Livro: o último reduto – Um mundo operário, um mundo literário

By Rafael Reinehr | Quase-Idéias

Ago 29
Propaganda China

A leitura transformou-se de instrumento de lazer em peça de uma engrenagem utilizada para compensar as angústias de um mundo normalizado, individualista e competitivo. São poucos entre nós que conseguem comer e sentir o devido gosto nas refeições. Uma sucessão de garfadas que se sucedem uma em cima da outra, com mínimos espaços para a respiração é a tônica. Como conseqüência, a obesidade encontra-se em índices epidêmicos. Até as relações sexuais parecem que passaram a ser feitas por obrigação e precisam terminar o quanto antes para que se possa assistir ao filmezinho ou fazer outra coisa qualquer (dormir para enfrentar o dia seguinte?)… Sintomas conversivos e psicossomáticos são realçados neste mundo sem sentidos, em que o corpo oblitera até onde agüenta a angústia da crise de percepção mas cedo ou tarde acaba cedendo à pressão que vem de todos os lados.” (Um mundo operário, um mundo literário, de Rafael Reinehr) Propaganda ChinaEsta semana escrevi um Editorial no Simplicíssimo acerca da degradação do mundo atual incluindo-se aí a decadência do lazer e do aprendizado em detrimento do trabalho e da anestesia, e o trecho acima é um excerto daquele texto.

 

Hoje, enquanto conversava com uma nova paciente acerca das opções humanas entre priorizar o “ter” ou o “ser”, sobre a influência das mídias de massa em especial a televisão, oferecendo circo e anestesia, oferecendo produtos comerciais antes de mais nada (a televisão só existe da maneira como hoje se estrutura em função dos anunciantes que a mantém), me dei conta de uma coisa ao mesmo tempo reveladora, significativa e surpreendente:

 

O Livro, tal como nós o conhecemos atualmente e desde sempre, é o último reduto livre da mídia de massa moderna. Podemos folhear um livro desde o Prefácio até a derradeira palavra “FIM.” sem corrermos o risco de darmos de cara com um anúncio de telefone celular, de um banco, empresa de seguros, loja de roupas ou eletrodomésticos ou qualquer outro tipo de propaganda.

 

O Livro é, ainda, um santuário dedicado à contemplação, ao exercício e ao ensinamento do “ser” em contraposição ao “ter”.

 

Depois desta constatação (creio que original, posto que não tenho visto ninguém comentar acerca do assunto em lugar algum), vamos ver quanto tempo leva para o primeiro livro com “anúncios” ser Livro da Vidalançado no mercado. O que me deixa tranqüilo é que meus três leitores são de confiança e não vào ficar espalhando esta idéia aos quatro ventos, ainda mais que seria totalmente surreal abrir o livro “Os Irmãos Karamazóv” e encontrar lá dentro um anúncio de “Importação legalizada de AK-47” ou então um anúncio de uma nova marca de cigarro. Imagine você, fiel, na igreja e o padre, pastor ou whatever pedindo pra você abrir a Bíblia no Livro de Eclesiastes, Capítulo tal, versículo tal, logo abaixo da imagem do novo modelo de automóvel da marca “Fod-se”.

Se você acha absurda esta idéia e acredita que isso nunca vai acontecer – me refiro (este trecho entre travessões é para os meio-entendedores) ao advento dos anúncios e propagandas e livros de todos os tipos (crônicas, contos, poesias e livros técnicos) – não precisa esperar sentado. Não dou uma década para que isso aconteça. E nada impede que ainda aconteça neste ou no próximo ano!

 

A necessidade em ocupar espaços do ser humano é algo impressionante. Só me admiro que ninguém tenha pensado nisso antes! Ou, se pensaram, graças aos bons ventos não levaram adiante a idéia de concretizar esta sandice.

 

Se você tem opinião sobre o fato de que os livros possam passar a ser utilizados como meio de propaganda através de anúncios visuais ou até mesmo da forma que os blogs são utilizados hoje – com anúncios entremeados ao seu texto através de “merchandising” ou mesmo de “colocações pagas”, deixe sua impressão nos comentários. Para ler meu editorial no Simplicíssimo, clique em Um mundo operário, um mundo literário.

 

E segue o baile, pois “se Deus não existe, tudo é permitido”.

 

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