Tag Archives for " grande! "

Jul 09

Desafio aos Holísticos: Vamos Pensar em Política? – por David Pacine

By Rafael Reinehr | Carta a um torpe blogueiro

Recebi ontem uma carta do amigo Davi Pacine, contando-me sobre um evento ao qual eu gostaria de ter comparecido em Palmas – TO. Ao que tudo parece, pelo relato do amigo, foi muito bla-bla-blá e poucas propostas efetivas de ação para mudança social. Vejam o que ele me escreveu e abaixo o belíssimo artigo por ele escrito. Leitura recomendadíssima, pela profundidade e relevância da reflexão.

Prezado Rafael,

Recentemente estive participando do Seminário Internacional “Crise Civilizacional”, o qual tive uma pequena decepção. Bem só consegui me livrar dela com um desabafo. O desabafo vai logo abaixo. Se entender que há proveito no contexto do seu espaço virtual, no todo ou em parte, fique a vontade…

Abs

Pacine

Crise Civilizacional

 

Tive a honra de participar do Seminário Internacional “Crise Civilizacional: Distintos Olhares” ocorrido em Palmas-TO, em junho/09. O evento contou com as presenças de pensadores ilustres como o filósofo Edgar Morin, o palenteólogo Michel Brunet, os Senadores Cristóvam Buarque e Marina Silva e muitos outros, brindando o Brasil e o mundo com um consistente diagnóstico da crise sócio-ambiental que acomete o planeta.

 

O diagnóstico, praticamente unânime, já é bem conhecido de todos. Diante da maciça carga de informações científicas já existentes, não há duvida de que nós estamos trilhando o caminho errado. Numa síntese realista, o Senador Cristóvam Buarque disse que “estamos indo para o abismo” e, pior, não há sinal algum de uma mudança efetiva de comportamento, pois, para ele, “essa mudança só se faz possível mediante a educação, principalmente dos jovens”.

 

No entanto, apesar da concórdia dos especialistas em relação ao “cataclismo” que se aproxima, o seminário foi marcado por uma forte mensagem de esperança. Morin metaforizou dizendo que estamos navegando a bordo de um imenso “Titanic”, mas acredita que a humanidade será capaz de se salvar passando por um processo de “grande metamorfose”, como “o verme que se enclausura e se desintegra para então mudar seus processos e se transformar em borboleta”. Nesse sentido, o filósofo acha que a sociedade deverá se autodestruir e se recriar, encontrando novos caminhos para o futuro.

 

 

A Dúvida Angustiante

 

Lugar comum a parte, sob os distintos olhares do seminário internacional, um dos painéis de estudo tratou da possibilidade de uma “governabilidade mundial”, o que, entrando na seara da política, algo angustiante me desassossega no bojo do movimento holístico pela construção de uma nova consciência civilizacional. Assim, na oportunidade dos debates, após as brilhantes apresentações, dei vazão às minhas inquietudes e lancei um articulado questionamento. Sem me surpreender – porque já é de costume –, recebi, dos eminentes teóricos, singelas evasivas à guisa de respostas.

 

O que foi que perguntei? Ora, já que a patologia global é reconhecidamente profunda e sistêmica, sua “cura” não pode se restringir às dimensões “econômica” e “ambiental”, que são meramente sintomáticas. A verdadeira cura deve ir além e atuar nas profundas causas social, ética, política, existencial. Então, se este é o sentido da “profunda metamorfose” – questionei – onde está no multidimensional movimento teórico, científico e fático pela salvação do planeta, que se converge para o “projeto de uma nova civilização”, as bases teóricas e a mobilização real para a necessária reconstituição política da sociedade?

 

 

As Evasivas

 

As evasivas, como eu já disse, foram três. Primeiramente eu fui lembrado de que o processo de transformação política só pode ser operado pela via da educação. O segundo palestrante disse que uma grande mudança já está sendo operada “nos bastidores da consciência humana”. O último, por fim, me recordou da bandeira do “cidadão planetário”, para o qual seria ela a grande contribuição do movimento holístico para a formação de uma nova sociedade política.

 

 

Uma Matriz Política Doentia

 

Antes de comentar essas respostas, cumpre destacar alguns rudimentos relativos ao nosso modelo político ocidental. Sinteticamente, não é demais lembrar que a arquitetura iluminista do “estado constitucional moderno” já possui mais de três séculos. Três séculos! Nesse período passamos por drásticas mudanças como as propiciadas pelas revoluções científica, industriais, dos transportes, das comunicações, socialista, quântica, da informação, etc. O mundo mudou tanto que se tornou uma aldeia globalizada e começamos até a acordar, forçosamente, para as questões ambientais. Mas o nosso sistema político continua se arrastando com a mesma caricatura contratualista, que segrega a sociedade das instancias de poder.

 

Obviamente, o problema não reside simplesmente no fato do modelo ser senil ou anacrônico. Na verdade ele é e sempre foi totalmente doentio. Por qual razão? Justamente porque suas bases teóricas são fundamentadas em uma concepção da “natureza humana” terrivelmente amesquinhada e grosseira. As conseqüências desse engodo, nem precisa dizer, são brutalmente devastadoras.

 

 

Qual é a Natureza Humana?

 

Como é a natureza humana? Seria o homem originalmente mau e egoísta, ou ele é bom de fábrica e o “sistema” é quem o corrompe? Essa é uma pergunta filosófica que vem cruzando os milênios sem uma resposta definitiva. Portanto, fundamentar o aparelhamento de instituições públicas baseado em uma opinião reducionista faz-se extremamente perigoso. Exemplo disso? Para o capitalismo o homem é naturalmente egoísta e competitivo, e mais, o consumo é sinônimo de felicidade. Qual a conseqüência? O sistema “produz” pessoas egoístas, competitivas e consumistas que estão devastando o planeta.

 

 

Profecia Autorrealizável

 

Nesse sentido, estudos matemáticos, como a “teoria dos jogos”, tentam decifrar o comportamento humano em ambientes condicionados por múltiplas regras e atores. Uma noção interessante desses estudos é a de que, por exemplo, num ambiente onde reina a desconfiança, a tendência dos indivíduos é de serem egoístas. Outro fenômeno parecido é chamada “profecia autorrealizável” em que a própria “crença” de que algo venha a se realizar é suficientemente capaz de concretizá-lo. Exemplo? O mercado de ações. Quanto mais pessoas acreditarem que os preços irão desabar, maior será a “corrida” dos investidores, acarretando a queda real dos valores dos títulos.

 

Notadamente, não é difícil concluir que não temos uma natureza pronta. Em grande medida, somos produtos culturais do sistema que nós mesmos criamos. Em parte, somos reféns das nossas próprias idéias, a partir das quais criamos instituições, sistemas e superestruturas de poder. Em outras palavras, primeiramente são os homens moldam os “sistemas”, mas logo em seguida, são os sistemas que moldam os homens.

 

Com esse breve preâmbulo, agora podemos examinar o nosso “sistema contratualista” que se constitui como idéia fundante dos ditos “estados constitucionais modernos”. Em seus sutis pressupostos, ele afirma que a sociedade teria, pela via do pacto, reconhecido a sua incapacidade de se auto-organizar. Assim sendo, a sociedade se faz ontologicamente, e por isso perenemente, carecedora de um poder soberano que a pacifique e a conduza. Aceita essa teoria, passamos então a criar instituições detentoras de poderes cada vez mais especializados, que nos controlam e dirigem. Simples assim!

 

 

Um Paradoxo Extraterrestre

 

Todavia, é preciso dizer que o raciocínio contratualista é portador de um paradoxo mortal. Ora, se a sociedade é ontologicamente incapaz de se autogovernar, então quem estaria apto a governar esta sociedade, um extraterrestre? “Não!” – diriam os mais persistentes –, “a sociedade e o próprio estado devem ser dirigidos pela lei e pelas instituições impessoais”. Mas mesmo nesse caso a pergunta continua válida. Quem elaboraria as leis, quem as interpretaria, quem as aplicaria? Os ETs?

 

Talvez seja por isso que Pool Válery disse com tanta propriedade que “a política é a arte de impedir as pessoas de participar dos assuntos que, propriamente, lhes dizem respeito”. Pois bem, se essa frase é portadora de alguma verdade, pergunto aos ambientalistas, como poderemos ser holísticos se os nossos maiores interesses coletivos encontram-se monopolizados nas mãos de pequenos grupos de tecnocratas dirigentes?

 

 

A Construção do Engodo

 

Sem embargo, a doutrina do “estado constitucional moderno” é complementada com mais dois ingredientes importantes. A idéia da “democracia representativa”, a qual nos diz que o exercício do poder soberano é legítimo quando alcançado pela via da eleição. E a idéia da tripartição do poder que, funcionando como um sistema de freios e contrapesos, evita (ou evitaria) a tirania e os abusos de poder.

 

A democracia representativa pode ser um grande refresco para a consciência dos indolentes, já que supostamente transfere a responsabilidade (e também a culpa) de todas as atribuições públicas para pessoas que “em seus nomes” foram autorizadas a exercê-las, porém, na prática, os extraterrestres eleitos orbitam em esferas tão longínquas que nem se lembram dos interesses dos comuns. Aí o alívio se transforma em suplício.

 

Nesse jogo de empurra-empurra, uma questão está sempre em evidência. Por que será que os políticos não exercem o poder em benefício do povo? Seria por mera falta de ética dos ETs patifes? Sinceramente, generalizar é tolice, pois alguns até são muito bem intencionados. O problema não está na falta de ética dos ETs, mas na “ética do sistema” que, volto a dizer, é segregadora e alienante.

 

 

Visão em Paralaxe

 

Se em grande parte somos “produtos do meio”, e esse “meio” é repartido em dois, então temos, inevitavelmente, uma dupla personalidade ou “programação”. Por isso, quem sai da sociedade e ingressa na máquina pública acaba “obrigado” a mudar o seu discurso. A isso o filósofo Slavoj Zizek denomina de “visão em paralaxe”. Ou seja, esse molde civilizatório cindido em “estado” versus “sociedade” é o motor da dicotomia perene governados x governantes, ou simplesmente nós x eles. Desnecessário dizer, mais uma dose de profecia autorrealizável.

 

Nós insistimos em não enxergar o óbvio, teimamos com a velha comodidade, mas a verdade cristalina é que não se faz possível o atendimento dos interesses coletivos pela via da alienação. Por incrível que pareça, é praticamente impossível, mesmo ao melhor dos gestores, exercer o poder em benefício do povo, porque a “máquina do poder” tem sua própria vida, sua própria lógica, seus próprios interesses. Ela vive prioritariamente para atender aos seus próprios fins, deixando em segundo ou terceiro plano as demandas sociais.

 

 

De Volta à Marx?

 

Nessa altura, talvez alguém já esteja pensando que estamos defendendo a bandeira marxista. Ledo engano. A teoria de Marx também é reducionista-economicista, na medida em que se atém muito mais à propriedade dos meios de produção que, para ele, uma vez que esta passasse para as mãos do proletariado, poria fim na dicotomia capital x trabalho. No entanto, a alienação de que falamos não se refere somente da produção laboral, mas ao distanciamento das artes políticas.

 

 

Manobra Invertida

 

Conforme demonstrado, o sofisma da tese contratualista é auto-evidente. Por via de conseqüência, a teoria da democracia representativa, que apenas pretende “legitimar o contrato”, também o é. Mas se isolarmos a sua própria finalidade, a da “legitimação”, nela também nos depararemos com uma ardilosa farsa. Ocorre que, numa manobra invertida, o estado, usando de seu poder de império, se serve da sociedade para se autojustificar.

 

Uma escolha legítima só pode se originar de uma convicção íntima, da manifestação livre da vontade dirigida para a obtenção de um fim desejado. Porém, o nosso mecanismo eleitoreiro consiste apenas numa pequena “janela” – extrínseca – que a lei “concede” ao cidadão, e somente de quatro em quatro anos, para que ele escolha candidatos que raramente conhece e, pior, para fazer, “em seu nome”, aquilo que, de fato, ele não determinou. Nessa sistemática dissimulada, as desagradáveis surpresas são tanto inevitáveis quanto intermináveis.

 

 

Fracionamento e Hiper-especialização

 

No tocante à teoria da “tripartição do poder” – que de fato se excedeu e instalou um multifracionamento do poder – é até desnecessário fazer uma longa exposição de argumentos aos defensores do pensamento sistêmico, basta dizer que nessa empreitada o estado e a sociedade perderam totalmente o sentido da unidade. Voltando à profecia autorrealizável, a concepção dos “freios e contrapesos” produziu o conhecido “campo de batalha”, um inferno plurissubjetivo onde cada fração, na ótica da sua caixinha hermética de hiper-especialização, “puxa” para um lado. Por causa disso, o sistema se tornou complexo, oneroso, burocrático e ineficiente.

 

 

A Fórmula da Alienação

 

Assim, se os cientistas versados em teoria dos jogos pudessem prescrever a fórmula para a “alienação política”, creio que seria suficiente que receitassem a fusão de três ingredientes. Primeiro, separe o estado da sociedade. Para isso, convença e dogmatize as pessoas de que o interesse público deve estar sob o domínio de um poder centralizado. Segundo, invente um arremedo de democracia para que tudo pareça racional e legítimo. E, por fim, fracione e refracione o poder tornando-o hiper-especializado, para que tudo pareça complexo demais para qualquer um administrar. Pronto, eis o molde para a eterna dominação.

 

 

Política é a Arte da Convivência

 

Nesse mesmo raciocínio, cabe dizer que política nada mais é que a arte de viver em sociedade ou simplesmente de se relacionar, de se “integrar socialmente”. Portanto se existe uma fórmula para produzir alienação política, essa fórmula é a mesma que produz o “individualismo”, ou a desintegração social.

 

Indubitavelmente, ser cidadão de verdade é participar da vida da cidade, de seus projetos, de sua concretização e de seu futuro. O exercício da arte política requer cidadãos ativos e não meros expectadores passivos. O individualismo, portanto, não é uma característica inerente à natureza humana, mas resulta do esvaziamento da cidadania pelo atual projeto contratualista de civilização.

 

Esse malsinado sistema político, sustentado por ardilosas mentiras, é uma gigantesca e poderosíssima máquina de entorpecimento humano, que promove o encadeamento de vícios interdependentes numa marcha de infindáveis sequelas. Da alienação surge a apatia; da apatia, a manipulação; da manipulação, o descaso; do descaso, a corrupção; da corrupção, o clientelismo; do clientelismo, a exclusão; da exclusão, a violência…

 

 

Quem Somos Nós?

 

Desse modo, em face do iminente colapso planetário, urge sim a elaboração de um projeto de recriação da civilização, mas que não repita os mesmos erros do modelo atual. Portanto, que não despreze a força da “semente ontológica” com a qual se reconhece a dimensão do ser humano. Se partirmos novamente de uma base filosófica que reduza o homem a uma criatura domesticável, já sabemos qual será o futuro da civilização. Mas se o considerarmos como um ser perfectível, detentor do potencial necessário para atingir a plenitude intelectual e moral… abriremos uma possibilidade real para que a lagarta se transforme em borboleta.

 

Nessa perspectiva, em que somos profetas de nós mesmos, devemos responder uma pergunta básica. Que “tipo” de humanidade queremos ser? E nessa reflexão, se formos suficientemente capazes de ser ousados, nossa resposta poderá nos levar, na dicção de Morim, a “um novo caminho”, a desencadear os mais insondáveis recursos e descobrir as mais impensáveis soluções. Já começamos a antever o drama que nos espera, mas uma simples resposta poderá guinar o nosso porvir. Só não podemos permanecer na inconsciência, como uma massa tola arrastada para o abismo.

 

 

De Volta às Evasivas

 

Bem, agora já posso cuidar das respostas “evasivas” que recebi, nos termos declarados no início desse ensaio. Para relembrarmos, vou sintetizar a pergunta que fiz aos palestrantes do seminário enquanto teóricos do novo projeto civilizacional: “onde está a base teórica e a mobilização fática para a necessária recriação política da sociedade?”.

 

 

Educação Robotizante

 

Primeira evasiva: “o processo de transformação política só pode ser operado pela via da educação”. Comentário: é uma posição cômoda, todos concordam com isso. No entanto, importa clarificar que tipo de educação pode nos conduzir à profunda transformação que carecemos. Logicamente, nosso modelo de “educação” não passa de um sistema de “formação condicionante” que só piora as coisas. Esse modelo está a serviço do capitalismo e não da construção da cidadania. Uma educação verdadeira precisa se ocupar com as múltiplas dimensões humanas, intelectual, emocional, moral, social, espiritual, etc. Tem que ir além dessa matriz tecnicista-conteudista acrítica, alienante, desprovida de reflexão e de ampla e imprescindível interpretação de mundo.

 

 

Consciência Engaiolada

 

Segunda evasiva: “uma grande mudança já está sendo operada nos bastidores da consciência humana”. Comentário: outra platitude. Certamente a consciência humana está evoluindo, porém, um pássaro não aprende a voar enquanto não se livra da gaiola. Se realmente já começamos a enxergar as grades dogmáticas que nos aprisionam, por que não temos coragem de serrá-las? Não basta ter consciência, precisamos converter o nosso domínio conceitual em atitude.

 

Apesar da pretensa consciência, meu questionamento é pela ausência – ainda de uma mobilização global que, além do comunismo demonizado, nos torne capazes de, uníssonos, “recusar” a nossa sina de rebanho-indo-para-o-matadouro. Carecemos de um foco de convergência que nos habilite a enfrentar a ditadura do “pensamento único” (o capitalismo global e o estado burguês), pois, se realmente acreditamos que um outro mundo é possível, ressinto que este mundo não será possível através do laissez-faire, laissez-passer”, mas de um intenso movimento unitivo maior que o Save Our SelvesSOS (salvemos a nós mesmos).

 

 

Cidadania se Inicia no Quarteirão

 

Terceira evasiva: a bandeira holística do “cidadão planetário”. Comentário: essa bandeira é tão bela e profunda quanto inócua. Por que inócua? Simplesmente porque a gigantesca matriz cultural de dominação que “forma” o pensamento humano, principalmente o ocidental, é completamente individualista. Claro, é muito mais fácil manipular o indivíduo, ou seja, uma “massa de indivíduos”, que uma coletividade unificada por interesses comuns. E o que subtrai os nossos interesses comuns, já disse, é o contratualismo. E se não temos consciência de coletividade (cidadania) nem em nosso quarteirão, como a teremos em nível global?

 

 

Provocação

 

Com o desabafo dessas modestas linhas, pretendo apenas produzir uma provocação: a provocação em mim mesmo pela imensa vontade de sair do mero discurso e da letargia. Mas ainda que eu queira “agir”, me pergunto, onde está a tábua de salvação? A quem devo me juntar? Ou devo fazer apenas a “minha parte” dentro do meu mundinho particular ou da minha pequena organização? Não sei. Meu sonho é que todos os movimentos, ONGs e Instituições interessados em um novo “projeto civilizacional” se desfragmentassem, e se juntassem, um a um, numa consciência maior, holístico-planetária, sinalizando uma real possibilidade de recomeço para nossa humanidade.

 

 

A “Cola” da Sociedade

 

Por fim, se me perdoam a pretensão, acho que a única “cola” com a qual poderemos construir a união de todos, por mais incrível que pareça, é a POLÍTICA. Por que a política? Porque por mais que as baleias, os ursos polares e a floresta amazônica sejam importantíssimos, a política está na nossa porta. A política, por si só, é holística. Ela trata de educação, saúde, segurança, meio ambiente, habitação, tudo. Então, se ela voltar para as nossas mãos, ela nos unirá em tudo. Como isso seria possível? Talvez pela via de uma nova organização societária “em rede”, como defende Augusto de Franco, ou de uma sociedade autopoiética, como diria Maturana. Não sei. Mas acho que já é tempo de nos arrojarmos nesse novo caminho, iniciando pela ampliação da concepção do ser humano, da felicidade e da vida.

 

“O progresso não é senão a realização de utopias.” Oscar Wilde.

 

David Gomes Pacine

estadoemrede@gmail.com

Caminhando no Sol
Fev 15

Intelectualidade e esforço físico

By Rafael Reinehr | Estudos Sobre Filosofia Oriental

– Vocês são mesmo intelectuais? – perguntou-lhes Will quando os dois saíram dos chuveiros e estavam se enxugando.

– Fazemos trabalho intelectual! – respondeu Vijaya.
– Então, qual é a razão para toda essa horrível trabalheira?
– A razão é muito simples: durante esta manhã, tive algum tempo disponível.
– E eu também – disse o dr. Robert.
– Então foram para os campos e agiram à Tolstoi!
– Vijaya sorriu e disse:
– Parece imaginar que o fazemos movidos por razões éticas!
– E não é?
– Certamente que não. Faço trabalho braçal simplesmente porque tenho músculos e, se não os usar, me transformarei num sedentário mal-humorado.
– Sem nada entre o córtex e as nádegas. Ou melhor, com tudo, porém em condições de inconsciência completa e de estagnação tóxica – disse o dr. Robert. – Os intelectuais do Ocidente são tolos viciados em cadeiras e por esse motivo a grande maioria de vocês é repulsivamente corrupta. No passado, mesmo os duques, os agiotas ou os metafísicos tinham que dar grandes caminhadas. Quando não iam a pé, estavam sacudindo no lombo dos cavalos. Enquanto hoje, do magnata à sua secretária, do positivista lógico ao pensador positivo, nove décimos do seu tempo são gastos sobre espuma de borracha. Almofadas de espuma para traseiros de espuma – em casa, no escritório, nos carros, nos bares, nos aviões, nos trens, nos ônibus.
 

Neste trecho, extraído de "A Ilha", de Aldous Huxley, o visitante Will se surpreende com o fato de que os "intelectuais" Vijaya e Dr. Robert estejam no campo ajudando na polinização e poda das culturas.

A justificativa, ainda mais simples do que uma preocupação ética pelo outro, é uma preocupação com o próprio bem-estar.

Independentemente dos motivos que nos levam a levantar a bunda do sofá ou da cadeira que nos prende à televisão, ao computador e ao conforto de nossos lares e escritórios, a epidemia de imobilidade nos dias de hoje é impressionante. Lido com pessoas que precisam emagrecer – por questões de saúde, obesidade, diabetes, hipertensão, colesterol ou mesmo questões estéticas e, analisando a história passada das mesmas, percebe-se que a necessidade de buscar redução do peso hoje advém, em grande parte, de uma negligência no que diz respeito a um mínimo de atividade física necessária para manter sua massa magra e tecido gorduroso nos níveis indicados.

Não prego aqui um culto "acima de todas as coisas" à saúde ou à estética. Longe de mim, principalmente no segundo caso. Entretanto, percebo que muitos dos problemas modernos – inclusive a alta incidência de depressão e ansiedade – residem em parte neste recolhimento dos músculos e ossos a um conforto acima do necessário.

O trecho acima me fez estudar um pouco sobre a vida de Tolstói, e em alguns dias pretendo publicar aqui um pouco sobre a biografia de velho escritor russo, com a qual me identifiquei sobremaneira.

Enquanto isso, que tal calçar teus tênis e sair para uma caminhada neste lindo dia de sol?

Caminhando no Sol

Continue lendo

Jan 25

Refúgio da Pedra Afiada, Canyon Malacara, Praia Grande – SC – janeiro de 2009

By Rafael Reinehr | Brasil

Neste sábado passamos o dia em Praia Grande, aqui em Santa Catarina, conhecendo o Refúgio Ecológico da Pedra Afiada, que fica ao pé do Canyon Malacara. Tirolesa, belíssimo almoço, paisagens fantásticas e uma trilha pelo rio até uma piscina natural com água geladíssima que, segundo nosso guia, nos garante um rejuvenescimento de 6 anos. De fato!

Eis as imagens :

As fotos estão com uma definição baixa. Estou aprendendo a lidar com o SlideShow Pro, uma ferramenta que adquiri para mostrar fotos e galerias na forma de slideshow aqui no site. Com o tempo vou me acertando.

A pedido do amigo Erny: Serviço do local: Refúgio Ecológico Pedra Afiada – Pousada, Bistrô, Centro de Aventura e Biodiversidade

Telefones: (48) 3532.1059 – Para reservas em Porto Alegre (51) 3338.3323 (Expedição Caá-etê Ecoturismo e Aventura)

Coordenadas geográficas (para o Google Maps): 29 graus 09′ 30,7″ S – 49 graus 58′ 58,9″ W

PS: a música, I’m Yours de Jason Mraz foi indicação da nossa amiga Taís. Bela canção!

Dez 17

Lítio – Orientações gerais para pacientes

By Rafael Reinehr | Acordando com a Adrenal

O lítio foi primeiramente utilizado na psiquiatria em meados do século XX, sendo que os primeiros relatos de seu uso terapêutico foram feitos pelo psiquiatra australiano John Cade.

Meu amigo Luiz Eduardo Ulrich, psiquiatra de mão cheia e de grande coração, escreveu um belo artigo em seu recém-inaugurado blog sobre o Lítio: orientações gerais para pacientes. Belo trabalho de importância seminal para quem busca informações na internet. Vasculhe o link acima e bote fé. Assino embaixo.

Continue lendo

Out 13

Zeitgeist: Addendum

By Rafael Reinehr | Ando Vendo

Lembram quando falei aqui sobre o filme Zeitgeist e toda aquela polêmica foi gerada? Pois desde o último dia 2 de outubro está disponível Zeitgeist: Addendum, a continuação do filme. Ainda sem legendas em português, pode ser visto na íntegra clicando no vídeo abaixo. No próximo fim-de-semana estarei fazendo a crítica do filme. Quer me acompanhar e assistir o filme? Já antecipo que está em grande consonância com muitas de minhas idéias, pois critica o sistema monetário atual mostrando sua fragilidade e como o Monetarismo é capaz de gerar sofrimento, miséria, ganância e infelicidade.

Desenferruje seu inglês e assista:

Você pode também ver o filme na íntegra em Português clicando no link Zeitgeist Addendum em Português.
Continue lendo

Money
Out 12

O Dinheiro como Empecilho ao Senso de Comunidade – Alternativas para um mundo sem Dinheiro

By Rafael Reinehr | Saúde da Sociedade

Um estudo recente realizado por Vohs e colaboradores demonstrou a influência do dinheiro nas decisões tomadas por pessoas sem que as mesmas soubessem conscientemente desta influência. Foram dadas aos participantes da pesquisa determinadas tarefas como organizar palavras misturadas para formar uma frase sobre dinheiro; com outros participantes, deixaram pilhas de dinheiro fictício do jogo Banco Imobiliário; outro grupo via um protetor de tela com várias denominações de dinheiro. Já outras pessoas, selecionadas randomicamente, tinham que organizar frases que não tinham a ver com dinheiro, não viam o dinheiro do jogo Banco Imobiliário e viam protetores de tela diferentes. Em todos os casos, as pessoas que tinham sido levadas a pensar sobre dinheiro – do chamado “grupo do dinheiro” – comportaram-se de forma diferente daquelas que não pensaram nele.

MoneyQuando foi dada uma tarefa difícil e avisado que teriam ajuda à disposição se necessitassem, as pessoas do grupo do dinheiro demoraram mais para pedir ajuda.

Quando solicitadas a ajudar, as pessoas do grupo do dinheiro gastavam menos tempo ajudando.

Quando solicitadas a mover sua cadeira para que pudesse conversar com alguém, as pessoas do grupo do dinheiro deixavam um espaço maior entre as cadeiras.

Quando solicitadas a escolher uma atividade de lazer, as pessoas do grupo do dinheiro eram mais propensas a escolher uma atividade que pudesse ser realizada sozinho do que outra que envolvesse outras pessoas.

Finalmente, quando as pessoas do grupo do dinheiro eram convidadas a doar parte do dinheiro que lhes foi pago pela participação no experimento, elas deram menos do que aquelas que não foram induzidas a pensar sobre dinheiro.

É impressionante como estes fatores banais que levaram a pensar sobre dinheiro tiveram influência tão grande sobre o comportamento humano. Enquanto o grupo controle, aquele não induzido a pensar sobre dinheiro gastou em média 42 minutos ajudando alguém em uma tarefa, aquelas pessoas do grupo do dinheiro ofereceram apenas 25 minutos do seu tempo. Quando solicitados a fazer uma doação, o grupo do dinheiro deu apenas um pouquinho mais do que metade do que foi dado pelo grupo controle.Greg Mankinw questiona-se: “O que faz com que o dinheiro nos torne menos pronados a buscar ajuda ou ajudar, ou mesmo a sentar perto de alguém?”

o Trocador de DinheiroVohs e colaboradores sugerem que à medida que as sociedades iniciaram a utilizar o dinheiro, a necessidade de depender da familia e dos amigos diminuiu, e as pessoas se tornaram mais auto-suficientes. Desta forma, eles concluem que o dinheiro aumenta o individualismo e diminui as motivações comunitárias, um efeito que é claramente aparente no comportamento das pessoas hoje em dia.
Enquanto isso, do outro lado da moeda, Elizabeth Dunn e colegas descobriram que gastar dinheiro com outras pessoas promove a felicidade. De forma tão ou mais importante do que a quantidade de dinheiro que se ganha, a forma que se gasta parece estar diretamente ligada à sensação de bem-estar e felicidade.

Dunn avaliou a hipótese de que gastar com outros prediz maior felicidade do que gastando consigo mesmo avaliando três tipos de estudos: um estudo transversal derivado de uma pesquisa nacional, uma coorte que foi acompanhada enquanto se gastava dinheiro que lhes foi dado e em um estudo randomizado em que os participantes foram designados a gastar com outros ou consigo mesmos. Nos três casos, a hipótese-teste se confirmou.

Os dois trabalhos trazem em si uma informação bastante importante que, apesar de óbvia, não é tão fácil de interpretar. Ao mesmo tempo em que o dinheiro – instintivamente – pode ser capaz de minar o senso de comunidade fazendo com que fiquemos mais egoístas e menos altruístas à medida em que chegamos perto dele, se porventura escolhermos gastá-lo não somente conosco e sim com aqueles que nos cercam ou com atividades que envolvam pessoas além de nós mesmos, poderemos estar incrementando nossa sensação de bem-estar e felicidade. Paradoxal? Para mim, nem um pouco.

Na verdade, a sensação de estarmos bem vivos e felizes que nos toma de assalto quando gastamos algo para ou com alguém é a mesma de quando fazemos algo de bom para alguém, mesmo sem dinheiro envolvido.

Foi com esse espírito que, em 1999 teorizei um sistema de trocas de bens e serviços que chamei na época, de forma pouco humilde de “A Grande Cooperativa Mundial”. Idealizada para funcionar de forma global, A Grande Cooperativa Mundial centralizaria em um website e/ou em alguns endereços físicos um grande e aparentement complexo mas em realidade bastante simples sistema em que pessoas com bens e serviços a oferecer seriam encontradas por pessoas com necessidades de tais bens e serviços. Um espécie de sistema de classificados, só que o objetivo não seria a VENDA de bens e serviços, mas a sua TROCA. Desta forma, estaríamos dando “a volta” em um sistema sobrecarregado de impostos, estaríamos fazendo circular bens que não estão sendo utilizados e evitando a extração de matéria-prima para produção de novos bens de consumo bem como reduzindo a poluição advinda da produção e transporte deste produto, no caso da troca ser a nível local.

No texto original, publicado no Simplicíssimo em sua versão impressa em 1999 e depois na versão virtual em 2002, escrevi o seguinte:

Pelo Mundo afora, existem pessoas necessitando serviços, materiais, espaço, objetos, enfim, "coisas" em geral. Ao mesmo tempo, neste mesmo Mundo, existem pessoas dispostas a oferecer serviços, materiais, espaços e objetos que não necessitam em dado momento, "coisas" essas que escamboficam inutilmente paradas em um canto qualquer, sem que ninguém o(a) esteja usando. Por que não catalogar tais bens (i)materiais associando-os ao seu valor na área onde são oferecidos e distribuí-los a quem os necessita, em troca de uma outra contribuição para a Cooperativa por parte do beneficiado? Nos dias de hoje, com o advento estruturação e, definidamente, da entrada profunda da Grande Rede (Teia) Mundial em nossas vidas e culturas, esse trabalho torna-se bastante facilitado, podendo haver rápida comunicação entre as diversas "filiais" da Cooperativa espalhadas pelo planeta. Cada serviço ou bem oferecido e usado, geraria um crédito para o fornecedor deste bem ou serviço, ao mesmo tempo que seria criado um débito para o usuário do bem ou serviço para com a Cooperativa (veja bem, e não para com o fornecedor). Penso que os créditos possam ser ilimitados, mas os débitos devem ser restringidos a uma quantia máxima, talvez determinada pela capacidade de oferecer bens e serviços ou então, igual para todos. Certamente tornar-se-ia necessário realizar um projeto piloto desta Cooperativa em alguma localidade específica, para somente então tentar disseminar a idéia em uma área mais ampla. A estruturação completa desse projeto passa por um longo período de planejamento com uma equipe multidisciplinar envolvendo pessoas capacitadas em áreas do conhecimento como Política, Economia, Sociologia, Filosofia, Relações Interpessoais, Informática, e, provavelmente de áreas como física, matemática e mais especificamente estatística. Se alguém que tomar conhecimento desse projeto tiver interesse em tomar parte, deverá entrar em contato através do e-mail superjazz7@terra.com.br(Nota: este e-mail não existe mais).Veja bem, a princípio essa é uma idéia de uma atividade essencialmente civil, feita por pessoas comuns para pessoas comuns, sem envolver entidades governamentais, mas não haveria empecilho algum em haver participação ou mesmo regulação das atividades da Cooperativa por parte dos diferentes Estados. Qualquer comentário posterior, favor entrar em contato através do e-mail acima. Aproveitando o ensejo e o tema do Fórum Social Mundial: "Grande Cooperativa Mundial, em busca de um Mundo Melhor, impossível agora, mas certamente possível amanhã".

Como podem ver, é um texto simples, ingênuo até, compatível com meu desenvolvimento intelectual e estímulos percebidos à época. Hoje, a idéia amadureceu e ainda acredito na possibilidade de sua concretização. Acredito tanto e sempre acreditei que ela se materializou, de forma um pouco Freecyclediferente na rede Freecycle, que surgiu em 2003 em Tucson, no Arizona, com a iniciativa de Deron Beal. A Freecycle Network tem como principal objetivo evitar que bens com boa qualidade fiquem parados nos cantos sem utilização e, basicamente, é uma grande rede de DOAÇÃO de produtos.
Composta hoje por mais de 5.900.000 integrantes divididos em mais de 4.600 grupos espalhados pelo mundo, a rede utiliza listas de e-mail do yahoo para centralizar por cidades e regiões as ofertas e os pedidos de bens e produtos. Pessoalmente, inscrevi-me nos grupos de Porto Alegre e Joinville, mais próximos de minha casa e também nos de Lisboa e de São Paulo, como forma de aprender com grupos mais movimentados.
Minha experiência como observador foi positiva. Nos dois grupos mais ativos que acompanhei – São Paulo e Lisboa, as ofertas são diárias bem como as respostas aceitando estas ofertas. A quem recebe o donativo, cabe buscá-lo no local informado por quem o está oferecendo. Entre os produtos que são oferecidos para doação encontram-se carregadores de celulares, beliches, liquidificadores com um canto da tampa quebrada, secadores de cabelo, filhores de cachorros, livros, revistas, sapatos e carrinhos de bebê, impressoras, monitores e até um notebook (com a bateria avariada) mas no mais funcionando perfeitamente. Já entrei em contato para ser o mediador de um grupo aqui na minha região. É interessante observar que o Freecycle não aceita trocas entre produtos ou entre serviços. Apenas ofertas e solicitações, sem condicionamento.
Pela idéia original da Grande Cooperativa Mundial (precisamos achar um nome menos pomposo para ela), todas as modalidades de troca e doação seriam possíveis:

1. Oferta de um bem ou serviço em troca de “pontos de crédito” junto à Cooperativa (ex: ofereço serviços de jardinagem por 30 pontos de crédito por dia de trabalho – neste caso, o jardineiro que executa o serviço recebe 30 pontos de crédito na sua conta que poderá ser usado futuramente na aquisição de algum bem ou serviço, sem juros, sem taxas ou impostos)
2. Recebimento de um bem ou serviço em troca de “pontos de débito” junto à Cooperativa (ex: aquisição de um abajur antigo por 50 pontos – neste caso, o adquirente do abajur terá 50 pontos debitados de sua conta e quem ofereceu o abajur terá 50 pontos creditados em sua conta)
3. Troca direta de um bem ou serviço por outro bem ou serviço (ex: ofereço conserto de sistemas hidráulicos em troca de um monitor de computador de 15 polegadas ou maior em bom funcionamento – neste caso, bastam as partes acertarem os detalhes da troca entre si)
4. Doação simples de um bem ou serviço (ofereço ao custo de 0 pontos (gratuitamente) 6 pares de sapatos tamanho 41 de couro em bom estado; retirar no endereço tal, combinar horário por telefone tal)
5. Solicitação simples de um bem ou serviço (necessita-se de babá para criança nas manhãs de quinta-feira; motivo: mãe precisa realizar fisioterapia por 3 meses; não temos capacidade de pagar nada)

Estamos vivendo em um outro mundo, bastante diferente de uma década atrás. Muito, muito diferente de 3 ou 4 décadas atrás. Poucas coisas nos emocionam, é difícil algo motivar o cidadão médio para a ação. O comodismo, a busca do conforto através dos psicofármacos e do circo como forma de anestesia dos sentidos está cada vez mais gritante. Aldous Huxley, em 1932 narrou em seu maravilhoso livro Admirável Mundo Novo este futuro que parece que já é presente.

Me pergunto até que ponto atividades que eliminem relações verticais (aquelas em que o detentor do conhecimento ou poder) possam ser efetivamente trocadas por relações horizontais, onde o conhecimento, o poder e as responsabilidades possam ser equitativamente compartilhados entre pessoas afins. Me pergunto se projetos como os que estou idealizando como a Coolméia, o Voto Contínuo e esta pomposa Grande Cooperativa Mundial poderão algum dia ser uma realidade e ajudar a produzir um mundo mais ecologicamente pronado (vide artigo sobre o Decrescimento Sustentável), com estímulo à produção e consumo local, valorizando as relações entre as pessoas que estarão mais preocupadas em Trocasser do que ter e dispostas a trabalhar COM e não CONTRA semelhantes em busca de uma vizinhança melhor, melhores alimentos, água e ar para se comer, beber e respirar.

Por quanto tempo ainda existirão os “espertos” que insistem em se aproveitar dos “trouxas”, aqueles teimosos que ainda acreditam que se deve fazer as coisas “do jeito certo”, mesmo que existam pessoas levando vantagem em tudo?

Se o dinheiro é um material inerte e não tem culpa do desejo, da ganância, da avareza e da violência que em nome dele é gerada, reduzir o poder de criar tanto sofrimento é algo que me interessa. O caminho está na mudança da percepção de mundo que as pessoas desenvolveram. Como fazer isso? Estou investigando e experimentando. Quer me ajudar?

Pesquisa Remuneração
Set 30

Você está feliz com seu trabalho?

By Rafael Reinehr | Terapias de bem-estar

Entre primeiro de setembro e primeiro de outubro de 2008, realizei uma pesquisa aqui no site para tentar entender o que as pessoas que aqui chegam sentem em relação ao trabalho, bem-estar e à remuneração que se vincula com este trabalho e este bem-estar.

O resultado foi o seguinte:

Pesquisa Remuneração

A conclusão a que cheguei analisando os dados acima foi que uma grande parte das pessoas prefere não "viver somente para o trabalho", mesmo que isso represente um incremento substancial (100%) da renda. Chegando a um patamar que lhes dê conforto, segurança e estabilidade financeiras, os votantes na opção "12 mil reais" preferem utilizar seu tempo com lazer ou outras atividades que lhes preencham do que utilizar as demais horas trabalhando mais para alcançar uma maior renda.

Me surpreendi com o grande percentual (32,2%) de pessoas que ficariam satisfeitas com uma rende de 3 mil reais para fazer 100% do tempo somente aquilo do que gostam. É claro que esta pesquisa sofre um grande viés: não leva em conta a remuneração atual do indivíduo que está votando. Ou seja, para alguém que ganha 1000 reais por mês, passar a ganhar 3 mil e fazer somente o que lhe dá prazer parece uma proposta aprazível. Mas e para quem ganha 24 mil, será que conseguiria passar a receber 3 mil e ficar plenamente satisfeito?

Obrigado a todos que votaram. Me ajudaram a pensar mais sobre o assunto. Ainda preciso de tempo para decidir por que caminho seguir. Quando decidir, compartilho com vocês a decisão.

Set 07

Agir conforme a própria natureza

By Rafael Reinehr | Estudos Sobre Filosofia Oriental

Dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião e novamente foi picado. O outro monge então perguntou:

“Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?”

“Porque,” replicou o monge, “agir com compaixão é a minha natureza.”

(conto retirado do blog Espiritualistas)

Aprender a perceber esta grande verdade, a de que seres humanos distintos possuem diferentes naturezas, personalidades e ímpetos, pode nos preparar melhor para a vida neste mundo. Com a percepção plena da lição acima, passamos a compreender o outro usando sua própria lente , e não somente a nossa. Uma grande lição, sem dúvida.

Mais do que você imagina
Ago 19

Mais do que você imagina – My mom’s new boyfriend (2008)

By Rafael Reinehr | Ando Vendo

Mais do que você imaginaMais do que você imagina, mais uma das infelizes traduções de um nome de filme para a língua portuguesa (se bem que “O Novo Namorado de Mamãe” também não seria uma boa escolha…) conta a história da obesa Martha (Meg Ryan) e seu filho Henry (Colin Hanks), oficial do FBI que passa alguns anos fora de casa em uma missão secreta. Quando volta de sua missão e em função da aproximação de Tommy (Antonio Banderas), um suposto ladrão internacional de obras de arte de Marty (ex-Martha, agora dezenas de quilos mais leve), Henry é obrigado a espionar sua própria mãe para tentar desvendar o roubo de uma valiosíssima obra de arte que está para acontecer.

Contando com os novos lábios de Meg Ryan – cuja cirurgia plástica gritou aos olhos do espectador mais desligado, é uma comédia que consegue nos trazer uma mão cheia de risadas. Nenhuma grande surpresa, nada “remarkable” para citar. Nenhum grande drama, nenhuma novidade. Bom acompanhado de pipoca em uma tarde chuvosa sem nada para fazer na companhia de alguém delicioso. Sem este clima todo, seguiria em busca de outra opção.