Carta de Desfiliação do PT, de Chico Whitaker

By Rafael Reinehr | Saúde da Sociedade

Set 21

Em um artigo recente que publiquei, uma carta indignada de um matemático acerca dos desmandos do governo petista, recebi algumas críticas por ter, de certa forma, assinado embaixo do referido texto. Concordei que o autor do texto passou (um bocado apenas, mas passou) do razoável em sua crítica.

Garimpando na página de Chico Whitaker, acabei encontrando sua Carta de Desfiliação do PT, redigida em janeiro de 2006. Esta sim, em tom bem mais ameno mas cruamente realista, mostra a tristeza de alguém que confiava em um determinado sonho e foi obrigado, para manter a coerência com sua crença e seu caminho, a deixar de apoiar o Partido dos Trabalhadores.

O texto é realmente uma aula e recomendo a qualquer um, de esquerda, direita, centro-médio e centroavante. Texto para quem apóia de Chavez a Jospin.

Aquele texto, linkado aí em cima, foi publicado na seção O Mundo às Avessas, pois só aponta problemas. O atual, por sua vez, está sendo publicado na seção Saúde da Sociedade, pois, apesar das críticas, aponta também um caminho a seguir. Confira:

Carta de desfiliação do PT

São Paulo, 1º. de janeiro de 2006

Amigos e amigas,

Frente à atual crise do Partido dos Trabalhadores, muitos de vocês me perguntam se fiquei muito decepcionado e o que pretendo fazer: continuar como seu filiado ou filiar-me a outro partido?

Em primeiro lugar devo dizer-lhes que, para mim, a palavra que cabe não é decepção. Há tempos constatava – com tristeza, evidentemente – a facilidade com que no Partido iam sendo assimiladas as práticas e a maneira de fazer política usuais no Brasil. Essa tendência – apoiada no sentimento de impunidade que também é usual em nosso país – não podia senão se exacerbar com a conquista da Presidência da República.

Em segundo lugar, tenho a dizer-lhes que refleti bastante sobre o que fazer. Lembrei-me de muitos momentos bonitos e emocionantes e de muita gente boa, desde quando oPTamos, na expressão criada pelo Carlito Maia. Assim, de inicio pensei em simplesmente continuar filiado, e juntar-me a todos que já discordavam – como eu mesmo – das orientações dominantes e agora pensam em “salvar” o Partido.

Mas tomei a decisão de sair do PT. Não tanto por causa da crise – como num gesto de protesto, que tantos já fizeram – mas por ocasião desta crise. Evidentemente ela foi decisiva para minha tomada de posição de agora. A gravidade dos desvios por si só justificaria plenamente uma desfiliação – embora pudesse doer fazê-lo quando o partido se encontra sob um fogo cerrado e raivoso. Mas saio do PT neste momento para afirmar a possibilidade de outro tipo de atuação política. Os problemas que estamos vivendo hoje no Brasil deixaram bem clara, para mim, essa necessidade.

Na verdade, o que estou fazendo é entrar de corpo inteiro no espaço político de um novo tipo de “sem”, o espaço dos “sem partido”. Com a atual crise conclui que tinha chegado o momento, para mim, de desligar-me de vez da atividade partidária e assumir plenamente a militância nesse espaço (o “e.s.p.”, para quem goste de siglas…). Por isso mesmo não estou me filiando a nenhum outro partido.

Com esta carta quero explicar melhor essa opção, em respeito a quem compartilhou a atividade política comigo no PT, e a quem por duas vezes me elegeu vereador. A explicação acabou ficando longa – como o tempo de reflexão que exigiu. Peço, antecipadamente, minhas desculpas.

* * *

Quando voltei ao Brasil, em 1981, depois de 15 anos de exílio, tínhamos a certeza de que o povo precisava se organizar para fazer valer seus direitos e, como decorrência, de que se fazia necessário um partido que permitisse a participação institucional, na vida política, das grandes maiorias esquecidas do país.

O Partido dos Trabalhadores, nascido então, de baixo para cima, abriu esse espaço que faltava. Seu objetivo era claro: construir uma sociedade justa e igualitária, na perspectiva de um socialismo democrático – descartando o uso da violência para lá chegar. Ele anunciava também uma prática diferente – honesta, transparente –, um novo modo de lidar com a coisa pública. E, assumindo a democracia como caminho, logo começou a participar de eleições, para chegar, pouco mais de 20 anos depois, à Presidência da República.

Entretanto, na luta eleitoral e ao integrar-se às nossas instituições políticas ele foi pouco a pouco se deformando, e conheceu uma dramática involução. As múltiplas distorções e insuficiências da democracia representativa brasileira o contagiaram, fazendo com que, na prática, abandonasse o projeto que mobilizava seus militantes.

Por sua vez, o tamanho e a gravidade das irregularidades agora praticadas – o partido tinha até dinheiro no exterior, ao melhor estilo dos aproveitadores de sempre – escancaram as distorções e as concentraram no PT, como se ele fosse o único a vivê-las. Com isso ele abriu todos os flancos possíveis para a oportunidade com que a direita sonhava: tentar destruir, junto com a mídia que controla, esse partido incômodo e seu preocupante projeto de mudança. E ela deu há pouco uma demonstração de força ao cassar os direitos políticos daquele que foi um de seus principais dirigentes.

Pode-se até dizer que a atual crise era quase previsível. Mas em conseqüência dela o PT de hoje tem pouco a ver com o sonho da sua criação, e não é senão um partido a mais. Infelizmente o sonho se desmoronou. Um desmonte que é comparado, por muitos, à queda de um novo muro de Berlim, tal a esperança que a “experiência” brasileira, com a eleição de Lula, fez surgir no mundo. Por isso se generaliza em toda parte um sentimento de perplexidade e decepção.

* * *

Na época de minha volta ao Brasil empenhei-me no trabalho de formação e organização política da sociedade. Mas só vim a filiar-me ao PT em 1988, sendo nesse mesmo ano eleito para a Câmara Municipal de São Paulo e reeleito em 1992. Em 1996 decidi, no entanto, não concorrer a um terceiro mandato, depois de uma ampla consulta a quem me apoiava nessa função. Resolvi retomar o trabalho de formação e organização política na sociedade.

Mas não deixei o Partido, naquela ocasião, por respeito à sua história e a tantos que nele depositavam toda a sua esperança. E por acreditar no projeto de mudança que ele se propunha a realizar, achei também que deveria contribuir como pudesse para o esforço em que o Partido estava empenhado para levar Lula à Presidência da República.

Ao distanciar-me no entanto da vida partidária e participar de iniciativas supra-partidárias e apartidárias, descobri como era fundamental evitar, a todo custo, que as organizações populares fossem capturadas e domesticadas pelos partidos. Elas podem dar-lhes respaldo mas precisam, enquanto organizações populares, manter sua autonomia e ocupar um lugar central na sociedade civil.

Ora, para trabalhar para que isso aconteça a filiação partidária não é imprescindível. E talvez até seja desaconselhável, o que reforça minha atual opção de militância.

* * *

[blockquote]“…percebi com maior clareza os limites da ação dos governos. Eles condicionam e podem realizar muitas mudanças. E sua ação é inegavelmente decisiva. Mas não é suficiente para transformar profunda e duradouramente a realidade, como almejamos. Para superar efetivamente a injustiça, a desigualdade, o desrespeito à natureza, precisamos todos nos empenhar – individual e coletivamente – em ações transformadoras de nossa própria realidade concreta, sem esperar por medidas governamentais.”[/blockquote]

Peço licença para aprofundar as razões de minha saída da Câmara, nas quais se encontram mais algumas raízes dessa minha atual opção.

Alguns amigos agora me dizem que sai da Câmara porque quis me afastar, antecipadamente, das práticas que hoje nos causam tanta perplexidade. Agradeço esta prova de confiança. De fato constatei, já naquela época, que havia no PT quem aceitasse os desvios de condutas pessoais e de comportamentos políticos que há tanto tempo são próprios ao sistema político brasileiro. Lembro-me de ter tido um primeiro vislumbre disso ainda em meu primeiro mandato, quando, ao contestar a direção municipal, numa reunião da bancada, fui ameaçado de não obter legenda para me candidatar na eleição seguinte – uma ameaça típica dos mais típicos partidos tradicionais. Infelizmente houve depois muitos outros sinais, bem mais graves, de que começávamos a correr sérios riscos. Cheguei a refletir abertamente sobre esses fatos e mesmo a tomar posições públicas frente a certas “flexibilizações” – que me levaram inclusive a situações de isolamento no partido.

Mas não posso dizer que essa tenha sido a razão principal de minha decisão de não concorrer a mais um mandato. Eu tinha outras razões, de outra ordem, para deixar a Câmara.

Tomei essa decisão a partir do que fui descobrindo ao viver a experiência de atuar como vereador. Nessa função, percebi com maior clareza os limites da ação dos governos. Eles condicionam e podem realizar muitas mudanças. E sua ação é inegavelmente decisiva. Mas não é suficiente para transformar profunda e duradouramente a realidade, como almejamos. Para superar efetivamente a injustiça, a desigualdade, o desrespeito à natureza, precisamos todos nos empenhar – individual e coletivamente – em ações transformadoras de nossa própria realidade concreta, sem esperar por medidas governamentais.

Por outro lado, para que o governo cumpra plenamente seu papel é preciso que os cidadãos e as cidadãs participem ativamente – com autonomia, sem manipulações – das decisões políticas dos Parlamentos e Executivos. Ora, para essa participação não basta a representação política, propiciada pelos partidos. Naturalmente, temos que escolher bem nossos representantes e também ajudá-los, controlá-los, constrangê-los, pressioná-los. Mas, além disso, é preciso que o que vem sendo chamado de sociedade civil se torne um protagonista político respeitado e de pleno direito, tanto na sua ação autônoma em relação aos governos como acompanhando sua atuação, no controle social da esfera pública. Em outras palavras, é preciso que a sociedade civil rompa o monopólio dos partidos políticos na ação política em geral.

O caminho para uma atuação transformadora consciente dos cidadãos e para esse novo protagonismo da sociedade civil ainda é, no entanto, longo. Tanto partidos como governos pouco fazem para abri-lo e ampliá-lo – pelo contrário, procuram sempre instrumentalizar toda força nova que surge da sociedade, para aumentar seu próprio poder. É necessário, portanto, construir uma nova cultura política, que exige transformações pessoais nas atitudes e motivações tanto dos dirigentes políticos como dos próprios cidadãos.

Saí então da Câmara porque considerei – como considero até agora – que o trabalho junto à sociedade civil, rumo a essa nova cultura política, era mais necessário e urgente do que a representação, e eu o faria melhor fora da Câmara. Além disso, concluí que esse trabalho era bem mais estimulante.

De fato, vivendo por dentro a vida parlamentar e a vida partidária – ambas experiências novas, para mim – constatei que, na cultura política vigente, elas são extremamente frustrantes, em termos de realização de objetivos transformadores. Na forma como se desenvolvem as atividades parlamentares no Brasil, o exercício de um mandato legislativo é pouco construtivo. Perde-se muito tempo com rotinas, rituais e aparências de poder. Paga-se um alto preço para obter resultados mínimos e lentos. O ar que se respira é o da disputa contínua, muito distante dos objetivos de mudança social, pois a atividade política acaba se reduzindo a uma luta por poder pessoal, na perspectiva de projetos políticos individuais. Nesse clima, as iniciativas propostas são sempre interpretadas como visando algum dividendo pessoal ou partidário – e, na expressão usual, ninguém “põe azeitona na empada do outro”.

Verifiquei ainda, com pesar, bem antes portanto dos atuais problemas, que essa dinâmica de realização de projetos individuais – com candidaturas definidas por ambições pessoais – era a que conduzia a vida partidária também no PT, um partido que pretendia ser diferente.

* * *

Não posso evidentemente deixar de me perguntar, agora, diante da crise atual, se não teria errado ao me afastar da vida partidária quando deixei a Câmara. Na condição de filiado ao PT eu continuava co-responsável por suas orientações, como todos os seus militantes.

Não faltaria, aliás, um extenso programa de luta – que hoje pode parecer caído de outro planeta… – reafirmando no entanto muito do que o PT já foi. Para exercer o poder como serviço à sociedade em vez de somente lutar para conquistá-lo e depois mantê-lo, o PT deveria dirigir as disputas internas do partido para as alternativas de ação transformadora e não para competições entre egos, ambições e carreiras pessoais; e deveria procurar substituir essas disputas pela escuta, para a construção criativa e coletiva de novas verdades consensuais, vencendo a maldição das divisões e dissidências recorrentes da esquerda. Ele deveria relacionar-se com outros partidos com uma real aceitação da diversidade e do pluralismo e, mais ainda, sem fazer conchavos e acordos inconfessáveis. Deveria também fortalecer o Parlamento, como representante de todos os interesses da sociedade e não como um cartório homologador da vontade do Executivo, passível de ser “comprado” para assegurar a “governabilidade”. Apoiando a organização popular e a formação da consciência de cidadania, acima de objetivos unicamente eleitorais, ele deveria conquistar novos e mais eficazes instrumentos para fazer valer a vontade popular. Caberia também que o Partido adotasse firmemente normas partidárias visando evitar que os mandatos eletivos se transformassem em meio de vida e fossem assumidos indefinidamente dentro de posturas carreiristas; alem de combater frontalmente a corrupção, que deteriora o tecido social.

Mas tentar contribuir para que prevalecessem outras orientações partidárias era para mim uma armadilha. Na verdade – na forma como funciona o PT – para fazer com que uma determinada orientação seja adotada, sem nos reduzirmos a um crachá a ser levantado nas convenções do partido, precisamos “entrar na briga”. Ora, isto exige muito tempo para estar em todas as reuniões, das quais portanto só consegue participar plenamente quem tem mandato eletivo ou é “funcionário” do partido. Se eu tinha deixado a Câmara para trabalhar na sociedade, que sentido teria manter-me prisioneiro de um espaço de tal forma limitante?

* * *

E se hoje reluto a engajar-me em operações de “salvamento” do partido, é por outra razão ainda mais decisiva: não me deixar engolir por uma esquizofrenia paralisante, ao ter que agir concomitantemente segundo duas lógicas contraditórias, a das pirâmides e a das redes.

De fato, fomos tradicionalmente formados em organizações partidárias piramidais, baseadas na representação e na disciplina, com níveis de poder que se superpõem. No PT em particular, que faz parte de uma esquerda que já foi quase religiosamente submissa aos preceitos leninistas de ação política, acabaram prevalecendo práticas verticalistas ainda mais exigentes.

Ora, as experiências de que participei ao sair da Câmara – supra-partidárias ou apartidárias, como a Iniciativa Popular de Lei contra a corrupção eleitoral ou o Fórum Social Mundial – consolidaram minha certeza da necessidade de atuar politicamente dentro de uma lógica organizativa totalmente diferente daquela dos partidos. Essas experiências se desenvolveram – com grande sucesso – utilizando princípios não diretivos, baseados na horizontalidade das redes. E seus resultados políticos eram, a meu ver, melhores do que os dos partidos. Na verdade esses princípios eram os que eu já seguia antes de me filiar ao PT, e que até procurei utilizar na Câmara – ainda que como um verdadeiro “peixe fora d’água”…

Prefiro portanto trabalhar segundo essa lógica, juntando-me aos esforços que se fazem para que na sociedade civil em geral, assim como nas organizações populares propriamente ditas, sejam cada vez mais utilizadas as estruturas em rede. Aliás, isto pode interessar também a quem participe de partidos. Estou seguro de que ganhariam muito em transparência, arejamento e democracia, e mesmo em eficácia, se, mais além das disciplinas partidárias, estimulassem a formação de redes livres de intercomunicação horizontal entre seus militantes.

* * *

Minhas razões para desligar-me da vida partidária foram também reforçadas pela identificação mais precisa das distorções sofridas pelo partido, que esmaeceram seu projeto político.

Partidos existem para disputar o poder político, e essa dinâmica penetra também dentro deles. As correntes internas lutam para ter o poder dentro do partido. E aquela que vence essa disputa se apodera da máquina burocrática e passa a concentrar poder. Fica cada vez mais difícil desalojá-la, com a luta pela continuidade reforçada pelos interesses pessoais dos burocratas que a compõem.

Ora, a corrente que há anos dirige o PT – que foi a que mais fielmente herdou a visão leninista a que já me referi – usou a mão de ferro da disciplina partidária para construir uma falsa unidade. E as bases do partido passaram a ser simples espectadoras das decisões que iam sendo tomadas.

Essa distorção, que deu cada vez mais autonomia e poder à direção partidária, separando-a das bases, em minha opinião foi a que moldou todas as demais. Ela é de fato a que mais aproxima o PT de hoje dos demais partidos. E tem para ele um significado especial porque o nega em sua própria natureza, uma vez que foi criado de baixo para cima.

* * *

As práticas políticas usuais no Brasil foram contagiando o PT também em outros campos. O Partido passou a funcionar quase somente em torno das disputas eleitorais, como se todas as mudanças dependessem da eleição de bons “dirigentes”. Um subproduto pouco positivo dessa orientação era a possibilidade de “alocar” os quadros partidários na maquina do Estado. Um outro subproduto, frontalmente negativo, era o de afastar ainda mais o PT das tarefas de formação política e organização popular, inclusive pela absorção de seus militantes nas administrações conquistadas.

Nas eleições, por sua vez, as disputas centraram-se na conquista do Poder Executivo. Em meus tempos de Câmara cheguei a considerar – e a propor – que o Partido deveria ter como prioridade a de eleger bancadas cada vez maiores de vereadores, deputados e senadores, como uma estratégia mais eficaz para realizar as mudanças que propunha, através do poder que têm os parlamentos para legislar e fiscalizar os Executivos.

Mas o dinheiro disponível, a estrutura das campanhas, o uso dos meios de comunicação de massa, eram prioritariamente usados para eleger Prefeito, Governador, Presidente da República. Os candidatos ao Legislativo eram deixados no “cada um por si”, vivendo as práticas competitivas mais tradicionais, na disputa por eleitores. Aqui e ali escorregava-se em inaceitáveis “facilidades” a eles oferecidas, condenadas em lei de que o próprio PT se orgulhava de ter sido um forte artífice, e para a qual pessoalmente muito me empenhei. Até nas eleições internas recém realizadas – esta importante diferença do PT em relação aos outros partidos – houve flagrantes desse tipo de prática, aliás noticiados fartamente pelos jornais, na sua campanha para desfazer a imagem do partido. E nem se chegou a questionar as práticas pelas quais ele dobrara o número de seus filiados… Estes fatos já seriam suficientes para obrigar-me a me desfiliar, se pretendesse continuar a ter alguma atividade partidária.

Mas todas estas contradições eram consideradas secundárias, aos olhos dos dirigentes. E o PT foi se distanciando cada vez mais do partido criado entre companheiros entusiasmados.

As campanhas eleitorais foram então progressivamente deixando de lado as propostas políticas em favor dos assim chamados “marqueteiros”, que tratam os cidadãos como simples consumidores. O clímax dessa tendência se deu com a eleição de Lula, para a qual foi contratado, sem maiores críticas internas, o mais “milagroso” dos nossos publicitários.

* * *

Mas o pragmatismo vigente foi avançando sempre mais, e por caminhos ainda mais equivocados. Se para exercer o poder é necessário ganhar eleições, para ganhar eleições é preciso muito dinheiro. Se a ética é somente uma tática – será que foi assim desde o começo do partido? – não interessa de onde vem esse dinheiro. Menos ainda para quem acha que os fins justificam os meios. Ora, quando se controla a administração pública, as tentações se multiplicam. E hoje constatamos com espanto que até o dinheiro público pode ter sido apropriado para fins partidários. Foi muito rapidamente esquecida a velha tradição do PT de contar com a iniciativa, a criatividade, a generosidade e a militância de seus filiados para cobrir as despesas das campanhas e ocupar gratuitamente as ruas com seu entusiasmo.

Acredito que a grande maioria de parlamentares, chefes e membros de Executivos e dirigentes do PT não se aproveitaram pessoalmente da proximidade dos cofres públicos ou do seu poder de influência. Mas se houve quem aderiu a esse tipo de corrupção – outra distorção tão usual do mundo político – um dia isso virá à tona.

Em conclusão: ao deixar-se infectar, profundamente, por todas as mazelas do mundo político, o atual PT levou de roldão o partido de tipo novo que procurávamos construir. Hoje ele não está voltado para a sociedade injustiçada, para ouvi-la e procurar responder aos seus anseios. Separadas do povo, suas instâncias dirigentes esqueceram, de vez, até as inovações que o próprio partido tinha criado para a participação popular.

Pode-se portanto dizer, com todas as letras, que a direção partidária que se constituiu ao longo desse processo traiu, na prática, a história do Partido. E essa traição constitui de fato um grande desrespeito ao enorme número de militantes que continuaram e continuam a acreditar no projeto partidário original, empenhando-se em trabalhar com seriedade lá onde o partido assumiu responsabilidades, pelo Brasil afora, do nível municipal ao federal.

* * *

É evidente que todas essas distorções não podiam senão fazer rolar, ladeira abaixo, também o projeto de mudança de que Lula era o portador, como candidato a Presidente da República. Já era enorme a dificuldade de romper o modelo econômico e enfrentar de vez a chaga da desigualdade econômica escandalosa que caracteriza o país, como se prometeu na campanha eleitoral. Ora, o governo do PT não conseguiu se libertar de alianças eleitorais até espúrias – acertadas pela direção do Partido para ganhar a eleição – e do sistema econômico neoliberal.

Todos sabemos que Lula teve que amenizar seu discurso eleitoral e assegurar que honraria todos os compromissos do Brasil com o capital. E que, uma vez eleito, teria sido desalojado de Brasília se assim não o fizesse. Mas com isso, não pôde senão manter a mesma política econômica do governo anterior e até parte da equipe que a conduzia, e que enxerga a realidade nacional somente pelo prisma dos famosos “fundamentos” do sistema neoliberal.

Lula vive também a dificuldade de ser um operário-Presidente. Os privilegiados do país nunca aceitaram esse fato, e mantém uma permanente desconfiança quanto aos seus reais desígnios. Ele é um “estranho no ninho”.

Fragilizado e numa permanente defensiva, ele está tendo que ir mais longe do que seus predecessores para atender ao apetite insaciável do capital. As dívidas financeiras passaram à frente das dívidas sociais, com os bancos tendo lucros nunca vistos. Se seu governo realizou as “reformas” exigidas pelo poder real no neo-liberalismo, deixou de realizar, entre as promessas decisivas que não cumpriu, a reforma agrária tão necessária, e até permitiu que os transgênicos penetrassem em todo o país – com possíveis repercussões ambientais sem retorno. Assumindo como objetivos prioritários a sacrossanta tese do combate à inflação e o pagamento incondicional dos compromissos externos – por meio do exagerado e inaceitável superávit primário -, manteve a economia nacional num ritmo pífio de crescimento e eliminou qualquer possibilidade de um desenvolvimento econômico socialmente mais justo, ou seja, com uma efetiva distribuição da renda. Lula diz agora com todas as letras que muda tudo menos a política econômica…

Na falsa percepção de que ele está fazendo o melhor que pode, a direção partidária não somente não denuncia como não desmonta e até consolida essas opções e armadilhas. Ficando a reboque do governo, reduziu-se a um simples instrumento para negociar a “governabilidade” proporcionada por maiorias no Congresso e para manter disciplinados seus militantes. E na maneira pragmática de relacionar-se com o Legislativo e com os “trezentos picaretas” a que Lula um dia se referira, o partido igualou o governo do PT a todos os demais governos, abusando inclusive de distorções que antes tanto combatera, como a das medidas provisórias. O que contribuiu para a quase completa destruição da credibilidade do parlamento e do mundo político, com infindáveis CPIs e suas “pizzas”.

A sociedade, por sua vez, desmobilizada para uma ação autônoma e sem contar com organizações efetivamente independentes do governo, foi incapaz de reagir frente ao descumprimento das promessas. E a possibilidade de críticas que se abriu criou um terreno fértil para a ação febril dos partidos que se opõem ao PT.

Não se pode eximir Lula de suas responsabilidades, por mais solidários que sejamos com ele na tarefa que quis assumir. Fora do Brasil ele levantou problemas que precisavam ser levantados e apontou para novas pistas na relação entre paises e no enfrentamento com a hegemonia norte-americana. Mas, dentro do Brasil, com os mais de 50 milhões de votos que recebeu ele teria o poder moral de desviar o Partido e o governo da rota em que enveredaram e de inovar em muitas áreas da ação governamental – uma grande oportunidade perdida. Ele também deveria ter enfrentado as denuncias contra o PT com a firmeza que sua gravidade exigia. Não se trata agora de identificar “quem” o traiu, como num drama shakespeareano. De fato, foi todo o Partido que deixou de ser o que deveria ser, isto é, o vetor, nas discussões políticas em todo o país, da vontade das grandes maiorias.

Por isso mesmo, paradoxalmente, os privilegiados do Brasil e do mundo são hoje os setores sociais mais interessados em que Lula continue Presidente – para assegurar a continuidade do modelo neoliberal. O povo pobre, que esperava que tivesse chegado a sua vez de receber com mais justiça o fruto de seu trabalho, pode até continuar confiando em Lula, mas sem outra saída senão a de se satisfazer com as pequenas ajudas que o governo lhe concede em suas políticas emergenciais compensatórias – mantendo-o na dependência de sempre – num Brasil que permanece desigual e injusto.

* * *

Lula pode até vir a ser reeleito e entrar para nossa história como um Presidente bastante razoável, com mais sensibilidade social que aqueles que o precederam, sem autoritarismos prepotentes nem repressão. Podem até ser apontadas pequenas mudanças que seu governo promoveu em uma série de políticas públicas, assim como pequenos apoios que deu a quem lutava pelas grandes transformações de que o Brasil precisa. Mas receio que um novo governo Lula talvez não passe, lamentavelmente, de um mal menor. O PT, com ele, não conseguiu realizar o sonho que o trouxe ao cenário nacional. A esperança não venceu.

Continuemos, no entanto. Sem esperar muito deste ou daquele governante, e sem maiores entusiasmos para elegê-los, preferirei seguir na horizontalidade de outros e novos caminhos, construídos pelos próprios caminhantes, à medida que caminham.

Aquele abraço,

Chico Whitaker

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