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distopia
out 28

Independência ou Morte – parte II

By rafaelreinehr | Contos , Literatura

Brazil, 7 de setembro de 2072

Marcelo chega em casa de mais uma rotina massacrante nos Campos de Concentração Alimentar. Seu portão da garagem há alguns dias estava demorando para abrir. O trânsito na rua estava restrito para automóveis que ainda se moviam com motores a combustão, como o seu. Desde que o governo criou o ProLixo, em 2065, favorecendo veículos impulsionados a lixo tratado quimicamente nos Grandes Depósitos Penitenciários, Marcelo sabia que não iria poder manter seu belo Chevro-Fiat-Volks 2050.

A legislação, naqueles dias, estava bem mais dura. Era preciso andar na linha.

Enquanto esperava a total abertura do portão, Marcelo colocou parte da sua roda dianteira direita sobre a calçada. Assim o fez afim de não atrapalhar o fluxo do trânsito.

De súbito, um alarme tonitroante que buzinava Triiii-óh-triiiii-óh-triiiii-óh começou a soar. Junto a ele uma placa holográfica e luzes vermelho-brancas piscantes anunciavam:

[Chegada do Magnânimo Fiscal de Muitas das Cousas]

Sabendo da importância do referido fiscal Marcelo mui respeitosamente concedeu-lhe uma reverência. Em seguida perguntou, mais do que educadamente:

– Vossa Eminência Exuberante, como posso ser-lhe útil e tornar mais agradável seu dia de hoje?

– Saia já do carro e coloque as mãos na parede! – vociferou o oficial.

– M… mas… mas o que foi que eu fiz?

– Vossa senhoria não está a par da nova legislação aprovada na madrugada de ontem para hoje? Chancelada pela nossa Nobre Congregação de Ilustres Deliberadores dos Assuntos Públicos?

– N… Não! Poderia me esclarecer?

– A partir de hoje, às 8:00 da manhã, é terminantemente proibido estacionar sobre a calçada. Sobre qualquer calçada.

– Mas eu não estou estacionado sobre a calçada! Estou aguardando o portão abrir, para colocar o carro na garagem!

– Vossa senhoria estava claramente estacionado. É nítido e claro que seu veículo encontrava-se parado, e não em movimento!

– Mas isso é absurdo! Eu apenas comecei a subir na calçada para que a traseira do meu carro não atrapalhasse o trânsito. Veja quantos outros automóveis estão na via pública a este horário!

– Vossa senhoria está querendo dizer que eu estou equivocado em minha avaliação? Vossa senhoria sabe a penalidade por acusar de forma caluniosa um Magnânimo Fiscal?  Um Oficial Representante do Governus Theosoficus Maximus da Nação Brazileira?

– Hummm… não… não… não quis dizer isso! Vamos resolver este mal entendido!

– Não há nenhum mal entendido. Você foi flagrado em pleno crime de Superposição Calçadística com Veículo de Transporte a Motor. E a pena, conforme a legislação recém-promulgada é a retenção do veículo e a condução coercitiva do meliante e confinamento temporário.

– Maaaaas… Como assim? Eu trabalho o dia inteiro naqueles malditos Campos de Concentração Alimentar! Retiro minerais e elementos químicos úteis de alimentos podres, animais mortos e toda sorte de material em decomposição. Transformo lixo e todo tipo de resíduos das Grandes Indústrias do Norte em rações e cápsulas comestíveis. Detritos gerados a partir do lixo dos produtos criados para o deleite dos Bem-Aventurados Meritocratas das Famílias Escolhidas.

Subprodutos que são utilizados para alimentar as multidões famintas da Periferia Maravilhosa Para Pessoas Especiais e Igualmente Maravilhosas.

Que nome inadequado e mal descritivo para aqueles cortiços imundos – pensou Marcelo. Trabalho da propaganda duplipensante do Governus. Bolsões infectos para os quais são enviadas as pessoas desempregadas, enfermas e desajustadas. Alimentadas com as sobras do lixo do lixo. Com aquelas cápsulas e rações horríveis que são obrigados a consumir para tentar viver 30 a 40 anos de uma vida insípida, malcheirosa e cinza…

– Shiiit… Ta ta ta ta… Sem chororô. Saia logo do automóvel e se posicione conforme ordenado, ou as coisas ficarão realmente feias por aqui. Estou vendo que sua filha Penélope está estudando em uma Escola do Grande Estado do Sulito. Estou enviando uma ordem temporária de suspensão de 30 dias válida a contar de agora. Você sabe o que significa não concluir seus estudos, em nossa Máxima Nação, não sabe? Já viu acontecer com seu filho Augusto, tenho aqui nos meus registros.

Marcelo ficou mudo. Levantou-se do carro, refém daquela situação estapafúrdia. Estapafúrdia, talvez, para quem a estivesse visualizando a partir de 2016 ou 2017, anos em que o Grande Golpe ainda não havia sido percebido por boa parte da população brazileira. Naqueles anos, uma poderosa aliança entre facções com interesses distintos mas que caminhavam juntos com um mesmo objetivo estava apenas começando a consolidar sua ponte para o futuro. O sonho de criar uma Aristocracia poderosa e permanente estava rebrotando. O então chamado Congresso Nacional era dominado por grupos chamados Bancadas. Estas se dividiam, principalmente, entre a Bancada Ruralista – defensora dos interesses dos grandes proprietários de terra, pecuaristas e produtores de monoculturas;  a Bancada Evangélica – defensora dos interesses da população cristã evangélica, bem a verdade dos pastores e comandantes de rebanhos pentecostais e neopentecostais; a Bancada das Empreiteiras e Construtoras – cujo nome é auto-explicativo;  a Bancada Empresarial – representante dos grandes empresários industriais e comerciais do país;  a Bancada dos Parentes – composta de políticos com familiares na política;  e a menor mas barulhenta Bancada da Bala – composta por políticos que lutam pelos direitos de autodefesa individual através do armamento pessoal.

Estes grupos começaram a gerar alianças e apoiarem mutuamente seus projetos. Gradualmente, passaram leis cada vez mais excludentes e intolerantes para com certos grupos. Negros, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros e transsexuais, classes economicamente desfavorecidas…  Quaisquer minorias e pessoas que buscassem mitigar a intolerância religiosa com discursos humanistas e igualitários eram alvos destas bancadas.

O governo da então chamada República Federativa do Brasil passou por intensos e sucessivos golpes à então existente pseudodemocracia. À época já elegia indivíduos e corporações economicamente favorecidas. Avançou cada vez mais com a supressão de direitos individuais com concomitante aumento dos deveres e surgimento de legislações progressivamente mais opressoras. Estas foram avançando nos centros urbanos e áreas rurais, retirando posses da classe trabalhadora e inflando um gigantesco sistema presidiário privado. A este foi dado o nome de Sistema Prisional Ultranacional. Contava com Grandes Depósitos Penitenciários que acolhiam as pessoas que eram extraídas de suas moradias e locais de trabalho após mínimas infrações.

A ideia do governo por volta de 2035 era simples: com a criação de penas severas para delitos simples, poderiam justificar a retirada de direitos outrora básicos das pessoas. Tais direitos incluíam acesso à saúde pública, à previdência social e à educação gratuita. Esta última suprimida desde o Plano de Incorporação Trabalhista Compulsório de 2029. Ele incluía todas as crianças a partir de 8 anos em um sistema de trabalho e aprendizado técnico de um ofício conforme a Tabela de Necessidades Industriais e Comerciais. Criado pelo Ministério da Educação e Trabalho (comandado pelos maiores acionistas empresariais da época), o Plano foi brindado como uma revolução educacional e trabalhista.

Com a retirada dos direitos, instituiu-se prisão por períodos determinados – 30 dias inicialmente, com penas subsequentemente maiores para novos delitos – como por exemplo tomar café em local público com mais de 2 amigos por mais de 30 minutos, leitura do livro O Capital, de Karl Marx, ou publicação de qualquer crítica ao Governus Theosoficus Maximus nas mídias sociais. Estas eram escrutinadas por algoritmos e robôs que denunciavam, penalizavam e notificavam automaticamente os Magnânimos Fiscais de Muitas das Cousas.

Os Grandes Depósitos Penitenciários logo se transformaram em uma grande solução na qual seres humanos eram depositados para trabalhar quase de graça (em troca de míseras rações alimentares produzidas a partir de sobras e produtos em degradação que eram limpos quimicamente e concentrados nas Máquinas de Reconversão Nutricional, nos Campos de Concentração Alimentar).

Marcelo é então levado, pela terceira vez nos últimos 15 meses, para o Grande Depósito Penitenciário da Baixada Melancólica. Da primeira vez, cumpriu 30 dias. Na segunda 60 dias e, agora, 90 dias estavam reservados para si. As penalizações eram linearmente progressivas para crimes leves e exponencialmente progressivas para crimes considerados moderados e graves.

Na primeira infração, foi penalizado por fumar um charuto originado na nuclearmente extinta ilha de Cuba em um local público. Na segunda, por fazer o download de uma música da banda Rage Against the Machine, banida 2 dias antes pela Nobre Congregação de Ilustres Deliberadores dos Assuntos Públicos. Esta era resultado horripilante de 55 anos de hibridizações políticas da mais abominável estirpe brazileira.

Como de costume, era permitido ao recém-chegado ao Depósito Penitenciário realizar uma ligação telepática monitorada ou enviar até 11 mensagens  de 140 caracteres via AIA. Os Algoritmos de Inteligência Artificial que substituiram os aplicativos de cinco décadas antes eram a forma mais usual de comunicação rápida então.

Marcelo estava em dúvida se avisava Ana Terra, sua companheira e mãe de Penélope ou se avisava sua filha. Ana estava foragida há 3 semanas por ter digitado as palavras “por uma vida mais livre e feliz” na ferramenta de busca “MNOQ”. MNOQ, ou Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, era o único motor de busca permitido pelo Governus há alguns anos.

Decidiu avisar a filha, para não expor sua companheira.

Preferiu usar um dos AIAs disponíveis então, chamado SiriNow. Mandou as seguintes mensagens, todas elas monitoradas desde o Grande Ato Pacificador das Comunicações de 2032:

“Penélope querida, fui novamente convidado a passar alguns dias no Depósito da Baixada. Envio 3 mensagens Práticas, 3 Públicas e 4 Póstumas”

“Temos rações e algumas cápsulas não tão horríveis que consegui armazenar na parte de cima da despensa. Devem te alimentar por bom tempo”

“Não tenho notícia da sua mãe há alguns dias, encontre-a, diga-lhe que a amo e amarei sempre. Ela saberá o que fazer com o que te direi”

“Existem alguns mecanismos de defesa, anonimato e desaparecimento naquele local que falamos nos contos e canções. É hora de usá-los”

“Cidadãos do Brasil – lembremos do tempo em que ainda éramos livres. Hoje iniciamos uma nova jornada de resistência. Preparem suas AIAs”

“Uma série de instruções que levarão à destruição da Grande Máquina Que a Todos Governa será enviada a todos. O Hemisfério Norte desintegrará”

“Os próximos dias serão cruciais. O Plano de Recuperação da Vida Humana está em andamento. Autobots farão seu trabalho. Mirem e deliciem-se”

“Por muito tempo fomos governados por mecanismos de dominação central controlados por poucas pessoas no mundo. Chegou a hora da mudança”

“A partir de hoje, cada humano tomará nas mãos as rédeas de suas próprias vidas. Toda tecnologia de controle e registro de riquezas sumiram”

“A utopia está lá no horizonte, e serve para uma coisa: para que continuemos a caminhar. Ubuntu. Namastê. Amor, Apoio Mútuo e Despertar

“Façamos funcionar o mundo para a humanidade através da cooperação espontânea sem ofensa ecológica ou desvantagens para qualquer um. R.B.F.”

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Conto fantástico e distópico constante no livro Descontos – Editora Rio das Letras (Santa Maria – RS – 2017)

Ficção x Realidade
jan 09

O Estuprador e o Indulto de Natal

By Rafael Reinehr | Contos

Quais são os riscos e os benefícios de liberar um criminoso durante as festas natalinas? Durante este texto você vai se colocar no lugar de duas famílias e ajudar a decidir…

O Estuprador e o Indulto de Natal

Dia 25 de Dezembro. Na noite anterior, a ceia na casa da família Silva tinha sido ótima. Seu Franciel e dona Amália tinham recebido seus filhos que moram em Criciúma e Araranguá e, juntamente com a filha Verônica que com eles residia, tiveram uma noite muito agradável, regada a boa comida e conversas animadas.

Dia 25 de Dezembro. Na noite anterior, a ceia na casa da família Santos tinha sido ótima. Seu Aristides e dona Severiana tinham recebido seus filhos que moram no Arroio do Silva e seu filho Leonardo, preso há dois anos por roubo e tentativa de estupro, que recebeu o indulto de Natal e estava passando os dias com a família em Sombrio. Conversas animadas, boa comida… Uma noite muito agradável.

Gustavo e Frederico Silva voltaram para Araranguá e Criciúma na tarde daquele dia, já que no dia 26 trabalhavam. Despediram-se dos pais e da irmã e rumaram para suas casas.

Leonardo Santos avisou aos irmãos que ia passar o dia com os amigos, que não lhe esperassem para jantar.

Na casa de Verônica, a janta era feita com as sobras da ceia da noite anterior. Sentados na mesa de jantar, Verônica, seu Franciel e Dona Amália conversavam sobre a incapacidade do ser humano em respeitar as diferenças, enquanto um barulho de vidro quebralho lhes chama atenção.

Leonardo encontra-se com seus amigos para uma roda de fumo, bebida e pó. Conta para os camaradas que ainda não sabe se vai voltar ao presídio na segunda-feira, quando acabar o indulto. Com a cabeça ainda “ativada”, se despede do grupo e vai em direção à sua casa.

Quando Verônica se levanta para ver que barulho era aquele, um homem com cerca de um metro e noventa entra cozinha a dentro, vindo dos fundos da casa e manda todo mundo “ficar frio que ninguém ia se machucar”.

Leonardo tem uma idéia súbita: se realmente resolver ficar na rua, vai precisar de grana pra se manter foragido. Olha para o lado direito e vê a casa de sua antiga professora do primário. Se lembra que sempre morava sozinha, e resolve entrar. Pelos fundos. Quebra o vidro da porta, gira a chave por dentro e entra. Na mesa da cozinha, a professora e duas pessoas mais velhas. Diz:

– Fica todo mundo frio aí que ninguém vai se machucar.

Verônica, apavorada, reconhece na face machucada, barba por fazer e uma grande cicatriz à direita, o rosto de alguém que não vê há muito tempo. Seu Franciel se levanta para tirar satisfação, e em menos do que um instante já está deitado no chão, com a boca cheia de sangue, ouvindo os gritos da esposa e da filha.

Mas o velho teimoso não lhe escuta e resolve se meter a machão. “Tu vai ver o que é bom filhadaputa”. E Leonardo lhe desfere um forte soco que acerta o velho na boca, levando-o ao chão. Pega o braço da velha e da jovem e as carrega até o banheiro. Depois volta até o velho, chuta-lhe a boca e a cabeça e o arrasta até o banheiro.

O homem a agarra pelo braço, assim como à sua mãe e as tranca no banheiro. Logo traz, puxando pelas pernas, seu pai desfalecido. Ela pensa em gritar, mas o pavor é tanto que fica paralisada. Tenta ficar calma, mas mal consegue pensar. O invasor pede que a leve até algum dinheiro, dizendo que depois irá embora.

Leonardo pede que a professora lhe dê todo dinheiro que tiverem em casa.

– Ninguém precisa se machucar. Me dá o dinheiro e eu me mando.

Verônica o leva até os quarto dos pais, pega a caixa guardada na parte superior do armário, atrás de uma pilha de roupas e entrega a Leonardo. Três mil reais, é tudo que eles tem em casa.

Leonardo pega os três mil reais da caixa, mas antes de ir embora, ele precisa matar mais uma vontade reprimida nestes dois anos na prisão.

Verônica sente um olhar estranho em Leonardo, e o terror que já era gigantesco quase a faz desfalecer.

– Agora, fica quietinha se não quiser que eu te corte toda. E começa a arrancar a roupa da professora, que, pálida e com o corpo todo tremendo, não esboça nenhuma reação.

Verônica sente que está perdendo a consciência. Uma mistura de náusea, horror, vertigem e embrulho no estômago se somam ao tremor generalizado em seu corpo. Seus músculos não respondem à ordem que grita, dentro da sua cabeça: “Reaja, lute, se defenda, fuja…”

Leonardo penetra Verônica com toda força e disposição acumuladas no tempo em que ficou preso. Agarra seus seios e depois afasta suas coxas com vigor, para penetrar mais fundo. Ejacula dentro de Verônica, e o faz com um gemido de prazer. Levanta sua cueca, fecha o zíper e vai embora, sem olhar para trás.

Dia 25 de Dezembro. Um funcionário de plantão na delegacia de polícia de Sombrio recebe uma denúncia de assalto, agressão física e estupro. E pensa: “Porque uma merda dessas justamente no meu plantão? Vou ter que chamar o delegado…”

(O conto acima foi baseado em uma história real, contada por uma paciente minha no dia 08/01/2009, ocorrida com uma amiga dela, no último Natal. Os nomes dos personagens não condizem com a realidade, e alguns fatos foram omitidos e outros modificados, tornando esta uma obra de ficção.)

 

Linguagem e literatura
ago 01

Uma Aldeia Chamada Linguagem (e a seca da literatura)

By Rafael Reinehr | Contos

Há algum tempo atrás, cerca de quatro ou cinco anos para ser menos impreciso, escrevi um “conto didático” chamado Uma Aldeia Chamada Linguagem. Desde aquela época, muitas pessoas reconheceram nele uma possível utilidade como material didático para o ensinamento das figuras de linguagem e estilística.

Hoje, vagueando pelos confins do meu cérebro, acabei por dar um canelaço na lembrança deste conto e resolvi, aproveitando a por vezes presente “aridez literária” que me consome, revisitar este conto que, se melhor trabalhado, poderia inclusive ser incluído em algum livro de gramática como “material explicativo” ou “exemplo” das referidas figuras de linguagem.

Seco, encaminho-vos à leitura do conto Uma Aldeia Chamada Linguagem. Sua crítica é sempre bem-vinda.

abr 16

Terça-feira, 5 de outubro de 2004 – Uma Aldeia Chamada Linguagem

By Rafael Reinehr | Contos

Querido amigo Hiperativo Confuso:

Como havia lhe prometido, estou escrevendo sobre esta nova terra que acabei de conhecer. Nem lembro direito como cheguei a ela, acho que foi depois de dobrar à direita após uma ravena passando uns cinqüenta quilômetros do Himalaia.

O que importa é que tudo transcorreu bem e agora estou aqui, pronto para seguir jornada para mais uma aventura. Mas antes, tenho que lhe falar deste povo que conheci e de seus costumes.

Viviam em uma Aldeia hermeticamente fechada chamada Linguagem.

Me disseram que seus ancestrais eram todos de origem grega.
Cada qual com sua função, seu porquê, seu destino. Dividiam sua comunidade entre os trabalhadores braçais, os responsáveis pelas idéias e os donos da palavra.

Dentre os primeiros, quem conheci logo na chegada à Aldeia foi Elipse, um funcionário público difícil de encontrar em seu local de trabalho. Quando ia às compras – que foi quando lhe conheci – tinha a mania de perguntar o preço de tudo, mesmo sabendo que não iria comprar:

– Quanto custa? (o sapato)
– Quanto custa? (o abajur)
– Quanto custa? ( a garrafa de vinho)

Elipse tinha um irmão chamado Zeugma. Este irmão era singular em um aspecto: detestava repetir qualquer coisa que já houvera dito anteriormente, mesmo de forma oculta. Dizia:

– Eu te conto uma piada, você me conta outra.
– Outra o quê?
– Grrrrr! – resmungava, já irritado.

Vizinho de Elipse e Zeugma, Polissíndeto é empregado de uma fábrica de calçados, onde é responsável por unir a sola com a base dos sapatos. Seu irmão gêmeo, Assíndeto, trabalhava na mesma fábrica, e revisava calçados que não ficavam bem ligados pela cola que era usada.

Dizia Polissíndeto, quando brigava com o irmão:
– Estou cansado de chorar e sofrer e perder e me conter e de ouvir e ocultar e viver.

Ao que lhe respondia prontamente Assíndeto:

– Pois então, chorando, sofrendo, perdendo, contendo, ouvindo, ocultando, enfim, sentindo é que vou levando a vida assim, feliz!

Pleonasmo trabalhava no depósito de lixo da comunidade. Lá tinha o que fazer em abundância. Como não tinha estudo, ficava repetindo o que os outros diziam e, ainda, repetia a si mesmo para reforçar suas idéias. Bradava:

– Naquele dia em que roubaram os galináceos do padre Metáfora, vi claramente visto o ladrão.

Ou ainda, nos dias em que bebia um pouco além de sua capacidade de metabolizar o álcool:

– Não vejo a hora de entrar pra dentro de minha casa e subir para cima até meu quarto e capotar na cama.

Pleonasmo era apaixonado por Iteração, cujo apelido carinhoso era Repetição, com a qual tinha muitas afinidades de idéias:

– Como é triste, triste mesmo e muito triste este mundo, não achas, Pleonasmo? Não quero um mundo assim, pobre assim, triste assim…

Pessoa estranha era a professora Anáfora: tinha o cacoete de começar todas suas explicações com “se”:

– Se você somar dois mais dois, temos quanto Subjetivo?
– Se as nuvens são feitas de vapor d’água, quais são os elementos que formam a nuvem, Oração Subordinada?
– Se você cantasse
Se você gritasse
Se você urrasse
Se você esperneasse, alguém te ouviria!

O arquiteto Anacoluto, esposo de Anáfora, era um sujeito quase incompreensível. Suas frases pareciam sem seguimento, davam a impressão de não conter uma ordem lógica:

– Estamos aqui, a construir este prédio. E veja, o Sol desce calmamente no horizonte enquanto a humanidade desfalece prematura. As pessoas, os tijolos…

O melhor amigo de Anacoluto, Hipérbato, parecia ter saído daqueles livros de antigamente pois falava de forma invertida, o que todos achavam muito engraçado:

– Pois então, Lutinho, te dizia, é a liberdade, branca que nos põe a caminho.

Um dos lugares que os amigos mais gostavam de ir nos fins-de-semana era a casa de campo de Hipérbato. Lá, vim a conhecer o caseiro, que se chamava Aliteração. Já na chegada, fomos extremamente bem recebidos:

– Faz favor, feche o ferrolho! Fico feliz fazendo faisão com feijão para a família se fastiar!

A esposa de Aliteração, dona Silepse, fazia um faisão com feijão de deixar a boca, os olhos e os ouvidos abertos. Era uma pessoa muito compreensiva e sensível, sabia o que seu marido queria dizer só pelo olhar.

– Benhê, leva um casaco para seu Anacoluto e dona Anáfora, já que o casal esqueceram que vai esfriar. Aproveita e leva um para seu Hipérbato, que é um criança e se resfria fácil. Se não, eles vão pensar que a gente somos sem alma e inútil.

Nas bibliotecas e cafés filosóficos da comunidade, se concentrava a nata do pensamento da Aldeia: os filósofos, físicos, cientistas sociais e outros teóricos.
A mais antiga representante do grupo, a filósofa Ironia era quem mais questionava o grupo. Era um ponto de interrogação em pessoa. Vivia dizendo o contrário do que pensava, satirizando e questionando o comportamento dos outros com a intenção de ridicularizar.

– E então caro amigo Eufemismo, deves sentir-se bem com seu belo par de novos chifres.

– Não fale deste jeito, Ironia. Eu e minha esposa, desde sempre nos entendemos muito bem. Nos últimos tempos apenas descobri que a compreensão dela é um pouco mais ampla.

Ao qual intrometeu-se o químico Hipérbole:

– Se eu estivesse em seu lugar Eufemismo, já haveria de ter posto fim à minha vida. Setecentas mil vezes eu teria dado cabo à minha vida. Sofrimento igual nem em um milhão de mundos.

Ao que Antítese, poeta que tudo percebe, frente e verso, e que também por lá estava, retrucou (parafraseando Camões):

-“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

Outros membros da Confraria das Idéias são o músico Apóstrofe, o inventor Gradação e a contadora de histórias Prosopopéia.
Apóstrofe adorava em suas canções interromper a música para invocar alguém ou algo:

– Tempestade! Tempestade!
Quantas vidas já ceifaste
Neste lamaçal que tua água produz
Tempestade! Tempestade!
Que cruel consegues ser
Ao esconder do Sol a luz.

Gradação é uma pessoa que poderíamos chamar de fatalista: tinha tudo previamente determinado, seguindo uma seqüência pré-estabelecida até a plenitude ou até o vazio:

– Não há porque lutar contra a morte, inequívoca verdade que transforma nossa beleza em corpo em degradação, em cinza, em pó, em lembrança, em nada.

Prosopopéia era “contadora de histórias” em uma organização não-governamental que auxiliava crianças com câncer. E como era boa no seu trabalho! Fazia as pedras andarem, dava vida a suas histórias. Contava assim:

– Enquanto a noite dormia, em cada esquina os paralelepípedos preparavam a revolução; os postes, outrora sempre quietos, arrepiavam-se ao ouvir as notícias que voavam velozmente por entre os becos…

Havia ainda na comunidade mais duas figuras interessantíssimas que não poderia deixar de lhe fazer conhecer.
O primeiro deles, Metonímia, era um político de prestígio, governante da Aldeia inclusive (pelo que consta, têm os cidadãos desta Aldeia memória curta, sendo que Metonímia aproveitava esta característica para, ao final de cada mandato eleitoral, mudar de nome para conseguir a reeleição).
Seus comícios eram impagáveis, tive oportunidade de presenciar um:

– Meu povo, minhas cabeças! Venho até vós levantando minha bandeira em torno de uma bandeira comum: nossa amada Aldeia! Cheguei aqui pela primeira vez a vapor, mas lhes digo, como seu representante maior: preciso fosse, viria até de vela! Pelo povo linguageense, faria brandir meu ferro se necessário para defender a honra e a terra deste chão que tanto prezo!

No canto do palanque, outra personalidade única: o padre Metáfora, chefe maior da Igreja na comunidade, mestre em transportar para uma coisa o nome da outra:
Em suas missas, dizia:

– Este é o corpo de Cristo: Comei! Tomai: este é o sangue de Cristo! Seu sofrimento foi o pagamento de nossos pecados…

Agora, enquanto termino de escrever esta carta para você, meu amigo, lembro ainda do motorista do táxi que me trouxe até o aeroporto. Chamava-se Catacrese:

– E então, para onde vamos? Vais avionar, transatlanticar ou onibiar?

Realmente um povo muito estranho. Costumes esquisitos que não havia visto igual em nenhuma de minhas viagens, exceto, talvez, no Brasil.
Te mando outra carta depois de melhor conhecer meu próximo destino: Utopia.

Um abraço sincero e afetuoso,

Neurótico Lunático Anônimo

abr 09

Cinco Marias

By Rafael Reinehr | Contos

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando…
Maria Quitéria tinha quatro filhas moças: Maria Antônia, Maria Júlia, Maria Cristina e Maria Solange, a primogênita.
Desde que se mudaram de Santa Maria para Piraporinha do Bem-Te-Vi, no meio da Campanha, a vida da família Boitempo havia ido para as cucuias.
Seu Bonifácio, ex-funcionário da extinta R.F.F.S.A. havia sido transferido para São Miguel oito anos antes, e mesmo com o fim da empresa que lhe sustentava decidiu que era lá que iria fincar sua bandeira.
E assim foi: apesar das dificuldades do começo, seu Bonifácio conseguiu fazer seu pequeno Armazém se destacar entre as vendas do lugarejo e, em pouco tempo, já era um dos mais respeitados comerciantes da região.
É claro que tamanho sucesso nunca vem só: chamou a atenção de algumas espertas e serelepes “senhoras” da vizinhança, que passaram a gastar boa parte de suas tardes na venda do “Seu Bona”, como era conhecido.
Por um tempo, Maria Quitéria fez vista grossa e agiu como se nada estivesse acontecendo. Um dia, ao entrar no bolicho, chegou a ver Dona Gertrudes, viúva do falecido Anastácio pular no pescoço de seu marido e lhe roubar uma bitoca. Fez que não viu.
O tempo passou, as meninas cresceram. Maria Solange já havia casado e morava em uma casinha construída atrás da casa dos pais. Foi então que os problemas realmente começaram.
Bonifácio, que já há alguns anos havia ficado adepto de um ou dois copinhos de pinga, já não mais chegava em casa sóbrio.
A gota d’água aconteceu em uma noite de outono: Maria Quitéria ainda não havia chegado do encontro de senhoras no clube local, Maria Júlia e Maria Cristina estavam na casa da irmã mais velha, nos fundos do terreno e Maria Antônia, com 15 anos na ocasião, estava no banho. Bonifácio chegou em casa com as bochechas rosadas – mistura das duas garrafas de vinho e do frio que se insinuava – e, ao ouvir o barulho de água caindo do chuveiro, foi direto ao banheiro, esperando achar por lá sua esposa a se banhar.
Ao lá chegar deu de cara com sua filha mais moça – assustada e nua – e, embriagado como poucos, não se intimidou e foi logo agarrando a menina, que tentava afastar o pai a tapas e gritos.
Quando Quitéria chegou, encontrou Bonifácio deitado na cama, roncando tranqüilamente com sua barriga para cima, pernas para fora da cama, ferrado no sono. Não imaginava o que houvera acontecido até entrar no banheiro. No canto, encolhida até os joelhos quase adentrarem o tórax, Maria Antônia jazia, em um misto de soluços e gemidos baixos, sentada em uma poça de sangue.
O breve olhar que sua filha lhe dirigiu antes de desabar em choro compulsivo foi o suficiente para Quitéria dirigir-se até a cozinha e selecionar sua mais afiada faca.
Adentrou o quarto do outrora feliz casal e consumou um fato que tinha a impressão devia ter praticado há tempos.
Ao sentir o frio metal invadir sua carne, Bonifácio só teve tempo de arregalar seus já esbugalhados e vermelhos olhos. Morreu estrebuchando qual porco carneado. Não conseguiu nem entender o que estava lhe acontecendo.
Assim que Bonifácio exalou seu derradeiro suspiro, Júlia, Cristina e Solange irromperam no quarto de Quitéria e se depararam com a mãe ajoelhada, imóvel, observando o corpo igualmente inerte, entretanto sem vida, de seu pai.
Por algum motivo, não houve espanto nem tampouco comoção. A serenidade naquele quarto era assombrosa. Só faltava resolver mais uma coisa. Com o corpo ainda quente.
Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando.

abr 09

Um vaso de flores

By Rafael Reinehr | Contos


Entro na sala e não encontro nada exceto um galão de vinte litros de água. Naquela altura, as cadeiras, a pia, o ventilador, a cafeteira e o pequeno aparelho de som não chamam minha atenção. Fixo meu olhar naquele curioso galão de água.
Em menos do que um instante, um turbilhão de perguntas invadiu minha mente cansada e atordoada pelas preocupações corriqueiras – entretanto volumosas – do dia-a-dia:
– Quem levou aquele galão até lá?
– O que estará ele fazendo naquele canto?
– Para onde ele será levado e utilizado?
– De onde vem a água que nele se encontra?
– Quanto custou e onde foi comprado?
– Poderia ser só um enfeite no canto da sala?
– A cor azul do plástico que envolve a água é por motivo de legislação específica ou tão somente por falta de criatividade da empresa que envasa a água?
– Qual o percentual de cada sal mineral contido na água?
– Quais os caminhos que a água trilhou nos últimos anos até chegar àquele galão?
– Um galão de vinte litros de água mineral pesa o mesmo que um galão de vinte litros de água potável da torneira?
E as perguntas surgiam sem fim, me fazendo esquecer meu objetivo naquela sala e as cacofonias que produzia. O tempo passou, a noite caiu. Com ela o silêncio (alguém havia apagado o rádio, pouco antes da escuridão tomar conta da sala).
Não mais que de repente, o galão de água era apenas um corpo pouco nítido, mas claro o bastante para ver minha própria imagem nele refletida, com ajuda da parca iluminação vinda do corredor.
Nunca antes havia vislumbrado minhas formas: pernas finas, assim como os ombros e parte superior do corpo; cintura e abdômen largos, algo que poder-se-ia chamar de “aspecto cilíndrico quase-esférico”; do alto de minha cabeça, lindas extensões filiformes verdes com corpos multi-petalados coloridos – amarelos, vermelhos, brancos e cor-de-laranja. Gostei do que vi. Nada mau para um vaso de flores.

Hipertextualidade
set 23

Hipertextualidade e criação: traquinagens de um cientista literário

By Rafael Reinehr | Contos

Tem algumas coisas que quero muito fazer. Uma delas é ter filhos. Bom, vou começar por um só. Bem, se tiver um casal, também seria bom. Outra coisa que gostaria muito de fazer é um livro. Mas o livro, daqueles que entram para a história da literatura, para ser lembrado por muitos anos ainda depois da minha morte.

Hoje estava pensando, enquanto vinha pra casa: qual é a força ou fenômeno responsável pela transmutação da ânsia revolucionária em desejo de segurança e conforto? Qual é será o gatilho, circunstância ou conjunção astral que leva um indivíduo consciente da necessidade e de sua possibilidade de mudar o rumo da própria vida e de outros a contentar-se com Tv por satélite, home theater, jantares com amigos, sexo com a esposa e um bom fim-de-semana preguiçoso?

Hipertextualidade Hoje também descobri uma brincadeira que acho que vou gostar de repetir: usar a ferramenta “página aleatória” da Wikipedia. Quando criança, várias vezes fucei randomicamente naquelas gigantescas enciclopédias Barsa e Britânica. Ontem, como que num túnel do tempo, pude rememorar esta brincadeira clicando no “página aleatória” da Wikipedia e sendo levado de página em página a novos mundos de descobertas fantásticas. Algumas curiosas, outras inúteis, outras ainda sem graça, mas muitas, muitas mesmo, extremamente recompensadoras para uma mente inquieta como a minha. Viajei de Max Stirner, que havia procurado no mecanismo de busca para Trabuco, daí para Fórmula de Simpson e daí por sua vez para 7355 Bottke (intencionalmente, suprimi alguns acessos intermediários “sem graça”). A leitura destes artigos me deu nova energia para ler e compor. Alimentou meu manancial de idéias, que lento corria nos últimos meses. Agora, enquanto escrevo estas tão maltraçadas e maltratadas linhas, conheço Puebla Del Maestre, município da Espanha na província de Badajoz, comunidade autônoma da Extremadura, de área 79,00 km² com população de 833 habitantes e densidade populacional de 10,54 hab/km². Vejo que a população vem decrescendo continuamente desde 1991. De lá, viajo sem escalas para Bourth, uma comuna francesa na região administrativa da Alta-Normandia, no departamento Eure. Ela estende-se por uma área de 18,67 km², com 1.064 habitantes, segundo os censos de 1999, com uma densidade de 57 hab/km². Nas proximidades de Bourth fico sabendo que 100 bullets, um jogo de ação baseado na história em quadrinhos “100 bullets” da DC Comics está para ser lançado nos consoles Wii, Game Boy Advance, Nintendo DS, XBox 360, Playstation Portable, PC ePlaystation 3. Bom para os gamemaníacos, suponho. Depois de olhar para o céu e visualizar o asteróide 4701 Milani, descubro um segredo que acaba me envolvendo em uma grande encrenca, e passo aHipertexto fugir da SAVAK, a antiga polícia secreta iraniana. Para despistá-los, escondo-me atrás de uma Ratzeburgia, planta pertencente à família Poaceae. Quando tudo parece estar limpo, saio do meu esconderijo e vou me encontrar com Janine Lindemulder, com quem estou tendo um tórrido romance desde que me separei de minha segunda esposa. Quando chego à casa de Janine, a empregada me avisa que a mesma foi à uma clínica de estética realizar aplicações de Alcachofra para queimar gordurinhas na barriga. Neste momento me lembro que preciso investigar a árvore genealógica de Artabano IV da Pártia, último rei dos partos, da dinastia da arsácida. Preciso descobrir se Artabano ou algum de seus descendentes diretos passou por Vistrorio, comuna italiana da região do Piemonte, província de Turim, ou por Oberschneiding, município da Alemanha, no distrito de Straubing-Bogen, na região administrativa de Niederbayern, estado de Baviera.

Foi então que algo estranho aconteceu: passei a ter todo meu campo de visão tomado por um Círculo cromático: fui envenenado! A empregada de Janine havia colocado algo no café que me serviu. Desde a primeira vez que a vi, nunca havia confiado naquela hindu que Janine havia trazido de Kosamba em uma de suas viagens pelo oriente.

E assim segue a brincadeira. Dá pra fazer um verdadeiro romance interativo com a Wikipedia ou com outras fontes da Internet, sempre referenciando o endereço de onde a informação que influenciou o texto foi gerada. No exemplo acima, fui totalmente guiado pela “página aleatória” da Wikipedia, mas isto também pode ser modificado ao gosto do autor, ou seja: o autor escreve uma seção de texto original e depois procura termos-chaves na própria wikipedia, no google ou em outro local na Internet e cria uma ampla rede de hiperlinks oriundos de seu texto. É claro que com um pouco de dedicação, talento e tomando mais as rédeas da narrativa, se consegue produzir um conto, novela ou romance bem mais qualificados que o do exemplo acima.

Isto é feito em pequena escala em alguns weblogs, mas nunca foi abrangentemente explorado dentro da criação literária, ao menos que seja do meu conhecimento. World is bigger than we can handle, so…

(texto originalmente escrito em 23 de março de 2007 e guardado em arquivo digital até hoje)

maio 03

Fábula fabulosa

By Rafael Reinehr | Contos

 Era uma vez, em um distante reino encantado onde vivia uma linda menina,
chamada Branca de Neve. Sua melhor amiga era uma princesa chamada Bela
Adormecida. O único problema de Bela Adormecida é que ela era muito
dorminhoca.

Um lindo dia, enquanto Branca de Neve colhia feijões em seu pede feijão
gigante, ela viu uma cena que jamais iria esquecer: um lenhador com seu
machado em riste correndo atrás de um menino de madeira que gritava:

-"Não fui eu, não fui eu quem comeu a Casa de Chocolate!" – e a cada vez que
dizia isso seu nariz crescia mais e mais.

Nisso, resolveu voltar para casa e, não mais que de repente, surgiu em sua
frente o Lobo Mau, com sua Harley-Davidson envenenada, convidando-a para
fazer um piquenique na casa da vovozinha.

Branca de Neve não pode aceitar, pois tinha que ir na casa da Cinderela para
se prepararem para o Baile que iria rolar logo mais, em comemoração ao
desaniversário do Gigante, organizado pela "socialáite" Alice.

Ao chegar na casa de Cinderela, que estava de dar uma arrumadinha nos móveis
e tirando a poeira dos estofados (para ajudar sua querida madrasta), Branca
de Neve deparou-se com uma visita ilustre: era Gepetto, que acompanhado de
seus netos João e Maria, havia trazido um lindo cesto de maçãs para
Cinderela, enviados pela sua amiga Bruxa Má.

Enquanto Cinderela terminava de se arrumar, Branca de Neve assistia a dois
documentários no Discovery Channel: um sobre a vida das baleias e tudo que
poderia ser encontrado em seus estômagos e outro sobre um tornado que havia
derrubado a casa de três porquinhos.

Quando estavam prestes a sair rumo ao baile, toca a campainha. Na porta,
uma menininha com chapeuzinho vermelho oferecendo enciclopédias de quinta
categoria e conjuntos com 7 anõezinhos de gesso para jardim.

Como estavam com pressa para encontrar Joãozinho do Pé de Feijão e o
Príncipe Encantado, não puderam comprar nada nem dar atenção à pobre menina,
que enfurecida jogou-se no pescoço de Branca de Neve, dando uma chave de
braço daquelas de legítimo lutador de jiu-jitsu, tendo que ser tirada dali
pelo Saci Pererê, que surgiu do nada para acudir a alva garota.

No fim das contas, nem preciso dizer, o baile lá no Country Club estava "tri
da massa" e todos viveram felizes para sempre.

Escrito em 21/07/2003 e lido por Kátia Suman no Sarau Elétrico "Fábulas", em
22/07/2003

 

ago 29

Dormingo

By Rafael Reinehr | Contos

Da cama, a mulher sentia os primeiros raios de sol do dia fenestrarem a janela. Como é bom dormir sem hora para acordar. Tomar café da manhã sem se preocupar com os deveres do dia.

Durante algum tempo a mulher ficou na cama, a se espreguiçar, planejando passar o dia inteiro de pijama, escutando música. Sentar tranqüilamente para ler um bom livro. Em instantes, a sensação de vazio que tomara conta da mulher ao perceber o espaço desocupado na cama foi substituída por um suave prazer, sentir o cheiro gostoso de café vindo da cozinha, sentir a presença de quem se ama.

Olhando pela janela, nuvens densas e escuras deixavam passar os raios do sol com alguma dificuldade, formando uma multidão de raios que pareciam brigar entre si para ver qual teria o privilégio de tocar o solo.

Era justamente nestas horas que a mulher lembrava como era bom escrever a lápis, ter uma borrachinha que ficasse redondinha depois de muito usar. Recordava como era sentir o cheiro de terra molhada depois de uma chuva repentina no meio da tarde. Buscava na memória as brincadeiras de criança, de um tempo distante que suas pernas não conseguem mais alcançar.

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