Category Archives for "Nanoresenhas Canalhas"

Virgínia Berlim
Sep 09

Luiz Biajoni – Virgínia Berlim – Uma Experiência

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

Virgínia Berlim         Conheci o Biajoni durante os Jogos Olímpicos de Berlim. Ele competia no arremesso de dardo e eu tentava, na minha segunda Olimpíada, uma medalha no arremesso de peso.

         Mas é óbvio que essa história não aconteceu e foi escrita somente para que você preste atenção no resto dela. Creio que a esta altura você já está irremediavelmente preso.

         E preso você também vai ficar quando ler Virgínia Berlim – uma experiência, a última novela de Luiz Biajoni. Publicada pelo selo independente Os Viralata em 2007, pode ser visto por uns como um romance policial mas, antes disto, é uma experiência constituída de sentimentos confusos e intensos. Paixão, insegurança, medo, expectativa, ironia.

Escrito basicamente em primeira pessoa, o personagem narrador é dotado de uma linguagem peculiar – talvez transferida diretamente do autor, sem pedágios ou intermediários – abrandada em relação ao primeiro romance de Biajoni (Sexo Anal). Uma novela para quem já teve o pé machucado ou já viveu uma grande paixão. Para quem já arrancou os cabelos ou foi ao médico. Para quem já sorriu e disse adeus.

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Aug 26

Os melhores (e os piores) textos de Branco Leone

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

 

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    Resenhar um livro nunca é tarefa fácil para mim. Desta vez, resolvi ler em um lugar diferente: fui ao campo e me deitei junto às flores e aos animais da natureza para buscar inspiração. Deitei a cabeça na relva e comecei a devorar "Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone " ali, à beira do riacho. E digo, com esse clima, dá até pra ler o livro de cabeça para baixo.
    Chega de tonterias. Sempre gostei muito de Luis Fernando Veríssimo. E quando uso "muito" quero dizer bastante. Muito mesmo. Pois não é que Branco me lembra Veríssimo? Mas enquanto Veríssimo usa bastante a terceira pessoa e, quando usa a primeira pessoa a coloca na voz de um personagem totalmente inventado, Branco usa com freqüência a primeira pessoa, sendo esta primeira pessoa ele mesmo!
     As histórias criadas (vividas?) pelo personagem Branco Leone são hilárias. Não me lembro agora de um conto ou crônica que fiquei sem um sorriso no rosto. Além dos acontecimentos por si só serem bastante engraçados, a forma com que nos são apresentados é leve, cativante e muito pegajosa. Não dá vontade de parar de ler. Tanto é verdade que, ao contrário do que o Branco poderia pensar, não comecei lendo o livro no banheiro. Fui de Carta de Despedida até Dôna Rósa, professôra de piâno como quem vai de Araranguá a Santo Antônio da Patrulha. Numa pegada, foram 66 páginas de forma indolor mas não indelével. Mais tarde, no mesmo dia, conclui a peça e agora concluo: conheço um pouco mais deste meu nobre amigo. Seu jeito de se relacionar com o mundo, sua sensibilidade muitas vezes escondida, suas estripulias indo aos médicos, viajando de avião, indo trocar um cheque para o seu pai no banco… Conheci personagens que gostaria de ter conhecido na vida real, como o Galaxão, Turmalino e José, o vizinho.
    Em resumo: um livro que você precisa ler (e ter). Eu, atrapalhado como sou, sem tempo de ir ao banco, acabei de perder a terceira edição – esgotada. E olha o que o destino me reservou: o Branco decidiu fazer uma edição especial – limitada – com capa colorida e não é que, este que vos fala ficou com exemplar numerado de número 2? Êita faceirice! Para quem pensa que a resenha favorável se deve a este "astunto" da Natureza, agora com N maiúsculo, não tá com nada. Vá até o site d’Os Viralata e confira este e outros bons livros independentes que estão sendo lançados, como o do amigo Biajoni, a ser resenhado no próximo Domingo. 
Do Jardim ao Poder
Jul 07

José Lutzemberger – Do Jardim ao Poder

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

Do Jardim ao Poder

José Lutzenberger foi ecólogo e ecologista. Depois de trabalhar para a indústria dos agroquímicos e agrotóxicos, deu-se conta do que estava fazendo com o ambiente, abandonou se trabalho e partiu para a defesa de meios não agressivos e sustentáveis para o desenvolvimento.

Esta resenha agrega as principais passagens do livro Do Jardim ao Poder de Lutzemberger em sua segunda edição revisada e ampliada, publicada pela Série Pocket da LPM. A lucidez do velho ecologista é assombrosa e, neste livro, Lutz apresenta idéias de fácil implementação que somente a falta de vontade ou a burrice egoísta e gananciosa conseguem fazer com que não sejam rotina no nosso mundo.

 

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Curta-Metragem
Jun 10

Escobar Nogueira – Curta-Metragem

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

        Curta-Metragem

         Escobar Nogueira é poeta e professor. Professor-poeta. Suas literatices já vem de longa data, desde os tempos lá de Fortaleza dos Valos, desde os tempos que a criança que agora volta para escrever este Curta-Metragem brincava com espada de pau nos pátios da Ditadura.

         Curta-Metragem é poesia mas também é música. É Caetano Veloso e também é Engenheiros do Hawaii, pois ninguém está a salvo de um disparo, um estouro.

         Curta-metragem é curto mas não é direto: afinal, é a biografia de uma criança escrita por alguém que cresceu assim:

 

         “Há muito tempo, num lugar muito distante, vivia um menino que não sabia como dizer que gostava muito, muito, de seu pai. Então, ele saltitou como um macaquinho, escarvou como um cavalinho e como seu pai olhava para longe dali, o menino, sem que seu pai visse, cresceu e tornou-se poeta.”

 

         O menino José Eduardo já não é mais menino, a careca não deixa esconder os anos passados mas a idade do espírito não se mede em anos mas em atos. E se depender disso, professor-poeta, és um feliz possuidor de um vidro de compota cheio de bolas de gude.

Viagens no Scriptorium
May 27

Paul Auster – Viagens no Scriptorium

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

        Viagens no Scriptorium

        Paul Auster está definitivamente morando no Brasil. Depois de sua participação na FLIP de 2004 e da publicação de pelo menos dez de suas obras pela Companhia das Letras (dentre elas “Noite do oráculo”, um meta-romance, “Desvarios no Brooklyn” e “A trilogia de Nova York”, o autor nova-iorquino tem seu “Travels in the Scriptorium” traduzido por Beth Vieira para a língua portuguesa.

         A história fala de um velho que se encontra sozinho em um pequeno quarta em que é vigiado constantemente por câmeras e microfones. Sem saber onde se encontra – se numa prisão, hospital ou asilo – o velho recebe visitas de alguns personagens que parecem fazer parte de seu passado, que pela falta de memória que lhe acomete, não sabe dizer ao certo quem são ou como os conheceu.

         Se nome – Blank – reflete esta “página em branco” que é o seu passado, que parece estar sendo escrito com ajuda de um manuscrito e algumas fotos que encontram-se sobre a escrivaninha e com as quais vai-se tentando montar o quebra-cabeças de sua vida.

         No manuscrito que está à disposição de Blank, conta-se a história de um agente secreto de uma nação desconhecida que é enviado a uma missão misteriosa, para supostamente evitar uma insurreição de povos independentes. Aparentemente, uma história serve para colocar luz na outra. Blank sente-se impelido a criar uma continuação para a história que lê. Nesse processo, Auster exerce com maestria algo que já demonstrou ser exímio em “Noite do oráculo”: a metalinguagem. (…)

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Eduardo Galeano De Pernas Pro Ar
May 20

Eduardo Galeano – De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

 Eduardo Galeano De Pernas Pro Ar

Idolatrar pessoas geralmente é característica do espírito jovem, adolescente. Depois que crescemos, costumamos incorporar algumas características daqueles nos quais espelhamos em nossa personalidade, mas não temos o hábito de seguir identificando-nos com ídolos. Se me perguntassem, entretanto, o que gostaria de ser quando crescer, não teria dúvidas em dizer: Eduardo Galeano!

É claro, também gostaria de ser um pouco Bakunin, um pouco Capra, um pouco Morin e, se sobrasse espaço, muito de mim mesmo…

Me foi emprestado pelo grande amigo Eduardo Sabbi o livro De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso. Quando me emprestou, disse: “Esse livro é uma patada em cima da outra”. E estava certo: em “De Pernas Pro Ar”, Galeano exerce todo seu conhecimento da cultura e política da América Latina sob o olhar atento de alguém que, desde 1971, com “As veias abertas da América Latina” vem criticando a exploração de nossa sociedade pelo assim por Deleuze chamado de Capitalismo Mundial Instituído.

Publicado em 1999, esta obra do escritor uruguaio possui tantas pérolas que necessitam ser registradas lá dentro de nosso ser que precisarei relê-la novamente e, desta vez, não sem fazer anotações detalhadas de todos trechos impressionantes que ela contém em quase todas as mais de 350 páginas.

Até lá, selecionei alguns trechos representativos de parte do pensamento de Eduardo Galeano. Acompanhe:

 

 

Caminhar é um perigo e respirar é uma façanha nas grandes cidades do mundo ao avesso. Quem não é prisioneiro da necessidade é prisioneiro do medo: uns não dormem por causa da ânsia de ter o que não têm, outros não dormem por causa do pânico de perder o que têm. O mundo ao avesso nos adestra para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa, nos reduz à solidão e nos consola com drogas químicas e amigos cibernéticos. Estamos condenados a morrer de fome, morrer de medo ou a morrer de tédio, isso se uma bala perdida não vier abreviar nossa existência.”

 

 

O mundo ao avesso nos ensina a padecer a realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de escutá-lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim pratica o crime, assim o recomenda. Em sua escola, escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu alento. Nem tampouco há escola que não encontre sua contra-escola.”

 

Contradições do mundo moderno

 

“A publicidade manda consumir e a economia proíbe. As ordens de consumo, iguais para todos, mas impossíveis para a maioria, são convites ao delito.”

 

“A igualação, que nos uniformiza e nos apalerma, não pode ser medida. Não há computador capaz de registrar os crimes cotidianos que a indústria da cultura de massas comete contra o arco-íris humano e o humano direito à identidade. O tempo vai-se esvaziando de história e o espaço já não reconhece a assombrosa diversidade de suas partes. Através dos meios massivos de comunicação, os donos do mundo nos comunicam a obrigação que temos todos de nos contemplar num único espelho, que reflete os valores da cultura de consumo. “A televisão (…) não só ensina a confundir qualidade de vida com quantidade de coisas…”

 

O PROBLEMA: A economia mundial exige mercados de consumo em constante expansão para dar saída à sua produção crescente e para que não despenquem suas taxas de lucro, mas, ao mesmo tempo, exige braços e matéria-prima a preços irrisórios para baratear os custos da produção. O mesmo sistema que precisa vender cada vez mais, precisa também pagar cada vez menos. E como quem recebe menos pode comprar mais?

 

Segundo Galeano, o valor dos produtos para animais de estimação  que, a cada ano, são vendidos nos Estados Unidos, é quatro vezes maior do que toda a produção da Etiópia. As vendas da General Motors e da Ford superam largamente a produção de toda a África negra. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, “dez pessoas, os dez mais ricos do planeta, têm uma riqueza equivalente ao valor da produção total de cinqüenta países, e quatrocentos e quarenta e sete milionários somam uma fortuna maior do que ganha anualmente a metade da humanidade”

 

 

“Num mundo que prefere a segurança à justiça, há cada vez mais gente que aplaude o sacrifício da justiça no altar da segurança. Nas ruas das cidades são celebradas as cerimônias. Cada vez que um delinqüente cai varado de balas, a sociedade sente um alívio na doença que a atormenta. A morte de cada malvivente surte efeitos farmacêuticos sobre os bem-viventes. A palavra farmácia vem de phármakos, o nome que os gregos davam às vítimas humanas nos sacrifícios oferecidos aos deuses nos tempos de crise.”

 

Uma dos achados fantásticos deste livro foi a citação de uma série de frases encontradas em muros e cidades do mundo. Eis algumas delas:

 

“Combata a fome e a pobreza! Coma um pobre!” (de um muro em Buenos Aires)

 

“Bem-vinda classe média!” (dizer na entrada de um dos bairros mais miseráveis de Buenos Aires)

 

“Deixemos o pessimismo para tempos melhores”(de um muro em Bogotá)

 

“Basta de fatos! Queremos promessas!”

 

“Existe um país diferente, em algum lugar”

 

“Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas” (de um muro em Quito)

 

         Estas citações me deram a idéia de criar uma seção do site para receber fotos de frases de cunho político ou de humor encontradas nos muros e locais públicos pelo mundo. Como não tenho viajado muito nem tenho muitos contatos, não sei se a idéia vai vingar, mas um dia começo a pô-la em prática.

 

         Antes do capítulo final, “O direito ao deliro”, Galeano filosofa e filosofa bem: “A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. A verdade está na viagem, não no porto. Não há mais verdade do que a busca da verdade. Estamos condenados ao crime? Bem sabemos que os bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos”.

 

         De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso é leitura obrigatória para quem quer se localizar no mundo e perceber a importância de ter um lugar e, principalmente, ensinar isso ao seu vizinho.

May 06

Nanoresenhas Canalhas

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

         As Nanoresenhas começaram, aqui no Reinehr, em dezembro de 2006. Depois de 5 Nanoresenhas, acabaram no mesmo mês.     Depois de uma significativa pausa, elas voltam com nome e estrutura reformulados. O nome Nanoresenhas foi emprestado da seção similar da Revista EntreLivros. O Canalhas emprestou-se do meu amigo Maurício Silveira dos Santos, o Sumo Pigmeu, que mantinha uma coluna com o nome Pequenas Resenhas Canalhas no Simplicíssimo, nos idos de 2004.

         O Maurício, grande amigo psiquiatra, que vejo e com quem mantenho contato com muito menos freqüência do que gostaria foi um dos fundadores do Pigmeu Moral, um grupo de discussão aleatória que mantínhamos na simbólica Lancheria do Parque, em Porto Alegre. Os encontros, semanais, aconteciam sempre às terças-feiras, começando lá pelas 20 horas sem hora para acabar. Muito cigarro (cara, como aquela galera fumava!), cerveja e alguns petiscos alimentavam o espírito da galera. Bons tempos…

         Não tenho certeza se conseguirei atualizar o Nanoresenhas Canalhas semanalmente. Pode acontecer de, eventualmente, não conseguir ler, em dada semana, algum livro que valha a pena resenhar ou que, simplesmente, eu tenha vontade de resenhar. Não sou crítico literário. Não espere-se aqui grandes e profundas análises, mas tão somente um ponto de vista particular e um grupo de sentimentos desencadeados pela leitura da obra literária.

         Começo na próxima semana, com a Nanoresenha de “De Pernas pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso”, de Eduardo Galeano. Até lá.

Dec 28

José Saramago – As intermitências da morte – NR006

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

Nanoresenha # 005 – NR005 

José Saramago – As intermitências da morte

 

            Quem já leu Saramago, já sabe o que esperar. Uma literatura irônica, nem sempre sutil, uma cotovelada na orelha do sistema político português e, é claro, diálogos que se acotovelam pontuados apenas com uma vírgula seguida de uma Maiúscula.

            Lendo “As intermitências da morte” me lembrei do livro Bartleby e Companhia, em que o escritor Enrique Vila-Matas apresenta um personagem que acreditava que Saramago lhe roubava as idéias para escrever seus livros. Mal ele havia pensado em um projeto de livro, em poço tempo Saramago lançava o livro com a idéia por ele pensada. Lembrei porque eu mesmo tenho comigo uma teoria que os “normais” chamariam de maluca: a da mortalidade condicionada à crença na inevitabilidade da morte. Em outras palavras: só se morre porque se quer ou porque se acredita que todos devemos morrer em algum momento. O primeiro passo para a imortalidade é acreditar que ela é possível.

            Voltando ao livro, Saramago conta a história de um país em que, de uma hora para outra, a morte resolve parar seus trabalhos e ninguém mais morre. O que parece ser uma bênção é, na verdade, uma tragédia. Saramago narra, com muito humor, o ponto de vista dos agentes funerários, das companhias de seguro, da Igreja e, é claro, com sarcasmo e grossa ironia, do Estado. A história, a partir da metade do livro, tem uma reviravolta interessante, quando passa a focar sobre a vida de um cidadão apenas – um músico, mais especificamente um violoncelista – que, por uma falha indescritível da morte, tem sua vida adiada involuntariamente e a morte dica sem saída para terminar seu trabalho.

            Se não é um romance denso e profundo, serve para algumas reflexões acerca da morte e o morrer, como diria Elisabeth Kubler-Ross. Leitura de fim-de-semana. Necessita atenção em função da pontuação. Lido entre 23-25/DEZ/2006.

 

Companhia das Letras – 2005 – 3ª impressão

Dec 25

Daniel Galera – Mãos de Cavalo – NR005

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

Nanoresenha # 004 – NR004

Daniel Galera – Mãos de Cavalo 
 
 
 
    Este é primeiro livro do "cumpadi" Galera que ponho nas mãos. Deixei passar a coletânea de contos "Dentes guardados" de 2001 e o romance "Até o dia em que o cão morreu", de 2003. Mas isso não foi desconsideração de forma alguma. Acompanho o Galera desde os tempos imemoriais em que ele escrevia no saudoso e hibernante (prefiro pensar assim) CardosOnline. 
    Apesar de nunca travarmos contato senão por um ou outro mail, senti, após a leitura de Mãos de Cavalo, como se tivéssemos passado boa parte da infância juntos. O assim chamado "romace de formação" de Galera narra, em uma lentidão gostosa, plena de ricos detalhes espaciais, sensoriais e setimentais, três momentos da vida de um mesmo homem, aos 10, 15 e 30 anos.
    Nas idas e vindas temporais presenciamos, quase cinematograficamente – porque é fácil visualizar a cena, da forma minunciosa com que é descrita -, a construção do futuro de um ser humano. Fios que são deixados soltos mas que precisam ser costurados para que p teido da vida faça algum sentido.
    É isso que Galera faz nesta fantástica obra: costurar o tecido da vida de um homem, que poderia ser qualquer um de nós, homem ou mulher. A trama, se não caracterizada por imbricações excessivas, encanta pela sutileza, pela beleza e pela memória da transição da década de 80 para a década de 90, vivenciada por relatos que fazem sentido para quem viveu a época.
    Posso dizer que aprendi bastante com o jovem escritor, saúdo e aplaudo seu belo livro. Lido entre 21-23/DEZ/2006, agradavelmente e sem esforço.
 
Companhia das Letras – 2006 – 1ª edição 
Dec 21

Salvador Elizondo – Farabeuf – NR004

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

Nanoresenha # 004 – NR004 

Salvador Elizondo – Farabeuf

 

            Quem resolver se aventurar na leitura de Farabeuf deve munir-se de cautela. Extrema. Deve saber que deverá ser extremamente tenaz na leitura de seus dois primeiros capítulos. O escritor dará de tudo para que você desista da leitura. Haverá momentos em que seu desejo será de rasgar o livro em mil pedaços e amaldiçoar aquele seu amigo que o indicou a leitura da obra. Acontece que a perseverança quase sempre é premiada. Já ao começo do terceiro capítulo, um pequeno vão entre grossas cortinas de veludo deixa escapar um tênue fio de luz, que indica ao leitor a presença de algo iluminado ali atrás. Isso dá fôlego para seguir na leitura e descobrir, página a página dali adiante a genialidade deste escritor mexicano.

            Já ao final do terceiro capítulo estamos capturados e plenamente necessitados de descobrir, afinal, o que está acontecendo. Do que se trata esta história, aparentemente tão sem pé nem cabeça, que nos é introduzida de forma ora poética ora delirante e que desliza entre a memória e o esquecimento, usando fluxos de tempo e rápidas e constantes trocas de voz narrativa para confundir e prender o leitor.

            Ao término da leitura deste livro, feito para ser lido pelo menos 3 vezes, dá vontade de aplaudir. De pé, como se faz quando somos tomados de verdadeira emoção. Para quem gosta de escrever, é uma mão cheia: o livro é repleto de idéias tão diversas e estímulos tão distintos que você vai precisar de um bloco de anotações para apontar todas suas percepções.

            O ideal seria lê-lo em uma sentada só. Eu o fiz em três dias, em cerca de 6 horas pulverizadas neste intervalo. Necessita de muita atenção, silêncio e concentração para uma boa leitura. Lido entre 16-18/DEZ/2006.       

 

Amauta Editorial – 2004 – Tradução de Marcelo Barbão