Livro: o último reduto – Um mundo operário, um mundo literário

Posted By Rafael Reinehr on ago 29, 2008 | 14 comments


A leitura transformou-se de instrumento de lazer em peça de uma engrenagem utilizada para compensar as angústias de um mundo normalizado, individualista e competitivo. São poucos entre nós que conseguem comer e sentir o devido gosto nas refeições. Uma sucessão de garfadas que se sucedem uma em cima da outra, com mínimos espaços para a respiração é a tônica. Como conseqüência, a obesidade encontra-se em índices epidêmicos. Até as relações sexuais parecem que passaram a ser feitas por obrigação e precisam terminar o quanto antes para que se possa assistir ao filmezinho ou fazer outra coisa qualquer (dormir para enfrentar o dia seguinte?)… Sintomas conversivos e psicossomáticos são realçados neste mundo sem sentidos, em que o corpo oblitera até onde agüenta a angústia da crise de percepção mas cedo ou tarde acaba cedendo à pressão que vem de todos os lados.” (Um mundo operário, um mundo literário, de Rafael Reinehr)

Propaganda ChinaEsta semana escrevi um Editorial no Simplicíssimo acerca da degradação do mundo atual incluindo-se aí a decadência do lazer e do aprendizado em detrimento do trabalho e da anestesia, e o trecho acima é um excerto daquele texto.

 

Hoje, enquanto conversava com uma nova paciente acerca das opções humanas entre priorizar o “ter” ou o “ser”, sobre a influência das mídias de massa em especial a televisão, oferecendo circo e anestesia, oferecendo produtos comerciais antes de mais nada (a televisão só existe da maneira como hoje se estrutura em função dos anunciantes que a mantém), me dei conta de uma coisa ao mesmo tempo reveladora, significativa e surpreendente:

 

O Livro, tal como nós o conhecemos atualmente e desde sempre, é o último reduto livre da mídia de massa moderna. Podemos folhear um livro desde o Prefácio até a derradeira palavra “FIM.” sem corrermos o risco de darmos de cara com um anúncio de telefone celular, de um banco, empresa de seguros, loja de roupas ou eletrodomésticos ou qualquer outro tipo de propaganda.

 

O Livro é, ainda, um santuário dedicado à contemplação, ao exercício e ao ensinamento do “ser” em contraposição ao “ter”.

 

Depois desta constatação (creio que original, posto que não tenho visto ninguém comentar acerca do assunto em lugar algum), vamos ver quanto tempo leva para o primeiro livro com “anúncios” ser Livro da Vidalançado no mercado. O que me deixa tranqüilo é que meus três leitores são de confiança e não vào ficar espalhando esta idéia aos quatro ventos, ainda mais que seria totalmente surreal abrir o livro “Os Irmãos Karamazóv” e encontrar lá dentro um anúncio de “Importação legalizada de AK-47” ou então um anúncio de uma nova marca de cigarro. Imagine você, fiel, na igreja e o padre, pastor ou whatever pedindo pra você abrir a Bíblia no Livro de Eclesiastes, Capítulo tal, versículo tal, logo abaixo da imagem do novo modelo de automóvel da marca “Fod-se”.

Se você acha absurda esta idéia e acredita que isso nunca vai acontecer – me refiro (este trecho entre travessões é para os meio-entendedores) ao advento dos anúncios e propagandas e livros de todos os tipos (crônicas, contos, poesias e livros técnicos) – não precisa esperar sentado. Não dou uma década para que isso aconteça. E nada impede que ainda aconteça neste ou no próximo ano!

 

A necessidade em ocupar espaços do ser humano é algo impressionante. Só me admiro que ninguém tenha pensado nisso antes! Ou, se pensaram, graças aos bons ventos não levaram adiante a idéia de concretizar esta sandice.

 

Se você tem opinião sobre o fato de que os livros possam passar a ser utilizados como meio de propaganda através de anúncios visuais ou até mesmo da forma que os blogs são utilizados hoje – com anúncios entremeados ao seu texto através de “merchandising” ou mesmo de “colocações pagas”, deixe sua impressão nos comentários. Para ler meu editorial no Simplicíssimo, clique em Um mundo operário, um mundo literário.

 

E segue o baile, pois “se Deus não existe, tudo é permitido”.

 

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14 Comments

  1. Nunca comprei um livro de auto-juda, apesar da expressao ser redundante, todo livro está sendo lido para ajudar o leitor, da maneira que for.
    Já folheei inùmeros e nestes me chama a atençao o link para o pròximo, a complementaçao. Na literatura tradicional o autor conquista, claro que alguns amarram sequencias, mas muitas obras sao definitivas, o fim é o fim daquela história.
    Curioso fucei meus livros e achei alguns )editoras espanholas) que tem anuncios nas pàginas finais. Outro exemplo, alem da EDIOURO sao livros do Circulo do Livro, quem tambem anunciavam outras obras.

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  2. Público-alvo pequeno
    Fabiano, concordo que o público-alvo é pequeno. Mas há que se concordar que é um público interessante, com características peculiares [url]http://www.cultura.gov.br/site/2008/08/25/brasil-ganha-40-milhoes-de-leitores/[/url](pessoas com maior nível de escolaridade e melhores condições sócio-econômicas). Teoricamente, estas pessoas também seriam as mais aptas a se “defender” da gana consumista, mas não é o que vemos atualmente.
    Ademais, como médico endocrinologista converso com meus pacientes sobre suas vidas em geral, e percebo que muitas pessoas já utilizam a literatura como forma de equilibrar seu espírito. Leituras de auto-ajuda e livros espíritas estão entre os mais citados, mas mostram um caminho em direção ao “preenchimento do vazio”.
    Obrigado pelo comentário.

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  3. A leitura como compensação do vazio interior human
    Rafael, suas reflexões são pertinentes, todavia não creio que as pessoas irão adquirir a prática da leitura como forma de preencher o vazio que existe nelas.
    Acredito que muito mais fácil, para tais pessoas, assistir televisão ou fazer compras, por exemplo.
    E, conseguentemente, não creio que existirão propagandas publicitárias, da forma que você mencionou, em livros posto que o público alvo seria pequeno.

    Bem, essa é minha opnião.

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  4. O ser humano é mesmo incrível…
    …posto que, em um pequeno fórum, encontramos tantos argumentos diversos, alguns convergentes, outros divergentes e as conclusões que podemos tirar de um determinado assunto passam a ser aperfeiçoadas.

    Erny, lembrei da Ediouro, que desde sempre fazia propaganda de seus próprios livros e de algumas “coisitas” mais, desde que me lembro por gente. Não que “Caratê sem mestre” e “Caratê em 10 lições” sejam livros que se sentiriam ofendidos com uma dose de poluição visual, mas…

    Ribas e Caco, no subsolo já há propaganda desde sempre. A imagem acima que escolhi lembra da Revolução Cultural da China, em que a propaganda comunista está imersa em todos os estratos da vida social, inclusive na literatura. E não é a Bíblia uma grande livro publicitário, que vende um ideal de vida que serve aos detentores do poder à época do Concílio de Nicéia?

    Branco, concordo com você: realmente existe um reduto ainda mais derradeiro do que o livro!

    Obrigado pelos comentários, amigos.

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  5. RR, se ainda não pegou é porque não funcionaria. E já deve ter sido testado. Como disse o Leonardo, é muito investimento pra tão pouco público. E também concordo com o(a) Erny, que lembra dos logotipos de patrocinadores e marcadores de página.
    Dentre todos os aspectos insuportáveis disto que se chama “mundo moderno”, o “patrocínio” é mesmo o mais repelente.
    Quando cair a última fronteira (isto é, quando houver patrocínio na bunda da mulher amada), aí danou-se tudo. Até lá, resisto.

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  6. Publicidade na matemática
    Rafael, acho que já fizeram isso. Não sei se tu tens acesso a livros do ensino fundamental da disciplina de matemática, mas, no livro didático do nosso querido Antônio José Lopes (Bigode), 5º Série (nem me dei ao trabalho de pesquisar. Se tem no da 5º, imagina nos outros!) Tem uma puta propaganda do ponto frio, onde se destaca a figura de um pc completinho. Isso foi em 99. Claro que não tem telefone, e tal… Também não posso dizer que tenha “dindin” no meio.Alguns usam até mensagens subliminares, mas este está descaradíssimo. Só vendo o livro para entender o que digo.
    Abraços

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  7. Será que não tem mesmo?
    Olha que já tem! Será que a biografia do Paulo Coelho não foi paga por Paul Rabbit?

    É divulgação, é propaganda…

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  8. O PULO DO GATO!
    A-ha! A energia nuclear é uma dádiva ou uma praga? Energia “limpa” ou material de destruição em massa? Uma espingarda na mão de um caçador pode garantir o sustento de sua família ou a sobrevivência na selva, mas pode ser um perigo na mão de um psicopata em um shopping ou em uma escola. As coisas não são inerentemente boas ou más, mas o uso que fazemos delas sim.

    O Mauro, perspicaz como sempre deu o ” Pulo do Gato”, o salto intelectual que transformou algo a princípio opressor em algo que pode ser libertador ou mesmo vir a financiar e incrementar a cultura e a própria literatura.

    Obrigado Serbão, Solange, Leonardo, Valter e Mauro pelos significativos comentários, que já geraram material para um novo artigo que publicarei em breve. Obrigado do fundo do coração pelo estímulo intelectual que me proporcionaram!

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  9. Livre, livre, o livro nao está. Capa, contra-capa, orelha e o marcador de texto contem propaganda. Já no interior não divido haver mensagens subliminares.
    Os livros que vem de brinde com revistas e jornais são subsidiados pela propaganda.
    Acho que a moda pega(ou) nos livros “religiosos” de auto-ajuda, que amarram o conteúdo do proximo dentro do atual. A história sem-fim.

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  10. Boa idéia!
    Rafael, essa idéia também seria uma forma de financiar as publicações e buscar que mais livros fossem lançados a preços acessíveis ou até mesmo 100% custeados, podendo ser material de estudo em escolas e distribuídos em locais de grande circulação como pontos de ônibus, metrô, etc, para a simples estimulação da leitura.
    As empresas/pessoas interessadas poderiam ter suas marcas/nomes associadas ao livro e ainda buscar algum ressarcimento fiscal com investimento em cultura. Talvez…

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  11. Rafael, grande idéia, rapaz!
    Já pensou no Capão, outras histórias? Teria anúncios de trezoitão, balas dun-dun, carros, pneus, coletes a prova de bala, etc.
    Precisamos vender esta idéia.
    Forte abraço

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  12. não sei não
    Rafael, a idéia pode ser boa, em tese. Mas acho que não vale o investimento do anunciante. 15 segundos na TV ou meia página numa revista de circulação nacional atingem um público muitas, mas muuuuitas vezes maior (mesmo comparando a tiragens de um Paulo Coelho, por exemplo).

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  13. Boa idéia!
    😀 Rafael, de fato perguntatmos porque alguém ainda nao teve essa “boa” idéia. Quando foi lancado aquí na Alemanha o e-book, o livro eletronico, que é igual a uma telinha de ocmputador, fui testar os modelitos na biblioteca de Colonia. Um sonho ter dezenas de livros arquivados alí num lugar só na telinha e eu podia acessar rapidamente o título que preferisse… Bem, depois de “folhear” as páginas do e-book minha vista ja estava cansada e precisava apertar os olhos cansados para ler e carregar aquela coisa na bolsa nao era la muito prático. Imagine que voce esta no capítulo final e tenha esquecido de carregar as baterias? Pimba! E até chegar em casa e colocar a coisa na tomada para carregar, voce ficara pensando se foi o mordomo ou o jardineiro quem matou a Odete Reutman. Nao, nao resolvi ficar com o velho livro, esse que a gente folheia e folheia faz orelhas, cheira o cheiro da tinta impressa. Quanto aos anúncios, bem, voce alertou agora as editoras. Peca a elas direitos autorais pela sua “boa” idéia. Que é original, ninguém duvida. Um abraco. Solange

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  14. Rapaz, não dá idéia nao, que algum destes executivos aí põe em prática. e eu já senti isso na Bienal agora em SP. só faltou o anuncio no próprio livro, porque o evento estava mercantilista até a medula.

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