Tudoteca: um Espaço de Convivência, Compartilhamento e Cooperação

Imagine se você não precisasse mais se preocupar em trabalhar para juntar dinheiro para comprar coisas, e você as tivesse à sua disposição, quando precisasse, próximo da sua casa, pelo tempo que você precisar, a uma fração do custo de adquiri-la. E, mesmo que você não tivesse dinheiro, você também pudesse usufruir destas “coisas” que você necessita?

Então, isso já é possível, dentro do conceito de Tudoteca.

A Tudoteca é uma ideia que tive lá pelos idos de 2007-2008 e foi inspirada em dois conceitos: o de Cohousing (que também me inspirou a criar a Coolmeia, naqueles anos) e o conceito de Tool Library, que vim a conhecer lá por 2011-12, e ajudou a aperfeiçoar o modelo da Tudoteca.

Bem, e o que é exatamente, para quê serve e como funciona essa tal de Tudoteca? Explico. Pega um café, suco, água, mate gelado ou um chimarrão e presta atenção vivente, que a história é boa de se ouvir!

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In Boulder, Colorado the Tool Library looks much like a hardware store and even rents out tools to contractors to help subsidize rental costs and membership fees for the general public.

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Imagine um lugar no qual você possa pegar emprestado “quase” qualquer utensílio de uso eventual para sua casa, local de trabalho, viagem, festa… Um local no qual estariam disponíveis para empréstimo desde ferramentas de uso eventual como furadeiras, serras elétricas, escadas de vários tamanhos, aspiradores de pó, lava-jatos portáteis, ferramentas de mão como martelos, serrotes, chaves de fenda, de boca, alicates, tornos… Além disso você poderia pegar emprestado louças, talheres, copos e toalhas de mesa para aquela festa de formatura do seu filho ou aniversário da sua filha (que se fossem alugados custariam os olhos da cara!)… E você também poderia pegar emprestados livros, revistas, CDs, DVDs, roupas, um freezer, frigobar, chaleiras, liquidificadores, microondas, forno elétrico, batedeira, panificadora… Quer acampar? Para quê comprar se você pode pegar emprestada uma barraca, lanterna, uma churrasqueira portátil, um par de rádio-transmissores de longo alcance, varas de pescar…

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Padarias-comunitarias

Nesse mesmo espaço, encontraríamos também uma padaria comunitária, na qual os membros do coletivo que irá autogerir a Tudoteca se revezariam na produção, distribuição e eventual comercialização do excedente lá produzido. Poderíamos também ter um refeitório ou restaurante comunitário, que ofereceria refeições produzidas com alimentos orgânicos produzidos por pequenos agricultores das redondezas. O mesmo sistema de rodízio e escala de trabalho aqui também se aplicaria. E que tal um café funcionando no mesmo espaço, o dia inteiro, para quem está de passagem e quer encontrar um amigo enquanto lê um livro ou escuta uma música na vitrola que está à disposição dos associados?

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E se, além disso, na Tudoteca também tivesse uma lavanderia coletiva, em que as máquinas pudessem ser usadas em troca de alguns “pontos de crédito” dos associados? E, ainda mais, se tivéssemos uma pequena Brinquedoteca para as crianças poderem se divertir enquanto os pais trabalham ou circulam pela Tudoteca?

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Não seria macanudo tudo isso num mesmo lugar, agradável, aconchegante e efervescente cultural e socialmente, recebendo vez ou outra oficinas, seminários, rodas de conversa, encontros de aprendizagem informais, apresentações musicais e artísticas, saraus, cineclubes, fotoclubes, green drinks, pecha kucha nights, stand ups?

E o mais legal de tudo isso: poderia participar quem tem grana, quem tem coisas sobrando e mesmo quem não tem grana nenhuma, só um pouco de tempo para trocar. Como assim? Explico:

Tudoteca, para se tornar sustentável, funcionaria como uma associação horizontal e autogerida.

Opção 1: Se você tem grana, você paga digamos 39,90 ao mês por 300 créditos, 59,90 por mês por 500 créditos ou 79,90 por mês por 800 créditos e pode trocar estes créditos por X dias dos produtos W, Y e Z que você precisa naquele mês. Se não quer pagar mensalidade, você pode se associar e, por cada 1 real você comprar 5 créditos para poder emprestar algum bem ou serviço determinado (digamos que você só está na Tudoteca pelo maravilhoso pão de arroz integral sem glúten que a Daiane faz…)

Opção 2: Se você não tem grana, mas tem “coisas” que estão paradas na sua casa, você pode doar estas coisas para a Tudoteca – por exemplo uma parafusadeira, uma guitarra e um amplificador que você não toca mais, um jogo Banco Imobiliário e 2 decks de Super Trunfo e um secador de cabelo que sua ex-namorada esqueceu no seu apartamento – e em troca delas, você ganha créditos e passa a usá-los para emprestar coisas das quais você realmente precisa.

Opção 3: Tá! Mas eu não tenho grana e também não tenho nada para doar. Sou um estudante universitário pé-rapado, sou morador de rua, tenho um emprego que mal dá pra sustentar minha família. E agora. Preciso de uma furadeira só por um dia pra consertar algumas coisas lá em casa. Neste caso, você pode oferecer algo que todos seres vivos (enquanto vivos) temos: tempo! Você pode oferecer um sábado pela manhã da sua vida para ajudar a alcançar os objetos para quem for na Tudoteca pegá-los, pode ajudar na padaria ou no restaurante comunitários, pode ajudar na limpeza, buscando nossos hortifrutigranjeiros orgânicos ou mesmo cuidando das crianças na Brinquedoteca. Em troca do seu tempo, você ganha os créditos que você vai trocar pelo que você quiser. Sempre que eles acabarem, não tem problema: só oferecer o seu tempo novamente!

Ei, mas espera aí! Vai ter gente trabalhando na Tudoteca em troca de créditos e depois vai vender por fora para ganhar uns trocos. Mercado Negro! Pode isso? Sabe que só pensei nisso agora, nesse exato instante? Eu, Rafael, não vejo problema nisso. Mas e o resto das pessoas do coletivo, o que pensam? Acho que esse é um dos assuntos que deve ser deliberado coletivamente, bem como outros detalhes que devem ser registrados em uma Carta de Princípio e em uma Bases da Unidade (que também podemos chamar de Termos de Uso) da Tudoteca.

Tá, e essa grana que vai entrar na Tudoteca, pra quê serve? Vai enriquecer alguém? Nããão! O dinheiro que entrar será usado em parte para consertar e repor equipamentos, peças e ampliar o acervo de bens e serviços da Tudoteca, uma parte será reservada na forma de um Fundo de Emergência para os Associados, em caso de catástrofes naturais ou épocas de crise (estão vendo as nuvens negras da tempestade se aproximando no horizonte?) e uma parte será reservada para um Fundo de Multiplicação de Tudotecas, para criar a Tudoteca 2, a Tudoteca 3, a Tudoteca 4 e assim por diante, nas comunidades que forem se apresentando e demonstrando desejo de possuir uma na vizinhança.

E aí? Gostou da ideia? Supimpa né? Valeu, obrigado! Também acho! 🙂

Ah! tem outras ideias que já foram desenvolvidas pensando na expansão e no “espalhamento” de Tudotecas por todos os cantos do Brasil e do Mundo.

Quer saber quais são elas e fazer parte do time que vai planejar a instalação da primeira Tudoteca no Brasil? Coloca teu nome e e-mail aí embaixo que entramos em contato!

Agora, se você se empolgou de verdade e quer fazer parte do time que vai fazer as Tudotecas se espalharem pelo mundo, vá direto para o nosso Mapeamento de Ativos e Necessidades e apresente-se!

 

Como resolver nossos problemas de forma holística?

Os problemas que afetam as comunidades raramente aparecem de apenas uma fonte. É impossível, por exemplo, isolar uma causa de declínio das notas de uma turma de alunos em provas nacionais. O sucesso das crianças depende não apenas do material que elas estudam e como eles são ensinados, mas também se elas tem os livros e computadores de que precisam (um problema relacionado ao financiamento governamental), se elas tem um bom café da manhã e se sentem seguras em casa (um problema relacionado ao bem-estar e segurança econômica), e se elas se sentem saudáveis e cheias de energia (um problema relacionado ao acesso a cuidados de saúde). Se nós atendermos apenas a um desses fatores, podemos estar colocando um curativo no problema, mas não o iremos resolver.

Para firmar o tecido que constitui nossas comunidades, precisamos puxar todos os fios ao mesmo tempo: empoderar as gerações mais jovens, dar suporte às famílias, promover a educação, melhorar os cuidados à saúde e proteger a segurança da vizinhança. Ao redor do mundo, existem exemplos fabulosos de comunidades que adotaram uma abordagem holística para melhorar seus desafios. Quase sem exceção, tais abordagens tocam mais pessoas e produzem mais resultados do que foram projetados para resolver.

Baseado nessa premissa, você possui exemplos de situações nas quais uma abordagem holística conseguiu modificar o rumo de comunidades no Brasil ou no mundo? O que você pensa acerca desta possibilidade, desta abordagem?

Para participar desta discussão, dê um pulinho lá no OPS! Debate, clicando no link a seguir: http://opensadorselvagem.org/forum/5-verao-de-2010-11/100-como-resolver-nossos-problemas-de-forma-holistica

Desafio por um Mundo mais Verde e Solidário

A Coolmeia lançou hoje um desafio que gostaríamos muito que você, caro leitor, abraçasse.

ATENÇÃO: ESTA É UMA EXPERIÊNCIA DE INTEGRAÇÃO REAL, E NÃO VIRTUAL.

Boca a BocaA Coolmeia, Ideias em Cooperação é uma iniciativa de base social e ecológica que visa produzir o maior número de benefícios ao maior número de pessoas possível, sem esquecer a sustentabilidade. Como benefícios, entendemos saúde, acesso à água potável, moradia confortável, trabalho e remuneração dignas, consumo consciente de bens e serviços, uso de tecnologias verdes, inclusão social e digital, educação de qualidade, microcréditos, desenvolvimento local, enfim, condições que levem os indivíduos a uma vida plena em harmonia com o ambiente físico e social que os cerca.

Partindo deste pressuposto, precisamos comunicar nossas intenções e trazer para abraçar nossa causa – que certamente é a de muitos – o maior número de pessoas possível. Para tanto, escolhemos (nem tão arbitrariamente assim) o número de 180 mil pessoas como um número de pessoas suficientes para iniciar uma massa crítica, uma rede de indivíduos genuinamente preocupados em melhorar a vida do local onde moram, das condições de trabalho que exercem ou daqueles à sua volta e assim por diante.

O desafio é o seguinte: nas próximas 6 semanas, vamos trazer para a comunidade da Coolmeia 182 mil pessoas (cerca de 0,1% da população do Brasil), dentre nossos amigos, familiares, colegas de trabalho, de Igreja, da academia, de nossa vivência enfim. Um detalhe: NÃO VALE CONVIDAR PELA INTERNET! (com exceção deste texto de apresentação do Desafio)

Eis o Desafio:

Passo 1: Cada pessoa que aceitar o desafio se cadastra na Coolmeia (http://coolmeia.ning.com) e se compromete consigo mesmo a trazer para a Comunidade 3 pessoas do seu círculo de relacionamento. É interessante que esta pessoa seja alguém que já trabalhe com alguma causa social, ecológica ou de cidadania ou que, pelo menos, tenha interesse no assunto. Detalhe: você deve se comprometer a fazer isso em 1 semana a contar de quando você ler este texto.

Passo 2: Ao convidar esta pessoa, você também deve colher dela o compromisso de que ela deve trazer consigo mais 3 pessoas do círculo de relacionamento dela, com as mesmas características acima, ou seja, uma pessoa altruísta, com coração generoso e preocupada com a sociedade ou o ambiente. Detalhe: ela deve se comprometer a trazer 3 pessoas através de contatos reais (pessoas do trabalho, da escola, da Igreja, da Associação de Bairro, da ONG, da família) em uma semana, através de um convite AO VIVO, não por e-mail!

Desta forma, teremos a seguinte evolução (prevista) no número de membros:

Hoje: 250 (09/07/2009 – 13horas e 10minutos)
Fim da Semana 1: 750 (16/07/2009)
Fim da Semana 2: 2250 (23/07/2009)
Fim da Semana 3: 6750 (30/07/2009)
Fim da Semana 4: 20.250 (06/08/2009)
Fim da Semana 5: 60.750 (13/08/2009)
Fim da Semana 6: 182.250 (20/08/2009)

E então? Será que vamos atingir nossa meta em 6 semanas? Vamos testar nossa capacidade de fazer o bem com este desafio simples, o de convidar 3 pessoas a tomarem conhecimento e se cadastrarem na Coolmeia?

Ah! Não precisam ser só 3 pessoas não! Se você quiser convidar 4, 5 ou mais pessoas, fique à vontade! Sua ajuda será ainda maior! Então vamos lá. Vamos transformar 250 em 182.250 pessoas comprometidas até 20 de agosto de 2009 e mostrar que tem muita gente insatisfeita com a política de nosso país, com a exploração de trabalho infantil, com a má-qualidade da educação, da alimentação, com as relações de trabalho, com a desvalorização das minorias. As causas são muitas e estão espalhadas, “cada qual no seu quadrado”. Vamos começar a mudar isso neste círculo de amizade, aprendizado e integração que é a Coolmeia.

Depois de ter convidado e se certificado que pelo menos 3 pessoas convidadas por você aderiram à Coolmeia, aí sim você pode divulgar a rede em seu blog, comunidade do Orkut, lista de e-mails ou através da ferramenta de Convite do Ning . Antes, só no boca-a-boca.

Desafio lançado, agora é contigo! Mão na massa! Ou melhor, boca no ouvido do amigo!

É vinho? Então é na Adegga!

A Adegga é uma Rede Social para enófilos. Um ponto de encontro para vinhateiros e amantes desta interessante bebida alcoólica/ Além de encontrar preços de uma boa quantidade de vinhos, navegar por blogs relacionados à enologia e gastronomia, você pode dar notas, adicionar vinhos à sua adega virtual e muito mais.

Apesar de estar ativa há alguns meses, a comunidade (que é em inglês) parece não ter "pegado", já que o movimento desta que é a sessão beta do site ainda é pequeno. Como o assunto me interessa, e gostaria de ter boas opiniões acerca de qual vinhos adquirir para situações especiais, torço para que logo logo a Adegga tome vulto e se fortaleça.

Quem sabe com sua visita e divulgação não conseguimos fazer isso acontecer?

Terça-feira, 5 de outubro de 2004 – Uma Aldeia Chamada Linguagem

Querido amigo Hiperativo Confuso:

Como havia lhe prometido, estou escrevendo sobre esta nova terra que acabei de conhecer. Nem lembro direito como cheguei a ela, acho que foi depois de dobrar à direita após uma ravena passando uns cinqüenta quilômetros do Himalaia.

O que importa é que tudo transcorreu bem e agora estou aqui, pronto para seguir jornada para mais uma aventura. Mas antes, tenho que lhe falar deste povo que conheci e de seus costumes.

Viviam em uma Aldeia hermeticamente fechada chamada Linguagem.

Me disseram que seus ancestrais eram todos de origem grega.
Cada qual com sua função, seu porquê, seu destino. Dividiam sua comunidade entre os trabalhadores braçais, os responsáveis pelas idéias e os donos da palavra.

Dentre os primeiros, quem conheci logo na chegada à Aldeia foi Elipse, um funcionário público difícil de encontrar em seu local de trabalho. Quando ia às compras – que foi quando lhe conheci – tinha a mania de perguntar o preço de tudo, mesmo sabendo que não iria comprar:

– Quanto custa? (o sapato)
– Quanto custa? (o abajur)
– Quanto custa? ( a garrafa de vinho)

Elipse tinha um irmão chamado Zeugma. Este irmão era singular em um aspecto: detestava repetir qualquer coisa que já houvera dito anteriormente, mesmo de forma oculta. Dizia:

– Eu te conto uma piada, você me conta outra.
– Outra o quê?
– Grrrrr! – resmungava, já irritado.

Vizinho de Elipse e Zeugma, Polissíndeto é empregado de uma fábrica de calçados, onde é responsável por unir a sola com a base dos sapatos. Seu irmão gêmeo, Assíndeto, trabalhava na mesma fábrica, e revisava calçados que não ficavam bem ligados pela cola que era usada.

Dizia Polissíndeto, quando brigava com o irmão:
– Estou cansado de chorar e sofrer e perder e me conter e de ouvir e ocultar e viver.

Ao que lhe respondia prontamente Assíndeto:

– Pois então, chorando, sofrendo, perdendo, contendo, ouvindo, ocultando, enfim, sentindo é que vou levando a vida assim, feliz!

Pleonasmo trabalhava no depósito de lixo da comunidade. Lá tinha o que fazer em abundância. Como não tinha estudo, ficava repetindo o que os outros diziam e, ainda, repetia a si mesmo para reforçar suas idéias. Bradava:

– Naquele dia em que roubaram os galináceos do padre Metáfora, vi claramente visto o ladrão.

Ou ainda, nos dias em que bebia um pouco além de sua capacidade de metabolizar o álcool:

– Não vejo a hora de entrar pra dentro de minha casa e subir para cima até meu quarto e capotar na cama.

Pleonasmo era apaixonado por Iteração, cujo apelido carinhoso era Repetição, com a qual tinha muitas afinidades de idéias:

– Como é triste, triste mesmo e muito triste este mundo, não achas, Pleonasmo? Não quero um mundo assim, pobre assim, triste assim…

Pessoa estranha era a professora Anáfora: tinha o cacoete de começar todas suas explicações com “se”:

– Se você somar dois mais dois, temos quanto Subjetivo?
– Se as nuvens são feitas de vapor d’água, quais são os elementos que formam a nuvem, Oração Subordinada?
– Se você cantasse
Se você gritasse
Se você urrasse
Se você esperneasse, alguém te ouviria!

O arquiteto Anacoluto, esposo de Anáfora, era um sujeito quase incompreensível. Suas frases pareciam sem seguimento, davam a impressão de não conter uma ordem lógica:

– Estamos aqui, a construir este prédio. E veja, o Sol desce calmamente no horizonte enquanto a humanidade desfalece prematura. As pessoas, os tijolos…

O melhor amigo de Anacoluto, Hipérbato, parecia ter saído daqueles livros de antigamente pois falava de forma invertida, o que todos achavam muito engraçado:

– Pois então, Lutinho, te dizia, é a liberdade, branca que nos põe a caminho.

Um dos lugares que os amigos mais gostavam de ir nos fins-de-semana era a casa de campo de Hipérbato. Lá, vim a conhecer o caseiro, que se chamava Aliteração. Já na chegada, fomos extremamente bem recebidos:

– Faz favor, feche o ferrolho! Fico feliz fazendo faisão com feijão para a família se fastiar!

A esposa de Aliteração, dona Silepse, fazia um faisão com feijão de deixar a boca, os olhos e os ouvidos abertos. Era uma pessoa muito compreensiva e sensível, sabia o que seu marido queria dizer só pelo olhar.

– Benhê, leva um casaco para seu Anacoluto e dona Anáfora, já que o casal esqueceram que vai esfriar. Aproveita e leva um para seu Hipérbato, que é um criança e se resfria fácil. Se não, eles vão pensar que a gente somos sem alma e inútil.

Nas bibliotecas e cafés filosóficos da comunidade, se concentrava a nata do pensamento da Aldeia: os filósofos, físicos, cientistas sociais e outros teóricos.
A mais antiga representante do grupo, a filósofa Ironia era quem mais questionava o grupo. Era um ponto de interrogação em pessoa. Vivia dizendo o contrário do que pensava, satirizando e questionando o comportamento dos outros com a intenção de ridicularizar.

– E então caro amigo Eufemismo, deves sentir-se bem com seu belo par de novos chifres.

– Não fale deste jeito, Ironia. Eu e minha esposa, desde sempre nos entendemos muito bem. Nos últimos tempos apenas descobri que a compreensão dela é um pouco mais ampla.

Ao qual intrometeu-se o químico Hipérbole:

– Se eu estivesse em seu lugar Eufemismo, já haveria de ter posto fim à minha vida. Setecentas mil vezes eu teria dado cabo à minha vida. Sofrimento igual nem em um milhão de mundos.

Ao que Antítese, poeta que tudo percebe, frente e verso, e que também por lá estava, retrucou (parafraseando Camões):

-“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

Outros membros da Confraria das Idéias são o músico Apóstrofe, o inventor Gradação e a contadora de histórias Prosopopéia.
Apóstrofe adorava em suas canções interromper a música para invocar alguém ou algo:

– Tempestade! Tempestade!
Quantas vidas já ceifaste
Neste lamaçal que tua água produz
Tempestade! Tempestade!
Que cruel consegues ser
Ao esconder do Sol a luz.

Gradação é uma pessoa que poderíamos chamar de fatalista: tinha tudo previamente determinado, seguindo uma seqüência pré-estabelecida até a plenitude ou até o vazio:

– Não há porque lutar contra a morte, inequívoca verdade que transforma nossa beleza em corpo em degradação, em cinza, em pó, em lembrança, em nada.

Prosopopéia era “contadora de histórias” em uma organização não-governamental que auxiliava crianças com câncer. E como era boa no seu trabalho! Fazia as pedras andarem, dava vida a suas histórias. Contava assim:

– Enquanto a noite dormia, em cada esquina os paralelepípedos preparavam a revolução; os postes, outrora sempre quietos, arrepiavam-se ao ouvir as notícias que voavam velozmente por entre os becos…

Havia ainda na comunidade mais duas figuras interessantíssimas que não poderia deixar de lhe fazer conhecer.
O primeiro deles, Metonímia, era um político de prestígio, governante da Aldeia inclusive (pelo que consta, têm os cidadãos desta Aldeia memória curta, sendo que Metonímia aproveitava esta característica para, ao final de cada mandato eleitoral, mudar de nome para conseguir a reeleição).
Seus comícios eram impagáveis, tive oportunidade de presenciar um:

– Meu povo, minhas cabeças! Venho até vós levantando minha bandeira em torno de uma bandeira comum: nossa amada Aldeia! Cheguei aqui pela primeira vez a vapor, mas lhes digo, como seu representante maior: preciso fosse, viria até de vela! Pelo povo linguageense, faria brandir meu ferro se necessário para defender a honra e a terra deste chão que tanto prezo!

No canto do palanque, outra personalidade única: o padre Metáfora, chefe maior da Igreja na comunidade, mestre em transportar para uma coisa o nome da outra:
Em suas missas, dizia:

– Este é o corpo de Cristo: Comei! Tomai: este é o sangue de Cristo! Seu sofrimento foi o pagamento de nossos pecados…

Agora, enquanto termino de escrever esta carta para você, meu amigo, lembro ainda do motorista do táxi que me trouxe até o aeroporto. Chamava-se Catacrese:

– E então, para onde vamos? Vais avionar, transatlanticar ou onibiar?

Realmente um povo muito estranho. Costumes esquisitos que não havia visto igual em nenhuma de minhas viagens, exceto, talvez, no Brasil.
Te mando outra carta depois de melhor conhecer meu próximo destino: Utopia.

Um abraço sincero e afetuoso,

Neurótico Lunático Anônimo

Rafael

Para Humanos

RafaelO reinehr.org está em fase criogênica. Hibernante. Volta com tudo no começo do ano, novamente com posts diários, como de costume antes da fase de construção d’O Pensador Selvagem.

Mudança de nome, mudança de foco, mudança de paradigma. Dois mil e oito, mais um ano da mudança. Camaleões, X-Men e Mutantes, todos na mesma pracinha, brincando de Ciranda e Gangorra.

Só o que não muda é o template. Eu acho.

Mas uma coisa já antecipo: o novo reinehr.org será um site mais amigo. Menos voltado às máquinas, mas voltado ao ser humano. Mais livro do que e-book (é só uma metáfora!)

Enquanto isso:

1. Se você é assinante do feed, não desassine
2. Se você não é assinante, assine.
3. Se você não sabe o que é feed, me pergunte.
4. Tenha um maravilhoso Natal e um ótimo início de ano.
5. Nos vemos no dia 31/12, com a "Retrospectiva 2007".
6. Você pode me ver lá no O Pensador Selvagem, trabalhando incansavelmente – dia após dia – na melhoria do site e da comunidade.
7. Aloha!

Vamos que vamos!

Ação Popular, Democracia e Mudança

O Voto Contínuo é aqui apresentado, em sua proposta inicial para ser amplamente discutida por todos que tem interesse na busca de um porvir melhor. A discussão deverá idealmente ser feita em qualquer Fórum Popular e pode ser divulgada através dos banners disponíveis aqui no site http://reinehr.org A hora da mudança já passou. É tarde! É tarde! É tarde!, diria o Coelho de Alice. Mas nunca é tarde para começar, relembra o dito popular. Mas do que vamos tratar aqui? Em síntese: viemos propor uma Ação Popular para MUDAR a Democracia como é entendida no Brasil. Continue reading

Bem-vindo a O Pensador Selvagem!

    São tempos de Efervescências, mesmo… Está surgindo no horizonte um novo modo de perceber a internet e a blogosfera, algo que tem suas origens bem antes da web 1.0, utiliza conceitos da web 2.0 mas cujos limites vão além, tocando de forma intermitente o desconhecido. Este novo modo já tem nome: O Pensador Selvagem.

    Uma revista. Um site. Um portal. Um condomínio de blogs. Uma comunidade. Uma rede. Um painel. Um ponto de encontro, de convergência. Uma experiência de autogestão. Tudo isso ao mesmo tempo, constituindo um todo que é maior que a soma de suas partes, já que o todo comporta, além das partes, também as relações entre elas, em concordância com o que diz Edgar Morin

 

Objetivo: ser uma revista multicultural ampla, eclética, envolvendo desde a literatura passando pelas artes plásticas, cênicas, música, ecologia, gastronomia, política, economia, história, direito, filosofia, quadrinhos, cinema, antropologia, arquitetura, sociologia, sexologia, fotografia, religião, espiritualidade, comportamento, utilizando para sua apresentação e divulgação os meios virtuais escritos, mas também imagens, sons, vídeo e prota-organizando encontros virtuais e reais transdisciplinares entre seus colaboradores e visitantes.

O Nome: “O Pensador Selvagem” deriva da idéia de um indivíduo tentando escapar de sua animalidade, entretanto encerrado nesta e relacionando-se constantemente com os conflitos derivados desta relação. Percebe-se “O Pensador Selvagem” como indivíduo, mas também como “coisa”, como representação de um coletivo ou de um objeto mecânico ou quântico, físico e metafísico simultaneamente, que aceita dentro de si todos paradoxos, entre os quais o de pensar e ser selvagem ao mesmo tempo. Na essência, é impossível negar a animalidade que há em nós, ditos humanos. Alguns tentam esquecer, ludibriar o lado bicho, mas isto é uma ilusão.

A Motivação: existem hoje no Brasil numerosas “revistas virtuais culturais”, abarcando uma ou mais áreas desta rica cultura, recebendo textos originais de pensadores e praticantes autônomos das mais diversas áreas do conhecimento humano. Muitas delas, com excelente desempenho dentro do seu foco de atuação. Existe, entretanto, uma carência na busca de integrar estas diferentes áreas na criação de um conhecimento sintético e representativo destas áreas. Carecemos de uma “quebra das fronteiras” entre as disciplinas, que dialogam sim, entretanto não mais do que duas ou três ao mesmo tempo. Buscaremos transformar “O Pensador Selvagem” em um grande fórum onde criadores possam, de forma singular, interagir entre si, usando para seu benefício os estímulos recebidos e alimentando o grande coração d’O Pensador. Este, por sua vez, servirá de propulsor para novas mudanças que, em moto perpetuo alimentará a espiral do saber sensível gerando satisfação, bem-estar e novo conhecimento.

O Começo: a etapa inicial da concretização deste ambicioso projeto é agrupar um número significativo de pessoas ou coletivos qualitativamente relevantes dentro dos grupos culturais que representam e tornar estas pessoas ou coletivos responsáveis, dentro d’O Pensador e fora dele, pela criação e coleta-receptação dos produtos nas diferentes mídias e meios além da divulgação da idéia entre grupos semelhantes ou dessemelhantes. Cada grupo, que provisoriamente será chamado de Seção (até que nome melhor venha a ser utilizado), deverá concatenar esforços e se autogerir com o objetivo de, na freqüência que lhe for possível, trazer conhecimento e estímulo produzidos dentro do grupo ou fora dele para “O Pensador Selvagem”, tratando de gerenciar também a entrada de novos membros no grupo. Estes novos membros, automaticamente farão parte da comunidade maior, transdisciplinar. É importante manter a noção da troca de experiências entre os diferentes grupos como forma de ampliar os estímulos recebidos e assim aprimorar o senso de integração, fraternidade e multiplicação características de uma comunidade harmoniosa.

A Idéia: assim como Kafka, em suas cartas para Felice confessou-lhe que o lugar ideal para escrever seria a mais profunda galeria de uma caverna, apenas acompanhado de uma lamparina e o material necessário para a escrita, sendo que lhe levassem o alimento até a porta da caverna – e esse seria seu único passeio, buscar comida, para depois tornar a escrever – hoje padecemos da ultramultitude de informações que infestam todos nossos sentidos. Perdemos a noção do silêncio e da solidão, no sentido estrito do termo. Como criar, num mundo assim? Como pensar (n)um mundo assim?

Desafios: um dos objetivos mais ambiciosos de “O Pensador Selvagem” é integrar, em um só ambiente, o popular e o erudito, samba e orquestra, ou seja, o senso comum e o acadêmico. Colocar para conversar estas verdades por vezes tão distantes que até parecem de mundos diferentes. Ensinar, através do confrontamento dialético, uma a enxergar pelos olhos da outra. Praticar constantemente a alteridade. Aqui, o míope se torna hipermétrope para somente depois bem enxergar e vice-versa. Há que se exercitar a humildade, a paciência e a tolerância. Há que se despojar de preconceitos ou mesmo de conceitos bem fundamentados para conseguir dar um salto intelectual, um salto espiritual, um salto selvagem, super-humano.

 

   Nos próximos dias, mais novidades. Mas sem pressa, porque o bolo do forno da vovó é mais gostoso.

Ufa! Passou!

Ufa! Passou!

 Caramba! Passei o dia inteiro apreensivo com esta função que resolvi inventar. O tal do Método Ralureh não foi aceito da forma que eu, ingenuamente esperava.

Imaginei que mais do que meia dúzia de pessoas se interessasse pela idéia e, tolamente, imaginei até que alguns bloggers de fora fossem achar interessante o método. Digo de coração: fui ingênuo. Muitas pessoas entenderam que, obviamente, o maior beneficiado desta experiência inicial seria eu mesmo, caso houvesse uma divulgação massiva do experimento realizado na noite passada. Que não houve.

Mas minha angústia principal tem raízes mais profundas do que a experiência mal-sucedida desta noite: nos últimos dias, estava sendo dragado de forma absurdamente inexplicável (pelo menos para mim) por este mundo “problogger” que tanto evitei.

Comecei escrevendo um posto sobre o assunto, quando vi já estava em uma comunidade de blogs que buscam basicamente gerar renda para si e, olhando de dentro, parecia que tudo estava certo.

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Novos Proprietários da DVD Hall

Eis os felizes novos proprietários da DVD Hall

   Novos Proprietários da DVD Hall
Laércio Friedrich, eu e a Cláudia

    Foi difícil, mas certamente será melhor assim… Vendi no último dia 13 de maio a DVD Hall , minha locadora de DVDs. A DVD Hall Locadora de DVDs & Cyberhistórias, como consta no seu contrato social, foi inaugurada em 5 de outubro de 2005. No começo, em sociedade com meu cunhado Christean Schumacher, tínhamos somente cerca de 150 DVDs e estávamos alojados em uma pequena sala que era dividida com a locadora de videogames do Christean e um morador que utilizava a parte de trás da casa. Avenida Concórdia 1085, em Agudo-RS. Com o crescimento da locadora e do número de locações, precisamos mudar de local. Escolhemos a sala que era utilizada até então como consultório dentário da minha tia Solange, junto à casa da minha família em Agudo. A partir deste momento, adquiri a parte da sociedade do meu cunhado e, com novos ares em ambiente maior e reformado, a Nova DVD Hall passou a crescer mais e mais, de vento em popa, mês após mês, mesmo com concorrência acirrada. Em pouco tempo, graças ao investimento mensal de TODA renda da locadora em novos DVDs e infraestrutura (prateleiras, televisão de tela plana, DVD player, Videotrailer (sistema de exibição automática de trailer para clientes), Reparador de DVDs, campanhas solidárias na comunidade como o "Locadora Solidária", em que a renda da última quarta-feira do mês era destinada a uma entidade carente do município, tornamo-nos a maior locadora da região, com 1643 DVDs no acervo. Número pouco expressivo perto das "blockbusters" da vida, mas um aumento de 1000% no acervo em 18 meses.

    Fico agora na torcida que o Laércio e a Cláudia sejam tão os mais felizes do que eu fui enquanto proprietário da DVD Hall e que eles, além de felicidade, consigam também extrair um bom erário para garantir a segurança financeira deles próprios e da pequena Bárbara, recém-nascida.