Category Archives for "Quase Filosofia"

Jul 01

Pequeno guia para o futuro médico, por Rafael Reinehr

By rafaelreinehr | Bem-estar , Buscando a si mesmo , Novidades! , Quase Filosofia

Pedras harmonia

Hoje estou completando 40 anos de idade. Como gosto de dizer, estou chegando ao final do primeiro quarto da minha vida. Vamos aos 120 faltantes!

Nos últimos anos, questionei meu próprio lugar na profissão que escolhi, lá nos meus 16 ou 17 anos: a Medicina.

Muito deste questionamento adveio da desilusão  em relação à indústria da Medicina: a mecanização e desumanização do atendimento, o farmacocentrismo do tratamento, diagnósticos cada vez mais superficiais em função de uma atenção cada vez menor ao que os sinais e sintomas do paciente tem a nos dizer, a falta de desejo verdadeiro dos próprios pacientes em buscar a melhora de suas condições (ou pelo menos a motivação insuficiente em realizar as mudanças de hábito de vida necessárias a uma vida saudável) e a consciência de que as ferramentas que me haviam sido passadas na Medicina Alopática Ocidental eram, apesar de poderosas, francamente insuficientes para cumprir a missão à qual havia sido designado.

Mas, curiosamente, nos últimos 2 anos, começou a surgir uma percepção diferente de como eu poderia gerar uma reação a este modelo medicocêntrico e recuperar o “tesão” pela promoção da saúde, de uma forma nunca antes experimentada por mim nestes últimos 16 anos de formado.

Essa reação veio na forma de duas iniciativas. A primeira delas, o Medictando, um portal de Educação em Saúde, Qualidade de Vida, Bem-estar e Felicidade. Em resumo, um portal que tem como missão ajudar as pessoas a Bem Viver; a segunda, a ser lançado ainda neste mês de julho, a ZenNature, um espaço onde efetivamente o bem viver é representado pelos produtos que consumimos e que trazemos para dentro de nossa casa, para nossa família e para dentro dos nossos corpos.

Para bem além do conceito de “ausência de doença”, a abordagem de saúde que busco promover é aquela inspirada pelo Benson-Henry Institute, de Boston: criar as condições para que cada ser humano atinja sua potência plena na face da terra, enquanto um ser vivo integral em suas dimensões física, mental, emocional, social e espiritual.

Passei quatro décadas aprendendo. É hora de devolver ao Universo um pouco da sabedoria que me foi concedida, ao mesmo tempo em que sigo, continua e dedicadamente, absorvendo e aprendendo com todo estímulo possível que me é ofertado.

E em breve, tenho um convite muito muito especial a te fazer. Vou te convidar a participar junto comigo desse sonho e desse caminho, como meu apoiador ou minha apoiadora, lá na página do Patreon que estou criando para possibilitar que esta jornada, que esta aventura seja a mais intensa, duradoura, profunda e abrangente possível. Te quero parte dessa tribo de pessoas que acreditam no humano como força propulsora de sua própria vontade, como catalisador da mudança de um estado atual para outro, melhor.

Estou preparando um texto, que vou transformar em vídeo, para te explicar melhor como você pode me ajudar! Fique atento(a) nos próximos dias!

Pedras equilíbrio harmonia

Para que este escrito aqui não se transforme em um romance, me despeço recuperando aqui um pequeno textículo que escrevi em 21/08/1998, quando ainda era estudante do nono semestre de Medicina da UFRGS. Creio que ele serve como ponte para o momento atual que vivo e que vivi naquela época, há 18 anos:

Pequeno guia para o futuro médico

  1. O médico ocupa-se com um único organismo, o sujeito humano, em luta para preservar sua identidade em circunstâncias adversas;
  2. Curiosidade intelectual é essencial; apenas o médico curioso pode progredir em relação à doença do paciente assim como na ciência da Medicina;
  3. A prática da Medicina é uma arte tanto quanto uma ciência; a habilidade de um médico em ajudar um paciente depende não apenas de seu conhecimento mas da maneira que ele o utiliza;
  4. As ferramentas mais importantes do médico continuam sendo seus olhos, mãos e ouvidos; as capacidades básicas em cuidar de pacientes requerem inspeção, palpação e, mais importante, a escuta atenciosa;
  5. Nem sempre se pode curar uma pessoa, mas sempre podemos confortá-la;
  6. Tornar-se médico não é apenas completar a faculdade e a residência: é antes de mais nada escolher por um modo de vida, permeado e determinado por questões morais e éticas, para o resto da vida;
  7. Cada palavra que pregamos, cada ato que realizamos, irradia de nossos corpos e vai se espalhar, distribuindo à Natureza nossos sentimentos, sentimentos esses que são por ela captados e devolvidos integralmente. Só quando todos nos dermos conta disso poderemos, finalmente, curar uma pessoa. Até lá, nos resta seguir aprendendo.

 

Jul 01

39 anos, uma Odisseia

By rafaelreinehr | Efervescências , Quase Filosofia

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mis-én-scene, ou esbravejando, na Marcha das Vadias de Criciúma – foto Mariana Noronha

Da última vez que nos encontramos para um bate-papo assim tão longo, eu tinha 33 anos, está lembrado? . Ainda, como naquela ocasião, sinto que nada me falta. Materialmente falando. Tudo o que busco agora é preencher alguma possível lacuna espiritual. Ou então, quem sabe, é conseguir esvaziar-me por completo, e perceber que o Tudo e o Nada são, enfim, a mesma coisa.

Papos zen à parte, descobri muita coisa nestes últimos seis anos. Acho que pode ser interessante compartilhá-las aqui, nesta conversa leve e solta que estou tendo com você.

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cozinhando para os amigos, no Solar das Lagartixas

Em primeiro lugar, quero dizer que melhorei muito em alguns aspectos neste período. Mas acho que posso ter piorado em outros, também. Aproveite para descer a lenha em mim nos comentários! Espero que, no cômputo geral,  se é que isso existe, o saldo tenha sido positivo.

Aprendi que, para um casamento durar, não basta querer. Não basta que somente um seja “nós”, mas que ambos o sejam. Aprendi que o desencanto pode surgir assim, de uma hora para outra. Mesmo que esta “hora para outra” não seja assim tão instantânea… Aprendi que olhar para o mundo, tentar salvar “o mundo”, começa, na verdade, por olhar pra gente, para dentro, e começar por nós mesmos. Na verdade eu sempre soube: a distância entre a teoria e a prática é que são elas… O resto é consequência, o resto é respingo das mudanças que promovemos de dentro pra fora…

Aprendi como é bom poder voar e criar novamente, como é bom fazer novos planos, outros planos, sentir novos ares, outros ares e perscrutar novos-velhos lugares. Aprendi que sempre que caímos, podemos levantar, e que as feridas dóem mas saram. E nos ensinam. E o que aprendemos, levamos conosco no caminho que segue.

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Falando sobre a Coolmeia, na Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre

Voltei a me apaixonar pela música, e estou me dedicando progressivamente mais ao estudo das quatro e das seis cordas. Voltei a tocar em uma banda. E vamos logo logo gravar um compacto.

Voltei a escrever. E voltei a ser eu mesmo. Voltei a Escrever Por Escrever. E voltei a ousar. E voltei a assinar mais em meu nome e menos em nome da coletividade. Ego x Eco. Lego – Levo.

Voltei a me apaixonar, e estou me dedicando cada vez mais ao novo amor, de dia, de noite, de madrugada, em cima da cama e embaixo da escada…

Continuo sentindo e aprendendo que nossa meta precisa ser o bem, e que na hora em que menos esperamos, ele retorna pra gente, pelo menos na mesma intensidade mas geralmente em quantidade muito excedente à que praticamos. Hoje, dia primeiro de julho de 2015, quando completo meus 39 anos e – novamente – não vou fazer festa, mas sim festejar com minha namorada

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com Conrado e Benjamin, na casa da vó Gisa

 

e meus filhos, jantando com calma, paz e delícia, Hoje, dia como qualquer outro, mas se não

fosse eu, seria outro, recebo uma ligação que vale como um desses presentes inesperados que a vida nos dá. Senta que lá vem história:

Há algumas semanas, colocaram para alugar aqui em Santa Maria – RS um local no qual havia sido, por 19 anos, uma

loja de discos, CDs, camisetas, discos de vinil, chamada Exclusive. Essa loja fechou e o local, o segundo andar de um sobrado construído na década de 20 do século passado, fica na mesma quadra da escola dos meus filhos, em cima de uma padaria, em área central da cidade e perto de tudo, inclusive do meu trabalho, para o qual posso ir caminhando. O problema: a reforma dessa casa tem um valor relativamente significativo, já que todo piso, forro e aberturas estão tomados de cupins. Basicamente, tudo precisa ser trocado. Apesar de querer ficar muito morando lá, e até mesmo utilizar o local como algum ponto de encontro cultural ou de ativismo sócio-ambiental na cidade, os altos custos tornavam as possibilidades de mudança para lá remotas. Agora, a mágica: a ligação que recebi foi do proprietário que, ao conversar com sua irmã, e sentindo minha boa vontade em cuidar com

verdadeiro carinho e apreço pelo lugar, decidiram dar-me 2 anos (DOIS ANOS!) de carência no aluguel, para que eu possa realizar as reformas planejadas!!! Ypiiii! Um presentão! É aí que se fala de ganha-ganha: ganho eu, ganham eles, ganha a comunidade santamariense… Ideias já fervilham sobre o que irá acontecer no novo Solar da Andradas. Chega mais, e vem contar esse nova página da história com a gente!

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foto do amigo André Jacob, brincadeira em estúdio

E a vida rebrota. Morre-se, composta-se, revive-se e o ciclo finda infinitas vezes para reiniciar aqui e acolá, mutante, mudado, mudante…

Seis anos depois, uma coisa não muda: ainda espero que minhas amigas e amigos de verdade continuem me presenteando

com o que pedi, pela primeira vez, naquela ocasião: “se quiser me dar um presente no dia de hoje (ou em qualquer tempo), faça isso: pratique, com desapego, sem interesse por receber nada em troca, um ato de generosidade com alguém que você não conhece. Se calhar, permaneça com o espírito aberto, para repetir esta proeza quando for possível. Se conseguir, estará me dando um presente mais valioso do que qualquer um que já ganhei.”

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Conrado, Luana, Benjamin e eu, na casa da bisa Helga, em Agudo.

 

Dec 31

2014, o ano do jeito que eu precisava; 2015, o ano de entrar no fluxo

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

 

Esse ano não aconteceu do jeito que eu queria… Mas provavelmente, deve ter sido do jeito que eu precisava…

Essa reflexão que serviu para mim, talvez tenha servido para você também. Muitas das escolhas que fazemos não são as mais sábias, ou mesmo que sejam, não são bem compreendidas por quem convive conosco.

As mudanças que se imprimem sobre nossas vidas nem sempre são controláveis ou contornáveis: respondem a várias variáveis e são determinadas pelo ambiente, por outras pessoas, por fatos e eventos distantes e sim, uma parte delas cabe a nós determinar.

Quem acha que, a qualquer momento, tem a situação toda sob controle, ainda não sofreu com a força do vento.

Que em 2015 tenhamos a sabedoria de andar com o fluxo, de ouvir e aprender, de se aquietar mas também de irromper e agir na hora certa. Que possamos conviver com a maior dádiva que temos que é o Agora, com nosso maior presente que é o Presente. Não vamos deixar para depois…

Neste mesmo ano que me trouxe perdas e afastamentos, foi também riquíssimo em encontros, reaproximações e novas possibilidades.

Que os ventos da mudança continuem soprando e nos levem até as praias paradisíacas que só nos sonhos mais desviantes conseguimos imaginar.

Ficam os votos de um excelente início de 2015 a todxs meus amigxs, familiares e conhecidxs. As portas do Solar das Lagartixas, da Fazenda Bom Encontro e do Aconchego das Dores estarão abertas para todxs.

Um abraço fraterno, solidário e libertário,

Feliz 2015.

Rafael Reinehr

 

Sep 28

O que aconteceu com o cristal?

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

(esta história relaciona-se com uma passagem bem particular da minha vida, e qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência).

O que falta responder? Falta descobrir o que aconteceu com o cristal. O cristal quebrou? Ou ele está envolto em uma grossa camada de barro, oculto embaixo dela? Se quebrou, não tem como ser consertado. Não tem mais como ser "aquele cristal" de antes. Sem jeito. Se está coberto de barro, basta lavá-lo, cuidadosa e persistentemente. O barro vai sair e o cristal continuará lá, lindo e transparente.
Mas a complexidade da imaginação humana consegue, ainda encontrar mais soluções além destas duas que surgem à primeira vista (aceitar a perda do cristal ou tirar-lhe a sujeira).
Podemos adquirir outro cristal ou então, ao invés disso, podemos "remixar o cristal". Adquirir outro cristal pode ser o caminho mais fácil. Nos desapegamos do cristal antigo e buscamos, quer seja em um antiquário ou então em uma loja qualquer, um cristal para substituir aquele que quebrou. O novo cristal é a negação do antigo. É a busca de outra história, mesmo que seja repetindo os mesmos caminhos (queremos, novamente, um cristal).
Mas existe ainda uma quarta solução, advinda da cultura japonesa, chamada Kintsugi. Kintsugi é a arte de reconstruir cerâmicas quebradas com uma resina misturada com pigmentos de ouro, prata ou platina. (Veja algumas imagens em http://www.pinterest.com/egurian/kintsugi-repaired-in-gold/). A filosofia por trás do Kintsugi nos ensina que o quebrar e reparar se torna uma parte da história do objeto, ao invés de simplesmente rejeitá-lo.
O Kintsugi pode se relacionar à filosofia japonesa do "no mind", que encompassa os conceitos de desapego, aceitação da mudança e destino como aspectos da vida humana.
Significa respeitar e abraçar amorosamente a história do objeto, e buscar o novo através de novos caminhos – já não precisamos de um cristal perfeito, mas valorizamos a história daquele cristal que a partir de agora, é único, não mais "fabricado em série".
Saberemos ser artesãos de nossas próprias vidas? Ou buscaremos outros cristais, outras histórias, para logo ali na frente descobrir que estamos repetindo o mesmo padrão de sempre?
A resposta encontra-se dentro de cada um, e somente cada um de nós consegue submergir e resgatá-la.
Bom mergulho!

(este texto foi escrito para uma pessoa muito especial, que está em um caminho de descoberta, compreensão e busca de si mesma, mas serve como reflexão para cada um de nós, em nossas próprias buscas pessoais)

Viena, 18 de setembro de 2014.

 

Dec 31

O ano da empatia

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Está no ar um grande sensação de que tem algo sobrando e, ao mesmo tempo, tem algo faltando. A cada dia, mais e mais pessoas estão deixando de morder o anzol da máquina publicitária, que vende como ideal uma vida repleta de posses, pautada por um consumo infinito que, ao mesmo tempo, consome todo o nosso dia. Exemplos advindos dos quatro cantos do mundo mostram como é possível construir uma vida mais significativa, baseada em laços de solidariedade, apoio mútuo, confiança, empatia e gratidão.

Estamos progressivamente mais antenados com as vantagens mas também com as limitações que uma vida altamente tecnológica nos impõe. Ao mesmo tempo, temos nossas distâncias encurtadas, toda comunicação acontece de forma extremamente rápida. O mundo em uma casca de noz. Ao mesmo tempo, a hiperinformação nos deixa mais confusos e estabanados do que nunca. Não sabemos como processar tantos dados e estímulos. Estamos sofrendo de fadiga de escolha. Todas as escolhas que aqueles que dizem nos governar tem sistematicamente feito, não tem ajudado a reduzir a injustiça, a violência, a opressão e a desigualdade e, em alguns casos, tem feito aumentar. A percepção deste "abandono" por parte das instituições oficiais, que estão mais preocupadas em se autogovernar e se autossustentar do que prover as necessidades – mesmo as básicas – à população que outrora nelas confiava, tem gerado uma "corrida às montanhas", uma busca de alternativas por parte de um grupo de pessoas que não irá esperar o barco afundar para depois telefonar de seu micoPhone encomendando um par de salva-vidas furado da China.

Estas pessoas estão se organizando em coletivos, movimentos, redes e grupos de afinidades através das planícies, colinas e urbes. Estão decididamente criando novas-velhas formas de se relacionar, baseadas em uma série de princípios libertários, que negam a opressão, a dominação e a hierarquia para fundar uma nova base, horizontal, colaborativa, empática e entremeada pela confiança mútua, há muito perdida na sociedade contemporânea. Este retorno a práticas ancestrais precisa ser celebrado.

Junte-se a nós no Solar das Lagartixas para um jantar e potluck comunal. No dia 22 de janeiro iremos cozinhar um jantar vegano simples, mas encorajamos outros a trazerem coisas para comer: frutas, vegetais para cozinhar ou comer crus, pães e queijos, vinhos e sucos, sobremesas ou o que desejar.

— Será um momento para compartilhar alguns momentos juntos, fora dos espaços nos quais nos encontramos sempre instrumentalizando, profissionalizando e racionalizando nosso tempo, relações, decisões e vidas.

— Um tempo para comer, falar, encontrar uma o outro, para diretamente se contrapor à fragmentação social, individualismo e solidão que vemos em qualquer lugar para o qual olhamos.

— Para nos mover em direção a nos sustentarmos coletivamente fora das nossas relações individuais com o mercado e o estado; para conquistar uma maior autonomia material coletivamente Isso significa iniciar e prosseguir com uma série de práticas e relações; ser consistente e confiável; estabelecer uma fundação forte para uma nova forma de vida. Isso é parte de uma estratégia para resistir ao que nossas vidas se tornarão se não nos organizarmos.

Nós queremos uma política que leve a sério nossa prória realidade como base para a auto-organização. Uma política que reconheça que se organizar coletivamente ao redor das nossas necessidades com amigos, camaradas, amantes, vizinhos, colegas de trabalho e membros da família se tornará a base para as nossas comunas. Nossa habilidade de sobrepujar a degradação trazida pela atual crise social, política, econômica e ambiental se dá na medida da nossa capacidade para sermos solidários e do nosso desejo em estarmos auto-organizados.

Em 2014, mostraremos que nossa capacidade de comunicação e articulação está mais vicejante do que nunca. E é só o começo.

22 de janeiro de 2014, 20 horas 
Solar das Lagartixas
Rua Sergipe, 339
Jardim das Avenidas
Araranguá – SC
(Sacola mágica estará recebendo contribuições espontâneas para a Coolmeia)

Ou em qualquer local e horário perto de você. Inspire-se: conspire!
 

Referências:

 Referências:  1. Inspiração para convite: jantar de solstício do The Base, NY - dezembro de 2013 2. BAUWENS, M. - Reestruturando a economia com a empatia em seu centro  - bclog.p2pfoundation.net/restructuring-the-economy-with-empathy-as-its-center/2013/12/29 3. Center for Building a Culture of Empathy - http://cultureofempathy.com/
Sep 02

Samsara

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Samsara (sânscrito-devanagari: संसार: , perambulação) pode ser descrito como o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos.

Na maioria das tradições filosóficas da Índia, incluindo o Hinduísmo, o Budismo e o Jainismo, o ciclo de morte e renascimento é encarado como um fato natural. Esses sistemas diferem, entretanto, na terminologia com que descrevem o processo e na forma como o interpretam. A maioria das tradições observa o Samsara de forma negativa, uma condição a ser superada. Por exemplo, na escola Advaita de Vedanta hindu, o Samsara é visto como a ignorância do verdadeiro eu, Brahman, e sua alma é levada a crer na realidade do mundo temporal e fenomenal. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Samsara)

Este clip é um vídeo de 6 minutos de um filme de 100 minutos, filmado em 25 países e que explora muitos outros aspectos da experiência humana. Filmado em 70mm (!!!), é um dos poucos do gênero no mundo.

Dec 13

Saude – Parte II (de VIII)

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

No mês passado, vimos como o termo Saúde é muito mais amplo do que um mero estado de equilíbrio emocional e físico, e uma série de “palavras” e de “estados” de vivência podem ser correlacionados a pessoas mais ou menos saudáveis. Preguiça, frugalidade, simplicidade voluntária são algumas dessas “palavras” ou escolhas que podemos fazer cotidianamente.

Hoje vamos abordar outros aspectos que, invariavelmente, estão ligados à nossa percepção de saúde. O primeiro deles são nossas relações no e com o trabalho. Faz parte do cultivo de uma situação de vida saudável a escolha de uma ocupação que realmente nos satisfaça. Confúcio dizia: “Teu único trabalho é encontrar um trabalho que realmente goste. A partir daí, não trabalharás mais nenhum dia em tua vida”.

A experiência também nos mostra que atitudes aparentemente simples de entender (mas nem sempre simples de praticar) como manter bom relacionamento com os colegas de trabalho, possuir transparência nas relações no trabalho e buscar espaços de produção criativa, de valorização do trabalho (ao invés de ater-se somente a trabalhos burocráticos ou repetitivos) estão diretamente associados a uma sensação de bem-estar e consequentemente correspondem a aumento nos níveis de qualidade de vida.

Um outro fator relevante é a nossa relação com o tempo. O que é saúde senão se ter tempo e disposição para fazer aquilo que se gosta? Um dia escrevi: “A riqueza de um ser humano é medida à justa equivalência do tempo no qual se está fazendo exatamente aquilo que se quer fazer”. Se julgarmos correta essa asserção, ela demonstra o quão é importante o nosso zelo em relação ao bom uso do tempo (finito) que temos disponível a cada dia, semana, mês, ano, vida… Tempo, mais ainda do que dinheiro, é Saúde…

Nossa Espiritualidade está também diretamente associada a como nos sentimos em relação a nós mesmos, aos outros e à Natureza. Saber lidar com a intuição, perceber o sofrimento, o medo e a angústia e o desconhecido como partes inerentes à nossa humanidade e aprender a lidar com isso, a partir do autoconhecimento e da nossa ligação com algo maior do que nós – que pode ser chamado de Deus, divindade, Natureza ou como quer que o chamemos – pode se transformar em algo acolhedor e reconfortante, nos trazendo, assim, saúde.

Uma palavra que dificilmente se vê associada ao conceito de Saúde é “consenso”. Entretanto, quando não há consenso, é difícil haver saúde. Quando não há consenso, há um lado vencedor e um lado vencido, há sofrimento, portanto dor, logo, ausência de saúde. Mesmo o lado vencedor permanece com a consciência de que existiu um perdedor, o que gera angústia, mesmo que inconsciente.

No próximo mês desvendaremos como palavras e expressões como Sustentabilidade, Resiliência, Felicidade, Parar de Buscar, Impermanência e Viver o Presente podem significar, para muitos, ser saudável.

Até lá.

 

Outros artigos da série “Saúde”:

estrada_futuro_abr
Sep 25

Apontamentos para Depois do Futuro

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Estamos presenciando um momento da história em que a sociedade caminha para um estado de destruição da ordem social vigente.

Estamos caminhando por um momento da história no qual a sociedade começa a não mais resistir aos efeitos destrutivos do capitalismo sem limites, nos quais esta sociedade já se despedaça cada vez mais em decorrência do poder devastador do acúmulo financeiro.

estrada_futuro_abr

Aqui e acolá, como sempre foi, existem movimentos de resistência a este “estado das coisas”. Indivíduos, coletivos, redes e movimentos se articulam, cada qual com suas agendas e interesses, para combater o espetáculo da máquina capitalista. São anti-racistas, anti-sexistas, anti-capitalistas, anti-…

Entretanto, a resistência ainda está limitada pela sua falta de autonomia. Em parte, pois esta autonomia queda-se atrelada aos vínculos com este mesmo sistema capitalista, na qual as instâncias de resistência buscam seus recursos para a luta e o enfrentamento. Elas não conseguem suprir, sozinhas, as necessidades básicas para a vida em sua estreita rede especializada. Não se criaram, ainda, comunicações em frequência e intensidade significativas entre grupos e comunidades de resistência.

Do ponto de vista estratégico, enfrentar o poder com violência parece ser algo suicida nos dias de hoje. E sem sentido. Como podemos pensar em enfrentar organizações ungidas e patrocinadas por todas as forças instituídas da sociedade e que, ainda por cima, contam com o apoio quase irrestrito da população alienada em geral?

Talvez, o desaparecimento seja uma tática a ser melhor planejada e utilizada. Mas desaparecimento não como fuga para um local idílico, mas sim como estratégia de luta e enfrentamento. Um enfrentamento através da não aceitação das formas capitalistas de existir e conviver.

O desaparecimento do sistema estabelecido através da criação de viveres e sentires que quebrem completamente o paradigma de opressão, dependência e escassez do livre mercado, substituído por um outro sistema no qual a economia se pauta por uma nova ética e seja mais transparente, valorize o planeta e seja mais inclusiva, valorizando os demais seres, respeitando e mantendo a biodiversidade da Natureza.

Um dos primeiros passos é reconhecer a irreversibilidade das tendências catastróficas que o capitalismo inscreveu na história da sociedade humana. Mas isto feito, não significa que devamos abandonar o barco. Ao contrário: estamos, nós, imbuídos de uma tarefa cultural e geracional imensa, que é o de viver o inevitável com uma alma serena. Devemos conclamar uma grande onda de retirada, de dissociação massiva, de deserção da cena da economia, de não participação do falso show da política.

O foco mais essencial dessa transformação social e cultural será a singularidade criativa, uma força oriunda do desejo de alguns que, a partir do contágio, se tornará uma força imparável para a mudança.

Para nos certificarmos de que a resistência e nossa tarefa cultural está nos guiando pelo caminho certo, basta nos recordarmos da catástrofe ecológica iminente, das ameaças geopolíticas, das guerras pelo petróleo, dos colapsos econômicos causados pelas políticas financeiras neoliberais, o dinheiro de fumaça do sistema monetário atual e da paralisia política e judiciária frente ao poder econômico da classe mandante e criminosa.

A conquista de formas de exercer a autonomia no aqui e agora é um passo essencial para, em primeiro lugar, fornecer a sustentabilidade das ações que se deseja e, em segundo lugar, para o avanço e potencialização destas.

Ao mesmo tempo em que é fácil prever, para os próximos anos, uma série de insurgências civis aparecendo, aqui e acolá, em função do difícil acesso à água, o alto preço dos alimentos, o elevado custo dos combustíveis, da habitação e da energia, taxas crescentes de desemprego ou subemprego, violência e repressão crescentes e restrição de liberdades individuais em um modelo neofascista de governança global, não consigo visualizar uma resistência suficientemente organizada que consiga fazer frente a toda esta gama de problemas causados pelo próprio metabolismo capitalista.

Os mais abastados continuarão, com o poder econômico que detém, controlado as forças instituídas de poder e através de cadeias incontáveis de títeres, manipulando até o mais singelo funcionário da limpeza pública. A militarização dos espaços públicos, dos grandes centros de poder, a vigilância e a sociedade de controle que se vem gradual e subrepticiamente se estabelecendo, não permitirão que pequenos grupos de insurgentes consigam modificar qualquer coisa muito além da superfície e daquilo que, para contentamento da mídia e da sociedade do espetáculo, se desejar fazer aparecer.

Depois do Futuro, o que nos espera é a criação de Zonas Autônomas Permanentes, espaços de transição pacíficos e ao mesmo tempo altamente revolucionários, que carregarão consigo não somente o gérmen mas toda a mudança que se propõe. Serão espaços vivos, a cores e ao ar livre de experimentação social. Espaços como este já pipocam em vários cantos, mas ainda não se articularam de forma eficiente nem se enraizaram na cultura e na consciência de uma rede de resistência emergente.

Importante observar que, enquanto o processo de produção de singularidades criativas (desaparecimento da sociedade capitalista e formação de Zonas Autônomas Permanentes) será um processo pacífico, as reações da maioria conformista serão violentas. A percepção de que energias inteligentes e de poder criativo e harmônico estão escapando gera, paradoxalmente, um ataque a estas mesmas forças que se expressam através do compartilhamento da inteligência e do conhecimento ao invés da apreensão e comercialização deste. Movimentos pela restrição das liberdades na internet, acirramento das leis de direitos intelectuais e punições mais severas a quem acredita em mídias livres e acesso irrestrito à produção científica e cultural são espasmos agônicos de uma sociedade que teima em tapar seus ouvidos e fechar seus olhos ao espírito do tempo.

A despeito da imprevisibilidade deste processo de criação de espaços de vivências mais justas, equânimes, conviviais, libertárias, horizontais, autônomas e resilientes em meio a uma sociedade opressora, hierárquica, reguladora e normalizadora, sabemos que precisamos, quando possível, fugir do confronto direto com a classe criminosa e a população conformista, criar zonas humanas de resistência, de singularidade criativa, experimentar com formas autônomas de produção utilizando métodos de produção tecnológicos de baixa energia e eficientes ambientalmente e disseminar tecnologias apropriadas e tecnologias de cooperação, que permitam uma aceleração de novas formas de consciência coletivas e em rede.

Enquanto as pessoas gradativamente se tornarem mais desesperançosas, deprimidas, assustadas e impotentes pelo fato de não conseguirem lidar com a economia pós-crescimento e suas consequências, nossa tarefa cultural será atender a estas pessoas, oferecendo um alívio para sua insanidade, mostrando-as o caminho para uma adaptação feliz. Nossa tarefa será a criação de zonas de resistência humana que funcionem como zonas de contágio terapêutico. O desenvolvimento da autonomia não busca destruir e abolir o passado. Como na terapia psicanalítica, as Oficinas de Criação de Autonomia (OCAs) deverão ser consideradas um processo sem fim.

(Inspirado e adaptado do texto “I think that is time to ask”, de Franco Bifo Berardi – lido em Adbusters #100)

Aug 23

Saude – Parte I (de VIII)

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

(artigo originalmente publicado na minha coluna Medic(t)ando, na Revista DOC, edição #020, de março/abril de 2012)

Pela definição da OMS, saúde não é mais definida pela simples ausência de doença, mas por um “completo estado de bem-estar físico, mental e social”. Esta definição, muito abrangente e quase utópica, é com frequência criticada e do meu ponto de vista, poderia muito bem ser substituída pela definição de Segre e Ferraz:

Saúde é um estado de razoável harmonia entre o sujeito e sua própria realidade“.

Esta definição, permite que pessoas que estejam em situações sociais ou mesmo físicas de dificuldade, mas que estão lidando bem com isso mentalmente, sejam consideradas saudáveis (como por exemplo uma pessoa com baixa renda ou com uma deficiência física permanente, o que não é possível pela leitura em senso estrito da definição da OMS).

Levando em conta esse novo olhar sobre o que é a saúde, podemos passar a incluir em nossa vida algumas palavras que, sem dúvida alguma, representam, em seu conjunto, um olhar mais apurado sobre qualidade de vida e bem-estar. Nas próximas edições da Medic(t)ando estarei aprofundando um pouco mais sobre algumas palavras e seus significados, e como podemos extrair delas lições para otimizar nossas vidas.

A primeira palavra que gostaria de colocar sobre a mesa é “Preguiça”. Como já dizia Lessing, “sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos”. Um provérbio espanhol também nos diz: “Descansar es salud” (descansar é saúde). Movimentos como o Slow Food (movimento ecogastronômico que nos convida a comer devagar, sentindo o prazer do gosto dos alimentos e das refeições, nos estimula a sermos conviviais e refletir sobre a origem dos alimentos, sobre serem orgânicos ou produzidos localmente), o conceito de ócio criativo, experiências como a procrastinação e a “redeterapia” (usar uma rede de dormir para descansar, quando possível, mesmo durante o dia), são todas experiências que podem nos ajudar a ganhar pontos no quesito saúde.

Outra palavra que também nos é muito cara no caminhar para uma maior qualidade de vida é a “Frugalidade”, ou a “Simplicidade Voluntária”. Ser frugal é ser simples em nossos costumes, em nossa forma de viver. É não correr demasiado em busca do ter, pois reconhece-se a ilusão de que isto é feito. é evitar o desperdício, é preocupar-se com a ecologia, é dispensar hábitos caros, é suprimir a necessidade de auto-gratificações constantes.

Há alguns anos, cunhei uma expressão que chamei de Atitude Ecofit, quando aplicamos o ato de pensar de forma frugal, locávora e trazemos gotas de humanidade e vida em comunidade para o nosso pensar. Comecei a me questionar sobre as caras roupas de tênis que eu usava, e que eram feitas na Indonésia por alguma criança ou adulto mal-remunerado. E se eu solicitasse a alguma costureira da vizinhança que fizesse os meus calções e camisetas, seguindo os padrões de marcas como Nike, Head e Adidas? Mesmo que não ficasse exatamente igual, eu saberia que estaria ajudando alguém que conheço, perto de onde moro, fortalecendo a economia local, remunerando-a de forma justa e, ainda por cima, me livrando de uma marca globalizada que, historicamente, não respeita seus funcionários além-mar. Só essa percepção, no meu caso, já contribuiu para me deixar mais feliz.

O espaço vai acabando e estamos apenas começando. Na próxima coluna vamos falar um pouco mais sobre Saúde, Qualidade de Vida e Bem-estar nas Relações no e com o trabalho, na nossa relação com o Tempo e com a Espiritualidade.

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