jun 17

Cinco Marias

By rafaelreinehr | Uncategorized

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando…

Maria Quitéria tinha quatro filhas moças: Maria Antônia, Maria Júlia, Maria Cristina e Maria Solange, a primogênita.

Desde que se mudaram de Santa Maria para Piraporinha do Bem-Te-Vi, no meio da Campanha, a vida da família Boitempo havia ido para as cucuias.

Seu Bonifácio, ex-funcionário da extinta R.F.F.S.A. havia sido transferido para São Miguel oito anos antes, e mesmo com o fim da empresa que lhe sustentava decidiu que era lá que iria fincar sua bandeira.

E assim foi: apesar das dificuldades do começo, seu Bonifácio conseguiu fazer seu pequeno Armazém se destacar entre as vendas do lugarejo e, em pouco tempo, já era um dos mais respeitados comerciantes da região.

É claro que tamanho sucesso nunca vem só: chamou a atenção de algumas espertas e serelepes “senhoras” da vizinhança, que passaram a gastar boa parte de suas tardes na venda do “Seu Bona”, como era conhecido.

Por um tempo, Maria Quitéria fez vista grossa e agiu como se nada estivesse acontecendo. Um dia, ao entrar no bolicho, chegou a ver Dona Gertrudes, viúva do falecido Anastácio pular no pescoço de seu marido e lhe roubar uma bitoca. Fez que não viu.

O tempo passou, as meninas cresceram. Maria Solange já havia casado e morava em uma casinha construída atrás da casa dos pais. Foi então que os problemas realmente começaram.

Bonifácio, que já há alguns anos havia ficado adepto de um ou dois copinhos de pinga, já não mais chegava em casa sóbrio.

A gota d’água aconteceu em uma noite de outono: Maria Quitéria ainda não havia chegado do encontro de senhoras no clube local, Maria Júlia e Maria Cristina estavam na casa da irmã mais velha, nos fundos do terreno e Maria Antônia, com 15 anos na ocasião, estava no banho. Bonifácio chegou em casa com as bochechas rosadas – mistura das duas garrafas de vinho e do frio que se insinuava – e, ao ouvir o barulho de água caindo do chuveiro, foi direto ao banheiro, esperando achar por lá sua esposa a se banhar.

Ao lá chegar deu de cara com sua filha mais moça – assustada e nua – e, embriagado como poucos, não se intimidou e foi logo agarrando a menina, que tentava afastar o pai a tapas e gritos.

Quando Quitéria chegou, encontrou Bonifácio deitado na cama, roncando tranqüilamente com sua barriga para cima, pernas para fora da cama, ferrado no sono. Não imaginava o que houvera acontecido até entrar no banheiro. No canto, encolhida até os joelhos quase adentrarem o tórax, Maria Antônia jazia, em um misto de soluços e gemidos baixos, sentada em uma poça de sangue.

O breve olhar que sua filha lhe dirigiu antes de desabar em choro compulsivo foi o suficiente para Quitéria dirigir-se até a cozinha e selecionar sua mais afiada faca.

Adentrou o quarto do outrora feliz casal e consumou um fato que tinha a impressão devia ter praticado há tempos.

Ao sentir o frio metal invadir sua carne, Bonifácio só teve tempo de arregalar seus já esbugalhados e vermelhos olhos. Morreu estrebuchando qual porco carneado. Não conseguiu nem entender o que estava lhe acontecendo.

Assim que Bonifácio exalou seu derradeiro suspiro, Júlia, Cristina e Solange irromperam no quarto de Quitéria e se depararam com a mãe ajoelhada, imóvel, observando o corpo igualmente inerte, entretanto sem vida, de seu pai.

Por algum motivo, não houve espanto nem tampouco comoção. A serenidade naquele quarto era assombrosa. Só faltava resolver mais uma coisa. Com o corpo ainda quente.

Enterrar o próprio marido é sempre uma grande emoção. Principalmente num dia chuvoso e com as quatro filhas olhando.

Próximo pôust: Diálogos com Deus: Deus e a fome no mundo – Entrevista Coletiva

jun 15

O Dia Depois de Amanhã – 28 de maio

By rafaelreinehr | Uncategorized

O filme que estreiou mundialmente em 28 de maio mostra as conseqüências de algo que sentimos em nossas vidas ano após ano: o aquecimento global derivado das emissões incontroladas de dióxido de carbono. No site do filme (www.thedayaftertomorrow.com), além de anteciparmos o que podemos ver na telona, podemos aprender como fazer para diminuir ou compensar nossa contribuição ao aquecimento global, diminuindo nossa produção individual de dióxido de carbono, no site Future Forests, lá indicado. É claro que o custo da façanha não é nada barato (US$ 514,93 por ano seria o custo estimado para neutralizar as 22 toneladas de CO2 que cada um de nós produz anualmente).

Quero deixar bem claro que esta idéia não é original: o grupo musical Pink Floyd, ícone de rock progressivo da década de 70 foi quem estabeleceu a vanguarda da proteção ambiental através da orientação sobre como compensar a emissão de gases tóxicos – a idéia do Carbono-Neutro. No site http://www.pinkfloyd.com/echoes.html os artistas convocavam seus fãs e a todos com sentimentos ecológicos a plantarem uma árvore em três áreas que o grupo havia comprado, no Canadá, na Índia e na Escócia. Ensinavam que todo cidadão, através do uso de automóveis ou ônibus, através da produção de lixo, utilização de eletrodomésticos contribui com muitos quilos de CO2 anualmente e, da mesma forma, quantos quilos de CO2 cada árvore plantada é capaz de transformar em O2. Desta forma, saberíamos quantas árvores cada pessoa deveria plantar para compensar o estrago que fazemos diariamente ao nosso ambiente. A proposta do Pink Floyd seria de que cada ser humano devesse tornar-se um Carbono-Neutro.

Voltando ao filme, que tem cunho futurista (e fatalista), mostra as conseqüências de algo que vem sendo aventado com mais intensidade pelo menos nos últimos 12 anos, após a história Convenção Eco-Rio 92, onde foram planejados alguns ditames a serem seguidos por nações ecologicamente responsáveis. Não é preciso dizer que, da teoria para a prática existe um lapso quilométrico e pouca coisa entrou realmente em ação. Outro marco na busca da redução da poluição atmosférica e do aquecimento global foi o Tratado de Kyoto. Segundo o mesmo, as nações assinantes deveriam se comprometer a reduzir em 5% a emissão de gases tóxicos até 2012 em relação a 1990. A questão é que os Estados Unidos da América, país que sozinho é responsável por 25% da emissão de gases poluentes de todo o planeta, na figura de seu atual presidente George Bush, se recusou a assiná-lo, gerando um impasse difícil de ser solucionado. A argumentação do presidente norte-americano seria a de que nenhum tratado pode reduzir a capacidade industrial norte-americana e assim possibilitar que o povo americano seja lesado economicamente.

O filme, do mesmo diretor de Independence Day, dá uma radical guinada do ufanismo quase doentio deste último em direção a uma bofetada sem luva de pelica na face do governo norte-americano, parece até iluminada pelo clarão ofuscante chamado Michael Moore.

Sem julgamentos de juízo, o filme é uma patada demolidora. Para os adeptos do anti-americanismo, a consagração. Para os moderados, apenas mais um filme de ficção científica. Só mais uma coisa: não deixe para ver em vídeo!

jun 11

Diálogos com Deus: Deus e a cólica biliar

By rafaelreinehr | Uncategorized

Maria e Jesus levam Deus às pressas ao Pronto Socorro:

– Maria, me ajuuuude! Não agüento mais a dor!

Maria: – Doutor, doutor, acuda! Meu marido está passando muit mal! Ele não é de fazer fita!

– Não se preocupe dona! Seu marido sairá daqui são e salvo ou não me chamo Doutor Baratta!

Depois que o médico lhe examina e faz alguns exames de sangue e uma ultrassonografia abdominal, chega o diagnóstico: cólica biliar.

-Seu Deus, o senhor está com uma pedra na vesícula. Vamos ter que lhe operar.

– Operar? Sem essa! Quem opera milagres aqui sou eu!

– Mas… – tenta interceder o médico…

– Deixa comigo – diz Maria.

– Escuta aqui, senhor Deus Oni da Silva! Vamos deixar de agir como criança! Se o médico diz que vai ter que operar, vamos operar sim senhor!

– Mas, mas… Querida!…

– Sem mas-mas-mas! Não tem discussão! Viu no que deu todos aqueles churrascos, aquela carne gordurosa? Agora agüenta as pontas queridinho!

Voltando-se para o doutor: – Ele vai operar sim doutor. É só marcar.

– Bem, assim sendo, vejo que entraram em um consenso. A cirurgia será daqui a 2 horas. Vou me preparar.

E deu de costas rumo à sala de emergência para tomar as providências cabíveis, enquanto Deus olhava seu algoz se afastar, com olhinhos pequeninos qual cachorro pidão, ainda tentando reverter a situação.

– Maria…

– Que foi!? – ollhando séria.

(vendo que não havia mais o que fazer) – Fica comigo na sala de cirurgia?

PRÓXIMO PÔUST: O Dia Depois de Amanhã

jun 08

Temos mais pessoas escrevendo poesia (e prosa) do que lendo

By rafaelreinehr | Uncategorized

Temos mais pessoas escrevendo poesia (e prosa) do que lendo.

Essa é a conclusão que podemos chegar com a proliferação mais do que descontrolada dos blógues (note que não intenciono falar dos “blógues-diário” e similares, mas tão somente daqueles com caráter literário-artístico ou até político)

A verborragia está rolando solta e cada vez mais generaliza-se a tendência de tentar divulgar seu pedaço de terra de todas formas possíveis, como viram no pôust anterior.

A propaganda em si não é o mal. O mal encontra-se em fazer mal e porcamente um ajuntado de coisas escritas que se quer fazer passar por arte ou literatura.

Todos temos (excluindo um ou outro de nós com impulsos depressivos ou com complexos de inferioridade) a tendência de achar que aquilo que fizemos é bom o suficiente para que alguém se interesse e queira “comprar” de uma forma ou de outra.

Dizia William Carlos Williams: “Arte ruim é aquela que não serve ao contínuo serviço de limpar a linguagem de todas as fixações sobre usos mortos, mal-cheirosos do passado”. Apesar de ter sido usada em uma situação diversa da que comento, aproveito a frase para lembrar da arte como técnica E busca de inovação/novidade. Sem esta última, resta somente a técnica, que só, já não é mais arte.

Lendo uma recente crítica de Rodrigo Garcia Lopes, poeta brasileiro, ao Jornal Literário “Rascunho”, deparei-me com a seguinte constatação:

“…muitas vezes também tenho a impressão de que poetas diferentes estão escrevendo um mesmo poema. Digo isso em relação a um tipo de poema curto, que muitas vezes são fragmentos de descrições estilizadas, geralmente da janela de um apartamento, com o poeta entre reproduções de Mondrian, tomando um chá de camomila, lendo livros chatos e fazendo cara de inteligente. Para mim, esses poemas também escondem sob uma pretensa concisão, uma falta danada do que dizer… …esses procedimentos, fraturas e personificações geralmente mascaram um pensamento superficial, pobre de vida, sem viço.

Ainda, parafraseando Gilles Delleuze ( já citado previamente por mim em um Editorial do Simplicíssimo): “Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer”.

Assim, creio que somente poucos de nós, entusiasmados blogueiros, persistiremos ao teste do tempo. Posso ver entre meus amigos lincados uma boa dezena que se sustenta sem ajuda de ninguém, mais uma dúzia que segue caminho ascendente em qualidade. Outros, como eu, ainda têm muito o que aprender. Mas resta sempre a esperança de que, mantendo contato com os grandes mestres da literatura mundial e com os novos mestres da rapidamente crescente literatura hipertextual, nosso aperfeiçoamento se desenvolva com êxito e possamos brindar juntos nossa permanência nesta bela estrada que é o percurso das letras, o caminho das artes.

Boa sorte nesta trajetória, companheiros!

jun 05

Técnicas para chegar aos “mais visitados”

By rafaelreinehr | Uncategorized

Nascer do Sol em PoA.jpg

Existem várias “táticas” usadas pelos blogueiros no intuito de chegarem aos “primeiros lugares da parada”. Vou enumerar algumas delas:

1. Em blógues como os do provedor Sapo (português), basta entrar na área de edição do seu blógue no horário de pico de acessos (algo como fim de tarde e começo da noite durante a semana ou durante os fins-de-semana) e ficar “atualizando” seu blógue repetidamente. Se não tiver nada que escrever, não tem problema! Só tire um “ç” e coloque um “c” em algum lugar e clique “gravar” e depois “reconstruir blog”. Aí, seu blógue aparecerá entre os 10 mais recentemente atualizados, chamando a atenção daqueles que estão a navegar pela página do Provedor, obviamente angariando uma pá de novos leitores.

Descobri isso por acaso, já que, freqüentemente após atualizar o site, via que curiosamente de 3 a 6 pessoas passavam a estar simultaneamente no Escrever Por Escrever. Curioso que sou, fui às estatísticas de acesso e descobri que todas estas pessoas eram encaminhadas pelo próprio http://blogs.sapo.pt , devido aquela ferramenta que indica os blógues recentemente atualizados.

Se você tiver paciência ( e tempo) de fazer isso por horas a fio, por vários dias seguidos, é batata: seu blógue estará na lista dos 25 mais acessados do Sapo e daí pra frente se garante na vitrine sem esforço, angariando mais outra pá de leitores.

2. A segunda técnica utilizada tira proveito dos programas de busca, como o Google, Cadê e Altavista, por exemplo. Consiste em incluir no site palavras de assuntos que estão “na moda”, como utilizar a expressão “Antonela Nua na Playboy BBB4” como fez o digníssimo Alexandre do Liberal Libertário Libertino. Essa técnica funciona principalmente se as palavras chaves são colocadas em áreas nobres para as ferramentas de busca , como é o caso do título ou das tags e metatags (que não aparecem visualmente) no código do site. Assim, no Escrever Por Escrever tenho na minha metatag o seguinte:

< meta http-equiv="Content-Type" content="sociologia escrever antropologia cultura filosofia culinária fotografia economia politica ">

Para conseguir mais acessos, poderia colocar ali por exemplo palavras como “sexo”, “XXX” ou outras palavras que estão entre as mais procuradas pelos internautas. Poderia também colocar o nome de todo e qualquer escritor, diretor de filme, ator ou personalidade política famosa, além de eventos históricos ou qualquer coisa provável de ser pesquisada na Internet, para incluir eu blógue/site na busca do Google, por exemplo. Funciona, acreditem.

3. A terceira (e chata) alternativa é criar listas de I-1/2s coletados pelas andanças de Internet e ficar mandando avisos (não solicitados) de atualização do seu blógue. Provavelmente, você conseguirá ao menos um acesso daquela pessoa para o qual enviou o e-mail, já que ela gostará de descobrir quem é a mala que fez esta puta sacanagem e quem sabe, até ganhará um par de palavras desaforadas em sua caixa de comentários.

4. A quarta e mais difundida – e também a mais cansativa – forma de conseguir visitas aos borbotões é entrar em todo e qualquer blógue que aparecer pela frente e deixar lá um comentário. Esta forma de “angariar visitantes” é a mais efetiva, principalmente quando se deixa no blógue visitado um comentário simpático e elogioso.

No caso de você efetivamente ler o último pôust (ou os pôusts mais recentes ao menos) e deixar um comentário relevante ao assunto abordado, a chance de ser visitado em retribuição é próxima a 100%, e, de cara, gera uma espécie de dívida para o blogueiro visitado, que terá, pelo menos inconscientemente, a necessidade de lhe retribuir o gesto.

Visitar e conhecer novos blógues e deixar lá seus comentários é normal. Fazer isso compulsivamente me parece doentio. É muita necessidade de autoafirmação.

Se você se encaixou em uma ou outra das categorias abaixo, não se preocupe: acontece com todos pelo menos em algum momento e em algum grau nesta nossa já não tão nova brincadeira de conhecer e nos tornarmos conhecidos por nossas idéias, agora tão facilmente distribuídas e espalhadas por esta rede virtual mundial.

O importante é não exagerar na dose, tendo o bom-senso de discernir quando passamos a ser trapaceiros e trazemos para nosso convívio pessoas que não tem afinidade nenhuma com nossas idéias – objetivo mais importante desta função toda.

Ademais, um pouco de movimento no blógue sempre é agradável e faz muito bem ao nosso ego.

A propósito, comprei um novo domínio: www.armazemdeideias.org e comecei lentamente minha mudança para lá. Como o tempo é realmente escasso, acho que levarei pelo menos 6 meses para completar meu êxodo. De qualquer forma, o dia em que poderei finalmente exercer com plenitude minha liberdade (fotos gigantes!) está próximo!

maio 29

Diálogos com Deus – Deus e o Tratado de Kyoto

By rafaelreinehr | Uncategorized

– Pai! Esses dias me disseste que os homens não suportam muitas mudanças em pouco tempo, estou certo?

– Sim, meu filho! Estás correto.

– É por isso que a Terra está sendo destruída gradativamente pelo desmatamento desenfreado, indústrias que poluem o ar e as águas com suas emissões de detritos e gases tóxicos e pela caça e pesca predatórias, entre outras coisas?

– É, filhão. Isso mesmo o que está acontecendo.

– Por ganância crescente, o homem busca a todo custo subjugar a Natureza que eu criei. Alguns países tem penas severas e fiscalização rígida no que diz respeito aos desmatamentos e caça e pesca de animais dentro do período reprodutivo, por exemplo. No Brasil, especificamente na Amazônia, infelizmente, o corte de madeira de forma ilegal é endêmico e não é adequadamente controlado pelas autoridades locais.

– E o que se pode fazer para mudar isto?

– Bem, uma das tentativas que está sendo feita é o Tratado de Kyoto, onde os países assinantes devem reduzir seu percentual de emissão de dióxido de carbono em 5,2% até 2012 comparando-se com 1990. Dessa forma, poderiam evitar o rápido aquecimento global que vem ocorrendo.

– Puxa pai! Isso é interessante! Parece um começo!

– Sim, pena que os Estados Unidos, responsáveis por 25% da produção de dióxido de carbono do planeta inteiro, se recusaram a assinar, pois seu presidente disse que isto traria prejuízos para a economia norte-americana…

– Puxa! Assim não dá! Tem homem que é uma besta mesmo né pai?

– Pois é, filho…

(aproveitando a estréia de “O Dia Depois de Amanhã”…)

maio 25

Excertos de Escrever Por Escrever (18/06/2000)

By rafaelreinehr | Uncategorized

“Não me pergunte o que eu não sei responder…

São coisas que a vida faz a gente sofrer…”

Violência. Reféns presos em um ônibus. Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Policiais e um bandido armado. Tensão. Morte fingida. Desespero, angústia. O assaltante sai do ônibus com a refém. É cercado por policiais. Um policial tenta atirar no bandido. Suspense. O bandido descarrega a arma na refém. Ela é lavada ao Hospital. Ele é levado no camburão com policiais. Ela recebeu três tiros. Morreu. De verdade. Ele não recebeu nenhum tiro. Morreu. Sufocado. E a violência continua. E as leis continuam a ser feitas. E elas funcionam cada vez menos. Novas leis tem de ser feitas para regular as primeiras. E o caos continua se instalando. Falência moral. O ser humano está em um estado de degradação. Se leis têm que ser feitas, é porque existe algo de muito errado com a consciência individual e da sociedade. Leis não significam avanço da civilização. Leis significam a queda de uma cultura, de um grupo humano. As coisas vista pela janela são bem diferentes daquelas vistas através da janela, mas sem o vidro. Devemos ver através da janela. Muitas pessoas mantém a janela fechada. Elas não vem o mundo como ele realmente é. Muitas pessoas constróem várias janelas. Algumas com vidro fosco, outras com vidros coloridos, esculpidos, jateados com areia ou mesmo simplesmente transparente, mas que não mostram as coisas como realmente são, mas sim como elas aparentam aos sentidos, deturpados pela lente da janela. As pessoas morrem. E vão continuar morrendo. E o problema não é esse. É a forma. É o sentimento. É o como e o porquê. Morrer depois de ter-se esgotado em prazer ou sofrimento é fisiológico. Morrer com a sensação de algo inacabado é fatalidade. Morrer sem saber por quê é em vão. Morrer por um bom motivo, dizem alguns, é a redenção. A definição de bom motivo é que é o problema. De boas intenções e de bons motivos o mundo está cheio. Apesar de não sabermos o que são. Definir as coisas é importante. Deve ser o começo do nosso trabalho. Conceitualizar, definir, dar nome aos bois. Cortar as unhas de vez em quando é bom. São estudantes, pais de reféns, tenentes-coronéis. São pessoas comuns, são assassinos cruéis. São bons e maus invertendo os papéis. São rimas malucas, pinéis. São mistérios da meia-noite, que voam longe, bem longe…

Será que a poesia encanta e acalma a alma? Será que ler e fazer arte abranda o sofrimento e sublima a agressividade? Pintar, esculpir, cantar, dançar, fotografar, tecer, desenhar e redesenhar… São tantas as perguntas e tão poucas as respostas satisfatórias… Na verdade, cada nova resposta traz mais perguntas do que a satisfação da resposta alcançada. O ponto serve para afirmações. As reticências para deixar a dúvida ou a incompletude. A exclamação demonstra indignação, surpresa. A interrogação é a pergunta, a própria dúvida, o questionamento. Proponho que todos que estiverem lendo esse trecho que agora escrevo parem nesse momento, peguem um pedaço de papel, um lápis e uma borracha e escrevam uma poesia (ou pelo menos algo que considerem que seja uma poesia) e mais tarde mostrem para uma pessoa e peçam que esta lhe dê uma opinião sincera. Cuidado com a opinião de uma pessoa muito amiga! Melhor seria a opinião de uma pessoa desconhecida, mas se sua timidez não o permitir pode ser qualquer outra pessoa, até sua mãe ou filho(a). {18/06/2000 – Domingo – 20:25}

maio 21

Clonagem Terapêutica – Mito ou Realidade?

By rafaelreinehr | Uncategorized

flores rosas gauss psicodelicas.jpg

(este texto foi preparado para publicação em um jornal da região em que moro, portanto foi evitada linguagem rebuscada e se apresenta em tom notoriamente popular)

A clonagem terapêutica envolve a criação de um embrião através da transferência do núcleo da célula adulta de um paciente em um óvulo humano cujo núcleo foi retirado. Após crescer em um meio de cultura por vários dias, este clone gera várias células-tronco, capazes de se diferenciarem em qualquer tecido do organismo. Pelo fato de terem o mesmo código genético das próprias células do paciente, não existiriam problemas de rejeição ao serem usadas para tratar doenças ou tecidos danificados.

Sua promessa de acabar com doenças como o diabetes, a Doença de Parkinson e mesmo restabelecer o movimento em pessoas com lesões da medula espinhal tem sido a força motriz de uma parcela da população científica. Do outro lado, existem aqueles que condenam a produção de um embrião que teria sua assim chamada “vida” encerrada após poucos dias.

Toda esta discussão se acentuou em Fevereiro, após uma publicação na revista Science de um artigo de W. S. Hwang, médico veterinário sul-coreano da Universidade de Seul onde o mesmo demonstrava pela primeira vez a cultura efetiva de células tronco a partir de óvulos femininos clonados.

Deixando de lado toda aquela história dos Raelianos, para os quais a clonagem é o caminho para a imortalidade, que bradavam ter criado o primeiro clone humano – o que jamais foi provado – esta seria a primeira prova científica de uma clonagem realizada com sucesso na raça humana.

Para conseguirem criar uma única linha de células-tronco, foram necessários 242 óvulos oriundos de 16 mulheres, que voluntariamente submeteram-se ao tratamento hormonal necessário à produção de 12 a 20 óvulos por ciclo menstrual ao invés de um, que seria o normal. É importante dizer que tal tratamento pode causar às mulheres desde desconforto e estresse emocional até trombose venosa e um acidente vascular isquêmico (derrame cerebral).

Em conclusão, antes que a clonagem terapêutica se torne uma realidade, a produção de células-tronco deverá se tornar mais eficiente, assim como as técnicas que as fazem transformar nos tecidos esperados. Até lá muita discussão nos campos da Ética devem servir para guiar a Ciência no caminho que a humanidade como um todo espera.

maio 13

Do Abuso Sexual no Coração da Igreja Católica

By rafaelreinehr | Uncategorized

Antes de começar este artigo um tanto polêmico, gostaria só de retificar o horário do Bate-Papo de amanhã. Como surgiu um imprevisto (uma única exibição da peça Toda Nudez Será Castigada, de Nélson Rodrigues em minha cidade às 20:30), o Bate-Papo será adiantado em 30 minutos. Assim, aqueles que por aqui estiverem por volta das 19:30 (horário do Brasil) ou 22:30 (horário de Portugal), por favor dêem uma passada na Sala de Bate-Papo ali beeeem embaixo e vamos fazer uma breve confraternização virtual e trocar idéias simultaneamente. Até lá, meus 3 leitores. Agora vamos ao que interessa:

Manchete em uma rádio da cidade, em uma tarde comum de um dia qualquer, há uma ou duas semanas atrás:

“Papa solicita que Seminários sejam fiscalizados para evitar abuso sexual.”

Eu que estava dirigindo, quase me envolvo em um acidente de trânsito.

O quê? O papa, representante supremo de Deus na face da Terra solicitando aos seus cardeais que organizem a “fiscalização” dos padres em seus Seminários espalhados pelo mundo? E para quê? Para evitar o abuso sexual de seminaristas?

Se até aqui não foi entendido o objetivo desta crônica, esclareço:

Não estou estupefacto com a notícia de que ocorrem abusos sexuais de jovens religiosos pelos seus próprios orientadores, representantes de Deus na Terra. Isto é sabido há dezenas ou talvez centenas de anos.

O que me horroriza é o fato de a Igreja Católica – na figura de seu pontífice máximo – anunciar isto a altos brados parecendo não temer as possíveis conseqüências desse ato.

Me surpreende mais ainda a calma e o pouco interesse que envolve o fato. A própria imprensa valorizou pouco a notícia. A sociedade organizada virou as costas à informação. De tanto levarmos choques, ficamos acostumados a eles. O que antigamente era notícia, hoje é banalidade.

Uma informação que traz à tona toda sordidez e podridão que infecta o âmago da Igreja Católica, instituição de toso falida senão por sua arte, parte de sua história e alguns de seus representantes espalhados parcamente pelo planeta. Informação cruel e desconfortante que mostra que a Igreja apresenta sob a máscara bondosa supostamente inquebrável uma face vil e literalmente antropofágica em seu pior sentido. Uma Igreja que deixa sucumbir qualquer transcendência que ainda se insista em impor a ela caindo na mais chula animalidade humana.

Em um país onde, estatisticamente, a maioria de seus cidadãos é católico, eu deveria me calar. Mas assim como não deram bola à notícia, também não darão para mim.

PS: se por acaso meu blógue ficar indisponível nos próximos dias, quero que acreditem que não é nehuma força divina atuando! Tenham por certo que existem muitos católicos fervorosos que entendem um bocado de computação!

maio 10

Orkut na agenda do dia…

By rafaelreinehr | Uncategorized

estrada de ferro.jpg

E não tem mais jeito… Estava tentando resistir ao “Fenômeno Orkut” mas ele me engoliu de vez… Sou realmente um Maria-Vai-Com-As-Outras, tenho que reconhecer…

O pior é que estou gostando pra caramba. Conhece-se pessoas (primeiramente amigos de amigos e depois completos desconhecidos) de forma extremamente rápida. Através das Comunidades, encontramos afinidades e entes afins muito mais facilmente do que através dos blógues.

Da mesma forma, encontramos pessoas completamente diferentes de nós, às quais temos que nos acostumar (ou nos afastar da comunidade em comum) para continuarmos no convívio de quem gostamos.

Em poucos dias de uso, já encontrei uma pá de amigos que por lá há muito já perambulavam. Achei comunidades interessantes de Fotografia, Medicina, do Sport Club Internacional, da Graforréia Xilarmônica, sobre Cinema e outros muito pirados, que só indo lá para conferir!

Se você ainda não sabe o que é o Orkut, clica ali na esquerda em Rafael Reinehr no Orkut, se cadastre e conheça! Se você já conhece, diga-me sua opinião.

A propósito: instalei um novo sistema de Bate-Papo para o Chat programado aqui no Escrever Por Escrever para a próxima quinta-feira, às 20:00 no Brasil e 23:00 em Portugal. Até lá!

Sobre a Estrada de Ferro: alguém sabe porque o Sapo aceita fotos 480×360 e não aceita 319×480? Como não quis diminuir mais ainda a foto, acabei colocando ela de lado… Serviu como uma experiência visual, de qualquer forma… A linha da estrada de ferro que se desloca para o horizonte sendo ela mesma a linha do horizonte…