De uma coisa tenho certeza: há 20 anos atrás, eu não tinha a mínima ideia de como estaria aos 33 anos. Há 20 anos atrás, minha maior meta nesta mesma época do ano era conquistar a gatinha da quinta série com a qual estava namorando sem que ela soubesse.
Um bocadinho de vida depois, cá estou, profissionalmente satisfeito, bem casado, desenvolvendo novos e estimulantes projetos, planejando o primeiro filho.
Muito trabalho, muita leitura, muito aprendizado. Se olhar para trás, comparado à média das pessoas que conheço, pouco descanso. Mas não me arrependo nem um pouco. Creio que, para mim, reduzir o ritmo da vida e fazer “menos coisas” como certa vez me pediram seria mais ou menos como ser criogenado para uma pessoa menos ativa.
Este ano decidi não fazer nenhuma festa, nenhuma janta – simples ou especial – nem com amigos, nem com família, nem com esposa. Estou em um momento reflexivo (tem sido vários ultimamente [sinto falta do circunflexo em “tem”]) e do fundo deste poço que reflete minha própria imagem recebi uma proposta que decidi acatar.
Ao pensar sobre o que já tenho – pelo qual sou muito grato à minha família, amigos, colegas de profissão, pacientes e, é claro, ao meu próprio esforço – e pensar sobre o que falta às pessoas ao meu redor, a partir deste ano decidi que, no dia do meu aniversário, quero abrir mão dos presentes materiais. Vou pedir aos amigos, daqui por diante, que se quiserem me presentear que façam uma coisa por mim:
- Pratique um ato de generosidade com alguém que não conhecem. Alguém fora do círculo de amigos, familiar ou profissional. Nos próximos dias, ou na primeira oportunidade que tiver, não perca a chance de ser generoso, da forma que melhor lhe aprouver e de forma que seja útil a quem se esteja sendo gentil.
Como eu disse, é emblemático. Conseguimos fazer tantas coisas boas àqueles com os quais nos relacionamos mas, a maior parte de nós, não temos a mesma capacidade com outras pessoas, desconhecidas. Na segunda-feira, fui devolver dois DVDs na locadora e na saída, quando estava entrando no carro, um senhor me pediu dinheiro. Não tenho o hábito de dar dinheiro a quem pede pois não sei qual uso dele vão fazer e lhe respondi que não. Em seguida, o moço me pediu alguma coisa para comer, pois estava com muita fome e estava longe de casa, ao que também respondi que não, pedi licença e fui embora. Quase sincronicamente, enquanto estava jantando, comecei a ler a revista Vida Simples de julho de 2009 (esta edição está particularmente ótima) e em um artigo sobre generosidade fui alertado de algo muito simples mas que muitas vezes nos passa desapercebido: “se o mendigo na rua fosse alguém que amamos, recusaríamos a ajuda que ele pede?”.
Qual a origem deste tratamento díspar? O que promove esta individualidade do eu, do meu, do apego? Confesso que já estudo e tento me aperfeiçoar há tempos, mas exemplos como o desta segunda-feira mostram que ainda estou longe daquilo que admiro e suporto como ideal de vida em comunidade.
Então, meu amigo, se quiser me dar um presente no dia de hoje, faça isso: pratique, com desapego, sem interesse por receber nada em troca, um ato de generosidade com alguém que você não conhece. Se calhar, permaneça com o espírito aberto, para repetir esta proeza quando for possível. Se conseguir, estará me dando um presente mais valioso do que qualquer um que já ganhei.
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Rafael Reinehr é médico endocrinologista, mas seus olhos vasculham o horizonte em busca de soluções para criar um Mundo Melhor através de iniciativas como a Coolmeia, Ideias em Cooperação.
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Comentários
Já havia lido o texto, quando o conheci, tendo o hábito de, a cada nova pessoa que conheço, procurar saber mais sobre ela, especialmente tentar *ler* o *como* é, está e se relaciona com os muitos Outros do mundo.
E fiquei encantada e tenho a dizer que a leitura me trouxe outra perspectiva ao olhar as pessoas.
Sempre fui de ajudar as dos círculos de convivência: familiares, amigos, colegas, alunos, funcionários...
Estando professora, desde que nasceram os amados sobrinhozinhos, tornei-me uma pessoa e professora melhor, mais compreensiva, solidária, afetiva e pacienciosa. Simplesmente, a cada *traquinagem* passei a pensar em como agiria se fosse com os meus sobrinhos, em como gostaria que suas professoras agissem. Esta *balize* contribuiu imensamente nas relações com tod@s eles!! Sei que sou uma professora muito mais colaborativa, que consigo contribuir mais para seu desenvolvimento integral. Já não priorizo apenas o cognitivo e a cada dia mais me convenço que eles estando *bem* tudo flui. Podemos ajudar muito tendo olhar sensível e escuta ativa.
Pois já com adultos não era exatamente assim, dependendo da abordagem de cada um. Se tinham postura meio fechada ao diálogo, se eram meio agressivos nas interações, não costumava olhar e tentar me colocar no seu lugar, entender & tal. Costumava *tentar* convencer do *meu* ponto de vista e, caso não conseguisse, podendo passava a evitá-los.
Pois desde que li esse texto, passei a pensar nessas pessoas estranhas, primeiro analisando como agiria se fossem as pessoas queridas, das relações.
E, com isso, acho que estou mais legal, e tenho ajudado ao Outro - ainda que precise melhorar muito mais.
Então, já que pediu, vim externar isso: o fato de que te lendo *mudei* e *melhorei* com as pessoas.
E hoje, acho mesmo que, fazer o bem por fazer é muito recompensador! A gente se olha no espelho com outros olhos.
Era isso, Rafael querido!! Teu *Benjamin* terá *muito* do que se orgulhar do pai sensacional que tem!!
Bzzuu grande no coração!!!
São reflexões assim que devemos por em prática. Abração:)
Feliz aniversário atrasado...
Embora a ideia de fazer um ato generoso no dia do nosso aniversário em detrimento dos comuns 'presentes' seja brilhante, tenho certeza de que pouquíssimas pessoas o fariam. O ser humano ainda é muito egoísta, muito arrogante para tal ação. Eu posso dizer que eu ainda não teria maturidade para abrir mão dos meus presentes de aniversário. É, infelizmente ainda há um lado sombrio e fútil que domina a minha vida. Será que os meus próximos 20 anos mudarão isso? Rsrs
Da ilustração com o mendigo, já passei por diversas situações semelhantes. Eu me lembro que desde criança, eu perguntava para minha mãe: Mamãe, por que aquele menino vive na rua? Por que eu posso ir pra escola e ele não?... Então, minha mãe me olhava e mudava de assunto o mais rápido possível.
O mundo me dá medo...
O mundo me enoja...
Mas ao mesmo tempo, eu amo viver e procuro extrair cada pedacinho da materialização do verbo amar, que deveria ser o sinônimo de viver.
Dos meus próximos 20 anos, só o tempo dirá... e as minhas escolhas também...
Parabéns pelo aniversário e pelo brilhantismo das ideias, Rafael!!!
Abraços...
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