Esta semana escrevi um Editorial no Simplicíssimo acerca da degradação do mundo atual incluindo-se aí a decadência do lazer e do aprendizado em detrimento do trabalho e da anestesia, e o trecho acima é um excerto daquele texto.
Hoje, enquanto conversava com uma nova paciente acerca das opções humanas entre priorizar o “ter” ou o “ser”, sobre a influência das mídias de massa em especial a televisão, oferecendo circo e anestesia, oferecendo produtos comerciais antes de mais nada (a televisão só existe da maneira como hoje se estrutura em função dos anunciantes que a mantém), me dei conta de uma coisa ao mesmo tempo reveladora, significativa e surpreendente:
O Livro, tal como nós o conhecemos atualmente e desde sempre, é o último reduto livre da mídia de massa moderna. Podemos folhear um livro desde o Prefácio até a derradeira palavra “FIM.” sem corrermos o risco de darmos de cara com um anúncio de telefone celular, de um banco, empresa de seguros, loja de roupas ou eletrodomésticos ou qualquer outro tipo de propaganda.
O Livro é, ainda, um santuário dedicado à contemplação, ao exercício e ao ensinamento do “ser” em contraposição ao “ter”.
Depois desta constatação (creio que original, posto que não tenho visto ninguém comentar acerca do assunto em lugar algum), vamos ver quanto tempo leva para o primeiro livro com “anúncios” ser
lançado no mercado. O que me deixa tranqüilo é que meus três leitores são de confiança e não vào ficar espalhando esta idéia aos quatro ventos, ainda mais que seria totalmente surreal abrir o livro “Os Irmãos Karamazóv” e encontrar lá dentro um anúncio de “Importação legalizada de AK-47” ou então um anúncio de uma nova marca de cigarro. Imagine você, fiel, na igreja e o padre, pastor ou whatever pedindo pra você abrir a Bíblia no Livro de Eclesiastes, Capítulo tal, versículo tal, logo abaixo da imagem do novo modelo de automóvel da marca “Fod-se”.
A necessidade em ocupar espaços do ser humano é algo impressionante. Só me admiro que ninguém tenha pensado nisso antes! Ou, se pensaram, graças aos bons ventos não levaram adiante a idéia de concretizar esta sandice.
Se você tem opinião sobre o fato de que os livros possam passar a ser utilizados como meio de propaganda através de anúncios visuais ou até mesmo da forma que os blogs são utilizados hoje – com anúncios entremeados ao seu texto através de “merchandising” ou mesmo de “colocações pagas”, deixe sua impressão nos comentários. Para ler meu editorial no Simplicíssimo, clique em Um mundo operário, um mundo literário.
E segue o baile, pois “se Deus não existe, tudo é permitido”.
| Artigos recomendados | |
Rafael Reinehr é médico endocrinologista, mas seus olhos vasculham o horizonte em busca de soluções para criar um Mundo Melhor através de iniciativas como a Coolmeia, Ideias em Cooperação.
Para saber um pouco mais sobre o que o autor do blog anda fazendo hoje em dia, baixe gratuitamente o jornal Em Transe.
Você também pode Acompanhá-lo no Twitter e Assinar o Feed RSS do Blog.
Comentários
Já folheei inùmeros e nestes me chama a atençao o link para o pròximo, a complementaçao. Na literatura tradicional o autor conquista, claro que alguns amarram sequencias, mas muitas obras sao definitivas, o fim é o fim daquela história.
Curioso fucei meus livros e achei alguns )editoras espanholas) que tem anuncios nas pàginas finais. Outro exemplo, alem da EDIOURO sao livros do Circulo do Livro, quem tambem anunciavam outras obras.
Ademais, como médico endocrinologist a converso com meus pacientes sobre suas vidas em geral, e percebo que muitas pessoas já utilizam a literatura como forma de equilibrar seu espírito. Leituras de auto-ajuda e livros espíritas estão entre os mais citados, mas mostram um caminho em direção ao "preenchimento do vazio".
Obrigado pelo comentário.
Acredito que muito mais fácil, para tais pessoas, assistir televisão ou fazer compras, por exemplo.
E, conseguentement e, não creio que existirão propagandas publicitárias, da forma que você mencionou, em livros posto que o público alvo seria pequeno.
Bem, essa é minha opnião.
Erny, lembrei da Ediouro, que desde sempre fazia propaganda de seus próprios livros e de algumas "coisitas" mais, desde que me lembro por gente. Não que "Caratê sem mestre" e "Caratê em 10 lições" sejam livros que se sentiriam ofendidos com uma dose de poluição visual, mas...
Ribas e Caco, no subsolo já há propaganda desde sempre. A imagem acima que escolhi lembra da Revolução Cultural da China, em que a propaganda comunista está imersa em todos os estratos da vida social, inclusive na literatura. E não é a Bíblia uma grande livro publicitário, que vende um ideal de vida que serve aos detentores do poder à época do Concílio de Nicéia?
Branco, concordo com você: realmente existe um reduto ainda mais derradeiro do que o livro!
Obrigado pelos comentários, amigos.
Dentre todos os aspectos insuportáveis disto que se chama "mundo moderno", o "patrocínio" é mesmo o mais repelente.
Quando cair a última fronteira (isto é, quando houver patrocínio na bunda da mulher amada), aí danou-se tudo. Até lá, resisto.
Assine o RSS dos comentários