Category Archives for "Medictando"

Abr 14

Transladando teoria em prática

By Rafael Reinehr | Medictando

De que serve ler palavras?

As lerei com meu corpo.

Como pode um enfermo beneficiar-se

lendo um livro de medicina?

Shantideva

 

Na edição passada, fiz um convite aos leitores: que me ajudassem a esclarecer como se faz

para transformar teoria em prática. Hoje começaremos a investigar esta questão.

Um aspecto interessante da vida médica diz respeito ao caminho necessário a trilhar entre o

conhecimento e a aplicação prática daquilo que foi aprendido.

Sabemos, tanto por experiência quanto pela análise de estudos científicos, que quanto mais

complexas as medidas que precisamos implementar em nossas vidas, menor é a aderência a tais

Por exemplo, é muito mais fácil conseguir aderência de uma paciente a um tratamento

medicamentoso por curta duração do que por longo prazo. A aderência ao tratamento de uma

pneumonia é muito mais provável do que a de osteoporose, diabetes ou obesidade. Dentro de

tratamentos de curto prazo, aquelas medicações com uma só tomada ao dia tem chances muito

maiores de adesão por parte do paciente do que aquelas que necessitam, por exemplo, três ingestas

diárias. E, finalmente, tratamentos em que o uso de medicações são as responsáveis principais pela

melhora dos pacientes acabam resultando em melhores resultados em geral do que aqueles em que a

mudança de hábito de vida – incluindo, por exemplo, mudanças nos hábitos alimentares e realização

de atividades físicas – são necessários.

Não se beneficia um paciente ofertando-lhe um livro de medicina – uma série de orientações

práticas, detalhadas, factíveis e, de preferência, com pequenos passos por vez se faz necessária; em

nossa vida profissional e pessoal também precisamos de certo planejamento e organização para

transladarmos o conhecimento que adquirimos em ações práticas para benefício próprio e daqueles

E quais seriam estas orientações que nos ajudariam a transformar teoria em prática? Chamo

o fluxograma a seguir de “Vamos acampar?”, pois ele nos incita a fazer uma lista do que

precisamos levar, por exemplo, quando vamos fazer um acampamento:

– Definir objetivos claros: o que queremos? para onde vamos? como vamos? com quem vamos? do

que precisamos? como vamos conseguir o que precisamos?

– Antecipar possibilidades – e se não der certo, quais são as alternativas?

– Transformar crenças pessoais em problemas, para motivar mudanças

– Quebrar o complexo em partes menores

– Compreender o que se quer transformar e, finalmente

– Acompanhar o andamento do processo, corrigindo imediatamente o rumo quando necessário

Indo para a prática, então: há pouco mais de dois anos decidimos, minha esposa e eu, deixar

de lado a vida de “sucesso” profissional que nos consumia por 12 horas dentro de um consultório

cheio e mudamos de cidade e de vida, em busca daquilo que realmente fazia sentido para nós, em

contraponto ao que a sociedade (e nossa família) espera de uma pessoa bem sucedida.

Este caminho, o que começa em saber exatamente o que se quer e não termina nunca, pois

estamos sempre acompanhando e reavaliando o processo de caminhar, é o que estamos trilhando

nesse momento. Só se aprende a viver vivendo. Como disse Thomas Fuller, “o conhecimento dirige

a prática, mas a prática aumenta o conhecimento”.

Algo precisando ser mudado na sua vida? Leia a mudança não com o pensamento mas com

sua própria vida. Depois me conte. Mãos à obra!

Abr 07

Para ser feliz, simplesmente desista

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2010 na Revista DOC

Muitas vezes, a forma mais fácil de solucionar um determinado problema é não participar dele. É desistir. Desistir muitas vezes significa respeitar seus desejos mais íntimos. Significa recusar pressões sociais e tornar-se quem você realmente é. Da próxima vez que surgir um problema, desista:

–    Desista de ser legal;
–    Desista de ser alguém famoso;
–    Desista de querer ser diferente apenas para ser único;
–    Desista de tentar ser perfeito;
–    Desista de manter relações com pessoas das quais você realmente não gosta;
–    Desista de ser o centro das atenções;
–    Desista de tentar ser importante (focar na comunidade é usualmente mais engrandecedor);
–    Desista de buscar uma série de objetivos voltados ao ego;
–    Desista de se preocupar em possuir uma montanha de coisas legais, que distraem você do fato de que você não gosta do que você está fazendo com a sua vida;
–    Desista de tentar ser muito feliz todo o tempo: em vez disso, busque ser mais tranquilo;
–    Desista de ser tudo para todo mundo;
–    Desista de sacrificar sua vida atrás de um grau que lhe dê a ilusão de que você é superimportante;
–    Desista de ser ultraprodutivo, especialmente se a produtividade lhe deixa esgotado;
–    Desista de aperfeiçoar-se constantemente: muitas vezes, aperfeiçoamento exagerado nos faz perder a vista do aqui e do agora;
–    Desista de pensar que você não tem tempo ou habilidade para tornar seus sonhos realidade;
–    Desista de tentar viver conforme a expectativa de seus pais, seus amigos, seu chefe ou seus colegas;
–    Desista de ter um corpo perfeito, um rosto perfeito, ou um guarda-roupas perfeito: preocupe-se mais em embelezar sua mente e ser uma pessoa que faz belas ações.

Tentar fazer as coisas acontecerem a todo tempo cria uma ansiedade desnecessária. É estressante tentar negar aquilo que é. Quando eu desisto, aceito a vida como ela é, sem desejar que as coisas sejam diferentes. Se uma ação é necessária, eu aceito. Eu faço. Mas podemos desistir de deixar nossa felicidade depender de uma coisa ou de alguém. É interessante perceber como parecemos ter tantos problemas e tantos dilemas. A maior parte das vezes, no entanto, a resposta para resolvê-los é não fazer nada. Simplesmente desistir.

Bom… Jogar (e ler) um monte de frases soltas em tom de aconselhamento realmente é algo fácil de fazer. Transformar teoria em prática são outros quinhentos. Nossas crenças ou nossa hierarquia de prioridades pode até estar parcialmente afinada com algumas mudanças que esperamos para nossas vidas, mas daí, para tornarmos realidade aquilo em que acreditamos, seguir uma série de passos se torna necessário.

Gostaria de deixar uma pergunta e um convite ao leitor da DOC: como você faz para transformar ideia em ação? Como transladar teoria em prática? Se você tem uma boa resposta a estas perguntas, envie-a para o e-mail <medictando@revistadoc.com.br> e na próxima coluna faremos uma síntese do pensamento dos leitores, enriquecendo nosso diálogo. Até lá.

*Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas

Mar 31

Por que as perguntas certas são mais importantes que as respostas?

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 16 de outubro de 2009 na Revista DOC

Na Medicina, bem como em praticamente todas as áreas científicas e humanas, somos treinados para encontrar e oferecer respostas. Quando um paciente nos procura, ele quer saber o que tem e como fazer para resolver uma questão de saúde que lhe aflige.

Para que possamos de fato ajudá-lo, o primeiro passo é – através da integração entre o conhecimento que acumulamos e o reconhecimento de padrões que temos acumulado através da nossa experiência – fazer as perguntas que nos levarão ao diagnóstico correto da enfermidade ou da necessidade de quem nos solicita ajuda. Nunca damos (ou não deveríamos) oferecer um tratamento sem nos perguntar duas coisas:

A primeira é: o que está acontecendo de fato com este paciente? A segunda é: o grau de certeza que tenho é suficiente para tratá-lo, devo seguir investigando ou devo solicitar ajuda a alguém mais? São perguntas importantes que, mesmo de modo inconsciente sempre nos fazemos durante o processo diagnóstico de uma doença.

Entretanto, me pergunto: por que muitas vezes não fazemos perguntas tão ou mais importantes no decorrer de nossas vidas? Por que encontramos colegas tão absortos em seu dia a dia sem uma meta específica a ser alcançada? Ou, poeticamente, por que navegamos sem norte, sem porto ou terra à vista para atracar?

A edição anterior da Revista DOC foi prolífica em uma série de perguntas importantes que precisamos, cedo ou tarde, fazer: Márcio Iavelberg, em sua coluna DOC.Finanças perguntou: quantos pacientes preciso atender em um mês para terminá-lo no azul? E qual será minha remuneração ao final do mês?. Ainda, na mesma edição, uma belíssima reportagem de Fernanda Fernandes nos faz questionar: e agora, José? Devo seguir atendendo convênios ou me aventuro em um consultório somente particular?

A essas perguntas, claramente associadas ao critério financeiro da nossa labuta diária, acrescento mais uma – na verdade, uma pergunta bastante composta: quanto mereço ou quero ganhar e o que vou fazer quando atingir esta meta? Ou seja: o que irei fazer ao atingir a meta por mim estabelecida? Dedicar-me a atividades de lazer, contemplação, descanso? Produzir capital social ou envolver-me em trabalhos altruístas, para dividir um pouco da boa venturança que me coube na vida com quem não teve a mesma sorte? Passar um bom tempo com minha família e amigos, dedicado a cuidar da minha saúde, melhorar minha alimentação e praticar exercícios físicos? Trabalharei tanto mais horas quanto pacientes houver, para aproveitar o momento. Afinal, posso viver depois e é bom continuar fazendo um bom pé-de-meia?

São perguntas que costumeiramente não fazemos, já que não elegemos uma meta em relação a quanto merecemos ou queremos ganhar (ou, mais comumente, subvertemos nossa decisão no andar da carruagem). É certo ver que teremos vidas completamente diferentes se escolhermos uma ou outra opção.
Como é praxe na Medic(t)ando, deixo você, prezado colega, refletindo acerca das implicações que boas perguntas feitas em momentos importantes podem ter em nossas vidas. Afinal, nosso objetivo é ajudá-lo a fazer as perguntas, mas a melhor resposta quem poderá dar é você mesmo.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas

Mar 24

Somos realmente donos das nossas vidas?

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 08 de setembro de 2009 na Revista DOC

Em meados do século passado, o psicólogo americano Abraham Maslow propôs o que viríamos a conhecer como “Hierarquia das necessidades de Maslow”, uma pirâmide composta de degraus os quais deveríamos escalar para atingir nossa autorrealização, desenvolver nossos potenciais e nos tornar tudo que fôssemos capazes de ser.

Começando por atender a nossas necessidades fisiológicas (como respiração, comida, água e sono), passando pela necessidade de sentir-se seguro em casa, com um emprego estável, poderíamos então atingir o terceiro degrau da escada, em que poderíamos nos dedicar às necessidades sociais ou de amor e afeto, bem como pertencer a determinados grupos ou clubes.

No degrau seguinte, exercitaríamos nossa autoestima, buscaríamos o respeito dos outros frente às funções que desempenhamos e cultivaríamos o respeito aos outros para só então, finalmente, chegar ao ápice da pirâmide da realização pessoal em que conviveriam harmonicamente a moralidade, a criatividade, a espontaneidade, a ausência dos preconceitos e a aceitação dos fatos.

Várias críticas podem ser feitas ao modelo de Maslow e a mais dura delas ataca seu âmago: no momento em que reconhecemos, por exemplo, pessoas sem estabilidade financeira que exibem na prática diária qualidades morais exemplares e apresentam-se mais realizadas do que qualquer magnata do petróleo. Da mesma forma, na sociedade de consumo na qual estamos inseridos, a influência da mídia e da propaganda sobre o que “devemos ter” e “como devemos nos portar” acaba gerando mudanças na hierarquia, trazendo a necessidade de status para um primeiro plano, antes mesmo que algumas necessidades mais básicas sejam atingidas.

Anedoticamente, vou ilustrar com o exemplo daquele médico residente que, em dada época, com salário equivalente a R$1.200, adquiriu um automóvel no valor de R$45 mil, sem antes ter garantido sua segurança financeira, tampouco possuir moradia própria. O que justifica este ato senão o desejo de demonstrar uma espécie de “capacidade” ilusória ao mundo que lhe observa?

Como curiosidade, a psicanálise de nosso eminentíssimo colega Sigmund Freud nos lembra que temos a tendência de repetir os erros de nossos pais e, ainda, repetir nossos próprios erros ao longo do tempo. Quantos de nós continuam sub-repticiamente manipulados pelo desejo de status e consumo desconectados de qualquer sinal de alerta e, mesmo quando nos perguntam: “por que você continua trabalhando até às 22 horas na sexta-feira?”, respondemos: “porque tenho que pagar a faculdade dos filhos”?

Longe de propor qualquer tipo de julgamento, esta coluna apenas pede um pequeno espaço no seu pensamento e um olhar mais demorado sobre sua própria vida e sobre as escolhas que você tem feito. Em vez de apresentar respostas definitivas, elaboraremos perguntas que busquem gerar reflexão, para que o leitor rumine, medite e chegue as suas próprias conclusões.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas.