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Abr 05

Saúde Parte VI – de VIII

By Rafael Reinehr | Medicina e Saúde , Medictando

pegadas

Se quiseres planejar para um ano, plante cereais. Se quiseres planejar para trinta anos, plante árvores. Se quiseres planejar para 100 anos, eduque o povo.” – Provérbio chinês

Saúde sem educação é a maior utopia possível. Uma pessoa que não foi educada para saber diferenciar entre o certo e o errado, o que nutre e o que envenena o corpo, conta tão somente com a sorte para sobreviver a toda sorte de ofertas de alimentos com embalagens coloridas, que ficam prontos em 2 minutos no microondas, frutas vistosas (repletas de agrotóxicos e fertilizantes químicos) e mesmo terapeutas charlatães que vendem tratamentos milagrosos para perda de peso, benefícios estéticos ou mesmo curas milagrosas para as mais variadas afecções.

Um ser humano que aprender a se defender das desinformações que o mundo moderno, tal qual George Orwell previa em 1984, nos fornece, tem mais condições de viver uma vida saudável e longeva. Eis a importância, como citei há algumas edições atrás, da criação não somente de Postos e Unidades de Atenção à Saúde (que em sua grande maioria são Unidades de Atenção à Doença), mas de Centros (Populares) de Educação em Saúde e de uma verdadeira e efetiva Rede Integrada de Educação em Saúde, capaz de transmitir o conhecimento que fica encastelado e centralizado na figura dos profissionais de saúde, tanto clínicos gerais quanto especialistas das diversas áreas de atenção aos pacientes e distribuir este conhecimento, tornando não só o acesso à saúde mas o conhecimento acerca do que é bom e preferível e o que deve ser evitado mais democrático e distribuído.

Quando pensamos que nosso ecossistema como um todo é responsável pela nossa saúde, desde o ar que respiramos, a água que ingerimos, a violência de nossa urbe, etc., nos damos conta de quão importantes são os exemplos que nossas escolhas e nossos atos proporcionam para quem está á nossa volta e para as gerações vindouras. Como dizia B. K. Jagdish:

“Nossos pés deixam pegadas na areia do tempo. Se estivermos no caminho errado, muitos nos seguirão, desviando-se do que é correto. Quando pensamos que uma ação é só por aquele momento e esquecemos que ela deixa um rastro atrás de si, não estamos sendo responsáveis. Todas as nossas ações afetam os seres humanos, dando-lhes alívio ou tristeza. Podemos fortalecê-los ou não. Podemos causar ferimentos ou curas. Podemos gerar conflitos ou resolvê-los. Podemos criar cataclismas ou algo nobre para a sociedade.”

Existe ainda uma outra lição bem interessante e inteligente, que nos liga à frugalidade, discutida anteriormente, e também à preocupação com a questão sistêmica do planeta e, de forma interdependente, às nossas relações com os outros humanos, que é a de manter uma atitude “verde” para com o mundo. Sobre isso, diziam Penny Kemp e Derek Wall, ecologistas britânicos:

“Como ser verde? Muitas pessoas nos perguntam esta importante questão. É realmente muito simples e não requer nenhum conhecimento especializado ou habilidades complexas. Aqui está a resposta. Consuma menos. Compartilhe mais. Aproveite a vida.”

Mas, muitas vezes, quando tudo o mais parece não resolver, o melhor que temos à fazer para manter ou para recuperar a saúde é fugir. Mas não a fuga do depressivo ou a fuga do amedrontado: uma fuga consciente, como estratégia para equilibrar a loucura e a serenidade presentes em cada um de nós. A fuga para encontrar a justa medida. O (quase) perfeito equilíbrio. Henry Laborit nos dizia:

“Em tempos como este, a fuga é o único meio para manter-se vivo e continuar a sonhar.”

E Hakim Bey nos ensina, em TAZ – A Zona Autônoma Temporária, Anarquia Ontológica e Terrorismo Poético, como usar a tática ninja do desaparecimento para realizar nossa essência longe dos olhos de quem nos controla, quer seja o Estado, a Igreja, a Escola ou mesmo a Família, sempre que precisamos exercer nosso direito à liberdade e à integritude. Quando, finalmente, nem a fuga dá certo, nos resta mais uma opção para invocar um surto instantâneo de saúde em nossas artérias e espírito: Rir! Esse sim, é o melhor remédio!

Como dizia Mort Walker, “Abençoados os que sabem rir de si mesmos, porque nunca deixarão de divertir-se”.

E não é verdade? Já existem até estudos científicos comprovando os efeitos benéficos de sorrir e gargalhar sobre a saúde humana!

Nao próximo texto, o sétimo e penúltimo da saga “Saúde”, veremos como Ralar o joelho, Revoltar-se, Desobedecer, Diversidade e Respeito se relacionam com o conceito de saúde. Até lá!

Abr 30

Polícia para quem precisa de polícia – O caso dos professores do Paraná e o ocaso da políca militar

By Rafael Reinehr | Anarquia e Escritos Libertários , Apontamentos Anarquistas , Uncategorized

Sonhei que morria por causa de uma bactéria no coração. Acordei febril. Mas podia ser pior, eu podia ter sonhado que era um professor paranaense.” – Pedro Rios Leão

charge de Odyr Bernardi

 

O Beto Richa, e nossos governantes em geral, sabem muito bem o perigo que os professores representam. O que aconteceu hoje em Curitiba não foi uma fatalidade ou um ato de descontrole. Foi apenas uma ação condizente com a cultura política do nosso país. Qualquer esboço de mudança passa por uma auto-reflexão. Somos todos responsáveis. Quem não está ATIVAMENTE contra essa ideologia vigente, está a favor dela e é diretamente culpado pelos acontecimentos de hoje.

Espero que o ocorrido encerre de vez essa sandice de intervenção militar. Quem quiser provar um “pouquinho” de intervenção militar, dá um pulo aqui no Centro Cívico pra tomar bomba e cacetete na cara. Porque protestar em bairro nobre com roupinhas da moda e voltar pra casa de taxi, limpinho e bem feliz é fácil, qualquer imbecil consegue.

Hoje, mais do que nunca, vale a célebre frase de Martin Luther King Jr.: a maior tragédia desse momento de crise não será o grito dos homens maus e sim o silêncio dos homens de bem!” – Jaque Bohn Donada

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Sugestão de campanha: Você conhece algum filho de policial militar no PR? Conhece a esposa de algum deles? Ligue para ela, ele e sugira que chame o pai à consciência. POlicial também é trabalhador. Hoje eles bateram nos professores de seus próprios filhos, nas professoras de suas filhas, e talvez em alguns que foram ou poderiam ter sido seus professores no passado recente. Sugiro que seus vizinhos não os rejeitem, mas que os chamem ao motim, que os convidem à desobediência baseada no RDE ou no código militar “ORDEM ABSURDA NÃO SE CUMPRE” é dever do militar desobedecer e ir preso se for o caso. Trabalhador não bate em trabalhador. peça aos filhos e amigos, parentes e esposas de policiais militares que se mobilizem e ajudem estes a dar o passo que falta …. e ficarem do lado do bem da justiça. Estes homens e mulheres fardados, em sua maioria, e ao seu modo, querem o mesmo que todos os demais trabalhadores: paz e justiça.” – Claudio Oliver

FB_IMG_1430355752080Outra informação, do Paraná Portal, afirma que 50 policiais serão exonerados pois recusaram-se a atirar contra os manifestantes.

Os surtos de lucidez são penalizados, enquanto os rompantes de afronta à democracia e ao direito de protesto são fortemente reprimidos. Vivemos há muito em uma sociedade de hipercontrole, em que a Polícia não serve ao propósito de defender a população de bandidos, ladrões e criminosos em geral mas, pelo contrário, está presente apenas para garantir a propriedade privada (daqueles que a possuem) e a manutenção do estado das coisas de forma a favorecer quem está no poder.

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“Não é suficiente para mim parar em frente a vocês nesta noite e condenar os levantes. Seria moralmente irresponsável fazer isso sem, ao mesmo tempo, condenar as contingências e condições intoleráveis que existem em nossa sociedade. Essas condições são as coisas que fazem os indivíduos sentir que não possuem outra alternativa senão engajar-se em rebeliões violentas para chamar a atenção. E eu devo dizer hoje que uma revolta é a linguagem daqueles que não são ouvidos.” – Martin Luther King Jr., 14 de março de 1968

Voltaire já dizia: “É perigoso estar certo quando o governo está errado.” Isso está mais do que certo, haja vista que o aparelho ideológico do Estado e a estrutura hierárquica militar, disciplinada e aparelhada que está a seu serviço tem poder de desmonte truculento de qualquer confronto direto com a população.

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Isso, no entanto, não é razão para quedarmos acomodados em frente às nossas “caixas anestesiadoras” – que alguns chamam de televisores. A cooperação crescente e o avanço das estratégias de participação cidadã – indo para muito além da mera participação, evoluindo até a interação – com troca efetiva de saberes e a evolução da tomada de consciência sobre o verdadeiro estado das coisas (que nos é obscurecido pela Escola, pela Igreja e pelo Estado) poderão acabar por gerar as faíscas da transformação social que precisamos.

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“Se o governo não respeita nossos direitos, porque nós respeitamos suas leis?”

Por que somos condescendentes? Conformistas? Acomodados? Porque estamos conseguindo comprar nossos eletrodomésticos, televisores de LCD ou automóveis em 12, 24, 36 ou 72 vezes? Porque seguimos acreditando na promessa de um “paraíso na terra”, através de reformas e mais reformas – políticas, econômicas, tributárias – que sempre são paliativas e logo ali na frente são revogadas (como no caso da rotulação dos transgênicos)?

Será que não percebemos que nossas liberdades são mais e mais cerceadas em troca de uma suposta “segurança” para nós e nossas famílias, sendo que esta segurança na verdade é uma ilusão posta na mesa para manter o processo de enriquecimento de famílias e grupos corporativos cada vez mais famintos?

FB_IMG_1429453709381A postagem é séria. É tão séria que precisamos de um pouco de humor para atenuar a carga emocional pesada de tudo que precisamos digerir ao refletir sobre o assunto:

FB_IMG_1430358865408Para finalizar, uma foto de um membro do Black Block que foi “capturado” pela PM do Paraná, em sua vestimenta característica de confronto com a polícia. Estes baderneiros… tsc… tsc… (ATENÇÃO, AVISO AOS INCAUTOS, PARA EVITAR COMENTÁRIOS INAPROPRIADOS: SIM, ISTO É UMA IRONIA)

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A tempo: no início da madrugada caí em uma postagem de Gustavo Lisboa que cita Brecht. Suas palavras caem como uma luva para encerrar este ato:

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” – Bertold Brecht

Abr 28

Os Centros de Educação em Saúde (CES): uma proposta para melhorar a saúde da população brasileira

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

(texto publicado originalmente na edição de número 9 da Revista Doc)

Há aqueles que vivem em meio à abundância, promovendo a escassez. E há outros que, em meio à escassez, promovem a abundância.
Há muito, existem no Brasil condições materiais e humanas para levar à população educação suficiente para que esta possa, cada vez mais, tomar as rédeas de seus próprios cuidados básicos e intermediários em saúde, desafogando o sistema público e até mesmo privado de atenção à saúde.
O atual sistema, centrado no médico e em outros terapeutas exclusivamente enquanto ferramentas de diagnóstico e tratamento, basicamente reforça um conceito ultrapassado que promove a escassez do acesso à saúde, ao invés de promovê-lo.
Frente a esta percepção, se propõe aqui uma alternativa que possa aumentar substancialmente o atendimento de todas as camadas da população no que diz respeito à maior riqueza que se pode ter em relação aos cuidados com a saúde: o conhecimento.
Possuímos, todos, uma capacidade de autocura impressionante e, tanto nas doenças agudas como crônicas, a importância de reconhecer sintomas como autolimitados ou ameaçadores à vida pode fazer a diferença entre a cura e o controle da doença em tempo hábil ou a morte de um indivíduo.
Propõe-se aqui a criação, em todo país, de Centros de Educação em Saúde. Nestes espaços – que poderão ser criados em locais tão formais quanto uma Escola ou uma Unidade de Saúde, ou tão informais quanto embaixo de uma mangueira* – se oferecerá à população informações detalhadas acerca das patologias que a aflige.
Assim, se eu sou portador de Diabete Melito, me inscrevo no Curso de Diabete Melito, com duração de, digamos, 30 horas, que acontece a cada 2 ou 3 meses na Unidade de Saúde da Zona Norte, por exemplo. Se, ao contrário, eu tenho Diabete Insípido (uma enfermidade mais rara), e não houver nenhum curso sobre a mesma em minha cidade, poderei acessar a RIES (Rede Integrada de Educação em Saúde), um banco de dados composto pelos Cursos dados em todo o território nacional e poderei buscar a cidade e estado em que um curso sobre Diabete Insípido (ou outra doença de meu interesse) estará sendo ministrado nos próximos meses.
Na RIES, além da divulgação dos cursos presenciais, ficarão armazenados tanto os materiais didáticos de todos os CES, que serão disponibilizados como Recursos Educacionais Abertos (folders, cartilhas, folhetos explicativos, algoritmos, áudios e vídeos), sempre em linguagem acessível e de fácil compreensão.
Além de cursos focados em “patologias”, teríamos também cursos fixos, repetindo-se sazonalmente, com foco na manutenção da saúde: nutrição, atividade física de acordo com idade e condição de saúde, tratamento e prevenção da obesidade, controle de estresse, grupos de estudo em saúde (autogeridos) e assim por diante.
O aluno-paciente ou seu familiar sai do Centro de Educação em Saúde com conhecimento, jamais com uma receita médica…
É lamentável verificar esta tendência – e parece ser vedado falar sobre isso – mas nos dias de hoje, em linhas gerais, a indústria da medicina trata de guardar a sete chaves o conhecimento médico, mantendo tempos de consulta e contato com o paciente tão pequenos quanto sejam necessários apenas para detectar um ou outro sinal ou sintoma de alerta e ajustar as medicações de acordo. Muito pouco tempo é – relativamente – dedicado a esta poderosa ferramenta de saúde pública que é a Educação. Me perdoem os colegas que fazem parte da exceção à regra.
Ainda há tempo para mudar. E ainda há tempo para que sejamos, nós, os protagonistas dessa mudança. Em uma sociedade que a cada ano que passa se torna mais e mais aberta, transparente e consciente de seus desejos e necessidade, acabou-se o tempo para mordaças e processos educativos que mantenham as pessoas na ignorância. Chegou a hora de trazer a luz e a informação libertadoras, de forma ampla e irrestrita.
Chegou a hora de médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, dentistas e outros terapeutas juntarem suas forças em prol da saúde da população. E quem sabe, daqui a uma década, não possamos dizer que, juntos, mudamos de forma inovadora o rumo de uma nação, nos tornando exemplo em educação em saúde para o mundo inteiro.
E assim sigo, utopicamente medic(t)ando, imaginando que um outro mundo, melhor, é possível.

*em alusão a Tião Rocha, do CPCD (http://www.cpcd.org.br/)
Acompanhe o desenvolvimento do projeto dos Centros de Educação em Saúde em http://ces.reinehr.org

Abr 18

Recursos Educacionais Abertos na Aprendizagem Informal e no Autodidatismo

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia


“O objetivo da educação é aprender, não ensinar.”

Russel Ackoff


A maior parte das pessoas tem a maior parte de seus insights, constroem conhecimentos e competências fora da escola, da universidade ou de outros espaços formais de aprendizagem. E a maior parte do que aprendemos na escola, esquecemos rapidamente ou se mostra errado ou obsoleto em um curto espaço de tempo.

De forma aparentemente paradoxal, uma das formas mais eficazes de aprender é ensinar. É sempre aquele que ensina que apreende e aprende mais, de forma permanente. É aquele aprendizado que fazemos por gostar de um determinado assunto, é aquele no qual nos aprofundamos quando precisaremos dele na prática, para nosso uso diário ou para transmitir para mais alguém que fica indelevelmente “colado” em nossa memória.

Todos já experimentamos os dois lados da moeda: quando somos obrigados a estudar um determinado tema ou matéria para adquirir algum tipo de graduação imposta pelo sistema no qual vivemos e quando escolhemos aprender algo pelo bel prazer de saber mais sobre aquele assunto. E todos lembramos da sensação que experienciamos em uma e em outra situação.

Além disso, a educação compulsória se comporta como uma loteria compulsória, em que alguns ganham mas a maioria perde, pois o mercado de trabalho não absorve a totalidade dos estudantes e, se não bastasse, a Indústria do Diploma exige que cada vez mais seja necessário um grau mais alto para conseguir os mesmos resultados Isso tudo fez com que muitas pessoas abandonem o Monopólio da Educação pelas Instituições formais em busca de formas alternativas de aprendizagem.

Estas perspectivas criam um novos tipos de Aprendizes. São desbravadores natos de Recursos Educacionais Abertos. São os navegadores do Éter Universal em busca de Informação que é transformada em Conhecimento e de Conhecimento que pode ser transmutado em Sabedoria.

Esses novos e intrépidos visionários ou excluídos são a vanguarda de um movimento que ainda dá seus primeiros passos, mas já chega aos milhões. São aqueles que, inspirados pelo chamado de Illich, se deram conta de que “Somente uma revolução cultural e institucional que reestabeleça o controle do homem sobre o seu ambiente pode erradicar a violência pela qual o desenvolvimento das instituições agora é imposto por alguns poucos para o seu próprio interesse.” [1]

Podemos aprender de duas formas: “batendo a cabeça”, por conta própria, aproveitando inclusive nossos erros como aprendizado ou, alternativamente, aprendendo o que os outros querem que aprendamos. No primeiro caso, enveredamos para o auto-didatismo, para o alter-didatismo e para formas de educação mais informais ou não-formais. No segundo caso, escolhemos a educação formal, por todas as ofertas vistosas que ela nos faz – e cumpre – caso sejamos escolhidos pelo toque de Midas.

Os REAs na Educação Não-formal e no auto-didatismo permitem, entre outras coisas, a transformação de todos os lugares em uma escola. Não uma escola na acepção comum do termo, como um espaço em que professores e alunos se dividem hierarquicamente para então ocorrer a transmissão de conteúdo. Mas uma escola na qual prepondera o aprendizado distribuído, em que cada indivíduo é, ao mesmo tempo, um educador e um aluno, um aprendente. Existe um estímulo para se aprender com as coisas, com os lugares, com as pessoas (com todas as pessoas).

Como estabelecido na Carta das Cidades Educadoras, em Barcelona 1990 e depois ratificado em Bologna, em 1994: [2]

“Primeiro, investir na educação de cada pessoa, de maneira que esta seja cada vez mais capaz de exprimir, afirmar e desenvolver o seu potencial humano, assim como a sua singularidade, a sua criatividade e a sua responsabilidade.”

“Segundo, promover as condições de plena igualdade para que todos possam sentir-se respeitados e serem respeitadores, capazes de diálogo.”

“Terceiro, conjugar todos os fatores possíveis para que se possa construir, cidade a cidade, uma verdadeira sociedade do conhecimento sem exclusões, para a qual é preciso providenciar, entre outros, o acesso fácil de toda a população às tecnologias da informação e das comunicações que permitam o seu desenvolvimento.”

Segundo os princípios que derivam da Carta das Cidades Educadoras, utilizar a cidade como suporte para o aprendizado é um dos caminhos viáveis para nos tornarmos aprendizes de uma vida inteira. Partindo do conceito de uma cidade digital, em que todos tenham acesso livre à internet e às suas ferramentas educativas, vamos além e recorremos a outros instrumentos de aprendizagem que podem e devem ser abertos como museus, bibliotecas, roteiros turísticos, turismo comunitário e científico, acesso a laboratórios e centros de pesquisa, centros culturais, gastronômicos, oficinas e todos espaços em que o saber pode ser co-criado pelos indivíduos.

Muito do que se vê como educação ainda é derivado de um princípio centralizador, homogeinizador e vê educação como transmissão de conhecimento de cima para baixo. Em contraposição a este paradigma, surge o conceito de Edupunk, inspirado na cultura do Faça você mesmo. [3]

Derivam ou estão associados a este conceito uma série de noções cujo escopo deste artigo não permite aprofundar, mas que merecem ser citadas para fins de pesquisa ulterior: educação democrática, aprendizado auto-direcionado, educação centrada no estudante, desescolarização, escola livre anarquista, aprendizagem livre, educação popular, pedagogia crítica, pedagogia libertária, todos termos pouco ou nada abordados dentro da educação formal.

Neste caminho e nesta luta pelos REA em todas as instâncias, acadêmicas, formais e não-formais, estamos sempre em busca de uma sociedade mais convivial. Como dizia Illich, em Tools for Conviviality: “Uma sociedade convivial é uma sociedade que oferece ao homem a possibilidade de exercer uma ação mais autônoma e mais criativa, com auxílio das ferramentas menos controláveis pelos outros.” [4] E é justamente neste espaço – o Social – que acontecem as interações que nos caracterizam enquanto humanos. E é fora da lógica do ensino pré-formatado que acontecem as verdadeiras possibilidade de evolução. É no exercício da autonomia que se aprende a ser humano e não peça de uma maquinaria construída para servir a alguns. É na cosnciência da liberdade que podemos exercer a singularidade e não sermos normalizados pelos processos massificadores da educação que vem de cima para baixo, que serve para produzir “catálogos” de seres humanos para serem escolhidos por empresas e corporações com a finalidade de auferir lucro ao invés de produzir felicidade, bem-estar e qualidade de vida. Em última instância, é disso que tratam, também os Recursos Educacionais Abertos: possibilitar a qualquer pessoa que queira, ter acesso a materiais, métodos, ferramentas e informações relacionadas aquilo que se deseja aprender.

“Um bom sistema educacional deve ter três propósitos: dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos disponíveis, em qualquer época de sua vida; capacitar a todos que queiram partilhar o que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e, finalmente, dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto a que tenham possibilidade de que seu desafio seja conhecido.” [5]

Avançando no pensamento de Illich, ele escreve, no início da década de 70, que a mais radical alternativa para a escola seria uma rede ou um sistema de serviços que desse a cada homem a mesma oportunidade de partilhar seus interesses com outros motivados pelos mesmos interesses.

Hoje em dia, temos tecnologia mais do que suficiente para fazer chegar, a qualquer pessoa do mundo que esteja interessada em aprender, conteúdo gratuito através dos nossos sistemas de comunicação, caso houvesse esta vontade por parte de quem regula o acesso a estas ferramentas comunicacionais.

As Universidades, como tuitou recentemente Pierre Levy, já não tem mais o monopólio do conhecimento, apenas do diploma. Como nos lembra Augusto de Franco, o conhecimento não pode mais ser aprisionado, e os caminhos para ele são múltiplos. [6] Essa noção de que o aprendizado pode e deve ser distribuído, participativo e ativo está presente no conceiro de MOOCs, ou Massive Open Online Courses. [7]

Os MOOCs são Cursos Onlines Abertos fornecidos para dezenas, centenas ou milhares de pessoas ao mesmo tempo, através de uma plataforma online. É um curso que estimula a participação, é distribuído e fomenta o aprendizado continuado em rede durante a vida. De certa forma, é uma forma de conectar e colaborar em um ambiente digital ao mesmo tempo em que se engaja em um processo de aprendizado, é um evento em que as pessoas que se interessam por um dado tópico se reúnem em torno do mesmo para falar dele, debater, trocar experiências e conhecimentos.

Todas as discussões realizadas, o material produzido e o acesso ao curso são gratuitos.

O curso é distribuído, e todas as postagens de blog, de fóruns, respostas de vídeo, artigos, tweets e tags são colocadas em rede para criar o curso. Não há um “caminho certo” entre todos estes dados para fazer o curso, todos são válidos e o aprendiz define qual o melhor caminho para si.

Algo que já foi descoberto pelos pesquisadores das redes, mas ainda não está introjetado ou é percebido pelo senso comum, é que o poder não reside nas instituições, nem no estado nem mesmo nas grandes corporações. Ele está localizado nas redes que constituem a sociedade. Essa descoberta, quando organizada de forma biopolítica, mudará a configuração do que hoje conhecemos como sociedade, e o grande motor para esta mudança está justamente no aprendizado distribuído. [8] e [9]

George Siemens, um dos postulantes da teoria do Conectivismo, afirma que a educação formal é irrelevante para o aprendizado significativo, pois o aprendizado significativo significa estar envolvido de forma ativa com o processo de aprendizado. [10] Ao mesmo tempo em que é inegável o quanto a abordagem positivista e reducionista e o método científico  contribuíram para o conhecimento que hoje temos das coisas, da mesma forma é inegável a falta de controle e a incapacidade desta mesma abordagem em religar todo este conhecimento em uma forma sistêmica e inteligível para grande parte da humanidade. A fragmentação do saber e a sua inacessibilidade se tornam mais uma moeda de troca na Sociedade do Conhecimento. Avançamos rapidamente para a noção de que o conhecimento não está mais tanto nos livros ou nas instituições mas sim nas pessoas com as quais nos relacionamos. Elas são o verdadeiro repositório dos saberes essenciais à nossa vida. Estamos experienciando, de forma acelerada, uma retribalização digital de nossas existências, onde as conexões que temos – e a riqueza dos saberes nelas contidas – e não o que sabemos de imediato, enquanto indivíduos, representam a verdadeira riqueza e sabedoria que podemos carregar conosco.

Vejamos a seguir alguns ótimos exemplos de como o mundo está sendo moldado por experimentos educacionais abertos nos mais variados campos de conhecimento humano:

Repositórios de Saberes:

Wikipedia – wikipedia.org [11]

A Wikipédia é talvez o melhor exemplo de como se pode produzir um conteúdo de forma cooperativa e mantê-lo acessível ao público, de forma livre e sustentável. Ela é um projeto de enciclopédia multilíngue livre baseado na web , colaborativo e apoiado pela organização sem fins lucrativos Wikimedia Foundation. Possui 19 milhões de artigos (712 851 em português em 06 de fevereiro de 2012) que foram escritos de forma colaborativa por voluntários ao redor do mundo e quase todos os seus verbetes podem ser editados por qualquer pessoa com acesso ao site. Em maio de 2011 havia edições da Wikipédia em 281 idiomas. A Wikipédia foi lançada em 15 de janeiro de 2001 por Jimmy Wales e Larry Sanger e tornou-se a maior e mais popular obra de referência geral na Internet  além de ser utilizado em todo o mundo como referência para pesquisa escolar, a despeito das críticas sobre a acurácia de seu conteúdo. [12]

Knol – knol.google.com [13]

Knol é uma enciclopédia da internet, projeto da Google, cujo conteúdo é gerado pelos utilizadores, e com tópicos que variam de “conceitos científicos, a informação médica, de informação geográfica e histórica a entretenimento, de informação sobre produtos a instruções genéricas.”Foi anunciado publicamente em 13 de dezembro de 2007. As páginas do Knol pretendem “ser a primeira coisa que alguém que procure pelo tópico pela primeira vez vai querer ler”, de acordo com Udi Manber, vice-presidente da área de engenharia na Google. O termo knol, cunhado pela Google para significar “unidade de conhecimento (knowledge)”, refere-se tanto ao projeto quanto a um artigo no projeto.O site tem sido visto como uma tentativa do Google para competir com a Wikipedia. No dia 1 de maio de 2012 o Knol foi descontinuado, para que a Google possa priorizar produtos de maior impacto.

Uma das suas características principais era de que cada um dos artigos ou knols fosse criado e escrito completamente pela mesma pessoa. Uma vez que o nome do autor está destacado no artigo, algo que em outras enciclopédias online como a Wikipédia não ocorre, a Google acreditava que isso poderia incentivar a redação de knols por parte de especialistas nos temas, e que estes alcancem uma qualidade aceitável com poucas edições. Adicionalmente, permitia que múltiplos artigos ou knols pudessem ser criados para um mesmo tópico, o que estimula o desenvolvimento dos mesmos em termos de competência, para aumentar a qualidade.
Estimula-se a redação de knols completos e de qualidade, porque a comunidade de leitores podia comentar, avaliar, fazer perguntas e propor conteúdo adicional para os enriquecer.
A Google não actua como editor, já que a ideia e a responsabilidade pelo conteúdo de cada artigo cai por completo sobre o autor, que desta forma põe a sua reputação em jogo ao redigi-lo.

MERLOT – merlot.org [14]

A MERLOT é uma comunidade online gratuita e livre de recursos destinados primariamente para estudantes de ensino superior compartilharem seus materiais pedagógicos e de aprendizagem. É uma plataforma centrada no usuário, organizada através de coleções ou temas e também dispões de artigos revisados pelos próprios usuários, materiais de aprendizagem online que são catalogados por usuários registrados e revisados por uma equipe indicada por uma Comissão Editorial, com vistas a garantir a qualidade do material compartilhado.

Khan Academy – khanacademy.com [15]

A Khan Academy é uma organização sem fins lucrativos criada e sustentada por Salman Khan. Com a missão de “fornecer educação de alta qualidade para qualquer um, em qualquer lugar”, oferece uma coleção grátis de mais de 2.800 vídeos de matemática, ciência, ciências humanas, economia, física, entre outras matérias. Em 2010, a Khan Academy ganhou US$ 2 milhões do projeto 10 100 do Google, para ampliar os tutoriais e traduzi-los para outras línguas.

Atualmente, oferece ferramentas de gamificação, premiando os estudantes por aprenderem os conteúdos bem como fornece aos usuários e também a professores ferramentas para acompanhar o andamento de alunos. As aulas apresentadas podem ser usadas tanto em um ambiente formal de educação quanto em um sistema de educação domiciliar ou mesmo de forma completamente independente e autodidata.

Banco Internacional de Objetos Educacionais – objetoseducacionais2.mec.gov.br [16]

Este Repositório possui objetos educacionais de acesso público, em vários formatos e para todos os níveis de ensino. Os objetos podem ser acessados isoladamente ou em coleções.
Nesse momento o Banco possui 16.082 objetos publicados, 2.220 sendo avaliados ou aguardando autorização dos autores para a publicação e um total de 2.665.657 visitas de 170 países.

Apesar de ter sido desenhado para auxiliar a educação formal, nada impede que seja usado por qualquer indivíduo para buscar conhecimentos de forma autodidata. O Banco de Dados possui conteúdos em diversos formatos: Animação/Simulação, Áudio, Vídeo, Hipertexto, Experimento Prático, Imagem, Mapa e Software Educacional. Pode ser pesquisado em vários idiomas e também por nível de ensino.

Appropediaappropedia.org [17]

A Appropedia é uma wiki criada com o objetivo de apresentar soluções colaborativas nas áreas de sustentabilidade, tecnologias apropriadas e redução da pobreza. Ao mesmo tempo, ela é uma plataforma de auto-aprendizagem acerca das técnicas ali apresentadas.

Na Appropedia se pode aprender sobre técnicas de bioconstrução, conservação de alimentos, extração de óleos vegetais em pequena escala, produção doméstica de energia, fogões solares e outras técnicas e soluções de fácil reprodutibilidade.


Repositórios do tipo “Aprenda a fazer por sua própria conta”

Instructables – instructables.com [18]

O Instructables é uma plataforma de documentação online em que pessoas compartilham o que fazem e como fazem, além de aprenderem e colaborarem com outros. Nele, você encontra tutoriais detalhados em texto, imagens e pdf sobre como fazer de quase tudo, desde como fazer um chapéu “Ataque de um Tubarão” [19], passando por como fazer um delicioso Onde Onde (sobremesa típica da Malasia) [20] até como fazer um gerador eólico que produza 1000W de potência [21].


Shred Academy – shredacademy.com [22]

A Shred Academy é um exemplo bem específico de como o autodidatismo pode se espalhar em várias áreas do conhecimento. Neste caso específico, a Shred Academy especializou-se em ensinar, com vídeos de alta qualidade, bastante detalhados e com ótima didática, sobre como se deve tocar guitarra.

Vários guitarristas-professores voluntariam seu tempo para compartilhar seus conhecimentos em aulas que variam desde conceitos mais básicos sobre tons e escalas até conhecimentos avançados, que há uma década atrás só teríamos acesso através da aquisição de complicados métodos de música oud e aulas particulares com professores ou conservatórios musicais.


Lifehacker – lifehacker.com [23]

O site do Lifehacker é uma coleção de dicas, truques e materiais para download sobre como fazer as coisas de uma forma eficiente, para melhorar a vida. É um site para a turma do “faça-você-mesmo”, o coração da aprendizagem informal e do autodidatismo.

Um local para aprender desde “como encontrar comida comestível e água potável na cidade”, passando por “como permanecer seguro durante um desastre”, até “como começar a entrar em forma com 20 minutos por dia”.




Bibliotecas Livres

AAAAARG.ORG – aaaaarg.org [24]

AAAAARG é uma plataforma de conversação que funciona como uma escola, como um grupo de leituras e como um jornal, dependendo de como você interage com ela. Foi criada com a intenção de desenvolver um discurso crítico fora de uma estrutura institucional. Entretanto, ela é construída em cima das arquiteturas já existentes, ou seja, ela se apropria de publicações e construtos já publicados e os utiliza de forma a liberar espaços e instâncias de comunicação e saber.

Em outras palavras, utiliza todo e qualquer tipo de conteúdo que seus membros julgam apropriados para a auto-aprendizagem e se apropria deles, independente de possuirem ou não copyrights. Em função disso, o antigo site aaaarg.org foi fechado por determinação judicial, surgindo em seu lugar quase instantaneamente o aaaaarg.org, ainda disponível online e crescendo. Talvez seja uma das melhores bibliotecas de “literatura crítica” atualmente disponíveis, com conteúdo na íntegra.

The Anarchist Library – theanarchistlibrary.org [25]

Uma biblioteca online que visa compular todo conteúdo digitalmente disponível no que diz respeito a livros, ensaios, histórias e artigos sobre o pensamento anarquista. Utilizam-se somente de softwares livres e formatos abertos, além de oferecerem uma ferramenta chamada de Book Builder, que permite aos usuários criarem seus próprios livros com o conteúdo que selecionarem da biblioteca.

Ambientes e Plataformas que favorecem a Livre Aprendizagem Online

UDEMY – udemy.com [26]

Udemy é a “Academia de Você” (“youdemy”, em inglês). Ela possibilita que qualquer pessoa possa aprender ou criar cursos online. O objetivo da plataforma é democratizar a educação e permitir que qualquer pessoa possa aprender com especialistas renomados ou auto-entitulados e também compartilhar seu conhecimento. Os professores ou instrutores podem usar vídeos, slideshows, pdfs, audio, arquivos zip e aulas ao vivo para construir um curso e compartilhar seus conhecimentos.

Os estudantes podem fazer cursos dentro de áreas variadas como negócios e empreendedorismo, artes, saúde, línguas, música, tencologia, economia e outros.

A maior parte dos cursos é gratuita, mas alguns são pagos, e o valor varia na faixa entre 5 e 250 dólares.



The Faculty Project – facultyproject.com [27]

Professores de várias universidades renomadas terão seu conhecimento compartilhado gratuitamente a partir deste projeto. Todos cursos serão gratuitos com inscrições abertas para qualquer um com uma conexão à internet, via computador, tablets ou smartphones.

Os cursos são dados através de vídeos ou slideshows narrados pelos professores, e contam com um sistema de comentários, um fórum e um sistema de avaliação das aulas, possibilitando a interação entre os usuários e os instrutores.



Academic Earth – academicearth.org [28]

O Academic Earth foi criado para levar conhecimento gerado dentro de Universidades pelo mundo para todas as pessoas. Aulas tradicionais, dadas dentro das universidades, são registradas em vídeo e compartilhadas como REAs para quem tiver acesso ao portal. Universidades como Berkeley, Columbia, Georgetown, Harvard, Michigan, MIT, Princeton, Stanford, UCLA e Yale estão entre algumas que fazem parte do projeto.

Assim como em tantos outras iniciativas que estão liberando conteúdo gratuitamente pela internet, no Academic Earth perguntaram-se quais são as barreiras que impedem uma educação global de qualidade. Para resolver a questão, propuseram-se a construir um ecossistema educacional que possibilite aos usuários pelo mundo a facilmente encontrarem, interagirem e aprenderem com cursos e aulas em vídeo de professores de grandes Universidades. Seu objetivo é concentrar em um lugar este conteúdo e criar um ambiente o qual seja muito fácil de usar e no qual as contribuições dos usuários tornem o conteúdo existente cada vez mais valioso.




P2PU – p2pu.org [29]

A P2PU é um ambiente de aprendizagem online em que podemos aprender com outras pessoas, de forma gratuita.

Na P2PU as pessoas trabalham juntas para aprender um tópico em particular, completando tarefas, observando e avaliando trabalhos individuais e em grupo e oferecendo uma retroalimentação construtiva.

Ela tenta fornecer um modelo de estudo continuado apesar e além da educação formal terciária, utilizando a internet e materiais educacionais amplamente disponíveis online, além de buscar criar um sistema de acreditação baseado nos “peers”. Assim como nas comunidades open source, os participantes de um grupo de aprendizagem oferecem avaliações uns aos outros, revisando e melhorando o trabalho de cada um. Parceiros de curso irão acessar o trabalho uns dos outros e a P2PU irá conferir certificados para sinalizar que uma pessoa concluiu um determinado curso. Isso será feito a despeito da valoração por parte de “certificadores oficiais”, fazendo com que, pelo menos por ora, os certificados da P2PU sejam mais “trabalhos de arte” do que “graus de acreditação”.

OCW – Open Courseware


OpenCourseWare, também identificado com a sigla OCW, é um termo aplicado aos conteúdos, gerados pelas universidades, e compartilhado livremente para todos pela internet. O movimento OCW foi liderado pelo MIT em outubro de 2002 pelo lançamento do MIT OpenCourseWare.
A partir deste movimento do MIT, várias outras universidades começaram a criar os seus próprios projetos OCW. Hoje já existem mais de 200 universidades do mundo trabalhando neste novo conceito de liberar o conhecimento gerado na academia para todos. Uma perfeita socialização do conhecimento disponibilizando-o tanto para professores, alunos e autodidatas do mundo todo.
De acordo com o OCW Consorcium solicita-se que alguns requisitos sejam seguidos, tais como:

  • Não pode ter fins comerciais;
  • Deve incluir uma referência à instituição que o publica originalmente e, caso seja procedente, o nome do autor do material;
  • O material resultante do uso do OCW deve ser livre para utilização por terceiros e ficará sujeito a estes mesmos requisitos.


O MIT OCW [30] é uma plataforma que fornece gratuitamente anotações de aulas, provas e vídeos do MIT. Não requer nenhum tipo de registro para acessar e é aberto ao mundo.

Oferece materiais de cursos dados no MIT que refletem quase todos os assuntos de graduação ensinados no MIT, sem no entanto oferecer qualquer tipo de grau ou certificação, tampouco acesso às dependências das faculdades do MIT ou ao conteúdo completo dos cursos. Permite a cada usuário que acompanhe os materiais no seu próprio ritmo.

Segundo informações do próprio MIT, cada curso que é publicado requer um investimento de 10 a 15 mil dólares para compilar o material, garantir um licenseamento adequado para o compartilhamento aberto e formatar os materiais para distribuição global. Cursos com materiais em vídeo custam cerca de duas vezes mais.

No Brasil, a FGV é a primeira Instituição de Ensino brasileira a apresentar um projeto OCW.

Seguem algumas referências de alguns dos diversos OCWs disponíveis atualmente:


Essa tendência parece só estar crescendo. Cada vez mais Universidades estão oferecendo cada vez mais cursos de forma livre e gratuita. Recentemente foi publicada uma lista com mais de 400 cursos gratuitos disponíveis [31], oferecidos por Universidades de renome, em áreas tão diversas como Arqueologia, Arquitetura, Arte e História da Arte, Economia, Cinema, Geografia, História, Jornalismo, Direito, Saúde Pública, Literatura, Música, Filosofia, Ciências Políticas, Relações Internacionais, Sociologia, Astronomia, Química, Medicina, Biologia, Ciências da Computação, Inteligência Artificial (e a lista não para)…

iTunesU – apple.com/education/itunes-u [32]

O iTunes U é um serviço da Apple que permite a educadores de Universidades ou Escolas desenhar e realizar cursos completos em áudio, vídeo, livros, apresentações, pdfs, livros em formato epub e outros conteúdos e distribuí-los de forma gratuita para seres acessados por estudantes e aprendizes de todos os lugares, acessíveis através de aplicativos para os produtos da Apple e mais recentemente para produtos Android, tornando-os assim Recursos Educacionais Abertos.

Os cursos podem ter um índice, quizzes e outros questionários. O material enviado é hospedado pela Apple e disponível a qualquer um com acesso a web. O material pode ser compilado de seu arquivo pessoal, da internet ou de um bando de dados da própria iTunes U, incluindo mais de 500 mil arquivos em audio e vídeo de musus, universidades, instituições culturais e outras fontes.

Atualmente já se encontram cadastrados materiais de universidades como Stanford, Yale, Oxford e Berkeley, entre outras e de instituições como o MoMA e a Biblioteca Pública de Nova Iorque.



Ambientes e Plataformas que favorecem a Livre Aprendizagem Presencial

School of Everything – schoolofeverything.com [33]

A “Escola de Tudo” é mais uma plataforma que permite a professores, organizações e indivíduos compartilharem conhecimento, muitas vezes de forma gratuita e outras de forma paga.

Não existe nenhum tipo de parâmetro pré-estabelecido, e você pode encontrar aulas sobre assuntos tão variados quanto yoga, artes marciais e criação de jóias. Entretanto, diferente de outros sites, ela não é uma plataforma de e-learning: ela apenas facilita o encontro de pessoas, ela funciona como um ponto de encontro entre quem quer aprender e quem tem algo a ensinar e promove encontros reais entre as pessoas.

Ao se cadastrar, informa-se quem você é, quais são os seus interesses e o site ajuda a encontrar professores e aulas perto de onde cada pessoa mora. Da mesma forma, o site ajuda a professores a acharem alunos para aquilo que gostariam de ensinar.

A inspiração para a Escola de Tudo foi a Free U, na Califórnia. Reza a lenda que em 1960 um grupo de pessoas colocou uma folha em branco em um quadro de notícias pedindo o que as pessoas poderiam ensinar e uma vez que os assuntos foram listados e existiam pessoas suficientes para cada um dos assuntos disponíveis eles organizavam as aulas.

Totalmente de acordo com o espírito do autodidatismo e do aprendizado informal, eles acreditam:

1. Que todos tem algo a ensinar
2. Que todos tem algo que podem ensinar a alguma outra pessoa
3. Que todos tem sua própria forma de aprendizado
4. Que é melhor aprender da forma que gostamos. Nós sabemos o que nos cai melhor.
5. Aprender é melhor com amigos.
6. As pessoas são brilhantes, inspiradoras, generosas e espertas. Estar com outros torna mais fácil e divertido aprender mais.
7. Você não deve parar nunca de aprender.
8. Você pode continuar aprendendo independentemente da sua idade, muito além de seus dias de escola.
9. A educação não deve ser cara.
10. Com um pouco de ingenuidade você pode aprender coisas novas sem gastar toneladas de dinheiro.
11. Todos os sujeitos são importantes.
12. Aprender é aprender, e aprender é bom. Saber como consertar um plug é tão valoroso quanto entender funções trigonométricas inversas.
13. Qualificações são supervalorizadas.
14. Uma boa educação é sobre as coisas que você aprender pelo caminho, não um pedaço chique de papel.
15. O mundo real é melhor do que a internet.
16. Afaste-se do seu computador, por favor. Sair e tentar coisas novas é melhor do que ficar sentado em frente ao computador o dia inteiro.


Trade School – tradeschool.ourgoods.org [34]

Na “Escola das Trocas“, cada conhecimento passado é trocado por algo que pode ser oferecido. É também um exercício prático de economia solidária, em que se pratica a sabedoria, o respeito mútuo e a natureza social das trocas.

Ao invés de trocas simples entre produtos e coisas, a Trade School favorece trocas entre conhecimento e coisas ou serviços. O primeiro ciclo de aulas aconteceu em março e abril de 2010, e mais de 800 pessoas participaram de 76 aulas, que variaram de como iniciar uma compostagem a como viver como ghost writer. Em troca das instruções, os professores receberam de tudo um pouco, desde sapatos de corrida, CDs, cartas a um estranho e queijo cheddar.

Em resumo, é um espaço de convivência em que o conhecimento é o centro das atenções, mas em que as pessoas se reúnem em torno dos interesses e paixões comuns que compartilham com outros.

The Public School – thepublicschool.org [35]

The Public School é uma escola sem currículo. Bastante inspirada no modelo de Teias de Aprendizagem proposto por Ivan Illich, ela funciona da seguinte forma:

Primeiro, as aulas são propostas pelos usuarios (eu quero aprender isso, ou eu quero ensinar aquilo); então, as pessoas podem se cadastrar para as aulas (eu também quero aprender isso); finalmente, quando pessoas suficientes tiverem expressado seu interesse, a escola acha um professor e oferece uma (ou mais de uma) aula sobre o assunto proposto para aqueles que se cadastraram. Funciona, assim como a School of Everything e a Trade School, no nível local, com encontros presenciais.

A The Public School não é uma escola acreditada, não fornece diplomas, não tem afiliação com o sistema educacional formal. Apenas é uma plataforma que dá suporte a atividades autodidatas, operando de acordo com a assunção de que tudo está em tudo.

Atualmente, existem instâncias da The Public School em Berlim, Bruxelas, Durham, Los Angeles, Nova Iorque, Helsinque, Filadélfia e San Juan. Muito aprendizado pode ser tomado a partir das referências deixadas nos comentários das aulas propostas e seria muito interessante se os encontros e os grupos de estudo fossem registrados em formato de áudio ou vídeo.

Nós Vc – nos.vc [36]

O Nós.vc é uma plataforma de intermediação de aprendizagem, parecida com o The Public School, entretanto com a intermediação organizada pelos administradores do site e os cursos pagos pelos usuários que querem aprender algo. Para inaugurar a tendência, cunhou-se o termos crowdlearning, ou seja, uma plataforma que agrega pessoas com interesses de aprendizagem comuns e tem seu desejo atendido através da plataforma.



Ambientes de co-criação de saberes

Adote um parágrafo – adoteumparagrafo.pbworks.com [37]

Adote um parágrafo foi um projeto aberto para traduzir para o português e disponibilizar na rede textos sobre comunicação e internet desenvolvido por Juliano Spyer.

A idéia foi inicialmente proposta pelo Twitter em 24 de março de 2009 como um experimento. No dia seguinte os 31 parágrafos estavam traduzidos e o texto, pronto para ser publicado. Este wiki é uma continuação dessa proposta para verificar se é possível fazer essas traduções regularmente e criar um repositório online (aberto, obviamente) desse conteúdo.

No momento encontra-se parado mas pode ser reativado ou replicado.


Ferramentas de busca e agregação

Class Central – class-central.com [38]

Class Central é um agregador dos OCW disponíveis em Stanford, MIT e na Udacity, com o intuito de centralizar a oferta de cursos e facilitar ao aprendiz a escolha do que ele realmente deseja cursar. Como todos os demais, não oferece nenhum tipo de crédito universitário, apenas conhecimento gratuito advindo de uma Universidade conceituada.

Ambientes de inspiração

TED ted.com [39]

O TED é uma organização sem fins lucrativos dedicado a Ideias que merecem ser espalhadas. Iniciou em 1984 como uma conferência fazendo convergir pessoas de três mundos: Tecnologia, Entretenimento e Design. Desde então seu foco se tornou cada vez mais amplo e, além das 2 conferências anuais, em Long Beach e Palm Springs em cada primavera, e uma conferência global em Edimburgo a cada verão, o TED possibilita a criação de TEDx, eventos descentralizados organizados sob o mesmo modelo de conferência, com cerca de 18 minutos ou menos para cada apresentador falar sobre sua ideia, seu projeto e sua vida.

Todas as apresentações são então compiladas, é feita uma tradução em várias línguas e disponibilizada na forma de subtítulos juntamente com os vídeos, que são distribuídos sob uma licença Creative Commons BY-NC-ND, de forma que possam ser compartilhados e postados em outros lugares.

TED-Ed – http://www.youtube.com/user/TEDEducation [40]

É uma campanha do TED que solicita professores a compartilharem suas melhores aulas. Depois de selecionadas, as aulas passam por um processo de animação e são aprimoradas antes de passarem a ser usufruidas publicamente. É uma espécie de espaço para capturar e amplificar a voz dos melhores professores do mundo, com a curadoria dos usuários da internet e por todos aqueles interessados em educação, que podem indicar estes professores e difundir suas aulas.


Comunidades de Criação e Compartilhamento de REAs

Le Mill – lemill.net [41]

A Le Mill é uma comunidade internacional dedicada a encontrar, criar e compartilhar recursos educacionais abertos. Funciona como uma rede social e apresenta Conteúdos, Métodos e Ferramentas baseados em REAs.

Escola de Redes – escoladeredes.net [42]

A Escola de Redes é um espaço para aprendizagem sobre redes sociais, relações não hierárquicas e criação e transferência de tecnologias de animação de redes. Como diz Augusto de Franco, seu idealizador: “A escola é a rede”.

A Escola de Redes apresenta uma série de documentos, textos, artigos e livros para download e leitura online, bem como promove discussões e debates sobre assuntos relacionados ao tema Redes.

Neste momento, está em processo de instalação de espaços físicos de co-criação, denominados de Dojo-Nave.

Open Source Ecology – opensourceecology.org [43]

O Open Source Ecology é uma rede de fazendeiros, engenheiros e apoiadores que estão desenvolvendo um “Kit de Construção de uma Aldeia Global”. Também chamado de GVCS (Global Village Construction Set), este Kit é um plataforma de alta performance modular, de baixo custo, estilo faça-você-mesmo que permite a fabricação de 50 Máquinas Industriais diferentes, que objetivam construir uma pequena e sustentável civilização com os confortos da modernidade.

Entre as ferramentas que estão sendo desenvolvidas e ensinadas estão um, uma impressora 3D, um gerador de calor, um scanner 3D, um gerador eólico de 50kW, um modelador de plásticos e um automóvel, todos open source, ou seja, com seus “códigos livres” para poderem ser replicados, a baixo custo.

Nuvem de Soluções – nuvem.coolmeia.org [44]

A Nuvem de Soluções é uma rede social criada em torno de um banco de dados de tecnologias sociais e de tecnologias de aprendizagem autônomas a serem apropriadas por indivíduos, coletivos e organizações para um processo de mudança social, ambiental e cultural.

Apresenta iniciativas pautadas pelo pensamento convivial e solidário, buscando a criação de Capital Social e Bem Comum, gerando justiça social e ambiental, resiliência comunitária e sustentabilidade planetária, através do compartilhamento, aperfeiçoamento e criação de modelos, técnicas, ferramentas e atitudes que reproduzem os princípios elencados anteriormente.

Os indivíduos que constituem a rede pesquisam e adaptam soluções que promovem regeneração social, ambiental e inovação ou preservação cultural, compartilhando os resultados de suas pesquisas, impressões e práticas, além de usarem a rede como ferramenta de comunicação para a aplicação em suas comunidades das estratégias e modelos aprendidos.

“Você não pode ensinar nada a ninguém. Você apenas pode ajudá-lo a descobri-lo dentro de si mesmo.”

Galileu Galilei


Os exemplos não param por aí. Poderíamos produzir um livro tão somente com exemplos de espaços atualmente disponíveis para um ser humano aprender por conta própria ou com auxílio de seus pares, sem necessitar de nenhuma instituição formal. Como toda lista, ela não pretende elencar todas iniciativas que estão revolucionando a forma de aprender de forma livre e aberta hoje.

Se deseja compartilhar alguma iniciativa que você acredita que deva ser lembrada , fique à vontade para incluir novas iniciativas na página wiki do REA-Brasil, no endereço http://reabrasil.wikispaces.com/Recursos+Educacionais+Abertos+na+Aprendizagem+Informal+e+no+Autodidatismo (ou http://bit.ly/reaauto)


E o futuro? Ao que tudo indica, o novo se transforma mas não necessariamente substitui o velho. É chegada a vez dos REA, cada vez mais usados e disseminados. A Educação se torna construtiva, combinatória e aberta, bem como o seu próprio futuro.

Para ilustrar a dinamicidade do mundo atual, enquanto concluo este texto, em um canto do planeta, Howard Rheingold está tentando organizar a literatura atualmente disponível sobre “peeragogy”, ou seja, a pedagogia do alterdidatismo, sobre como podemos aprender de forma auto-organizada com nossos pares [45]. Em outro canto, pesquisa-se como um aprendiz escolhe conectar-se com outros aprendizes de forma a criar sua rede pessoal de aprendizado [46]. Propostas ainda inovadoras, como a Sala de aula invertida, ou Flipped Classroom, prometem ser ainda experimentadas, favorecendo uma espécie de “reforma” ou “revitalização do sistema escolar atual. [47] Nesse modelo, os alunos aprendem em casa e fazem as atividades e tarefas na Escola, com uma orientação posterior sobre aquilo que aprenderam. O professor não é mais o centro do aprendizado, mas aquilo que os jovens, por conta própria, decidem como as melhores ferramentas para aprender por si mesmos.

Esses são apenas alguns esboços do mundo que o aprendizado distribuído, em rede, gerido pelos próprios aprendentes está ajudando a construir. Uma miríade de possibilidades está nascendo das experimentações autônomas de indivíduos em uma sociedade cada vez mais conectada mas também sobrecarregada de informações.

Nunca foi tão difícil realizar um exercício de futurologia e saber o que vem por aí.

Como dito anteriormente, as habilidades necessárias para navegar satisfatoriamente pelo mundo atual não necessariamente passam pelos saberes transmitidos na educação formal. Captar o pensamento emergente, extrair padrões, regras e protótipos das experiências vividas; buscar significados, a verdade, a pertinência, objetivos e metas; interpretar e usar adequadamente os símbolos, sinais, a arte e o design para fazer as coisas e ver além; descrever, definir, elaborar conclusões e explicar os dados;  exercitar uma sensibilidade ecológica, a colocação de algo dentro de seu contexto, perceber o sentido das coisas, viver a mudança, ter compreensão do fluxo, a adaptação e a progressão das coisas, todas são coisas que podemos apreender sem um aprendizado formal, nos lembra Stephen Downes. Mas todos estes saberes e sentires requerem de cada um algo que parece estar em falta nos dias de hoje: atenção e paixão. Foco para definir o que se quer buscar e e desejo real para ter a perseverança necessárias para conquistar o que se almeja.

Em 1946, Viktor Frankl escreveu seu famoso livro “Em Busca do Sentido” [48], no qual nos exortava a perceber que, quando não temos um horizonte a perseguir, é muito mais fácil quedarmos às vicissitudes da vida, e a alegria e contentamento em viver mais facilmente dão lugar à apatia, à tristeza e mesmo ao desespero. É talvez nesse sentido que Eduardo Galeano se refere à busca das utopias, aquelas instâncias do viver e do sonhar que nos fazem voar alto e nos fazem sentir vivos e humanos:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

E é também nesse sentido que temos que entender os Recursos Educacionais Abertos: como uma ferramenta de aprendizado em constante diálogo com a Natureza e com os construtos da humanidade. Inextricavelmente ligados, seguem em um processo histórico e dialógico que não pode ser congelado ou encerrado em matérias, campos de conhecimento estáticos, disciplinas e outras categorizações artificiais que estão longe de conseguir representar a visão sistêmica e viva do Mundo. É tão somente a partir de uma relação sempre aberta, permeável e em rede entre conhecimentos e seres desejantes de saber, aprendendo a respeitar a multiplicidade de saberes não formais que se inserem na realidade das relações humanas, que poderemos caminhar juntos enquanto seres sociais que somos.

Há ainda algumas equações a resolver, mas quem sabe o companheiro aí do lado não tem uma parte da resposta?








Referências:

[1] Ivan Illich – Sociedade Desescolarizada – http://reinehr.org/anarquia-e-escritos-libertarios/apontamentos-anarquistas/ivan-illich-sociedade-desescolarizada

[2] Carta das Cidades Educadoras – http://www.fpce.up.pt/ciie/OCE/docs/Cartadascidadeseducadoras.pdf

[3] Edupunk – http://en.wikipedia.org/wiki/Edupunk

[4] Tools for Conviviality – http://opencollector.org/history/homebrew/tools.html

[5] Ivan Illich – Sociedade Desescolarizada – http://www.preservenet.com/theory/Illich/Deschooling/intro.html

[6] Augusto de Franco e Nilton Lessa – Multiversidade – Da Universidade dos anos 1000 à Multiversidade dos anos 2000 – http://www.slideshare.net/augustodefranco/multiversidade-10753463

[7] MOOC – Massive Open Online Course – http://mooc.ca/

[8] Power does not reside in institutions, not even the state or large corporations. It is located in the networks that structure society – http://www.demos.co.uk/files/File/networklogic17castells.pdf

[9] Helen McCarthy, Paul Miller, Paul Skidmore – Network Logic – http://www.demos.co.uk/publications/networks

[10] Conectivismo – http://en.wikipedia.org/wiki/Connectivism

[11] Wikipedia – wikipedia.org

[12] – Wikipedia, pela própria Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia

[13] Knol – knol.google.com

[14] MERLOT – merlot.org

[15] Khan Academy – khanacademy.com

[16] Banco Internacional de Objetos Educacionais – objetoseducacionais2.mec.gov.br

[17] Appropedia – appropedia.org

[18] Instructables – instructables.com

[19] Como fazer um chapéu Ataque de um Tubarão – http://www.instructables.com/id/Shark-Attack-Hat/

[20] Como fazer Onde Onde – http://www.instructables.com/id/Onde-Onde-Malaysian-Coconut-Balls/

[21] Como fazer um gerador eólico – http://www.instructables.com/id/DIY-1000-watt-wind-turbine/

[22] Shred Academy – shredacademy.com

[23] Lifehacker – lifehacker.com

[24] AAAAARG.ORG – aaaaarg.org

[25] The Anarchist Library – theanarchistlibrary.org

[26] UDEMY – udemy.com

[27] The Faculty Project – facultyproject.com

[28] Academic Earth – academicearth.org

[29] P2PU – p2pu.org

[30] MIT OCW – ocw.mit.edu/courses

[31] Artigo com links para mais de 400 cursos online gratuitos – http://www.openculture.com/freeonlinecourses

[32] iTunesU – apple.com/education/itunes-u

[33] School of Everything – schoolofeverything.com

[34] Trade School – tradeschool.ourgoods.org

[35] The Public School – thepublicschool.org

[36] Nós Vc – nos.vc

[37] Adote um parágrafo – adoteumparagrafo.pbworks.com

[38] Class Central – class-central.com

[39] TED ted.com

[40] TED Ed – http://www.youtube.com/user/TEDEducation

[41] Le Mill – lemill.net

[42] Escola de Redes – escoladeredes.net/

[43] Open Source Ecology – opensourceecology.org

[44] Nuvem de Soluções – nuvem.coolmeia.org

[45] Literature review of material related to self-organized peer learning (“peeragogy”) – http://bitly.com/peeragogy_2012


[46] Understanding personal learning networks: Their structure, content and the networking skills needed to optimally use them – http://bit.ly/redesdeaprendizado

[47] Flipped Classes – http://www.mentormob.com/learn/i/articles-about-the-21st-century-education

[48] Man’s Search for Meaning – http://en.wikipedia.org/wiki/Man’s_Search_for_Meaning




Mai 25

Mantra do dia: Meu filhão está cada dia mais lindo!

By Rafael Reinehr | Benjamin

Meu filho está cada dia mais lindo. E esperto. E sapeca! É impressionante como aprende rápido. E depois dizem que precisamos de professores… Precisamos é de educadores, de aprendentes, de pessoas que aprendam conosco.

Meu filho me ensina a cada dia como quer aprender, como deve ser seu aprendizado. E, aprendendo com ele, preciso ser sábio o suficiente para ouvi-lo e não sufocá-lo com um mundo que é jogado em cima dele através das nossas lentes, maltratadas e poluídas lentes de ver o mundo.

Ah, como é bom ser pai. E como é duro ser pai! Ter a consciência de uma vida que, voluntaria ou involuntariamente é moldada pelos estímulos que somos responsáveis por oferecer…

Set 14

O Futuro da Educação em uma Sociedade que se Desescolariza

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Para que o sonho de Ivan Illich não se transforme no pesadelo de Ivan Illich, temos que atentar para um aspecto da educação horizontal e do autodidatismo:

Quando escuto meus pares proclamarem que o futuro das da educação encontra-se nas redes de educação informal, no auto e alterdidatismo e na horizontalidade do aprendizado, tenho uma sensação de estranhamento pois, ao que parece esse futuro já chegou.

O grau de interconectividade dos nossos pequenos e jovens é assombroso, entretanto, a liberdade é a tamanha a a oferta de serviços não educativos da mesma forma que, até o momento, o que esta capacidade de conexão está trazendo é uma aparente redução da inteligência individual. Ouvimos falar das maravilhas da tecnologia e toda potência e possibilidade inerentes à Web 2.0, 3.0 e 4.0 – mas, do jeito que andamos, a Humanidade 4.0 não será aquela que gostaríamos de vislumbrar.

Um amigo, professor de literatura de um cursinho pré-vestibular há mais de 20 anos, comentou que, a cada ano, os alunos parecem mais burros, cada vez menos preparados. Analisando por outro ponto de vista, talvez o que realmente esteja acontecendo é que eles estejam cada vez menos INTERESSADOS no que ele, professor de Literatura, tem a oferecer.

Talvez eles queiram seguir por outros caminhos, de acordo com seus próprios interesses.

A liberdade plena (ou quase) que essa nova situação educacional que se configura apresenta nos traz também um questionamento: até que ponto será que a possibilidade de um mundo no qual a primazia da autodidatismo estará vigente é algo benéfico? Existe alguma ferramenta para medir o futuro sem que façamos uma experiência social? Onde estas experiências já estão sendo feitas? Estão dando certo? Quais os resultados mesuráveis e o que aprendemos com isso?

Como as pessoas  estão , de forma crescente, aprendendo umas com as outras, as universidades começaram a perder o monopólio do aprendizado superior, que pode ser encontrado no outro, em iniciativas privadas e também em iniciativas sem fins lucrativos.

Estamos acompanhando crescer gradualmente o fenômeno da acreditação p2p, em que os próprios pares certificam as habilidades e competências de algo que foi aprendido. É um modelo novo, e pode-se dizer que está em fase “beta”, mas devemos ficar de olhos atentos com seus desdobramentos.

Uma questão interessante que vem com o aumento da capacidade de aprendizado é justamente o aumento da oferta de pessoas “letradas” ou “capazes” de desempenhar dadas funções. O crescente número dessas pessoas somado a dificuldades de monetização (limite da demanda), cria um desequilíbrio entre a inovação social de uma sociedade civil cada vez mais autônoma e o mercado que se beneficia dela. Isso significa que as próprias universidades estão co-produzindo uma força de trabalho precária, a altos custos. A isso podemos chamar de “crise de valor”

O lado negro da autonomia do aprendizado diz respeito justamente aquela porção da população que tem dificuldade em se conectar, ou que não tem habilidades cognitivas para a participação online (sem contar a porção de pessoas “desconectadas digitalmente”). Esse aspecto reforça a necessidade de garantirmos amplamente competências de rede em todas as camadas da população.

Ao mesmo tempo em que a internet cria muitas possibilidades para liberar a educação das limitações de tempo e espaço e pode aumentar o acesso ao aprendizado, também é verdade que a educação online tem suas próprias formas de socialização. A educação virtual, entretanto, ainda parece requerer a existência de locais físicos para contato humano face a face.

A criação cada vez maior de REAs (Recursos Educacionais Abertos), obras disseminadas sob Licença Creative Commons ou similares, Open Textbooks e afins possibilitará, cada vez mais, a apropriação de conhecimento por parte do autodidata e mesmo do aluno que estiver em uma escola hierárquica tradicional.

A educação, com o tempo, se torna construtiva: muito mais do que aprender à distância, as novas conquistas tecnológicas possibilitam a co-criação de valores. Elas oferecem a oportunidade de criar uma edicação que é diretamente produtora de valores sociais, ao invés de uma atividade separada da vida real. Os estudantes podem se tornar parceiros na produção de inovação social, interligados com comunidades profissionais e apaixonadas, trabalhando em projetos comuns para o avanço da humanidade.

A educação está se tornando combinatória: aprender de forma p2p não necessariamente substitui outras formas de aprendizado, mas cria várias possibilidades: se pode aprender sozinho, aprender de experts e aprender através do contato com outros. Estas formas não são excludentes, podem coexistir.

Aprender de forma informal, de forma auto ou alterdidata não significa que o futuro da educação está definido e que podemos prever o que virá pela frente, ou que as universidades e escolas como hoje as conhecemos irão desaparecer. Ao invés disso, significa que temos mais possibilidades para co-criar o futuro da educação. O futuro da educação é aberto!

Set 13

Carta aos amigos paulistanos

By Rafael Reinehr | Cotidianices

Meus amigos,

Estou zarpando para São Paulo hoje à noite, para participar do Seminário A Sociedade em Rede e a Educação. Fico aí de 14 a 18 de setembro. Não sei bem ao certo como vai ser a logística do evento tampouco meu tempo livre, mas seria interessante um encontro para “desvirtualizar” nossa relação.

Se alguém estiver no Seminário Vivo, por favor me procure: sou o baixinho de óculos com gravata borboleta verde-limão, camisa grená e calça de veludo cor de cáqui. Para a eventualidade de mais alguém estiver vestido assim, vou estar com um relógio no pulso esquerdo, para me diferenciar da multidão.

Um abraço e até breve,

Rafael Reinehr

Set 09

Da Cidade Analógica, à Cidade Digital, à Cidade Educadora – Caminhos Possíveis

By Rafael Reinehr | Ideias

Comecei hoje na Coolmeia uma proposta de discussão acerca de Cidades Educadoras. O objetivo é colher ideias em busca da criação e adaptação das cidades em busca de mecanismos que possam tornar cada experiência dentro da cidade um momento de aprendizado. Uma ida ao restaurante pode contemplar lições de gastronomia ou sobre a culinária típica local. Uma ida ao banco, uma chance de ver uma exposição fotográfica ou pictórica, ou ainda a chance de aprender sobre moedas sociais e  economia solidária.

Essa transição é um caminho tortuoso e difícil, mas que encanta só de imaginar. Imagine uma cidade que se comporte tal qual um museu, tal qual uma escola (mas daquelas que você deseja comparecer!).

Um tanto de Utopia e um tanto de realidade, assim vamos caminhando.

Ago 31

Teias de Aprendizagem – Rede de Escolas Livres

By Rafael Reinehr | Ideias

A Coolmeia, Ideias em Cooperação está desenvolvendo, com a ajuda de um belo time de colaboradores, um projeto que chamamos de Teias de Aprendizagem – Rede de Escolas Livres.

Inspirados em Ivan Illich e sua ideia de “desescolarizar a sociedade”, estamos criando uma ferramenta que possibilite aos indivíduos e coletivos promover aulas, cursos e oficinas de forma descentralizada, autônoma e autogerida, sainda da lógica Institucional para uma lógica que favorece o auto e alterdidatismo.

O vídeo abaixo foi enviado como parte do formulário de inscrição para o Festival de Ideias Inovadoras em Educação e, se aprovado, o projeto será apresentado no dia 15 de setembro durante o Seminário A Sociedade em Rede e a Educação, apoiado pelo Instituto Vivo.

Dedos cruzados. Atualização em 08/09/2010: o projeto foi selecionado para apresentação. Seria ótimo conseguir o máximo de apoio para desenvolver este projeto. Junte-se a nós.