Tag Archives for " anarquia "

Mar 19

Aaaaarg.fail, Sci-hub, LibGen, TAL, LBRY e outros repositórios livres para artigos científicos, livros e mídias variadas

By rafaelreinehr | Blogs e Internet , Cibercultura

Somos contemporâneos de uma época de Transição. Mais uma delas, por sinal. Vislumbramos o surgimento da Internet com toda sua potência e possibilidades, a liberação de criações antes  privadas, tornadas acessíveis a todos com acesso à WWW (Napster, Audiogalaxy, Torrents). Aaron Swartz morreu defendendo o conhecimento livre, aos 26 anos.

Esta postagem não tem o intuito de recuperar toda a história das lutas pelo OKN (Open Knowledge, ou Conhecimento Livre), mas traz algumas das ferramentas atuais que podem ser utilizadas por quem deseja se aperfeiçoar a partir do conhecimento acessível e compartilhado na web.

Vamos a elas:

Aaaaarg.org –  http://aaaaarg.fail: Originalmente conhecida como aaarg.org, um acrônimo para Artists, Architects, and Activists Reading Group, foi criada por Sean Dockray e após vários processos, precisou mudar de domínio mais uma vez, hoje sendo hospedada em http://aaaaarg.fail. Trata-se de um grande repositório de livros de ciências humanas, arte contemporânea, teoria crítica, artigos científicos, teses, anotações e trabalhos que dificilmente são encontrados em qualquer outro lugar. Para não perder contato, se eles precisarem mudar de endereço mais uma vez, siga-os no twitter em https://twitter.com/aaaarg

Sci-Hubhttp://sci-hub.cc: Criado pela neurocientista russa Alexandra Elbakyan, o Sci-hub é, na verdade, um script que “desbloqueia” e libera o acesso a milhões de artigos científicos de várias revistas e editoras espalhadas pelo mundo. Seu objetivo é “remover todas as barreiras no caminho da ciência”.

Library Genesishttp://libgen.io: Um gigantesco repositorio de livros, revistas, quadrinhos, pinturas e artigos científicos. Diversão garantida por dias e dias e dias e dias…

LBRY – https://lbry.io: Criada por Jeremy Kaufman, pretende ser o futuro do compartilhamento digital. Uma biblioteca digital descentralizada onde cada um é dono do seu próprio conteúdo e pode distribui-lo gratuitamente ou de forma paga, sem publicidade ou custos de intermediação. Inicia em ABRIL DE 2017. Quer ser um dos primeiros a conhecer? Acessa por aqui: https://lbry.io/get?r=B6IVb

TAL – The Anarchist Libraryhttp://teias.org/tal: A Biblioteca Anarquista é o maior repositório de textos anarquistas e libertários da atualidade, em várias línguas. A versão brasileira ainda está em construção. Se você deseja contribuir com ela, deixe um comentário!

Se você quer saber um pouco mais sobre o conceito de RECURSOS EDUCACIONAIS ABERTOS (REA em português e OER (Open Educational Resources) em inglês), leia meu capítulo sobre o assunto no livro Recursos Educacionais Abertos – Práticas Colaborativas e Políticas Públicas. O capítulo chama-se Recursos Educacionais Abertos na Aprendizagem Informal e no Auto-didatismo e pode ser lido AQUI.

Se você conhece outras plataformas que espalham o conhecimento livre, compartilhe nos comentários! Elas serão adicionadas ao texto do artigo.

Gostou deste artigo? COLABORE para que possamos fazer mais: http://reinehr.org/viva-o-mecenato/

Referências: 

  1. https://www.memoryoftheworld.org/blog/2014/10/28/aaaaarg-org/
  2. https://monoskop.org/Aaaaarg
  3. https://monoskop.org/The_Public_School
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Aaron_Swartz
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Elbakyan
  6. https://twitter.com/LBRYio
  7. https://lbry.io/news/20000-illegal-college-lectures-rescued
  8. https://www.youtube.com/watch?v=DjouYBEkQPY
  9. Recursos educacionais abertos na aprendizagem informal e no autodidatismo
  10. http://www.livrorea.net.br/livro/home.html
Fev 12

Livrai.me | Igreja Anarquista Livrai-vos dos Senhores

By Rafael Reinehr | Anarquia e Escritos Libertários , And Now, For Something Completely Different... , Apontamentos Anarquistas , O Mundo às Avessas , Sociedade

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Nem todas minhas postagens e ideias fazem sucesso em todos os públicos (ainda bem, do contrário iria pensar que estou em um sonho egocêntrico e 🙂 ).

Uma dessas ideias polêmicas é a ideia da Livrai.me | Igreja Anarquista Livrai-vos dos Senhores.

A Livrai.me é, na verdade, um Manifesto pela autossuficiência e pela tomada de uma autoconsciência profunda por cada um de nós.

Na página inicial (livrai.me) conclamamos às pessoas que enviem fotos e uma pequena descrição de momentos nos quais elas sentiram-se verdadeiramente livres.

Leia o Manifesto completo em http://livrai.me/igreja-anarquista/

PS: Mantenho profundo respeito pelas crenças individuais de cada um, e desejo a felicidade e o bem-estar para todos os seres sencientes. Existem vantagens e desvantagens individuais e coletivas para cada escolha, teísta ou ateísta que fizermos. Os livros de história e de estatística estão aí para nos demonstrar, podemos usá-los como referência ou ignorá-los, bem como as escrituras assim ditas sagradas.

PS2: na foto, Pedro Rios Leão, na “Colheita da abstenção”.

 

Abr 30

Polícia para quem precisa de polícia – O caso dos professores do Paraná e o ocaso da políca militar

By Rafael Reinehr | Anarquia e Escritos Libertários , Apontamentos Anarquistas , Uncategorized

Sonhei que morria por causa de uma bactéria no coração. Acordei febril. Mas podia ser pior, eu podia ter sonhado que era um professor paranaense.” – Pedro Rios Leão

charge de Odyr Bernardi

 

O Beto Richa, e nossos governantes em geral, sabem muito bem o perigo que os professores representam. O que aconteceu hoje em Curitiba não foi uma fatalidade ou um ato de descontrole. Foi apenas uma ação condizente com a cultura política do nosso país. Qualquer esboço de mudança passa por uma auto-reflexão. Somos todos responsáveis. Quem não está ATIVAMENTE contra essa ideologia vigente, está a favor dela e é diretamente culpado pelos acontecimentos de hoje.

Espero que o ocorrido encerre de vez essa sandice de intervenção militar. Quem quiser provar um “pouquinho” de intervenção militar, dá um pulo aqui no Centro Cívico pra tomar bomba e cacetete na cara. Porque protestar em bairro nobre com roupinhas da moda e voltar pra casa de taxi, limpinho e bem feliz é fácil, qualquer imbecil consegue.

Hoje, mais do que nunca, vale a célebre frase de Martin Luther King Jr.: a maior tragédia desse momento de crise não será o grito dos homens maus e sim o silêncio dos homens de bem!” – Jaque Bohn Donada

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Sugestão de campanha: Você conhece algum filho de policial militar no PR? Conhece a esposa de algum deles? Ligue para ela, ele e sugira que chame o pai à consciência. POlicial também é trabalhador. Hoje eles bateram nos professores de seus próprios filhos, nas professoras de suas filhas, e talvez em alguns que foram ou poderiam ter sido seus professores no passado recente. Sugiro que seus vizinhos não os rejeitem, mas que os chamem ao motim, que os convidem à desobediência baseada no RDE ou no código militar “ORDEM ABSURDA NÃO SE CUMPRE” é dever do militar desobedecer e ir preso se for o caso. Trabalhador não bate em trabalhador. peça aos filhos e amigos, parentes e esposas de policiais militares que se mobilizem e ajudem estes a dar o passo que falta …. e ficarem do lado do bem da justiça. Estes homens e mulheres fardados, em sua maioria, e ao seu modo, querem o mesmo que todos os demais trabalhadores: paz e justiça.” – Claudio Oliver

FB_IMG_1430355752080Outra informação, do Paraná Portal, afirma que 50 policiais serão exonerados pois recusaram-se a atirar contra os manifestantes.

Os surtos de lucidez são penalizados, enquanto os rompantes de afronta à democracia e ao direito de protesto são fortemente reprimidos. Vivemos há muito em uma sociedade de hipercontrole, em que a Polícia não serve ao propósito de defender a população de bandidos, ladrões e criminosos em geral mas, pelo contrário, está presente apenas para garantir a propriedade privada (daqueles que a possuem) e a manutenção do estado das coisas de forma a favorecer quem está no poder.

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“Não é suficiente para mim parar em frente a vocês nesta noite e condenar os levantes. Seria moralmente irresponsável fazer isso sem, ao mesmo tempo, condenar as contingências e condições intoleráveis que existem em nossa sociedade. Essas condições são as coisas que fazem os indivíduos sentir que não possuem outra alternativa senão engajar-se em rebeliões violentas para chamar a atenção. E eu devo dizer hoje que uma revolta é a linguagem daqueles que não são ouvidos.” – Martin Luther King Jr., 14 de março de 1968

Voltaire já dizia: “É perigoso estar certo quando o governo está errado.” Isso está mais do que certo, haja vista que o aparelho ideológico do Estado e a estrutura hierárquica militar, disciplinada e aparelhada que está a seu serviço tem poder de desmonte truculento de qualquer confronto direto com a população.

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Isso, no entanto, não é razão para quedarmos acomodados em frente às nossas “caixas anestesiadoras” – que alguns chamam de televisores. A cooperação crescente e o avanço das estratégias de participação cidadã – indo para muito além da mera participação, evoluindo até a interação – com troca efetiva de saberes e a evolução da tomada de consciência sobre o verdadeiro estado das coisas (que nos é obscurecido pela Escola, pela Igreja e pelo Estado) poderão acabar por gerar as faíscas da transformação social que precisamos.

respeito às leis

“Se o governo não respeita nossos direitos, porque nós respeitamos suas leis?”

Por que somos condescendentes? Conformistas? Acomodados? Porque estamos conseguindo comprar nossos eletrodomésticos, televisores de LCD ou automóveis em 12, 24, 36 ou 72 vezes? Porque seguimos acreditando na promessa de um “paraíso na terra”, através de reformas e mais reformas – políticas, econômicas, tributárias – que sempre são paliativas e logo ali na frente são revogadas (como no caso da rotulação dos transgênicos)?

Será que não percebemos que nossas liberdades são mais e mais cerceadas em troca de uma suposta “segurança” para nós e nossas famílias, sendo que esta segurança na verdade é uma ilusão posta na mesa para manter o processo de enriquecimento de famílias e grupos corporativos cada vez mais famintos?

FB_IMG_1429453709381A postagem é séria. É tão séria que precisamos de um pouco de humor para atenuar a carga emocional pesada de tudo que precisamos digerir ao refletir sobre o assunto:

FB_IMG_1430358865408Para finalizar, uma foto de um membro do Black Block que foi “capturado” pela PM do Paraná, em sua vestimenta característica de confronto com a polícia. Estes baderneiros… tsc… tsc… (ATENÇÃO, AVISO AOS INCAUTOS, PARA EVITAR COMENTÁRIOS INAPROPRIADOS: SIM, ISTO É UMA IRONIA)

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A tempo: no início da madrugada caí em uma postagem de Gustavo Lisboa que cita Brecht. Suas palavras caem como uma luva para encerrar este ato:

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” – Bertold Brecht

Jan 01

O Anarquismo e suas Aspirações – parte I

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

O Anarquismo e suas Aspirações

Os apontamentos a seguir foram retirados livremente do livro Anarchism and It's Aspirations de Cindy Milstein e estão entremeados por reflexões e comentários meus, reflexões essas que surgiram durante a leitura do mesmo, e inspiradas em leituras prévias da literatura libertária e da minha leitura particular do mundo em que vivemos. É muito importante frisar que, embora os comentários estejam realmente misturados com o texto original da autora, a grande maioria do conteúdo abaixo é de autoria da Cindy, e recomendo muito fortemente a leitura do texto original em inglês, publicado pela Editora AK Press e pelo Institute for Anarchist Studies.

Os apontamentos foram fragmentados em partes para facilitar a leitura e serão publicados semanalmente a partir de hoje, primeiro de janeiro de 2013, sempre às terças-feiras. Desejo uma ótima leitura e, se a leitura te "pegar de jeito", não deixe de entrar em contato. Temos muito o que prosear e conspirar!

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O objetivo destes escritos é contribuir com a construção de um melhor entendimento do Anarquismo, construir um melhor Anarquismo e encorajar novos anarquistas bem como o surgimento destes. Espera-se que estes apontamentos acendam um debate sobre o que o Anarquismo poderia ser, em primeiro lugar porque queremos que sejamos efetivos – que vençamos – e isso envolve um diálogo crítico, construtivo e integral para nossa prática prefigurativa.

Com este artigo, quero estender uma mão compassiva e solicitar que você, quer seja velho ou novo no Anarquismo, fique por perto e ajude a acelerar os processos pelos quais estamos lutando.

Eu quero todos nós lutando pelo que há de melhor no Anarquismo, não somente por nós mesmos mas de forma a construir uma sociedade livre, com indivíduos livres que o Anarquismo tão generosa e amorosamente luta para alcançar para todos.

Sim, o mundo está incrivelmente bagunçado; ao invés de se retirar, entretanto, é imperativo que avancemos em direção a uma "Comunidade de comunidades" igualitária.

Espero que ao final do livro tenhamos conseguido responder à pergunta: "Como é a sociedade que queremos?"

E, inspirados pelo bom, verdadeiro e belo que o Anarquismo objetiva, contagiá-lo a feliz e ainda assim diligentemente abraçar – ou continuar a fazê-lo com renovado vigor – o espírito libertário do Anarquismo.

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A primeira década do século XXI foi muito significativa para o Anarquismo, providenciando uma série de eventos (e exemplos) que começaram ainda no final do século passado (Chiapas, México, Exército Zapatista de Libertação Nacional, 1994) e a Batalha de Seattle, 1999) e seguiram-se com os eventos na Argentina (2001/2002), Genova, Oaxaca, Grécia, Primavera Árabe, Occupy Wall Street, 15M, …

Estes acontecimentos somados levaram a um "inchaço" no número de pessoas que se autodenominam anarquistas; isso, por sua vez, levou ao florescimento de uma "infraestrutura anarquista", desde um aumento dramático de cenários sociais e infoshops até um surto de projetos tocados coletivamente para suprir necessidades como suporte legal, comida e arte.

Foram desenvolvidas redes globais informais porém articuladas de troca e solidariedade, facilitadas por tudo desde usos compartilhados e seguros de tecnologias de comunicação e mídia independentes até redes de apoio mútuo nos mais diversos campos do conhecimento a atuação humanos.

Juntamente com cabeças afins, nos engajamos em fóruns de política cara-a-cara que nos forneceram uma nova imaginação radical através de numerosos dias de ação, consultas e convergências, e movimentos horizontais.

A primeira parte destes apontamentos, o Capítulo 1, reflete nosso otimismo de que a constelação anarquista de éticas, juntamente com suas práticas dinâmicas, pode nos unir e inspirar bem como a muitos outros, para o trabalho pesado que nos espera de forjar um mundo de baixo para cima.

"Mesmo quando eu amo o que faço, eu odeio o capitalismo"

"Não é como nos chamamos uns aos outros – anarquistas, socialistas, comunistas – que conta, mas como nos comportamos"

E, refletindo sobre a forma que os anarquistas escolhem agir, parece que existe algo de especial nela, apesar de todas as chances contra deste momento histórico: com empatia, tangivelmente dando de nós mesmos e fazendo-o nós mesmos, em direção a uma forma de organização social na qual será rotina agir de forma mutualista.

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Uma vez perguntaram a Ashanti Alston, anarquista dos Panteras Negras, como ele aguentou ficar 12 anos na cadeia, e ele respondeu, olhos brilhantes: "Foi o período mais cheio de esperança da minha vida, porque todos os dias nós estávamos esquematizando sobre como fugir da prisão".

Ninguém deveria viver nas celas do Capitalismo, do Estado, ou de outra forma de dominação ou opressão, mas já que vivemos, as aspirações anarquistas oferecem uma chave para acharmos nossa saída.

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Capítulo 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

"Por espírito anarquista eu quero dizer daquele sentimento humano profundo, que busca o bem de todos, solidariedade e amor entre as pessoas, o que não é exclusivamente uma característica dos autodeclarados anarquistas, mas inspira todas as pessoas que tem corações generosos e uma mente aberta"
Errico Malatesta, Umanita Nova, 13/04/1922

No seu centro, o Anarquismo é realmente um espírito – um que grita contra tudo que está errado com a sociedade atual, e claramente proclama tudo que poderia estar certo sob formas alternativas de organização social.

O que é o Anarquismo exatamente?

Muitas definições já foram feitas desde o surgimento da palavra como uma filosofia política distinta dentro da tradição revolucionária. Vamos tentar introduzi-lo com a vantagem de um ponto-de-vista do início do século XXI.

Em primeiro lugar, precisamos concordar que nossa humanidade está profundamente machucada pelo mundo alienado e controlado no qual habitamos. O Anarquismo defende que as pessoas seriam muito mais humanas sob relações e arranjos sociais não hierárquicos. A seguir, precisamos nos concentrar nas Éticas – os valores pertinentes a como os humanos conduzem a si mesmos – que tornam o Anarquismo uma sensibilidade política distinta. O Anarquismo serve como uma filosofia da liberdade, como uma consciência viva de que as pessoas e suas comunidades podem ser sempre melhores.

Em uma só sentença: o Anarquismo pode ser definido como uma busca/luta em direção a uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

Significado do "A"

O "A" representa a antiga palavra grega Anarkha – que combina a raiz an(a) – "sem" e arkh(os) – "governante, autoridade" – significando a ausência de autoridade.

Mais contemporaneamente, e de forma mais acurada, ela represetna tanto a ausência de dominação (controle de alguém sobre outro) e hierarquia (relações ranqueadas de poder de dominação e subordinação). O círculo pode ser considerado um "O", representando "ordem" ou, melhor ainda, "organização"; lembrando da seminal definição de Pierre-Joseph Proudhon em A Propriedade é um Roubo: "Da mesma forma que o homem busca justiça na igualdade, a sociedade busca a ordem na Anarquia."

O "A" simboliza o Anarquismo como um duplo processo: a abolição da dominação e formas hierárquicas de organização social – ou relações socieis "poder sobre" – e sua substituição por versões horizontais – ou "poder juntos e em comum" – novamente, uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

O Anarquismo é uma síntese do melhor do liberalismo e o melhor do comunismo, elevado e transformado pelo melhor das tradições de esquerda libertária que trabalham em direção a uma sociedade igualitária, voluntária e não hierárquica.

O projeto do liberalismo e o seu sentido mais amplo é garantir a liberdade pessoal. O projeto máximo do comunismo é garantir o bem comum. Um busca um indivíduo que pode viver uma vida emancipada e o outro busca uma comunidade estruturada ao longo de linhas coletivistas. Ambas são noções de valor. Infelizmente, a liberdade nunca pode ser alcançada desta maneira excludente: através do indivíduo OU da sociedade. Os dos necessitam necessariamente entrar em conflito, quase instantaneamente. A grande sacada do Anarquismo foi combinar o indivíduo e a sociedade em uma única visão política: ao mesmo tempo, eliminou o Estado e a propriedade como os pilares de suporte, baseando-se em seu lugar na auto-organização e o apoio mútuo.

O Anarquismo entende que qualquer forma de organização social, especialmente uma que busque uma erradicação completa da dominação, que se basear na premissa tanto da liberdade individual quanto coletiva – ninguém é livre a não ser que todos sejam livres, e todos só podem ser livres se cada pessoa puder individuar ou atualizar a si mesmo da forma mais ampla possível.

O Anarquismo também reconheceu, mesmo que intuitivamente, que tal tarefa é tanto um ato de balanço constante e "do que é feita" a vida real. A liberdade de uma pessoa necessariamente infringe a de outra, ou mesmo o bem de todos. Nenhum bem comum pode atender as necessidades e desejos de todo mundo. Isso não quer dizer lavar as mãos e escolher pelo caminho ou do liberalismo ou do comunismo – privilegiando um lado da equação, de forma artificial – na esperança de resolver esta tensão em andamento.

Desde o início, o Anarquismo perguntou a muito mais difícil mas em última instância pragmática questão: "Levando em conta estas "colisões" sociedade x indivíduo como parte da condição humana, como podem as pessoas coletivamente auto-determinar suas vidas para se tornarem quem elas querem ser e ao mesmo tempo criar comunidades que são tudo o que elas poderiam ser também?"

O Anarquismo entendeu que esta tensão é positiva, como uma parte criativa e inerente à existência humana. Ele destaca que as pessoas não são todas iguais, nem precisam ser, nem necessitam, querem ou desejam as mesmas coisas.

No seu melhor, a aspiração anarquista básica por uma sociedade livre composta de indivíduos livres dá transparência ao que deve ser uma dissonância harmônica e produtiva: encontrar caminhos para coexistir e nos desenvolver em nossas diferenças.

Anarquistas criam processos que são humanos e substancialmente participativos. São sonestos sobre o fato de que sempre haverá mal-estar entre a liberdade individual e social. Garantem que será uma luta contínua encontrar o equilíbrio ideal. Esta luta é justamente aquela na qual o Anarquismo se localiza, aparece, acontece.

Ele acontece, hoje em dia, em situações nas quais nem nos damos conta. Em projetos de pequena escala como cooperativas de cicloativistas, escolas livres – situações em que as pessoas coletivamente fazem decisões cara-a-cara sobre assuntos grandes ou mundanos.

Isso não é algo que a maior parte das pessoas na maioria das partes do mundo é encorajada a ensinar (ou aprender); pois isto contém o kernel, o código-fonte, o coração do que é necessário para destruir o atual sistema de arranjos sociais verticais. Desta forma, não somos nem particularmente bons nem eficientes em processos democráticos diretos. Mecanismos de tomada de decisão em conselhos são trabalho duro. Eles levantam questõs difíceis, como por exemplo "como lidar com conflito de formas não punitivas". Mas através deles, as pessoas se "escolarizam" no que pode ser a base para a auto-governança coletiva, para redistribuir poder a todos. Quando funciona bem, temos um profundo senso dos tipos de processos ou acordos que podemos fazer e manter uns com os outros.

Ocupa BarcelonaNo micronível e em outros muito maiores, o anarquismo forma "a estrutura da nova sociedade dentro da casca da velha", como o preâmbulo da constituição mundial dos trabalhadores industriais afirma. De forma ainda mais crucial, ele auto-determina a estrutura do novo a partir dos espaços de possibilidade dentro do velho.

O Anarquismo precisa permanecer dinâmico se ele realmente quiser desmascarar novas formas de dominação e substitui-las por novas formas de liberdade, precisamente devido a sempre presente tensão entre liberdade individual e coletiva.

Auto-organização necessita a participação de todos, o que requer estar sempre aberto a novas questões e ideias.

Quando as pessoas são introduzidas ao anarquismo hoje, esta abertura combinada com a propensão cultural a esquecer o passado, pode fazer com que pareça uma invenção recente – sem uma tradição elástica, preenchida com debates, lições e experimentos, para construir sobre. Pior ainda, pode parecer uma prática política do tipo "tudo vale" – libertino sem o libertário – sem consideração por como os atos de uma pessoa impactam outra pessoa (ou pessoas) ou mesmo a comunidade.

Precisamos estudar a história anarquista para evitar repetir os erros, mas também para saber que não estamos sozinhos no que tem sido e vai ser a pedregosa e cheia de desvios "via para a utopia".

(continua…)

 

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

Jan 01

Umanita Nova – Errico Malatesta

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

“By anarchist spirit I mean that deeply human sentiment, which aims at the good of all, freedom and justice for all, solidarity and love among the people; which is not an exclusive characteristic only of self-declared anarchists, but inspires all people who have a generous heart and an open mind.”

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“Por espirito anarquista eu quero dizer daquele profundo sentimento humano, que busca o bem de todos, liberdade e justiça para todos, solidariedade e amor entre as pessoas; o que não é uma característica exclusiva apenas de anarquistas auto-declarados, mas inspira todas as pessoas que têm um coração generoso e uma mente aberta”

– Errico Malatesta, Umanita Nova, 13 de abril de 1922

Out 15

Reflexões a partir de “Rescuing Galbraith from the conventional wisdom” – Anarchy # 1, março de 1969

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Reflexões a partir de “Rescuing Galbraith from the conventional wisdom” – Anarchy # 1, março de 1969

O Estado Oportunista > A Sociedade Irresponsável

A “sabedoria convencional” aplaude quando investimentos são abençoados pelo lucro e gratificados por aquisições privadas, mas é deficitária quanto a satisfação de necessidades sociais. Assim, à indústria do automóvel e ao seu produto, os carros, é dado mais valor do que às estradas ou a meios de transportes eficazes e coletivos, como trens de alto desempenho, por exemplo.

“Temos visto que enquanto nossas energias produtivas tem sido usadas para fazer coisas para as quais não há urgência, coisas para as quais a demanda deve ser sintitizada a um custo elaborado ou elas não serão desejadas – o processo de produção continua a ser de uma urgência quase não diminuída como uma fonte de renda. A renda das pessoas deriva de produzir coisas de pequena relevância, e isso gera grandes consequências. A produção reflete a baixa utilidade marginal dos bens produzidos para a sociedade. A renda reflete, para uma pessoa, uma alta utilidade para a capacidade de qualidade de vida.”

“Nós ainda estamos para ver que não é o total de recursos mas seu uso estudade e racional a chave para a conquista.” – J. K. Galbraith

“Mas tão longo olhemos prova a Economia Política deste ponto de vista, ela muda inteiramente de aspecto. Ela cessa de ver uma simples descrição dos fatos, e se torna uma ciência, e podemos definir essa ciência como: o estudo das necessidades da humanidade, e os meios de satisfazê-lo com a menor possível perda de energia humana.” – Piotr Kropotkin

“A (ideia de) produção é alimentada por uma altamente duvidosa mas igualmente aceita psicologia do querer, por uma igualmente dúbia mas igualmente aceita interpretação do interesse nacional e por profundos interesses velados. Tão totalmente envolvente é o nosso senso de importância da produção como um objetivo que a primeira reação a qualquer questionamento desta atitude será “O que mas há aí?”. Tão amplamente a produção está incrustada em nossos pensamentos que apenas conseguimos imaginar um vácuo caso ela seja relegada a um papel menor”.

Na interpretação dos fenômenos sociais existe uma competição contínua entre o que é relevante e o que é meramente aceitável, e nesta competição toda “vantagem tática” está com o que é aceitável. Audiências de todos os tipos mais aplaudem aquilo de que gostam mais, e as pessoas aprovam a mais aquilo que entendem melhor – aderimos a um pensamento rapidamente quando aquelas ideias representam nossa própria compreensão do assunto. Essa é uma primeira manifestação do interesse velado.

Um interesse velado no que diz respeito ao entendimento é mais preciosamente guardado do que qualquer outro tesouro. É por isso que as pessoas reagem, não infrequentemente como algo próximo à paixão religiosa, em defesa daquilo que tão laboriosamente aprenderam.

Este consenso de ideias aceitáveis é o que Galbraith convencionou chamar de “Sabedoria Convencional”. Existe uma sabedoria convencional da esquerda bem como uma da direita, e ela é encontrada em qualquer campo do conhecimento humano.

Critérios centrais da Nova Economia

  • Desenvolvimento pautado pela sustentabilidade
  • Compaixão
  • Felicidade individual
  • Bem-estar pessoal e social
  • Minimização de tensões comunitárias e sociais

O que fazer com a superprodução de alimentos?

Em primeiro lugar, alimentar a população. Só o verdadeiro excedente deve ser comercializado – ninguém mais pagará pela “cesta básica”- somente pelo luxo.

A distribuição racional dos produtos da indústria não é uma questão de capacidade produtiva mas de atitudes sociais e a disseminação de atitudes sociais apropriadas é justamente o que a “sabedoria convencional” da economia inibe.

“Existe uma tendência, embora ainda pálida, de considerar as necessidades do indivíduo, independentemente de seus serviços prévios ou possíveis à comunidade. Nós estamos começando a pensar na sociedade como um todo, cada parte da qual está tão intimamente ligada às outras que um serviço entregue a um é um serviço entregue a todos.” – Piotr Kropotkin, em Anarchist Communism, sobre a Abolição dos serviços assalariados

Economia baseada em interesses sociais sem intervenção do mercado

E se a “eficiência” de um sistema produtivo passasse a ser avaliada em função de sua utilidade ao homem ao homem ao invés de sua utilidade econômica?

por-tao-poucos-terem-tanto
Nov 16

Por tão poucos terem tanto é que tantos tem tão pouco – Eduardo Marinho

By Rafael Reinehr | Artes Plásticas

A vida tem dessas coisas. A vida hiperconectada também. Não fosse pela internet, hoje não estaria com uma gravura do artista, anarquista e visionário Eduardo Marinho na minha sala.

Foi numa dessas conexões inesperada que me deparei com o vídeo do Eduardo que mostro abaixo:

 


Esse vídeo me fez querer saber mais do cara e fui atrás. Uma googlada aqui, outra lá, achei um blog dele, o Observar e Absorver e daí foi um toque para os primeiros contatos por e-mail.
Numa dessas conversas, acabei me interessando também pelo lado “artista de rua”ou “artista marginal” do Eduardo, e adquiri uma de suas obras, que talvez possamos entitular “Por tão poucos terem tanto é que tantos tem tão pouco“, que ilustro abaixo.

por-tao-poucos-terem-tanto

Uma grande verdade, não é mesmo?

Isso aí meu amigo! Continue sempre na luta nos inspirando com seu pensamento e suas ações. Em breve, vou falar por aqui ou acolá sobre tua Pençá, um belo fanzine que merece ser mais divulgado.
Nov 16

A Concepção Libertária da Transformação Social Revolucionária – Rudolf de Jong

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

A seguir, apontamentos da leitura do livro “A Concepção Libertária da Transformação Social Revolucionária”, de Rudolf de Jong.

 

Relações Centro-Periferia


As relações centro-periferia baseiam-se em uma forma libertária de se enxergar as relações presentes em nossa sociedade. Elas estão fundamentadas nas relações de domínio estabelecidas pelos centros em relação às periferias, entendendo que a dominação existe quando uma pessoa ou um grupo de pessoas utiliza-se “da força social de outrem (do dominado), e, consequentemente, de seu tempo, para realizar seus objetivos (do dominador) – que não são os objetivos do agente subjugado”.

A luta permanente dos anarquistas, que se constituiu classicamente pelo fim das relações de domínio, é colocada por Rudolf de Jong como a luta permanente pelo fim das relações centro-periferia.

É este modelo de luta, da periferia para o centro, que vem distinguindo anarquistas e a grande maioria dos marxistas, na busca pela transformação social. Comparando as estratégias marxista e anarquista, podemos dizer que
os revolucionários marxistas, os reformistas sociais e, em geral, a maioria dos militantes de esquerda querem sempre usar o centro como um instrumento – e na prática como o instrumento – para a emancipação da humanidade. Seu modelo é sempre um centro: Estado, partido ou exército. Para eles a revolução significa, em primeiro lugar, a tomada do centro e de sua estrutura de poder, ou a criação de um novo centro, para utilizá-lo como um instrumento para a construção de uma nova sociedade. Os anarquistas não desejam tomar o centro; desejam sua destruição imediata. É sua opinião que, depois da revolução, dificilmente haverá lugar para um centro na nova sociedade. A luta contra o centro é seu modelo revolucionário e, em sua estratégia, os anarquistas tentam evitar a criação de um novo centro.

O Sujeito Revolucionário


Marx acreditava que, antes da revolução rumo ao socialismo, que consuziria à ditadura do proletariado, a sociedade deveria passar por uma revolução burguesa, que estabelecesse o capitalismo de maneira plena, desenvolvendo as forças produtivas e criando este proletariado industrial – o sujeito revolucionário que conduziria a sociedade à sua emancipação. Desta maneira, as forças progressistas da sociedade seriam a burguesia (que transformaria as economias pré-capitalistas em capitalismo) e o proletariado ( que transformaria o capitalismo em socialismo).

O lumpemproletariado, os camponeses, trabalhadores manuais e as culturas pré-capitalistas não teriam , para ele, um papel revolucionário; muitas vezes, ao contrário, seriam forças conservadoras.

A sublevação do proletariado das cidades não é suficiente; com ela teríamos somente uma revolução política, que teria necessariamente contra ela a reação natural e legítima do povo dos campos, e esta reação, ou unicamente a indiferença dos camponeses, esmagaria a revolução das cidades, como aconteceu ultimamente na França. Só a revoução universal é suficientemente forte para inverter e quebrar o poder organizado do Estado, sustentado pelos recursos das classes ricas. Mas a revolução universal é a revolução social, é a revolução simultânea dos povos dos campos e das cidades. É isso que é preciso organizar,  –  porque sem uma organização preparatória, os elementos mais fortes são impotentes e nulos. (grifos nossos)

Que fazer? Não podendo impor a revolução nos campos, é preciso produzi-la, provocando o movimento revolucionário dos próprios camponeses, levando-os a destruir, com as suas mãos, a ordem pública, todas as instituições políticas e civis e a construir, a organizar nos campos a anarquia.

A Transformação Social Revolucionária



Para a grande maioria dos marxistas, a revolução passa, necessariamente, pela tomada do Estado e pelo estabelecimento de um período de centralização e ditadura, fato que nunca foi aceito pelos anarquistas. Bakunin, em um prognóstico mais do que certeiro, previa, ainda no século XIX, o que seriam as experiências “socialistas”do século XX. Previa ele que este modelo de transformação social – que Rudolf de Jong chamaria de transformação do centro para a periferia – não conduz à emancipação do povo, mas sim à continuidade da sua escravidão. Isto porque não há como se defender os interesses da periferia – neste caso, o povo explorado – por meio de uma instituição do centro – o Estado.

Bakunin conseguiria antever que, assim que o Estado fosse tomado, ainda que sob justificativa da defesa dos interesses do povo, seria criada uma nova classe de exploradores que continuaria a dominação, ao invés de acabar com ela. Esta “nova classe”, ainda segundo Bakunin, nunca mais abandonaria as posições de privilégio adquiridas. O socialismo como período intermediário, ou a “ditadura do proletariado”, nunca chegaria à sociedade sem Estado. A nova classe no comando do Estado passaria a defender não mais os interesses do povo, mas sim os seus próprios interesses.

(…) nenhum Estado, por mais democráticas que sejam as suas formas, mesmo a república política mais vermelha, popular apenas no sentido desta mentira conhecida sob o nome de representação do povo, está em condições de dar a este o que ele precisa, isto é, a livre organização de seus próprios interesses, de baixo para cima, sem nenhuma ingerência, tutela ou coerção de cima, porque todo Estado, mesmo o mais republicano e mais democrático, mesmo pseudopopular, como o Estado imaginado pelo Sr. Marx, não é outra coisa, em sua essência, senão o governo das massas de cima para baixo, com uma minoria intelectual, e por isto mesmo privilegiada, dizendo compreender melhor os verdadeiros interesses do povo,mais do que o próprio povo.

A coerência entre meios e fins, fortemente defendida no anarquismo, aponta ser uma imensa contradição querer defender o conjunto de classes exploradas, que é um elemento periférico da sociedade, por meio de uma instituição que é um pilar fundamental do sistema capitalista e da sociedade de classes, ou seja, uma instituição central.

Diferentemente, a luta anarquista pela transformação social revolucionária não passa pela tomada do Estado, mas sim pela mobilização de ambos setores da população para, de baixo para cima, promover a revolução social e abrir caminho rumo ao socialismo libertário. A revolução social, na concepção anarquista, promove uma imediata substituição do Estado pelas estruturas autogeridas e federadas do socialismo libertário, momento em que o poder político é descentralizado e autogerido pelo povo. A nosso ver, o caminho para operar esta transformação social se dá por meio da criação e do desenvolvimento de movimentos sociais, juntamente com a organização específica anarquista, desenvolvendo suas atividades de trabalho/inserção social, produção/reprodução de teoria, propaganda anarquista, formação política, concepção e aplicação de estratégia, relações políticas e sociais, gestão de recursos.

É por meio  da ética, e somente por meio dela, que a organização anarquista não atua como um partido autoritário (mesmo que revolucionário). A ética do anarquismo, diferente de todas as outras ideologias, sustenta uma posição única de relação entre os níveis político e social. Por este motivo, a ética é absolutamente central a qualquer organização anarquista que queira realizar trabalho com os movimentos sociais. Diferentemente da organização de vanguarda, o nível político organizado como minoria ativa, que atua com ética, não possui relação de hierarquia e nem de domínio em relação ao nível social. Para nós, como enfatizamos, os níveis político e social são complementares e possuem uma relação dialética. Neste caso, o nível político complementa o nível social, assim como o nível social complementa o político.

Ao contrário do que propõem os autoritários, a ética da horizontalidade que funciona dentro da organização específica anarquista se reproduz em sua relação com os movimentos sociais. Quando em contato com o nível social, a organização específica anarquista atua com ética e não busca posições de privilégio, não impõe sua vontade, não domina, não engana, não aliena, não se julga superior, não luta pelos movimentos sociais ou à frente deles. Luta com os movimentos sociais, não avançando nem um passo sequer além do que eles pretendem dar.

Entendemos que a partir desta perspectiva ética de nível político, não existe fogo que não seja aceso coletivamente; não há como ir à frente, iluminando o caminho do povo, enquanto o próprio povo vem atrás na escuridão. O objetivo da minoria ativa é, com ética, estimular, estar junto ombro a ombro, prestar solidariedade quando ela é necessária e solicitada. Por isso, diferentemente da vanguarda, a minoria ativa é legítima.

Esta reflexão sobre o terreno mais adequado para plantar as nossas sementes deve ser feita. A experiência vem mostrando que é nos setores mais periféricos que as pessoas possuem mais afinidade com o anarquismo – os setores em que as pessoas têm muito pouco, ou nada a perder.

Assumir posições de direção nos movimentos sociais pode e deve ser objetivo de grande preocupação entre os anarquistas, pois, quando isso acontece, pode-se, mesmo que sem querer, estar insistindo em uma transformação do centro para a periferia, com conseqüências funestas para a luta.

Pensando As Relações Centro-Periferia Hoje



Os sem-terra, sem-teto, desempregados, catadores de material reciclável, indígenas, camponeses, pequenos produtores etc, foram (e algumas vezes ainda são) classificados como “lumpemproletariado”, tendo negado o seu potencial revolucionário.

1- Trabalhar as transformações sociais por fora do Estado, que não deve ser utilizado como um meio, nem como propõem os reformistas, nem como propõem os reformistas, nem como propõem os revolucionários.

2- Reforçar a idéia anarquista de defendera ideologia dentro dos movimentos sociais e não o contrário, quando os movimentos funcionam como correia de transmissão de um partido ou uma ideologia determinada.

3- Sustentar uma interação complementar e dialética entre a organização política e os movimentos sociais (níveis político e social), em que há desenvolvimento mútuo e não há hierarquia e domínio.

4- Reconhecer a inevitabilidade do enfrentamento para a transformação revolucionária, refletindo, de maneira estratégica e tática, como e quando a violência deve ser utilizada, ainda que seja sempre comoresposta, e, portanto, uma forma de autodefesa.

5- Conceber formas de atuação que dêem espaço para o envolvimento das bases, lutando com o povo e não por ele ou à frente dele.

6- Eleger os melhores espaços para atuar, buscando movimentos que agrupem militantes que sofrem de maneira mais dura os efeitos do capitalismo e que podem ser grandes aliados na luta de classes.

7- Buscar as bases dos movimentos sociais, construindo um projeto de organização popular que vá de baixo para cima, ou da periferia para o centro, visando à transformação social revoluvionária.

I

Introdução


As organizações de trabalhadores – por muito tempo consideradas periféricas – estão agora sendo aceitas como um centro (entre muitos) de poder e política. Mas, por muitos anos, outros aspéctos tradicionais do movimento operário, tais como a ação direta, a auto-organização, a solidariedade, o apoio mútuo e toda a história e a ideologia anarquista permaneceram curiosidades históricas pré-políticas, periféricas e fracassos históricos. Os movimentos pré-políticos em áreas periféricas são aqueles movimentos que:

a) tentaram preservar suas identidades;
b) recusaram-se a criar novas formas de relações centro-periferia; e
c) têm sido medidos sem êxito por padrões políticos de poder.

O anarquismo é uma ideologia que se recusa a criar novos sistemas centrais com novas áreas periféricas. Os revolucionários marxistas, os reformistas sociais e, em geral, a maioria dos militantes de esquerda querem sempre usar o centro como um instrumento – e na prática como o instrumento – para a emancipação da humanidade. Seu modelo é sempre um centro: Estado, partido ou exército. Para eles a revolução significa, em primeiro lugar, a tomada do centro de sua estrutura de poder, ou a criação de um novo centro, para utilizá-lo como um instrumento para a construção de uma nova sociedade. Os anarquistas não desejam tomar o centro; desejam sua destrução imediata. É sua opinião que, depois da revolução, dificilmente haverá lugar para um centro na nova sociedade. A luta contra o centro é seu modelo revolucionário e, em sua estratégia, os anarquistas tentam evitar a criação de um novo centro.

II

O Movimento Anarquista


Até a Primeira Guerra Mundial o anarquismo, em suas formas, era uma das principais forças no movimento operário internacional. Suas maiores forças estavam nos países “latinos” da Europa e entre os trabalhadores imigrantes europeus na América do Norte e do Sul. Minorias ou idéais anarquistas desempenhavam um papel mais ou menos importante em quase todos os países onde haviam surgido movimentos operários ou socialistas.

Em minha opinião, anarquismo é a luta por uma sociedade socialista aberta e universal, autocontrolável e autodirigida, uma sociedade em que a autoridade coercitiva tenha sido substituída por um processo de tomada de decisões que não dá lugar à alienação entre o indivíduo e as decisões tomadas. Por socialismo, entendo a realização dos ideais da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

Termos como “autocontrolável”, “autodirigida” etc, indicam a oposição explícida do anarquismo ao Estado, mesmo em suas formas parlamentares e representativas, e sua recusa em participar de uma política “normal”, ou seja, feita a partir do centro.

Semelhança muito grande entre o anarquismo e as formas pré-políticas mais tradicionais de democracia direta, tais como o Mir russo, o pueblo espanhol, as guildas das cidades medievais, as comunidades indígenas nos Andes etc, foi que os anarquistas opunham-se ao Estado nacional, devido a sua estrutura autoritária inerente, que resultava na alienação e na falta de controle por parte dos pobres.

O que é característico na concepção anarquista é a ênfase colocada na solidariedade, na internacionalização, na responsabilidade, na educação, ou, em outras palavras, na criação do trabalhador consciente, pronto para enfrentar e resolver os problemas que o confrontam.

O renascimento das idéias libertárias nos anos 60, em movimentos e formas de organização na Europa e nos E.U.A., não teve quase nada a ver com o velho movimento, seu remanescente, ou com os grupos socioeconômicos que anteriormente o haviam apoiado. Teve muito a ver com uma nova geração de indivíduos conscientes, que haviam notado que, na sociedade moderna, a vida é dominada por grandes instituições que estão além do controle das pessoas. Estes indivíduos buscavam novas formas de estruturas organizacionais autocontroláveis e autodirigidas para serem usadas na luta pela transformação social e por um modo de vida melhor.

III

As Forças Sociais Por Trás Da Transformação Social




1. A concepção do centro a respeito das forças por trás da transformação social

A Livre Empresa e o Marxismo


Com o desenvolvimento do centro, as éreas periféricas – como as classes trabalhadoras dentro do centro – adotariam e, a longo prazo, se beneficiariam com as transformações sociais, partilhando dos lucros do centro. Esta era a filosofia por trás dos argumentos sobre os termos de comércio do mundo liberal. Ainda é a filosofia oficial do mundo ocidental, com su fé no crescimento econômico.

Era apenas nos centros do capitalismo que o proletariado representava uma proporção grande da população e, por isso, Marx esperava que a revolução se realizasse nos países mais altamente industrializados, como a Inglaterra e a Alemanha. A idéia de que poderiam ocorrer revoluções em áreas periféricas ao capitalismo e a concepção de “forças reativas, criando algo noco” são completamente estranhas ao marxismo.

Confrontados com a realidade dos movimentos periféricos, os marxistas sempre foram obrigados a ajustar suas teorias. De acordo com o primeiro conceito, as revoluções da burguesia nacional contra o imperialismo, por virem primeirona “agenda histórica”, tinham que ser apoiadas por todas as forças progressistas. O segundo, baseava-se no pressuposto que a burguesia nacional era muito fraca para conduzir sua “própria” revolução e que o proletariado e o “partido de vanguarda” tinham de desempenhar o papel principal desde o início. Basicamente, havia pouca diferença entre os dois conceitos: segundo ambos, as forças sociais por trás da transformação social são levadas a cabo pelo centro, não pelas áreas periféricas.


2. A concepção periférica sobre as forças por trás da transformação social

Anarquismo


A concepção anarquista das forças sociais por trás da transformação social é muito mais geral, bem menos restrita que a fórmula marxista. Diferentemente do marxismo, o anarquismo não concede um papel específico ao proletariado industrial.

Nos escritos anarquistas, encontramos todos os tipos de trabalhadores e de pobres, todos os oprimidos, todos aqueles que, de algum modo, pertencem a grupos ou áreas periféricas e, portanto, constituem fatores potenciais na luta revolucionária pela transformação social.

O “ Aos Jovens” de Kropotkin.

Traduzidas em termos atuais, a predição de Bakunin poderia ser formulada do seguinte modo: nos centros do sistema capitalista, os trabalhadores procuram a transformação social dentro do sistema burguês e procuram beneficiar-se com os resultados do “crescimento” econômico e do consumo em expansão. Nas áreas (ainda) periféricas da sociedade capitalista, todas as classes pobres, que pagam por essa expansão capitalista  e sofrem com ela sem se beneficiarem do processo de crescimento, procurarão formas revolucionárias de transformação social.

IV

A Estratégia Da Transformação Social Revolucionária


1. A organização da luta


Quando aplicamos a terminologia centro-periferia a este antagonismo, os marxistas parecem aderir à política orientada para o centro, isso é, tentam criar um centro político para assumir o poder, e usam os centros existentes de organização e poder político. A perspectiva dos anarquistas é orientada para a periferia. Eles procuram criar uma confederação de unidades básicas autodirigidas que estão unidas por seus conceitos do objetivo último, a luta contra a ordem existente, a futura sociedade, a estratégia e a solidariedade. Todas as escolas de pensamento anarquista partilham esta concepção. Outra característica importante é que a organização da luta já contém os germes da futura sociedade libertária.

Enquanto a concepção marxista advogava o uso de instrumentos e formas de organizações políticas criadas pela burguesia (partido, Estado), os anarquistas argumentavam que o único resultado disso seria que o socialismo seria dominado e vitimado, e não emancipado, por tais instrumentos. Profetizaram que surgiria uma nova classe dominante que reinaria através da coerção e que, por fim, quase não haveria diferença alguma entre a opressão marxista e a burguesia.

Para os anarquistas, não foi uma surpresa que, uma vez no poder, os marxistas e outros partidos de esquerda valeram-se da mesma filosofia básica relativa à transformação social e ao progresso que é encontrada entre os defensores do liberalismo e da livre empresa. Uma vez no poder, estes revolucionários pregam que a transformação social e o progresso somente podem ser realizados pela ordem e pelos novos centros de poder: o partido, o Estado e seus canais oficiais. E nunca por outros meios que não estes canais oficiais!

Novos sistemas centrais como os da Rússia e da Europa Oriental reagirão do mesmo modo e pelos mesmos mecanismos que os sistemas mais antigos reagiram quando confrontados com uma transformação social revolucionária iniciada por grupos periféricos em suas sociedades: a manutenção da lei e da ordem, a opressão e a difamação. Comuna de Paris , e da Revolução Húngara de 1956.

Além do desacordo entre anarquistas e socialistas “políticos” sobre a estratégia a ser seguida, há também a diferença de opinião sobre a natureza do campo de batalha. Para os anarquistas, o campo de batalha é a sociedade como tal; eles inclusive têm recusado a limitar-se exclusivamente ao setor socioeconômico.

Os anarquistas vêm militando em todos os tipos de movimentos que tentaram libertar a sociedade existente das estruturas autoritárias, como os movimentos de liberação da mulher, antimilitaristas, anticolonialistas, pelo livre pensamento, pela livre educação e as “escolas modernas”, pela reforma penitenciária, de direitos humanos etc. Em diversos países, as principais atividades anarquistas desenvolvidas nestes campos tinham forma de “guerrilha” contra toda as facetas da sociedade. Nos movimentos marxistas, a política sempre esteve em primeiro lugar.

2. Mentalidades e valores


A fé marxista num “processo histórico” é tão absoluta quanto a fé anarquista nos valores humanos universais.

Para os anarquistas, o socialismo  e o progresso significam a libertação da sociedade existente, a liberdade para o homem atual. Para os marxistas, a ênfase está na sociedade futura. Acho que uma das razões de o anarquismo  e os movimentos pré-políticos  muitas vezes terem sido tachados de utópicos pode ser atribuída a esta crença numa nova sociedade do outro lado da montanha. Na verdade, as “utopias” dos anarquistas andaluzes, dos zapatistas etc. foram muito realistas. O que acontece é que os observadores intelectuais tendem a esquecer que o céu dos pobres é um céu muito modesto.

V

As Realidades Da Transformação Revoluvionária


1.Revoluções periféricas …


A livre empresa de fato mudou o mundo, mas para a grande maioria da população mundial não parece que tenha havido uma transformação para melhor, no sentido de haver maior grau de bem-estar, maior liberdade ou dignidade humana.

Ao contrário do que Marx predisse, nunca ocorreram revoluçõessocialistas nos centros do capitalismo industrial. Em vez disso, em cada país capitalista que passou do estágio periférico para o de centro, os trabalhadores industriais integraram-se nas sociedades capitalistas e seus partidos e sindicatos que haviam sido revolucionários passaram a ser reformistas.

A criação de muitas formas de organização social autodirigidas, autocontroladas e orientadas para a periferia, como os sovietes na Rússia, as coletivações na Espanha, a democracia direta nas vilas de Morelos, a “autogestão” na Argélia, a autonomia nas vilas vietnamitas etc.

2. …conquistadas por marxistas e centralistas


Uma vez obtida a vitória sobre os velhos inimigos – colonialistas estrangeiros, opressores nacionais, ou ambos – os novos sistemas centrais restauram as relações centro-periferia. Isto está em total acordo com as concepções marxistas, nacionalistas e da esquerda, de que a transformação social tem que ser realizada a partir do centro. Em seguida, o centro destrói as novas estruturas periféricas e órgãos autocontroláveis que surgiram como resultado da luta contra a antiga ordem.

VI

Conclusões


Contudo, os ideais pré-políticos, tal como definidos pela makhnovitchina – “tomar nosso destino em nossas próprias mãos e conduzir nossas vidas de acordo com a nossa vontade e a própria concepção de verdade” – até agora nunca foram realizados.

Os membros da Nova Esquerda pertencem principalmente à categoria mencionada na letra E de minha classificação. O movimento nasceu dentro do centro. Criou uma “área periférica” – a contracultura – por meio de uma escolha deliberada de indivíduos que preferiram “cair fora” da sociedade afluente. Eles não defenderam sua identidade, seus direitos de conduzir suas próprias vidas, eles criaram uma nova identidade, novas maneiras de viver e, ao fazer isso, atacaram os valores orientados para o centro, da sociedade existente.


Notas



E. J. Hobsbawn, Primitive Rebels: studies in archaic form of social movements in the 19th and 20th Centuries. Manchester, 1959, p. 115: “não havia nada mais fácil para o popolino (“povinho”) do que se identificar com a cidade e os governantes. Embora fosse miserável e destituído, não era diretamente explorado pela Corte Bourbon ou papal, mas, ao contrário, era seu parasita, partilhando, embora modestamente, da exploração geral das províncias e dos camponeses por parte da cidade.”


O anarquismo é o nome dado a um princípio ou teoria de vida e conduta, segundo a qual a sociedade é concebida sem governo – a harmonia nesta sociedade é obtida, não pela submissão á lei, ou pela obediência a alguma autoridade, mas pelos acordos livres, obtidos entre os vários grupos, territoriais e profissionais, livremente constituídos para fins de produção e consumo, e também para a satisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado (…).

Eu quis por essa palavra (anarquia), marcar o termo extremo do progresso político. A anarquia é, se posso exprimir-me assim, uma forma de governo, ou constituição, na qual a consciência pública e privada, formada por desenvolvimento da ciência e do direito, é suficiente à manutenção da ordem e à garantia de todas as liberdades em que, por conseqüência, o princípio de autoridade, as instituições de política, os meios de preveção ou repressão, o funcionalismo, o imposto etc., encontram-se reduzidos à sua expressão mais simples (…). (P.-j. Proudhon, Correspondance, XIV, Paris, 1875, p. 32).

(…) o princípio fundamental da anarquia é a garantia da possibilidade do livre desenvolvimento por meio do desafio positivo (solidariedade inteligente) e da eliminação dos obstáculos e da retardação (coação e servidão voluntária)”. (Marx Nettlau, Anarchisten und Sozialrevolutionäre. Die Historische Entwicklung des Anarchismus in der Jahren 1880 – 1886, Berlim, 1931, p.5).

Ver, por exemplo, Eric Wolf, Peasant Wars Of The Twentieth Century, Nova York, 1969, pp. 60 – 61, para descrições de participação igualitária no Mir russo e seu modo de atingir o consenso: “Conseguir a unanimidade produzia um profundo sentido de satisfação e de solidariedade comunal, e os membros da comunidade, reunidos no Mir, dispersavam-se sem que um voto tivesse sido declarado, sem nenhuma comissão formada e, ainda, com o sentimento de que cada homem sabia o que era esperado dele”. (G. Gorer e J. Rickman, The People of Great Russia, Nova York, 1951. p. 223).

A. Gramsci, José Carlos Mariátegui etc. – sempre foram muito não-ortodoxos, e até heréticos em sua época. Todos tinham um interesse forte e positivo por categorias periféricas e movimentos sindicalistas, o que não era absolutamente apreciado por marxistas ortodoxos. “Gramsci exige uma autonomia dos conselhos operários, não só dos sindicatos, mas também do Partido Socialista revolucionário, mesmo se inicialmente os conselhos perdem-se num sindicalismo ‘natural’ e no anarquismo”. (Times Literary Supplement, 24 de agosto de 1967).

Anarchy , A Journal of Anarchist Ideas, nº 3 , maio de 1961:

Os Ibo na Nigéria, os Kikuyu do Quênia e os Tonga da Rodésia são três exemplos de onde já temos a base para uma sociedade fundamentalmente descentralizada.

Nestor Makhno, B. Durruti.

Michael Lerner, “Anarchism and the American Counter-Culture”, in: Anarchism Today, op. cit., p. 59:

Minha observação final é, pois, que – mesmo que a sociedade tecnológica não requeira uma tendência ao anarquismo como a única alternativa à aniquilação ou ao envenenamento – a sociedade tecnológica pode, com suas exigências de trabalhadores altamente qualificados, ajudar a criar homens que necessitam (e sejam capazes) de relações interpessoais e éticas de um tipo diferente.

O argumento é metafísico e tendencioso; mas não absolutamente impossível que a tecnologia participe novamente – como parece ter feito no passado – na transformação dos ciclos da vida dos homens, que então moldam a tecnologia às suas novas necessidades e capacidades. Se a contracultura profetiza, de algum modo, a maneira pela qual se transformarão as necessidades e capacidades, o modelo e os valores anarquistas podem ter mais relações com a forma da sociedade futura do que nós esperávamos.

presos07
Set 12

Chile: Comunidado de Monica Caballero, Presa Anarquista

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

presos07

“A todxs xs insurretxs:

A hegemonia do poder foi colocada em cena no dia 14 de agosto às 7 da manhã, quando efetivos do GOPE ingressaram no lugar onde habito ou habitava, kasa okupada “La Crota”, tirando a cortina da nossa biblioteca, o CDAI (Centro de Documentação Anarquista Itinerante), amarrando-a a um automóvel. Ao escutar o estrondo, pude apenas sair ao pátio onde a polícia, armada até os dentes e com sua prepotência características, me levam. Posteriormente sou levada a uma habitação onde me foram lidas as causas pelas quais fui detida. Dentro do mesmo procedimento me efetuaram um exame nas mãos, onde buscavam traços de explosivos. Tal exame foi feito sem eu estar a par nem me explicarem nada: erro garrafal de minha parte. O mesmo exame foi realizado em duas pessoas que se encontravam em meu amado lar, Vinicio Aguilera e Diego Morales, o qual é a única prova que a polícia possui para nos culpar.
Me despedi de meus companheiros irmãos, cachorrxs e gatxs. Um de meus companheiros de 4 patas jamais deixou de rosnar para a polícia. Não se afastou de nós. Acariciei seu lombo e me dirigiram até a parte dianteira da casa, a biblioteca (CDAI), que estava destruída, como um postal clássico dos regimes totalitários. Neste momento me foram colocadas as algemas que me acompanhariam por várias horas em repetidas ocasiões. Ao sair de meu amado lar, o qual o procurador chamaria de “centro de poder”, a imprensa buscaria a tomada e/ou foto perfeita dos “colocadores de bombas”. Só receberam nosso mais profundo desprezo. Com a cabeça nunca abaixada, aproveitei a ocasião para vociferar uma frase pelxs presxs mapuches, que atualmente se encontram em greve de fome. No automóvel da polícia consegui escutar alguma noticia difusa. Ao chegar à 33ª Delegacia encontrei vários pessoas na mesma situação que eu e com certeza seguiriam chegando outras. Somos 14. O controle de detenção se encontrava cheio de companheirxs, amigxs, familiares, afins, irmãos, os quais assim como nós sentiam a incerteza. Associação Ilícita Terrorista e colocação de artefato explosivo são as acusações que me imputaram. A formalização se realizaria na terça-feira.
Ao sairmos da sala conseguimos escutar os gritos cheios de ira e raiva dxs nossxs companheirxs. Gritos que remexeram o mais profundo e encheram de força para o que vem. Não estamos sós! Suas ações e atitudes me enchem de orgulho!!! A espera pela formalização das acusações foi eterna. Incomunicáveis, sem ver nada de notícias, sem sequer um lápis. Ao chegar o dia no qual o Poder trataria de nos deixar o maior tempo possível na prisão, conseguimos entre as barras e algemas tocar as mãos de nossxs companheirxs e a gritos cruzar alguma palavra.
Na audiência se restringiu a entrada a um familiar por cada acusadx. A Igreja se somava desta vez a Procuradoria Sul e o Ministério do Interior. O procurador Alejandro Peña começou sua verborragia com os fundamentos da acusação de conspiração terrorista (ao qual só existe na sua cabeça). Segundo este, a organização é informal, democrática e horizontal. Nos causou riso ao dizer isto. Tantos anos de investigação para tão complexa resolução? Que precária mentalidade para tão ilustres funcionários. Posteriormente segue com as provas de cada acusadx: elementos como livros, fotos, escritos, escutas telefônicas, PCs, pendrives, vídeos, cartazes e, provavelmente, este mesmo comunicado seriam o sustento de nossa periculosidade. Como se o circo fosse pouco, em um ato maquiavélico e insano do tão respeitado procurador, mostra fotografias de Maurício Morales morto após detonar o artefato explosivo que estava direcionado à escola de carcereiros, em maio de 2009. Buscava nos quebrar, mas só alimentou nosso ódio. Uma grande prova seria a declaração de Gustavo Fuentes Aliaga, vulgo “El Grillo”, traficante que no dia 31 de dezembro de 2008 apunhalava 7 vezes a sua esposa, Candelaria Cortéz-Monroy. Cento e oitenta dias de investigação são os que outorgou o juiz.
Mas já não seríamos 14, mas 8. Seis companheirxs não permaneceriam sequestradxs nas masmorras do capital. Um forte abraço para elxs. Não basta os 4 procuradores e os anos de investigação para buscar novos antecedentes para montar uma artimanha de proposições e assim nos deixar na prisão.
Na atualidade me encontro na SEAS (Sessão de Alta Segurança) do CPF (Centro Penitenciário Feminino) de Santiago. Continuarei com minha dieta vegana. A luta contra a dominação não se negocia até as últimas conseqüências. Orgulhosa do que sou e dos meus, abraço cada gesto de solidariedade e rebeldia. Não me calarão. Ninguém mais que o indivíduo pode e tem que lutar por sua liberdade, nada mais do que movido por seu coração. Que a natureza selvagem proteja os queridos felinos que correm pelos telhados e não chegue uma noite de muitos negros agouros. E a todxs hoje e sempre:
“Nem deus, nem amo”
Com o coração feito merda, mas batendo mais forte que nunca!!!
Pelo fim de toda dominação e exercício de autoridade, procurem que viva a anarquia.

Mónica Caballero, SEAS, CPF, Santiago do $hile. Presx Anarquista.”

(texto livremente retirado do blog da Cambada Levanta Favela, grato irmãos!)