ago 05

10.000 visitas

By rafaelreinehr | Uncategorized

Uma das coisas mais cafonas que existem na blogosfera é comemorar 100 visitas, mil visitas, 10.000 visitas, 100.000 visitas, etc.

Se alguém aqui tem que comemorar é o Inagaki, com suas mais de 800 visitas diárias (10.000 em pouco mais de 12 dias), é a Alê Félix, com quase 3000 (10.000 em 3 dias e pouco) e o Abrupto, com mais de 4000 visitas diárias (10.000 em menos de 3 dias).

Existem várias explicações para que eles tenham tamanho “sucesso de audiência”.

A primeira é a qualidade de seus escritos.

A segunda é o tempo que já estão na rede.

A terceira é um ótimo marketing pessoal.

A quarta é a quantidade de línques em outros sites e blógues ou citações como essa que estou fazendo.

A quinta, pode ser, em alguns casos, o uso de ferramentas para aumentar contagens como banner exchangers etc.

Há algum tempo, quando comecei minhas incursões bloguísticas achava que era importante ter zilhões de acessos e milhares de comentários em meus pôusts.

Isso mudou.

Hoje, tenho plena convicção de que, o que realmente vale, é que, se eu tiver 5 ou 5000 leitores por dia, que aquelas pessoas estejam acessando o Escrever Por Escrever porque realmente sentem afinidade com minhas idéias e tenham desejo de interagir. Trocar experiências. Já escrevi isto aqui antes: de nada adianta um comentário do tipo “Oi td bom? Entra no meu blog blz?”. Não acrescentou nada e ocupou um rico espaço virtual sem gerar informação ou estínulo algum (exceto talvez desprezo por minha parte).

Assim, por aqui sentir-se bem em passear por minhas palavras, comentando ou não, seja bem-vindo. Acessos oriundos do Google ou de outros sites de busca procurando por “canções militares de TFM” ou qualquer outra maluquice gerada pelas ferramentas de busca são geralmente efêmeras.

Vamos valorizar a qualidade dos textos e dos comentários, e não sua quantidade.

Vamos utilizar este espaço com o devido respeito que ele merece.

Hoje, não vou apagar 10.000 velinhas, mas acender uma para que minhas preces sejam ouvidas…

ago 03

Pedindo pizza em 2009

By rafaelreinehr | Uncategorized

Não costumo fazer “Copy & Paste” de textos de outrem aqui, mas recebi este texto por e-mail através de En:Fwd:etc e, como trata-se de um assunto de extrema relevância (como vamos pedir pizza daqui a cinco anos) que resolvi fazê-lo. O autor é Anônimo ( o e-mail não informava e não encontrei no Google a autoria). Me lembrei do filme Gataka. E logo em seguida, toda uma corrente de pensamento sobre a bioética no futuro, ou, no caso do texto a seguir, da “Ética da Informação” no futuro. Vou escrever sobre isso…

Bem, aí vai o texto:

O futuro já chegou. Como será que iremos pedir uma

pizza daqui há algum tempo?

– Telefonista: Pizza Hot, boa noite!

– Cliente: Boa noite, quero encomendar

pizzas…

– Telefonista: Pode me dar o seu NIDN?

-Cliente: Sim, o meu número de identificação

nacional

é 6102-1993-8456-54632107.

Telefonista: Obrigada, Sr.Lacerda. Seu

endereço é Av.

Paes de Barros, 1988 ap. 52 B, e o número de seu

telefone é

5494-2366,

certo? O telefone do seu escritório da Lincoln

Seguros é o 5745-2302

e

o seu celular é 9266-2566.

– Cliente: Como você conseguiu essas

informações todas?

– Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao

Grande Sistema

Central.

– Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar

duas pizzas, uma quatro queijos e outra

calabresa…

– Telefonista: Talvez não seja uma boa idéia…

– Cliente: O quê?

– Telefonista: Consta na sua ficha médica que

o Sr.

sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol

muito alta. Além

disso,

o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas

perigosas para a sua

saúde.

– Cliente: É, você tem razão! O que você

sugere?

– Telefonista: Por que que o Sr. não

experimenta a

nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O

Sr. vai adorar!

– Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?

– Telefonista: O Sr. consultou o

site “Recettes Gourmandes au

Soja”

da Biblioteca Municipal, dia 15 de janeiro, às 14:27h,

onde permaneceu

ligado à rede durante 39 minutos. Daí a minha

sugestão…

– Cliente: OK, está bem! Mande-me duas pizzas

tamanho família!

– Telefonista: É a escolha certa para o Sr.,

sua esposa e seus 4

filhos, pode ter certeza.

– Cliente: Quanto é?

-Telefonista: São R$49,99.

– Cliente: Você quer o número do meu cartão de

crédito?

– Telefonista: Lamento, mas o Sr. vai ter que

pagar

em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito

já foi ultrapassado.

– Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco

sacar dinheiro

antes que chegue a pizza.

– Telefonista: Duvido que consiga, o Sr. está com o

saldo negativo no banco.

– Cliente: Meta-se com a sua vida! Mande-me as

pizzas

que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?

– Telefonista: Estamos um pouco atrasados,

serão

entregues em 45 minutos. Se o Sr. estiver com

muita pressa pode vir

buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto

não é aconselhável,

além de

ser perigoso…

– Cliente: Mas que história é essa, como é que

você

sabe que eu vou de moto?

– Telefonista: Peço desculpas, mas reparei

aqui que o

Sr. não pagou as últimas prestações do carro e

ele foi penhorado.

Mas

a sua moto está paga, e então pensei que fosse

utilizá-la.

– Cliente: @#%/§@&?#>§/%#!!!!!!!!!!!!!

– Telefonista: Gostaria de pedir ao Sr. para

não me

insultar… não se esqueça de que o Sr. já foi

condenado em julho de

2006 por desacato em público a um Agente

Regional.

– Cliente: (Silêncio)

– Telefonista: Mais alguma coisa?

– Cliente: Não, é só isso… não, espere…

não se

esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na

promoção.

– Telefonista: Senhor, o regulamento da nossa

promoção, conforme

citado no artigo 3095423/12, nos proíbe de vender

bebidas com açúcar a

pessoas diabéticas…

– Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou me

atirar pela janela!!!!!

– Telefonista: E machucar o joelho? O Sr. mora

no andar térreo!

jul 30

Diálogos com Deus – As férias de Deus (II)

By rafaelreinehr | Uncategorized

Copacabana já tinha sido bem aproveitada. O próximo destino era a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), em Paraty, cidade onde anos atrás Jesus havia encharcado seus ladrilhos históricos com o resultado depurado de litros de cerveja.

Já na chegada, Maria foi correndo pegar um autógrafo de Alessandro Garcia, sentado em uma cadeira de praia na Praça da Matriz da cidade, enquanto Milton Hatoum ministrava uma oficina de Romance.

Na janta, Deus encontrou Paul Auster que estava a jantar com Chico Buarque e, da mesa onde estava sentado, por pouco não teve a impressão de ouvir um sussurro da mesa onde estavam sentados Milton Ribeiro, Cláudia Antonini e Stella van der Klugt dizendo “bobão!” à mesa do renomado cantor de música popular brasileira.

Jesus chegou atrasado dizendo que tinha ganho uns pilas por um “freela” jornalístico que fizera, mandando algumas informações por telefone ao Juremir Machado da Silva, que estava em Porto Alegre, pois não havia sido convidado para a FLIP.

Quando estavam quase de saída da última oficina, no último dia da FLIP, chamaram o “Hermeto Pascoal” para tirar o som de algumas folhas de papel. Esclarecido o engano – e já que Deus já estava no pequeno palco – pediram que declamasse uma poesia de sua autoria. Deus, mesmo um pouco encabulado – e contrariado – cedeu ao olhar amável e ao mesmo tempo incisivo que só Maria sabia fazer e soltou o verbo:

“- Batatinha quando nasce…”

jul 27

Crônica do Crítico Literário

By rafaelreinehr | Uncategorized

Comece dizendo que o autor foge do hiper-realismo. Que mantém uma escrita sóbria sem concessões ao coloquialismo excessivo.

Siga afirmando que não usa linguagem chula nem escatológica, tão comum em nossos dias que está prestes a formar uma nova corrente.

Diga que é um representante legítimo do ideário contemporâneo. Se escreve textos curtos, diga que são fortes porque concisos. Se os textos são longos, diga que são fortes porque se esmeram em detalhes.

Lembre o leitor que (não) há nuances de experimentalismo.

Se for um contista, diga que os contos de Fulano de Tal invadem a realidade, recriando-a num espelho de múltiplas faces.

Em caso de romances, afirme que nos textos do autor, o leitor é convidado a participar, quer seja pela ambigüidade intencional do discurso ou pelo “subtexto tramado com perícia”, acentuando que esses são “reflexos óbvios da prática do conto” (se o autor não for conhecido por seu trabalho como contista, suprima este trecho ou insinue que o mesmo tem um manancial de contos guardados em suas gavetas).

Se possível identifique algum cacófato e o enumere.

Refira que o autor usa (evita) doses maciças de humor, privilegiando o trocadilho, a metalinguagem e a paródia.

Para concluir, diga que o autor consegue com primor evitar filigranas e pirotecnias, usando adequadamente a força intrínseca das palavras. Termine com “O escritor Fulano de Tal mostra, assim, consciência de seus instrumentos de criação, mantendo a coerência durante toda sua obra”.

Na próxima crítica, ajuste o nome da obra e do autor, inverta a ordem de aparecimento das sentenças e dê uma enfeitada aqui e acolá com passagens da obra e pronto: mais uma crítica literária fresquinha estará saindo do forno!

# # # # # # # # #



Não estranhem o simples “despejar” de textos aqui no Escrever Por Escrever, com um bom tanto de impessoalidade e de diálogo com meus 5 leitores (pegando a mania do Milton Ribeiro!). Ao contrário do que possa parecer – que estou sem tempo para escrever e que estou escrevendo pouco – estou escrevendo muito, em quantidade e densidade (pelo menos é o que por ora penso). Tais escritos e leituras que estes mesmos escritos me obrigam ter – afinal quero fundamentar minhas palavras sobre solo pétreo, mesmo que para tanto esmaeça um pouco a plena originalidade, – tem tomado muito do meu tempo.

As idéias fervilham e não posso deixar que um transatlântico carregado com elas passe à minha frente e eu fique, literalmente, a “ver navios”!

Assim, o Escrever Por Escrever será, na mesma freqüência de sempre, abastecido com alguns textos de minha autoria, algumas fotos tiradas aqui e acolá e um ou outro Diálogo com Deus. É claro, sempre que um novo amigo for feito com o “Dízimo Solidário – Não Seja 100, seja 110% – Manifesto Anti-Individualista”, colocarei aqui também uma nota e as fotos.

A idéia de ING está tomando substância. Em breve, descrevo aqui com detalhes o que pode (e será) ser feito!

jul 22

Diálogos com Deus – As férias de Deus (I)

By rafaelreinehr | Uncategorized

Pois lá estava ele, em Copacabana, estirado em sua cadeira de praia, óculos escuros e calção de banho vermelho, chapéu de palha e bebendo água de côco.

Maria havia saído para caminhar e Jesus jogava num fliperama ali perto.

Àquele momento, já o haviam confundido por mais de uma vez com o Hermeto Pascoal, e para evitar explicar toda história novamente, já estava até dando autógrafos em nome do multi-instrumentista.

Finda a água de côco, olhou de sobrolho para a direita e passou a admirar a bela vista que aquela praia carioca com suas “meninas do Rio” proporcionava. Já esboçava um pequeno sorriso em seus lábio e preparava um sonoro “fiu-fiu” quando percebeu que uma sombra se insinuava por sobre seus ombros. Era Maria. Havia segurado o assovio bem a tempo!

– Já não era sem tempo Maria! Estava sentindo sua falta!

– Ah é? Que amor, meu bijuzinho! Só você mesmo para ser assim tão descarado! Vai dizer que não estava olhando para o traseiro daquela morena ali adiante?

– Traseira? Morena? Onde?

– Que cara-de-pau!

(continua…)

jul 17

Despertar

By rafaelreinehr | Uncategorized

antigo gramophone.jpg

Quando as cores somem

Desaparecem como se nunca houvessem existido

Quando as luzes brilham

Mas não servem mais ao seu propósito

O vazio preenche todos espaços

Toma conta de tudo que resta

De tudo que sobrou, dos escombros

Agora em tons de cinza, escuro

Já não se ouvem passos, nem vozes

Somente um grito, surdo, ensurdecedor

Que me faz fechar os olhos

E ver coisas até então sem sentido

A distância agora consigo medir

Ela existe, e assusta

Tenho medo de não mais voltar

De não escolher o caminho certo

Sinto cheiro de café

E sinto necessidade de acordar

Deste sonho, que é uma vida

E viver, esta vida – que é realidade.

jul 13

Colocando as mãos na massa

By rafaelreinehr | Uncategorized

Não adianta ter uma idéia e mantê-la guardada na gaveta, não acham?

Pois então, hoje tirei a tarde para iniciar meu projeto pessoal do Dízimo Solidário, descrito ali embaixo no Manifesto Anti-Individualista (ou Anti-Individualismo como quer meu amigo César).

Em primeiro lugar, fui na Escola Antônio Francisco Lisboa, aqui em Santa Maria. Havia lido no jornal uma reportagem sobre o fato de utilizarem na escola um programa de computador que imprime da tela do computador textos em braile, com uma impressora especial. O problema é que falta verba para comprar os formulários de papel especial, mais grossos que o usual, para a impressão.

Fui gentilmente levado pela Ana Paula para conhecer as dependências da Escola, muito bem estruturada apesar da carência de verba que estas instituições apresentam neste país – resultado da boa vontade dos que lá trabalha, com toda certeza.

Conheci a professora Marli Terezinha Schmitt, que estava a ensinar a aluna Adriana, de 19 anos em uma sala específica. Ambas com deficiência visual – professora e aluna – mostravam grande disposição em me ajudar a conhecer aquele ambiente.

Adriana.jpg

Adriana, concentrada estudando suas lições

Prontamente solícita, a professora me apresentou a impressora que faz a façanha de imprimir em braile textos previamente passados para o computador.

maquina braile.jpg

Impressora em braile (um pouco fora de foco)

Obviamente fiquei sensibilizado com a situação e minha vontade de ajudar só aumentou.

Fiquei de comprar 1500 folhas para auxiliar a Escola a seguir seu especial trabalho.

Saí de lá feliz da vida, rumo ao meu próximo destino: a casa de Rodrigo, o menino deficiente visual que superando todas as dificuldades, passou no vestibular para Letras Espanhol na Universidade Federal de Santa Maria, façanha que muitas pessoas sem suas restrições não alcançam.

Achar a casa de Rodrigo foi uma lenda: ele mora na periferia da cidade, em um conjunto habitacional de difícil acesso, em uma casa bastante humilde.

Uma faixa em frente a casa mostra todo o orgulho da família:

Faixa do Rodrigo.jpg

Na chegada sou recebido pelo tio e pelo avô de Rodrigo, que me diz que o mesmo encontra-se ansioso pela minha espera (havia combinado minha vinda por telefone na semana anterior).

Ao entrar na casa quem me recebe é Rodrigo ao lado de sua avó, que também é sua mãe, já que Rodrigo perdeu sua mãe biológica bastante cedo, em um acidente.

Me apresento e lhe entrego o gravador, pelo qual Rodrigo agradece efusivamente, certo de que lhe será útil durante sua faculdade.

Rodrigo.jpg

Este que vos escreve ao lado de Rodrigo com seu livro em braile e seu novo gravador portátil

Atendendo ao pedido de sua avó, Rodrigo leu para mim um livro de Espanhol em braile que havia ganho do Cipel, cursinho local que lhe ajudou nos estudos pré-vestibulares.

Depois de lhe desejar muito sucesso nesta nova batalha que começa (Rodrigo ainda está na luta para conseguir transporte para a UFSM, já que seu curso é noturno) no próximo mês, fui embora, certo de que ainda nos veremos em muitas ocasiões.

Na volta para casa, parecia estar flutuando, tamanha satisfação e felicidade que tomaram conta de mim.

No princípio, ainda pensava nas coisas que estaria deixando de adquirir ao fazer estas doações. Pensava nas minhas lentes fotográficas e também nos filtros para as mesmas, que ainda não tenho. Pensava na troca de meu carro, na aquisição de minha casa própria, que está tão distante. Pensava em roupas e sapatos novos e, quem sabe, alguns DVDs a mais.

Agora, estou pleno de certeza de que, realmente, estas coisas podem esperar e que existem planos da realidade que necessitam de atenção mais urgente do que minha vaidade ou desejo de consumo.

Que siga o baile! Vou dançando sem parar esta nova música que meus ouvidos finalmente conseguiram compreender.

E nesta noite, meu sono será diferente, assim como meu sonhar. Se eu invadir seus sonhos, hoje ou amanhã, dando petelecos na sua consciência, não estranhe. Foi assim que começou comigo: aos poucos, como quem não quer nada…

A propósito: àqueles que por aqui chegaram e são novos, leiam o Manifesto Anti-Individualista. Aos que são recentes e estranham minha demora de 4, 5 ou 6 dias entre um pôust e outro, queiram ter a gentileza de lerem pôusts antigos. Muitos deles não perdem a validade com o tempo! Vale a pena fuçar!

jul 08

Diálogos com Deus – Deus e o pagode

By rafaelreinehr | Uncategorized

Abriu uma casa de samba nova na Vila Celestial do Andaraí chamada Sobradinho. E lá foram Deus e Maria, como “zeladores da vizinhança”, conferir a novidade. Já na chegada, encontraram seu Aristides, maior fofoqueiro desta e de todas paróquias e contratado como host da festa.

– Óóóóóólha só quem vem chegando! Ilustríssimo senhor Deus e sua graciosa esposa! Sejam bem-vindos!

Deus resignado acenou com a cabeça. Coube à Maria a parte diplomática:

– Muito obrigado seu Aristides. Será que ainda conseguimos um lugar sentados?

– Sentados? Mas não vão requebrar este esqueleto enferrujado?

Deus levanta um olhar furioso e puxa Maria para dentro do estabelecimento. Seu Alcides segue com seu trabalho sem aperceber-se da ânsia que causou.

Lá vem chegando Maria Clara de mãos dadas com Laura, sócias-gerentes da casa e amicíssimas, por sinal:

– Sejam bem-vindos senhor Deus e dona Maria! Temos um lugar especial reservado para vocês! – e foram levados para uma mesa no canto do salão.

À Maria coube um lugar com boa visibilidade do palco, mas Deus ficou exatamente atrás de uma pilastra, ao que indagou, indignado:

– Vou ficar sentado aqui? E como vou ver o show?

– Mas o senhor não é aquele que tudo vê, tudo sabe e tudo o mais? Achamos que não iria se importar, levando em conta seus superpoderes…

– Grrrrr – “Não é o meu dia” – pensou.

Depois de cerca de duas horas de espera, finalmente o primeiro “xô” da “náite”: um grupo de pagode da periferia chamado “Os Travesseiros”.

Em cima do palco, um grupo de 5 manos armados de pandeiro e cavaquinho eram comandados por um mano de cabelo loiro e viseira de praia verde-limão, que cantava “laia-laiá” até não poder mais.

Ao fim da primeira música, a impaciência divina já era notada, pois raios e trovões relampejavam e tronitroavam fora do Sobradinho.

Mas a paciência acabou mesmo quando entrou o segundo grupo, um tal de SERASA, SPC, ou algo assim. Ao sentir que mais um laia-laiá estava para começar, não deu outra:

– Maria, se sairmos daqui te dou aquele microondas novo com douador que você tanto quer…

– Fechado! Já não era sem tempo!

jul 01

Manifesto Anti-Individualista / Hoje é meu Aniversário.

By rafaelreinehr | Uncategorized

Manifesto Anti-Individualista

Rafael Luiz Reinehr

Certo dia me dei conta de que já tinha praticamente tudo que um homem precisa para ser feliz: uma família sempre pronta a dar suporte no que precisasse, uma namorada que me amava, um trabalho do qual realmente gostava, várias habilidades artísticas em campos diversos (música, pintura, literatura, cinema, fotografia) adquiridas com o passar do tempo, uma inteligência boa o suficiente para compreender ao menos rusticamente o mundo à minha volta e capaz de me fazer um permanente questionador e um padrão de vida que, comparado à boa parte da população de meu país pode ser considerado “confortável”.

É certo que ainda haviam muitas coisas a conquistar, como minha casa própria, um estado de consciência mais espiritualizado e menos materialista e mais tolerância com meus semelhantes. Mas estava caminhando nesta direção.

Achei que já era hora de parar de construir somente a meu favor. Não consigo precisar exatamente a data mas, desde meus vinte e poucos anos (pode ter sido antes) passei a viver com a exata noção de que poderia fazer a diferença no mundo em que vivia. Sabia que muitos teimavam em afirmar que isso era “coisa de jovem” e “passava com o tempo”. Saí de um estado de anestesia e tratei de aprimorar meus conhecimentos, habilidades e capacidades nos mais diversos ramos do conhecimento humano, sempre em mente com o objetivo de me armar com as ferramentas capazes de, algum dia, produzir a diferença que eu tanto sonhava para o mundo.

Assim, além de voltar minhas leituras para escritos filosóficos, políticos, sociológicos e antropológicos, além de romances assim chamados “densos”, passei a freqüentar, após a conclusão da Faculdade de Medicina, as aulas da Faculdade de Filosofia e posteriormente as da faculdade de Ciências Sociais de minha cidade.

Muitas reflexões advindas desta época me auxiliaram a abrir meus olhos e expandir meus sentidos para melhor perceber o mundo que me rodeava e suas singularidades explícitas e ocultas.

Sofrimento com doenças e desilusões amorosas foram enriquecedores. Contatos com novos amigos e suas idéias foram revigorantes. Uma estada na Inglaterra foi um sopro pleno de luz em meu caminho. A descoberta de um novo amor foi estimulante.

A consciência de crises vitais como pontes que necessariamente precisamos atravessar deixou de ser angustiante e passou a ser reconfortante e, assim como no expressionismo as formas e perspectivas normais foram distorcidas pelas emoções íntimas e me senti no controle destes momentos de descontrole. Passei a dominar o caos.

Um dia, aparentemente igual a todos os outros, me deparei com um jornal de uma semana antes com uma reportagem na última página que havia passado por mim desapercebida. Contava a história de um menino cego de origem humilde que, com muito esforço, havia conseguido passar no vestibular para Letras em uma Universidade Federal. A batalha agora era conseguir um gravador para que o jovem pudesse acompanhar adequadamente as aulas na faculdade, já que seria difícil encontrar livros em Braile das matérias exigidas.

Pensei que seria uma causa justa ajudar e me propus a doar o gravador ao menino.

Este ato gerou, como sua conseqüência quase que imediata, a decisão de, a partir daquele dia, doar 10% de todos meus vencimentos a pessoas ou entidades necessitadas. Não sei se influenciado pela leitura de Memórias do Subsolo de Dostoievski mas certamente sem desprezar os Tio Patinhas que sempre lia na infância, muitos foram os estímulos em minha vida para que pudesse hoje chegar a esta decisão.

Sem querer, acabei criando o que vou chamar de ING – Indivíduo Não-Governamental, em contraposição às ONGs – Organizações Não-Governamentais. Extremamente fácil de gerir, sem custos de administração ou distribuição, totalmente vinculada ao meu próprio bom-senso, juízo crítico e vontade de ajudar. A maior vantagem seria que a fonte beneficente lidaria diretamente com a beneficiada, sem intermediários que oneram, atrasam ou desviam a ajuda oferecida. E, no momento em que não pudesse arcar com os custos, poderia simplesmente suspender temporariamente minha ajuda.

Pode-se dizer que, contemporaneamente, nossas ONGs são formadas por pequenas INGs, que oferecem seu tempo como auxílio ao próximo. Muito louvável, mas ainda insuficiente!

Felizmente, estamos também desenvolvendo a idéia de Empresas Ecológica e Socialmente Responsáveis, que se preocupam com o meio-ambiente e com o patrocínio de projetos sociais nos mais diversos níveis e frentes. Continuemos neste caminho!

A tarefa somente começou. Após esta decisão pessoal, tratarei de divulgá-la e tentar contagiar o maior número possível de profissionais liberais e autônomos e principalmente de empresas que ainda não aderiram a projetos de Responsabilidade Social.

Se você é sensível à causa, passe a ajudar com o que puder. Se ganha R$ 200,00 por mês e fuma 1 maço de cigarros por dia, tente fumar apenas 15 e colabore com apenas 1% de seus vencimentos, comprando R$ 2,00 em um pacote de brinquedinhos de plástico no 1,99 e doando a uma creche perto da sua casa (pode ser até aquela em que seu filho fica!). Se sua empresa ganha R$ 1.000.000,00 por mês e você acha que doar R$ 100.000,00 todo santo mês é demais, pense então em doar apenas 1% como propus ao cidadão que não tem nem com quê limpar o c´… R$ 10.000,00 não farão falta, no seu caso, mas farão uma diferença enorme àqueles a quem te propuseres a ajudar. Essa proposta vale para bares, restaurantes, butiques e lojas de shoppings ou pequenos comércios da periferia, casas de prostituição e para todos que se sentirem bem ou aptos a ajudar.

Mesmo que faças esta caridade pensando no imenso retorno emocional que sua ajuda vai lhe trazer, não se importe! O importante é que, mesmo neste caso, é só benefício que estamos proporcionando! Seu ato de bondade será recompensado com outro de gratidão inigualável. Segue-se daí a famosa “corrente do bem”, que funciona excepcionalmente em pequenas comunidades mas dificilmente conseguimos ampliar para um cosmos maior como um país ou mesmo todo o mundo.

Em tempos onde a guerra preventiva encontra-se insanamente justificada, temos que urgentemente encontrar alternativas. Esta é a que ofereço.

A todos aqueles a quem este Manifesto chegar às mãos, peço que entrem em contato através do e-mail superjazz7@terra.com.br, do site Simplicíssimo(www.simplicissimo.com.br), do blógue Escrever Por Escrever(escreverporescrever.blogs.sapo.pt) ou do endereço Avenida Concórdia, nº 1253, Centro, CEP 96540 000, Agudo – RS, Brasil. Novas e mais idéias são sempre bem-vindas!

Tão prontamente o sítio Armazém de Idéias Ideais (www.armazemdeideias.org) ficar pronto, teremos um belo espaço para cadastrar todas INGs afins com a idéia, divulgar os benefícios gerados e também manter um fórum para debater sobre novos projetos para melhorar a vida humana sobre esta nossa fabulosa Nau Planetária.

(RLR, Santa Maria, 24 de junho de 2004)

Não seja 100, seja 110%! – Campanha pelo Dízimo Solidário

Conclamação a todas as pessoas do bem a doarem integralmente de 1 a 10% de seus vencimentos para entidades assistenciais, pessoas carentes ou com deficiências e entidades artísticas e culturais necessitadas.

Hoje, 1º de julho, é o dia do meu Aniversário. 28 anos. Muitos estímulos, muitos significados. Agradeço a todos (e a tudo) que me fez quem sou hoje, este ser imperfeito que incansavelmente busca sempre melhorar. É o mínimo que podemos fazer. Do meu ponto de vista.

jun 28

Tudo muito blue / Cinema e Antropologia

By rafaelreinehr | Uncategorized

Já está no ar a nova edição do site “A Fábrica“. Tá… E aí? O que que tem de legal nesta joça? A Fábrica é uma idéia bem bacana de Luiz Coutinho, que explora nuances da literatura contemporânea que praguejantemente caminha tal andarilho sem rumo pela internet.

O bom de tudo isto é que este quem vos fala tem um textículo publicado lá. Está dentro de “projeto blog: rafael reinehr”. O tema da edição é Tudo muito blue. Deixem seus comentários por lá mesmo!

Cinema e Antropologia

Dia desses, em uma aula de Antropologia Visual deparei-me com um texto de Claudine de France, onde a mesma disserta sobre uma das duas tendências essenciais do cinema antropológico: o filme de exposição (em contraposição ao filme de exploração). Claudine tem publicado no Brasil o livro “Cinema e Antropologia”, de onde extraí as informações para esta resenha. Uma das maiores expoentes da Antropologia Fílmica, ao lado de Jean Rouch, o “pai dos documentários e etnografias fílmicas”, Claudine é figurinha básica para todos aqueles que querem aventurar-se nesta instigante área do cinema que é a da realidade colocada na tela.

A primeira afirmação feita é a de que o filme de exposição é, historicamente, anterior ao filme de exploração, justamente pelo caráter clássico pré-existente na realização das etnografias: através de longos períodos de acompanhamento das culturas estudadas, através da realização de entrevistas, etc. Com o surgimento do cinema, simplesmente manteve-se o mesmo trabalho inicial mas acrescentou-se, ao final, o registro daquilo que o olho do etnógrafo havia captado, de certa forma já com uma espécie de “pré-edição” mental realizada.

Quais seriam alguns aspectos que, então, privilegiariam o desenvolvimento de uma assim dita “filmagem de exposição”? Bem, um deles diz respeito a situações em que o ato a ser gravado repete-se várias vezes em curtos períodos de tempo, podendo assim ser facilmente estudado, questionado e, assim, melhor preparado o seu registro.

Outro aspecto que, pelo menos inicialmente, foi importante para o desenvolvimento da filmagem de exposição foi o pouco desenvolvimento tecnológico até então existente, dificultando o trânsito fácil necessário a gravações “intensivas”, por assim dizer. Devido ao uso de películas não suscetíveis a revelação imediata e câmeras mecânicas, que obrigavam tempos curtos de filmagem, o cineasta era obrigado, por uma questão de economia, a planejar uma única sessão de gravações. Frase que resume isso tudo que eu disse: “A pesquisa extra-cinematográfica, sendo uma etapa antecipatória de um futuro registro, encontra sua finalização lógica num filme concebido como procedimento de reconhecimento mais do que de descoberta” (digo eu, exatamente o que o diferencia de um filme de exploração).

Claudine separa, concorde às possibilidades técnicas da década de 50, as alternativas possíveis em relação à gravação das imagens: ou se aceitava a apresentação descontínua dos processos, respeitando o desenvolvimento natural e tentando ressaltar os aspectos fortes, a partir de uma estratégia prévia ou, com certa “vergonha”, recusava-se a fragmentação e “simulava-se” a continuidade com procedimentos de interrupção e reinício dos atos e processos a serem registrados.

A seguir, analisa-se a historicamente “observação direta” dos acontecimentos e seu registro clássico através da escrita e a resistência inicial em relação ao filme. Considerava-se este apenas como uma cópia, um “testemunho da observação direta”. “Temia-se a artificialidade de sua elaboração” (como se não devesse temer a artificialidade da produção de um texto julgado “etnográfico”, menos passível de ser confrontado e questionado, principalmente em eventos raros, longínquos ou que exijam grande demanda de tempo).

Mais tarde, Luc de Heusch faz uma análise favorável à imagem animada, chegando a propor que nas filmagens de rituais, por exemplo, podem aparecer, pela primeira vez, detalhes não obtidos nos levantamentos orais e que, além disso, a imagem exerce função de controle sobre a observação direta, que pode ser corrigida posteriormente.

Aí não se incluem outras facilidades do registro fílmico, como o uso da câmera lenta para estudar aspectos de técnicas corporais como fizeram Jean Rouch e Gilbert Rouget.

A seguir, são enumeradas algumas técnicas utilizadas para “maquiar” os filmes, como por exemplo ocorria para produzir a ilusão de uma continuidade temporal, através do uso do “plano de cobertura”. Usando esta técnica, quando ocorria uma interrupção forçada da filmagem, usava-se um registro de distração, como um “close” do rosto do ator ou um animal doméstico que ronda o lugar, para depois voltar à sequência normal, em uma etapa posterior do desenrolar da ação.

Um problema constatado é o que se chama de pró-filmia, ou seja, o filme em primeiro lugar, mesmo sacrificando a naturalidade das ações. Muitas vezes se tenta negar, mas para conseguir a sequência adequada de eventos o cineasta-antropólogo solicita ao ator da ação que repita determinado gesto que foi perdido na filmagem, caracterizando novamente mais um tipo de mis en scène.

Bruscamente concluindo, o filme de exposição objetiva apresentar ao espectador a idéia que o cineasta-antropólogo faz de um processo, mais do que simplesmente apresentar o processo em sua forma crua. Isso é evidenciado pelas “encenações”, pelas “maquiagens” e pela escolha dos atos marcantes de um protagonista. O cineasta apresenta o resultado final de uma decupagem que inevitavelmente surgiu de uma leitura prévia condicionada à linguagem, quer seja esta interior ou escrita. Disto, conclui-se que os melhores filmes de exposição são possivelmente aqueles previamente construídos com maior esmero, com um fio condutor já determinado possibilitando concisão e simplicidade, sem deixar de escrutinar e esmiuçar o objeto de estudo. Finalmente, Claudine de France sugere que mesmo que novas formas de instrumentação audiovisual gerem novas concepções, ainda encontra-se distante o dia em que as obras provenientes deste novo arranjo metodológico venham a suplantar a qualidade dos melhores filmes de exposição.