Dormingo

By Rafael Reinehr | Contos

Ago 29

Da cama, a mulher sentia os primeiros raios de sol do dia fenestrarem a janela. Como é bom dormir sem hora para acordar. Tomar café da manhã sem se preocupar com os deveres do dia.

Durante algum tempo a mulher ficou na cama, a se espreguiçar, planejando passar o dia inteiro de pijama, escutando música. Sentar tranqüilamente para ler um bom livro. Em instantes, a sensação de vazio que tomara conta da mulher ao perceber o espaço desocupado na cama foi substituída por um suave prazer, sentir o cheiro gostoso de café vindo da cozinha, sentir a presença de quem se ama.

Olhando pela janela, nuvens densas e escuras deixavam passar os raios do sol com alguma dificuldade, formando uma multidão de raios que pareciam brigar entre si para ver qual teria o privilégio de tocar o solo.

Era justamente nestas horas que a mulher lembrava como era bom escrever a lápis, ter uma borrachinha que ficasse redondinha depois de muito usar. Recordava como era sentir o cheiro de terra molhada depois de uma chuva repentina no meio da tarde. Buscava na memória as brincadeiras de criança, de um tempo distante que suas pernas não conseguem mais alcançar.

Da cama, a mulher sentia os primeiros raios de sol do dia fenestrarem a janela. Como é bom dormir sem hora para acordar. Tomar café da manhã sem se preocupar com os deveres do dia.

Durante algum tempo a mulher ficou na cama, a se espreguiçar, planejando passar o dia inteiro de pijama, escutando música. Sentar tranqüilamente para ler um bom livro. Em instantes, a sensação de vazio que tomara conta da mulher ao perceber o espaço desocupado na cama foi substituída por um suave prazer, sentir o cheiro gostoso de café vindo da cozinha, sentir a presença de quem se ama.

Olhando pela janela, nuvens densas e escuras deixavam passar os raios do sol com alguma dificuldade, formando uma multidão de raios que pareciam brigar entre si para ver qual teria o privilégio de tocar o solo.

Era justamente nestas horas que a mulher lembrava como era bom escrever a lápis, ter uma borrachinha que ficasse redondinha depois de muito usar. Recordava como era sentir o cheiro de terra molhada depois de uma chuva repentina no meio da tarde. Buscava na memória as brincadeiras de criança, de um tempo distante que suas pernas não conseguem mais alcançar.

A luz do sol fica mais forte enquanto caminha em direção a ele, chega a um ponto em que não enxerga nada além de tudo que deixou de bom para trás. Sua filha, seu esposo, seus pais e amigos. Todos trocados por aquela que agora tratava de explodir suas entranhas, acelerando seu coração de uma forma que jamais qualquer paixão fora capaz de fazê-lo. Fazendo seu corpo tremer com intensidade tamanha e seus músculos contraírem com força tal como nunca pudera esperar. Tudo por aquela que conhecera na noite da morte de seu primeiro filho, aquela que lhe consolara e lhe dera apoio justo quando mais precisava. Aquela que agora estava cobrando os juros de um empréstimo feito anos atrás. Cobrando todos de uma só vez. Outrora tinha sido sua heroína. Agora, era apenas alguém distante, cuja posse inverteu-se. Agora era apenas a heroína. A heroína.