PRÁTICO! 

    O tempo está passando e minhas iniciativas resumem-se a um amontoado de rascunhos mentais, escritos ou transformados em bits. Hoje fiz, no intervalo das consultas (hoje meu dia começou às 6:15 com o despertador e vai até às 20 horas aqui na ULBRA e sabe-se lá até quando na WWW), um breve revival da minha passagem pela Internet. Desde os tempos dos meus primeiros blogs, o Tudo Está Impresso no Éter Universal, um blog de colagens das primeiras edições do Simplicíssimo e o Politikaos, um pretenso blog-fórum de discussão acerca de política, lá dos idos de fevereiro de 2003 (bom lembrar que, naquela época, eu era residente em Endocrinologia e estudante de Ciências Sociais da UFRGS), que nunca chegou a decolar.

    Tenho tanta coisa boa guardada e, ao mesmo tempo em que sonho em ensinar às pessoas como viver melhor, não consegui ainda achar o "Ponto de Mutação" que leve minha vida a um patamar mais equilibrado e sustentável. Continuo estudando. Um dia, quem sabe, poderei ensinar.

    Nos últimos meses, deixei praticamente 100% de lado minhas relações blogosféricas. As visitas quase diárias aos amigos foram rareando e hoje são quase inexistentes. Gostava e ainda gosto de me relacionar com os cumpadres e as cumadres, mas uma volta ao interior, meu de minha família e amigos reais fez comque, necessariamente, eu precisasse reduzir minhas incursões internéticas para dar a atenção que todos estes entes de carne e osso necessitam. O cuidado com a DVD Hall, minha locadora de DVDs, a introspecção aqui no Reinehr.org, o esmero com o Simplicíssimo, uma nova e intensificada dedicação à Medicina, ao aprendizado de cuidados de saúde e bem-estar, leituras anarquistas, romance, livros técnicos sobre cinema, a arte de escrever, encontros literários nas quintas, criação e manutenção do site da Associação Gaúcha de Escritores e do Professor Orlando Fonseca, trabalho intenso, todos, sem exceção, me levaram a esta redução das viagens ao exterior.

    Agora, são dois novos projetos que se somam: a criação e divulgação do site Medicina & Saúde, voltado à informação de qualidade em Saúde e Bem-estar par ao público leigo e a fundação da Sillencio Edittora & Livvraria, meu desejo de tanto tempo que está tomando forma e deve virar realidade entre meados e fins de 2007.

    Quero ainda fazer algumas coisas que me atormentam há tempos: o download de toneladas de hits musicais desde os anos 60 (pelo menos) para acervo pessoal e para utilizar naqueles momentos em que precisamos – de quando em vez é absolutamente necessário – desligar nossa atenção do mundo e fazer um inventário de linques do coração: lugares que visitei ou visito e que geraram e geram boas sensações. Deram inclusive origem a um texto chamado "Bons momentos são guardados em Hiperlinks", que publicarei oportunamente.

    Preciso vender meu carro e comprar um mais barato, mais econômico e menos poluente. Estou em um processo para me tornar vegetariano (ou quase). Por motivos ecológicos (menos impacto ambiental) e também de preocupação com a vida e sofrimento dos pobres animaizinhos dos quais nos alimentamos. Vai levar algum tempo ainda. Mas estou no caminho.

    Preciso trabalhar menos horas e manter meu nível de remuneração (ou aumentá-lo) para poder tocar adiante idéias e projetos engavetados. Haja gavetas! Nem chegou o primeiro de janeiro e já estou fazendo re(s/v)oluções! Mais tempo de leitura, mais tempo de música, mais tempo de fotografia, mais tempo escrevendo, estudando, com a família, me exercitando, preparando comida e degustando, mais tempo contemplando…

    O Ano Novo começa já! O Ano Novo já começou! Que se faz da vida? Viva!

     

jun 30

Um Processo

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Um Processo. A vida é um Processo.

Antes que os descendentes de Franz Kafka e possivelmente seus fãs tentem me “processar” por plágio, alto lá! Explico.

Desde Heráclito sabemos que nesta vida tudo é mudança. Paradoxalmente, parece que esta é a única coisa estável no mundo: a certeza da mudança.

Viemos para cá a partir de uma esquisita troca de energias que acabaram em resultar em nós mesmos. Aqui chegando, cada ventilação leva à respiração celular, que por sua vez é um “processo”de oxigenação tecidual que ocorre, como sabemos, na mitocôndria. Esta organela transforma o oxigênio em uma forma de energia a ser utilizada pelos organismos biológicos. E assim vamos vivendo. Alimentando-nos do que é produzido pela Natureza, defecando e urinando o que não aproveitamos, perdendo pele, crescendo, engordando e nos multiplicando. Mas não é o ponto de vista biológico que quero enfocar.

Desde nossa concepção – deixo para os mais polemistas a discussão sobre quando esta tem hora – passamos a viver de estímulos que acabam por constituir parte do que somos e também parte do que seremos. Parte do que somos porque a aceitação de que constitui tudo o que somos implica em uma crença forte demais na idéia de que o ambiente é responsável por moldar todo o indivíduo e ainda acredito que o componente genético tem influência sobre parte do nosso ser. Existe pré-história do indivíduo, a meu ver.

Aquele IGF-1 em níveis abaixo de esperado naquele período levará, muito provavelmente, a um indivíduo de compleições menores do que seria esperado se os níveis do fator de crescimento estivessem nos parâmetros ditos normais. Aquele Tio Patinhas lido com tanto prazer pela criança que o comprou com o próprio dinheiro da mesada (e o fez em detrimento da merenda que poderia ter comprado) terá um significado com toda certeza na personalidade daquele indivíduo.

Alguns estímulos mais, outros menos, mas todos, sem exceção, fazem parte da nossa história e fazem de nós o que somos. Tudo isso é um Processo. Um Processo sem início e sem fim, com o qual devemos nos acostumar tão logo tenhamos contato com a noção de sua existência.

A percepção da existência deste Processo pode nos levar a caminhos bem distintos. Um deles, o reconhecimento da verdade inerente ao mesmo e sua inevitável validade para todos seres animados e inanimados existentes no mundo e a lógica atitude de respeito para com todo e qualquer ser que caminha, rasteja ou permanece imóvel; o outro, a negação desta idéia, e a necessidade de causar malogro a outrem, com vistas a benefício próprio sempre que possível, a despeito da necessidade do outro indivíduo ou coisa.

O pensamento de Processo, parte de uma ética anarquista, imiscui-se da necessidade de existência de um Deus, mas não rejeita a possibilidade de uma inteligência que possa estar por trás da criação das leis que ora regem todas as coisas. Não depende de anuência por parte deste suposto Deus para os atos da vida ordinária tampouco deve satisfação ao mesmo por atos realizados ou deixados de realizar.

Ora, todos buscamos em última instância a felicidade. Apesar desta senhora não trazer em si a própria definição do que seja, cada um constrói para si este ideal. Cada qual busca a felicidade que para si imaginou.

Nunca esqueço de uma tira do cartunista Bill Waterson em que seu personagem Calvin está, no primeiro quadrinho, delirando com desejos de chegar em Marte, de morar em uma mansão, ser multimilionário, ter todos babando ao seu redor até que pergunta a seu amigo imaginário, Haroldo, do que este precisaria para ser feliz; No segundo quadrinho, Haroldo prontamente responde: “Um sanduíche com pasta de amendoim”. No terceiro quadrinho, Calvin horrorizado não acredita nas palavras do amigo, criticando-o por ser tão destituído de desejos e sonhos. No quarto quadrinho, desvela-se o pano para o ato final, quando Calvin, que seguiu Haroldo até a cozinha, vê este calmamente passando pasta de amendoim em duas saborosas fatias de pão.

Ao mesmo tempo em que concordo que devemos sonhar, mas por mais alto que seja sem tirar os pés do chão, acredito também que toda grande expectativa traz consigo uma possibilidade de grande frustração quando não temos nosso objetivo alcançado. Por isso, é terrível ir ao cinema depois de uma propaganda extremamente enaltecedora. Geralmente quebramos a cara. Os filmes que mais nos enternecem ou impressionam são, geralmente, aqueles que vamos assistir sem grandes expectativas.

A propaganda, já que toquei no assunto, é outra que vitima mais do que guerras, acidentes de trânsito ou mesmo desnutrição. Através da propaganda, acabamos por viver em um mundo irreal. Passamos a acreditar que todos temos direito de ter acesso àqueles bens de consumo que são apresentados como se fossem necessidade de máxima premência. Quem pode, ora bolas, que quiser manter-se conectado com a modernidade, ficar sem aquele aparelho celular com câmera fotográfica e mp3 (ou mp4) ou então sem aquela tv de plasma de última geração?

A triste verdade é que não há nem energia nem riqueza no mundo para manter tal nível de sofisticação tecnológica para todos. Para manter nosso status, estamos com certeza subjugando muitos e levando-os à pobreza. Deixando a máquina da propaganda exercer seu papel – e nos deixando quedar a ela – entregamo-nos sem luta aos desejos de outros que se fazem passar por nós. Sem o questionamento crítico, jamais saberemos se somos nós ou se somos títeres animados por forças orwelianas.

A saga de nossas vidas pode ser bem distinta, de acordo com o que cada um consegue perceber. A noção de percepção aqui toma vulto, e é um dos mais importantes conceitos em um mundo que vive, na realidade, em plena crise de percepção. Grande parte das pessoas ao nosso redor (e talvez você mesmo) viva no automático, catapultado por um sistema capitalista onde o trabalho é o centro de sua vida e a necessidade de realizá-lo o leva a uma espiral de angústia insolúvel, já que sua busca incansável é por gerar renda para fugir do seu próprio trabalho.

Confúcio dizia que nosso verdadeiro trabalho era encontrar um trabalho do qual realmente gostássemos, pois a partir daí, não teríamos que trabalhar mais nenhum dia em nossas vidas. Somos manipulados por um sistema que nos diz que ter um carro é bom, pois este nos dará a liberdade de nos dirigirmos para onde nossos corações mandarem quando, na verdade, este carro estará nos legando a escravidão, tal é o impacto negativo do automóvel no orçamento doméstico. O automóvel, que serviria para levar a família ao zoológico no fim-de-semana, para dar comida aos macacos, na verdade afasta o pai (e muitas vezes a mãe) das crianças, já que estes têm que trabalhar muitas vezes mais para pagar as prestações, taxas, impostos, manutenção e combustível para alimentar o carro, deixando o macaco sem amendoins.

Recentemente fui exposto ao exemplo de um senhor de 90 anos que foi renovar sua carteira de motorista e apresentava algumas alterações compatíveis com sua idade, como surdez, dificuldade visual, cardiopatias crônicas e tonturas ocasionais. Frente ao quadro de tonturas (que pode levar a acidentes com vitima do próprio candidato como de outras pessoas) objetei quanto à renovação da carteira para o referido senhor. O professor contra-argumentou afirmando que o senhor utilizaria o carro apenas para levar sua esposa ao médico e para buscar o pagamento da aposentadoria uma vez ao mês. Perguntou se teríamos coragem de retirar a carteira do idoso candidato à renovação de sua carteira nesta situação, sendo que ele nunca havia se envolvido em um acidente, em anos de direção. Postulei que havia encontrado uma solução para o dilema: e que tal se o velhinho vendesse seu automóvel e passasse a levar sua senhora ao médico e buscasse sua aposentadoria de táxi? Certamente, estaria se deslocando de forma muito mais confortável e segura, para si e para o resto do trânsito, sendo que o dinheiro obtido com a venda do carro mais o que deixaria de gastar em combustível e impostos e seguro do veículo seriam mais do que suficientes para seus gastos mensais com deslocamento. A resposta do professor para minha idéia foi a de que eu não estava entendendo que a retirada da permissão de dirigir para o senhor idoso representaria um ataque direto ao seu orgulho e à sua liberdade, já tão restrita àquele ponto da vida. Na hora não me ocorreu objetar, mas agora penso que o problema está justamente aí: nesta percepção errônea de nossa sociedade, compartilhada pelo senhor idoso e pelo meu professor, de que seremos eternamente capazes de tudo e nesta crença imprecisa de que não degeneramos, que não seremos podridão e pó, mesmo ainda em vida. Neste aspecto, temos muito a aprender com os índios de algumas tribos, que identificando a proximidade da hora de morrer, afastam-se da tribo e vão terminar sua vida em isolamento. Quero dizer com isso apenas que devemos reconhecer nossos limites e a hora de parar.

Estes são apenas alguns exemplos desta crise de percepção da qual somos vítimas hoje em dia. O exemplo etnográfico que dei acima, lembrando nossos irmãos índios, traz para perto a noção de alteridade, este respeito ao outro e a capacidade de se colocar empaticamente em seu lugar, tão em falta em nossa contemporaneidade. Talvez tenha faltado a mim no caso do senhor de noventa anos no exemplo acima?

 

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Cai o pano. Um novo ato é apresentado em nosso Processo. Hoje estou fazendo 30 anos de idade. Seguindo a idéia de Nietszche do Eterno Retorno, diria que viveria minha vida da mesmo forma que vivi até agora. Todas amizades que cultivei, os deslizes que cometi, o sofrimento que passei ou criei, sorrisos que sorri e gerei fazem parte da história da minha vida. Se, depois da morte, voltar a viver cada instante da mesma forma, com certeza chegarei novamente aos 30 anos feliz como estou agora.

A perspectiva de uma vida que deve ser vivida dia-a-dia já foi conquistada há algum tempo. Ainda resisto e teimo em, vem ou outra, programar demasiadamente o futuro. O futuro é agora.

Neste novíssimo filho que nasce juntamente com meus 30 anos de idade, o website reinehr.org, tratarei de expor tudo que gosto e convidar a participar da minha vida aqueles de quem gosto e que também têm apreço por mim. Aqui será um espaço para a medicina e para a gastronomia. Para a política e para a antropologia. Para a música e para a economia. Para as artes plásticas e para a fotografia. Para o cinema e para a ecologia. Para a literatura e para a filosofia. Para a ética e para a sociologia. Para a história e para a geografia. Para o turismo e para a anarquia. Para a religião e para a antroposofia. Para a ciência e para a verborragia. Para a noite e para o dia. Para a tristeza e para a alegria.

Passarei a transportar para cá, além das crônicas, críticas, contos e poesias que escrevo algumas fotografias que tiro, músicas que gravei e gravarei, filmes que fiz e que farei, artigos médicos de revisão para público leigo acerca da minha especialidade médica (endocrinologia e metabologia). Basicamente, o reinehr.org será um website pessoal. Entretanto, espero deixar o ambiente convidativo, aconchegante e propício ao debate de alguns assuntos que aqui serão abordados.

Tratarei, sozinho ou com auxílio de quem se dispuser, de revelar o colorido que existe por trás de cada ser humano. Mesmo o mais embotado ou desbotado ser vivente tem em si, ao menos de forma latente, um arco-íris. Por vezes não conseguimos enxergar isto nos outros ou inclusive em nós mesmos. Aqui, no reinehr.org, realizamos uma busca. Uma aventura. Um processo.

Porque nem sempre as cores revelam-se facilmente.

 

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