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Mar 26

Fadiga Adrenal – Suas Bases Científicas e o Uso Indiscriminado do Termo

By rafaelreinehr | Guest Post - Convidado Especial

O convidado de hoje na nossa Seção  Guest Post | Convidado Especial é o colega endocrinologista Flávio Cadegiani, que fez um belo trabalho de revisão da literatura sobre FADIGA ADRENAL e irá nos esclarecer alguns pontos polêmicos, que estão sendo espalhados de forma inconsequente e desprovida de base científica em algumas mídias sociais.

Diga lá Cadegiani, o que sabemos, de fato, (e o que ainda não sabemos) sobre a fadiga adrenal? Ao leitor, uma boa leitura. Deixe sua opinião nos comentários.

cansaço, sonolência, fadiga adrenal

FADIGA ADRENAL: de uma vez por todas, uma doença que NÃO EXISTE (da forma como ela é “vista” hoje)

Pessoal, tenho visto nossa publicação sendo motivo de discussões acaloradas no mundo inteiro e de muitas “críticas de (supostos) experts”, por isso venho a público colocar um ponto final sobre a situação.

Antes de mais nada, três dados para a leitura:

1. Para realizar nosso estudo, eu li TODAS as fontes de “adrenal fatigue”, desde o livro mais famoso, do Jim Wilson (Adrenal Fatigue: The 21st Century Stress Syndrome), até o livro do Michael e Dorine Lam (Adrenal Fatigue Syndrome), todas as publicações, encartes, livros “técnicos”, assisti a aulas nos Estados Unidos, de todas as sociedades que clamam pela existência desta suposta doença. E sempre com a cabeça (muito) aberta.

2. Ficou claro que os “grandes críticos” ou não leram, ou não entenderam, ou não quiseram entender (afinal, gera-se uma grande frustração a descontração de uma suposta doença que você tanto propagou; é esperado que se lute até o fim para que ela “permaneça”, apesar de todas as evidências contra).

3. Eu de fato acredito que ainda demoramos muito para diagnosticarmos disfunção ou redução da função das adernais. Por isso, aqui eu convoco a todos os interessados a entenderem como de fato pesquisar essa disfunção, quando desconfiarem que a adrenal é de fato a causa dos sintomas (inclusive convoco a todos os críticos a repensarem sobre isso; afinal a preocupação de ir até o final para solucionar a vida do paciente, acabar com um sofrimento, isso sim grande parte dos meus críticos tem uma real preocupação, e eu os parabenizo por isso).

Análise crítica dos estudos científicos

Então vamos tratar de alguns aspectos que foram “duramente criticados” (injustamente, por mera falta de leitura ou de compreensão), e como nós nos cercamos de todos os lados para não dar espaço para as críticas (para aqueles que de fato lerem com imparcialidade):

1. Nós não fomos apenas atrás do diagnóstico de insuficiência adrenal tal como visto pela endocrinologia. Se fosse assim, não teríamos encontrado nada. Pelo contrário, nós fomos atrás de absolutamente todas as formas, inclusive aquelas não oficialmente reconhecidas pelas sociedades de Endocrinologia, que designasse em algum aspecto redução da função adrenal, ou então “cansaço” ou então “fadiga” das adrenais, e aceitamos todos, mas todos os métodos propostos para tentar avaliar, incluindo os “mais exóticos”. Não foi a toa que conseguimos encontrar quase 3.500 artigos, e conseguimos selecionar 58 desses estudos, apesar de os grandes “apoiadores da doença” não serem exatamente “academicistas” (ok, concordo que a academia as vezes é muito conservadora, e por isso estou aqui! hehe). Por isso, saibam, o que tinha falando de redução adrenal ou qualquer coisa que pudesse vir a ser fadiga adrenal, nós colocamos, e não só “Doença de Addison”. Afinal, “fadiga adrenal”, como os próprios livros & textos & aulas & palestras clamam, gera disfunção, resposta anômala, perda do ritmo, e redução da responsividade das adrenais. Fomos muito abertos a encontrar dados, porque achamos no mínimo precoce a The Endocrine Society soltar uma nota falando que “fadiga adrenal” não existe sem antes fazer uma pesquisa ampla.

2. Encontramos muitos marcadores alterados de função adrenal. Sim, encontramos! Métodos distintos dos preconizados pela Endocrinologia, mas se os autores mostraram resultados significativamente diferentes entre “fadigados” e “não fadigados”, não podemos ignorar essa alteração. Contudo, porém, associação NÃO MOSTRA CAUSALIDADE (uma lógica simples e intuitiva do pensamento científico). Ou seja, o fato de encontramos um cortisol salivar alterado, por exemplo, não significa que a adrenal seja a culpada do problema; ela pode ser, e normalmente é, uma consequência de uma alteração. E você trata a consequência ou a real causa?

3. Um erro sistemático dos trabalhos e também um equívoco muito comum da medicina que foge do padrão mais elevado é esquecer (de propósito?) que um sintoma pode ser decorrente de muitas doenças. Isso se chama diagnósticos diferenciais. Só que na fadiga, o diagnóstico induzido por sites e livros funciona assim: “você tem fadiga? etc? etc? então você deve ter fadiga adrenal!” como se não houvesse outras patologias que levassem a esses sintomas. Aliás, quando um sintoma dá o diagnóstico de uma doença, chamamos de patognomônico, é de extrema valia para a medicina porque ajuda a diagnosticar, só que infelizmente não é comum. Aí, os trabalhos esqueciam que “precisam excluir outras causas”. E pasmem, fadiga tem mais de 200 diagnósticos possíveis! Por que só a adrenal (a glândula da conspiração) leva a culpa?

Cortisol Awakening Response

4. Um grande achado foi um Cortisol Awakening Response (CAR – resposta do cortisol ao acordar) reduzido em fadigados. Aí todos os que estudaram um pouco mais usam esse método, ou do ritmo de cortisol salivar (eu me recuso a discutir sobre o uso de cortisol sérico basal para diagnóstico, porque absolutamente nenhum trabalho mostrou correlação). Só que existe um detalhe importantíssimo que invalida completamente esse método. O CAR é a resposta de cortisol ao despertar, que deveria fisiologicamente aumentar algo como 30% a 70% nos 30 a 60 minutos seguintes ao despertar. Só que quem dorme mal já acorda com o cortisol mais elevado, e com isso, esse “aumento fisiológico” não ocorre porque ele já acordou com o cortisol mais alto; além disso, em termos percentuais, mesmo que se tenha um aumento, como o cortisol ao despertar já está mais alto, atingir um aumento proporcional de 30% ou mais (afinal, o aumento em percentual de aumento depende dos níveis absolutos do cortisol ao despertar) é quase impraticável. Mas aí um erro muito claro: quem é o culpado, a adrenal (as adernais) ou a má qualidade do sono? E aí, quem você precisa tratar?

5. Corticoides, mesmo em doses baixas, dão sensação de bem estar em qualquer pessoa. Por isso, costuma satisfazer o paciente do médico que o prescreve, porque este já se sente melhor no curto prazo, com ou sem problema nas adrenais. Só que existem consequências, como doenças do coração, obesidade, diabetes e fraturas, mesmo em doses baixas, como eu coloquei no estudo. E como ele melhora qualquer pessoa, ele não funciona como teste terapêutico (do tipo: tá vendo como suas adrenais eram o problema? afinal, você melhorou repondo o cortisol!), mas funciona como uma ótima ferramenta de marketing médico (viu como te ajudei a melhorar?).

6. Voltando à relação de causa, absolutamente nenhum trabalho foi capaz de mostrar que a adrenal era de fato a causa da fadiga e dos sintomas, dos 58 que investigamos. Por isso, NINGUÉM PODE AFIRMAR QUE FADIGA ADRENAL EXISTE. Simples assim.

7. Porém, isso não impede de usar o CAR, por exemplo, como marcador de melhora. Então, eventualmente, em um paciente com o CAR reduzido, melhorando-se o aspecto do sono, manejo do estresse, etc, e este apresentando um aumento do CAR, significa sim que ele provavelmente apresentou melhora da função adrenal como resposta à melhora do sono e à melhora global (vejam, mais uma vez, as adrenais como consequência, e não causa, dos problemas e dos sintomas).

E o cansaço excessivo? Posso usar corticoides?

8. De fato um cortisol mais baixo pode estar associado a mais cansaço (no caso extremo, a insuficiência adrenal clínica, o cansaço é uma característica chave). Porém, mais uma vez, a falha de resposta adrenal é uma consequência de desajustes, e não causa dos problemas. A boa medicina corrige o que gerou o problema, e não o reflexo deste problema. Por isso, recomendo tratar o que gera a “disfunção adrenal”.

9. Os suplementos do “adrenal support” ou “suporte adrenal” que NÃO TENHAM CORTICOIDE podem eventualmente ajudar na regularização do ciclo sono-vigília, do estresse, etc, e se estes cursarem com melhora das respostas adrenais, não vejo impedimento algum para usa-las. Afinal, se o paciente melhorar com algum tratamento que não tenha riscos e que não “artificialize” o funcionamento hormonal do corpo, ou que não deixe o corpo funcionando somente a base de hormônios externos, mesmo que “naturais” ou “bioidênticos”, é muito melhor (até para não criar dependência dos hormônios).

10. Ok, concordo que nós da endocrinologia por vezes esperamos demais para diagnosticar insuficiência adrenal (ou “fadiga adrenal extrema” ou qualquer expressão que usem para designar redução de função adrenal). Mas existem métodos adequados e comprovados para demonstrar problemas na adrenal (vejam que eu fujo do que me clamam por buscar “somente a insuficiência adrenal da Endocrinologia retrógrada” – que jeito horrível de nos chamar, até porque me acho super moderno hehehe) antes da insuficiência franca e grave das adrenais, e mostrando que as adernais são de fato CAUSA do problema (que aí sim merecem ser tratadas). Aqui cabe um outro artigo enorme para discorrer sobre as formas de diagnóstico.

11. Em resumo, não adianta, qualquer ladainha que venha em forma de crítica em tudo que já vi e ouvi após nossa publicação (até carta pro editor, que obviamente não deu em nada, porque não existe justificativa plausível) não invalida nosso trabalho; aliás, só fortalece o que fizemos. E nós fomos fundo, abertos a aprender (e eu confesso que aprendi, e muito). Agora, sejam científicos de fato, questionem, e não sejam levados por puro marketing e poder de oratória. E não é porque concordamos em alguns aspectos com determinado profissional (ou palestrante, ou autor de livro) que precisamos seguir cegamente a todas suas recomendações.

Conclusão

Sejam vocês mesmos. Usem o melhor de cada informação que vocês obtém, mas sempre questionem, seja quem for. A Endocrinologia clássica, ou melhor, científica, é de longe a que mais estuda, a com melhor embasamento de fato, a que traz as verdadeiras respostas e a que resolve os problemas quando eles realmente existem. Concordo que precisa melhorar em alguns aspectos, principalmente no tratamento baseado no paciente, e não no guideline ou no médico, mas isso é uma questão de tempo.

Um grande abraço a todos!

Dr. Flávio A. Cadegiani, M.D., PhD in progress

Médico Endocrinologista e Metabologista / Endocrinologist (RQE 12.397)

Título de Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM / Board Certified in Endocrinology and Metabolism by the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism

Mestre e Doutorando em Endocrinologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo / Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM) / Master Degree and PhD in progress in Clinical Endocrinology at Federal University of São Paulo

Residência Médica em Endocrinologia e Metabologia / Fellowship in Endocrinology and Metabolism

Residência Médica em Medicina Interna / Medical residency in Internal Medicine (RQE 12.397)

Pós-graduação em nutrologia (ABRAN) / Specialization in Medical Nutrition

Formado pela Universidade de Brasília (UnB) / Graduated by University of Brasilia (UnB)

Fellowship em Síndrome da Fadiga Crônica pela University of Miami (UM) / Fellowship in Chronic Fatigue Syndrome – University of Miami (UM)

Membro especialista da The Endocrine Society (Endocrine Society) / Specialist member of The Endocrine Society

Membro especialista da AACE (American Association of Clinical Endocrinologists) / Specialist member of the American Association of Clinical Endocrinologists

Membro especialista da TOS (The Obesity Society) / Specialist member of The Obesity Society (TOS)

Membro da ABESO (Associação Brasileira para Estudos da Obesidade) / Member of Brazilian Association for Obesity Studies)

Médico CRM/DF 16.219 / CREMESP 160.400

O que é RQE?

RQE é o registro, perante os conselhos regional e federal de medicina, que atestam sua especialidade como verdadeira, seja ela por residência médica ou por prova de título de especialista, ou por ambas, a depender da especialidade. Este é o número que garante que seu médico é especialista de verdade na área que você busca. Os QREs estão disponíveis nos sites dos CRMs e do CFM.

Saiba mais sobre o que é ser um Endocrinologista neste link.

Artigo do Dr. Frederico Lobo sobre Fadiga Adrenal

Nota de Esclarecimento da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia sobre Fadiga Adrenal

pathways-to-utopia4125
Jan 01

Eu tive um sonho…

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

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Uma das melhores coisas que podemos ter na vida é começar o ano rodeado de amigos. Melhor ainda é quando conseguimos prolongar este momento que dura horas para dias, meses anos. Estar cercado de amigos, pessoas com interesses afins, pessoas capazes de ouvir e dialogar de forma humana e inteligente, é uma dádiva pela qual devemos ser gratos.

Entre as pessoas que estão recebendo esta mensagem hoje, encontram-se amigas e amigos de vários momentos e com várias histórias de diferentes entrelaçamentos: alguns que já conheço de longa data, outros com os quais já tomei café da manhã, outros ainda cujas ideias e feitos só conheço através do mundo da internet, alguns com os quais já compartilhei jornadas megalomaníacas, outros com os quais ainda não me atrevi a co-criar…

Todos, entretanto, creio eu, compartilham comigo de um sonho. Muitas vezes as palavras, as imagens, os símbolos e os caminhos que descrevemos neste sonho são diferentes, mas não divergentes. Todos convergem para um ponto em comum: o bem-estar e a felicidade da humanidade.

Há algum tempo me dedico a estudar o homem, sua constituição, suas necessidades, seus desejos, suas decisões e as implicações das mesmas para si, aqueles que o rodeiam e a Natureza. Talvez isso tenha começado, de forma ainda inconsciente, durante o curso de Medicina, na década de 90. Mas não foi aí que este estudo mais se desenvolveu, propriamente. Nossos cursos universitários servem para formar técnicos-científicos e não humanos sensíveis ao ambiente que nos cerca. Foram outros estímulos, outras leituras e exemplos, oriundos da autodeterminação em querer conhecer mais, saber mais, que me levaram a estudar o que é do humano. Mas não vou me delongar, afinal este não é pra ser um monólogo e sim o começo de um diálogo.

Vou falar de um sonho que tive, e que quero compartilhar com cada um de vocês, minhas amigas e amigos que, por acaso ou destino, cruzaram comigo nesse exato instante e espaço no Universo. Esse sonho fala de um porvir que só podemos, por enquanto, imaginar. Em termos comuns, fala de uma Utopia. Utopia, como diz Berri, que nos serve para que não deixemos de caminhar (1).

Nesse sonho, estávamos Eu e Tu, um de frente para o outro, e conversávamos. Isso mesmo, conversávamos face a face, sem a mediação de nenhum equipamento tecnológico. Resolvemos deixá-los em casa, apesar de gostar muito deles, pois queríamos uma conversa "à moda antiga". Enquanto um falava, o outro ouvia atentamente. Respondíamos empaticamente, mostrando que realmente estávamos sintonizados na mesma freqüência. Sabíamos que, se algum tipo de resistência ou mudança iria acontecer, seria assim: através de relações horizontais permeadas por um profundo respeito e apoio mútuo.

Nesse sonho, lembrávamo-nos como a humanidade percorreu mais de 2 milhões de anos vivendo de forma cooperativa e sustentável, da caça e da coleta, sem divisão do trabalho entre os sexos. Uma nostalgia ingênua e rápida, que apenas nos remete a um mundo idílico que, sabemos não voltaria mais. Se não voltaríamos à idade das cavernas, talvez pudéssemos, isso sim, passar a usar melhor a tecnologia que desenvolvemos nesses milhares de anos, e cada vez mais intensamente nas últimas décadas. Talvez pudéssemos desenvolver um modelo ainda não completamente desenhado, capaz de nos fazer retomar nossa humanidade. Pudéssemos, quem sabe, começar a desvelar hoje um horizonte bio-ético-político-econômico-social-espiritual ainda não completamente teorizado tampouco conscientemente praticado, em escala suficiente para gerar uma mudança significativa em nossa sociedade.

Percebíamos, neste sonho, que as pessoas ao nosso redor passavam cada vez mais a expressar um desejo por uma autonomia que pudesse ser realizada de forma associativa, cooperativa, e que a emergência aqui e acolá de movimentos que não só protestam contra a miséria de nossas vidas, mas alegremente afirmam a possibilidade de uma vida radicalmente diferente já eram sinais inconfundíveis de que este horizonte que pretendíamos desvelar está cada vez mais pronto para ser apreciado.

Sabíamos, em nosso sonho, que um dos nossos principais papéis era ajudar a desenvolver esta consciência coletiva, através da criação, aperfeiçoamento e implantação de modelos, ferramentas e atitudes capazes de moldar a realidade atual de acordo com nossas necessidades e desejos.

Tínhamos então declarado um objetivo comum:

 

"Fazer o mundo funcionar para 100% da humanidade no menor tempo possível através da cooperação espontânea sem ofensa ecológica ou desvantagens para qualquer um." (2)

 

Sentíamos que não precisaríamos bater de frente com os poderes já estabelecidos, pois estes possuem uma força esmagadora, que poderia acabar com nossos intentos. Poderíamos, isso sim, criar um mecanismo misto de resistência e criação de alternativas (3). Poderíamos criar um desvio no fluxo do rio, cavando um outro leito, construído com a ajuda de todos aqueles que acreditassem em nosso sonho.

Sabíamos também que nem todas as verdades já estariam escritas, quando começássemos a trilhar nosso caminho.

 

"Caminhos nunca são linhas retas. Eles ziguezagueiam, sobem e descem colinas e vales. Eles chegam a becos sem fim. Mas quando colocamos nosso melhor pé adiante, podemos nos aventurar na direção da utopia, em direção a um mundo que venha de baixo, para todos e por todos.

 

Com grande cuidado encontramos pedras nas quais podemos pisar para os destinos mais maravilhosos. Então nos esforçamos para emendar paisagens inteiras de práticas não-hierárquicas. Chutamos os vidros quebrados do nosso caminho. Às vezes nos perdemos. Mas a passagem precária em si mesma é um mapa para uma sociedade liberadora.

 

Nos damos as mãos, desejando atravessar novamente, de um jeito novo. Quando a escuridão desce, construimos acampamentos de fogo a partir das fagulhas da possibilidade, e vemos outras chamas à distância." (4)

 

Sabíamos principalmente, em nosso sonho, que a mudança que esperávamos co-construir viria de um trabalho continuado, cooperativo, de centenas de milhares de pessoas, ao longo de um período prolongado de tempo. Mas sabíamos também que seria divertido e enriquecedor trilhar esse caminho, juntos.

 

"A mudança revolucionária não vem como um momento cataclísmico… mas como uma sucessão sem fim de surpresas, movendo-se em zigue-zague em direção a uma sociedade mais decente. Não temos que nos engajar em grandes e heróicas ações para participar do processo de mudança. Pequenos atos, quando multiplicados por milhões de pessoas, podem transformar o mundo.

 

Mesmo se não "vencermos", existe diversão e preenchimento no fato de estarmos envolvidos, com outras pessoas boas, em algo que vale a pena. Nós precisamos de esperança. Um otimista não é necessariamente um indiferente, um cantarolador levemente sentimental no meio da escuridão do nosso tempo. Pois ter esperança em tempos ruins não é apenas romantismo bobo. É basear-se no fato de que a história humana é uma história de crueldade, mas também de compaixão, sacrifício, coragem e bondade. O que escolhemos enfatizar nesta complexa história é que irá determinar nossas vidas." (5)

 

E assim acordei. O engraçado é que acordei mas o sonho não foi embora: ele estava ali, presente, gritando e pedindo, como urgência visceral, que eu o ajudasse a se tornar realidade. E aqui estou eu, cercado de pessoas pra lá de especiais, com as quais gostaria de compartilhar este sonho e, muito mais do que isso, gostaria que me deixassem compartilhar dos seus sonhos.

Em virtude disso, pergunto:

O que você, que está lendo este texto agora, e que estou chamando para compor este sonho comigo, acrescentaria de seu para que este sonho seja um sonho ao mesmo tempo comum e completamente seu?

 

Um abraço fraterno e ótimo caminhar pelas sendas de 2014…

Rafael Reinehr

 

Referências:

 

(1) Fernando Berri – "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar"

(2) R. Buckminster Fuller

(3) R. Buckminster Fuller – "Você nunca muda a realidade lutando contra ela. Para mudar algo você cria um novo modelo que torna o modelo existente obsoleto."

 

(4) trecho retirado de Paths toward Utopia, com ilustrações de Erik Ruin e palavras de Cindy Milstein

(5) Howard Zinn, em O Otimismo da Incerteza – este texto continua assim: "Se virmos apenas o pior, ele destrói nossa capacidade de fazer algo. Se lembrarmos daqueles tempos e lugares – e existem tantos – em que as pessoas se comportaram de forma magnífica, isso nos dá energia para agir, e ao menos a possibilidade de mandar esse topo giratório do mundo em uma direção diferente. E se nós agirmos, mesmo de uma forma pequena, nós não precisaremos esperar por um grande e utópico futuro. O futuro é uma sucessão infinita de presentes, e viver agora da forma que acreditamos que os seres humanos devem agir, em oposição a tudo que existe de tuim ao nosso redor, já é por si uma vitória maravilhosa."

(texto preparado para o grupo Lux, do Tao – grupo de amigos dedicado a "Fazer o mundo funcionar para 100% da humanidade no menor tempo possível através da cooperação espontânea sem ofensa ecológica ou desvantagens para qualquer um, e publicado orignalmente em Primeiro de Janeiro de 2012" )

Nov 25

Economia Profunda, Fortaleza, Amizade e Felicidade

By Rafael Reinehr | Nonsense

É tão bom escrever em uma tela de 21 polegadas, sentado em uma cadeira confortável, em uma sala climatizada, com boas perspectivas para o futuro e com atucanações que, em geral, são resolvidas a contento…

Apesar da grande carga de trabalho, tenho conseguido ler bastante. Tenho aproveitado horários de almoço, intervalos de consulta, momentos de viagens, idas ao banheiro… Uma das minhas leituras mais recentes, Deep Economy – The Wealth of Communities and The Durable Future, de Bill McKibben, aprofundou meus próprios insights sobre o mundo, o consumo e a sustentabilidade de nossas maneiras e de nossa Natureza.  É um livro que fornece exemplos suficientes sobre o que é, e sobre como deveria e poderia ser o mundo se fizessemos escolhas diferentes (melhores) do que as atuais.

Apesar de certamente não me encaixar entre as pessoas mais consumistas da face da terra, tenho sim um desejo de conforto e de extrair prazer dos frutos do trabalho (dinheiro) que, de sol a sol (ou no caso, de fluorescente compacta a fluorescente compacta) tenho colhido.

A noção de pegada ecológica já me é familiar há um bom tempo, e creio que seja extremamente válida para avaliar nossa relação com o mundo. Saber se tiramos mais ou se repomos mais (é raríssimo encontrar um ocidental que repõe mais do que tira da Natureza). É importante saber o impacto que temos e também é importante saber se somos ou não afetados moralmente pelo impacto que causamos. Posso dizer, sem medo, que gosto mais das pessoas que se importam. Pessoas que, com humildade, reconhecem que poderiam estar fazendo melhor. Tento me afastar das que não reconhecem o fato de que estamos todos conectados e que hábitos somente “extrativistas” (tirar do meio sem se preocupar em repor) tendem a extinguir o que conhecemos como natural e, em muitos casos, levam à extinsão de possibilidades, biodisponibilidades e biodiversidades.

Mas o papo é longo. Vim aqui só pra dizer que voltei, em meio a um delicioso Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes em Fortaleza e à confecção de meu livro sobre Qualidade de Vida, Bem-Estar e Felicidade, por aqui darei as caras de quando em vez. Semanalmente pelo menos, assim espero.

E estou com saudades dos amigos leitores e blogueiros. Não pensem que este que vos fala não se lembra de cada um que comentou aqui recentemente ou mesmo em tempos idos. Estão todos guardados no meu coração e na minha memória.

Out 24

A personalidade e o valor como contributos para a felicidade – Arthur Shopenhauer

By Rafael Reinehr | Entre Aspas

“Importa menos saber o que ocorre e sucede a alguém na vida, do que a maneira como ele o sente, portanto, o tipo e o grau da sua susceptibilidade sob todos os aspectos. O que alguém é e tem em si mesmo, ou seja, a personalidade e o seu valor, é o único contributo imediato para a sua felicidade e para o seu bem-estar”

Arthur Schopenhauer

namaste
Ago 31

Namastê!

By Rafael Reinehr | Estudos Sobre Filosofia Oriental

namasteNamastê ou namasté (em sânscrito: नमस्ते, [nʌmʌsˈteː]) é um cumprimento ou saudação falada, bastante comum no Sul da Ásia. Namaskar é considerado uma forma ligeiramente mais formal, mas ambas as expressões expressam um grande sentimento de respeito.

Utiliza-se na Índia e no Nepal por hindus, sikhs, jainistas e budistas. Nas culturas indianas e nepalesas, a palavra é dita no início de uma comunicação verbal ou escrita. Contudo, o gesto feito com as mãos dobradas é feito sem ser acompanhado de palavras quando se despede. Na ioga, namaste é algo que se dirá ao instrutor e que, nessa situação, significa “sou o seu humilde criado”.

Literalmente significa “curvo-me perante ti”; a palavra provém do sânscrito namas, “curvar-se”, “fazer uma saudação reverencial”, e (te), “te”.

Quando dito a outra pessoa, é normalmente acompanhada de uma ligeira vénia feita com as duas mãos pressionadas juntas, as palmas tocando-se e os dedos apontando para cima, no centro do peito. O gesto também pode ser realizado em silêncio, contendo o mesmo significado. É a forma mais digna de cumprimento de um ser humano para outro.

Quando dito a outra pessoa, também poderá significar: “O Deus que há em mim saúda o Deus que há em ti”.

(Não costumo fazer copy & paste, mas o texto acima foi extraído, na íntegra, desta página da Wikipedia em 31/08/2009)

A foto ao lado representa o típico gesto de unir as mãos e se reclinar levemente como forma de respeito, nas despedidas. Ah, no mundo ocidental de hoje, imaginar estes atos acontecendo com significado… Mas, como disse Gandhi e eu não canso de repetir, “Seja a mudança que você quer ver no mundo.”