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Ago 01

Uma Aldeia Chamada Linguagem (e a seca da literatura)

By Rafael Reinehr | Contos

Há algum tempo atrás, cerca de quatro ou cinco anos para ser menos impreciso, escrevi um "conto didático" chamado Uma Aldeia Chamada Linguagem. Desde aquela época, muitas pessoas reconheceram nele uma possível utilidade como material didático para o ensinamento das figuras de linguagem e estilística.

Hoje, vagueando pelos confins do meu cérebro, acabei por dar um canelaço na lembrança deste conto e resolvi, aproveitando a por vezes presente "aridez literária" que me consome, revisitar este conto que, se melhor trabalhado, poderia inclusive ser incluído em algum livro de gramática como "material explicativo" ou "exemplo" das referidas figuras de linguagem.

Seco, encaminho-vos à leitura do conto Uma Aldeia Chamada Linguagem. Sua crítica é sempre bem-vinda.

Abr 16

Terça-feira, 5 de outubro de 2004 – Uma Aldeia Chamada Linguagem

By Rafael Reinehr | Contos

Querido amigo Hiperativo Confuso:

Como havia lhe prometido, estou escrevendo sobre esta nova terra que acabei de conhecer. Nem lembro direito como cheguei a ela, acho que foi depois de dobrar à direita após uma ravena passando uns cinqüenta quilômetros do Himalaia.

O que importa é que tudo transcorreu bem e agora estou aqui, pronto para seguir jornada para mais uma aventura. Mas antes, tenho que lhe falar deste povo que conheci e de seus costumes.

Viviam em uma Aldeia hermeticamente fechada chamada Linguagem.

Me disseram que seus ancestrais eram todos de origem grega.
Cada qual com sua função, seu porquê, seu destino. Dividiam sua comunidade entre os trabalhadores braçais, os responsáveis pelas idéias e os donos da palavra.

Dentre os primeiros, quem conheci logo na chegada à Aldeia foi Elipse, um funcionário público difícil de encontrar em seu local de trabalho. Quando ia às compras – que foi quando lhe conheci – tinha a mania de perguntar o preço de tudo, mesmo sabendo que não iria comprar:

– Quanto custa? (o sapato)
– Quanto custa? (o abajur)
– Quanto custa? ( a garrafa de vinho)

Elipse tinha um irmão chamado Zeugma. Este irmão era singular em um aspecto: detestava repetir qualquer coisa que já houvera dito anteriormente, mesmo de forma oculta. Dizia:

– Eu te conto uma piada, você me conta outra.
– Outra o quê?
– Grrrrr! – resmungava, já irritado.

Vizinho de Elipse e Zeugma, Polissíndeto é empregado de uma fábrica de calçados, onde é responsável por unir a sola com a base dos sapatos. Seu irmão gêmeo, Assíndeto, trabalhava na mesma fábrica, e revisava calçados que não ficavam bem ligados pela cola que era usada.

Dizia Polissíndeto, quando brigava com o irmão:
– Estou cansado de chorar e sofrer e perder e me conter e de ouvir e ocultar e viver.

Ao que lhe respondia prontamente Assíndeto:

– Pois então, chorando, sofrendo, perdendo, contendo, ouvindo, ocultando, enfim, sentindo é que vou levando a vida assim, feliz!

Pleonasmo trabalhava no depósito de lixo da comunidade. Lá tinha o que fazer em abundância. Como não tinha estudo, ficava repetindo o que os outros diziam e, ainda, repetia a si mesmo para reforçar suas idéias. Bradava:

– Naquele dia em que roubaram os galináceos do padre Metáfora, vi claramente visto o ladrão.

Ou ainda, nos dias em que bebia um pouco além de sua capacidade de metabolizar o álcool:

– Não vejo a hora de entrar pra dentro de minha casa e subir para cima até meu quarto e capotar na cama.

Pleonasmo era apaixonado por Iteração, cujo apelido carinhoso era Repetição, com a qual tinha muitas afinidades de idéias:

– Como é triste, triste mesmo e muito triste este mundo, não achas, Pleonasmo? Não quero um mundo assim, pobre assim, triste assim…

Pessoa estranha era a professora Anáfora: tinha o cacoete de começar todas suas explicações com “se”:

– Se você somar dois mais dois, temos quanto Subjetivo?
– Se as nuvens são feitas de vapor d’água, quais são os elementos que formam a nuvem, Oração Subordinada?
– Se você cantasse
Se você gritasse
Se você urrasse
Se você esperneasse, alguém te ouviria!

O arquiteto Anacoluto, esposo de Anáfora, era um sujeito quase incompreensível. Suas frases pareciam sem seguimento, davam a impressão de não conter uma ordem lógica:

– Estamos aqui, a construir este prédio. E veja, o Sol desce calmamente no horizonte enquanto a humanidade desfalece prematura. As pessoas, os tijolos…

O melhor amigo de Anacoluto, Hipérbato, parecia ter saído daqueles livros de antigamente pois falava de forma invertida, o que todos achavam muito engraçado:

– Pois então, Lutinho, te dizia, é a liberdade, branca que nos põe a caminho.

Um dos lugares que os amigos mais gostavam de ir nos fins-de-semana era a casa de campo de Hipérbato. Lá, vim a conhecer o caseiro, que se chamava Aliteração. Já na chegada, fomos extremamente bem recebidos:

– Faz favor, feche o ferrolho! Fico feliz fazendo faisão com feijão para a família se fastiar!

A esposa de Aliteração, dona Silepse, fazia um faisão com feijão de deixar a boca, os olhos e os ouvidos abertos. Era uma pessoa muito compreensiva e sensível, sabia o que seu marido queria dizer só pelo olhar.

– Benhê, leva um casaco para seu Anacoluto e dona Anáfora, já que o casal esqueceram que vai esfriar. Aproveita e leva um para seu Hipérbato, que é um criança e se resfria fácil. Se não, eles vão pensar que a gente somos sem alma e inútil.

Nas bibliotecas e cafés filosóficos da comunidade, se concentrava a nata do pensamento da Aldeia: os filósofos, físicos, cientistas sociais e outros teóricos.
A mais antiga representante do grupo, a filósofa Ironia era quem mais questionava o grupo. Era um ponto de interrogação em pessoa. Vivia dizendo o contrário do que pensava, satirizando e questionando o comportamento dos outros com a intenção de ridicularizar.

– E então caro amigo Eufemismo, deves sentir-se bem com seu belo par de novos chifres.

– Não fale deste jeito, Ironia. Eu e minha esposa, desde sempre nos entendemos muito bem. Nos últimos tempos apenas descobri que a compreensão dela é um pouco mais ampla.

Ao qual intrometeu-se o químico Hipérbole:

– Se eu estivesse em seu lugar Eufemismo, já haveria de ter posto fim à minha vida. Setecentas mil vezes eu teria dado cabo à minha vida. Sofrimento igual nem em um milhão de mundos.

Ao que Antítese, poeta que tudo percebe, frente e verso, e que também por lá estava, retrucou (parafraseando Camões):

-“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

Outros membros da Confraria das Idéias são o músico Apóstrofe, o inventor Gradação e a contadora de histórias Prosopopéia.
Apóstrofe adorava em suas canções interromper a música para invocar alguém ou algo:

– Tempestade! Tempestade!
Quantas vidas já ceifaste
Neste lamaçal que tua água produz
Tempestade! Tempestade!
Que cruel consegues ser
Ao esconder do Sol a luz.

Gradação é uma pessoa que poderíamos chamar de fatalista: tinha tudo previamente determinado, seguindo uma seqüência pré-estabelecida até a plenitude ou até o vazio:

– Não há porque lutar contra a morte, inequívoca verdade que transforma nossa beleza em corpo em degradação, em cinza, em pó, em lembrança, em nada.

Prosopopéia era “contadora de histórias” em uma organização não-governamental que auxiliava crianças com câncer. E como era boa no seu trabalho! Fazia as pedras andarem, dava vida a suas histórias. Contava assim:

– Enquanto a noite dormia, em cada esquina os paralelepípedos preparavam a revolução; os postes, outrora sempre quietos, arrepiavam-se ao ouvir as notícias que voavam velozmente por entre os becos…

Havia ainda na comunidade mais duas figuras interessantíssimas que não poderia deixar de lhe fazer conhecer.
O primeiro deles, Metonímia, era um político de prestígio, governante da Aldeia inclusive (pelo que consta, têm os cidadãos desta Aldeia memória curta, sendo que Metonímia aproveitava esta característica para, ao final de cada mandato eleitoral, mudar de nome para conseguir a reeleição).
Seus comícios eram impagáveis, tive oportunidade de presenciar um:

– Meu povo, minhas cabeças! Venho até vós levantando minha bandeira em torno de uma bandeira comum: nossa amada Aldeia! Cheguei aqui pela primeira vez a vapor, mas lhes digo, como seu representante maior: preciso fosse, viria até de vela! Pelo povo linguageense, faria brandir meu ferro se necessário para defender a honra e a terra deste chão que tanto prezo!

No canto do palanque, outra personalidade única: o padre Metáfora, chefe maior da Igreja na comunidade, mestre em transportar para uma coisa o nome da outra:
Em suas missas, dizia:

– Este é o corpo de Cristo: Comei! Tomai: este é o sangue de Cristo! Seu sofrimento foi o pagamento de nossos pecados…

Agora, enquanto termino de escrever esta carta para você, meu amigo, lembro ainda do motorista do táxi que me trouxe até o aeroporto. Chamava-se Catacrese:

– E então, para onde vamos? Vais avionar, transatlanticar ou onibiar?

Realmente um povo muito estranho. Costumes esquisitos que não havia visto igual em nenhuma de minhas viagens, exceto, talvez, no Brasil.
Te mando outra carta depois de melhor conhecer meu próximo destino: Utopia.

Um abraço sincero e afetuoso,

Neurótico Lunático Anônimo

Abr 09

Cinco Marias

By Rafael Reinehr | Contos

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando…
Maria Quitéria tinha quatro filhas moças: Maria Antônia, Maria Júlia, Maria Cristina e Maria Solange, a primogênita.
Desde que se mudaram de Santa Maria para Piraporinha do Bem-Te-Vi, no meio da Campanha, a vida da família Boitempo havia ido para as cucuias.
Seu Bonifácio, ex-funcionário da extinta R.F.F.S.A. havia sido transferido para São Miguel oito anos antes, e mesmo com o fim da empresa que lhe sustentava decidiu que era lá que iria fincar sua bandeira.
E assim foi: apesar das dificuldades do começo, seu Bonifácio conseguiu fazer seu pequeno Armazém se destacar entre as vendas do lugarejo e, em pouco tempo, já era um dos mais respeitados comerciantes da região.
É claro que tamanho sucesso nunca vem só: chamou a atenção de algumas espertas e serelepes “senhoras” da vizinhança, que passaram a gastar boa parte de suas tardes na venda do “Seu Bona”, como era conhecido.
Por um tempo, Maria Quitéria fez vista grossa e agiu como se nada estivesse acontecendo. Um dia, ao entrar no bolicho, chegou a ver Dona Gertrudes, viúva do falecido Anastácio pular no pescoço de seu marido e lhe roubar uma bitoca. Fez que não viu.
O tempo passou, as meninas cresceram. Maria Solange já havia casado e morava em uma casinha construída atrás da casa dos pais. Foi então que os problemas realmente começaram.
Bonifácio, que já há alguns anos havia ficado adepto de um ou dois copinhos de pinga, já não mais chegava em casa sóbrio.
A gota d’água aconteceu em uma noite de outono: Maria Quitéria ainda não havia chegado do encontro de senhoras no clube local, Maria Júlia e Maria Cristina estavam na casa da irmã mais velha, nos fundos do terreno e Maria Antônia, com 15 anos na ocasião, estava no banho. Bonifácio chegou em casa com as bochechas rosadas – mistura das duas garrafas de vinho e do frio que se insinuava – e, ao ouvir o barulho de água caindo do chuveiro, foi direto ao banheiro, esperando achar por lá sua esposa a se banhar.
Ao lá chegar deu de cara com sua filha mais moça – assustada e nua – e, embriagado como poucos, não se intimidou e foi logo agarrando a menina, que tentava afastar o pai a tapas e gritos.
Quando Quitéria chegou, encontrou Bonifácio deitado na cama, roncando tranqüilamente com sua barriga para cima, pernas para fora da cama, ferrado no sono. Não imaginava o que houvera acontecido até entrar no banheiro. No canto, encolhida até os joelhos quase adentrarem o tórax, Maria Antônia jazia, em um misto de soluços e gemidos baixos, sentada em uma poça de sangue.
O breve olhar que sua filha lhe dirigiu antes de desabar em choro compulsivo foi o suficiente para Quitéria dirigir-se até a cozinha e selecionar sua mais afiada faca.
Adentrou o quarto do outrora feliz casal e consumou um fato que tinha a impressão devia ter praticado há tempos.
Ao sentir o frio metal invadir sua carne, Bonifácio só teve tempo de arregalar seus já esbugalhados e vermelhos olhos. Morreu estrebuchando qual porco carneado. Não conseguiu nem entender o que estava lhe acontecendo.
Assim que Bonifácio exalou seu derradeiro suspiro, Júlia, Cristina e Solange irromperam no quarto de Quitéria e se depararam com a mãe ajoelhada, imóvel, observando o corpo igualmente inerte, entretanto sem vida, de seu pai.
Por algum motivo, não houve espanto nem tampouco comoção. A serenidade naquele quarto era assombrosa. Só faltava resolver mais uma coisa. Com o corpo ainda quente.
Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando.

Abr 09

Um vaso de flores

By Rafael Reinehr | Contos


Entro na sala e não encontro nada exceto um galão de vinte litros de água. Naquela altura, as cadeiras, a pia, o ventilador, a cafeteira e o pequeno aparelho de som não chamam minha atenção. Fixo meu olhar naquele curioso galão de água.
Em menos do que um instante, um turbilhão de perguntas invadiu minha mente cansada e atordoada pelas preocupações corriqueiras – entretanto volumosas – do dia-a-dia:
– Quem levou aquele galão até lá?
– O que estará ele fazendo naquele canto?
– Para onde ele será levado e utilizado?
– De onde vem a água que nele se encontra?
– Quanto custou e onde foi comprado?
– Poderia ser só um enfeite no canto da sala?
– A cor azul do plástico que envolve a água é por motivo de legislação específica ou tão somente por falta de criatividade da empresa que envasa a água?
– Qual o percentual de cada sal mineral contido na água?
– Quais os caminhos que a água trilhou nos últimos anos até chegar àquele galão?
– Um galão de vinte litros de água mineral pesa o mesmo que um galão de vinte litros de água potável da torneira?
E as perguntas surgiam sem fim, me fazendo esquecer meu objetivo naquela sala e as cacofonias que produzia. O tempo passou, a noite caiu. Com ela o silêncio (alguém havia apagado o rádio, pouco antes da escuridão tomar conta da sala).
Não mais que de repente, o galão de água era apenas um corpo pouco nítido, mas claro o bastante para ver minha própria imagem nele refletida, com ajuda da parca iluminação vinda do corredor.
Nunca antes havia vislumbrado minhas formas: pernas finas, assim como os ombros e parte superior do corpo; cintura e abdômen largos, algo que poder-se-ia chamar de “aspecto cilíndrico quase-esférico”; do alto de minha cabeça, lindas extensões filiformes verdes com corpos multi-petalados coloridos – amarelos, vermelhos, brancos e cor-de-laranja. Gostei do que vi. Nada mau para um vaso de flores.

Hipertextualidade
Set 23

Hipertextualidade e criação: traquinagens de um cientista literário

By Rafael Reinehr | Contos

Tem algumas coisas que quero muito fazer. Uma delas é ter filhos. Bom, vou começar por um só. Bem, se tiver um casal, também seria bom. Outra coisa que gostaria muito de fazer é um livro. Mas o livro, daqueles que entram para a história da literatura, para ser lembrado por muitos anos ainda depois da minha morte.

Hoje estava pensando, enquanto vinha pra casa: qual é a força ou fenômeno responsável pela transmutação da ânsia revolucionária em desejo de segurança e conforto? Qual é será o gatilho, circunstância ou conjunção astral que leva um indivíduo consciente da necessidade e de sua possibilidade de mudar o rumo da própria vida e de outros a contentar-se com Tv por satélite, home theater, jantares com amigos, sexo com a esposa e um bom fim-de-semana preguiçoso?

Hipertextualidade Hoje também descobri uma brincadeira que acho que vou gostar de repetir: usar a ferramenta “página aleatória” da Wikipedia. Quando criança, várias vezes fucei randomicamente naquelas gigantescas enciclopédias Barsa e Britânica. Ontem, como que num túnel do tempo, pude rememorar esta brincadeira clicando no “página aleatória” da Wikipedia e sendo levado de página em página a novos mundos de descobertas fantásticas. Algumas curiosas, outras inúteis, outras ainda sem graça, mas muitas, muitas mesmo, extremamente recompensadoras para uma mente inquieta como a minha. Viajei de Max Stirner, que havia procurado no mecanismo de busca para Trabuco, daí para Fórmula de Simpson e daí por sua vez para 7355 Bottke (intencionalmente, suprimi alguns acessos intermediários “sem graça”). A leitura destes artigos me deu nova energia para ler e compor. Alimentou meu manancial de idéias, que lento corria nos últimos meses. Agora, enquanto escrevo estas tão maltraçadas e maltratadas linhas, conheço Puebla Del Maestre, município da Espanha na província de Badajoz, comunidade autônoma da Extremadura, de área 79,00 km² com população de 833 habitantes e densidade populacional de 10,54 hab/km². Vejo que a população vem decrescendo continuamente desde 1991. De lá, viajo sem escalas para Bourth, uma comuna francesa na região administrativa da Alta-Normandia, no departamento Eure. Ela estende-se por uma área de 18,67 km², com 1.064 habitantes, segundo os censos de 1999, com uma densidade de 57 hab/km². Nas proximidades de Bourth fico sabendo que 100 bullets, um jogo de ação baseado na história em quadrinhos “100 bullets” da DC Comics está para ser lançado nos consoles Wii, Game Boy Advance, Nintendo DS, XBox 360, Playstation Portable, PC ePlaystation 3. Bom para os gamemaníacos, suponho. Depois de olhar para o céu e visualizar o asteróide 4701 Milani, descubro um segredo que acaba me envolvendo em uma grande encrenca, e passo aHipertexto fugir da SAVAK, a antiga polícia secreta iraniana. Para despistá-los, escondo-me atrás de uma Ratzeburgia, planta pertencente à família Poaceae. Quando tudo parece estar limpo, saio do meu esconderijo e vou me encontrar com Janine Lindemulder, com quem estou tendo um tórrido romance desde que me separei de minha segunda esposa. Quando chego à casa de Janine, a empregada me avisa que a mesma foi à uma clínica de estética realizar aplicações de Alcachofra para queimar gordurinhas na barriga. Neste momento me lembro que preciso investigar a árvore genealógica de Artabano IV da Pártia, último rei dos partos, da dinastia da arsácida. Preciso descobrir se Artabano ou algum de seus descendentes diretos passou por Vistrorio, comuna italiana da região do Piemonte, província de Turim, ou por Oberschneiding, município da Alemanha, no distrito de Straubing-Bogen, na região administrativa de Niederbayern, estado de Baviera.

Foi então que algo estranho aconteceu: passei a ter todo meu campo de visão tomado por um Círculo cromático: fui envenenado! A empregada de Janine havia colocado algo no café que me serviu. Desde a primeira vez que a vi, nunca havia confiado naquela hindu que Janine havia trazido de Kosamba em uma de suas viagens pelo oriente.

E assim segue a brincadeira. Dá pra fazer um verdadeiro romance interativo com a Wikipedia ou com outras fontes da Internet, sempre referenciando o endereço de onde a informação que influenciou o texto foi gerada. No exemplo acima, fui totalmente guiado pela “página aleatória” da Wikipedia, mas isto também pode ser modificado ao gosto do autor, ou seja: o autor escreve uma seção de texto original e depois procura termos-chaves na própria wikipedia, no google ou em outro local na Internet e cria uma ampla rede de hiperlinks oriundos de seu texto. É claro que com um pouco de dedicação, talento e tomando mais as rédeas da narrativa, se consegue produzir um conto, novela ou romance bem mais qualificados que o do exemplo acima.

Isto é feito em pequena escala em alguns weblogs, mas nunca foi abrangentemente explorado dentro da criação literária, ao menos que seja do meu conhecimento. World is bigger than we can handle, so…

(texto originalmente escrito em 23 de março de 2007 e guardado em arquivo digital até hoje)

Mai 03

Fábula fabulosa

By Rafael Reinehr | Contos

 Era uma vez, em um distante reino encantado onde vivia uma linda menina,
chamada Branca de Neve. Sua melhor amiga era uma princesa chamada Bela
Adormecida. O único problema de Bela Adormecida é que ela era muito
dorminhoca.

Um lindo dia, enquanto Branca de Neve colhia feijões em seu pede feijão
gigante, ela viu uma cena que jamais iria esquecer: um lenhador com seu
machado em riste correndo atrás de um menino de madeira que gritava:

-"Não fui eu, não fui eu quem comeu a Casa de Chocolate!" – e a cada vez que
dizia isso seu nariz crescia mais e mais.

Nisso, resolveu voltar para casa e, não mais que de repente, surgiu em sua
frente o Lobo Mau, com sua Harley-Davidson envenenada, convidando-a para
fazer um piquenique na casa da vovozinha.

Branca de Neve não pode aceitar, pois tinha que ir na casa da Cinderela para
se prepararem para o Baile que iria rolar logo mais, em comemoração ao
desaniversário do Gigante, organizado pela "socialáite" Alice.

Ao chegar na casa de Cinderela, que estava de dar uma arrumadinha nos móveis
e tirando a poeira dos estofados (para ajudar sua querida madrasta), Branca
de Neve deparou-se com uma visita ilustre: era Gepetto, que acompanhado de
seus netos João e Maria, havia trazido um lindo cesto de maçãs para
Cinderela, enviados pela sua amiga Bruxa Má.

Enquanto Cinderela terminava de se arrumar, Branca de Neve assistia a dois
documentários no Discovery Channel: um sobre a vida das baleias e tudo que
poderia ser encontrado em seus estômagos e outro sobre um tornado que havia
derrubado a casa de três porquinhos.

Quando estavam prestes a sair rumo ao baile, toca a campainha. Na porta,
uma menininha com chapeuzinho vermelho oferecendo enciclopédias de quinta
categoria e conjuntos com 7 anõezinhos de gesso para jardim.

Como estavam com pressa para encontrar Joãozinho do Pé de Feijão e o
Príncipe Encantado, não puderam comprar nada nem dar atenção à pobre menina,
que enfurecida jogou-se no pescoço de Branca de Neve, dando uma chave de
braço daquelas de legítimo lutador de jiu-jitsu, tendo que ser tirada dali
pelo Saci Pererê, que surgiu do nada para acudir a alva garota.

No fim das contas, nem preciso dizer, o baile lá no Country Club estava "tri
da massa" e todos viveram felizes para sempre.

Escrito em 21/07/2003 e lido por Kátia Suman no Sarau Elétrico "Fábulas", em
22/07/2003

 

Ago 29

Dormingo

By Rafael Reinehr | Contos

Da cama, a mulher sentia os primeiros raios de sol do dia fenestrarem a janela. Como é bom dormir sem hora para acordar. Tomar café da manhã sem se preocupar com os deveres do dia.

Durante algum tempo a mulher ficou na cama, a se espreguiçar, planejando passar o dia inteiro de pijama, escutando música. Sentar tranqüilamente para ler um bom livro. Em instantes, a sensação de vazio que tomara conta da mulher ao perceber o espaço desocupado na cama foi substituída por um suave prazer, sentir o cheiro gostoso de café vindo da cozinha, sentir a presença de quem se ama.

Olhando pela janela, nuvens densas e escuras deixavam passar os raios do sol com alguma dificuldade, formando uma multidão de raios que pareciam brigar entre si para ver qual teria o privilégio de tocar o solo.

Era justamente nestas horas que a mulher lembrava como era bom escrever a lápis, ter uma borrachinha que ficasse redondinha depois de muito usar. Recordava como era sentir o cheiro de terra molhada depois de uma chuva repentina no meio da tarde. Buscava na memória as brincadeiras de criança, de um tempo distante que suas pernas não conseguem mais alcançar.

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