Livro: o último reduto - Um mundo operário, um mundo literário


A leitura transformou-se de instrumento de lazer em peça de uma engrenagem utilizada para compensar as angústias de um mundo normalizado, individualista e competitivo. São poucos entre nós que conseguem comer e sentir o devido gosto nas refeições. Uma sucessão de garfadas que se sucedem uma em cima da outra, com mínimos espaços para a respiração é a tônica. Como conseqüência, a obesidade encontra-se em índices epidêmicos. Até as relações sexuais parecem que passaram a ser feitas por obrigação e precisam terminar o quanto antes para que se possa assistir ao filmezinho ou fazer outra coisa qualquer (dormir para enfrentar o dia seguinte?)... Sintomas conversivos e psicossomáticos são realçados neste mundo sem sentidos, em que o corpo oblitera até onde agüenta a angústia da crise de percepção mas cedo ou tarde acaba cedendo à pressão que vem de todos os lados.” (Um mundo operário, um mundo literário, de Rafael Reinehr) Propaganda ChinaEsta semana escrevi um Editorial no Simplicíssimo acerca da degradação do mundo atual incluindo-se aí a decadência do lazer e do aprendizado em detrimento do trabalho e da anestesia, e o trecho acima é um excerto daquele texto.

 

Hoje, enquanto conversava com uma nova paciente acerca das opções humanas entre priorizar o “ter” ou o “ser”, sobre a influência das mídias de massa em especial a televisão, oferecendo circo e anestesia, oferecendo produtos comerciais antes de mais nada (a televisão só existe da maneira como hoje se estrutura em função dos anunciantes que a mantém), me dei conta de uma coisa ao mesmo tempo reveladora, significativa e surpreendente:

 

O Livro, tal como nós o conhecemos atualmente e desde sempre, é o último reduto livre da mídia de massa moderna. Podemos folhear um livro desde o Prefácio até a derradeira palavra “FIM.” sem corrermos o risco de darmos de cara com um anúncio de telefone celular, de um banco, empresa de seguros, loja de roupas ou eletrodomésticos ou qualquer outro tipo de propaganda.

 

O Livro é, ainda, um santuário dedicado à contemplação, ao exercício e ao ensinamento do “ser” em contraposição ao “ter”.

 

Depois desta constatação (creio que original, posto que não tenho visto ninguém comentar acerca do assunto em lugar algum), vamos ver quanto tempo leva para o primeiro livro com “anúncios” ser Livro da Vidalançado no mercado. O que me deixa tranqüilo é que meus três leitores são de confiança e não vào ficar espalhando esta idéia aos quatro ventos, ainda mais que seria totalmente surreal abrir o livro “Os Irmãos Karamazóv” e encontrar lá dentro um anúncio de “Importação legalizada de AK-47” ou então um anúncio de uma nova marca de cigarro. Imagine você, fiel, na igreja e o padre, pastor ou whatever pedindo pra você abrir a Bíblia no Livro de Eclesiastes, Capítulo tal, versículo tal, logo abaixo da imagem do novo modelo de automóvel da marca “Fod-se”.

Se você acha absurda esta idéia e acredita que isso nunca vai acontecer – me refiro (este trecho entre travessões é para os meio-entendedores) ao advento dos anúncios e propagandas e livros de todos os tipos (crônicas, contos, poesias e livros técnicos) – não precisa esperar sentado. Não dou uma década para que isso aconteça. E nada impede que ainda aconteça neste ou no próximo ano!

 

A necessidade em ocupar espaços do ser humano é algo impressionante. Só me admiro que ninguém tenha pensado nisso antes! Ou, se pensaram, graças aos bons ventos não levaram adiante a idéia de concretizar esta sandice.

 

Se você tem opinião sobre o fato de que os livros possam passar a ser utilizados como meio de propaganda através de anúncios visuais ou até mesmo da forma que os blogs são utilizados hoje – com anúncios entremeados ao seu texto através de “merchandising” ou mesmo de “colocações pagas”, deixe sua impressão nos comentários. Para ler meu editorial no Simplicíssimo, clique em Um mundo operário, um mundo literário.

 

E segue o baile, pois “se Deus não existe, tudo é permitido”.

 



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Comentários  

 
0 #14 Mahai 30-08-2008 07:57
Nunca comprei um livro de auto-juda, apesar da expressao ser redundante, todo livro está sendo lido para ajudar o leitor, da maneira que for.
Já folheei inùmeros e nestes me chama a atençao o link para o pròximo, a complementaçao. Na literatura tradicional o autor conquista, claro que alguns amarram sequencias, mas muitas obras sao definitivas, o fim é o fim daquela história.
Curioso fucei meus livros e achei alguns )editoras espanholas) que tem anuncios nas pàginas finais. Outro exemplo, alem da EDIOURO sao livros do Circulo do Livro, quem tambem anunciavam outras obras.
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0 #13 Rafael Reinehr 30-08-2008 06:46
Fabiano, concordo que o público-alvo é pequeno. Mas há que se concordar que é um público interessante, com características peculiares www.cultura.gov.br/site/2008/08/25/brasil-ganha-40-milhoes-de-leitores/(pessoas com maior nível de escolaridade e melhores condições sócio-econômicas). Teoricamente, estas pessoas também seriam as mais aptas a se "defender" da gana consumista, mas não é o que vemos atualmente.
Ademais, como médico endocrinologist a converso com meus pacientes sobre suas vidas em geral, e percebo que muitas pessoas já utilizam a literatura como forma de equilibrar seu espírito. Leituras de auto-ajuda e livros espíritas estão entre os mais citados, mas mostram um caminho em direção ao "preenchimento do vazio".
Obrigado pelo comentário.
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0 #12 Fabiano Santana 30-08-2008 06:03
Rafael, suas reflexões são pertinentes, todavia não creio que as pessoas irão adquirir a prática da leitura como forma de preencher o vazio que existe nelas.
Acredito que muito mais fácil, para tais pessoas, assistir televisão ou fazer compras, por exemplo.
E, conseguentement e, não creio que existirão propagandas publicitárias, da forma que você mencionou, em livros posto que o público alvo seria pequeno.

Bem, essa é minha opnião.
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0 #11 Rafael Reinehr 29-08-2008 11:24
...posto que, em um pequeno fórum, encontramos tantos argumentos diversos, alguns convergentes, outros divergentes e as conclusões que podemos tirar de um determinado assunto passam a ser aperfeiçoadas.

Erny, lembrei da Ediouro, que desde sempre fazia propaganda de seus próprios livros e de algumas "coisitas" mais, desde que me lembro por gente. Não que "Caratê sem mestre" e "Caratê em 10 lições" sejam livros que se sentiriam ofendidos com uma dose de poluição visual, mas...

Ribas e Caco, no subsolo já há propaganda desde sempre. A imagem acima que escolhi lembra da Revolução Cultural da China, em que a propaganda comunista está imersa em todos os estratos da vida social, inclusive na literatura. E não é a Bíblia uma grande livro publicitário, que vende um ideal de vida que serve aos detentores do poder à época do Concílio de Nicéia?

Branco, concordo com você: realmente existe um reduto ainda mais derradeiro do que o livro!

Obrigado pelos comentários, amigos.
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0 #10 Branco Leone 29-08-2008 11:06
RR, se ainda não pegou é porque não funcionaria. E já deve ter sido testado. Como disse o Leonardo, é muito investimento pra tão pouco público. E também concordo com o(a) Erny, que lembra dos logotipos de patrocinadores e marcadores de página.
Dentre todos os aspectos insuportáveis disto que se chama "mundo moderno", o "patrocínio" é mesmo o mais repelente.
Quando cair a última fronteira (isto é, quando houver patrocínio na bunda da mulher amada), aí danou-se tudo. Até lá, resisto.
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rafael-reinehr160Rafael Reinehr é médico endocrinologista, mas seus olhos vasculham o horizonte em busca de soluções para criar um Mundo Melhor através de iniciativas como a Coolmeia, Ideias em Cooperação.

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