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Saúde para quem precisa!
maio 05

Saúde para quem precisa

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

“Polícia para quem precisa
Polícia para quem precisa
de Polícia…”
Titãs

    Para começar, bom dia caro leitor.

Comunico que acabo de colocar fora o artigo que tinha escrito para esta edição, em função dos últimos acontecimentos nesta Terra brasilis.

    Enquanto escrevo estas linhas, os noticiários estão literalmente pegando fogo: jamais na história deste país, por tantos dias seguidos e em tantas cidades, ocorreram aglomerações de tantos cidadãos protestando por tantas causas justas e necessárias. Uma heterogeneidade de métodos, desde passeatas e protestos pacíficos até depredação de patrimônio público e privado, entretanto, tornam difícil uma análise fácil das mobilizações como um todo.

    Neste mesmo momento, uma série de decisões importantes relacionadas à saúde da Nação e da população são tomadas: desde a votação da PEC 37, que visa eliminar a capacidade do Ministério Público Federal de investigar crimes e lutar contra a impunidade em nosso país, passando pela aprovação na Comissão de Direitos Humanos da Câmara do que foi chamado de “Cura Gay”, ou seja, a possibilidade de psicólogos proporem tratamento para a homossexualidade, indo contra ao próprio Conselho Federal de Psicologia que proíbe que a homossexualidade seja vista como doença e, mais recentemente, a aprovação do Ato Médico no Senado, que reserva exclusivamente aos profissionais médicos a prerrogativa de diagnosticar, prescrever medicamentos, realizar cirurgias, internações e altas hospitalares.

    Um pouco antes, a notícia da vinda de médicos cubanos para responder à uma demanda de cidades isoladas do país, nas quais existe uma demanda significativa por profissionais médicos que não é atendida pelos médicos formados em nosso país, gerou polêmica e é criticada por uns e aplaudida por outros.

    Meditando sobre a complexidade inerente a cada situação, em seus múltiplos pontos de vista possíveis, observando beneficiados e prejudicados, lados fortes e fracos da equação, os interesses claros e obscuros por trás de cada medida, escolhi as posições que devo ocupar. Como ser político que sou, minha saúde e qualidade de vida – entendida pela imbricada teia de variáveis que constituem o que é ser saudável para bem além do corpo, incluindo as variáveis ambientais e sociais – dependem também das decisões que são tomadas em relação a quem vai monitorar a criminalidade organizada e a corrupção ativa em meu país, em perceber se os cidadãos com os quais convivo estão ficando mais ou menos tolerantes com a diversidade, em me dar conta de quais são, de fato, as pessoas que podem cuidar de minha saúde física e mental, bem como de meus amigos, familiares e pessoas que prezo e, também, em como está garantida, por lei, pelo mercado ou pela facilidade de acesso, o meu contato a profissionais qualificados para promover e restituir minha saúde.

    Para cada variável, podem existir prós e contras, mas nem sempre podemos ser duais.

Não podemos ao mesmo tempo permitir e não permitir algo. Temos que nos posicionar. Eu tomei minha posição. Você tomou a sua?

(publicado originalmente em 2013 na Revista DOC)

abr 28

Os Centros de Educação em Saúde (CES): uma proposta para melhorar a saúde da população brasileira

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

Há aqueles que vivem em meio à abundância, promovendo a escassez. E há outros que, em meio à escassez, promovem a abundância.

(texto publicado originalmente na edição de número 9 da Revista Doc)
Há muito, existem no Brasil condições materiais e humanas para levar à população educação suficiente para que esta possa, cada vez mais, tomar as rédeas de seus próprios cuidados básicos e intermediários em saúde, desafogando o sistema público e até mesmo privado de atenção à saúde.
O atual sistema, centrado no médico e em outros terapeutas exclusivamente enquanto ferramentas de diagnóstico e tratamento, basicamente reforça um conceito ultrapassado que promove a escassez do acesso à saúde, ao invés de promovê-lo.
Frente a esta percepção, se propõe aqui uma alternativa que possa aumentar substancialmente o atendimento de todas as camadas da população no que diz respeito à maior riqueza que se pode ter em relação aos cuidados com a saúde: o conhecimento.
Possuímos, todos, uma capacidade de autocura impressionante e, tanto nas doenças agudas como crônicas, a importância de reconhecer sintomas como autolimitados ou ameaçadores à vida pode fazer a diferença entre a cura e o controle da doença em tempo hábil ou a morte de um indivíduo.
Propõe-se aqui a criação, em todo país, de Centros de Educação em Saúde. Nestes espaços – que poderão ser criados em locais tão formais quanto uma Escola ou uma Unidade de Saúde, ou tão informais quanto embaixo de uma mangueira* – se oferecerá à população informações detalhadas acerca das patologias que a aflige.
Assim, se eu sou portador de Diabete Melito, me inscrevo no Curso de Diabete Melito, com duração de, digamos, 30 horas, que acontece a cada 2 ou 3 meses na Unidade de Saúde da Zona Norte, por exemplo. Se, ao contrário, eu tenho Diabete Insípido (uma enfermidade mais rara), e não houver nenhum curso sobre a mesma em minha cidade, poderei acessar a RIES (Rede Integrada de Educação em Saúde), um banco de dados composto pelos Cursos dados em todo o território nacional e poderei buscar a cidade e estado em que um curso sobre Diabete Insípido (ou outra doença de meu interesse) estará sendo ministrado nos próximos meses.
Na RIES, além da divulgação dos cursos presenciais, ficarão armazenados tanto os materiais didáticos de todos os CES, que serão disponibilizados como Recursos Educacionais Abertos (folders, cartilhas, folhetos explicativos, algoritmos, áudios e vídeos), sempre em linguagem acessível e de fácil compreensão.
Além de cursos focados em “patologias”, teríamos também cursos fixos, repetindo-se sazonalmente, com foco na manutenção da saúde: nutrição, atividade física de acordo com idade e condição de saúde, tratamento e prevenção da obesidade, controle de estresse, grupos de estudo em saúde (autogeridos) e assim por diante.
O aluno-paciente ou seu familiar sai do Centro de Educação em Saúde com conhecimento, jamais com uma receita médica…
É lamentável verificar esta tendência – e parece ser vedado falar sobre isso – mas nos dias de hoje, em linhas gerais, a indústria da medicina trata de guardar a sete chaves o conhecimento médico, mantendo tempos de consulta e contato com o paciente tão pequenos quanto sejam necessários apenas para detectar um ou outro sinal ou sintoma de alerta e ajustar as medicações de acordo. Muito pouco tempo é – relativamente – dedicado a esta poderosa ferramenta de saúde pública que é a Educação. Me perdoem os colegas que fazem parte da exceção à regra.
Ainda há tempo para mudar. E ainda há tempo para que sejamos, nós, os protagonistas dessa mudança. Em uma sociedade que a cada ano que passa se torna mais e mais aberta, transparente e consciente de seus desejos e necessidade, acabou-se o tempo para mordaças e processos educativos que mantenham as pessoas na ignorância. Chegou a hora de trazer a luz e a informação libertadoras, de forma ampla e irrestrita.
Chegou a hora de médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, dentistas e outros terapeutas juntarem suas forças em prol da saúde da população. E quem sabe, daqui a uma década, não possamos dizer que, juntos, mudamos de forma inovadora o rumo de uma nação, nos tornando exemplo em educação em saúde para o mundo inteiro.
E assim sigo, utopicamente medic(t)ando, imaginando que um outro mundo, melhor, é possível.

*em alusão a Tião Rocha, do CPCD (http://www.cpcd.org.br/)
Acompanhe o desenvolvimento do projeto dos Centros de Educação em Saúde em http://ces.reinehr.org

A felicidade e o motivo para ser feliz.
abr 21

Viktor Frankl e O Sentido da Vida

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

Não é verdade que o homem, propriamente
e originalmente, aspira a ser feliz? Não foi o
próprio Kant quem reconheceu tal fato, apenas
acrescentando que o homem deve desejar ser
digno da felicidade? Diria eu que o homem
realmente quer, em derradeira instância, não
é a felicidade em si mesma, mas, antes, um
motivo para ser feliz

(Viktor Frankl)

Viktor Frankl

foi um psiquiatra austríaco que, durante a Segunda Guerra Mundial, passou por quatro campos de concentração, inclusive Auschwitz, sobreviveu e compartilhou suas experiências conosco, em um fabuloso livro chamado Man’s Search for Meaning (Em Busca de Sentido, no Brasil).

sentido-da-vida

Neste livro Frankl afirma que  é uma orientação em direção ao futuro – em direção a uma tarefa, uma tarefa pessoal, que esteja nos aguardando para ser realizada no futuro; ou alguma outra pessoa que estejamos amando, a ser encontrada novamente, a se reunir conosco novamente no futuro – isto foi o que decisivamente manteve as pessoas vivas na experiência do campo.  A questão não foi apenas de sobrevivência, mas tinha que haver uma razão para a sobrevivência. A questão era sobreviver para quê; a não ser que houvesse alguma coisa ou alguém, uma causa pessoal pela qual viver, a sobrevivência era altamente improvável.

Aplicando este conceito para nossa vida rotineira, Frankl lembra que nossa sociedade de “bem-estar social” se propõe a satisfazer e gratificar cada uma das necessidades humanas, exceto uma delas – talvez a mais fundamental que exista no ser humano: a necessidade de um significado. As sociedades de consumo, estão até mesmo criando necessidades, mas a necessidade de significado – ou, como ele costuma dizer – o desejo de encontrar um significado – permanece inatingido.

E não é isso mesmo que percebemos ao nosso redor? Pessoas cada vez mais ansiosas, cada vez mais deprimidas, cada vez mais apressadas e, ao mesmo tempo, desprovidas de um norte essencial, ou, como diz Humberto Maturana, de um “sul” fundamental. Falta um sentido para organizar todas estas atividades. Ao final do dia, cansados, muitas vezes silenciamos as perguntas que nos martelam mesmo sem sentir: “Para quê”? “Para quem”?

Se conseguimos encontrar um sentido, um algo a ser realizado para si ou para alguém e se estamos cientes disso, então ficamos fortes e aptos a sofrer, a trabalhar, a nos sacrificar e prontos a enfrentar o estresse, a tensão e as dificuldades cotidianas, sem que, fazendo isso, estejamos pondo em risco nossa saúde. Por outro lado, se não conseguirmos perceber um significado para nossos esforços, todo e qualquer dispêndio de energia pode representar um peso insuportável, gerando infelicidade e, até, enfermidades.

Em uma entrevista, Frankl relembra: “Hans Selye, o homem que criou o conceito de stress, recentemente publicou um estudo em que ele diz que o stress é o sal da vida, que o homem necessita de tensões – eu diria de forma mais cautelosa que o que ele necessita é de uma quantidade saudável de tensão. Não tensões muito grandes, nem tensões muito pequenas, mas uma dose, uma dose saudável de tensão, tal como a tensão que se estabelece em um campo polar em que um pólo é representado por um homem e o outro pólo por um significado único e específico que esteja aguardando por ele para ser realizado, e exclusivamente por ele.”

Não é possível discutir Qualidade de Vida sem antes nos aventurarmos pela investigação do Sentido da Vida. Com a queda dos valores tradicionais e universais que nos diziam o que fazer – a Igreja passa a exercer um constrangimento cada vez menor, por exemplo – muitos deixaram de saber o que tem que ser feito ou o que deveria ser feito e, algumas vezes, até o que desejariam fazer. Como consequência,  acaba-se por fazer o que outras pessoas estão fazendo (conformismo) ou então fazendo apenas aquilo que outras pessoas querem que se faça (totalitarismo). É preciso identificar, em nós mesmos e em nossos pacientes, se nos encaixamos nesta ou naquela vertente e, mais importante, precisamos “sulear”, encontrar um sentido para nossa existência.

A partir daí, todos nossos diálogos, com o outro, com a sociedade e com a Natureza, deixam de ser vazios e repetitivos e passam a ser cheios de significado, significado esse produzido pela nossa singularidade, resultado do exercício genuíno da nossa característica mais valiosa:

nossa humanidade.

Nosso futuro
abr 21

Todas as nossas ações refletem no mundo em que vivemos

By Rafael Reinehr | Medictando

Nossos pés deixam pegadas na areia do tempo. Se estivermos no caminho

errado, muitos nos seguirão, desviando-se do que é correto. Quando

pensamos que uma ação é só por aquele momento e esquecemos que ela

deixa um rastro atrás de si, não estamos sendo responsáveis.

Todas as nossas ações afetam os seres humanos, dando-lhes alívio ou

tristeza. Podemos fortalecê-los ou não. Podemos causar ferimentos ou curas.

Podemos gerar conflitos ou resolvê-los. Podemos criar cataclismas ou algo

nobre para a sociedade.” – B.K.Jagdish

 

Hoje, vamos viajar um pouco: vamos falar de futuros desejados…

 

Para criar uma “Nova Economia”, vamos precisar de uma boa dose de

utopia: precisamos promover o Despertar. Quando falo em “Despertar“, me

refiro não a um acordar biológico tão somente, e também não uso o termo

como um fenômeno puramente místico mas, mais ainda, a um fenômeno

que abraça em si as necessárias mudanças biológicas, espirituais e sociais

necessárias a uma Reforma do Pensamento.

Esta Reforma do Pensamento, que começa com uma Reforma da Percepção

e passa por uma Reforma do Julgamento, é o sentido último que

precisamos buscar. Tenho forte convicção de que as mudanças que urgem

passam por este processo que, em última instância, deverá modificar a

forma com que percebemos, julgamos, pensamos e, finalmente, agimos.

Entretanto, e agora me dobro a evidências empíricas, nem sempre é através

da palavra – leitura, discurso, palestra, aula, seminários e cursos – que se

consegue promover o “Despertar“. Muitas vezes, precisamos da prática, da

ação, do exemplo como ferramenta para que a mudança ocorra.

Hoje, infelizmente, ainda precisamos ser violentados, maltratados,

desrespeitados, perder o emprego, ter nossa honra machucada ou

precisamos ser retirados de nossa “zona de conforto” para perceber que

alguma coisa está muito errada no mundo aí fora. Os sinais da degeneração

da qualidade de vida estão cada vez mais salientes e, apesar do crescimento

do consumo de bens materiais, pouquíssimas vezes conseguimos escutar a

palavra felicidade. E esta, por incrível que possa parecer a este ser humano

individualista, capitalista e competidor que é a regra hoje em dia, é mais

ouvida em ambientes onde a confraternização, a socialização e a

cooperação estão presentes. Paradoxal? Nem tanto, quando lemos alguns

estudos científicos ¹ a respeito.

Pois é deste fluxo de que todos devemos tratar: o fluxo contínuo de linguagear,

emocionar e conversar – para utilizar os neologismos criados por Humberto

Maturana – em direção a um porvir mais voltado para o social do que para o

individual, que tenda à cooperação entre as pessoas e o ambiente. Por

incrível que pareça, você não precisará abrir mão de seu conforto para isso.

Se estivermos abertos e dispostos, aprenderemos juntos como seguir este caminho. O primeiro passo está dado. Agora me dê sua mão e vamos caminhar juntos.

 

– Utopia […] ella está en el horizonte. Me acerco dos pasos, ella se aleja dos

pasos. Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. Por

mucho que yo camine, nunca la alcanzaré. Para que sirve la utopia? Para eso

sirve: para caminar.” – Francesco Berri

 

Referências:

1. O Dinheiro como empecilho ao senso de comunidade – Alternativas para

um mundo sem dinheiro: http://reinehr.org/sociedade/saude-dasociedade/

o-dinheiro-como-empecilho-ao-senso-de-comunidadealternativas-

para-um-mundo-sem-dinheiro

utopia
abr 14

Transladando teoria em prática

By Rafael Reinehr | Medictando

De que serve ler palavras?

As lerei com meu corpo.

Como pode um enfermo beneficiar-se

lendo um livro de medicina?

Shantideva

 

Na edição passada, fiz um convite aos leitores:

que me ajudassem a esclarecer como se faz para transformar teoria em prática. Hoje começaremos a investigar esta questão.

Um aspecto interessante da vida médica diz respeito ao caminho necessário a trilhar entre o conhecimento e a aplicação prática daquilo que foi aprendido.

Sabemos, tanto por experiência quanto pela análise de estudos científicos, que quanto mais complexas as medidas que precisamos implementar em nossas vidas, menor é a aderência a tais

Por exemplo, é muito mais fácil conseguir aderência de uma paciente a um tratamento medicamentoso por curta duração do que por longo prazo. A aderência ao tratamento de uma pneumonia é muito mais provável do que a de osteoporose, diabetes ou obesidade. Dentro de tratamentos de curto prazo, aquelas medicações com uma só tomada ao dia tem chances muito maiores de adesão por parte do paciente do que aquelas que necessitam, por exemplo, três ingestas diárias. E, inalmente, tratamentos em que o uso de medicações são as responsáveis principais pela melhora dos pacientes acabam resultando em melhores resultados em geral do que aqueles em que a mudança de hábito de vida – incluindo, por exemplo, mudanças nos hábitos alimentares e realização de atividades físicas – são necessários.

Não se beneficia um paciente ofertando-lhe um livro de medicina – uma série de orientações práticas, detalhadas, factíveis e, de preferência, com pequenos passos por vez se faz necessária; em nossa vida profissional e pessoal também precisamos de certo planejamento e organização para transladarmos o conhecimento que adquirimos em ações práticas para benefício próprio e daqueles.

E quais seriam estas orientações que nos ajudariam a transformar teoria em prática? Chamo o fluxograma a seguir de “Vamos acampar?”, pois ele nos incita a fazer uma lista do que precisamos levar, por exemplo, quando vamos fazer um acampamento:

– Definir objetivos claros: o que queremos? para onde vamos? como vamos? com quem vamos? do que precisamos? como vamos conseguir o que precisamos?

– Antecipar possibilidades – e se não der certo, quais são as alternativas?

– Transformar crenças pessoais em problemas, para motivar mudanças

– Quebrar o complexo em partes menores

– Compreender o que se quer transformar e, finalmente

– Acompanhar o andamento do processo, corrigindo imediatamente o rumo quando necessário

Indo para a prática, então: há pouco mais de dois anos decidimos, minha esposa e eu, deixar de lado a vida de “sucesso” profissional que nos consumia por 12 horas dentro de um consultório cheio e mudamos de cidade e de vida, em busca daquilo que realmente fazia sentido para nós, em contraponto ao que a sociedade (e nossa família) espera de uma pessoa bem sucedida.

Este caminho, o que começa em saber exatamente o que se quer e não termina nunca, pois estamos sempre acompanhando e reavaliando o processo de caminhar, é o que estamos trilhando nesse momento. Só se aprende a viver vivendo. Como disse Thomas Fuller, “o conhecimento dirige a prática, mas a prática aumenta o conhecimento”.

Algo precisando ser mudado na sua vida? Leia a mudança não com o pensamento mas com sua própria vida.

Depois me conte. Mãos à obra!

Para ser feliz, desista!
abr 07

Para ser feliz, simplesmente desista

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2010 na Revista DOC

Muitas vezes, a forma mais fácil de solucionar um determinado problema é não participar dele. É desistir. Desistir muitas vezes significa respeitar seus desejos mais íntimos. Significa recusar pressões sociais e tornar-se quem você realmente é. Da próxima vez que surgir um problema, desista:

–    Desista de ser legal;
–    Desista de ser alguém famoso;
–    Desista de querer ser diferente apenas para ser único;
–    Desista de tentar ser perfeito;
–    Desista de manter relações com pessoas das quais você realmente não gosta;
–    Desista de ser o centro das atenções;
–    Desista de tentar ser importante (focar na comunidade é usualmente mais engrandecedor);
–    Desista de buscar uma série de objetivos voltados ao ego;
–    Desista de se preocupar em possuir uma montanha de coisas legais, que distraem você do fato de que você não gosta do que você está fazendo com a sua vida;
–    Desista de tentar ser muito feliz todo o tempo: em vez disso, busque ser mais tranquilo;
–    Desista de ser tudo para todo mundo;
–    Desista de sacrificar sua vida atrás de um grau que lhe dê a ilusão de que você é superimportante;
–    Desista de ser ultraprodutivo, especialmente se a produtividade lhe deixa esgotado;
–    Desista de aperfeiçoar-se constantemente: muitas vezes, aperfeiçoamento exagerado nos faz perder a vista do aqui e do agora;
–    Desista de pensar que você não tem tempo ou habilidade para tornar seus sonhos realidade;
–    Desista de tentar viver conforme a expectativa de seus pais, seus amigos, seu chefe ou seus colegas;
–    Desista de ter um corpo perfeito, um rosto perfeito, ou um guarda-roupas perfeito: preocupe-se mais em embelezar sua mente e ser uma pessoa que faz belas ações.

Tentar fazer as coisas acontecerem a todo tempo cria uma ansiedade desnecessária. É estressante tentar negar aquilo que é. Quando eu desisto, aceito a vida como ela é, sem desejar que as coisas sejam diferentes. Se uma ação é necessária, eu aceito. Eu faço. Mas podemos desistir de deixar nossa felicidade depender de uma coisa ou de alguém. É interessante perceber como parecemos ter tantos problemas e tantos dilemas. A maior parte das vezes, no entanto, a resposta para resolvê-los é não fazer nada. Simplesmente desistir.

Bom… Jogar (e ler) um monte de frases soltas em tom de aconselhamento realmente é algo fácil de fazer. Transformar teoria em prática são outros quinhentos. Nossas crenças ou nossa hierarquia de prioridades pode até estar parcialmente afinada com algumas mudanças que esperamos para nossas vidas, mas daí, para tornarmos realidade aquilo em que acreditamos, seguir uma série de passos se torna necessário.

Gostaria de deixar uma pergunta e um convite ao leitor da DOC: como você faz para transformar ideia em ação? Como transladar teoria em prática? Se você tem uma boa resposta a estas perguntas, envie-a para o e-mail <medictando@revistadoc.com.br> e na próxima coluna faremos uma síntese do pensamento dos leitores, enriquecendo nosso diálogo. Até lá.

*Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas

Perguntas. Pergunte-se!
mar 31

Por que as perguntas certas são mais importantes que as respostas?

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 16 de outubro de 2009 na Revista DOC

Na Medicina, bem como em praticamente todas as áreas científicas e humanas, somos treinados para encontrar e oferecer respostas. Quando um paciente nos procura, ele quer saber o que tem e como fazer para resolver uma questão de saúde que lhe aflige.

Para que possamos de fato ajudá-lo, o primeiro passo é – através da integração entre o conhecimento que acumulamos e o reconhecimento de padrões que temos acumulado através da nossa experiência – fazer as perguntas que nos levarão ao diagnóstico correto da enfermidade ou da necessidade de quem nos solicita ajuda. Nunca damos (ou não deveríamos) oferecer um tratamento sem nos perguntar duas coisas:

A primeira é: o que está acontecendo de fato com este paciente? A segunda é: o grau de certeza que tenho é suficiente para tratá-lo, devo seguir investigando ou devo solicitar ajuda a alguém mais? São perguntas importantes que, mesmo de modo inconsciente sempre nos fazemos durante o processo diagnóstico de uma doença.

Entretanto, me pergunto: por que muitas vezes não fazemos perguntas tão ou mais importantes no decorrer de nossas vidas? Por que encontramos colegas tão absortos em seu dia a dia sem uma meta específica a ser alcançada? Ou, poeticamente, por que navegamos sem norte, sem porto ou terra à vista para atracar?

A edição anterior da Revista DOC foi prolífica em uma série de perguntas importantes que precisamos, cedo ou tarde, fazer: Márcio Iavelberg, em sua coluna DOC.Finanças perguntou: quantos pacientes preciso atender em um mês para terminá-lo no azul? E qual será minha remuneração ao final do mês?. Ainda, na mesma edição, uma belíssima reportagem de Fernanda Fernandes nos faz questionar: e agora, José? Devo seguir atendendo convênios ou me aventuro em um consultório somente particular?

A essas perguntas, claramente associadas ao critério financeiro da nossa labuta diária, acrescento mais uma – na verdade, uma pergunta bastante composta: quanto mereço ou quero ganhar e o que vou fazer quando atingir esta meta? Ou seja: o que irei fazer ao atingir a meta por mim estabelecida? Dedicar-me a atividades de lazer, contemplação, descanso? Produzir capital social ou envolver-me em trabalhos altruístas, para dividir um pouco da boa venturança que me coube na vida com quem não teve a mesma sorte? Passar um bom tempo com minha família e amigos, dedicado a cuidar da minha saúde, melhorar minha alimentação e praticar exercícios físicos? Trabalharei tanto mais horas quanto pacientes houver, para aproveitar o momento. Afinal, posso viver depois e é bom continuar fazendo um bom pé-de-meia?

São perguntas que costumeiramente não fazemos, já que não elegemos uma meta em relação a quanto merecemos ou queremos ganhar (ou, mais comumente, subvertemos nossa decisão no andar da carruagem). É certo ver que teremos vidas completamente diferentes se escolhermos uma ou outra opção.
Como é praxe na Medic(t)ando, deixo você, prezado colega, refletindo acerca das implicações que boas perguntas feitas em momentos importantes podem ter em nossas vidas. Afinal, nosso objetivo é ajudá-lo a fazer as perguntas, mas a melhor resposta quem poderá dar é você mesmo.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas

Pirâmide. A construção.
mar 24

Somos realmente donos das nossas vidas?

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 08 de setembro de 2009 na Revista DOC

Em meados do século passado, o psicólogo americano Abraham Maslow propôs o que viríamos a conhecer como “Hierarquia das necessidades de Maslow”, uma pirâmide composta de degraus os quais deveríamos escalar para atingir nossa autorrealização, desenvolver nossos potenciais e nos tornar tudo que fôssemos capazes de ser.

Começando por atender a nossas necessidades fisiológicas (como respiração, comida, água e sono), passando pela necessidade de sentir-se seguro em casa, com um emprego estável, poderíamos então atingir o terceiro degrau da escada, em que poderíamos nos dedicar às necessidades sociais ou de amor e afeto, bem como pertencer a determinados grupos ou clubes.

No degrau seguinte, exercitaríamos nossa autoestima, buscaríamos o respeito dos outros frente às funções que desempenhamos e cultivaríamos o respeito aos outros para só então, finalmente, chegar ao ápice da pirâmide da realização pessoal em que conviveriam harmonicamente a moralidade, a criatividade, a espontaneidade, a ausência dos preconceitos e a aceitação dos fatos.

Várias críticas podem ser feitas ao modelo de Maslow e a mais dura delas ataca seu âmago: no momento em que reconhecemos, por exemplo, pessoas sem estabilidade financeira que exibem na prática diária qualidades morais exemplares e apresentam-se mais realizadas do que qualquer magnata do petróleo. Da mesma forma, na sociedade de consumo na qual estamos inseridos, a influência da mídia e da propaganda sobre o que “devemos ter” e “como devemos nos portar” acaba gerando mudanças na hierarquia, trazendo a necessidade de status para um primeiro plano, antes mesmo que algumas necessidades mais básicas sejam atingidas.

Anedoticamente, vou ilustrar com o exemplo daquele médico residente que, em dada época, com salário equivalente a R$1.200, adquiriu um automóvel no valor de R$45 mil, sem antes ter garantido sua segurança financeira, tampouco possuir moradia própria. O que justifica este ato senão o desejo de demonstrar uma espécie de “capacidade” ilusória ao mundo que lhe observa?

Como curiosidade, a psicanálise de nosso eminentíssimo colega Sigmund Freud nos lembra que temos a tendência de repetir os erros de nossos pais e, ainda, repetir nossos próprios erros ao longo do tempo. Quantos de nós continuam sub-repticiamente manipulados pelo desejo de status e consumo desconectados de qualquer sinal de alerta e, mesmo quando nos perguntam: “por que você continua trabalhando até às 22 horas na sexta-feira?”, respondemos: “porque tenho que pagar a faculdade dos filhos”?

Longe de propor qualquer tipo de julgamento, esta coluna apenas pede um pequeno espaço no seu pensamento e um olhar mais demorado sobre sua própria vida e sobre as escolhas que você tem feito. Em vez de apresentar respostas definitivas, elaboraremos perguntas que busquem gerar reflexão, para que o leitor rumine, medite e chegue as suas próprias conclusões.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas.