Economia Solidária no Brasil: a perspectiva das Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs)

By Rafael Reinehr | Economia

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preparativos

Entre os dias 31 de março e 2 de abril estive participando do III Congresso Brasileiro da Rede Universitária de ITCPs e do I Simpósio Internacional de Extensão Universitária e Economia Solidária, que aconteceu na UFRGS, em Porto Alegre.

Resolvi participar do evento para:
– buscar aprender com o know-how de quem já trabalha incubando cooperativas populares desde o início dos anos 2000
– fazer networking, e conhecer pessoas com as quais posso realizar projetos em conjunto
– apresentar a Coolmeia, Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e soluções altruístas
– consolidar as ideias que tenho acerca da Economia Solidária e buscar exemplos práticos de como poderia implementar algumas iniciativas em minha região, no sul catarinense
– trazer conhecimento para compartilhar com atores sociais da minha região, tanto das Universidades quanto da sociedade em geral

preparativos

A seguir, alguns apontamentos feitos durante o encontro:

A mesa de abertura do Congresso contou com a presença da profa. Ana Mercedes, do prof. Carlos Eduardo Arns, coordenador nacional da rede ITCPs, do Sec. de Economia Solidária do RS, Maurício Alexandre Dziedricki, da Diretora da Sec. de Estado da Economia Solidária Nelsa Nespolo e de Carlos Alexandre Neto.

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O Congresso Nacional e o I Simpósio Internacional contou com a presença de representantes de 33 Universidades das 47 que fazem parte da rede ITCPs mais membros de universidades do Uruguai, Chile, Argentina, Equador, França e Porto Rico.

publico

O Prof. Carlos Lettelier, do Chile, iniciou falando sobre os Cenários e Desafios para a Economia Solidária na América do Sul e Brasil. Ressaltou que:

– A Economia Solidária é uma proposta de desenvolvimento alternativo
– Está em construção
– Ainda não é mesurável
– Busca constituir um sistema orgânico dentro do sistema capitalista, entretanto com outros valores

 

alimentacao

Necessidade
– Crise financeira
– Ajuste estrutural
– Corrupção estatal
– Catástrofes ambientais

Sentidos/visões
– Ecológico
– Matrístico
– Religioso
– Humanista

escenarios

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Prof. Valmor – FURB – Dr. em Sociologia pela UNB, falou do mapeamento da Economia Solidária no Brasil, de 2007. Fala do contexto no qual uma Economia Solidária pode ser embutida:
– Fortalecimento do mercado interno para inserir Brasil no omercado externo
– Desinvolvimentismo
– Fortalecimento da burguesia industrial e conglomerados econômicos
– Distribuição da renda (políticas de salário mínimo)
– Baixo desemprego
– Não incorpora estratégias dos movimentos sindicais, movimentos sociais e movimentos populares
– Nesse contexto de “embrião de uma nova sociedade” entra o movimento de Economia Solidária
– Conferência Nacional da Economia Solidária – “direitos”  da população que quer se organizar a partir da economia solidária – ainda falta a base, o marco legal.
– Para o governo federal, a prioridade é a erradicação da pobreza extrema > como a economia solidária pode se encaixar?

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Tarde do primeiro dia, grupo de trabalho 3:

1. Formação de rede entre empreendimentos econômicos solidários no município de São Carlos > Incubadora regional de cooperativas populares de São Carlos – INCOOP/UFScar

– Participação da cooperativa de catadores em um espaço de trocas e criação de uma rede entre empreendimentos de economia solidária.
– A organização dos grupos é realizada sob a orientação de princípios do cooperativismo popular autogestionário

Cadeia de limpeza – EES Sabão, Cooperlimp, EES Produtos de Limpezs
Cadeira de resíduos – Coopervida
Cadeia de alimentos – EES Horta Comunitária, Cozinha, EES Padaria comunitária
Cadeia de Iniciativas econômicas com usuários da saúde mental – Recriart
Cadeia de costura – Maria fuxico, Costurart
+ Finanças solidárias, Cultura, Usos múltiplos da madeira, construção civil…

2. Estudo sobre a formação de gênero em um empreendimento de economia solidária: o caso APRI (Associação Participativa Recicle Indaial) – ITCP – FURB

Economia Solidária – baseada em cooperação, solidariedade, justiça social, tendo como encontro a valorização do ser humano, nas relações de trabalho, produção e consumo. – Atlas da Economia solidária no Brasil, 2005, FBES.

3. Agricultura urbana na Paulicéia: distintos tempos entre o urbano e o rural. – ITCP – USP.

Parelheiros, em SP, sul do município de SP. 24% da área do município, entretanto com densidade habitacional de 314 habitantes por km2. Livro Fronteiras, do sociólogo José de Souza Martins. Milton Santos: temporalidade hegemônica x temporalidade hegemonizada. A cidade leva sua temporalidade para o campo, e acaba hegemonizando-a, é a hipótese operacional.

Os diferentes atores e os diferentes territórios possuem temporalidades distintas. O direito à cidade – Lefevre.

4. Incubadora + CRAS – Ponta Grossa – PR – IESOL, Santa Luzia.

Itajaí – Centro Público de Empreendimentos Solidários

PRONINC – Verba para incubadoras

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No dia primeiro de abril, não teve brincadeira não. Começamos falando sobre a Ressignificação da Extensão Universitária e da Economia Solidária.


Diego Barrios, do PROCOAS (Processos Cooperativos e Associativos), da Universidad de La Republica, do Uruguai (80 mil estudantes em um país de 3 milhões de habitantes) começou falando das fases da Extensão Universitária:

Fase assistencial – ajudar a quem precisa
Fase sessentista – ideológico-política – universidade a serviço do povo
Fase extensão “dos convencidos” – convencidos de que é fundamental
Fase extensão como “motor” de integralidade da universidade

Extensão Universitária e Economia Solidária

– Um processo educativo transformador onde não existem papeis estereotipados de educador e educando, onde todos podem aprender e ensinar
– Processo que contribui para a construção de conhecimento novo que vincula criticamente o saber acadêmico com o saber popular
– Processo econômico transformador onde os papéis são parte de um acordo livre desde uma visão de equidade e igualdade
– Processo tende a promover formas associativas e grupais que permitem superar problemáticas significativas anti-sociais
– Pedagogia – metodologia de aprendizagem integral e humanizadora
– Trabalho de abertura aos movimentos sociais que desafiam o classismo universal e buscam o reconhecimento da diversidade cultural
– Dilema da participação e do cogoverno universitário e o cogoverno com os movimentos sociais
– Participação dos estudantes na tomada de decisão na construção pedagógica, na gestão corrente e sobretudo na política universitária (para onde vai a Universidade)
– Trabalho a partir da experimentação e do intercâmbio de redes associativas de caráter universitário e de Economia Solidária de maneira a enfrentar a síndrome do “local” ou do “nacional”
– Adoção dos princípios da economia solidária no cotidiano do universitário

ecosol-universidade
genevieve
politico

pedagogico

Falou a seguir Darlene Torrada Ferreira, representando o Forum Nacional de Pro-reitores de Extensão, acerca da origem da extensão universitária:

– Troca de saberes, diálogo, produção acadêmica e integração com a sociedade, atuação na política pública
– Estender o saber acumulado. A Universidade como dona do conhecimento e a sociedade como depositária desse conhecimento.
– 4 Is – Seu fazer considera a Interdisciplinariedade, Interação dialógica com a comunidade, o Impacto e a transformação social e a Indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão
– Extensão é um espaço de diálogo e visa novos horizontes e consolida pontes de aproximação da universidade com demais setores da sociedade
– Valorização e resgate das identidades construídas a partir das relações dos sujeitos, entre si e com o meio, que se expressam das mais variadas formas, na organização do trabalho, na ética, na política, nas ciências, na filosofia e nas artes

Darlene questionou sobre a unidade orçamentárias das Incubadoras. Há espaço para verbas fora das Pró-reitorias de Extensão? Qual o lugar das ITCPs? E suas relações com foruns, redes, ministérios, com o Conselho Nacional de Economia Solidária, PRONINC?

Darlene lembrou que a sociedade deve beneficiar-se com o “usufruto de todos os resultados produzidos pela academia em todas suas dimensões”.

Reynaldo Pacheco, representante nacional das ITCPs, sugeriu que se utilizasse o “diário de campo” produzido pelas próprias comunidades como ferramenta de análise da realidade social.

A seguir, Carlos Schmidt, no Núcleo de Economia Alternativa da UFRGS contou sobre sua experiência com a Venezuela, falou sobre as Empresas de Produção Social que, com financiamento público, caminham para se tornar a forma hegemônica de produção, em detrimento das empresas capitalistas tradicionais. Por lá, conselhos comunais de até 400 famílias, podem se agrupar e construir empresas de maior porte. Entretanto, a população ainda não consegue participar livremente dos conselhos – eles são balizados pelo governo. Ao que parece, a Universidade Central da Venezuela encontra-se alheia a este processo de “socialização” do país.

Na tarde do dia primeiro, participei do eixo 1 dos grupos de trabalho. Fabio, da ITCP da Unicamp, nos contou que ela é hoje autogerida por 20 alunos da Universidade, e um professor apenas “assina” as questões burocráticas. Eles realizam uma assembléia a cada 15 dias e sua Incubadora é pautada pelos fundamentos da dialogicidade, solidariedade, autogestão e educação popular.

Nos lembraram que o capitalismo tente a enterrar, negar, eliminar, desvalorizar e deturpar ao invés de discutir, analisar e resolver questões conflituosas.

Também falou a Vera, da Unisinos, sobre o Espaço do Trabalho como o criador do Saber. A gestão na atividade de trbalho é associada ao tripé saberes/atividades/valores entre o individual e o coletivo, entre o passado, o presente e o futuro…
Nas cooperativas de produção, os trabalhadores mobilizam e criam saberes para superar os desafios cotidianos que surgem na realização da atividade de trabalho. Ela lembrou que a gestão da atividade singular é central para a autogestão coletiva da cooperativa.

O professor Dante Zach, da UFPR nos apresentou o trabalho “A ITCP e a produção de conhecimento como ferramenta para o desenvolvimento de comunidades”. Falou do tripé:

– Economia Solidária – Ensino
– Tecnologia Social – Pesquisa
– Desenvolvimento Local – Extensão

A Equipe da ITCP da UFPR conta com estudantes de pedagogia, psicologia, economia, direito, agronomia. A equipe de atuação tem reuniões semanais, fazem leituras, diagnósticos e discussões dos dados obtidos com a comunidade, promovem oficinas e cursos de formação, realizam levantamento de ferramentas e fazem idas a campo.

No Vale do Ribeira, tem um trabalho com a APROTUNAS – 21 cooperados que lidam com apicultura, piscicultura, pecuária e agricultura.

O professor Enio Waldir da Silva, do ITECSOL da UNIJUÍ apresentou o trabalho “A solidariedade educa – ações da universidade na economia solidária”. Disse ele:

– É necessário preparar um contexto especial para a (re)emergência da solidariedade
– Um dos papéis do processo educativo é fazer brotar esta força e organziar espaço e tempo para que ela se desenvolva nos coletivos vivenciados
– A Universidade dialogal estará fazendo educação científica para além dos costumeiros procedimentos escolares quando democratizar a produção e a distribuição dos conhecimentos e buscando os saberes da comunidade.
– Diálogo com o senso comum e com as demais formas de conhecimento produzidas na comunidade
– Amartya Sen – Dimensão ontológica do humano, responsabilidade e liberdade
– Habermas – Ética do diálogo para entendimentos e práxis
– Boaventura Souza Santos – Conexões de experiências e redes solidárias prudentes/diálogos das ansiedades urgentes
– Alain Toureau – Não existe democracia com atores fracos – o Eu deseja unificação, liberdade e felicidade – fortalecimento do ator social!
– Edgar Morin – altruísmo cura egocentrismo, egocentrismo cura altruísmo
Eu 90% – Outros 10%
Eu 10% – Outros 90% – para resolver os MEUS problemas, preciso pensar 90% nos outros
– Defender a igualdade sempre que a diferença gerar inferioridade, e defender a diferença sempre que a igualdade implicar descaracterização.

Na manhã do sábado, fomos conhecer uma cooperativa de produção de produtos de limpeza incubada pela UNISINOS, em São Leopoldo. São 9 mulheres que usam óleo de cozinha usado para produzir sabão, detergente, amaciante. Elas utilizam cerca de 800 litros de óleo de cozinha oriundo da coleta seletiva do município. Gostariam de ter acesso a uma quantidade maior, realizar coleta dentro da própria Universidade, mas para isso precisariam de uma licença ambiental, que ainda está pendente. Referiram que existe demanda reprimida, e se conseguissem mais substrato, conseguiriam vender ainda mais produtos de limpeza. A renda média de cada cooperada é de R$350,00, sendo que trabalham de terça a sexta, das 8:00 ao meio-dia e das 13:30 às 16:30, dividindo-se entre produção e comercialização dos produtos.

Algumas fotos podem ser vistas abaixo.

produtos

sabaoecologico

fabrica

explicacao

mundo-limpo

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