José Lutzemberger – Do Jardim ao Poder

By Rafael Reinehr | Nanoresenhas Canalhas

Jul 07
Do Jardim ao Poder
Do Jardim ao Poder

José Lutzenberger foi ecólogo e ecologista. Depois de trabalhar para a indústria dos agroquímicos e agrotóxicos, deu-se conta do que estava fazendo com o ambiente, abandonou se trabalho e partiu para a defesa de meios não agressivos e sustentáveis para o desenvolvimento.

Esta resenha agrega as principais passagens do livro Do Jardim ao Poder de Lutzemberger em sua segunda edição revisada e ampliada, publicada pela Série Pocket da LPM. A lucidez do velho ecologista é assombrosa e, neste livro, Lutz apresenta idéias de fácil implementação que somente a falta de vontade ou a burrice egoísta e gananciosa conseguem fazer com que não sejam rotina no nosso mundo.

 

Do Jardim ao Poder

José Lutzenberger foi ecólogo e ecologista. Depois de trabalhar para a indústria dos agroquímicos e agrotóxicos, deu-se conta do que estava fazendo com o ambiente, abandonou se trabalho e partiu para a defesa de meios não agressivos e sustentáveis para o desenvolvimento.

Esta resenha agrega as principais passagens do livro Do Jardim ao Poder de Lutzemberger em sua segunda edição revisada e ampliada, publicada pela Série Pocket da LPM. A lucidez do velho ecologista é assombrosa e, neste livro, Lutz apresenta idéias de fácil implementação que somente a falta de vontade ou a burrice egoísta e gananciosa conseguem fazer com que não sejam rotina no nosso mundo.

Primeiro brasileiro a conquistar o “Livelihood Award” da academia sueca que concede o “Nobel Alternativo”.

Excêntrico e libertário como sempre , Lutz morreu aos 75 anos , no mesmo bairro Bonfim em que nasceu. Foi restituído a terra no Rincão Gaia, no município de Pantano Grande , e sobre sua sepultura plantado o seu pedido, cresce um umbu, a árvore–símbolo do Rio Grande do Sul. Curioso saber disso porque, desde criança, sempre tive o desejo de ser enterrado (ou melhor, cremado e depois enterrado) embaixo de uma árvore, no meu caso, uma sequóia.

É importante perceber que várias idéias do ecologista afinam-se perfeitamente com os ideais libertários anarquistas, o que fica mais notável quando a ecologia se mistura com a política, mais para o final do livro.

 

Todos os trechos abaixo foram transcritos do livro de Lutzemberger e expressam a idéia original do autor e foram selecionados por mim por representarem intersecções afins com o meu próprio pensamento. Os negritos são meus.

 

Sobre Jardins e urbanização

 

Precisamos nos certificar se nossa ação é sustentável, isto é, se não implica demolição dos suportes da Vida no planeta, e se está orientada para a justiça social, se não pisa muita gente. Eu não gostaria de ver a humanidade desaparecer, e dentro da humanidade eu gostaria de ver mais equilíbrio. Eu não posso considerar progresso aquilo que não prevê a manutenção da integridade da Vida e o aumento da soma da felicidade humana.

Mesmo quando praticada em escala mínima , a jardinagem restabelece um certo elo entre o homem e a Natureza, abrindo-nos os olhos para seus mistérios.

Já não é necessário ser naturalista para ver que nossas cidades são monstruosas. Todos começamos a sentir que o que chamamos “progresso” é, na verdade, uma corrida grotesca que nos torna cada dia mais neuróticos e desequilibrados.

Tivéssemos mais jardins, públicos e privados, seria mais amena e menos embrutecedora a vida nas cidades.

Até no balcão de uma janela pode-se cultivar um pedaço de natureza, e mesmo num pequeno aquário pode surgir um jardim submerso encantador. A Natureza oferece um sem-número de possibilidades. Quem sabe observá-la e tem imaginação nunca cansará de maravilhar-se diante dela. Sempre descobrirá coisas novas e surpreendentes. Aprenderá a deleitar-se com ela.

Em princípio, árvore alguma necessita de poda. Se necessitasse , todos os bosques naturalmente se acabariam sozinhos. Quanto mais livremente uma árvore consegue desenvolver-se, mais bela e sã ela será.

A poda só tem sentido em fruticultura ou viticultura, a finalidade desta poda é “educar” a árvore, de maneira a dar-lhe uma forma que facilite a insolação em toda a periferia e no interior, que facilite a colheita e que promova o crescimento de ramos que floresçam para a frutificação.

Em árvores decorativas ou de sombra, a poda ou corte só têm sentido quando se quer educar para formas artificiais, coisa que, entretanto, na maioria dos casos é de mau gosto.

 

Sobre a dispensa do lixo

 

Devemos aprender a produzir menos lixo e a não misturar o que , separado, manteria um valor. Lixo não é outra coisa senão material bom no lugar errado.

Na destinação de resíduos também podem ser encontradas soluções baratas, sociais e ecológicas. Começa a escassear o dinheiro para fazer loucuras; talvez possamos então começar a fazer coisas inteligentes – abrindo espaço para trabalho criativo de profissionais hoje ameaçados de desemprego.

Uma sociedade que fosse racional em termos de uso justo de recursos finitos não produziria o tipo de lixo que p o tipo de lixo que produzimos hoje.

Os lixões existentes nas megalópoles modernas atingem hoje dimensões de verdadeiras montanhas. Quando estão bem tapados, a digestão anaeróbica da matéria orgânica produz gás metano que pode ser captado e aproveitado, “aterros energéticos” nos Estados Unidos existem alguns lixões tão grandes que o gás é suficiente para mover pequenas usinas elétricas.

Em Aalen, um engenheiro de nome Kiener desenvolveu um método de pirólise (destilação a seco) altamente eficiente em termos energéticos, permitindo ainda reciclar os metais, com um mínimo de problemas de poluição.

O craqueamento é um processo complexo e caro, na maioria dos casos, a pirólise seria solução aceitável de destino final.

Em Recife existe um grande lixão, conhecido pelo nome de “Lixão dos Prazeres” a área é pantanosa, um antigo manguezal.

Neste lixão vivem quase duas mil pessoas. São famílias inteiras, com anciãos, crianças e bebês. Várias crianças já foram aplastadas pelo trator que, sem dar-se conta, passou por cima delas enquanto dormiam em depressões do lixo. Quando as caçambas chegam, são assaltadas pelos catadores. Os mais jovens saltam em cima. Outros,antes que o veiculo possa parar, já abrem as tampas cada um tentando catar o que pode. Mas esta  pobre gente não apenas apanha tudo o que pode ser reciclado , ela também come lixo. Qualquer restinho de comida, frutos, ossos de galinha, é logo devorado, sem que se interrompa o trabalho de catação. Lindas crianças que ainda nem caminham já catam para comer. Não há nem vestígio de instalações sanitárias. Essa gente não tem nem onde lavar-se, a única água existente é a do chorume e dos charcos fétidos. Em volta do lixão instalam-se barracos feitos de trapos e pedaços de pau, onde operam os intermediários, que compram dos catadores o material catado, para então revendê-los aos sucateiros.

 

Sobre o uso de agrotóxicos

 

Uma alfinetada causa um estrago muito pequeno, não se compara com um golpe de adaga, mas não deixa de ser um estrago. E que acontece quando levamos diariamente uma nova alfinetada, especialmente se for sempre no mesmo lugar? A coisa poderá tornar-se muito grave. Mais um detalhe: de uma alfinetada no traseiro, podemos rir; no olho, é outra coisa.

Propor uma ingestão diária admissível para venenos como agrotóxicos clorados, fosforados, os carbamatos, os mercuriais, as triazinas, os derivados do ácido fenociacético já passa de temeridade – é cinismo. Mas tem sentido para a industria química. É uma espécie de seguro para eles , não para nós, agricultores e consumidores. Nas concentrações propostas, torna-se impossível provar a relação causa-efeito.

Se alguém estiver morrendo de câncer porque ingeriu durante anos quantidades muito pequenas de uma substância cancerígena, ou quando outro sofre de doença infecciosa porque está com o sistema imunológico destruído por carbamatos, torna-se impossível provar que a culpa é do respectivo agrotóxico. Os altos executivos da industria química dormem tranqüilos.

Além de não levar em conta os efeitos crônicos da ingestão contínua de pequenas doses, a LD50 não leva em conta os efeitos sinergísticos, isto é, os efeitos de internação dos venenos uns com os outros. Os testes de determinação da LD50 são efeitos para uma substancia por vez. Mas o organismo humano, no mundo em que vivemos, se vê confrontado diariamente com substancias as mais diversas ao mesmo tempo. Temos uma infinidade de formas de poluição – do ar, da água, dos alimentos, dos objetos que tocamos, até das roupas. É sabido que , quando mais de um veneno age ao mesmo tempo, o efeito é muitas vezes superior do que a simples soma dos efeitos de cada um.

Rachel Carson escreveu Primavera Silenciosa, sobre os efeitos a longo prazo da infestação química nos solos e águas. Isto nos leva a mais um aspecto importante de toda esta loucura. A industria química , e não só no campo dos agrotóxicos, insiste em que tem direito de introduzir no ambiente qualquer substância que ela desenvolve, enquanto não for provado que há perigo. Ao contrário, inicialmente ela combate os que a procuram. Deveria ser exatamente o contrário. Enquanto houver um resquício de dúvida sobre possíveis perigos, a substância não deveria ser introduzida no ambiente.

Na prática agrícola, no campo, o que hoje acontece é um dos maiores escândalos da sociedade Industrial Moderna. Nunca tantos venenos, venenos tão fulminantes alguns, tão persistentes outros, ou fulminantes ou persistentes ao mesmo tempo, foram colocados em mãos de tanta gente tão despreparada para lidar com eles.

A grande maioria dos agricultores não tinha e continua não tendo noção dos perigos que enfrenta com os agrotóxicos. Especialmente grave é a situação dos bóias-frias nos latifúndios, cuja única alternativa, em geral não passa da escolha entre morrer de fome ou morrer envenenado.

 

Sobre os transgênicos

 

Querem hoje nos fazer crer que a Ciência precisa de patentes para progredir. E assim passou-se a patentear o que nunca se patenteava: seres vivos, partes de seres vivos, processos vitais.

Patentes só se aplicam e se justificam – por tempo limitado – para invenções.

Na ciência descobrimos os mistérios da natureza. Descoberta não se patenteia. Os genes existem há mais de três bilhões de anos; os processos de transferências de genes de um ser a outro, transportados por bactérias ou vírus, também. Ninguém tem o direito de se avocar posse da vida, de partes dela ou de processos vitais.

E patentes existem para trancar, não para desenvolver. Entre o genoma do chimpanzé e o nosso, num total de uns cem mil genes, apenas ume meio por cento são diferentes. Mas que diferença! Alguns vermes primitivos (nematóides) chegam a ter setenta por cento dos genes que nós também temos. Certamente, isto não os faz setenta por cento humanos… Menciono esses fatos para sublinhar a profundidade de nossa ignorância. Onde ficam a reverência, o respeito, a humildade? Onde fica o principio da precaução?

 

Sobre o desmatamento

 

Em certos países da Europa central e do norte, entretanto, existem explorações sustentáveis de plantios florestais nos quais as árvores levam sessenta , oitenta e mesmo mais de cem anos ate serem abatidas. Nestes casos, os bosques costumam ser estatais e as fábricas, ou os madeireiros, recebem concessões, comprometendo-se a replantar na mesma medida em que colhem. Mas é comum também proprietários de terra e mesmo camponeses plantarem para seus netos e bisnetos, um tipo de responsabilidade social praticamente inexistente entre nós.

A produtividade de um camponês orgânico do norte da Europa que, apesar de um inverno inclemente de ate quatro meses, chega a 400 e mesmo 600 quilos por hectare/ano, e sempre produz na mesma terra mais uns três ou quatro mil litros de leite. Refiro-me aos agricultores orgânicos que alimentam seus animais apenas com os recursos de seu próprio solo, sem compra de forragem ou alimento concentrado importado.

Vejamos: um mogno, hoje a madeira mais desejada e que mais rapidamente se aproxima de suas extinção na Amazônia, se não encontrarmos meios de frear o vale-tudo, o free for all de sua exploração, vale, de pé, na floresta, entre quinhentos e mil dólares. Por isso os madeireiros abrem picadas horríveis, trilhas de devastação indescritível, com máquinas pesadíssimas, para chegar a mognos que estão centenas de metros ou mesmo milhares de metros distantes uns dos outros. Com isso rasgam a floresta, abrindo-a para toda sorte de novas invasões e devastações. Para efeito de simplicidade de cálculo, digamos que vale mil dólares e que leva cinqüenta anos pra chegar ao calibre desejado. Na realidade pode valer mais e estar pronto em apenas trinta anos. Digamos agora que, com meus 66 anos, eu plantasse um lote de cem mognos. O plantio seria feito dentro de um esquema fiscalizado por entidade séria, como por exemplo a FAO ou outras instituições de credibilidade pública. As árvores poderiam estar em pequenas ou médias monoculturas, ou cultivos consorciados, entremeadas com bosques secundários ou primários, lavouras, pastos, pomares, outros plantios arbóreos; ou – melhor – as árvores seriam plantadas dentro da mata secundária em recuperação natural. Quando as árvores tivessem cinco anos  e eu 71, seu valor teórico seria cem dólares cada uma. Se não houvesse perda, o lote valeria, teoricamente, dez mil dólares. Se, então, uma instituição financeira, pequena ou grande , nacional ou multinacional, me avançasse os dez mil dólares, ela ficaria com dez por cento da propriedade da plantação e eu com noventa. Se eu viver até os 76, seriam 20% e 80%, respectivamente. Caso eu vier a morrer, digamos, aos 81, poderiam meus filhos herdar ainda 70%, enquanto o banco já seria dono de 30%, Claro que haveria seguro contra tempestades e outros imprevistos, os cálculos incluiriam, entre outros fatores os custos administrativos. Os pagamentos também poderiam ser anuais ou bianuais, aí multiplicam-se as possibilidades. É um grande campo para financistas elaborarem esquemas e abrirem todo um novo mercado para investimentos.

Num esquema assim, tanto jovens como velhos teriam interesse econômico em plantar árvores de ciclo longo. As instituições financeiras estariam garantidas,como estão com hipotecas sobre imóveis. Detalhe interessante para a instituição financeira: o dinheiro não precisa estar imobilizado por muito tempo. Em primeiro lugar, os desembolsos são pequenos e parciais. Enquanto cresce o capital, ele sempre tem contrapartida concreta, porque as árvores crescem junto. Os títulos poderiam ser levados ao mercado a termo de mercadorias (commodities market).

Durante, talvez, uns trinta mil anos, antes da chegada do conquistados a estas praias, floresceram no continente Sul-Americano algumas centenas de culturas indígenas.

As complexas culturas dos Andes, com seus fantásticos monumentos de pedra e uma agricultura camponesa altamente produtiva, diversificada e estável. Todas estas culturas haviam alcançado situações de acomodação harmoniosa com a Natureza. Esta harmonia poderia ter continuado independente. Evolução orgânica e cultura humana, entrosadas, poderiam ter continuado por milhões de anos, em constante descobrimento e aprimoramento.

         Mas o colonizador trouxe consigo uma terrível doença mental contagiosa, até então desconhecida nestas paragens – a visão antropocêntrica do mundo, isto é, a dessacralização da Natureza, característica da cultura ocidental. A variedade desta doença mental que aqui se estabeleceu era das mais ferozes, era o rapinismo puro e simples, simplório.

          Nesta visão, tudo o que se encontra pela frente existe apenas para ser pilhados, saqueado, sempre da maneira ,mais imediata possível. Só resta lugar para trabalho sério ou sistemático ali onde não se vê oportunidade para saque direto. “bóia-fria” hipermonocultura.

O alastramento no Brasil dos postulados básicos da tecnocracia megatecnológica e suas seqüelas desencadeou, nos últimos 15 anos, o processo mais destrutivo da paisagem que já se verificou neste continente. Vivemos agora o maior holocausto biológico desde que se iniciou o Processo Vital neste planeta. Em três e meio bilhões de anos de evolução orgânica nunca houve demolição dos sistemas vitais tão envolvente, tão irrecuperável como esta.

Até hoje nenhum ecólogo conseguiu medir a relação hectare de floresta intacta/peso de peixe produzido no corpo de água contíguo, mas é provável que esta relação seja superior à da produtividade do boi. O que se verifica é que, com o desaparecimento da floresta, baixa dramaticamente a vida nos rios. Não é por acaso que o caboclo amazônia costuma dizer que “onde entra boi aparece a fome”.

         O que hoje fazemos na Amazônia é, provavelmente, a maior das imbecilidades da história da humanidade.

O Proálcool significa novo paroxismo de devastação das selvas que sobram, sem falar da imensa marginalização e pauperização, da diminuição de capacidade de produção de alimento, com concomitante aumento no custo dos alimentos, poluição dos últimos cursos d’água com vinhoto e pesticidas e agravamento da crise energética.

                        

A TRAGÉDIA DO PODER

 

O que toda burocracia persegue é sua própria sobrevivência e ampliação.

A liberdade só aumenta à medida que aumentam a auto-suficiência, a autonomia local, a autogestão, e se descentralizam todas as formas de poder de decisão.

Se há um matagal que merece ser desbravado para abrir visão é o matagal semântico. Quanta discussão, quanta polêmica inútil porque, em suas cabeças, os contendores têm definições diferentes para as menos palavras. Quantas são as brigas em que as partes, diante da barreira das palavras mal definidas, não conseguem ver que, fundamentalmente, estão de acordo.

Vejamos a palavra “propriedade”. Em seu uso corriqueiro ela pode significar coisas bem diferentes. Quando ela pode significar coisas bem diferentes. Quando “propriedade” se refere a um objetivo de uso pessoal ou familiar, tal como um lápis, a escova de dentes, a bicicleta, o automóvel, a casa ou o jardim, o que temos é uma comodidade para o individuo ou pequeno grupo. Mas, quando a mesma palavra se refere a 10 mil hectares de terra, a uma

Fábrica, uma frota de transatlânticos, um campo de petróleo, o sentido é bem outro. Agora o que existe é poder de mando de uma pessoa ou grupo de pessoas. Ser proprietário de grande extensão de terras significa, simplesmente, que ali se tem poder de mando.

Assim, quando os da extrema esquerda dizem que são contra a propriedade dos meios de produção, deveriam deixar bem claro que o que combatem é apenas a concentração do poder de mando.

A extrema direita, entretanto, quando defende como sagrada a propriedade, deveria limitar o sentido desta palavra àquilo que é conforto pessoal – mas ele a aplica á fábrica, à grande extensão de terras ou a gigantescos estoques de materiais. Não está defendendo propriedade, está defendendo poder. Por outro lado, quando governos comunistas eliminam a pequena propriedade rural, como quando forçadamente incorporam o camponês no Kolkhos, eles também estão defendendo concentração de poder de mando, aquilo que dizem combater. Na granja coletiva, o ex-camponês perdeu toda auto-suficiência, autonomia e liberdade de ação, está formado em subalterno do administrador, dentro de uma burocracia piramidal, onde todo poder se concentra no topo.

Quer seja em esquema democrático ou totalitário, o que toda burocracia persegue é sua própria sobrevivência e ampliação. Realmente não interessa que ela chame General Motors ou Partido Comunista Soviético, ou mesmo Igreja Católica ou Federação mundial de vodu.

Na moderna empresa capitalista, o poder se alicerça na pesquisa tecnológica, no marketing, na publicidade e na manipulação de mercados. Com o conseqüente fluxo de dinheiro, pagam-se materiais e distribuem-se dinheiro, pagam-se materiais e distribuem-se dividendos, se fazem investimentos para mais crescimento e se corrompem políticos e administradores públicos para que tudo isso funcione bem.

Nos governos, conforme eles sejam mais ou menos democráticos, o poder se embasa na popularidade dos líderes, na demagogia e nos mecanismos eleitorais. As eleições podem ser mais ou menos livres ou forçadas, limpas ou manipuladas.

Já nos governos ditatoriais, a coisa é muito mais simples.

O poder se apóia no monopólio da propaganda, na censura, no poderio das forças armadas, na eficácia da política, na tortura e na capacidade das prisões ou campos de concentrações  e, mesmo, em “centros psiquiátricos”.

No caso dos antigos governos teocráticos, o poder dependia da aceitação generalizada da cosmovisão oficial, dos mecanismos litúrgicos e da fogueira aos hereges.

É preciso ser muito simplório, estar possuído de fé muito cega, para acreditar, como acreditam alguns revolucionários abnegados, na incorruptibilidade da pessoa no poder.

Por que será que tantos movimentos de libertação, com ideologias aparentemente tão humanas, desembocam tão freqüentemente em ditaduras ferozes e sangrentas?

As burocracias facilmente degeneram em burrocracias. Esta tendência é diretamente proporcional ao crescimento em tamanho e centralização administrativa. É melhor ou traz um mal menor o poder dividido entre muitos bandidos do que na mão de um só jesus cristo.

         Sempre que o poder estiver em uma só mão, por mais virtuosa que seja, todo aquele que tiver idéias e alvos diferentes inevitavelmente sofrerá. Distribuído entre muitos detentores, mesmo mal intencionados, o poder se torna menos envolvente, deixa muitas frestas, e os diferentes centros de poder se combatem ou se freiam mutuamente. É só por isso, não porque nossos mandatários sejam mais humanos, que temos um pouco mais de liberdade pessoal, liberdade de expressão e informação, nas democracias ocidentais e mesmo em certas semiditaduras capitalistas, do que nas burocracias totalitárias que se dizem comunistas ou democráticas populares. Do nosso lado, o poder está fracionado. Temos os governos em seus níveis municipal, estadual ou provincial e central, com os poderes executivo, legislativo e judiciário, as empresas, grandes e pequenas ou multinacionais, os particulares, clubes, fundações, sindicatos, autarquias, meios de comunicação, entidades de ação comunitária, etc., etc.

         As grandes injustiças acontecem sempre naqueles lugares e naquelas circunstâncias onde uma só entidade ou indivíduo tem poder predominante. A propaganda dos governos comunistas gosta de falar do “capitalismo monopolista”. Ora, este termo se aplica perfeitamente a eles. Os países capitalistas são oligopolistas, um mal apenas um pouco menos que o capitalismo de monopólio total do Estado.

Se quisermos realmente fortalecer a democracia, não é permitido que cresça o poder dos governos que vamos consegui-lo. A liberdade só aumenta pelo desmantelamento do poder, seja qual for a ideologia ou ausência de ideologia.

A liberdade só aumenta à medida que aumentam a auto-suficiência, a autonomia local, a autogestão, e se descentralizam todas as formas de poder de decisão. Ao poder central, por delegação só cabe – legitimamente – encarregar-se daquilo que não pode ser feito localmente, isto é muito pouco. Nesta delegação deve haver o máximo de representação, com mecanismos eficientes para a institucionalização do pluralismo, através de parlamentos, separação de poderes e grupos de pressão.

Na Alemanha Federal, fala-se hoje de um quarto poder no Estado, ao lado dos poderes legislativo, judiciário e executivo: o poder da ação comunitária. Esta é uma evolução muito alvissareira, pois significa maior participação cidadã nos negócios públicos. Naquele país, a luta comunitária pela preservação do ambiente e pela qualidade de vida conseguiu, entre outras coisas, bloquear a ampliação do programa nuclear, não obstante os enormes interesses que há por trás deste programa – um freio eficaz à ditadura tecnocrática.

Ideal seria uma sociedade sem governo, sem polícia, uma sociedade autogovernada, onde cada indivíduo se comportasse de acordo com o bem comum.

Talvez seja este o paraíso perdido das mitologias antigas.

Em termos cibernéticos, o poder é um processo que tem retroação positiva: quanto mais poder , mais fácil sua ampliação. Por isso, o poder acaba invadindo áreas onde nenhuma função legítima teria. À medida que aumentamos e complicamos nossas estruturas tecnológicas e administrativas, surgem estruturas de poder sempre mais centralizadas e envolventes. Com isso, damos sempre mais chance a indivíduos egoístas, insensíveis, cínicos, sedentos de poder.

Na seleção natural é propiciado o que convém à estabilidade, à harmonia e ao aperfeiçoamento do sistema.

Na pirâmide do poder, quem sobe mais rápido e mais alto não é o mais apto, decente, honesto, menos ambicioso. É todo contrário. Por isso, a tragédia dos esquemas anarquistas em sociedades humanas é que, abrindo vácuos de poder, estes são logo aproveitados por tiranos potenciais, e a sociedade se encontra desarmada diante deles.

Sugestão que politólogos e sociólogos de visão se aprofundem no estudo da Ecologia e examinem detidamente o funcionamento dos sistemas naturais intactos, ali o que existe é constelação de equilíbrios. Progresso ali, é esmero de equilíbrio.

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