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Seja a mudança que você quer ver no mundo - Gandhi
jul 24

Seja a mudança que você quer ver no mundo – Mahatma Gandhi

By rafaelreinehr | Experimentalismo , Literatura

 

Esta postagem é a quarta de 13 postagens da série Exercício de Escrita Criativa e Produtividade, que propus em 28 de junho último. Acompanhe todos os artigos, compartilhe – se achar interessante – e comente se houver algo a acrescentar.

Nesta semana, me comprometi a comentar sobre uma citação poderosa.

Quem me conhece, sabe que sou colecionador de citações. Crio algumas também, como por exemplo:

“A riqueza de um ser humano é medida à justa equivalência do tempo no qual ele está fazendo exatamente aquilo que quer fazer.”

– Rafael Reinehr, 13 de novembro de 2010

 

Tenho várias citações, frases e passagens que fazem muito sentido para mim. Veja algumas delas no texto Eu tive um sonho, que escrevi em 01 de janeiro de 2012.

Gosto muito também desta, de B. K Jagdish:

 “Nossos pés deixam pegadas na areia do tempo. Se estivermos no caminho errado, muitos nos seguirão, desviando-se do que é correto. Quando pensamos que uma ação é só por aquele momento e esquecemos que ela deixa um rastro atrás de si, não estamos sendo responsáveis.
Todas as nossas ações afetam os seres humanos, dando-lhes alívio ou tristeza. Podemos fortalecê-los ou não. Podemos causar ferimentos ou curas. Podemos gerar conflitos ou resolvê-los. Podemos criar cataclismas ou algo nobre para a sociedade.

Mas a que quero comentar hoje, é uma passagem que sempre me laça, e me ajuda a ver a pequeneza atual do meu ser. Ou do meu “estar”. Ela é atribuída a Mahatma Gandhi, e fala assim:

“Seja a mudança que você quer ver no mundo”

Nessa frase existem muitos sentidos sensacionais sendo sintetizados simultaneamente (perdoem pela aliteração!). Podemos depreender que, se quisermos mudar o mundo, devemos começar por aquilo que, em primeira e última instância temos acesso e – até certo ponto – controle: nós mesmos. Ela é um grito, um apelo pela coerência em nossas vidas e contra a hipocrisia. Ela nos convida a refletir sobre como estamos vivendo e se estamos aplicando na prática aquilo que professamos e que desejamos para o outro, para a Natureza.

Se você quer alcançar, caminhe.

Se você quer um mundo melhor, comece por ti. Abrace as tuas imperfeições e as lapide, de forma a te tornar uma pessoa melhor. Te tornando alguém melhor estarás, através do teu exemplo, inspirando aqueles ao teu redor a fazer o mesmo. Assim, estarás mudando o mundo, algumas pessoas por vez, algumas ações a cada tempo possível.

Autodeterminação, perseverança e, muitas vezes, até a ajuda de outras pessoas.

Ao longo da vida, passei por vários momentos em que desejei, profundamente, me tornar “a mudança que quero ver no mundo”. Só desejo não é o suficiente. Precisamos de uma dose extremamente grande de autodeterminação, perseverança e, muitas vezes, até da ajuda de outras pessoas, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Sim, é possível adentrarmos um processo introspectivo de autoconhecimento e sairmos de lá “quase iluminados” mas, ao mesmo tempo em que isso gera “faróis” que podem ajudar a guiar a humanidade em meio às Tempestades, não é mais o que almejo para mim. Já tive essa fase, de buscar ser um “guru” que inspira multidões. Isso começou a passar quando tive o insight da Coolmeia (veja também aqui) – a percepção de que a verdadeira mudança, no tempo da minha existência, viria a partir de um esforço coletivo, e não de um ultradesenvolvimento individual.

Um texto que coaduna com esta minha forma de pensar foi escrito por Michel Bauwens, fundador da P2P Foundation, e pode ser encontrado aqui e aqui.

É possível adentrarmos um processo introspectivo de autoconhecimento e sairmos de lá "quase iluminados".No país no qual resido atualmente, o Brasil, vivemos em um profundo estado de desesperança com a classe que desgoverna o país. Como anarquista, nenhuma novidade no front. A novidade é que mais pessoas perceberam o navio sem timão no qual estão navegando. Estar à deriva é algo delicioso, quando é feito de forma voluntária, por prazer e escolha própria. Não quando se espera uma certa ordem e um porto seguro para desembarcar. Entretanto, é justamente nestes momentos – de crise – que temos oportunidade de fazer alçar voo empreendimentos que transportam nossa visão de mundo – integrativa, sistêmica, dinâmica, ecológica e interdependente – a uma camada maior da população, estabelecendo um novo estrato de pessoas conscientes e prontas para, do seu modo e a seu tempo, subverterem a realidade atual que lhes oprime e a dialogar com um outro mundo possível, com perspectivas poderosas e libertadoras.

E não quero deixar passar este momento.

Deixei passar vários. Algumas possibilidades me passarão por entre os dedos, por falta de recursos econômicos, habilidades de comunicação e pelo fato de eu não contar com o dom da onipresença e da vida eterna (não enquanto ser vivo preso a esta estrutura material humana, pelo menos…).

Enquanto vivo minhas pequenas, diria até microrrevoluções – mudando e aprimorando minhas relações com as pessoas ao meu redor, preservando as que me elevam e fazem bem, e deixando de lado aquelas que me consomem, geram conflito e drenam energia vital que poderia estar sendo usada de forma positiva em prol do bem comum – sigo atento ao mundo “exterior”, absorvendo conhecimento e devolvendo-o modificado pelo prisma da minha visão.

Espero que minha tradução do mundo e da vida possa ser adequadamente internalizada e que eu possa me aproximar dessa coerência desejada e desejável: a de me transformar na mudança que desejo para o mundo.

Nesse ínterim, enquanto reflito sobre as mudanças que precisam ser feitas – no meu ambiente interno, na minha casa, comunidade de afinidade familiar, de amizade ou mesmo online e nos recônditos mais distantes do meu alcance ou mesmo visão – lembro de um texto que escrevi há 11 anos, quando o conteúdo de meus blogs que mantinha desde 2002 mais ou menos foram migrados para cá, para o reinehr.org.

Este texto se chama Um Processo, e fala, em essência, sobre mudança. E de lá, tiro uma auto-citação que nos lembra sobre algo muito importante: viver a dádiva do presente, do momento atual.

“A perspectiva de uma vida que deve ser vivida dia-a-dia já foi conquistada há algum tempo. Ainda resisto e teimo em, vez ou outra, programar demasiadamente o futuro. O futuro é agora.”

O futuro é agora. Me ajuda a revelar o colorido que existe por trás de cada ser humano?

“Mesmo o mais embotado ou desbotado ser vivente tem em si, ao menos de forma latente, um arco-íris. Por vezes não conseguimos enxergar isto nos outros ou inclusive em nós mesmos… Porque nem sempre as cores revelam-se facilmente.”

Seja mais uma vez bem-vindo(a) à série de 13 textos sobre Escrita Criativa e Produtividade. Toda segunda-feira, no http://reinehr.org nos próximos 3 meses.

Até breve, obrigado por me acompanhar até aqui.

# # #

Segue a lista de todos os artigos da série e quando eles foram/serão publicados:

  1. Contar uma história pessoal (03 de julho): Qual é a coisa mais desconfortável para se escrever? O que é realmente difícil para o Rafael?
  2. Descrever um evento histórico (10 de julho): O Dia em que o Big Ben soou pela primeira vez
  3. Revisar um livro, filme ou disco (17 de julho)
  4. Comentar sobre uma citação poderosa (24 de julho)
  5. Deixar que uma grande foto me inspire (31 de julho) Estamos nos inspirando e contagiando pelo melhor que o humano tem a oferecer?
  6. Comentar sobre algo que está nas notícias (7 de agosto)
  7. Reportar sobre um diálogo interessante que tive (14 de agosto)
  8. Oferecer uma explicação passo-a-passo para fazer algo (21 de agosto)
  9. Oferecer uma lista de recursos (sobre algo interessante ou útil) (28 de agosto)
  10. Responder às questões da minha audiência (4 de setembro)
  11. Tornar uma tarefa aparentemente muito difícil algo fácil (11 de setembro)
  12. Explicar as razões que me fizeram tomar uma dada decisão (18 de setembro)
  13. Escrever um guia sobre algo popular (25 de setembro)
39 anos!
jul 01

39 anos, uma Odisseia

By rafaelreinehr | Efervescências , Quase Filosofia

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mis-én-scene, ou esbravejando, na Marcha das Vadias de Criciúma – foto Mariana Noronha

Da última vez que nos encontramos para um bate-papo assim tão longo, eu tinha 33 anos, está lembrado? . Ainda, como naquela ocasião, sinto que nada me falta. Materialmente falando. Tudo o que busco agora é preencher alguma possível lacuna espiritual. Ou então, quem sabe, é conseguir esvaziar-me por completo, e perceber que o Tudo e o Nada são, enfim, a mesma coisa.

Papos zen à parte, descobri muita coisa nestes últimos seis anos.

Acho que pode ser interessante compartilhá-las aqui, nesta conversa leve e solta que estou tendo com você.

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cozinhando para os amigos, no Solar das Lagartixas

Em primeiro lugar, quero dizer que melhorei muito em alguns aspectos neste período. Mas acho que posso ter piorado em outros, também. Aproveite para descer a lenha em mim nos comentários! Espero que, no cômputo geral,  se é que isso existe, o saldo tenha sido positivo.

Aprendi que, para um casamento durar, não basta querer. Não basta que somente um seja “nós”, mas que ambos o sejam. Aprendi que o desencanto pode surgir assim, de uma hora para outra. Mesmo que esta “hora para outra” não seja assim tão instantânea… Aprendi que olhar para o mundo, tentar salvar “o mundo”, começa, na verdade, por olhar pra gente, para dentro, e começar por nós mesmos. Na verdade eu sempre soube: a distância entre a teoria e a prática é que são elas… O resto é consequência, o resto é respingo das mudanças que promovemos de dentro pra fora…

Aprendi como é bom poder voar e criar novamente, como é bom fazer novos planos, outros planos, sentir novos ares, outros ares e perscrutar novos-velhos lugares. Aprendi que sempre que caímos, podemos levantar, e que as feridas dóem mas saram. E nos ensinam. E o que aprendemos, levamos conosco no caminho que segue.

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Falando sobre a Coolmeia, na Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre

Voltei a me apaixonar pela música, e estou me dedicando progressivamente mais ao estudo das quatro e das seis cordas. Voltei a tocar em uma banda. E vamos logo logo gravar um compacto.

Voltei a escrever. E voltei a ser eu mesmo. Voltei a Escrever Por Escrever. E voltei a ousar. E voltei a assinar mais em meu nome e menos em nome da coletividade. Ego x Eco. Lego – Levo.

Voltei a me apaixonar, e estou me dedicando cada vez mais ao novo amor, de dia, de noite, de madrugada, em cima da cama e embaixo da escada…

Continuo sentindo e aprendendo que nossa meta precisa ser o bem, e que na hora em que menos esperamos, ele retorna pra gente, pelo menos na mesma intensidade mas geralmente em quantidade muito excedente à que praticamos. Hoje, dia primeiro de julho de 2015, quando completo meus 39 anos e – novamente – não vou fazer festa, mas sim festejar com minha namorada

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com Conrado e Benjamin, na casa da vó Gisa

 

e meus filhos, jantando com calma, paz e delícia, Hoje, dia como qualquer outro, mas se não

fosse eu, seria outro, recebo uma ligação que vale como um desses presentes inesperados que a vida nos dá. Senta que lá vem história:

Há algumas semanas, colocaram para alugar aqui em Santa Maria – RS um local no qual havia sido, por 19 anos, uma loja de discos, CDs, camisetas, discos de vinil, chamada Exclusive. Essa loja fechou e o local, o segundo andar de um sobrado construído na década de 20 do século passado, fica na mesma quadra da escola dos meus filhos, em cima de uma padaria, em área central da cidade e perto de tudo, inclusive do meu trabalho, para o qual posso ir caminhando. O problema: a reforma dessa casa tem um valor relativamente significativo, já que todo piso, forro e aberturas estão tomados de cupins. Basicamente, tudo precisa ser trocado. Apesar de querer ficar muito morando lá, e até mesmo utilizar o local como algum ponto de encontro cultural ou de ativismo sócio-ambiental na cidade, os altos custos tornavam as possibilidades de mudança para lá remotas. Agora, a mágica: a ligação que recebi foi do proprietário que, ao conversar com sua irmã, e sentindo minha boa vontade em cuidar com verdadeiro carinho e apreço pelo lugar, decidiram dar-me 2 anos (DOIS ANOS!) de carência no aluguel, para que eu possa realizar as reformas planejadas!!! Ypiiii! Um presentão! É aí que se fala de ganha-ganha: ganho eu, ganham eles, ganha a comunidade santamariense… Ideias já fervilham sobre o que irá acontecer no novo Solar da Andradas. Chega mais, e vem contar esse nova página da história com a gente!

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foto do amigo André Jacob, brincadeira em estúdio

E a vida rebrota. Morre-se, composta-se, revive-se e o ciclo finda infinitas vezes para reiniciar aqui e acolá, mutante, mudado, mudante…

Seis anos depois, uma coisa não muda: ainda espero que minhas amigas e amigos de verdade continuem me presenteando

com o que pedi, pela primeira vez, naquela ocasião: “se quiser me dar um presente no dia de hoje (ou em qualquer tempo), faça isso: pratique, com desapego, sem interesse por receber nada em troca, um ato de generosidade com alguém que você não conhece. Se calhar, permaneça com o espírito aberto, para repetir esta proeza quando for possível. Se conseguir, estará me dando um presente mais valioso do que qualquer um que já ganhei.”

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Conrado, Luana, Benjamin e eu, na casa da bisa Helga, em Agudo.

 

Torne-se um lago.
maio 19

Saúde – parte IV (de VIII)

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

A vida é uma série de mudanças naturais e espontâneas. Não resista a elas – isso só criará sofrimento. Deixe a realidade ser realidade. Deixe as coisas fluirem naturalmente da forma que quiserem.” – Lao Tzu

Ria, respire e vá devagar.” – Thich Nhat Hahn

Como é costume aqui na Medic(t)ando, seguimos nesta edição com mais algumas palavras e significados que estão atrelados ao conceito de Saúde, talvez de uma forma subversiva, nem sempre óbvia ao primeiro olhar.

desapego

A primeira reflexão diz respeito à mudança, e a ir com o fluxo. A mudança é, talvez, a mais inevitável e frequente característica que nos acompanha, desde antes do nosso nascimento até após nossa morte. E mesmo sabendo disso, temos dificuldades para aceitar ou nos adaptar aos fluxo daquilo que se renova sem nossa influência. Para beber vinho em uma chávena cheia de chá é necessário, primeiro, deitar fora o chá para depois beber o vinho. Essas são as mudança sobre as quais temos controle. Mas nem sempre estamos com o controle da chávena de chá, temos acesso ao vinho ou somos tolerantes a ele. Essas variáveis, muitas vezes, são indiferentes ao nosso poder e, neste caso, precisamos aprender a ir com o fluxo.

Alteridade é o segundo conceito que precisamos associar com saúde. Alteridade é compreender o outro usando sua própria lente, e não somente a nossa. Temos o injusto hábito de olhar para o mundo somente com as lentes que desenvolvemos durante a vida, e nem sempre nos dispomos a tirá-las e passar a enxergar as situações que nos sucedem em nossas relações utilizando o ponto de vista alheio. Além de nos trazer aprendizado, acaba por ser a solução de muitos problemas.

Existe uma parábola zen que nos ensina muito sobre o “Olhar sob diversas perspectivas”, nosso terceiro conceito de hoje:

O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d’água e bebesse.

Qual é o gosto? – perguntou o Mestre.

Ruim – disse o aprendiz.

O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago.

Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago, então o velho disse:

Beba um pouco dessa água.

Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o Mestre perguntou:

Qual é o gosto?

Bom! – disse o rapaz.

Você sente o gosto do sal? – Perguntou o Mestre.

Não – disse o jovem.

O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou sua mão e disse:

A dor na vida de uma pessoa é inevitável. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Então, quando você sofrer, a única coisa que você deve fazer é aumentar a percepção das coisas boas que você tem na vida.

Deixe de ser um copo. Torne-se um lago.

O quarto conceito é a “descolonização do imaginário”, que trata justamente de nos libertar, trazendo-nos de volta à singularidade roubada pelas forças normalizadoras e homogeneizadoras que subvertem o pensamento, fazendo-nos acreditar nos ideais que o sistema estabelecido propaga. Questionar as informações prontas, fáceis e mastigadas e aprender a reconhecer as falácias das informações que chegam até nós fazem parte da manutenção de um “status saudável” individual e social.

Finalmente, o quinto item da pauta de hoje: Desapego. Ter desapego é deixar ir. É não nos deixar possuir por aquilo que possuimos. Mais: é não valorizar o ter acima do ser. É desligar-se do excesso de ligação às coisas, aos bens, às relações.

Na próxima edição, seguimos com as noções sobre Decrescimento, Generosidade, Compartilhar e Agir conforme a própria natureza. Até lá!

Poesia para suavizar a vida!
maio 05

23/05/2003 – #024 – Poesia prá quê?

By Rafael Reinehr | Editoriais , Simplicíssimo

Não há, ó gente ó não, luar como esse do sertão…

Quando conseguimos parar nossas vidas, descer delas, dar uns passos e olhar para ela, ali, inerte, podemos aprender muito. Podemos aprender que velocidade em excesso não é bom. A pressa é realmente inimiga da perfeição.

Contemplação é necessária para que possamos perceber que fomos feitos também para gozar a vida, não somente construir futuros desenfreadamente sem usufruir. Volta e meia nos deparamos com problemas em nossa existência. Desde os mais simples: dívidas a pagar, prazos de entrega ou realização de compromissos, até mais importantes como casamento, aposentadoria, falecimento de entes próximos, etc. Nesses momentos, alguns de nós têm a percepção de que estão em um beco sem saída, encurralados, sem opções. Esse é um momento bom para parar tudo, dar uns passos atrás (ou ao lado) e observar nossas vidas.

Crises vitais e problemas são, na verdade, grandes aliados: são ferramentas que nos dão a oportunidade de recomeçar ou incrementar nossas atitudes positivas frente à vida. Momentos de amargura e sofrimento são inerentes à condição humana. Não podemos esquecer disso em nenhum momento. Recarregar as energias é a pedida!

Atravessar precipícios em pinguelas cambaleantes e mergulhar em águas gélidas faz parte do nosso caminho. Sabemos disso, entretanto queremos negar tal aspecto da existência. Contos de fadas são contos de fadas. Vidas reais são as nossas vidas. Objetivos existem e devem ser atingidos, principalmente quando norteados por princípios éticos e morais bem delimitados. Vamos dar o tempo que nossos atos precisam para colher os frutos.

Rafael Luiz Reinehrluar-do-sertao

A tristeza é só um esquecimento. Você esqueceu que foi criado pela luz e para a luz, Mas agora está no escuro, Que é só o meio do caminho” – Cleber Saffi – 29/04/03

 

out 05

Sobre fazer a diferença e a indiferença à política

By Rafael Reinehr | Saúde da Sociedade

Já faz alguns anos que não participo do circo eleitoral.

Minhas últimas eleições nas quais efetivamente depositei meu voto nas urnas foram em 2000. Depois disso, votei em branco uma vez e, nas últimas eleições, nem saio mais de casa para votar, tampouco justifico o voto. Então, segue-se uma explicação sobre como fazer para não perder meus direitos civis e bla bla bla…

Para muitas pessoas, isso representa uma indiferença ao ato político. Para mim, muito pelo contrário. Meu sentimento não é de indiferença.
É de certeza de que outra política é possível. De que outros caminhos são desejáveis e necessários. E estes caminhos passam pela reunião de pessoas sensíveis, humanas, inteligentes e dedicadas ao bem comum em redes cooperativas significativas como a Coolmeia e outras afins.
Não precisamos mais ficar acuados acreditando que a via político-partidária é a única saída. Precisamos dedicar uma parcela de nossa atenção e nossas vidas a praticar, aqui e agora, a vida em comunidade e em redes autogestionadas, horizontais e confederadas que acreditamos sejam possíveis inverter este sistema opressor, excludente e corrupto que ora vigora.
A infraestrutura está sendo criada, modelos baseados em compartilhamento, peer to peer, sistemas de software, hardware e conhecimento aberto implementados. O “novo humano” está começando a entender os processos de tomada de decisão horizontais e já não se choca quando os reconhece.
No processo, muito mais do que uma mudança de cima para baixo, uma mudança cultural, na percepção de como as coisas são e como deveriam ser levam a um despertar gradual e o surgimento de uma massa crítica, que progressivamente se afasta dos caminhos da hierarquia e da pseudorepresentatividade e se aproxima da vida significativa e singular.
Neste dia 5 de outubro, exercite sua consciência e juízo crítico, e comece a se aproximar de redes, coletivos e movimentos que lutam e afirmam o bem coletivo sem criação de lados ou partidos. Se ainda não souber onde procurar, fale comigo. Procuraremos juntos,

enquanto caminhamos e compartilhamos nosso sonho comum.

 

utopia
abr 14

Transladando teoria em prática

By Rafael Reinehr | Medictando

De que serve ler palavras?

As lerei com meu corpo.

Como pode um enfermo beneficiar-se

lendo um livro de medicina?

Shantideva

 

Na edição passada, fiz um convite aos leitores:

que me ajudassem a esclarecer como se faz para transformar teoria em prática. Hoje começaremos a investigar esta questão.

Um aspecto interessante da vida médica diz respeito ao caminho necessário a trilhar entre o conhecimento e a aplicação prática daquilo que foi aprendido.

Sabemos, tanto por experiência quanto pela análise de estudos científicos, que quanto mais complexas as medidas que precisamos implementar em nossas vidas, menor é a aderência a tais

Por exemplo, é muito mais fácil conseguir aderência de uma paciente a um tratamento medicamentoso por curta duração do que por longo prazo. A aderência ao tratamento de uma pneumonia é muito mais provável do que a de osteoporose, diabetes ou obesidade. Dentro de tratamentos de curto prazo, aquelas medicações com uma só tomada ao dia tem chances muito maiores de adesão por parte do paciente do que aquelas que necessitam, por exemplo, três ingestas diárias. E, inalmente, tratamentos em que o uso de medicações são as responsáveis principais pela melhora dos pacientes acabam resultando em melhores resultados em geral do que aqueles em que a mudança de hábito de vida – incluindo, por exemplo, mudanças nos hábitos alimentares e realização de atividades físicas – são necessários.

Não se beneficia um paciente ofertando-lhe um livro de medicina – uma série de orientações práticas, detalhadas, factíveis e, de preferência, com pequenos passos por vez se faz necessária; em nossa vida profissional e pessoal também precisamos de certo planejamento e organização para transladarmos o conhecimento que adquirimos em ações práticas para benefício próprio e daqueles.

E quais seriam estas orientações que nos ajudariam a transformar teoria em prática? Chamo o fluxograma a seguir de “Vamos acampar?”, pois ele nos incita a fazer uma lista do que precisamos levar, por exemplo, quando vamos fazer um acampamento:

– Definir objetivos claros: o que queremos? para onde vamos? como vamos? com quem vamos? do que precisamos? como vamos conseguir o que precisamos?

– Antecipar possibilidades – e se não der certo, quais são as alternativas?

– Transformar crenças pessoais em problemas, para motivar mudanças

– Quebrar o complexo em partes menores

– Compreender o que se quer transformar e, finalmente

– Acompanhar o andamento do processo, corrigindo imediatamente o rumo quando necessário

Indo para a prática, então: há pouco mais de dois anos decidimos, minha esposa e eu, deixar de lado a vida de “sucesso” profissional que nos consumia por 12 horas dentro de um consultório cheio e mudamos de cidade e de vida, em busca daquilo que realmente fazia sentido para nós, em contraponto ao que a sociedade (e nossa família) espera de uma pessoa bem sucedida.

Este caminho, o que começa em saber exatamente o que se quer e não termina nunca, pois estamos sempre acompanhando e reavaliando o processo de caminhar, é o que estamos trilhando nesse momento. Só se aprende a viver vivendo. Como disse Thomas Fuller, “o conhecimento dirige a prática, mas a prática aumenta o conhecimento”.

Algo precisando ser mudado na sua vida? Leia a mudança não com o pensamento mas com sua própria vida.

Depois me conte. Mãos à obra!

O Anarquismo e suas Aspirações
maio 06

O Anarquismo e suas Aspirações – parte VII

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Acenando em direção à Utopia

“A mudança revolucionária não vem como um momento cataclísmico.. mas como uma sucessão sem fim de surpresas, movendo-se em zigue-zague em direção a uma sociedade mais decente. Nós não precisamos nos engajar em grandes e heróicas ações para participar do processo de mudança. Pequenos atos, quando multiplicados por milhões de pessoas, podem transformar o mundo.”Howard Zinn, em O Otimismo da Incerteza, 2004

Existem três outras coisas cruciais que anarquistas tem em comum. Elas emergem do grito anarquista contra tudo que é injusto na sociedade e evolue da sua raiva contra tudo que obstrui a liberdade substancial. Elas também corporificam a exuberância de tudo que é possível no mundo, sua alegre defesa das éticas que moldam sua práxis variegada. Estas três são as Visões Reconstrutivas, as Políticas Prefigurativas e as Formas de Auto-organização anarquistas.

Anarquistas estão acostumados a perder. A história da luta por valores não hierárquicos é uma luta trágica e sangrenta. Ainda para citar Moxie Marlinspike, anarquistas “sabem que existem momentos no tempo, mesmo precedendo a derrota, em que as pessoas aprende mais sobre elas mesmas, e sentem um grande senso de inspiração daquilo que estão experenciando, que de todas as vitoriosas navegações de George Washington por todos os rios Delaware do mundo”. O processo instável de construir um mundo melhor significa relembrar que o anarquismo é uma tradição muito bela – uma que acolhe outras belas tradições. É sobre lembrar o que os anarquistas e outras pessoas afins criaram através da história. Sim, o objetivo é vencer, mas de várias formas, grandes e pequenas, já ganhamos muito. O Anarquismo faz as perguntas certas acerca da transformação social, e então explora múltiplas formas de respondê-las, mesmo que ele nunca encontre “A Resposta”.

Visões Reconstrutivas

O Anarquismo é mais do que uma consciência social ética e vibrante, e mais do que uma crítica e visão social. Os anarquistas não apenas falam sobre melhores formas de organização social. Eles se atiram no modelamento de novos mundos, mesmo que isso signifique construir castelos – ou coletivos, comunas e cooperativas – nas areias da sociedade contemporânea. Anarqusitas acreditam que as pessoas irão “pegar” o anarquismo visceralmente e intelectualmente no processo de vê-lo em ação, ou melhor ainda, experimentando com seus valores por elas mesmas. Isso necessita práxis. As pessoas não irão desistir do conforto (ou desconforto) do status quo sem algumas ideias do porque deveriam fazê-lo.

De várias formas, os anarquistas apresentam visões reconstrutivas que mapeiam o caminho em direção a uma sociedade além da hierarquia. Visionar este mundo é, claro, parte da prefiguração e da auto-organização. O Anarquismo, ao contrário de outras filosofias políticas, retém um impulso utópico. O conceito de utopia dentro do Anarquismo não é alguma terra muito distante, uma terra do nunca; nem é uma forma de ignorar as necessidades e desejos materiais. Ao invés, é precisamente uma forma de levar em conta a totalidade das necessidades e desejos materiais e não materiais – não simplesmente pão e manteiga, mas pão, manteiga e também rosas – e imaginar formas nas quais todos possam satisfazê-las. O Anarquismo olha para o passado, quando as pessoas viviam formas comunais e auto-geridas de organização; ele vê potencialidades no presente; e ele sustenta uma confiança clara de que os humanos podem fazer sempre melhor no futuro. A sensibilidade utópica do anarquismo é esta curiosa fé de que a humanidade pode não somente demandar o impossível mas também realizá-lo. É um salto de fé, mas aterrada e vislumbrada a partir de experiências atuais, grandes e pequenas, nas quais as pessoas presenteiam caminhos de vida igualitários uns aos outros através da sua criação coletiva.

O Anarquismo não é somente um ideal; não é apenas um experimento difícil. Nem um diagrama ou um plano rígido. Sua instância reconstrutiva sonha formas de incorporar suas éticas e então tenta implementá-las. Muitas práticas atualmente existentes, anarquistas ou não, ilustram que relações sociais horizontais já são possíveis – e funcionam melhor que relações verticais. Anarquistas instalam produções culturais open source e faça você mesmo para exemplificar ideias imaginativas que inspirem outros a agir. Eles documentam a história das pessoas em pôsteres; eles pintam janelas para outros mundos em muros públicos ou os publicam em zines; eles usam música indie e mídias independentes para disseminar aspirações libertárias. Anarquistas criam espaços para celebrar formas alternativas de ser e organizar, de carnavais contra o capitalismo a “mercados realmente, realmente livres”, até feiras anarquistas e infoshops. Eles desenvolvem contra-instituições como escolas auto-dirigidas e espaços de trabalho auto-gerenciados. Nestes e em outros caminhos, anarquistas experimentam e linkam inovações e indicam as potencialidades para uma transformação social mais ampla.

Políticas Prefigurativas

Política prefigurativa: a ideia de que deve haver uma relação ética consistente entre os meios e os fins. Meios e fins não são a mesma coisa, mas anarquistas utilizam meios que apontam na direção de seus fins. Eles escolhem ações ou projetos baseados em como estes se encaixam em objetivos de longo prazo. Anarquistas participam no presente de formas que eles gostariam de participar, muito mais completamente e de forma muito mais auto-determinada, no futuro – e encorajam outros a fazê-lo da mesma forma. A política prefigurativa então alinha os valores de alguém à sua prática e às práticas da nova sociedade antes que ela esteja completamente em seu lugar.

Ainda, o “fim” no Anarquismo não é uma destinação final. Não é nem predeterminada nem um local único, singular, nem uma revolução após a qual tudo se tornará e permanecerá perfeito. Fins, para anarquistas, são uma constelação de éticas, testadas agora e sempre, que oferecem grandes quantidades de vida livre, mesmo que as pessoas continuem preenchendo o que a liberdade se parece na prática. Os meios envolvem a jornada em si, que também é uma parte íntima e interconectada com os fins. A relação eticamente consistente entre os meios e os fins é, simplesmente, incorporada no processo em si mesmo, e continuamente melhorar as formas de chegar aqui até ali é o que é revolucionário.

Revolução se torna tanto uma noção grandiosa – aquele sopro de esperança de fundamentalmente refazer o mundo – e algo iminentemente “pegável” que nós podemos tentar aqui e agora. O Anarquismo pede às pessoas que “construam a estrada à medida em que viajam”. É no processo de construir novos mundos que a transformação acontece, em como as pessoas se organizam para fazer seu caminho em direção a algo apreciavelmente melhor.

Revolução carrega em si evolução. Anarquistas, como todo mundo mais, precisam se tornar pessoas capazes de sustentar uma nova sociedade. A organização e as instituições de uma nova sociedade necessitam se desenvolver em formas que são capazes de estruturar novas relações sociais. Anarquistas infundem tudo o que fazem com gestos, algumas vezes extravagantes, do que irá substituir, entre outras coisas, o capitalismo e o estado, heteronormatividade e ditadura do mais capaz. Tais atos prefiguram, ou mostram a possibilidade, antecipadamente, de organizações e relações sociais igualitárias. Como tal, elas demonstram e corporificam o poder da imaginação, participação substantiva, e o valor de todas as coisas vivas – todas as quais, no seu máximo coletivamente auto-geradas, poderão realmente quebrar o feitiço dos arranjos de poder de cima para baixo.

Formas de Auto-organização

As visões reconstrutivas do Anarquismo praticam como reorganizar a sociedade. Eles põe a ação direta em Ação!

A ação direta toma uma de duas formas. Sua forma “positiva” ou proativa é o poder de criar. As pessoas fazem coisas agora da forma que elas querem vê-las feitas, de forma crescente, no futuro, sem representantes ou formas verticais de poder. Elas ignoram “altos” poderes, e flexionam seus próprios músculos coletivos para fazer e implementar decisões sobre suas vidas. A forma “negativa” ou reativa de ação direta, o poder de resistir, usa meios diretos de desafiar as coisas ruins – por exemplo, uma greve geral para parar uma guerra.

Ambos tipos de ação direta são úteis, é claro. Eles caminham de mãos dadas. Estudantes, professores e funcionários de uma universidade podem por exemplo ocupar um prédio para protestar contra cortes orçamentários e ao mesmo tempo utilizar processos democráticos diretos para auto-determinar seu curso de ação (que pode então direcionar os ocupantes a querer uma forma totalmente diferente de educação). Um projeto de Vigilância da Polícia pode usar tecnologias de comunicação gratuitas e abertas, como uma rádio livre, como uma forma para as pessoas reportarem diariamente sobre abusos policiais, e ao mesmo tempo desenvolver uma mídia tocada pela comunidade. Mas é quando as pessoas crescentemente tomam conta e se colocam como co-responsáveis, instituindo e participando de organizações não hierárquicas, que elas começam a ter poder de redesenhar a sociedade, ao invés de simplesmente o “poder” de reagir contra aquelas forças que em última instância tem poder sobre elas.

Fechamos o círculo para a concepção do Anarquismo como aspirando um direção a indivíduos livres dentro de uma sociedade livre. Estamos totalmente no campo da auto-determinação, auto-gestão, e auto-governo, como realidades vivas, mesmo que em formas embriônicas. A única forma de construir estas novas relações e instituições sociais é fundá-las e alimentá-las nós mesmos. Anarquistas estão sempre envolvidos em todas formas de projetos auto-organizados, tanto operando sob a superfície para confeccionar novas bases para uma vida social e ecológica quanto na superfície, em experimentos visivelmente relevantes que refletem noções de senso comum sobre como todos poderiam viver suas vidas em conjunto, bem como as várias formas que já o fazemos.

Muitos projetos anarquistas acontecem dentro de círculos anarquistas ou são direcionados a outros anarquistas. isso permite aos anarquistas experimentarem com formas de organização entre pessoas relativamente afins que já estão comprometidas com elas. Isso facilita o desenvolvimento da muito necessária infraestrutura auto-gerenciada para desenvolver ideias, construir habilidades e mentorar futuras gerações de anarquistas.

O buraco é bem mais embaixo quando buscamos integrar grupos de pessoas e comunidades não afins, que não estão nesta “pegada” de produzir um mundo melhor para todos, mas ainda presos ao conteúdo, às métricas e métodos capitalistas de geração de escassez, acúmulo, competição, consumo, desenvolvimento através da expansão e exploração dos meios naturais e do trabalho humano a partir de relações hierárquicas de dominação. Nestes casos, a incompatibilidade é clara e não haverá harmonia de um eventual relacionamento. Se pode escolher um de dois caminhos: enfrentamento ou desaparecimento.

Particularmente, acredito que o enfrentamente consome energias enormes que poderiam estar sendo concentradas na criação das estruturas, instâncias e vivências que desejamos multiplicar. Portanto, ser hábil em praticar o desaparecimento da cena do conflito (não confundir com negação ou fuga), é uma habilidade interessante nestes dias de transição.

Os anarquistas não tem todas as respostas, nem buscam ter o monopólio das mesmas. Eles apenas fazem boas perguntas e estimulam que melhores respostas sejam dadas. Não querem um “mundo anarquista”, ao invés disso, um mundo igualitário no qual cada um aprenda a pensar e agir por si mesmo levando em conta a coletividade. Anarquistas trazem esta sensibilidade bem como suas capacidades de auto-governança às lutas ao redor do mundo, desde cidades-tenda para aqueles que não tem casas até cooperativas organizadas por grupos de terras comunitárias para aqueles que querem controlar sua moradia.

A auto-organização é a chave para garantir a posse não exclusiva – ou melhor, a posse em comum – da liberdade. Como o Anarquismo consistentemente afirma, a liberdade só é possível quando todas as pessoas compartilham a habilidade de determinar e moldar relações sociais e organizações sociais. A única forma de criar formas de justiça tão amplas é garantir que todos tenham uma porção igual de poder, que nós não apenas discutamos, debatamos e dialoguemos acerca de qual tipo de socidade e vida cotidiana queremos, mas também resolvamos os problemas, implementemos, avaliemos e revisitemos aquelas decisões sobre a totalidade da vida. Como essas formas de auto-organização irão se parecer na prática é justamente o escopo do Anarquismo; é o que fazemos – em essência, pesquisa e desenvolvimento voluntário e, desenhando a partir de boas ideias tanto de dentro como de fora do meio social anarquista. O Anarquismo pega emprestado de possibilidades aparentemente impossíveis do passado e do presente. Ele então presenteia estas possibilidades a todos, oferecendo esperança ao apontar em direção a um futuro crescentemente liberador.

O laboratório do Anarquismo é a totalidade da vida. Ele explora o que a auto-determinação iria parecer em relação ao sexo, sexualidade e orientação sexual; ele articula estratégias e contravisões para oprimidos, colonizados ou ocupados ao redor do mundo. Ele testa novas formas de auto-gerenciamento do espaço de trabalho, enquanto reimagina a ideia de “trabalho” em si mesma, em termos de como as pessoas materialmente produzem e distribuem tudo desde comida, a vestimentas, a energia e a tecnologias de comunicação. Os anarquistas auto-organizam o que hoje é visto como “serviços”, de educação a saúde mental e física, a cafés e bibliotecas, a operações de resgate. Eles disponibilizam novos mecanismos de auto-governança, de coletivos e grupos de afinidades, a assembléias de vizinhança, conselhos e confederações – todas inclinadas para a experimentação com métodos de tomada de decisão diretamente democrática e por consenso. Nestas formas e em incontáveis outras, anarquistas dão significado tangível a uma forma de organização social cuja premissa é a Liberdade.

 

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

Convergencia
set 11

Decisões que mudam nossa vida

By Rafael Reinehr | Quase-Idéias

Hoje decidi algo importante, que deverá mudar minha vida nos próximos anos: vou, decididamente, deixar a Medicina dormir. Com isso quero dizer que vou começar a buscar mais intensamente situações e condições que me permitam dedicar, cada vez mais, ao que vem me interessado nos últimos anos: Cooperação, Comunicação, Conhecimento e a Convergência destas matérias.

Vou tentar buscar alguma forma de sustentar este desejo, me aliar a instituições ou projetos que permitam que eu dedique meu tempo à pesquisa, divulgação e implementação das ideias e ideais que temos desenvolvido e apresentado na Coolmeia, incluindo aí iniciativas educativas, de economia solidária, de sustentabilidade e de despertar individual.

Ainda não faço ideia de como farei para realizar esta “necessidade” nos próximos anos, mas logo depois de atender a alguns compromissos pré-assumidos para este ano, estarei começando a planejar e traçar novos rumos. Deseje-me sorte e eficiência.

Convergencia

ago 06

Resistência à mudança, Inovação e Conservadorismo

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Retirado de um seminário da STRO (Social Trade Organization):

Devemos ter em mente que não há nada mais difícil e perigoso, ou mais duvidoso de sucesso do que a tentativa de introduzir uma nova ordem de coisas em qualquer situação. O inovador tem todos os indivíduos que obtiveram vantagens com a antiga ordem das coisas como inimigos, enquanto aqueles que esperam ser beneficiados com as novas instalações, serão defensores moderados. Essa indiferença surge, em parte por medo de seus adversários, que eram os favorecidos pelas leis existentes e, em parte, pela incredulidade daqueles que não acreditam em nenhuma coisa nova, que não seja o resultado de uma experiência bem-sucedida. Por isso é que, sempre que os opositores da nova ordem das coisas têm a oportunidade de atacá-la, eles o farão com o zelo dos partidários, enquanto os outros o defendem, mas com pouca intensidade, assim, resulta ser perigoso confiar nestes últimos.” (Nicolau Maquiavel, em O Príncipe)

E o texto segue (agora fala o autor do texto, Hen van Arkel):

Certamente, quando você se propõe a repensar as estruturas básicas da sociedade, há uma grande resistência. E, de fato, durante muitos anos, era essencial que os ricos tivessem uma espécie de dinheiro disponível que lhes permitisse transferir poder ao longo do tempo e do espaó. No entanto, temos sobrevivido a esse episódio. Hoje as pessoas que têm muito, enfrentam o risco de perder tudo, vivendo neste planeta ecológico e socialmente frágil. Isso não significa que todas as pessoas ricas estão conscientes disto ou que sabem como melhorar seu comportamento. A opção por tais “mudanças” tanto atrai quanto assusta as pessoas. Nós, seres humanos, na grande maioria, desconhecemos que a história cria mudanças o tempo todo. A verdadeira questão é: nós vamos nos atrever a começar e apoiar as mudanças nas regras fundamentais existentes por trás da atual organização da sociedade, ou vamos esperar até que as coisas mudam, como resultado dessas regras em vigor ou devido a outras forças?

Para algumas pessoas, saber que a mudança de um estado de organização social para outro parece ser algo impossível, posto que todas as forças do tabuleiro jogam contra, basta para que se recolham à rotina de TV a cabo e churrascos de domingo.

Para outros, ela só reforça a noção de que o que está errado precisa de soluções ainda mais engenhosas e criativas, partindo para a prancheta e para a colaboração em rede para buscar as respostas aos problemas que se apresentam.

Como disse-me o amigo Luiz Algarra, depois que lhe encaminhei esta reflexão:

“Tenho refletido sobre o fato de que a inovação é apenas um estágio da conservação.
Inovamos para conservar.
As empresas inovamprocessos para conservar posições de mercado.
Partidos inovam propostas para se adaptar ao desejo dos eleitores, e se conservar no poder.
Somos seres conservadores po natureza. Conservamos nosso viver.
Então hoje para mim a questão é: o que desejo conservar?
Tudo de organiza em congruência ao redor de um sistema que conserva uma determinada classe de coisas.

Pergunta importante: “o que desejo conservar?“. É o meu desejo egoísta, altruísta? Estou respeitando o outro, a diversidade ou apenas o meu dinheiro e o meu poder? Qual é minha compreensão acerca do mundo que me cerca? Biologia do Amar e Biologia do Conhecer, disciplinas que não são ensinadas nas Escolas do Mundo ao Avesso…

Vamos estudar juntos, vamos apreender estes conceitos e com eles aprender a nos tornar humanos?

set 14

14/09/2009 – Trabalho, Mudança e Mudanças

By Rafael Reinehr | Cotidianices

No fim do dia de hoje, chega a mudança da minha mãe Claise, que está se mudando para Araranguá e virando catarinense. Ainda bem que não trabalho amanhã (vantagens da vida de autônomo, de profissional liberal) e posso ajudá-la na casa nova.

Por falar em ausentar-se do trabalho, atualizei o texto Abaixo ao Trabalho com mais um texto, agora o Elogio do Lazer, de Bertran Russell.