Bolacha integral de gergelim na boca

By Rafael Reinehr | Poesia

Set 28

    Imagine você no trânsito de uma grande cidade, dirigindo até o seu trabalho. Você não teve tempo de tomar café então você levou junto algumas bolachas digamos, integrais, com gergelim, pra ir mordiscando tranqüilamente enquanto dirige até o seu trabalho. De repente, não mais que de repente você coloca na sua boca uma das bolachas. Coloca um pouco mais de um quarto da bolacha dentro da sua boca enquanto você põe o cinto de segurança. Nesse momento, imagine você com aquela bolacha na boca, decidindo não mordê-la, decidindo não pegá-la de volta com sua mão, deixando-a na sua boca. Enquanto você vai dirigindo, você sente aquela bolacha umedecer com a saliva dos seus lábios. Você imagina quanto tempo esta bolacha agüentaria na sua boca e que pressão você precisaria manter para que ela ficasse sem quebrar. Assim você vai dirigindo e imagine você com uma bolacha integral com gergelim em sua boca dirigindo no centro de uma grande cidade, as pessoas dos carros dos lados nem bola pra você com a sua bolacha integral com gergelim na boca, e você chega ao semáforo mas não antes de ter sido cortado por aquele filho da puta dum gol caixinha que na última hora resolve ir para a sua pista e você resolve ir para a pista dele e fica do lado dele, com vontade de dizer tudo e com a bolacha na boca. Sua bolacha integral com gergelim. Um quarto pra dentro, três quartos pra fora, bolacha integral de gergelim. Aí você segue bolacha inteira de gergelim, integral, úmida ficando umidade de seus lábios quando novamente novo semáforo sinaleira e na frente o que você vê? Na frente você vê um carro parado. Um casal conversando, conversando discutindo, conversando, enquanto o pequeno schnauzer corre loucamente de um lado pra outro no banco traseiro latindo e acuando, acuando e latindo, casal conversando, schnauzer latindo, casal conversando, schnauzer latindo e você com uma bolacha integral com gergelim na boca. Passa um tempo, passa mais um tempo e você com sua bolacha de gergelim na boca, então você segue, então você segue, segue no trânsito, pega a autoestrada, autoestrada lotada, sua bolacha de gergelim, bolacha integral com gergelim na boca,  aqueles carros te esmagando, aqueles carros te sufocando, aqueles carros te esmagando, aqueles carros te sufocando, e outro carro trocando de pista, se atravessando, e você gravando num gravador digital outro carro barbeirando quase batendo ali na frente, e você dirigindo com uma mão com um gravador na outra, o carinha que foi cortado tá pê da vida, ta quase indo pra cima do outro, e você com sua bolacha integral com gergelim na boca. E o tempo passa, e passa, e tinha mais uma coisa que eu queria dizer mas eu não lembro, porque a essa altura a bolacha integral com gergelim já ta dando coisas, coisas nervosas, bloqueios psicológicos, crashes de memória e você não sabe mais o que dizer. Você não sabe mais o que dizer, a angústia, a agonia, o sofrimento de não ter mais o que dizer, com uma bolacha integral de gergelim na boca. E aí você começa a lembrar, imaginar uma pessoa, que não conseguia comer nada sem escovar os dentes, e você se imagina sendo essa pessoa com uma bolacha integral de gergelim na boca, sabendo que vai trabalhar até tarde, que não vai ter tempo de escovar os dentes, você pensa na fome, você pensa na bolacha integral de gergelim na boca e na angustiante sensação de ter sujeira, muita sujeira, um depósito de lixo na boca, você se imagina com um chiqueiro na sua boca após dar a primeira mordida naquela bolacha integral com gergelim que está na sua boca. Você começa a pensar se você morde, não morde a bolacha, e a bolacha lá, inerte, só, desesperada, aguardando a decisão de ser decapitada. E você Senhor, com todos os poderes, ainda indeciso.

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