Category Archives for "Medicina e Saúde"

A felicidade e o motivo para ser feliz.
abr 21

Viktor Frankl e O Sentido da Vida

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

Não é verdade que o homem, propriamente
e originalmente, aspira a ser feliz? Não foi o
próprio Kant quem reconheceu tal fato, apenas
acrescentando que o homem deve desejar ser
digno da felicidade? Diria eu que o homem
realmente quer, em derradeira instância, não
é a felicidade em si mesma, mas, antes, um
motivo para ser feliz

(Viktor Frankl)

Viktor Frankl

foi um psiquiatra austríaco que, durante a Segunda Guerra Mundial, passou por quatro campos de concentração, inclusive Auschwitz, sobreviveu e compartilhou suas experiências conosco, em um fabuloso livro chamado Man’s Search for Meaning (Em Busca de Sentido, no Brasil).

sentido-da-vida

Neste livro Frankl afirma que  é uma orientação em direção ao futuro – em direção a uma tarefa, uma tarefa pessoal, que esteja nos aguardando para ser realizada no futuro; ou alguma outra pessoa que estejamos amando, a ser encontrada novamente, a se reunir conosco novamente no futuro – isto foi o que decisivamente manteve as pessoas vivas na experiência do campo.  A questão não foi apenas de sobrevivência, mas tinha que haver uma razão para a sobrevivência. A questão era sobreviver para quê; a não ser que houvesse alguma coisa ou alguém, uma causa pessoal pela qual viver, a sobrevivência era altamente improvável.

Aplicando este conceito para nossa vida rotineira, Frankl lembra que nossa sociedade de “bem-estar social” se propõe a satisfazer e gratificar cada uma das necessidades humanas, exceto uma delas – talvez a mais fundamental que exista no ser humano: a necessidade de um significado. As sociedades de consumo, estão até mesmo criando necessidades, mas a necessidade de significado – ou, como ele costuma dizer – o desejo de encontrar um significado – permanece inatingido.

E não é isso mesmo que percebemos ao nosso redor? Pessoas cada vez mais ansiosas, cada vez mais deprimidas, cada vez mais apressadas e, ao mesmo tempo, desprovidas de um norte essencial, ou, como diz Humberto Maturana, de um “sul” fundamental. Falta um sentido para organizar todas estas atividades. Ao final do dia, cansados, muitas vezes silenciamos as perguntas que nos martelam mesmo sem sentir: “Para quê”? “Para quem”?

Se conseguimos encontrar um sentido, um algo a ser realizado para si ou para alguém e se estamos cientes disso, então ficamos fortes e aptos a sofrer, a trabalhar, a nos sacrificar e prontos a enfrentar o estresse, a tensão e as dificuldades cotidianas, sem que, fazendo isso, estejamos pondo em risco nossa saúde. Por outro lado, se não conseguirmos perceber um significado para nossos esforços, todo e qualquer dispêndio de energia pode representar um peso insuportável, gerando infelicidade e, até, enfermidades.

Em uma entrevista, Frankl relembra: “Hans Selye, o homem que criou o conceito de stress, recentemente publicou um estudo em que ele diz que o stress é o sal da vida, que o homem necessita de tensões – eu diria de forma mais cautelosa que o que ele necessita é de uma quantidade saudável de tensão. Não tensões muito grandes, nem tensões muito pequenas, mas uma dose, uma dose saudável de tensão, tal como a tensão que se estabelece em um campo polar em que um pólo é representado por um homem e o outro pólo por um significado único e específico que esteja aguardando por ele para ser realizado, e exclusivamente por ele.”

Não é possível discutir Qualidade de Vida sem antes nos aventurarmos pela investigação do Sentido da Vida. Com a queda dos valores tradicionais e universais que nos diziam o que fazer – a Igreja passa a exercer um constrangimento cada vez menor, por exemplo – muitos deixaram de saber o que tem que ser feito ou o que deveria ser feito e, algumas vezes, até o que desejariam fazer. Como consequência,  acaba-se por fazer o que outras pessoas estão fazendo (conformismo) ou então fazendo apenas aquilo que outras pessoas querem que se faça (totalitarismo). É preciso identificar, em nós mesmos e em nossos pacientes, se nos encaixamos nesta ou naquela vertente e, mais importante, precisamos “sulear”, encontrar um sentido para nossa existência.

A partir daí, todos nossos diálogos, com o outro, com a sociedade e com a Natureza, deixam de ser vazios e repetitivos e passam a ser cheios de significado, significado esse produzido pela nossa singularidade, resultado do exercício genuíno da nossa característica mais valiosa:

nossa humanidade.

Nosso futuro
abr 21

Todas as nossas ações refletem no mundo em que vivemos

By Rafael Reinehr | Medictando

Nossos pés deixam pegadas na areia do tempo. Se estivermos no caminho

errado, muitos nos seguirão, desviando-se do que é correto. Quando

pensamos que uma ação é só por aquele momento e esquecemos que ela

deixa um rastro atrás de si, não estamos sendo responsáveis.

Todas as nossas ações afetam os seres humanos, dando-lhes alívio ou

tristeza. Podemos fortalecê-los ou não. Podemos causar ferimentos ou curas.

Podemos gerar conflitos ou resolvê-los. Podemos criar cataclismas ou algo

nobre para a sociedade.” – B.K.Jagdish

 

Hoje, vamos viajar um pouco: vamos falar de futuros desejados…

 

Para criar uma “Nova Economia”, vamos precisar de uma boa dose de

utopia: precisamos promover o Despertar. Quando falo em “Despertar“, me

refiro não a um acordar biológico tão somente, e também não uso o termo

como um fenômeno puramente místico mas, mais ainda, a um fenômeno

que abraça em si as necessárias mudanças biológicas, espirituais e sociais

necessárias a uma Reforma do Pensamento.

Esta Reforma do Pensamento, que começa com uma Reforma da Percepção

e passa por uma Reforma do Julgamento, é o sentido último que

precisamos buscar. Tenho forte convicção de que as mudanças que urgem

passam por este processo que, em última instância, deverá modificar a

forma com que percebemos, julgamos, pensamos e, finalmente, agimos.

Entretanto, e agora me dobro a evidências empíricas, nem sempre é através

da palavra – leitura, discurso, palestra, aula, seminários e cursos – que se

consegue promover o “Despertar“. Muitas vezes, precisamos da prática, da

ação, do exemplo como ferramenta para que a mudança ocorra.

Hoje, infelizmente, ainda precisamos ser violentados, maltratados,

desrespeitados, perder o emprego, ter nossa honra machucada ou

precisamos ser retirados de nossa “zona de conforto” para perceber que

alguma coisa está muito errada no mundo aí fora. Os sinais da degeneração

da qualidade de vida estão cada vez mais salientes e, apesar do crescimento

do consumo de bens materiais, pouquíssimas vezes conseguimos escutar a

palavra felicidade. E esta, por incrível que possa parecer a este ser humano

individualista, capitalista e competidor que é a regra hoje em dia, é mais

ouvida em ambientes onde a confraternização, a socialização e a

cooperação estão presentes. Paradoxal? Nem tanto, quando lemos alguns

estudos científicos ¹ a respeito.

Pois é deste fluxo de que todos devemos tratar: o fluxo contínuo de linguagear,

emocionar e conversar – para utilizar os neologismos criados por Humberto

Maturana – em direção a um porvir mais voltado para o social do que para o

individual, que tenda à cooperação entre as pessoas e o ambiente. Por

incrível que pareça, você não precisará abrir mão de seu conforto para isso.

Se estivermos abertos e dispostos, aprenderemos juntos como seguir este caminho. O primeiro passo está dado. Agora me dê sua mão e vamos caminhar juntos.

 

– Utopia […] ella está en el horizonte. Me acerco dos pasos, ella se aleja dos

pasos. Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. Por

mucho que yo camine, nunca la alcanzaré. Para que sirve la utopia? Para eso

sirve: para caminar.” – Francesco Berri

 

Referências:

1. O Dinheiro como empecilho ao senso de comunidade – Alternativas para

um mundo sem dinheiro: http://reinehr.org/sociedade/saude-dasociedade/

o-dinheiro-como-empecilho-ao-senso-de-comunidadealternativas-

para-um-mundo-sem-dinheiro

utopia
abr 14

Transladando teoria em prática

By Rafael Reinehr | Medictando

De que serve ler palavras?

As lerei com meu corpo.

Como pode um enfermo beneficiar-se

lendo um livro de medicina?

Shantideva

 

Na edição passada, fiz um convite aos leitores:

que me ajudassem a esclarecer como se faz para transformar teoria em prática. Hoje começaremos a investigar esta questão.

Um aspecto interessante da vida médica diz respeito ao caminho necessário a trilhar entre o conhecimento e a aplicação prática daquilo que foi aprendido.

Sabemos, tanto por experiência quanto pela análise de estudos científicos, que quanto mais complexas as medidas que precisamos implementar em nossas vidas, menor é a aderência a tais

Por exemplo, é muito mais fácil conseguir aderência de uma paciente a um tratamento medicamentoso por curta duração do que por longo prazo. A aderência ao tratamento de uma pneumonia é muito mais provável do que a de osteoporose, diabetes ou obesidade. Dentro de tratamentos de curto prazo, aquelas medicações com uma só tomada ao dia tem chances muito maiores de adesão por parte do paciente do que aquelas que necessitam, por exemplo, três ingestas diárias. E, inalmente, tratamentos em que o uso de medicações são as responsáveis principais pela melhora dos pacientes acabam resultando em melhores resultados em geral do que aqueles em que a mudança de hábito de vida – incluindo, por exemplo, mudanças nos hábitos alimentares e realização de atividades físicas – são necessários.

Não se beneficia um paciente ofertando-lhe um livro de medicina – uma série de orientações práticas, detalhadas, factíveis e, de preferência, com pequenos passos por vez se faz necessária; em nossa vida profissional e pessoal também precisamos de certo planejamento e organização para transladarmos o conhecimento que adquirimos em ações práticas para benefício próprio e daqueles.

E quais seriam estas orientações que nos ajudariam a transformar teoria em prática? Chamo o fluxograma a seguir de “Vamos acampar?”, pois ele nos incita a fazer uma lista do que precisamos levar, por exemplo, quando vamos fazer um acampamento:

– Definir objetivos claros: o que queremos? para onde vamos? como vamos? com quem vamos? do que precisamos? como vamos conseguir o que precisamos?

– Antecipar possibilidades – e se não der certo, quais são as alternativas?

– Transformar crenças pessoais em problemas, para motivar mudanças

– Quebrar o complexo em partes menores

– Compreender o que se quer transformar e, finalmente

– Acompanhar o andamento do processo, corrigindo imediatamente o rumo quando necessário

Indo para a prática, então: há pouco mais de dois anos decidimos, minha esposa e eu, deixar de lado a vida de “sucesso” profissional que nos consumia por 12 horas dentro de um consultório cheio e mudamos de cidade e de vida, em busca daquilo que realmente fazia sentido para nós, em contraponto ao que a sociedade (e nossa família) espera de uma pessoa bem sucedida.

Este caminho, o que começa em saber exatamente o que se quer e não termina nunca, pois estamos sempre acompanhando e reavaliando o processo de caminhar, é o que estamos trilhando nesse momento. Só se aprende a viver vivendo. Como disse Thomas Fuller, “o conhecimento dirige a prática, mas a prática aumenta o conhecimento”.

Algo precisando ser mudado na sua vida? Leia a mudança não com o pensamento mas com sua própria vida.

Depois me conte. Mãos à obra!

Para ser feliz, desista!
abr 07

Para ser feliz, simplesmente desista

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2010 na Revista DOC

Muitas vezes, a forma mais fácil de solucionar um determinado problema é não participar dele. É desistir. Desistir muitas vezes significa respeitar seus desejos mais íntimos. Significa recusar pressões sociais e tornar-se quem você realmente é. Da próxima vez que surgir um problema, desista:

–    Desista de ser legal;
–    Desista de ser alguém famoso;
–    Desista de querer ser diferente apenas para ser único;
–    Desista de tentar ser perfeito;
–    Desista de manter relações com pessoas das quais você realmente não gosta;
–    Desista de ser o centro das atenções;
–    Desista de tentar ser importante (focar na comunidade é usualmente mais engrandecedor);
–    Desista de buscar uma série de objetivos voltados ao ego;
–    Desista de se preocupar em possuir uma montanha de coisas legais, que distraem você do fato de que você não gosta do que você está fazendo com a sua vida;
–    Desista de tentar ser muito feliz todo o tempo: em vez disso, busque ser mais tranquilo;
–    Desista de ser tudo para todo mundo;
–    Desista de sacrificar sua vida atrás de um grau que lhe dê a ilusão de que você é superimportante;
–    Desista de ser ultraprodutivo, especialmente se a produtividade lhe deixa esgotado;
–    Desista de aperfeiçoar-se constantemente: muitas vezes, aperfeiçoamento exagerado nos faz perder a vista do aqui e do agora;
–    Desista de pensar que você não tem tempo ou habilidade para tornar seus sonhos realidade;
–    Desista de tentar viver conforme a expectativa de seus pais, seus amigos, seu chefe ou seus colegas;
–    Desista de ter um corpo perfeito, um rosto perfeito, ou um guarda-roupas perfeito: preocupe-se mais em embelezar sua mente e ser uma pessoa que faz belas ações.

Tentar fazer as coisas acontecerem a todo tempo cria uma ansiedade desnecessária. É estressante tentar negar aquilo que é. Quando eu desisto, aceito a vida como ela é, sem desejar que as coisas sejam diferentes. Se uma ação é necessária, eu aceito. Eu faço. Mas podemos desistir de deixar nossa felicidade depender de uma coisa ou de alguém. É interessante perceber como parecemos ter tantos problemas e tantos dilemas. A maior parte das vezes, no entanto, a resposta para resolvê-los é não fazer nada. Simplesmente desistir.

Bom… Jogar (e ler) um monte de frases soltas em tom de aconselhamento realmente é algo fácil de fazer. Transformar teoria em prática são outros quinhentos. Nossas crenças ou nossa hierarquia de prioridades pode até estar parcialmente afinada com algumas mudanças que esperamos para nossas vidas, mas daí, para tornarmos realidade aquilo em que acreditamos, seguir uma série de passos se torna necessário.

Gostaria de deixar uma pergunta e um convite ao leitor da DOC: como você faz para transformar ideia em ação? Como transladar teoria em prática? Se você tem uma boa resposta a estas perguntas, envie-a para o e-mail <medictando@revistadoc.com.br> e na próxima coluna faremos uma síntese do pensamento dos leitores, enriquecendo nosso diálogo. Até lá.

*Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas

Perguntas. Pergunte-se!
mar 31

Por que as perguntas certas são mais importantes que as respostas?

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 16 de outubro de 2009 na Revista DOC

Na Medicina, bem como em praticamente todas as áreas científicas e humanas, somos treinados para encontrar e oferecer respostas. Quando um paciente nos procura, ele quer saber o que tem e como fazer para resolver uma questão de saúde que lhe aflige.

Para que possamos de fato ajudá-lo, o primeiro passo é – através da integração entre o conhecimento que acumulamos e o reconhecimento de padrões que temos acumulado através da nossa experiência – fazer as perguntas que nos levarão ao diagnóstico correto da enfermidade ou da necessidade de quem nos solicita ajuda. Nunca damos (ou não deveríamos) oferecer um tratamento sem nos perguntar duas coisas:

A primeira é: o que está acontecendo de fato com este paciente? A segunda é: o grau de certeza que tenho é suficiente para tratá-lo, devo seguir investigando ou devo solicitar ajuda a alguém mais? São perguntas importantes que, mesmo de modo inconsciente sempre nos fazemos durante o processo diagnóstico de uma doença.

Entretanto, me pergunto: por que muitas vezes não fazemos perguntas tão ou mais importantes no decorrer de nossas vidas? Por que encontramos colegas tão absortos em seu dia a dia sem uma meta específica a ser alcançada? Ou, poeticamente, por que navegamos sem norte, sem porto ou terra à vista para atracar?

A edição anterior da Revista DOC foi prolífica em uma série de perguntas importantes que precisamos, cedo ou tarde, fazer: Márcio Iavelberg, em sua coluna DOC.Finanças perguntou: quantos pacientes preciso atender em um mês para terminá-lo no azul? E qual será minha remuneração ao final do mês?. Ainda, na mesma edição, uma belíssima reportagem de Fernanda Fernandes nos faz questionar: e agora, José? Devo seguir atendendo convênios ou me aventuro em um consultório somente particular?

A essas perguntas, claramente associadas ao critério financeiro da nossa labuta diária, acrescento mais uma – na verdade, uma pergunta bastante composta: quanto mereço ou quero ganhar e o que vou fazer quando atingir esta meta? Ou seja: o que irei fazer ao atingir a meta por mim estabelecida? Dedicar-me a atividades de lazer, contemplação, descanso? Produzir capital social ou envolver-me em trabalhos altruístas, para dividir um pouco da boa venturança que me coube na vida com quem não teve a mesma sorte? Passar um bom tempo com minha família e amigos, dedicado a cuidar da minha saúde, melhorar minha alimentação e praticar exercícios físicos? Trabalharei tanto mais horas quanto pacientes houver, para aproveitar o momento. Afinal, posso viver depois e é bom continuar fazendo um bom pé-de-meia?

São perguntas que costumeiramente não fazemos, já que não elegemos uma meta em relação a quanto merecemos ou queremos ganhar (ou, mais comumente, subvertemos nossa decisão no andar da carruagem). É certo ver que teremos vidas completamente diferentes se escolhermos uma ou outra opção.
Como é praxe na Medic(t)ando, deixo você, prezado colega, refletindo acerca das implicações que boas perguntas feitas em momentos importantes podem ter em nossas vidas. Afinal, nosso objetivo é ajudá-lo a fazer as perguntas, mas a melhor resposta quem poderá dar é você mesmo.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas

Pirâmide. A construção.
mar 24

Somos realmente donos das nossas vidas?

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 08 de setembro de 2009 na Revista DOC

Em meados do século passado, o psicólogo americano Abraham Maslow propôs o que viríamos a conhecer como “Hierarquia das necessidades de Maslow”, uma pirâmide composta de degraus os quais deveríamos escalar para atingir nossa autorrealização, desenvolver nossos potenciais e nos tornar tudo que fôssemos capazes de ser.

Começando por atender a nossas necessidades fisiológicas (como respiração, comida, água e sono), passando pela necessidade de sentir-se seguro em casa, com um emprego estável, poderíamos então atingir o terceiro degrau da escada, em que poderíamos nos dedicar às necessidades sociais ou de amor e afeto, bem como pertencer a determinados grupos ou clubes.

No degrau seguinte, exercitaríamos nossa autoestima, buscaríamos o respeito dos outros frente às funções que desempenhamos e cultivaríamos o respeito aos outros para só então, finalmente, chegar ao ápice da pirâmide da realização pessoal em que conviveriam harmonicamente a moralidade, a criatividade, a espontaneidade, a ausência dos preconceitos e a aceitação dos fatos.

Várias críticas podem ser feitas ao modelo de Maslow e a mais dura delas ataca seu âmago: no momento em que reconhecemos, por exemplo, pessoas sem estabilidade financeira que exibem na prática diária qualidades morais exemplares e apresentam-se mais realizadas do que qualquer magnata do petróleo. Da mesma forma, na sociedade de consumo na qual estamos inseridos, a influência da mídia e da propaganda sobre o que “devemos ter” e “como devemos nos portar” acaba gerando mudanças na hierarquia, trazendo a necessidade de status para um primeiro plano, antes mesmo que algumas necessidades mais básicas sejam atingidas.

Anedoticamente, vou ilustrar com o exemplo daquele médico residente que, em dada época, com salário equivalente a R$1.200, adquiriu um automóvel no valor de R$45 mil, sem antes ter garantido sua segurança financeira, tampouco possuir moradia própria. O que justifica este ato senão o desejo de demonstrar uma espécie de “capacidade” ilusória ao mundo que lhe observa?

Como curiosidade, a psicanálise de nosso eminentíssimo colega Sigmund Freud nos lembra que temos a tendência de repetir os erros de nossos pais e, ainda, repetir nossos próprios erros ao longo do tempo. Quantos de nós continuam sub-repticiamente manipulados pelo desejo de status e consumo desconectados de qualquer sinal de alerta e, mesmo quando nos perguntam: “por que você continua trabalhando até às 22 horas na sexta-feira?”, respondemos: “porque tenho que pagar a faculdade dos filhos”?

Longe de propor qualquer tipo de julgamento, esta coluna apenas pede um pequeno espaço no seu pensamento e um olhar mais demorado sobre sua própria vida e sobre as escolhas que você tem feito. Em vez de apresentar respostas definitivas, elaboraremos perguntas que busquem gerar reflexão, para que o leitor rumine, medite e chegue as suas próprias conclusões.

* Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas.

Açaí, o superalimento
maio 10

Açaí

By Rafael Reinehr | Super Alimentos

Essa pequena fruta,

derivada de uma palmeira chamada Euterpe oleraceae  ou a sua “substituta”, o açaí de juçara, oriundo da palmeira içara,  amplamente disponíveis nas áreas de Floresta Amazônica e Mata Atlântica, respectivamente, no Brasil, tem uma quantidade impressionante de fibras, proteínas, gorduras boas e antioxidantes.

O óleo extraído do açaí é composto de ácidos graxos de boa qualidade, com 60% de monoinsaturados e 13% de poliinsaturados. Com relação às proteínas, possui teor protéico muito bom, sendo comparado ao do leite e ovo.

O açaí possui elevado teor de antocianinas, contendo cerca de 1,02 /100 g de extrato seco. As antocianinas são pigmentos naturais, pertencentes à família dos flavonóides, sendo estes responsáveis pela cor do açaí. Além disto, possuem função antioxidante, que assegura melhor circulação sanguínea e protegem o organismo contra o acúmulo de placas de depósito de lipídeos, causadores da arteriosclerose.

O consumo de um litro de açaí do tipo médio (grau de refinação), com 12,5% de matéria seca, contém 65,8 g de lipídios, o que corresponde a 66% da ingestão diária requerida; 31,5 g de fibras alimentares totais, o que equivale a 100% das recomendações diárias e 12,6 g de proteínas, o que corresponde de 25% a 30% da quantidade nutricional diária necessária. O açaí é rico em minerais, principalmente potássio e Cálcio e, dentre as vitaminas, pode ser destacada a vitamina E, um complemento aos componentes antioxidantes (polifenóis) também presentes na fruta.

Vale ressaltar que a composição química apresentada aqui não leva em consideração os complementos normalmente utilizados: granola, banana e xaropes.

Valor Nutricional (em 100g de polpa)

Calorias: 247kcal

Proteínas: 3,8g

Lipídios: 12,2g

Fibra: 16,90g

Cálcio: 118mg

Ferro: 11mg

Fósforo: 0,5mg

Vit.B1: 11,80

Vit.B2: 0,36

Vit.C: 0,01

Em resumo, a polpa do açaí contém:

 

  • Uma quantidade significativa de antioxidantes que ajudam a combater o envelhecimento precoce, com dez vezes mais antioxidantes do que uvas roxas e 10 a 30 vezes mais antocianinas do que o vinho tinto.
  • Uma sinergia de gorduras monoinsaturadas (saudáveis), fibras dietéticas e fitoesteróis que ajudam a promover a saúde digestiva e cardiovascular.
  • Um complexo quase perfeito de aminoácidos essenciais, em conjunto com uma série de riquíssimos elementos minerais traço, vitais a uma contração e regeneração muscular adequadas.

A gordura contida no açaí lembra aquela do azeite de oliva, e é rica em ácido oleico monoinsaurado. Ácido oleico é importante por uma série de questões: ajuda os óleos ômega-3 oriundos dos peixes a entrarem na membrana celular; juntos eles ajudam as membranas celulares a se tornarem mais ágeis e adaptadas, assim, todos hormônios e neurotransmissores e receptores de insulina funcionam de forma mais eficiente.

Isso é particularmente importante pois níveis elevados de insulina podem criar um estado inflamatório e, como sabemos, inflamação causa envelhecimento, câncer e morte.

 

dieta
out 09

De dieta

By Rafael Reinehr | Obesidade

Comecei uma dieta na segunda-feira. Sim. Segunda-feira.

Comecei com 103,2kg, que me colocam na beirada do sobrepeso com a obesidade. Até sexta-feira, em 4 dias, tinha perdido 3,9kg, e chegado aos 99,3kg.

Basicamente, tirei todo e qualquer excesso de óleo, zerei o açúcar, para tomar só água e suco de uva (mesmo assim só pela saúde, não pelas baixas calorias).

Em resumo, estou assim:

Café da manhã – uma fatia de pão integral torrado com uma colherinha de mel + 1 xícara de café com leite semidesnatado sem açúcar + 1 fruta

Lanche da manhã – 1 fruta

Almoço – 4 a 6 colheres de sopa de arroz integral, com ou sem feijão (ou um bocadinho de massa ou o equivalente de outro carboidrato) + filé de peixe grelhado ou ensopado ou algum prato com cogumelos (risoto de funghi, cogumelos refogados com temperos variados) + salada verde à vontade + 1 tomate e/ou 1 cenoura

Lanche da tarde – 1 fruta + 30g de nozes, castanhas ou amêndoas (estas pela longevidade)

Jantar – repetição do almoço, se bem que invento alguma salada (como hoje, que piquei brócolis, milho cozinho, misturei salsa, pimenta preta, pimenta cayenne, pimenta calabresa e uma pitadinha de sal)

Ceia – 1 copo de iogurte natural com 2 colheres de fibras (granola, linhaça dourada em pó, gérmen de trigo, farelo de aveia)

A meta seria chegar a 87kg em 23 de dezembro. Veremos se persisto, como da outra vez (http://reinehr.org/bem-estar/quer-emagrecer-pergunte-me-como/ ) e chego lá.

Dessa vez, apesar das tentações, parece que está ainda mais fácil.

rafael_em_boston
ago 11

Visita ao Joslin Diabetes Center, em Boston

By Rafael Reinehr | Diabetes

Em março deste ano, tive a honra e a satisfação de ir a Boston com alguns colegas endocrinologistas do Brasil, em um pequeno grupo de pouco mais de 20 colegas para um curto simpósio organizado pelo Joslin Diabetes Center, instituição afiliada à Harvard Medical School.

Além de ser um centro de referência mundial sobre Educação em Diabetes,

Joslin foi fundada por Elliot P. Joslin, que sempre defendeu uma abordagem multidisciplinar para o tratamento do diabetes, em uma época em que nem a fisiopatologia da doença ainda era bem conhecida e foi um dos primeiros (logo após Dr Banting, de Toronto) a utilizar com sucesso a Insulina bovina, em 1922-1923.

Olha nós ali no saguão de entrada do Joslin Diabetes Center:

rafael_em_boston

Sibutramina é suspensa na Europa
jan 28

Sibutramina é suspensa na Europa

By Rafael Reinehr | Obesidade

A European Medicines Agency (EMA) publicou,

em 21 de janeiro deste ano, comunicado recomendando a suspensão da licença de comercialização do medicamento sibutramina, baseada na análise do seu Committee for Medicinal Products for Human Use (CHMP), que concluiu que os benefícios da sibutramina são menores do que os riscos de seus efeitos colaterais (problemas cardiovasculares graves).

A decisão foi baseada no estudo SCOUT (Sibutramine Cardiovascular Outcome Trial), cujo objetivo era, exatamente, avaliar possíveis benefícios da sibutramina no auxílio à perda de peso, em pacientes portadores de doenças cardiovasculares prévias, para quem a própria bula do produto contra-indica a prescrição.

Essa pesquisa clínica é conduzida em cerca de 10.000 pacientes, há cerca de seis anos, seguindo um protocolo aprovado em Comitês de Ética em Pesquisa de diversos países. Avaliações dos resultados preliminares indicaram que houve um aumento de 16% de risco de complicações cardiovasculares no grupo que usou sibutramina.

Dr. Ricardo Meirelles, presidente da SBEM, declarou em entrevista ao jornal O Globo que esses resultados apenas confirmam que não se deve prescrever sibutramina a pacientes com doença cardiovascular. “Os resultados são iniciais e mostram que, em pacientes com doenças cardiovasculares, os riscos da sibutramina parecem superar possíveis benefícios”. Ele acrescenta que a sibutramina é comercializada há mais de dez anos e não há, até o momento, evidências de que o seu uso criterioso, apenas em pacientes sem contra-indicações, leve ao aumento de problemas cardiovasculares.

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), baseada no mesmo estudo,apenas determinou que a bula do medicamento alerte que não deve ser usado por pacientes com história de doença cardiovascular, incluindo  coronariopatias, acidente vascular cerebral ou isquemia transitória, arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca congestiva, doença arterial periférica e hipertensão arterial.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está analisando as conclusões preliminares do SCOUT e dará seu parecer até o final desta semana.

Decisão Gera Críticas

A presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Dra. Manuela Carvalheiro, em entrevista à TSF Online, declarou que o estudo da Agência Europeia do Medicamento é contraditório e lamentou que a partir de agora os médicos deixem de ter uma ferramenta importante no tratamento da obesidade. Ela afirmou não entender como a agência europeia conduziu um estudo usando a sibutramina em pessoas “já com doenças cardíacas quando sabia a priori que não era indicado para esses pacientes.”

(fonte: SBEM)