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Tudoteca. Um espaço colaborativo.
fev 01

Tudoteca: um Espaço de Convivência, Compartilhamento e Cooperação

By Rafael Reinehr | Agir localmente , And Now, For Something Completely Different... , Coolmeia , Ecologia , Efervescências , Ideias , Quase-Idéias , Saúde da Sociedade , Sociedade , Sustentabilidade e Resiliência

Imagine se você não precisasse mais se preocupar em trabalhar para juntar dinheiro para comprar coisas, e você as tivesse à sua disposição, quando precisasse, próximo da sua casa, pelo tempo que você precisar, a uma fração do custo de adquiri-la. E, mesmo que você não tivesse dinheiro, você também pudesse usufruir destas “coisas” que você necessita?

 

Então, isso já é possível, dentro do conceito de Tudoteca.

 

Berkeley_Public_Library_tool_lending_library,_insideA Tudoteca é uma ideia que tive lá pelos idos de 2007-2008 e foi inspirada em dois conceitos: o de Cohousing (que também me inspirou a criar a Coolmeia, naqueles anos) e o conceito de Tool Library, que vim a conhecer lá por 2011-12, e ajudou a aperfeiçoar o modelo da Tudoteca.

Bem, e o que é exatamente, para quê serve e como funciona essa tal de Tudoteca? Explico. Pega um café, suco, água, mate gelado ou um chimarrão e presta atenção vivente, que a história é boa de se ouvir!

 

In Boulder, Colorado the Tool Library looks much like a hardware store and even rents out tools to contractors to help subsidize rental costs and membership fees for the general public.

 

 

Imagine um lugar no qual você possa pegar emprestado “quase” qualquer utensílio de uso eventual para sua casa, local de trabalho, viagem, festa… Um local no qual estariam disponíveis para empréstimo desde ferramentas de uso eventual como furadeiras, serras elétricas, escadas de vários tamanhos, aspiradores de pó, lava-jatos portáteis, ferramentas de mão como martelos, serrotes, chaves de fenda, de boca, alicates, tornos…

 

 

Além disso você poderia pegar emprestado louças, talheres, copos e toalhas de mesa para aquela festa de formatura do seu filho ou aniversário da sua filha (que se fossem alugados custariam os olhos da cara!)… E você também poderia pegar emprestados livros, revistas, CDs, DVDs, roupas, um freezer, frigobar, chaleiras, liquidificadores, microondas, forno elétrico, batedeira, panificadora… Quer acampar? Para quê comprar se você pode pegar emprestada uma barraca, lanterna, uma churrasqueira portátil, um par de rádio-transmissores de longo alcance, varas de pescar…

pratos-e-talheres

 

Nesse mesmo espaço, encontraríamos também uma padaria comunitária, na qual os membros do coletivo que irá autogerir a Tudoteca se revezariam na produção, distribuição e eventual comercialização do excedente lá produzido. Poderíamos também ter um refeitório ou restaurante comunitário, que ofereceria refeições produzidas com alimentos orgânicos produzidos por pequenos agricultores das redondezas.

Padarias-comunitarias

O mesmo sistema de rodízio e escala de trabalho aqui também se aplicaria. E que tal um café funcionando no mesmo espaço, o dia inteiro, para quem está de passagem e quer encontrar um amigo enquanto lê um livro ou escuta uma música na vitrola que está à disposição dos associados?

Balzacs1

instrumentos-musicais

E se, além disso, na Tudoteca também tivesse uma lavanderia coletiva, em que as máquinas pudessem ser usadas em troca de alguns “pontos de crédito” dos associados?

lavanderia-coletiva-wise-blog-do-parlare

E, ainda mais, se tivéssemos uma pequena Brinquedoteca para as crianças poderem se divertir enquanto os pais trabalham ou circulam pela Tudoteca?

brinquedoteca

Não seria macanudo tudo isso num mesmo lugar, agradável, aconchegante e efervescente cultural e socialmente, recebendo vez ou outra oficinas, seminários, rodas de conversa, encontros de aprendizagem informais, apresentações musicais e artísticas, saraus, cineclubes, fotoclubes, green drinks, pecha kucha nights, stand ups?

E o mais legal de tudo isso: poderia participar quem tem grana, quem tem coisas sobrando e mesmo quem não tem grana nenhuma, só um pouco de tempo para trocar. Como assim? Explico:

Tudoteca, para se tornar sustentável, funcionaria como uma associação horizontal e autogerida.

Opção 1: Se você tem grana, você paga digamos 39,90 ao mês por 300 créditos, 59,90 por mês por 500 créditos ou 79,90 por mês por 800 créditos e pode trocar estes créditos por X dias dos produtos W, Y e Z que você precisa naquele mês. Se não quer pagar mensalidade, você pode se associar e, por cada 1 real você comprar 5 créditos para poder emprestar algum bem ou serviço determinado (digamos que você só está na Tudoteca pelo maravilhoso pão de arroz integral sem glúten que a Daiane faz…)

Opção 2: Se você não tem grana, mas tem “coisas” que estão paradas na sua casa, você pode doar estas coisas para a Tudoteca – por exemplo uma parafusadeira, uma guitarra e um amplificador que você não toca mais, um jogo Banco Imobiliário e 2 decks de Super Trunfo e um secador de cabelo que sua ex-namorada esqueceu no seu apartamento – e em troca delas, você ganha créditos e passa a usá-los para emprestar coisas das quais você realmente precisa.

Opção 3: Tá! Mas eu não tenho grana e também não tenho nada para doar. Sou um estudante universitário pé-rapado, sou morador de rua, tenho um emprego que mal dá pra sustentar minha família. E agora. Preciso de uma furadeira só por um dia pra consertar algumas coisas lá em casa. Neste caso, você pode oferecer algo que todos seres vivos (enquanto vivos) temos: tempo! Você pode oferecer um sábado pela manhã da sua vida para ajudar a alcançar os objetos para quem for na Tudoteca pegá-los, pode ajudar na padaria ou no restaurante comunitários, pode ajudar na limpeza, buscando nossos hortifrutigranjeiros orgânicos ou mesmo cuidando das crianças na Brinquedoteca. Em troca do seu tempo, você ganha os créditos que você vai trocar pelo que você quiser. Sempre que eles acabarem, não tem problema: só oferecer o seu tempo novamente!

Ei, mas espera aí! Vai ter gente trabalhando na Tudoteca em troca de créditos e depois vai vender por fora para ganhar uns trocos. Mercado Negro! Pode isso? Sabe que só pensei nisso agora, nesse exato instante? Eu, Rafael, não vejo problema nisso. Mas e o resto das pessoas do coletivo, o que pensam? Acho que esse é um dos assuntos que deve ser deliberado coletivamente, bem como outros detalhes que devem ser registrados em uma Carta de Princípio e em uma Bases da Unidade (que também podemos chamar de Termos de Uso) da Tudoteca.

Tá, e essa grana que vai entrar na Tudoteca, pra quê serve? Vai enriquecer alguém? Nããão! O dinheiro que entrar será usado em parte para consertar e repor equipamentos, peças e ampliar o acervo de bens e serviços da Tudoteca, uma parte será reservada na forma de um Fundo de Emergência para os Associados, em caso de catástrofes naturais ou épocas de crise (estão vendo as nuvens negras da tempestade se aproximando no horizonte?) e uma parte será reservada para um Fundo de Multiplicação de Tudotecas, para criar a Tudoteca 2, a Tudoteca 3, a Tudoteca 4 e assim por diante, nas comunidades que forem se apresentando e demonstrando desejo de possuir uma na vizinhança.

E aí? Gostou da ideia? Supimpa né? Valeu, obrigado! Também acho! 🙂

Ah! tem outras ideias que já foram desenvolvidas pensando na expansão e no “espalhamento” de Tudotecas por todos os cantos do Brasil e do Mundo.

Quer saber quais são elas e fazer parte do time que vai planejar a instalação da primeira Tudoteca no Brasil? Coloca teu nome e e-mail aí embaixo que entramos em contato!

Agora, se você se empolgou de verdade e quer fazer parte do time que vai fazer as Tudotecas se espalharem pelo mundo, vá direto para o nosso Mapeamento de Ativos e Necessidades e apresente-se!

 

Saúde para quem precisa!
maio 05

Saúde para quem precisa

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

“Polícia para quem precisa
Polícia para quem precisa
de Polícia…”
Titãs

    Para começar, bom dia caro leitor.

Comunico que acabo de colocar fora o artigo que tinha escrito para esta edição, em função dos últimos acontecimentos nesta Terra brasilis.

    Enquanto escrevo estas linhas, os noticiários estão literalmente pegando fogo: jamais na história deste país, por tantos dias seguidos e em tantas cidades, ocorreram aglomerações de tantos cidadãos protestando por tantas causas justas e necessárias. Uma heterogeneidade de métodos, desde passeatas e protestos pacíficos até depredação de patrimônio público e privado, entretanto, tornam difícil uma análise fácil das mobilizações como um todo.

    Neste mesmo momento, uma série de decisões importantes relacionadas à saúde da Nação e da população são tomadas: desde a votação da PEC 37, que visa eliminar a capacidade do Ministério Público Federal de investigar crimes e lutar contra a impunidade em nosso país, passando pela aprovação na Comissão de Direitos Humanos da Câmara do que foi chamado de “Cura Gay”, ou seja, a possibilidade de psicólogos proporem tratamento para a homossexualidade, indo contra ao próprio Conselho Federal de Psicologia que proíbe que a homossexualidade seja vista como doença e, mais recentemente, a aprovação do Ato Médico no Senado, que reserva exclusivamente aos profissionais médicos a prerrogativa de diagnosticar, prescrever medicamentos, realizar cirurgias, internações e altas hospitalares.

    Um pouco antes, a notícia da vinda de médicos cubanos para responder à uma demanda de cidades isoladas do país, nas quais existe uma demanda significativa por profissionais médicos que não é atendida pelos médicos formados em nosso país, gerou polêmica e é criticada por uns e aplaudida por outros.

    Meditando sobre a complexidade inerente a cada situação, em seus múltiplos pontos de vista possíveis, observando beneficiados e prejudicados, lados fortes e fracos da equação, os interesses claros e obscuros por trás de cada medida, escolhi as posições que devo ocupar. Como ser político que sou, minha saúde e qualidade de vida – entendida pela imbricada teia de variáveis que constituem o que é ser saudável para bem além do corpo, incluindo as variáveis ambientais e sociais – dependem também das decisões que são tomadas em relação a quem vai monitorar a criminalidade organizada e a corrupção ativa em meu país, em perceber se os cidadãos com os quais convivo estão ficando mais ou menos tolerantes com a diversidade, em me dar conta de quais são, de fato, as pessoas que podem cuidar de minha saúde física e mental, bem como de meus amigos, familiares e pessoas que prezo e, também, em como está garantida, por lei, pelo mercado ou pela facilidade de acesso, o meu contato a profissionais qualificados para promover e restituir minha saúde.

    Para cada variável, podem existir prós e contras, mas nem sempre podemos ser duais.

Não podemos ao mesmo tempo permitir e não permitir algo. Temos que nos posicionar. Eu tomei minha posição. Você tomou a sua?

(publicado originalmente em 2013 na Revista DOC)

Primeiro de Maio
maio 01

Primeiro de Maio: Automação, Desemprego, Terceirização, Precarização do Trabalho

By Rafael Reinehr | Anarquia e Escritos Libertários , Apontamentos Anarquistas , Saúde da Sociedade , Sociedade

Premissas:

# A automação pode representar a liberação dos seres humanos, no momento em que substitui a força de trabalho humano deixando-o o livre para atividades contemplativas e prazerosas

# Para que isso seja verdade, os benefícios da automação devem ser divididos entre toda a espécie humana

# É fato que, no mundo contemporâneo (2015), os frutos da automação estão sendo auferidos para uma pequena parcela desta mesma espécie humana, e são restritos a grupos econômicos, corporações e pessoas que detém o capital e os meios de produção

# O desemprego – ou incapacidade de encontrar um meio de labor que sustente de forma satisfatória a vida de um indivíduo e sua família – é uma realidade em praticamente todos Estados Nação – excetuando-se talvez o Vaticano, Liechtenstein, o Principado de Mônaco e o Principado de Sealand.

# O desemprego funciona, dentro do sistema capitalista, como uma ferramenta a serviço da precarização do trabalho e para a manutenção dos baixos salários da população assalariada, já que a massa desempregada funciona como lastro para a substituição de empregados que não se adaptam aos baixos valores praticados

# O desemprego poderia ser atenuado em parte através de uma visão mais empreendedora dos indivíduos, que, mesmo com oportunidades insuficientes, poderiam usar a engenhosidade e a criatividade para gerar renda para si mesmo, através da observação das necessidades não atendidas em cada localidade

# O desemprego poderia ser atenuado em parte através da formação de cooperativas que permitam a associação autônoma de indivíduos que se especializam em uma determinada área de atuação

# O desemprego poderia ser atenuado imediatamente, de forma top-down, através da limitação das horas de trabalho em 6 horas ou 4 horas

# A terceirização – ou subcontratação de serviços de outrem para realização de tarefas que foram a alguém contratadas – é uma faca de “dois legumes”, pelo menos no Brasil: ao mesmo tempo em que permitiria a otimização de processos produtivos e a inclusão de novos parceiros em atividades de criação de valor, quando usada de forma totalmente liberal em um mercado capitalista, acaba por gerar a perda dos direitos historicamente adquiridos pela classe trabalhadora

# A terceirização, dentro de um contexto de Economia Solidária, é uma forma de realizar tarefas e atividades produtivas que um determinado grupo, coletivo ou comunidade não tem capacidade de realizar, sendo então vista como algo mutuamente benéfico aos grupos envolvidos

# Surgem cada vez menos oportunidades de trabalhos com longo vínculo (estáveis) e cada vez mais trabalhos autônomos temporários (bicos/instáveis)

# A precarização do trabalho é ferramenta do sistema capitalista liberal para garantir a manutenção do status quo, baixos salários e contingente populacional ávido por qualquer oferta de emprego ou subemprego

# Formas flexíveis de contratação – como as derivadas da terceirização – contribuem ainda mais para a precarização do trabalho

foto de Pedro Martinelli: "Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo."

foto de Pedro Martinelli: “Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo.”

Analisando historicamente e evolutivamente o contexto no qual nos situamos, não será pela via político-partidária ou através de qualquer forma institucionalizada vinculada ao Estado e seus grupos econômicos financiadores e expropriadores que se resolverá as situações acima descritas.

A criação de alternativas deve seguir vindo de baixo para cima, com a formação de cooperativas conscientes, estabelecimento de ecovilas, ecopolos, comunidades intencionais despertas, comunidades autogestionadas com capacidade produtiva variada, aplicação de conceitos da Ciência das Redes e dos princípios da economia solidária, da cultura do conhecimento livre e da cultura peer-to-peer.

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Manifestação popular e trabalhista em Paris, primeiro de maio de 1999

 

Como complemento de leitura, sugiro o livro de Alexis Rowell, “Communities, Councils & a Low-carbon Future – What we can do if governments won’t”. Escrito dentro do contexto das Cidades em Transição, ele foca em vários aspectos interessantes e fundamentais para a constituição de uma vida em sociedade mais harmônica, justa, equânime, convivial e sustentável, como por exemplo a biodiversidade, eficiência energética, cooperação, água, reciclagem, trabalho coletivo e co-working, bem-estar, ativismo, boas práticas, geração de energia, transporte, espaços verdes, planejamento comunitário, etc.

Somente dentro de comunidades que são fundadas e se mantém a partir de princípios éticos claros e transparentes, que a exploração do homem pelo homem e os vícios de dominação e opressão do humano sobre o humano e sobre os outros seres pode deixar de existir.

Não será em uma sociedade na qual seres humanos guiados por interesses próprios e egoístas, a serviço de outros tão ou mais interesseiros e egoístas quanto, que conseguiremos nos livrar da hierarquia, da expropriação do tempo alheio em benefício de poucos e da humilhação de uns para o deleite de outros, substituindo-os por uma sociedade na qual os princípios de fraternidade, solidariedade, apoio mútuo, sustentabilidade e justiça social sejam favorecidos.

São pequenas reflexões para um primeiro de maio atípico, no qual o resto do dia será realmente dedicado ao descanso, à contemplação e à reflexão sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos…

Leitura sugerida:

Internetocracia Brasil: Desemprego e Precarização do Trabalho e comentários associados.

precarizacao

Vaga viva
out 19

O Anarquismo e suas Aspirações – parte X

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Capítulo 4 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular

     “A ação direta obtém os resultados”, proclamaram os Trabalhadores Industriais do Mundo há quase um século atrás. Ocupar as ruas e demonstrar poder em resistir de uma forma que os modelos para uma boa sociedade visionaram: uma forma verdadeiramente democrática.

     Mas é realmente assim que a democracia se parece?

     O impulso de “retomar as ruas” é compreensível. Ao início do capitalismo industrial, suas maquinações eram relativamente visíveis. Veja os Cercamentos. Áreas de pasto que eram usadas de forma comunal por séculos para prover aos vilarejos seu sustento foram sistematicamente cercadas de forma a pastorear ovelhas, cuja lã era necessária à indústria têxtil de burguesia. A vida comunal foi rispidamente jogada para o lado em favor da privatização, forçando as pessoas para desagradáveis fábricas em cidades abarrotadas.

     O capitalismo avançado, à medida em que se expande para além dos grilhões dos estados-nação em sua insaciável jornada pelo crescimento, enclausura a vida de uma forma muito mais expansiva mas geralmente invisível: as cercas são substituídas por uma cultura de consumo. Nós crescemos em um mundo quase totalmente comodificado, no qual nada vem de graça, mesmo tentativas fúteis de remover a si mesmo da economia de mercado. Essa comodificação infiltra-se não somente no que comemos, vestimos ou fazemos por prazer mas também em nossa linguagem, relações e mesmo em nossa própria biologia e mente. Nós não perdemos somente nossas comunidades e espaços públicos mas o controle sobre nossas próprias vidas; nós perdemos a habilidade de definir a nós mesmos fora da compreensão capitalista, e assim o próprio significado genuíno começa a se dissolver.

     Fechar temporariamente as ruas durante uma ação direta oferece espaços momentâneos nos quais praticar um processo democrático, e mesmo oferece um senso de empoderamento, mas tais eventos deixam o poder pelo próprio poder bem como o próprio pavimento embaixo de nossos pés, inalterado. Apenas quando uma série de protestos é escalado até formar uma luta pelo poder popular ou horizontal que poderemos criar rachaduras neste concreto figurativo, abrindo assim caminhos para desafiar o capitalismo, os estados-nação e outros sistemas de dominação.

     Nós não estamos jogando a ideia de uma sociedade boa para um futuro distante, mas tentando escavar espaço para ela aqui e agora, embora de forma dificultosa e contorcida pela ordem social vigente. Como agimos agora é como queremos que os outros comecem a agir, também. Nós tentamos modelar uma noção de bondade mesmo à medida em que estamos lutando por ela.

     Isso pode ser visto de forma implícita nos grupos de afinidade e estruturas de “conselhos de falantes” (spokescounsils) para a tomada de decisão e ações diretas. Ambos oferecem os espaços necessários no qual nos instrumentalizarmos para a democracia direta. Neles, podemos no melhor dos casos, proativamente definir a agenda, cuidadosamente deliberar juntos acerca de variadas questões, e chegar a decisões que tentar tomar em conta as necessidades e desejos de todos. Uma discussão substancial substitui o voto em urnas; a participação cara a cara substitui a entrega de nossas vidas a representantes; soluções graduadas e arrazoadas substituem aquelas grosseiras e tomadas por duas ou três pessoas. O processo democrático utilizado durante as demonstrações descentraliza o poder mesmo enquanto oferece uma solidariedade tangível; por exemplo, os grupos de afinidade concedem  a uma maior e mais diverso número de pessoas uma real parcela do processo de decisão, enquanto os “conselhos de falantes” permitem uma coordenação intrincada – mesmo ao nível global. Isso é, como os ativistas da década de 60 colocaram, o poder de criar ao invés de destruir.

     A beleza do movimento de ação direta é que ele esforça-se para realizar seus próprios ideais de coração. Em fazer isso, ele talvez, até de forma involuntária, criou a demanda por estas práticas de democracia direta em uma forma mais permanente. Contudo a perplexa questão subjacente à “democracia episódica das ruas” continua sem resposta: Como podem todos reunir-se para tomar decisões que afetam a sociedade como um todo de uma forma participativa, mutualística e ética? Em outras palavras, como pode cada um de nós – não apenas a contracultura ou um movimento de protesto – realmente transformar e em última instância controlar nossas próprias vidas e a de nossas comunidades?

     Essa é, em essência, a questão do poder – quem o possui, como ele é usado e com que finalidade. Em vários graus, todos nós sabemos a resposta em relação as atuais instituições e sistemas. Nós geralmente explicamos sobre o que somos contra. Isso é exatamente o porque de estarmos protestando, quer seja contra o capitalismo ou a mudança climática, cúpulas de nações ou econômicas ou guerras. No que temos amplamente falhado em articular entretanto, é algum tipo de resposta em relação aos sistemas e instituições liberatórias. Nós freqüentemente não conseguimos expressar, especialmente em nenhuma forma coerente e utópica, ao que somos favoráveis. Mesmo à medida em que prefiguramos uma forma de fazer o poder horizontal, equânime e, como conseqüência, esperançosamente parte de uma sociedade livre, nós ignoramos a visão reconstrutiva que o processo democraticamente direto exibe bem na frente dos nossos narizes.

     Para todos os intentos e propósitos, os protestos de ação direta permanecem presos. Por um lado, eles revelam e confrontam a dominação e a exploração. A pressão política exercida por tal agitação disseminada pode até ser capaz de influenciar as atuais estruturas de poder a reformar alguns dos piores excessos de seu modus operandi; os poderes existentes terão que escutar e responder, de alguma forma, quando as vozes se tornam muito numerosas e muito altas. Apesar disso, a maioria das pessoas ainda estão excluídas do processo de tomada de decisão e, conseqüentemente, tem pouco poder tangível sobre suas próprias vidas. Sem essa habilidade de se autogovernar, as ações nas ruas se traduzem em nada mais do que uma versão contracultural de um lobby de um grupo de interesse, mesmo que muito mais radical que a maioria e em geral não pago.

     O que se esquece em relação às mobilizações de ação direta é a promessa implícita em sua própria estrutura: de que o poder não apenas precisa ser contestado; ele deve também ser constituído “de novo” de uma forma igualitária e liberatória. Isso implica levar os processos de democracia direta a sério – não simplesmente como uma tática para organizar protestos mas como a própria forma de organizar a sociedade, especificamente a esfera política. A questão que então sobrevém: Como começamos a mudar a estratégia, estrutura e valores da ação direta das ruas para o mais básico nível de construção de políticas públicas?

     O nível mais fundamental de tomada de decisão é o grupo de afinidade. Aqui, nos reunimos como amigos ou devido a uma identidade em particular, ou uma combinação de ambos. Nós compartilhamos algo em particular; na verdade, essa identidade é freqüentemente refletida no nome que escolhemos para nossos grupos. Podemos nem sempre concordar em tudo uns com os outros, mas existe uma quantidade razoável de homogeneidade precisamente porque nós conscientemente escolhemos nos reunir por uma razão específica – usualmente tendo pouco a ver com mera geografia. Esse senso de identidade compartilhada permite um funcionamento  suave de um processo de tomada de decisão por consenso, já que partimos do um local de comunalidade. Em um grupo de afinidade, quase por definição, nossa unidade precisa ter precedência sobre nossa diversidade, ou nossa suposta afinidade se quebra por completo.

     Compare isso ao que pode ser o nível de tomada de decisão mais fundamental em uma sociedade: uma vizinhança ou um bairro. Agora, a geografia possui um papel muito maior. Em função de razões históricas, econômicas, culturais, religiosas e outras, nós podemos acabar morando lado a lado com uma ampla gama de indivíduos e suas várias identidades. A maioria dessas pessoas não são nossos amigos per se. Ainda, esta mesma diversidade que encontramos é a própria vida de uma cidade vibrante. Os acidentes e/ou numerosas decisões pessoais que nos uniram freqüentemente criam uma quantidade suficiente de heterogeneidade precisamente porque não escolhemos todos nos reunir por uma razão específica. Nesse contexto, o ponto do qual iniciamos é um de diferença, e os mecanismos de tomada de decisão precisam ser muito mais capazes de permitir a divergência; quer dizer, a diversidade necessita ser claramente retida dentro de qualquer noção de unidade. Como tal, os processos de tomada de decisão majoritários começam a fazer mais sentido. (???)

     Então, também, surge a questão da escala. É difícil imaginar ser amigo de centenas, ou mesmo milhares de pessoas, ou mesmo manter uma identidade única com tantos indivíduos. Mas podemos compartilhar um senso de comunidade e esforçar-nos em direção a um bem comum que permita a cada um de nós florescer. Por sua vez, quando números maiores de pessoas se reúnem cara a cara para remodelar suas vizinhanças e bairros, os assuntos e os pontos de vista se multiplicam, e as alianças sem dúvida mudam de acordo com o tópico específico que está sendo debatido. Por conseguinte a necessidade de um espaço no qual podemos nos encontrar como seres humanos ao nível mais cara a cara possível – qual seja, uma assembleia de seres politicamente ativos – para compartilhar nossas muitas identidades e interesses na esperança de harmonizá-los com os interesses da nossa comunidade em tudo que fizemos.

     Assim também, a confiança e a responsabilização funcionam de forma diferente nos grupos de afinidade e ao nível da sociedade civil. Nós geralmente revelamos mais de nós aos nossos amigos; e essas ligações não escritas de amor e afeição nos mantém mais juntos, ou pelo menos nos dão um ímpeto adicional para resolver as coisas. Por baixo disto existe um grau de confiança maior do que a média, que serve para nos tornar responsáveis um com o outro.

     Ao nível da comunidade, o reverso é mais freqüente: a responsabilização nos permite confiar um no outro. Esperançosamente, compartilhamos laços de solidariedade e respeito; mas desde que não podemos conhecer bem todos uns aos outros, tais vínculos apenas fazem sentido se nós primeiro os determinarmos juntos, e então os gravarmos, escrevermos, para que todos possam a eles se referir no futuro, e mesmo os revise se for necessário. Estruturas democráticas e responsáveis feitas por nós mesmos, provém as fundações para a confiança, desde que o poder de decidir é tanto transparente como continuadamente aberto ao escrutínio.

     Existem também questões relativas ao tempo e ao espaço. Os grupos de afinidade são geralmente configurações temporárias – eles podem durar alguns meses, ou alguns anos, mas geralmente não mais do que isso. Uma vez que a razão particular pela qual nos reunimos não é mais um imperativo imediato, ou à medida em que nossa amizade esmorece, tais grupos freqüentemente caem ao largo da estrada. E mesmo durante o tempo de vida de um grupo, no intervalo entre as ações diretas, não existe um local fixo ou regularidade, tampouco registro de quem decidiu o quê e quando. Além do mais, os grupos de afinidade não são abertos a todos mas apenas aqueles que compartilham uma identidade ou ligação específica. Desta forma, mesmo que um grupo de afinidade pode certamente decidir fechar uma rua, existe em certa instância algo levemente autoritário em pequenos grupos tomando os problemas em suas próprias mãos, não interessando qual sua persuasão política.

     Decidir o que fazer com as ruas em geral – digamos, como organizar o transporte, encorajar a vida das ruas, ou oferecer espaços verdes – deveria ser um assunto aberto a todos os interessados se é pra ser realmente participativo e não-hierárquico. Isso implica na existência de instituições abertas e diretamente democráticas, para tudo desde a tomada de decisões até a resolução de conflitos. Nós precisamos ser capazes de saber onde as assembleias populares estão se encontrando; nós precisamos nos encontrar regularmente e usar procedimentos não arbitrários; precisamos registrar quais decisões tem sido tomadas. Mas mais importante, se assim escolhermos, nós todos devemos ter acesso ao poder de discutir, deliberar e tomar decisões sobre as questões que afetam nossas comunidades e além.

     De fato, muitas decisões tem um impacto muito maior do que em apenas uma cidade; transformar as formas de transporte, por exemplo, poderia implicar uma coordenação a nível regional, continental ou mesmo global. Os radicais já muito entenderam tal confiança em si mesmo como uma “comuna de comunas”, ou confederação. O modelo de “conselho de falantes” usado durante as ações diretas insinua tal visão alternativa da globalização. Durante um encontro de “conselho de falantes”, delegados enviados pelos grupos de afinidade se reúnem com o propósito de coordenação, compartilhamento de recursos e habilidades, a construção de solidariedade e assim por diante, sempre retornando ao nível de base que tem o último arbítrio. Se as assembleias populares fossem nossa unidade básica de tomada de decisão, a confederação de comunidades poderia servir como uma forma de transcender o paroquialismo e criar a interdependência quando desejável. Por exemplo, ao invés de um capitalismo global e corpos regulatórios internacionais, no qual o comércio é gerenciado de cima para baixo e orientado pelo lucro, as confederações poderiam coordenar a distribuição entre as regiões de forma ecológica e humana, enquanto permitem que as políticas em relação à produção, por exemplo, permaneçam ao nível das comunidades.

     Os Zapatistas, a partir de 2001, provaram que as municipalidades podem esforçar-se para se tornar autônomas da máquina do estado e do capital, para colocar preocupações ecológicas e humanas em primeiro lugar, enquanto mantém ligações regionais e globais de solidariedade e apoio mútuo. “Esse método de governo autônomo não foi simplesmente inventado pelo EZLN (Exército Zapatista de Liberação Nacional), mas vem de vários séculos de resistência indígena e da própria experiência dos Zapatistas. É a auto-governança das comunidades. Em outras palavras, ninguém de fora chega para governar, mas as próprias pessoas decidem, entre elas, quem governa e como… E também, através das Juntas de Bom Governo, a coordenação melhorou entre as Municipalidades Autônomas”.

     Outro exemplo recente foi o movimento de assembleias de vizinhança que eclodiu na Argentina em 2001-02 em resposta a uma crise econômica que simultaneamente deslegitimou a política parlamentar. No final do Dezembro de 2001, um senso crescente de desespero e falta de poder se combinaram para forçar as pessoas não apenas às ruas para protestar de forma barulhenta batendo em seus potes e panelas (e destruindo caixas 24h) mas também para um diálogo de empoderamento com seus vizinhos sobre o que fazer a seguir – ao nível local, nacional e global. Cerca de cinqüenta vizinhanças em Buenos Aires começaram a manter encontros semanais e enviar delegados todos os Domingos para o encontro de uma coordenação geral entre vizinhanças. O Conselho Local da Federação Libertária Argentina explica que as assembleias “eram formadas por desempregados, subempregados e pessoas marginalizadas e excluídas da sociedade capitalista: incluindo profissionais, trabalhadores, pequenos vendedores, artistas, artesãos e todos eles também vizinhos”. Como a Federação Libertária notou, “Os encontros são abertos e qualquer um poderia participar”, e comum a todas assembleias era a “não delegação do poder, o autogoverno, e uma estrutura horizontal”. Enquanto as assembleias acabaram por não substituir a estrutura do estado, elas forneceram aos argentinos uma visão de sua própria capacidade de fazer políticas públicas coletivamente. “O medo em nossa sociedade se transformou em coragem”.

     De fato, estes esforços inovadores, mesmo quando não chegam aos resultados esperados de transformação social, terminam inspirando outras tentativas. Na pior das hipóteses, estas frágeis mas espetacularmente belas experiências irão para sempre mudar aquelas pessoas que delas participam, para melhor, por auto-orientar uma nova geração de rebeldes através da prática vivenciada de constituir uma comunidade coletivamente. Elas irão oferecer o suporte moral e material, e servir como a continuidade entre outros esforços similares, em outras partes do mundo. E elas irão também servir como mensagens em uma garrafa para gerações futuras, dizendo que formas confederadas e diretamente democráticas de tomar decisões sociais, econômicas, políticas e culturais são uma alternativa tangível. Na melhor hipótese, entretanto, tais formas de liberdade irão se expandir até a formação de poderes duais que podem contestar e em última instância substituir as formas de dominação. Elas irão se tornar a base para uma nova política de auto-legislação, auto-governo e auto-julgamento, para sempre estilhaçando o gelado mundo dos estados, do capital e das prisões.
     
     Qualquer visão de uma sociedade livre, se for para ser verdadeiramente democrática, deve é claro ser trabalhada por todos nós – primeiro nos movimentos e, mais tarde, em nossas comunidades e federações. Mesmo assim, nós provavelmente descobriremos que entendimentos há pouco definidos do que significa ser uma pessoa politicamente engajada são necessários no lugar de grupos de afinidade; um híbrido entre a tomada de decisão por consenso e métodos de decisão por votação majoritária que esforçam-se em manter a diversidade são preferíveis ao consenso simples e modelos informais; acordos escritos articulando direitos e deveres são cruciais para preencher a cultura não verbalizada dos protestos; e espaços institucionalizados para a criação de políticas são chave em garantir que nossa liberdade para tomar decisões não desapareça na linha de choque da polícia.

     Chegou o tempo de ir além do caráter oposicionista da ação direta infundindo-a com uma visão reconstrutiva. Isso significa iniciar, agora, a traduzir as estruturas do movimento em instituições que corporifiquem a boa sociedade; em resumo, cultivar a democracia direta no local que chamamos de casa. Isso irá envolver o duro trabalho de revigorar ou iniciar encontros cívicos e públicos, encontros de bairro, assembleias de vizinhança, conselhos de mediação comunitária, todo e qualquer forum no qual podemos nos reunir e decidir nossas vidas, mesmo que apenas em estruturas extralegais inicialmente. Então, também, significará reinvindicar a globalização , não como uma nova fase do capitalismo, mas sua substituição por comunidades confederadas diretamente democráticas coordenadas para o benefício mútuo.

     Chegou o tempo de mover do protesto para a política, de fechar as ruas para abrir espaços públicos, de demandar restos daqueles poucos no poder para segurar este poder firmemente nas nossas mãos. Por fim, isso significa ir além da questão “Ruas de quem?”. Devemos perguntar ao invés “Cidades de quem?”. Então, e só então, seremos capazes de refazê-las como se realmente fossem nossas. E serão.

Epílogo – Caminhos para a Utopia

Caminhos nunca são linhas retas. Eles ziguezagueiam, sobem e descem colinas e vales. Eles chegam a becos sem fim. Mas quando colocamos nosso melhor pé adiante, podemos nos aventurar na direção da utopia, em direção a um mundo que venha de baixo, para todos e por todos.

Com grande cuidado encontramos pedras nas quais podemos pisar para os destinos mais maravilhosos. Então nos esforçamos para emendar paisagens inteiras de práticas não-hierárquicas. Chutamos os vidros quebrados do nosso caminho. Às vezes nos perdemos. Mas a passagem precária em si mesma é um mapa para uma sociedade liberadora.

Nos damos as mãos, desejando atravessar de novo.

Quando a escuridão desce, construimos acampamentos de fogo a partir das fagulhas da possibilidade, e vemos outras chamas à distância.

O Anarquismo e suas Aspirações - germinando
out 05

O Anarquismo e suas Aspirações – parte VIII

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Consolidar a Liberdade

“Nós podemos não ver os desfechos
Embora possamos ver as pistas
Mas quando você planta uma semente
Ela deve crescer antes de desabrochar” 
– Ryan Harvey, “Ain’t Gonna Come Today” – 2006

     Os últimos quarenta ou mais anos desembocaram em uma nova era, por alguns chamada de sociedade em rede, idade da informação ou simplesmente globalização. Ao mesmo tempo em que as transformações no capitalismo, nos estados-nação, tecnologia e cultura abrem novas possibilidades, também são causa pra graves preocupações. Agora o Capitalismo está se tornando “verde”; as redes sociais e as tecnologias de comunicação reduzem cada vez mais os laços humanos; as democracias representativas oferecem relações públicas ao invés de redes de segurança, além de monitorização constante e total e neotorturas.

     A exacerbação da sensação de insegurança é agora a forma principal de pequenas redes da elite global buscam, para exercer diferentes formas de controle social após os eventos de Seattle em 1999 e os “atentados” de 2001 às torres gêmeas em Nova Iorque.

     Para muitos fora dessas redes, isso involve viver no fogo cruzado das ocupações, guerras civis e sofrer de grande restrição devido a crises ecológicas e econômicas. A noção de cidadãos protegidos por um estado agora parece antiquada, já que milhões de refugiados e excluídos do sistema (educacional, de saúde, de segurança) vivem em espaço de precariedade e ilegalidade. Para a maioria das pessoas, a vida diária é uma fonte de ansiedade, não apenas material mas também em termos de clara desumanização.

     Em contraste, o anarquismo reemergiu como uma das mais potentes correntes dentro dos atuais milieus radicais. Uma variedade de movimentos antiautoritários pipocaram mundo afora nas últimas duas décadas, mas o anarquismo parece ser a única forma de socialismo libertário que fala ao tempo e aos sonhos das pessoas. Aliás, o anarquismo pode muito bem ter estado além do seu tempo no século XIX, defendendo um mundo de identidades transnacionais e multidimensionais, em lugar por um humanismo substancial baseado no mutualismo e na diferenciação. Os valores anarquistas são estranhamente similares a muitas das mudanças estruturais acontecidas sob a globalização – como a descentralização e a cooperação – tornando-as mais práticas e potencialmente mais atraentes do que nunca. O estado, preocupação primária do anarquismo de longa data, ao lado do capitalismo, também foi para sempre alterado, se não totalmente minado. Parece não mais deter o monopólio da violência, nem pode mais oferecer o suficiente bem-estar social de modo a garantir a passividade de parte de seu eleitorado, e isso oferece novas aberturas para o mutualismo e a auto-governança.

     À medida em que a globalização progressivamente permite que a homogeneidade e a heterogeneidade coexistam, mesmo que frequentemente somente para fins instrumentais, os esforços em andamento do anarquismo para construir uma unidade em nossa diversidade mais do que nunca sugerem uma práxis revolucionária.

     Esse pode muito bem ser lembrando como o “século anarquista”, como David Graeber e Andrej Grubacic afirmam. O número de pessoas se identificando com o anarquismo tem crescido espontaneamente no passado recente. Como os camaradas dos dias que passaram, esses novos anarquistas tem estado ocupados tentando prefigurar seus ideais. Uma melhor sociedade pode ser pré-visualizada em produções culturais (e sociais)  do tipo “faça você mesmo”, inclusive formas organizacionais, infraestruturas autônomas mas ainda assim enredadas, e nas numerosas formas de de-comodificar as necessidades e os desejos. O anarquismo do século XXI tem se mostrado crescentemente dinâmico e expansivo. Mais e mais escolas tem se juntado ao adjetivo “anarquista” para amplificar a totalidade do indivíduo e da sociedade – de anarquistas negros a anarquistas tecnológicos (ou ciberanarquistas), de anarquistas pós-estruturalistas a anarquistas gays, e aqueles concentrando-se em questões previamente ignoradas dentro do anarquismo como a saúde mental. As pessoas estão chegando ao anarquismo de outras tradições, reformatando-o no processo. Anarquistas são abertos a, aliados a, e criticamente solidários com – e buscam aprender de – toda sorte de movimentos de base do mundo. Eles são, mais do que nunca, formas práticas de auto-organização nos níveis micro, continental e global. Mais importante talvez, as formas de relação social anarquista se tornaram a posição “suave”, alógica implícita e frequentemente não  creditada, dentro dos movimentos radicais e progressivos globalmente.

     Eu concentrei aqui no que o anarquismo luta por na forma de suas mais amplas e ambiciosas visões, afirmando que tão belas aspirações servem como uma consciência necessária em um mundo crescentemente inconsciente. Eu argumentei que mesmo que o anarquismo fosse apenas uma sensibilidade ética, a ideia de uma liberdade expansiva pode algumas vezes ser o suficiente para determinar a forma que as pessoas, anarquistas ou não, tentam constituir a liberdade na prática. Felizmente, quando tudo está dito e feito, o anarquismo é esta grande mas ainda assim modesta crença, abraçada por pessoas através da história humana, de que nós podemos imaginar e também implementar uma sociedade totalmente maravilhosa e materialmente abundante. Esse é o espírito do Anarquismo, o fantasma que assombra a humanidade: de que nossas vidas e comunidades realmente podem ser apreciavelmente melhor. E melhor, e então ainda melhor.

 Capítulo 2 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

     Esta política radical de resistência e reconstrução a qual chamamos Anarquismo tem transformado a si mesma por décadas. Além de ajudar a dar forma ao atual movimento anticapitalista, ele também ilumina os princípios de liberdade que podem potencialmente deslocar a hegemonia da democracia representativa e o capitalismo.

     Desde seu início no século XIX, o Anarquismo sempre sustentou uma série de noções éticas que, defende, melhor nos aproxima de uma sociedade livre. Durante sua vida, o anarquista Errico Malatesta (1853-1932) há muito tempo descreveu o Anarquismo como uma “forma de vida social na qual os homens vivem como irmãos, onde ninguém está em posição de oprimir ou explorar ninguém, e na qual todas as formas de atingir o máximo de desenvolvimento moral e material estão disponíveis a todos“. Essa simples definição ainda captura os principais objetivos do Anarquismo. Se esta forma libertária de socialismo pode atender ao seu próprias aspirações ainda está por ser visto.

                    A Visão Tornada Invisível

     Enquanto as formas de organização e valores desenvolvidos pelos anarquistas podem ser encontrados de forma embrionária ao redor do mundo em muitas diferentes épocas, a estréia do anarquismo como uma filosofia distinta aconteceu na Europa no meio do século XIX. O “filósofo da liberdade” inglês William Godwin (1756-1836) foi o primeiro pensador do Iluminismo a escrever uma teoria sustentada da sociedade sem Estados em seu An Inquiry concerning Politic Justice em 1793, mas não foi até Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) escrever “a sociedade busca a ordem na anarquia” em seu “O que é a Propriedade?” em 1840, que o termo “anarquismo” lentamente começou a se organizar nas próximas várias décadas em torno de um núcleo central de princípios reconhecíveis.

     Muitas críticas podem ser feitas a Godwin e a Proudhon, este último com sua incapacidade em  lidar com a lógica inerente ao capitalismo e suas crenças patriarcais e anti-semíticas. De fato, foi necessário que o aristocrata russo Piotr Kropotkin (1842-1921) e o intelectual judeu alemão Gustav Landauer (1870-1919) e muitos outros menos proeminentes e menos conhecidos radicais pintassem um quadro mais agradável do anarquismo clássico: uma filosofia política utópica que negue todas as formas de autoridade e coerção imposta.

     Como socialistas, os anarquistas sempre foram particularmente preocupados com o capitalismo, que durante a Revolução Industrial estava causando sofrimento em uma escala inimaginável. Anarquistas primariamente colocaram suas esperanças em transformar as relações sociais entre os trabalhadores, utilizando categorias econômicas que iam desde a luta de classes até o fim da propriedade privada. Toda esquerda revolucionária concordava que o capitalismo não podia ser reformado;  ele deveria ser abolido. Mas ao contrário de outros socialistas, os anarquistas sentiam que o estado era tão culpado quanto em escravizar a humanidade, e assim não se poderia usar a máquina do estado – mesmo de uma forma transitória – para nos movermos do capitalismo para o socialismo.

     Como o anarco-sindicalista Rudolf Rocker (1873-1958) proclamou em 1938, “O socialismo será livre, ou não será”.  Por esta razão e outras, o anarquismo evoluiu do socialismo para indicar uma oposição não somente ao capitalismo mas também aos estados e outras instituições compulsórias interligadas, como a religião organizada, a escola mandatória, o serviço militar e o casamento. Por isso é dito sobre o anarquismo em um senso mais geral que “todos anarquistas são socialistas, mas nem todos socialista são anarquistas”. Ou, como Joseph A. Labadie colocou, “O Anarquisto é um Socialismo voluntário. Existem dois tipos de Socialismo… autoritário e libertário, estatal e livre”.

     Ao invés de organizações sociais de cima para baixo, os anarquistas desenvolveram vários tipos de modelos horizontais que podem prefigurar a boa sociedade no presente. Ou seja, os anarquistas mantém que as pessoas podem tentar construir um mundo novo na casca do velho através de auto-organização ao invés de passivamente esperar até um período pós-revolucionário. Daí a ênfase anarquista na práxis. As alternativas anarquistas eram enraizadas em conceitos-chave tais como associação voluntária, liberdade pessoal e social, comunidades descentralizadas e confederadas, igualdade de condições, solidariedade humana e espontaneidade. As experiências anarquistas pelo mundo nos mostraram a criação de federações, vida comunal, escolas livres, conselhos de trabalhadores, moedas locais e sociedades de apoio mútuo.

     O Anarquismo foi parte de uma grande esquerda internacionalista  desde 1880 até a Ameaça Vermelha dos anos 20 e a Revolução Espanhola de 1936. Então, desacreditados, desencantados ou mortos, os anarquistas pareceram desaparecer e, com eles, a filosofia em si. Após a Segunda Guerra Mundial e a derrota do nazismo, pareceu que as duas escolhas políticas eram “democracia” (capitalismo de livre mercado) ou “comunismo” (capitalismo de estado). Perdidos na equação, entre outras coisas, estavam o questionamento da autoridade e a asserção concorrente da utopia trazida pelo anarquismo.

                    Reemergência como Convergência

     Quando o Anarquismo começou a ser redescoberto na década de 50 pelos esquerdistas procurando uma alternativa ao marxismo ortodoxo, ele então tentou fortemente refazer-se a si mesmo. Os pensadores anarquistas se ocuparam com novas preocupações, que iam desde o consumo compulsivo até a urbanização; novas possibilidades como o feminismo e a liberação cultural; e velhos fantasmas como uma orientação voltada ao trabalho e táticas antiautoritárias e, até, terroristas. O Anarquismo renovado que finalmente emergiu era, de fato, uma convergência de vários impulsos antiautoritários do pós-guerra. Apesar de que a sensibilidade libertária dos anos 60 e a Nova Esquerda estarem na base, cinco fenômenos são especialmente cruciais à práxis que se tornou famosa em Seattle.

     Primeiro, houve a Internacional Situacionista (1962-1972), um pequeno grupo de intelectuais e artistas avant-farge que tentaram descrever um capitalismo em transição. De acordo com os Situacionistas, a alienação básica à produção capitalista que Karl Marx observou agora preenchia cada orifício; as pessoas não estavam mais alienadas só em relação aos bens que produziam, mas também suas próprias vidas, seus próprios desejos. A forma comodificada agora colonizava também a esfera da vida cotidiana. Como Guy Debord (1931-1994) escreveu, o capitalismo moderno forjou uma “sociedade do espetáculo”, ou sociedade do consumo que prometia uma satisfação ainda nunca entregue, tendo a nós como expectadores passivos. Os Situacionistas defendiam disrupções práticas do cotidiano, desde a mídia até a paisagem das cidades, de forma a fragmentar o espetáculo através da imaginação e substituir a drogadição com prazer.

     Dos anos 70 em diante, os trabalhos interdisciplinares do teórico Murray Bookchin (1921-2006) também ajudaram a transformar o Anarquismo em uma teoria política moderna. Aproximando a velha e a nova esquerdas, Bookchin fez mais do que qualquer um ampliando a crítica antiestatista/anticapitalista do anarquismo a uma crítica da hieraquia por si. Ele também trouxe a ecologia como preocupação ao anarquismo, por conectá-la à dominação. Em uma sentença, parafraseando-o, a crise ecológica é uma crise social. Bookchin enfatizou a possibilidade nascente no presente de uma sociedade ecológica pós-escassez, na qual o uso “racional” da tecnologia, poderia livrar a humanidade para preencher sua potencialidade em harmonia com o mundo natural. De forma mais significante, ele mandou embora a necessidade de um estado e o substituiu por uma forma de auto-governo democraticamente direto, chamado de “municipalismo libertário”. Os escritos de Bookchin apontavam para a cidade ou vizinhança como o local do enfrentamento, radicalização, poder dual e finalmente revolução, com confederações de assembleias de cidadãos livres substituindo o estado e o capital.

     Emergindo da contracultura rural na Nova Inglaterra e então ca Costa Oeste – uma contracultura que incluia pacifistas radicais tanto de origem anarquista quanto religiosa – o movimento antinuclear dos anos 70 e 80 dos Estados Unidos usou a desobediência civil, mas infundida com uma sensibilidade anarquista e feminista: uma rejeição de toda a hierarquia, uma preferência por um processo democrático direto, um foco na espontaneidade e na criatividade. Níveis variáveis de confronto não violento nas plantas nucleares, desde bloqueios até ocupações, além do uso de bonecos e solidariedade nas prisões foram decididas nos grupos de afinidades e nos conselhos.

     Iniciando nos anos 80, os Autonomen da Alemanha Ocidental deixaram uma marca no anarquismo também. Os Autonomen rejeitavam tudo desde o sistema existente até todos os rótulos ideológicos, inclusive o de anarquistas. Como uma rede espontânea, descentralizada de revolucionários antiautoritários, eles eram autônomos de partidos políticos e sindicatos; eles também tentavam ser autônomos de estruturas e atitudes impostas “de fora”. Isso levava em conta uma estratégia dupla: primeiro, criar espaços comunais livres como ocupas nos quais viver as próprias vidas; em segundo lugar, utilizar a confrontação militante tanto para defender sua contracultura e tomar a ofensiva contra o que eles consideravam repressivo, ou mesmo elementos fascistas. O lançamento de um black bloc mascarado em uma demonstração em Berlin em 1988 durante um encontro do Banco Mundial e do FMI se tornou um evento emblemático dos Autonomen quando, na ocasião, organizaram a criação de vizinhanças autônomas e info-stores, além de batalhas com a polícia e com neo-nazistas. Os anarquistas sentiram afinidade com os fluxos de autonomia política e os importaram, lincando e modificando ambos no processo.

     Por último, mas não menos importante, o dramático Primeiro de Janeiro de 1994, o aparecimento dos Zapatistas no cenário mundial para contestar o Acordo de Livre Mercado Norte Americano chamou atenção dos anarquistas para a importância da globalização como uma preocupação contemporânea com proporções frequentemente delimitantes de vida ou morte. A tomada zapatista dos vilarejos em Chiapas também religou a noção de que a resistência é possível, tanto em regiões pobres quanto ricas. “So você nos perguntar o que queremos, nós iremos sem vergonha responder: Abrir um buraco na História”, declarou o Subcomandante Insurgente Marcos. “Nós iramos construir um outro munto… Democracia! Liberdade! Justiça!”. Para os anarquistas, o uso criativo de altas tecnologias como a internet e baixas tecnologias como encontros na floresta, princípios comunicados e avanços práticos, e a tentativa de reclamar o poder popular através de municipalidades autônomas foi especialmente eletrizante. Subitamente, anarquistas de todos cantos apareceram em Chiapas para dar suporte à rebelião, carregando para casa lições para aplicar a um movimento anticapitalista global que um anarquismo remodelado iria logo ajudar a iniciar.

                    Mais do que a soma de suas partes

     Todas estas fibras de resistência, cada uma delas empurrada por momentos anteriores, costuraram-se e formaram o tecido do anarquismo contemporâneo. Dos Situacionistas, o anarquismo abraçava a crítica da alienação e da sociedade do consumo, e fé na imaginação; de Bookchin, a conexão entre o anticapitalismo, democracia direta, ecologia e pós-escassez; do movimento antinuclear, o foco em grupos de afinidade e conselhos bem como ação direta não violenta; dos Autonomen, confrontação militante, a estratégia dos black blocs e uma ênfase no faça-você-mesmo; e dos zapatistas o poder da internet, a solidariedade cultural cruzada e a globalização para a resistência transnacional. Mas o anarquismo que ganhou notoriedade em Novembro de 1999 é mais do que a soma dessas partes. É a única filosofia política hoje que aspira equilibrar uma variedade de agentes sociais de mudança e estratégias – ou, em última instância, uma diversidade de táticas, visões e pessoas – com noções universalistas de liberdade participativa fora das instituições e comportamentos impostos.

     Ao mesmo tempo em que os anarquistas humildemente compreendem que fazem parte de um grupo maior dentro das múltiplas lutas antiautoritárias, o anarquismo trouxe um conjunto de qualidades únicas e inseparáveis a estes movimento: uma instância abertamente revolucionária, colorida por uma orientação eminentemente ética, feita para além do ordinário por uma utopia deliciosamente e democraticamente direta.

                     O Momento Anarquista

     Mas ainda, por que Anarquismo?

     Porque o anarquismo definiu os termos do debate. Sua ênfase na revolução social com transparência significa que os anarquistas nunca tiveram medo de nomear a realidade concreta mascarada pelo termo globalização: ou seja, sociedade capitalista.

     Mas ainda, por que agora?

     Porque a globalização faz as aspirações anarquistas crescentemente necessárias. Longe de ser anti-globalização por si, os anarquistas há muito sonhavam com um mundo sem fronteiras cujo processo de globalização agora torna potencialmente factível. Algumas das caracteristicas defendidas pelos anarquistas estão postas, como a descentralização e a interconectividade, identidades elásticas e a fragmentação das dualidades, empréstimos criativos, cooperação e abertura. E, mais impressionante, a globalização está estruturalmente detonando com o centralismo estatal!

     Em seus dias, Karl Marx (1818-1883) anteviu a crescimento da hegemonia capitalista e sua habilidade cancerosa de reestruturar todas as relações sociais de acordo com sua própria imagem distorcida. Para Marx, estava destinado a atores sociais certos, em certas condições específicas, a “fazerem história” – ou seja, fazer a revolução e alcançar o comunismo no seu melhor e mais geral senso. Muito do que Marx apontou na época continua verdadeiro até hoje. O projeto heróico de Marx e múltiplos outros socialistas de abolir o capitalismo permanece mais pungente do que nunca, assim como a necessidade de um movimento revolucionário realizá-lo. Daí, o poder do “anticapitalismo”.

     O Anarquismo tradicionalmente anteviu outro desenvolvimento hegemônico que Marx ignorou: o Estado. Ao contrário do capitalismo, levou muitas décadas mais para que ganhasse o estado de naturalidade que a economia de mercado ganhou. Ironicamente, tanto para estatistas quanto anarquistas, justamente quando a democracia representativa do estilo norte-americano finalmente alcançou a hegemonia como a forma “legítima” de governança, a globalização começou  seu trabalho de reduzir o poder dos estados de certas formas – formas que passaram a permitir aberturas para formas horizontais de política. Pensar fora da “caixa estatista” agora faz mais senso a muitas pessoas e rapidamente está se tornando uma realidade, potencialmente oferecendo ao anarquismo a relevância que há muito desejou.

     À medida em que as economias nacionais vão cedendo lugar para outras globais, por exemplo, os estados são menos hábeis de prover seus cidadãos com qualquer rede de segurança social; quanto mais pessoas são forçadas ao status de refugiadas, o estado é menos apto a oferecer proteções legais e de direitos humanos. Por necessidade, as pessoas são compelidas a se voltarem a “algo mais” – com frequência uma espécie de abordagem de “auto-ajuda”.

     Nesse contexto, os experimentos anarquistas de organização democrática direta, confederação e apoio mútuo, entre outros, evidencia quão adequadas tais formas são para um mundo cada vez menos estatista e cada vez mais interdependente.

     No atual mundo globalizado, entretanto, “não estatista” pode significar tudo desde instituições supranacionais governadas por elites econômicas e organizações não governamentais internacionais até cortes mundiais e zonas de negócios regionais ou indivíduos flutuantes querendo empregar táticas de terror. A globalização dentro da estrutura capitalista pode muito bem dar origem a novas hierarquias e aprofundar a alienação, conformando tudo a sua própria imagem.

     Assim como o Marxismo precisou ser repensado no meio do século XX à luz da falha do socialismo de estado em alcançar a emancipação humana, o anarquismo precisa ser reteorizado em resposta à mudança em relação ao não-estatismo que impõe reconfigurações multiculturais de monopólios políticos bem como possíveis fissuras para uma ética alternativa. As práticas altamente participativas do anarquismo de hoje precisam ser continuamente re-imaginadas tanto para manterem-se três passos adiante daqueles que as quiserem cooptar quanto para estar a altura da tarefa de refazer a sociedade.

     Tanto teoria e prática precisam estar grudadas no presente se a política anarquista deve se tornar mais do que apenas uma nota de rodapé histórica acerca de um momento perdido.

     O extraordinário mix de humanos que apareceu nas ruas de Seattle pode encontrar unidade na diversidade precisamente porque os anarquistas puseram em prática seus modelos teóricos, como por exemplo a organização em grupos de afinidade e os conselhos e assembleias, permitindo que centenas de questões díspares encontrassem uma conectividade íntima e pudessem ser apresentadas.

     O projeto do presente movimento anticapitalista, e do anarquismo em geral, é prover uma luz guia, mesmo que não sejamos nós aqueles a finalmente encestarmos a bola.

     Em 1919, os anarquistas tomaram o poder em Munique por uma semana durante o curso da Revolução Germânica e rapidamente iniciaram toda sorte de projetos imaginativos para empoderar a sociedade como um todo. Mesmo Landauer sabia que o melhor que ele poderia fazer era construir um modelo para as futuras gerações: “Embora seja possível que a república do conselho seja apenas curta, eu tenho o desejo – e assim todos meus camaradas – de que deixe atrás de si efeitos duradouros na Bavária, de forma que, esperamos, quando um governo retornar (o que deve ser esperado), círculos sábios possam dizer que nós não fizemos um mau começo, e que não teria sido mau se nos fosse permitido continuar nosso trabalho”. Landauer foi morte por uma onda de reação de extrema direita logo após isto, e quatorze anos após os nazistas chegaram ao poder.

     Ainda, os grandes experimentos do passado que buscavam uma sociedade livre e auto-governada não se extinguiram – eles reemergiram nas correntes anarquistas contadas aqui e, de forma promissora, a atual contenda contra o capitalismo segue sua luta ao logo de linhas antiautoritárias.

     Não é um mau começo para o século XXI.

 

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

 

 

monitoramento policial
jul 29

A Sociedade do Controle chegou em Agudo

By Rafael Reinehr | O Mundo às Avessas

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Quando crianças, na década de oitenta, sempre brincavam conosco, quando dizíamos que éramos de Agudo:

    • E a televisão já chegou em Agudo?

Essa brincadeira derivava do fato de, naquela época, Agudo ser uma pequenina cidade de cerca de 13 mil habitantes, com mais da metade deles morando na área rural da cidade.

Para os moradores, claro que isso era um exagero. As coisas até poderiam chegar com um certo atraso, mas não tanto!

monitoramento policialPois então, na última quinta-feira à noite cheguei à minha cidade natal mais uma vez, depois de um pouco mais de seis meses sem passar por aqui e, logo na entrada, uma imagem me chama a atenção: no meio da avenida principal da cidade, um poste com câmeras de “monitoramento policial” apontando para todos os lados.

A primeira palavra que vêm à cabeça da maioria das pessoas é “progresso”! Ou talvez “segurança”! Agora, pensam, os bandidos não terão chance, ficará mais fácil de monitorá-los e rastreá-los! Tanto os ladrões quanto aqueles que promovem irregularidades no trânsito.

E quanto ao cidadão comum? Que tal ser monitorado 24 horas por dia? Ter uma câmera com sabe-se lá quem acompanhando seus passos pela tua cidade? Que tal você, jovem casal de namorados, sentado no banco da praça, trocando carícias e beijos e tendo suas imagens gravadas por algum policial ou técnico de segurança? Quando se fala de mobilizações públicas então, nem se fala: pode-se usar as gravações destas manifestações para encontrar supostos líderes ou então pinçar qualquer pessoa que tenha tido algum comportamento que “ofenda” o que o “Estado de Direito” representa – mesmo que este “estado de direito” não represente mais a própria população e sim os interesses de poucas corporações e grupos econômicos e políticos.

Para mim, esse monitoramento lembra outra palavra, e esta é “controle”.

Michel Foulcault em seu memorável livro “Vigiar e Punir” já prenunciava o surgimento desta Sociedade do Controle. Dizia:

[…] O poder disciplinar é […] um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior “adestrar”: ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. […] “Adestra” as multidões confusas […] (FOUCAULT, 2005, p.143).

Na sociedade disciplinar os indivíduos sentem-se controlados pela força do olhar, uma vez que no poder panóptico, o observador está permanentemente presente a observar e a vigiar os indivíduos. Sendo assim, Foucault (2005, p.169) considera que:

O Panóptico funciona como uma espécie de laboratório de poder. Graças a seus mecanismos de observação, ganha em eficácia e em capacidade de penetração no comportamento dos homens; um aumento de saber vem se implantar em todas as frentes do poder, descobrindo objetos que devem ser conhecidos em todas as superfícies onde este se exerça.

O panóptico permitiu aperfeiçoar o exercício do poder no final do séc. XVIII. O poder disciplinar panóptico, por meio da visibilidade, da regulamentação minuciosa do tempo e na localização dos corpos no espaço, possibilitou o controle sobre os indivíduos vigiados, de forma a torná-los dóceis e úteis à sociedade, instaurando, dessa forma, uma nova tecnologia do poder.

A câmera nos traz essa “quase certeza de que seremos punidos”, pois nossa imagem está lá, registrada com nossa face e hábitos expostos.

O controle que ora se apresenta é o mecanismo de um Estado neofascista que, usando a desculpa da segurança dos cidadãos está, na verdade, cerceando toda e qualquer forma de atividade que possa por em risco seu próprio fim, assumindo uma posição totalitarista que tenderá a reprimir toda e qualquer ação de minorias organizadas, por mais justa que possa parecer. Tal ação será taxada de “subversão à ordem pública”. As câmeras de vigilância servem a uma sociedade normalizada e hipernormatizada, onde quem dita as regras não é a população, de baixo para cima, mas o topo da pirâmide já constituída que, nos dias de hoje, nada mais é do que o conjunto de alguns banqueiros, megaempresários e coronéis de anteontem que ainda se reproduzem nas estâncias e fazendas do Brasil.

tirinha de André Dahmer
tirinha de André Dahmer

Para Billouet, (2003), o panoptismo possibilita uma sujeição concreta mediante uma relação fictícia. O panóptico foi desenvolvido a partir do “princípio de que o poder devia ser visível e inverificável” (FOUCAULT 2005, p.167). Desse modo, o detento sempre teria diante dos olhos a figura da torre central de onde será espionado, ao mesmo tempo em que não saberia se está sendo observado, deveria ter a certeza de que poderá sê-lo. Com isso, não seria necessário recorrer à força para obter dos indivíduos o bom comportamento, por exemplo, “o louco à calma, o operário ao trabalho, o estudante à aplicação, o doente à observação das recomendações” (BILLOUET, 2003, p. 133).

Ao controle do corpo através da imagem, somam-se, nos dias modernos uma série de outros mecanismos que substituiram o aprisionamento em celas e jaulas: o aprisionamento através do cartão de crédito e das dívidas de compras; através dos números de identificação em documentos oficiais, modernamente avançando para controles por chips RFIDs, com possibilidade de localização geográfica; através de aparelhos celulares sempre ligados, também facilmente localizáveis e rastreáveis; através de nossos passos nas redes sociais e “pegadas” online. Controle na prisão, na escola, no hospital, no trabalho, nas ruas, na sociedade em geral…

Essa sujeição é obtida através de um saber e de um controle que constituem o que Foucault chamou de uma tecnologia política do corpo, que para ele, trata-se de uma microfísica do poder. Essa nova anatomia política deve ser entendida, como: […] uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que […] Circularam às vezes muito rápido (entre o exército e as escolas técnicas ou os colégios e liceus), às vezes lentamente e de maneira mais discreta (militarização insidiosa das grandes oficinas) […](FOUCAULT, 2005, p. 119). Deste modo, o tempo é quantificado, o espaço medido, o corpo do operário, do aluno, do soldado, é disciplinado, medido em seus movimentos harmonizados dentro do movimento da sociedade. A punição terá agora a função de corrigir os indivíduos para estabelecer relações de poder, como forma de controle para atender aos interesses da burguesia que necessita de corpos úteis, produtivos, disciplinados (FOUCAULT, 2005).

Nesse sentido, o corpo será submetido a uma forma de poder que irá desarticulá-lo e corrigi-lo através de uma nova mecânica do poder. As práticas disciplinares permitem o controle das operações dos corpos e a sujeição constante de suas forças, impondo-lhes uma relação de docilidade e utilidade.

Assim, caros amigos Foulcault e Deleuze (não te citei aqui, mas sabes que te quero bem, né não?), lamento informar: a Sociedade Disciplinar, a Sociedade do Controle, chegou em Agudo, em plena Avenida Concórdia. Mas a luta está apenas começando…

Para uma leitura um pouco mais detalhada, mas ainda resumida, sobre a obra Vigiar e Punir, de Foulcault – http://www.cchla.ufrn.br/saberes/Numero4/Artigos%20em%20Filosofia-Educacao/Noelma%20C%20de%20Sousa%20e%20Antonio%20Basilio%20N.%20T.%20de%20Meneses,%20uma%20leitura%20em%20Vigiar%20e%20Punir,%20p.%2018-35.pdf (de onde foram tiradas as citações acima)

Para uma leitura detalhada, recomenda-se a obra do próprio autor.

Algumas páginas para leitura rápida, da wikipedia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Pan%C3%B3ptico e http://en.wikipedia.org/wiki/Panopticon

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vigiar_e_Punir

O Anarquismo e suas Aspirações
maio 06

O Anarquismo e suas Aspirações – parte VII

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Acenando em direção à Utopia

“A mudança revolucionária não vem como um momento cataclísmico.. mas como uma sucessão sem fim de surpresas, movendo-se em zigue-zague em direção a uma sociedade mais decente. Nós não precisamos nos engajar em grandes e heróicas ações para participar do processo de mudança. Pequenos atos, quando multiplicados por milhões de pessoas, podem transformar o mundo.”Howard Zinn, em O Otimismo da Incerteza, 2004

Existem três outras coisas cruciais que anarquistas tem em comum. Elas emergem do grito anarquista contra tudo que é injusto na sociedade e evolue da sua raiva contra tudo que obstrui a liberdade substancial. Elas também corporificam a exuberância de tudo que é possível no mundo, sua alegre defesa das éticas que moldam sua práxis variegada. Estas três são as Visões Reconstrutivas, as Políticas Prefigurativas e as Formas de Auto-organização anarquistas.

Anarquistas estão acostumados a perder. A história da luta por valores não hierárquicos é uma luta trágica e sangrenta. Ainda para citar Moxie Marlinspike, anarquistas “sabem que existem momentos no tempo, mesmo precedendo a derrota, em que as pessoas aprende mais sobre elas mesmas, e sentem um grande senso de inspiração daquilo que estão experenciando, que de todas as vitoriosas navegações de George Washington por todos os rios Delaware do mundo”. O processo instável de construir um mundo melhor significa relembrar que o anarquismo é uma tradição muito bela – uma que acolhe outras belas tradições. É sobre lembrar o que os anarquistas e outras pessoas afins criaram através da história. Sim, o objetivo é vencer, mas de várias formas, grandes e pequenas, já ganhamos muito. O Anarquismo faz as perguntas certas acerca da transformação social, e então explora múltiplas formas de respondê-las, mesmo que ele nunca encontre “A Resposta”.

Visões Reconstrutivas

O Anarquismo é mais do que uma consciência social ética e vibrante, e mais do que uma crítica e visão social. Os anarquistas não apenas falam sobre melhores formas de organização social. Eles se atiram no modelamento de novos mundos, mesmo que isso signifique construir castelos – ou coletivos, comunas e cooperativas – nas areias da sociedade contemporânea. Anarqusitas acreditam que as pessoas irão “pegar” o anarquismo visceralmente e intelectualmente no processo de vê-lo em ação, ou melhor ainda, experimentando com seus valores por elas mesmas. Isso necessita práxis. As pessoas não irão desistir do conforto (ou desconforto) do status quo sem algumas ideias do porque deveriam fazê-lo.

De várias formas, os anarquistas apresentam visões reconstrutivas que mapeiam o caminho em direção a uma sociedade além da hierarquia. Visionar este mundo é, claro, parte da prefiguração e da auto-organização. O Anarquismo, ao contrário de outras filosofias políticas, retém um impulso utópico. O conceito de utopia dentro do Anarquismo não é alguma terra muito distante, uma terra do nunca; nem é uma forma de ignorar as necessidades e desejos materiais. Ao invés, é precisamente uma forma de levar em conta a totalidade das necessidades e desejos materiais e não materiais – não simplesmente pão e manteiga, mas pão, manteiga e também rosas – e imaginar formas nas quais todos possam satisfazê-las. O Anarquismo olha para o passado, quando as pessoas viviam formas comunais e auto-geridas de organização; ele vê potencialidades no presente; e ele sustenta uma confiança clara de que os humanos podem fazer sempre melhor no futuro. A sensibilidade utópica do anarquismo é esta curiosa fé de que a humanidade pode não somente demandar o impossível mas também realizá-lo. É um salto de fé, mas aterrada e vislumbrada a partir de experiências atuais, grandes e pequenas, nas quais as pessoas presenteiam caminhos de vida igualitários uns aos outros através da sua criação coletiva.

O Anarquismo não é somente um ideal; não é apenas um experimento difícil. Nem um diagrama ou um plano rígido. Sua instância reconstrutiva sonha formas de incorporar suas éticas e então tenta implementá-las. Muitas práticas atualmente existentes, anarquistas ou não, ilustram que relações sociais horizontais já são possíveis – e funcionam melhor que relações verticais. Anarquistas instalam produções culturais open source e faça você mesmo para exemplificar ideias imaginativas que inspirem outros a agir. Eles documentam a história das pessoas em pôsteres; eles pintam janelas para outros mundos em muros públicos ou os publicam em zines; eles usam música indie e mídias independentes para disseminar aspirações libertárias. Anarquistas criam espaços para celebrar formas alternativas de ser e organizar, de carnavais contra o capitalismo a “mercados realmente, realmente livres”, até feiras anarquistas e infoshops. Eles desenvolvem contra-instituições como escolas auto-dirigidas e espaços de trabalho auto-gerenciados. Nestes e em outros caminhos, anarquistas experimentam e linkam inovações e indicam as potencialidades para uma transformação social mais ampla.

Políticas Prefigurativas

Política prefigurativa: a ideia de que deve haver uma relação ética consistente entre os meios e os fins. Meios e fins não são a mesma coisa, mas anarquistas utilizam meios que apontam na direção de seus fins. Eles escolhem ações ou projetos baseados em como estes se encaixam em objetivos de longo prazo. Anarquistas participam no presente de formas que eles gostariam de participar, muito mais completamente e de forma muito mais auto-determinada, no futuro – e encorajam outros a fazê-lo da mesma forma. A política prefigurativa então alinha os valores de alguém à sua prática e às práticas da nova sociedade antes que ela esteja completamente em seu lugar.

Ainda, o “fim” no Anarquismo não é uma destinação final. Não é nem predeterminada nem um local único, singular, nem uma revolução após a qual tudo se tornará e permanecerá perfeito. Fins, para anarquistas, são uma constelação de éticas, testadas agora e sempre, que oferecem grandes quantidades de vida livre, mesmo que as pessoas continuem preenchendo o que a liberdade se parece na prática. Os meios envolvem a jornada em si, que também é uma parte íntima e interconectada com os fins. A relação eticamente consistente entre os meios e os fins é, simplesmente, incorporada no processo em si mesmo, e continuamente melhorar as formas de chegar aqui até ali é o que é revolucionário.

Revolução se torna tanto uma noção grandiosa – aquele sopro de esperança de fundamentalmente refazer o mundo – e algo iminentemente “pegável” que nós podemos tentar aqui e agora. O Anarquismo pede às pessoas que “construam a estrada à medida em que viajam”. É no processo de construir novos mundos que a transformação acontece, em como as pessoas se organizam para fazer seu caminho em direção a algo apreciavelmente melhor.

Revolução carrega em si evolução. Anarquistas, como todo mundo mais, precisam se tornar pessoas capazes de sustentar uma nova sociedade. A organização e as instituições de uma nova sociedade necessitam se desenvolver em formas que são capazes de estruturar novas relações sociais. Anarquistas infundem tudo o que fazem com gestos, algumas vezes extravagantes, do que irá substituir, entre outras coisas, o capitalismo e o estado, heteronormatividade e ditadura do mais capaz. Tais atos prefiguram, ou mostram a possibilidade, antecipadamente, de organizações e relações sociais igualitárias. Como tal, elas demonstram e corporificam o poder da imaginação, participação substantiva, e o valor de todas as coisas vivas – todas as quais, no seu máximo coletivamente auto-geradas, poderão realmente quebrar o feitiço dos arranjos de poder de cima para baixo.

Formas de Auto-organização

As visões reconstrutivas do Anarquismo praticam como reorganizar a sociedade. Eles põe a ação direta em Ação!

A ação direta toma uma de duas formas. Sua forma “positiva” ou proativa é o poder de criar. As pessoas fazem coisas agora da forma que elas querem vê-las feitas, de forma crescente, no futuro, sem representantes ou formas verticais de poder. Elas ignoram “altos” poderes, e flexionam seus próprios músculos coletivos para fazer e implementar decisões sobre suas vidas. A forma “negativa” ou reativa de ação direta, o poder de resistir, usa meios diretos de desafiar as coisas ruins – por exemplo, uma greve geral para parar uma guerra.

Ambos tipos de ação direta são úteis, é claro. Eles caminham de mãos dadas. Estudantes, professores e funcionários de uma universidade podem por exemplo ocupar um prédio para protestar contra cortes orçamentários e ao mesmo tempo utilizar processos democráticos diretos para auto-determinar seu curso de ação (que pode então direcionar os ocupantes a querer uma forma totalmente diferente de educação). Um projeto de Vigilância da Polícia pode usar tecnologias de comunicação gratuitas e abertas, como uma rádio livre, como uma forma para as pessoas reportarem diariamente sobre abusos policiais, e ao mesmo tempo desenvolver uma mídia tocada pela comunidade. Mas é quando as pessoas crescentemente tomam conta e se colocam como co-responsáveis, instituindo e participando de organizações não hierárquicas, que elas começam a ter poder de redesenhar a sociedade, ao invés de simplesmente o “poder” de reagir contra aquelas forças que em última instância tem poder sobre elas.

Fechamos o círculo para a concepção do Anarquismo como aspirando um direção a indivíduos livres dentro de uma sociedade livre. Estamos totalmente no campo da auto-determinação, auto-gestão, e auto-governo, como realidades vivas, mesmo que em formas embriônicas. A única forma de construir estas novas relações e instituições sociais é fundá-las e alimentá-las nós mesmos. Anarquistas estão sempre envolvidos em todas formas de projetos auto-organizados, tanto operando sob a superfície para confeccionar novas bases para uma vida social e ecológica quanto na superfície, em experimentos visivelmente relevantes que refletem noções de senso comum sobre como todos poderiam viver suas vidas em conjunto, bem como as várias formas que já o fazemos.

Muitos projetos anarquistas acontecem dentro de círculos anarquistas ou são direcionados a outros anarquistas. isso permite aos anarquistas experimentarem com formas de organização entre pessoas relativamente afins que já estão comprometidas com elas. Isso facilita o desenvolvimento da muito necessária infraestrutura auto-gerenciada para desenvolver ideias, construir habilidades e mentorar futuras gerações de anarquistas.

O buraco é bem mais embaixo quando buscamos integrar grupos de pessoas e comunidades não afins, que não estão nesta “pegada” de produzir um mundo melhor para todos, mas ainda presos ao conteúdo, às métricas e métodos capitalistas de geração de escassez, acúmulo, competição, consumo, desenvolvimento através da expansão e exploração dos meios naturais e do trabalho humano a partir de relações hierárquicas de dominação. Nestes casos, a incompatibilidade é clara e não haverá harmonia de um eventual relacionamento. Se pode escolher um de dois caminhos: enfrentamento ou desaparecimento.

Particularmente, acredito que o enfrentamente consome energias enormes que poderiam estar sendo concentradas na criação das estruturas, instâncias e vivências que desejamos multiplicar. Portanto, ser hábil em praticar o desaparecimento da cena do conflito (não confundir com negação ou fuga), é uma habilidade interessante nestes dias de transição.

Os anarquistas não tem todas as respostas, nem buscam ter o monopólio das mesmas. Eles apenas fazem boas perguntas e estimulam que melhores respostas sejam dadas. Não querem um “mundo anarquista”, ao invés disso, um mundo igualitário no qual cada um aprenda a pensar e agir por si mesmo levando em conta a coletividade. Anarquistas trazem esta sensibilidade bem como suas capacidades de auto-governança às lutas ao redor do mundo, desde cidades-tenda para aqueles que não tem casas até cooperativas organizadas por grupos de terras comunitárias para aqueles que querem controlar sua moradia.

A auto-organização é a chave para garantir a posse não exclusiva – ou melhor, a posse em comum – da liberdade. Como o Anarquismo consistentemente afirma, a liberdade só é possível quando todas as pessoas compartilham a habilidade de determinar e moldar relações sociais e organizações sociais. A única forma de criar formas de justiça tão amplas é garantir que todos tenham uma porção igual de poder, que nós não apenas discutamos, debatamos e dialoguemos acerca de qual tipo de socidade e vida cotidiana queremos, mas também resolvamos os problemas, implementemos, avaliemos e revisitemos aquelas decisões sobre a totalidade da vida. Como essas formas de auto-organização irão se parecer na prática é justamente o escopo do Anarquismo; é o que fazemos – em essência, pesquisa e desenvolvimento voluntário e, desenhando a partir de boas ideias tanto de dentro como de fora do meio social anarquista. O Anarquismo pega emprestado de possibilidades aparentemente impossíveis do passado e do presente. Ele então presenteia estas possibilidades a todos, oferecendo esperança ao apontar em direção a um futuro crescentemente liberador.

O laboratório do Anarquismo é a totalidade da vida. Ele explora o que a auto-determinação iria parecer em relação ao sexo, sexualidade e orientação sexual; ele articula estratégias e contravisões para oprimidos, colonizados ou ocupados ao redor do mundo. Ele testa novas formas de auto-gerenciamento do espaço de trabalho, enquanto reimagina a ideia de “trabalho” em si mesma, em termos de como as pessoas materialmente produzem e distribuem tudo desde comida, a vestimentas, a energia e a tecnologias de comunicação. Os anarquistas auto-organizam o que hoje é visto como “serviços”, de educação a saúde mental e física, a cafés e bibliotecas, a operações de resgate. Eles disponibilizam novos mecanismos de auto-governança, de coletivos e grupos de afinidades, a assembléias de vizinhança, conselhos e confederações – todas inclinadas para a experimentação com métodos de tomada de decisão diretamente democrática e por consenso. Nestas formas e em incontáveis outras, anarquistas dão significado tangível a uma forma de organização social cuja premissa é a Liberdade.

 

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

antifascista
jan 18

O Anarquismo e suas Aspirações – parte III

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Adiante!

 

“O objetivo do Anarquismo é estimular forças que levem a sociedade em uma direção libertária”
Sam Dolgoff, A relevância do Anarquismo para uma sociedade moderna, 1970

Durante o período comunista e fascista, as forças históricas levaram a sociedade a uma direção mortífera. O Anarquismo não desapareceu neste tempo, mas suas fileiras foram dizimadas. Figuras-chave foram mortas, como Gustav Landauer (1919) e Erich Mühsam (1934), Ricardo Flores Magón (1922) e Alexander Berkmann (1936).

Os anarquistas estavam cada vez mais isolados, e seu último encontro foi durante o funeral de Kropotkin, em 1921. Milhares de anarquistas pelo mundo foram encarcerados, exilados ou assassinados. Como consequência, foi como se a esquerda anti-autoritária tivesse pulado uma ou duas gerações.

Nesse interim: fascismo, bolchevismo e maoísmo; EUA desponta como uma superpotência global; nascimento das instituições financeiras multinacionais com o “avanço” do capitalismo; a guerra fria e a ameaça nuclear… Estes e outros fenômenos emergentes dramaticamente expandiram as fontes de dominação que qualquer plataforma libertária necessitava abordar.

antifascistaA partir dos anos 60, o Anarquismo começou a se redesenhar para o século XX, obtendo seus insights de outros movimentos afins, como os movimentos radicais de liberação feminina e gay, os Autonomen na Alemanha e os Zapatistas no México. Inspirou, de forma mais ou menos explícita, desde o provos de Amsterdan a novas formas de ecologia radical como o Movimento Antinuclear e o Earth First até a Revolta das Tarifas britânica.

No final do século XX, a Batalha de Seattle em 1999 foi, para o Anarquismo, apenas mais uma manifestação de uma cadeia de reinvenções de sua própria tradição. O que Seattle efetivamente fez foi colocar no foco esse Anarquismo revigorado, seja através de imagens de “black blocs” anarquistas jogando tijolos através de janelas da Starbucks ou explicações sobre como grupos de afinidade e o modelo de “spokescouncli” funcionavam na prática. Mais importante: deu visibilidade e voz ao Anarquismo em geral, ajudando a recapitular a imaginação política, juntamente com uma série de outros “movimentos vindos de baixo” ao redor do mundo.

Entretanto o Anarquismo não está imune à crescente fragmentação e  imediatismo que caracterizam a sociedade capitalista contemporânea. Ele tb e atingido pelo fenômeno que critica mesmo os anarquistas defendendo uma comunidade de comunidades, eles são, como a maior parte das pessoas hoje, alienados de qualquer senso de lugar e uns dos outros. Entretanto, permanece um profundo senso de reconhecimento entre anarquistas, baseado no compartilhamento de uma série de valores distintivos, que por sua vez estruturam suas vidas e projetos.

 

Filosofia da liberdade

 

“Possibilidade não é um luxo, é tão crucial como pão”
Judith Butler, “Undoing Gender”, 2004

Uma instância revolucionária

auto2O Anarquismo é plenamente radical no verdadeiro senso da palavra: chegar até a raiz ou origem dos fenômenos, e daí realizar mudanças dramáticas nas condições existentes, sempre que necessário. O Anarquismo aspira fundamentalmente transformar a sociedade em direção a noções expansivas de liberdade individual e social. Muitas vezes, na prática, isso significa engajar-se em várias “reformas” ou melhoramentos, mas naqueles que ao mesmo tempo tentam explicitamente articular uma política revolucionária.

Essa “reforma-apontando-para-a-revolução” é certamente difícil de manejar, já que o capitalismo se organiza de forma a recuperar tudo que aparece à sua frente.

Apesar das dificuldades, os anarquistas nunca defendem uma atitude puramente reformista. Eles dão o seu melhor para nunca participar da reforma como um fim em si mesma, ou trazer melhoramentos que também tornem a ordem social atual parecer mais atrativa. Eles simultaneamente direcionam seus esforços organizativos a “restringir as atividades do Estado e bloquear sua influência em todos departamentos da vida social sempre que vejam uma oportunidade”.

cap9Capitalismo e Estado possuem uma lógica interna separada mas frequentemente interrelacionada que consolida monopólio para poucos, sempre às custas de muitos. Isso demanda que cada sistema precisa continuamente expandir e marcar seu domínio. Para sobreviver, eles devem fazer parecer normal que a maioria das pessoas estejam materialmente empobrecidas e desempoderadas como atores econômicos e socialmente empobrecidas e desempoderadas como atores políticos.

O mundo que a maior parte da humanidade produz é, como resultado, negado à vasta maioria, e uma quantidade relativamente pequena consegue tomar decisões sobre todos aspectos da vida. Mover além do capitalismo e dos estados significa nada menos do que virar o mundo de cabeça para baixo, quebrando todos os monopólios e reconstituindo tudo em comum – de instituições à ética da vida cotidiana.

Assim, por exemplo, enquanto muitos dos movimentos de justiça climática e global focam nas corporações como a chave, os anarquistas vêem, estas entidades apenas como peças do capitalismo, e uma peça que, se removida, não destruiria o capitalismo, por pior que sejam estas corporações. Pode existir capitalismo sem corporações. A essência do capitalismo – garantir que a sociedade seja forjada ao redor de relações sociais compulsórias ao longo de inequidades de poder e condições materiais – permaneceria em seu lugar. E, devido à lógica “crescer ou morrer” do capitalismo, o capitalismo de pequena escala por definição se desenvolveria em larga escala novamente.

O capitalismo localizado, como nossas estruturas informacionais e em rede capitalista indicam, pode ser uma forma de esconder uma crescente concentração de controle social e injustiça. O capitalismo em si, em sua totalidade, e justamente pelo fato de buscar a totalidade, é o problema essencial.

As estruturas econômicas e valores do capitalismo passíveis de ataque, e que o marcam como um sistema são: corporações, bancos, propriedade privada, lucro, patrões, trabalho assalariado, alienação e comodificação, para citar algumas.

O capitalismo, por sinal, com frequência produz excessos em coisas como comida e habitação. Mas a não ser que este excesso possa ser trocado, ele é jogado fora ou permanecer vazio. Enquanto isso, muitas pessoas estão famintas ou dormindo nas ruas.  Tornar este excesso disponível para uso e não para troca – reclamando como algo COMUM – revela a habilidade das pessoas em se auto-organizar para alcançar suas necessidades. Também mostra que ser completamente humano encolve compartilhar o excedente livremente e tomar cuidado de todos, não apenas daqueles que conseguem se alimentar ou alojar por si próprios.

anarc1“Tudo para todos e o que mais houver, grátis”

“Ocupe tudo”

“Use ou perca” – “Direito à propriedade ou direito ao uso?”

Usufruto: Nossa capacidade de usar e aproveitar a moradia como um bem social, em contraposição ao valor de troca do capitalismo.

Sobre o Estado, não é uma questão de tentar tornar o Estado mais bondoso, mais multicultural, mais benigno, ou seguir a pé da letra sua própria lei. A própria lógica do Estado assegura que poucas pessoas serão mais aptas do que todos a determinar “a vida, a liberdade e a busca da felicidade”.

Não é apenas o fato de que o Estado tem o monopólio da violência, mas também como ele compele o povo a abrir mão de seu poder – com armas, urnas ou pacificação através de uma participação já circunscrita – ele sempre está engajado em uma variedade de formas de controle social e engenharia social.

A maquinaria estatal, em essência, é sobre um pequeno corpo de pessoas legislando, administrando e criando políticas sociais. Em seu modo de atuar, ele também sustenta outros tipos de dominação como o racismo institucionalizado, a heteronormatividade.

Cada vez mais, o “Estado” está fazendo isso como parte de uma estrutura em rede de estados colaborando em blocos ou em instituições globais. Assim, menos e menos pessoas tem chance de determinar políticas que vão desde estados de guerra, a saúde da sociedade e a imigração. Mesmo a noção de democracia representativa neste regime global é quase anacrônica, dadas as camadas de governança não representativa que agora trabalham lado a lado com ONGs e corpos financeiros multinacionais igualmente não democráticos.

O ponto aqui é que os anarquistas concordam com a necessidade de um mundo sem capital e estados, precisamente de forma a permitir que todos façam o melhor de suas vidas, liberdades e felicidade – de ser capaz de continuamente definir bem como tomar parte na qualidade destas categorias.

anarc9Os anarquistas acreditam que juntas, as pessoas provavelmente visionam, deliberam sobre e vivem sobre uma organização social mais criativa, multidimensional.

Aqui, mais uma vez, os anarquistas oferecem uma prática revolucionária que envolve tanto condições atuais e aponta além delas. Um projeto que envolve providenciar alimentos excedentes para aqueles com fome também pode incluir uma assembléia de democracia direta, na qual todos envolvidos comecem a tomar decisões coletivas. Quando um lote vazio é colocado à venda para a maior oferta para um desenvolvimento de luxo, os anarquistas realizam uma chamada para que ele seja transformado em um parque, então se juntam com os vizinhos, não apenas para embelezar o espaço mas também para experenciar o poder político em reclamá-lo.

Mesmo no contexto de uma demonstração de massa orientada para a reforma, os anarquistas infundem sua perspectiva revolucionária – por exemplo, coordenando um dia de ação global não via uma organização central mas usando uma confederação de grupos e movimentos autônomos.

Os anarquistas mantém que o Estado e o Capitalismo devem desaparecer pois ambos mantém poder sobre a maioria do mundo humano e não-humano. Em seu coração, a filosofia política é sobre poder: quem o detém, o que faz com ele, e em direção a que fins. O Anarquismo, mais claramente do que qualquer outra filosofia política, responde que o poder deve ser feito horizontal, deve ser mantido em comum.

Hierarquia e Dominação em Geral

Essa concentração em arranjos de poder de baixo para cima levou o Anarquismo a se opor não somente ao Capitalismo e ao Estado mas também à hierarquia e dominação em geral. Nada mais natural, neste contexto, opor-se a outras instituições na qual a dominação e a hierarquia são a tônica, como o Exército, a Igreja e a Escola, por exemplo.

anarc1-4O Anarquismo, diferentemente do Marxismo, tira o foco dos problemas como supraestruturalmente sendo de ordem econômica, para passar a uma ordem anterior ao surgimento do Capitalismo e do Estado, buscando as raízes do surgimento da dominação, empurrando o Anarquismo a um libertarianismo horizontal mais abrangente ainda. Em seu livro A Ecologia da Liberdade (The Ecology of Freedom, 1982), Murray Bookchin explora a emergência da hierarquia pelos milênios e sua intricada relação com o legado da liberdade, repensando a forma de ser do Anarquismo e refletindo sobre todo tipo de experimentações, projetos e relacionamentos não hierárquicos, anarquistas ou não, da contracultura, da Nova Esquerda, dos movimentos autonomistas dos anos 60 em diante, todos eles ajudando a transformar o entendimento do Anarquismo acerca dele mesmo.

Essa mudança moderna de perspectiva significa que, mais do que nunca, o Anarquismo está interrogando a si mesmo e a todos acerca de quais formas nas quais a hierarquia e a dominação se manifestam ou desenvolvem, sob novos contextos históricos. Isso se traduziu em uma percepção profunda e sincera de que, mesmo que o capitalismo e o estado fossem abolidos, muitas formas de hierarquias ainda poderiam existir; e que ao longo do capitalismo e do estado, muitos outros fenômenos causam grave sofrimento.

E aqui aparece a importância das instâncias revolucionárias anarquistas no contexto histórico atual: enquanto os anarquistas defendem a abolição do trabalho assalariado, o contexto capitalista atual acaba por produzir isso à medida em que postos humanos são substituídos por máquinas; o que resta, entretanto, é que o bem-estar e a riqueza advindos da substituição humana por uma máquina acaba sendo centralizado nas mãos de poucos, ao invés de distribuído por muitos. As mesmas tecnologias desenvolvidas para realizar controle de estoques no mercado capitalista, podem ser subvertidas, modificadas e produzir sistemas de compartilhamento não alienantes de bens, serviços e tempo. Perceber esses diferentes lados na interação entre o Capital e o Comum-Livre é um dos papeis mais importantes do Anarquismo. E ainda vamos além.
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Existem possibilidades no presente, fissuras na dominação que apontam em direção à liberdade. A crescente incapacidade do Estado em proteger seus cidadãos de praticamente tudo – desde doença até violência – mina a própria justificativa da sua existência, enquanto também cria uma abertura para inovações federadas de base acerca de como garantir plenitude material e comunidades mais sadias e seguras sem o Estado. E, mais profundamente ainda: à medida em quem os anarquistas testam suas ideias, novas formas de liberdade descobrem camadas ainda mais escondidas de dominação.

A hierarquia e a dominação sempre servem para evitar um mundo consensual e igualitário. Os anarquistas lutam para desmantelar formas de relações e organizações sociais que permitam a algumas pessoas exercer dominância sobre outras pessoas ou coisas. Eles contrastam o uso do poder para ganhar algo de outros, quer seja dinheiro, status ou privilégios, com o uso do poder para coletivamente alcançar desenvolvimento individual e social, respeito mútuo e o alcance das necessidades e desejos de todos.

O Anarquismo se posiciona dizendo que toda instância de poder vertical ou centralizado deve ser reconstruida para permitir um poder coletivo horizontal e descentralizado.

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

jan 01

O Anarquismo e suas Aspirações – parte I

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

O Anarquismo e suas Aspirações

Os apontamentos a seguir foram retirados livremente do livro Anarchism and It’s Aspirations de Cindy Milstein e estão entremeados por reflexões e comentários meus, reflexões essas que surgiram durante a leitura do mesmo, e inspiradas em leituras prévias da literatura libertária e da minha leitura particular do mundo em que vivemos. É muito importante frisar que, embora os comentários estejam realmente misturados com o texto original da autora, a grande maioria do conteúdo abaixo é de autoria da Cindy, e recomendo muito fortemente a leitura do texto original em inglês, publicado pela Editora AK Press e pelo Institute for Anarchist Studies.

Os apontamentos foram fragmentados em partes para facilitar a leitura e serão publicados semanalmente a partir de hoje, primeiro de janeiro de 2013, sempre às terças-feiras. Desejo uma ótima leitura e, se a leitura te “pegar de jeito”, não deixe de entrar em contato. Temos muito o que prosear e conspirar!

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O objetivo destes escritos é contribuir com a construção de um melhor entendimento do Anarquismo, construir um melhor Anarquismo e encorajar novos anarquistas bem como o surgimento destes. Espera-se que estes apontamentos acendam um debate sobre o que o Anarquismo poderia ser, em primeiro lugar porque queremos que sejamos efetivos – que vençamos – e isso envolve um diálogo crítico, construtivo e integral para nossa prática prefigurativa.

Com este artigo, quero estender uma mão compassiva e solicitar que você, quer seja velho ou novo no Anarquismo, fique por perto e ajude a acelerar os processos pelos quais estamos lutando.

Eu quero todos nós lutando pelo que há de melhor no Anarquismo, não somente por nós mesmos mas de forma a construir uma sociedade livre, com indivíduos livres que o Anarquismo tão generosa e amorosamente luta para alcançar para todos.

Sim, o mundo está incrivelmente bagunçado; ao invés de se retirar, entretanto, é imperativo que avancemos em direção a uma “Comunidade de comunidades” igualitária.

Espero que ao final do livro tenhamos conseguido responder à pergunta: “Como é a sociedade que queremos?

E, inspirados pelo bom, verdadeiro e belo que o Anarquismo objetiva, contagiá-lo a feliz e ainda assim diligentemente abraçar – ou continuar a fazê-lo com renovado vigor – o espírito libertário do Anarquismo.

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A primeira década do século XXI foi muito significativa para o Anarquismo, providenciando uma série de eventos (e exemplos) que começaram ainda no final do século passado (Chiapas, México, Exército Zapatista de Libertação Nacional, 1994) e a Batalha de Seattle, 1999) e seguiram-se com os eventos na Argentina (2001/2002), Genova, Oaxaca, Grécia, Primavera Árabe, Occupy Wall Street, 15M, …

Estes acontecimentos somados levaram a um “inchaço” no número de pessoas que se autodenominam anarquistas; isso, por sua vez, levou ao florescimento de uma “infraestrutura anarquista”, desde um aumento dramático de cenários sociais e infoshops até um surto de projetos tocados coletivamente para suprir necessidades como suporte legal, comida e arte.

Foram desenvolvidas redes globais informais porém articuladas de troca e solidariedade, facilitadas por tudo desde usos compartilhados e seguros de tecnologias de comunicação e mídia independentes até redes de apoio mútuo nos mais diversos campos do conhecimento a atuação humanos.

Juntamente com cabeças afins, nos engajamos em fóruns de política cara-a-cara que nos forneceram uma nova imaginação radical através de numerosos dias de ação, consultas e convergências, e movimentos horizontais.

A primeira parte destes apontamentos, o Capítulo 1, reflete nosso otimismo de que a constelação anarquista de éticas, juntamente com suas práticas dinâmicas, pode nos unir e inspirar bem como a muitos outros, para o trabalho pesado que nos espera de forjar um mundo de baixo para cima.

“Mesmo quando eu amo o que faço, eu odeio o capitalismo”

Não é como nos chamamos uns aos outros – anarquistas, socialistas, comunistas – que conta, mas como nos comportamos

E, refletindo sobre a forma que os anarquistas escolhem agir, parece que existe algo de especial nela, apesar de todas as chances contra deste momento histórico: com empatia, tangivelmente dando de nós mesmos e fazendo-o nós mesmos, em direção a uma forma de organização social na qual será rotina agir de forma mutualista.

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Uma vez perguntaram a Ashanti Alston, anarquista dos Panteras Negras, como ele aguentou ficar 12 anos na cadeia, e ele respondeu, olhos brilhantes: “Foi o período mais cheio de esperança da minha vida, porque todos os dias nós estávamos esquematizando sobre como fugir da prisão”.

Ninguém deveria viver nas celas do Capitalismo, do Estado, ou de outra forma de dominação ou opressão, mas já que vivemos, as aspirações anarquistas oferecem uma chave para acharmos nossa saída.

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Capítulo 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

“Por espírito anarquista eu quero dizer daquele sentimento humano profundo, que busca o bem de todos, solidariedade e amor entre as pessoas, o que não é exclusivamente uma característica dos autodeclarados anarquistas, mas inspira todas as pessoas que tem corações generosos e uma mente aberta”
Errico Malatesta, Umanita Nova, 13/04/1922

No seu centro, o Anarquismo é realmente um espírito – um que grita contra tudo que está errado com a sociedade atual, e claramente proclama tudo que poderia estar certo sob formas alternativas de organização social.

O que é o Anarquismo exatamente?

Muitas definições já foram feitas desde o surgimento da palavra como uma filosofia política distinta dentro da tradição revolucionária. Vamos tentar introduzi-lo com a vantagem de um ponto-de-vista do início do século XXI.

Em primeiro lugar, precisamos concordar que nossa humanidade está profundamente machucada pelo mundo alienado e controlado no qual habitamos. O Anarquismo defende que as pessoas seriam muito mais humanas sob relações e arranjos sociais não hierárquicos. A seguir, precisamos nos concentrar nas Éticas – os valores pertinentes a como os humanos conduzem a si mesmos – que tornam o Anarquismo uma sensibilidade política distinta. O Anarquismo serve como uma filosofia da liberdade, como uma consciência viva de que as pessoas e suas comunidades podem ser sempre melhores.

Em uma só sentença: o Anarquismo pode ser definido como uma busca/luta em direção a uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

Significado do “A”

O “A” representa a antiga palavra grega Anarkha – que combina a raiz an(a) – “sem” e arkh(os) – “governante, autoridade” – significando a ausência de autoridade.

Mais contemporaneamente, e de forma mais acurada, ela represetna tanto a ausência de dominação (controle de alguém sobre outro) e hierarquia (relações ranqueadas de poder de dominação e subordinação). O círculo pode ser considerado um “O”, representando “ordem” ou, melhor ainda, “organização”; lembrando da seminal definição de Pierre-Joseph Proudhon em A Propriedade é um Roubo: “Da mesma forma que o homem busca justiça na igualdade, a sociedade busca a ordem na Anarquia.”

O “A” simboliza o Anarquismo como um duplo processo: a abolição da dominação e formas hierárquicas de organização social – ou relações socieis “poder sobre” – e sua substituição por versões horizontais – ou “poder juntos e em comum” – novamente, uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

O Anarquismo é uma síntese do melhor do liberalismo e o melhor do comunismo, elevado e transformado pelo melhor das tradições de esquerda libertária que trabalham em direção a uma sociedade igualitária, voluntária e não hierárquica.

O projeto do liberalismo e o seu sentido mais amplo é garantir a liberdade pessoal. O projeto máximo do comunismo é garantir o bem comum. Um busca um indivíduo que pode viver uma vida emancipada e o outro busca uma comunidade estruturada ao longo de linhas coletivistas. Ambas são noções de valor. Infelizmente, a liberdade nunca pode ser alcançada desta maneira excludente: através do indivíduo OU da sociedade. Os dos necessitam necessariamente entrar em conflito, quase instantaneamente. A grande sacada do Anarquismo foi combinar o indivíduo e a sociedade em uma única visão política: ao mesmo tempo, eliminou o Estado e a propriedade como os pilares de suporte, baseando-se em seu lugar na auto-organização e o apoio mútuo.

O Anarquismo entende que qualquer forma de organização social, especialmente uma que busque uma erradicação completa da dominação, que se basear na premissa tanto da liberdade individual quanto coletiva – ninguém é livre a não ser que todos sejam livres, e todos só podem ser livres se cada pessoa puder individuar ou atualizar a si mesmo da forma mais ampla possível.

O Anarquismo também reconheceu, mesmo que intuitivamente, que tal tarefa é tanto um ato de balanço constante e “do que é feita” a vida real. A liberdade de uma pessoa necessariamente infringe a de outra, ou mesmo o bem de todos. Nenhum bem comum pode atender as necessidades e desejos de todo mundo. Isso não quer dizer lavar as mãos e escolher pelo caminho ou do liberalismo ou do comunismo – privilegiando um lado da equação, de forma artificial – na esperança de resolver esta tensão em andamento.

Desde o início, o Anarquismo perguntou a muito mais difícil mas em última instância pragmática questão: “Levando em conta estas “colisões” sociedade x indivíduo como parte da condição humana, como podem as pessoas coletivamente auto-determinar suas vidas para se tornarem quem elas querem ser e ao mesmo tempo criar comunidades que são tudo o que elas poderiam ser também?”

O Anarquismo entendeu que esta tensão é positiva, como uma parte criativa e inerente à existência humana. Ele destaca que as pessoas não são todas iguais, nem precisam ser, nem necessitam, querem ou desejam as mesmas coisas.

No seu melhor, a aspiração anarquista básica por uma sociedade livre composta de indivíduos livres dá transparência ao que deve ser uma dissonância harmônica e produtiva: encontrar caminhos para coexistir e nos desenvolver em nossas diferenças.

Anarquistas criam processos que são humanos e substancialmente participativos. São sonestos sobre o fato de que sempre haverá mal-estar entre a liberdade individual e social. Garantem que será uma luta contínua encontrar o equilíbrio ideal. Esta luta é justamente aquela na qual o Anarquismo se localiza, aparece, acontece.

Ele acontece, hoje em dia, em situações nas quais nem nos damos conta. Em projetos de pequena escala como cooperativas de cicloativistas, escolas livres – situações em que as pessoas coletivamente fazem decisões cara-a-cara sobre assuntos grandes ou mundanos.

Isso não é algo que a maior parte das pessoas na maioria das partes do mundo é encorajada a ensinar (ou aprender); pois isto contém o kernel, o código-fonte, o coração do que é necessário para destruir o atual sistema de arranjos sociais verticais. Desta forma, não somos nem particularmente bons nem eficientes em processos democráticos diretos. Mecanismos de tomada de decisão em conselhos são trabalho duro. Eles levantam questõs difíceis, como por exemplo “como lidar com conflito de formas não punitivas”. Mas através deles, as pessoas se “escolarizam” no que pode ser a base para a auto-governança coletiva, para redistribuir poder a todos. Quando funciona bem, temos um profundo senso dos tipos de processos ou acordos que podemos fazer e manter uns com os outros.

Ocupa BarcelonaNo micronível e em outros muito maiores, o anarquismo forma “a estrutura da nova sociedade dentro da casca da velha”, como o preâmbulo da constituição mundial dos trabalhadores industriais afirma. De forma ainda mais crucial, ele auto-determina a estrutura do novo a partir dos espaços de possibilidade dentro do velho.

O Anarquismo precisa permanecer dinâmico se ele realmente quiser desmascarar novas formas de dominação e substitui-las por novas formas de liberdade, precisamente devido a sempre presente tensão entre liberdade individual e coletiva.

Auto-organização necessita a participação de todos, o que requer estar sempre aberto a novas questões e ideias.

Quando as pessoas são introduzidas ao anarquismo hoje, esta abertura combinada com a propensão cultural a esquecer o passado, pode fazer com que pareça uma invenção recente – sem uma tradição elástica, preenchida com debates, lições e experimentos, para construir sobre. Pior ainda, pode parecer uma prática política do tipo “tudo vale” – libertino sem o libertário – sem consideração por como os atos de uma pessoa impactam outra pessoa (ou pessoas) ou mesmo a comunidade.

Precisamos estudar a história anarquista para evitar repetir os erros, mas também para saber que não estamos sozinhos no que tem sido e vai ser a pedregosa e cheia de desvios “via para a utopia”.

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

Coolmeia em Gotemburgo
dez 01

Apresentação no Social Capital World Forum 2012, em Gotemburgo

By Rafael Reinehr | Economia

Abaixo, segue minha apresentação no Social Capital World Forum, 2012, um evento marcante, com pessoas muito especiais que pensam o mundo de uma forma não convencional, voltada para a produção e uso de Capital Social, muito mais do que capital privado e sistema monetário.

Acompanhe e, se o assunto lhe interessar, entre em contato!

Apresentação em vídeo (a partir de 28:35)

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