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Ago 05

Estamos nos inspirando e contagiando pelo melhor que o humano tem a oferecer?

By rafaelreinehr | Experimentalismo , Literatura , Uncategorized

Esta postagem é a quinta de 13 postagens da série Exercício de Escrita Criativa e Produtividade, que propus em 28 de junho último. Acompanhe todos os artigos, compartilhe – se achar interessante – e comente se houver algo a acrescentar.

Na postagem de hoje, deveria deixar que “Uma grande foto me inspire”. Vamos às correções e ajustes:

  1. “Hoje”, deveria ser 31 de julho, segunda-feira. Estou publicando este texto em 05 de agosto, sábado. Vida corrida, pois.
  2. Ao invés de “uma foto”, estou publicando “duas fotos”, transgredindo mais uma vez minhas próprias regras
  3. Eu poderia ter escolhido uma magnífica imagem de natureza, um por-do-sol maravilhoso, uma mamão passarinho dando comida a seus filhotinhos, etc. – mas escolhi essa. Veremos porquê em breve.
  4. Subverter regras e normas – quando elas não trazem mal às pessoas ou, pelo contrário, podem trazer benefício, é comigo mesmo, então, sem mais delongas, simbora!

Veja as duas fotos abaixo:

Imagem de um buraco em uma avenida de Fukuoka que foi consertado em uma semana

Em 8 de novembro de 2016, um buraco de mais de 30 metros apareceu, em uma avenida da cidade de Fukuoka, no Japão. Um vazamento do esgoto pode ter sido a causa inicial. Um vídeo mostrando a expansão do buraco pode ser visto aqui.

Em 2 dias o sistema de esgoto, gás e eletricidade que passava por ali já havia sido consertado e, em seguida, coberto por 6200 metros cúbicos de areia e cimento pelos obstinados e eficientes trabalhadores japoneses. Em uma semana (foto da direita, de 15 de novembro de 2016), a rua já estava liberada para o uso do público.

Ver esta foto e ouvir esta história – bastante real, diga-se de passagem – me impele a uma imediata comparação com as obras realizadas em nossa maltratada terra brasilis. Como motorista, e atualmente fazendo cerca de 3000km por mês a bordo de um automóvel, posso dizer que conheço bem o chão e o asfalto pelo qual tenho passado. Tenho acompanhado várias histórias muito tristes de descaso, como a história da morosidade da duplicação da BR-101 Sul, o a lenga-lenga de meses para o conserto da ponte em Novo Cabrais, e a superlentidão no início do conserto da ponte em Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul, isso sem contar o descaso completo na cobertura asfáltica na região de Agudo e Paraíso do Sul, e nas vias urbanas de Santa Maria, também no Rio Grande do Sul.

Quando vejo o descaso dos órgãos públicos, estatais, governamentais; quando vejo a displiscência e falta de respeito dos executores das obras, a inépcia, o baixo conhecimento, capacidade intelectual e empenho dos operários e seus gerentes penso: em quem temos nos inspirado para viver a vida que vivemos? Estaremos nos inspirando e nos contagiando pelo melhor que o humano tem a oferecer? Ou pelo pior?

Qual das frases temos usado com mais frequência quando vemos algo errado acontecendo?

“Se todo mundo faz assim, porque eu não poderia fazer também”

ou…

“Não é porque eles fazem assim que eu também agirei do mesmo modo.”

E o que temos dito (e feito) quando vemos bons exemplos à nossa frente?

 

“Puxa! Que impressionante! Curti!”

ou…

“Fantástico! Vamos reunir a galera e fazer também?”

Bem, isso resume um pouquinho de um desânimo que anda me consumindo, de leve, mas cronicamente… Este olhar para fora e para o mundo e ver uma multidão de humanos passivos no que diz respeito a boas ações e prontamente ativos quando diz respeito a praticar atos individualistas, consumir e promover ações em benefício próprio. O cansaço tem batido à porta. Mas não tem jeito não: a gente bate a poeira e usa aqueles exemplos de pessoas íntegras, honestas, dedicadas e ocupadas em criar faíscas e fogueiras criativas, de bondade e generosidade para reanimar nossa própria chama.

Essa duas fotos, ao mesmo tempo em que me entristecem profundamente quando as coloco lado a lado com a sociedade e cultura brasileiras, me enche de esperança pois sei que há, guardada no humano, uma potência fantástica para produzir beleza, solidariedade, sustentabilidade e compaixão.

Ainda não sei como podemos tornar estas características dominantes em nossa espécie, mas faço questão de continuar vivo e continuar tentando.

 

Fev 01

Tudoteca: um Espaço de Convivência, Compartilhamento e Cooperação

By Rafael Reinehr | Agir localmente , And Now, For Something Completely Different... , Coolmeia , Ecologia , Efervescências , Ideias , Quase-Idéias , Saúde da Sociedade , Sociedade , Sustentabilidade e Resiliência , Uncategorized

Imagine se você não precisasse mais se preocupar em trabalhar para juntar dinheiro para comprar coisas, e você as tivesse à sua disposição, quando precisasse, próximo da sua casa, pelo tempo que você precisar, a uma fração do custo de adquiri-la. E, mesmo que você não tivesse dinheiro, você também pudesse usufruir destas “coisas” que você necessita?

Então, isso já é possível, dentro do conceito de Tudoteca.

A Tudoteca é uma ideia que tive lá pelos idos de 2007-2008 e foi inspirada em dois conceitos: o de Cohousing (que também me inspirou a criar a Coolmeia, naqueles anos) e o conceito de Tool Library, que vim a conhecer lá por 2011-12, e ajudou a aperfeiçoar o modelo da Tudoteca.

Bem, e o que é exatamente, para quê serve e como funciona essa tal de Tudoteca? Explico. Pega um café, suco, água, mate gelado ou um chimarrão e presta atenção vivente, que a história é boa de se ouvir!

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In Boulder, Colorado the Tool Library looks much like a hardware store and even rents out tools to contractors to help subsidize rental costs and membership fees for the general public.

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Imagine um lugar no qual você possa pegar emprestado “quase” qualquer utensílio de uso eventual para sua casa, local de trabalho, viagem, festa… Um local no qual estariam disponíveis para empréstimo desde ferramentas de uso eventual como furadeiras, serras elétricas, escadas de vários tamanhos, aspiradores de pó, lava-jatos portáteis, ferramentas de mão como martelos, serrotes, chaves de fenda, de boca, alicates, tornos… Além disso você poderia pegar emprestado louças, talheres, copos e toalhas de mesa para aquela festa de formatura do seu filho ou aniversário da sua filha (que se fossem alugados custariam os olhos da cara!)… E você também poderia pegar emprestados livros, revistas, CDs, DVDs, roupas, um freezer, frigobar, chaleiras, liquidificadores, microondas, forno elétrico, batedeira, panificadora… Quer acampar? Para quê comprar se você pode pegar emprestada uma barraca, lanterna, uma churrasqueira portátil, um par de rádio-transmissores de longo alcance, varas de pescar…

pratos-e-talheres

Padarias-comunitarias

Nesse mesmo espaço, encontraríamos também uma padaria comunitária, na qual os membros do coletivo que irá autogerir a Tudoteca se revezariam na produção, distribuição e eventual comercialização do excedente lá produzido. Poderíamos também ter um refeitório ou restaurante comunitário, que ofereceria refeições produzidas com alimentos orgânicos produzidos por pequenos agricultores das redondezas. O mesmo sistema de rodízio e escala de trabalho aqui também se aplicaria. E que tal um café funcionando no mesmo espaço, o dia inteiro, para quem está de passagem e quer encontrar um amigo enquanto lê um livro ou escuta uma música na vitrola que está à disposição dos associados?

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E se, além disso, na Tudoteca também tivesse uma lavanderia coletiva, em que as máquinas pudessem ser usadas em troca de alguns “pontos de crédito” dos associados? E, ainda mais, se tivéssemos uma pequena Brinquedoteca para as crianças poderem se divertir enquanto os pais trabalham ou circulam pela Tudoteca?

brinquedoteca

Não seria macanudo tudo isso num mesmo lugar, agradável, aconchegante e efervescente cultural e socialmente, recebendo vez ou outra oficinas, seminários, rodas de conversa, encontros de aprendizagem informais, apresentações musicais e artísticas, saraus, cineclubes, fotoclubes, green drinks, pecha kucha nights, stand ups?

E o mais legal de tudo isso: poderia participar quem tem grana, quem tem coisas sobrando e mesmo quem não tem grana nenhuma, só um pouco de tempo para trocar. Como assim? Explico:

Tudoteca, para se tornar sustentável, funcionaria como uma associação horizontal e autogerida.

Opção 1: Se você tem grana, você paga digamos 39,90 ao mês por 300 créditos, 59,90 por mês por 500 créditos ou 79,90 por mês por 800 créditos e pode trocar estes créditos por X dias dos produtos W, Y e Z que você precisa naquele mês. Se não quer pagar mensalidade, você pode se associar e, por cada 1 real você comprar 5 créditos para poder emprestar algum bem ou serviço determinado (digamos que você só está na Tudoteca pelo maravilhoso pão de arroz integral sem glúten que a Daiane faz…)

Opção 2: Se você não tem grana, mas tem “coisas” que estão paradas na sua casa, você pode doar estas coisas para a Tudoteca – por exemplo uma parafusadeira, uma guitarra e um amplificador que você não toca mais, um jogo Banco Imobiliário e 2 decks de Super Trunfo e um secador de cabelo que sua ex-namorada esqueceu no seu apartamento – e em troca delas, você ganha créditos e passa a usá-los para emprestar coisas das quais você realmente precisa.

Opção 3: Tá! Mas eu não tenho grana e também não tenho nada para doar. Sou um estudante universitário pé-rapado, sou morador de rua, tenho um emprego que mal dá pra sustentar minha família. E agora. Preciso de uma furadeira só por um dia pra consertar algumas coisas lá em casa. Neste caso, você pode oferecer algo que todos seres vivos (enquanto vivos) temos: tempo! Você pode oferecer um sábado pela manhã da sua vida para ajudar a alcançar os objetos para quem for na Tudoteca pegá-los, pode ajudar na padaria ou no restaurante comunitários, pode ajudar na limpeza, buscando nossos hortifrutigranjeiros orgânicos ou mesmo cuidando das crianças na Brinquedoteca. Em troca do seu tempo, você ganha os créditos que você vai trocar pelo que você quiser. Sempre que eles acabarem, não tem problema: só oferecer o seu tempo novamente!

Ei, mas espera aí! Vai ter gente trabalhando na Tudoteca em troca de créditos e depois vai vender por fora para ganhar uns trocos. Mercado Negro! Pode isso? Sabe que só pensei nisso agora, nesse exato instante? Eu, Rafael, não vejo problema nisso. Mas e o resto das pessoas do coletivo, o que pensam? Acho que esse é um dos assuntos que deve ser deliberado coletivamente, bem como outros detalhes que devem ser registrados em uma Carta de Princípio e em uma Bases da Unidade (que também podemos chamar de Termos de Uso) da Tudoteca.

Tá, e essa grana que vai entrar na Tudoteca, pra quê serve? Vai enriquecer alguém? Nããão! O dinheiro que entrar será usado em parte para consertar e repor equipamentos, peças e ampliar o acervo de bens e serviços da Tudoteca, uma parte será reservada na forma de um Fundo de Emergência para os Associados, em caso de catástrofes naturais ou épocas de crise (estão vendo as nuvens negras da tempestade se aproximando no horizonte?) e uma parte será reservada para um Fundo de Multiplicação de Tudotecas, para criar a Tudoteca 2, a Tudoteca 3, a Tudoteca 4 e assim por diante, nas comunidades que forem se apresentando e demonstrando desejo de possuir uma na vizinhança.

E aí? Gostou da ideia? Supimpa né? Valeu, obrigado! Também acho! 🙂

Ah! tem outras ideias que já foram desenvolvidas pensando na expansão e no “espalhamento” de Tudotecas por todos os cantos do Brasil e do Mundo.

Quer saber quais são elas e fazer parte do time que vai planejar a instalação da primeira Tudoteca no Brasil? Coloca teu nome e e-mail aí embaixo que entramos em contato!

Agora, se você se empolgou de verdade e quer fazer parte do time que vai fazer as Tudotecas se espalharem pelo mundo, vá direto para o nosso Mapeamento de Ativos e Necessidades e apresente-se!

 

Mai 05

Saúde para quem precisa

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

“Polícia para quem precisa
Polícia para quem precisa
de Polícia…”
Titãs

 

    Para começar, bom dia caro leitor. Comunico que acabo de colocar fora o artigo que tinha escrito para esta edição, em função dos últimos acontecimentos nesta Terra brasilis.

    Enquanto escrevo estas linhas, os noticiários estão literalmente pegando fogo: jamais na história deste país, por tantos dias seguidos e em tantas cidades, ocorreram aglomerações de tantos cidadãos protestando por tantas causas justas e necessárias. Uma heterogeneidade de métodos, desde passeatas e protestos pacíficos até depredação de patrimônio público e privado, entretanto, tornam difícil uma análise fácil das mobilizações como um todo.

    Neste mesmo momento, uma série de decisões importantes relacionadas à saúde da Nação e da população são tomadas: desde a votação da PEC 37, que visa eliminar a capacidade do Ministério Público Federal de investigar crimes e lutar contra a impunidade em nosso país, passando pela aprovação na Comissão de Direitos Humanos da Câmara do que foi chamado de “Cura Gay”, ou seja, a possibilidade de psicólogos proporem tratamento para a homossexualidade, indo contra ao próprio Conselho Federal de Psicologia que proíbe que a homossexualidade seja vista como doença e, mais recentemente, a aprovação do Ato Médico no Senado, que reserva exclusivamente aos profissionais médicos a prerrogativa de diagnosticar, prescrever medicamentos, realizar cirurgias, internações e altas hospitalares.

    Um pouco antes, a notícia da vinda de médicos cubanos para responder à uma demanda de cidades isoladas do país, nas quais existe uma demanda significativa por profissionais médicos que não é atendida pelos médicos formados em nosso país, gerou polêmica e é criticada por uns e aplaudida por outros.

    Meditando sobre a complexidade inerente a cada situação, em seus múltiplos pontos de vista possíveis, observando beneficiados e prejudicados, lados fortes e fracos da equação, os interesses claros e obscuros por trás de cada medida, escolhi as posições que devo ocupar. Como ser político que sou, minha saúde e qualidade de vida – entendida pela imbricada teia de variáveis que constituem o que é ser saudável para bem além do corpo, incluindo as variáveis ambientais e sociais – dependem também das decisões que são tomadas em relação a quem vai monitorar a criminalidade organizada e a corrupção ativa em meu país, em perceber se os cidadãos com os quais convivo estão ficando mais ou menos tolerantes com a diversidade, em me dar conta de quais são, de fato, as pessoas que podem cuidar de minha saúde física e mental, bem como de meus amigos, familiares e pessoas que prezo e, também, em como está garantida, por lei, pelo mercado ou pela facilidade de acesso, o meu contato a profissionais qualificados para promover e restituir minha saúde.

    Para cada variável, podem existir prós e contras, mas nem sempre podemos ser duais. Não podemos ao mesmo tempo permitir e não permitir algo. Temos que nos posicionar. Eu tomei minha posição. Você tomou a sua?

(publicado originalmente em 2013 na Revista DOC)

Mai 01

Primeiro de Maio: Automação, Desemprego, Terceirização, Precarização do Trabalho

By Rafael Reinehr | Anarquia e Escritos Libertários , Apontamentos Anarquistas , Saúde da Sociedade , Sociedade

Premissas:

# A automação pode representar a liberação dos seres humanos, no momento em que substitui a força de trabalho humano deixando-o o livre para atividades contemplativas e prazerosas

# Para que isso seja verdade, os benefícios da automação devem ser divididos entre toda a espécie humana

# É fato que, no mundo contemporâneo (2015), os frutos da automação estão sendo auferidos para uma pequena parcela desta mesma espécie humana, e são restritos a grupos econômicos, corporações e pessoas que detém o capital e os meios de produção

# O desemprego – ou incapacidade de encontrar um meio de labor que sustente de forma satisfatória a vida de um indivíduo e sua família – é uma realidade em praticamente todos Estados Nação – excetuando-se talvez o Vaticano, Liechtenstein, o Principado de Mônaco e o Principado de Sealand.

# O desemprego funciona, dentro do sistema capitalista, como uma ferramenta a serviço da precarização do trabalho e para a manutenção dos baixos salários da população assalariada, já que a massa desempregada funciona como lastro para a substituição de empregados que não se adaptam aos baixos valores praticados

# O desemprego poderia ser atenuado em parte através de uma visão mais empreendedora dos indivíduos, que, mesmo com oportunidades insuficientes, poderiam usar a engenhosidade e a criatividade para gerar renda para si mesmo, através da observação das necessidades não atendidas em cada localidade

# O desemprego poderia ser atenuado em parte através da formação de cooperativas que permitam a associação autônoma de indivíduos que se especializam em uma determinada área de atuação

# O desemprego poderia ser atenuado imediatamente, de forma top-down, através da limitação das horas de trabalho em 6 horas ou 4 horas

# A terceirização – ou subcontratação de serviços de outrem para realização de tarefas que foram a alguém contratadas – é uma faca de “dois legumes”, pelo menos no Brasil: ao mesmo tempo em que permitiria a otimização de processos produtivos e a inclusão de novos parceiros em atividades de criação de valor, quando usada de forma totalmente liberal em um mercado capitalista, acaba por gerar a perda dos direitos historicamente adquiridos pela classe trabalhadora

# A terceirização, dentro de um contexto de Economia Solidária, é uma forma de realizar tarefas e atividades produtivas que um determinado grupo, coletivo ou comunidade não tem capacidade de realizar, sendo então vista como algo mutuamente benéfico aos grupos envolvidos

# Surgem cada vez menos oportunidades de trabalhos com longo vínculo (estáveis) e cada vez mais trabalhos autônomos temporários (bicos/instáveis)

# A precarização do trabalho é ferramenta do sistema capitalista liberal para garantir a manutenção do status quo, baixos salários e contingente populacional ávido por qualquer oferta de emprego ou subemprego

# Formas flexíveis de contratação – como as derivadas da terceirização – contribuem ainda mais para a precarização do trabalho

foto de Pedro Martinelli: "Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo."

foto de Pedro Martinelli: “Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo.”

Analisando historicamente e evolutivamente o contexto no qual nos situamos, não será pela via político-partidária ou através de qualquer forma institucionalizada vinculada ao Estado e seus grupos econômicos financiadores e expropriadores que se resolverá as situações acima descritas.

A criação de alternativas deve seguir vindo de baixo para cima, com a formação de cooperativas conscientes, estabelecimento de ecovilas, ecopolos, comunidades intencionais despertas, comunidades autogestionadas com capacidade produtiva variada, aplicação de conceitos da Ciência das Redes e dos princípios da economia solidária, da cultura do conhecimento livre e da cultura peer-to-peer.

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Manifestação popular e trabalhista em Paris, primeiro de maio de 1999

 

Como complemento de leitura, sugiro o livro de Alexis Rowell, “Communities, Councils & a Low-carbon Future – What we can do if governments won’t”. Escrito dentro do contexto das Cidades em Transição, ele foca em vários aspectos interessantes e fundamentais para a constituição de uma vida em sociedade mais harmônica, justa, equânime, convivial e sustentável, como por exemplo a biodiversidade, eficiência energética, cooperação, água, reciclagem, trabalho coletivo e co-working, bem-estar, ativismo, boas práticas, geração de energia, transporte, espaços verdes, planejamento comunitário, etc.

Somente dentro de comunidades que são fundadas e se mantém a partir de princípios éticos claros e transparentes, que a exploração do homem pelo homem e os vícios de dominação e opressão do humano sobre o humano e sobre os outros seres pode deixar de existir.

Não será em uma sociedade na qual seres humanos guiados por interesses próprios e egoístas, a serviço de outros tão ou mais interesseiros e egoístas quanto, que conseguiremos nos livrar da hierarquia, da expropriação do tempo alheio em benefício de poucos e da humilhação de uns para o deleite de outros, substituindo-os por uma sociedade na qual os princípios de fraternidade, solidariedade, apoio mútuo, sustentabilidade e justiça social sejam favorecidos.

São pequenas reflexões para um primeiro de maio atípico, no qual o resto do dia será realmente dedicado ao descanso, à contemplação e à reflexão sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos…

Leitura sugerida:

Internetocracia Brasil: Desemprego e Precarização do Trabalho e comentários associados.

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Jan 01

O Anarquismo e suas Aspirações – parte I

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

O Anarquismo e suas Aspirações

Os apontamentos a seguir foram retirados livremente do livro Anarchism and It's Aspirations de Cindy Milstein e estão entremeados por reflexões e comentários meus, reflexões essas que surgiram durante a leitura do mesmo, e inspiradas em leituras prévias da literatura libertária e da minha leitura particular do mundo em que vivemos. É muito importante frisar que, embora os comentários estejam realmente misturados com o texto original da autora, a grande maioria do conteúdo abaixo é de autoria da Cindy, e recomendo muito fortemente a leitura do texto original em inglês, publicado pela Editora AK Press e pelo Institute for Anarchist Studies.

Os apontamentos foram fragmentados em partes para facilitar a leitura e serão publicados semanalmente a partir de hoje, primeiro de janeiro de 2013, sempre às terças-feiras. Desejo uma ótima leitura e, se a leitura te "pegar de jeito", não deixe de entrar em contato. Temos muito o que prosear e conspirar!

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O objetivo destes escritos é contribuir com a construção de um melhor entendimento do Anarquismo, construir um melhor Anarquismo e encorajar novos anarquistas bem como o surgimento destes. Espera-se que estes apontamentos acendam um debate sobre o que o Anarquismo poderia ser, em primeiro lugar porque queremos que sejamos efetivos – que vençamos – e isso envolve um diálogo crítico, construtivo e integral para nossa prática prefigurativa.

Com este artigo, quero estender uma mão compassiva e solicitar que você, quer seja velho ou novo no Anarquismo, fique por perto e ajude a acelerar os processos pelos quais estamos lutando.

Eu quero todos nós lutando pelo que há de melhor no Anarquismo, não somente por nós mesmos mas de forma a construir uma sociedade livre, com indivíduos livres que o Anarquismo tão generosa e amorosamente luta para alcançar para todos.

Sim, o mundo está incrivelmente bagunçado; ao invés de se retirar, entretanto, é imperativo que avancemos em direção a uma "Comunidade de comunidades" igualitária.

Espero que ao final do livro tenhamos conseguido responder à pergunta: "Como é a sociedade que queremos?"

E, inspirados pelo bom, verdadeiro e belo que o Anarquismo objetiva, contagiá-lo a feliz e ainda assim diligentemente abraçar – ou continuar a fazê-lo com renovado vigor – o espírito libertário do Anarquismo.

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A primeira década do século XXI foi muito significativa para o Anarquismo, providenciando uma série de eventos (e exemplos) que começaram ainda no final do século passado (Chiapas, México, Exército Zapatista de Libertação Nacional, 1994) e a Batalha de Seattle, 1999) e seguiram-se com os eventos na Argentina (2001/2002), Genova, Oaxaca, Grécia, Primavera Árabe, Occupy Wall Street, 15M, …

Estes acontecimentos somados levaram a um "inchaço" no número de pessoas que se autodenominam anarquistas; isso, por sua vez, levou ao florescimento de uma "infraestrutura anarquista", desde um aumento dramático de cenários sociais e infoshops até um surto de projetos tocados coletivamente para suprir necessidades como suporte legal, comida e arte.

Foram desenvolvidas redes globais informais porém articuladas de troca e solidariedade, facilitadas por tudo desde usos compartilhados e seguros de tecnologias de comunicação e mídia independentes até redes de apoio mútuo nos mais diversos campos do conhecimento a atuação humanos.

Juntamente com cabeças afins, nos engajamos em fóruns de política cara-a-cara que nos forneceram uma nova imaginação radical através de numerosos dias de ação, consultas e convergências, e movimentos horizontais.

A primeira parte destes apontamentos, o Capítulo 1, reflete nosso otimismo de que a constelação anarquista de éticas, juntamente com suas práticas dinâmicas, pode nos unir e inspirar bem como a muitos outros, para o trabalho pesado que nos espera de forjar um mundo de baixo para cima.

"Mesmo quando eu amo o que faço, eu odeio o capitalismo"

"Não é como nos chamamos uns aos outros – anarquistas, socialistas, comunistas – que conta, mas como nos comportamos"

E, refletindo sobre a forma que os anarquistas escolhem agir, parece que existe algo de especial nela, apesar de todas as chances contra deste momento histórico: com empatia, tangivelmente dando de nós mesmos e fazendo-o nós mesmos, em direção a uma forma de organização social na qual será rotina agir de forma mutualista.

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Uma vez perguntaram a Ashanti Alston, anarquista dos Panteras Negras, como ele aguentou ficar 12 anos na cadeia, e ele respondeu, olhos brilhantes: "Foi o período mais cheio de esperança da minha vida, porque todos os dias nós estávamos esquematizando sobre como fugir da prisão".

Ninguém deveria viver nas celas do Capitalismo, do Estado, ou de outra forma de dominação ou opressão, mas já que vivemos, as aspirações anarquistas oferecem uma chave para acharmos nossa saída.

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Capítulo 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

"Por espírito anarquista eu quero dizer daquele sentimento humano profundo, que busca o bem de todos, solidariedade e amor entre as pessoas, o que não é exclusivamente uma característica dos autodeclarados anarquistas, mas inspira todas as pessoas que tem corações generosos e uma mente aberta"
Errico Malatesta, Umanita Nova, 13/04/1922

No seu centro, o Anarquismo é realmente um espírito – um que grita contra tudo que está errado com a sociedade atual, e claramente proclama tudo que poderia estar certo sob formas alternativas de organização social.

O que é o Anarquismo exatamente?

Muitas definições já foram feitas desde o surgimento da palavra como uma filosofia política distinta dentro da tradição revolucionária. Vamos tentar introduzi-lo com a vantagem de um ponto-de-vista do início do século XXI.

Em primeiro lugar, precisamos concordar que nossa humanidade está profundamente machucada pelo mundo alienado e controlado no qual habitamos. O Anarquismo defende que as pessoas seriam muito mais humanas sob relações e arranjos sociais não hierárquicos. A seguir, precisamos nos concentrar nas Éticas – os valores pertinentes a como os humanos conduzem a si mesmos – que tornam o Anarquismo uma sensibilidade política distinta. O Anarquismo serve como uma filosofia da liberdade, como uma consciência viva de que as pessoas e suas comunidades podem ser sempre melhores.

Em uma só sentença: o Anarquismo pode ser definido como uma busca/luta em direção a uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

Significado do "A"

O "A" representa a antiga palavra grega Anarkha – que combina a raiz an(a) – "sem" e arkh(os) – "governante, autoridade" – significando a ausência de autoridade.

Mais contemporaneamente, e de forma mais acurada, ela represetna tanto a ausência de dominação (controle de alguém sobre outro) e hierarquia (relações ranqueadas de poder de dominação e subordinação). O círculo pode ser considerado um "O", representando "ordem" ou, melhor ainda, "organização"; lembrando da seminal definição de Pierre-Joseph Proudhon em A Propriedade é um Roubo: "Da mesma forma que o homem busca justiça na igualdade, a sociedade busca a ordem na Anarquia."

O "A" simboliza o Anarquismo como um duplo processo: a abolição da dominação e formas hierárquicas de organização social – ou relações socieis "poder sobre" – e sua substituição por versões horizontais – ou "poder juntos e em comum" – novamente, uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

O Anarquismo é uma síntese do melhor do liberalismo e o melhor do comunismo, elevado e transformado pelo melhor das tradições de esquerda libertária que trabalham em direção a uma sociedade igualitária, voluntária e não hierárquica.

O projeto do liberalismo e o seu sentido mais amplo é garantir a liberdade pessoal. O projeto máximo do comunismo é garantir o bem comum. Um busca um indivíduo que pode viver uma vida emancipada e o outro busca uma comunidade estruturada ao longo de linhas coletivistas. Ambas são noções de valor. Infelizmente, a liberdade nunca pode ser alcançada desta maneira excludente: através do indivíduo OU da sociedade. Os dos necessitam necessariamente entrar em conflito, quase instantaneamente. A grande sacada do Anarquismo foi combinar o indivíduo e a sociedade em uma única visão política: ao mesmo tempo, eliminou o Estado e a propriedade como os pilares de suporte, baseando-se em seu lugar na auto-organização e o apoio mútuo.

O Anarquismo entende que qualquer forma de organização social, especialmente uma que busque uma erradicação completa da dominação, que se basear na premissa tanto da liberdade individual quanto coletiva – ninguém é livre a não ser que todos sejam livres, e todos só podem ser livres se cada pessoa puder individuar ou atualizar a si mesmo da forma mais ampla possível.

O Anarquismo também reconheceu, mesmo que intuitivamente, que tal tarefa é tanto um ato de balanço constante e "do que é feita" a vida real. A liberdade de uma pessoa necessariamente infringe a de outra, ou mesmo o bem de todos. Nenhum bem comum pode atender as necessidades e desejos de todo mundo. Isso não quer dizer lavar as mãos e escolher pelo caminho ou do liberalismo ou do comunismo – privilegiando um lado da equação, de forma artificial – na esperança de resolver esta tensão em andamento.

Desde o início, o Anarquismo perguntou a muito mais difícil mas em última instância pragmática questão: "Levando em conta estas "colisões" sociedade x indivíduo como parte da condição humana, como podem as pessoas coletivamente auto-determinar suas vidas para se tornarem quem elas querem ser e ao mesmo tempo criar comunidades que são tudo o que elas poderiam ser também?"

O Anarquismo entendeu que esta tensão é positiva, como uma parte criativa e inerente à existência humana. Ele destaca que as pessoas não são todas iguais, nem precisam ser, nem necessitam, querem ou desejam as mesmas coisas.

No seu melhor, a aspiração anarquista básica por uma sociedade livre composta de indivíduos livres dá transparência ao que deve ser uma dissonância harmônica e produtiva: encontrar caminhos para coexistir e nos desenvolver em nossas diferenças.

Anarquistas criam processos que são humanos e substancialmente participativos. São sonestos sobre o fato de que sempre haverá mal-estar entre a liberdade individual e social. Garantem que será uma luta contínua encontrar o equilíbrio ideal. Esta luta é justamente aquela na qual o Anarquismo se localiza, aparece, acontece.

Ele acontece, hoje em dia, em situações nas quais nem nos damos conta. Em projetos de pequena escala como cooperativas de cicloativistas, escolas livres – situações em que as pessoas coletivamente fazem decisões cara-a-cara sobre assuntos grandes ou mundanos.

Isso não é algo que a maior parte das pessoas na maioria das partes do mundo é encorajada a ensinar (ou aprender); pois isto contém o kernel, o código-fonte, o coração do que é necessário para destruir o atual sistema de arranjos sociais verticais. Desta forma, não somos nem particularmente bons nem eficientes em processos democráticos diretos. Mecanismos de tomada de decisão em conselhos são trabalho duro. Eles levantam questõs difíceis, como por exemplo "como lidar com conflito de formas não punitivas". Mas através deles, as pessoas se "escolarizam" no que pode ser a base para a auto-governança coletiva, para redistribuir poder a todos. Quando funciona bem, temos um profundo senso dos tipos de processos ou acordos que podemos fazer e manter uns com os outros.

Ocupa BarcelonaNo micronível e em outros muito maiores, o anarquismo forma "a estrutura da nova sociedade dentro da casca da velha", como o preâmbulo da constituição mundial dos trabalhadores industriais afirma. De forma ainda mais crucial, ele auto-determina a estrutura do novo a partir dos espaços de possibilidade dentro do velho.

O Anarquismo precisa permanecer dinâmico se ele realmente quiser desmascarar novas formas de dominação e substitui-las por novas formas de liberdade, precisamente devido a sempre presente tensão entre liberdade individual e coletiva.

Auto-organização necessita a participação de todos, o que requer estar sempre aberto a novas questões e ideias.

Quando as pessoas são introduzidas ao anarquismo hoje, esta abertura combinada com a propensão cultural a esquecer o passado, pode fazer com que pareça uma invenção recente – sem uma tradição elástica, preenchida com debates, lições e experimentos, para construir sobre. Pior ainda, pode parecer uma prática política do tipo "tudo vale" – libertino sem o libertário – sem consideração por como os atos de uma pessoa impactam outra pessoa (ou pessoas) ou mesmo a comunidade.

Precisamos estudar a história anarquista para evitar repetir os erros, mas também para saber que não estamos sozinhos no que tem sido e vai ser a pedregosa e cheia de desvios "via para a utopia".

(continua…)

 

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

Out 15

Reflexões a partir de “Rescuing Galbraith from the conventional wisdom” – Anarchy # 1, março de 1969

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Reflexões a partir de “Rescuing Galbraith from the conventional wisdom” – Anarchy # 1, março de 1969

O Estado Oportunista > A Sociedade Irresponsável

A “sabedoria convencional” aplaude quando investimentos são abençoados pelo lucro e gratificados por aquisições privadas, mas é deficitária quanto a satisfação de necessidades sociais. Assim, à indústria do automóvel e ao seu produto, os carros, é dado mais valor do que às estradas ou a meios de transportes eficazes e coletivos, como trens de alto desempenho, por exemplo.

“Temos visto que enquanto nossas energias produtivas tem sido usadas para fazer coisas para as quais não há urgência, coisas para as quais a demanda deve ser sintitizada a um custo elaborado ou elas não serão desejadas – o processo de produção continua a ser de uma urgência quase não diminuída como uma fonte de renda. A renda das pessoas deriva de produzir coisas de pequena relevância, e isso gera grandes consequências. A produção reflete a baixa utilidade marginal dos bens produzidos para a sociedade. A renda reflete, para uma pessoa, uma alta utilidade para a capacidade de qualidade de vida.”

“Nós ainda estamos para ver que não é o total de recursos mas seu uso estudade e racional a chave para a conquista.” – J. K. Galbraith

“Mas tão longo olhemos prova a Economia Política deste ponto de vista, ela muda inteiramente de aspecto. Ela cessa de ver uma simples descrição dos fatos, e se torna uma ciência, e podemos definir essa ciência como: o estudo das necessidades da humanidade, e os meios de satisfazê-lo com a menor possível perda de energia humana.” – Piotr Kropotkin

“A (ideia de) produção é alimentada por uma altamente duvidosa mas igualmente aceita psicologia do querer, por uma igualmente dúbia mas igualmente aceita interpretação do interesse nacional e por profundos interesses velados. Tão totalmente envolvente é o nosso senso de importância da produção como um objetivo que a primeira reação a qualquer questionamento desta atitude será “O que mas há aí?”. Tão amplamente a produção está incrustada em nossos pensamentos que apenas conseguimos imaginar um vácuo caso ela seja relegada a um papel menor”.

Na interpretação dos fenômenos sociais existe uma competição contínua entre o que é relevante e o que é meramente aceitável, e nesta competição toda “vantagem tática” está com o que é aceitável. Audiências de todos os tipos mais aplaudem aquilo de que gostam mais, e as pessoas aprovam a mais aquilo que entendem melhor – aderimos a um pensamento rapidamente quando aquelas ideias representam nossa própria compreensão do assunto. Essa é uma primeira manifestação do interesse velado.

Um interesse velado no que diz respeito ao entendimento é mais preciosamente guardado do que qualquer outro tesouro. É por isso que as pessoas reagem, não infrequentemente como algo próximo à paixão religiosa, em defesa daquilo que tão laboriosamente aprenderam.

Este consenso de ideias aceitáveis é o que Galbraith convencionou chamar de “Sabedoria Convencional”. Existe uma sabedoria convencional da esquerda bem como uma da direita, e ela é encontrada em qualquer campo do conhecimento humano.

Critérios centrais da Nova Economia

  • Desenvolvimento pautado pela sustentabilidade
  • Compaixão
  • Felicidade individual
  • Bem-estar pessoal e social
  • Minimização de tensões comunitárias e sociais

O que fazer com a superprodução de alimentos?

Em primeiro lugar, alimentar a população. Só o verdadeiro excedente deve ser comercializado – ninguém mais pagará pela “cesta básica”- somente pelo luxo.

A distribuição racional dos produtos da indústria não é uma questão de capacidade produtiva mas de atitudes sociais e a disseminação de atitudes sociais apropriadas é justamente o que a “sabedoria convencional” da economia inibe.

“Existe uma tendência, embora ainda pálida, de considerar as necessidades do indivíduo, independentemente de seus serviços prévios ou possíveis à comunidade. Nós estamos começando a pensar na sociedade como um todo, cada parte da qual está tão intimamente ligada às outras que um serviço entregue a um é um serviço entregue a todos.” – Piotr Kropotkin, em Anarchist Communism, sobre a Abolição dos serviços assalariados

Economia baseada em interesses sociais sem intervenção do mercado

E se a “eficiência” de um sistema produtivo passasse a ser avaliada em função de sua utilidade ao homem ao homem ao invés de sua utilidade econômica?

Set 14

O Futuro da Educação em uma Sociedade que se Desescolariza

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

Para que o sonho de Ivan Illich não se transforme no pesadelo de Ivan Illich, temos que atentar para um aspecto da educação horizontal e do autodidatismo:

Quando escuto meus pares proclamarem que o futuro das da educação encontra-se nas redes de educação informal, no auto e alterdidatismo e na horizontalidade do aprendizado, tenho uma sensação de estranhamento pois, ao que parece esse futuro já chegou.

O grau de interconectividade dos nossos pequenos e jovens é assombroso, entretanto, a liberdade é a tamanha a a oferta de serviços não educativos da mesma forma que, até o momento, o que esta capacidade de conexão está trazendo é uma aparente redução da inteligência individual. Ouvimos falar das maravilhas da tecnologia e toda potência e possibilidade inerentes à Web 2.0, 3.0 e 4.0 – mas, do jeito que andamos, a Humanidade 4.0 não será aquela que gostaríamos de vislumbrar.

Um amigo, professor de literatura de um cursinho pré-vestibular há mais de 20 anos, comentou que, a cada ano, os alunos parecem mais burros, cada vez menos preparados. Analisando por outro ponto de vista, talvez o que realmente esteja acontecendo é que eles estejam cada vez menos INTERESSADOS no que ele, professor de Literatura, tem a oferecer.

Talvez eles queiram seguir por outros caminhos, de acordo com seus próprios interesses.

A liberdade plena (ou quase) que essa nova situação educacional que se configura apresenta nos traz também um questionamento: até que ponto será que a possibilidade de um mundo no qual a primazia da autodidatismo estará vigente é algo benéfico? Existe alguma ferramenta para medir o futuro sem que façamos uma experiência social? Onde estas experiências já estão sendo feitas? Estão dando certo? Quais os resultados mesuráveis e o que aprendemos com isso?

Como as pessoas  estão , de forma crescente, aprendendo umas com as outras, as universidades começaram a perder o monopólio do aprendizado superior, que pode ser encontrado no outro, em iniciativas privadas e também em iniciativas sem fins lucrativos.

Estamos acompanhando crescer gradualmente o fenômeno da acreditação p2p, em que os próprios pares certificam as habilidades e competências de algo que foi aprendido. É um modelo novo, e pode-se dizer que está em fase “beta”, mas devemos ficar de olhos atentos com seus desdobramentos.

Uma questão interessante que vem com o aumento da capacidade de aprendizado é justamente o aumento da oferta de pessoas “letradas” ou “capazes” de desempenhar dadas funções. O crescente número dessas pessoas somado a dificuldades de monetização (limite da demanda), cria um desequilíbrio entre a inovação social de uma sociedade civil cada vez mais autônoma e o mercado que se beneficia dela. Isso significa que as próprias universidades estão co-produzindo uma força de trabalho precária, a altos custos. A isso podemos chamar de “crise de valor”

O lado negro da autonomia do aprendizado diz respeito justamente aquela porção da população que tem dificuldade em se conectar, ou que não tem habilidades cognitivas para a participação online (sem contar a porção de pessoas “desconectadas digitalmente”). Esse aspecto reforça a necessidade de garantirmos amplamente competências de rede em todas as camadas da população.

Ao mesmo tempo em que a internet cria muitas possibilidades para liberar a educação das limitações de tempo e espaço e pode aumentar o acesso ao aprendizado, também é verdade que a educação online tem suas próprias formas de socialização. A educação virtual, entretanto, ainda parece requerer a existência de locais físicos para contato humano face a face.

A criação cada vez maior de REAs (Recursos Educacionais Abertos), obras disseminadas sob Licença Creative Commons ou similares, Open Textbooks e afins possibilitará, cada vez mais, a apropriação de conhecimento por parte do autodidata e mesmo do aluno que estiver em uma escola hierárquica tradicional.

A educação, com o tempo, se torna construtiva: muito mais do que aprender à distância, as novas conquistas tecnológicas possibilitam a co-criação de valores. Elas oferecem a oportunidade de criar uma edicação que é diretamente produtora de valores sociais, ao invés de uma atividade separada da vida real. Os estudantes podem se tornar parceiros na produção de inovação social, interligados com comunidades profissionais e apaixonadas, trabalhando em projetos comuns para o avanço da humanidade.

A educação está se tornando combinatória: aprender de forma p2p não necessariamente substitui outras formas de aprendizado, mas cria várias possibilidades: se pode aprender sozinho, aprender de experts e aprender através do contato com outros. Estas formas não são excludentes, podem coexistir.

Aprender de forma informal, de forma auto ou alterdidata não significa que o futuro da educação está definido e que podemos prever o que virá pela frente, ou que as universidades e escolas como hoje as conhecemos irão desaparecer. Ao invés disso, significa que temos mais possibilidades para co-criar o futuro da educação. O futuro da educação é aberto!

Set 13

Carta aos amigos paulistanos

By Rafael Reinehr | Cotidianices

Meus amigos,

Estou zarpando para São Paulo hoje à noite, para participar do Seminário A Sociedade em Rede e a Educação. Fico aí de 14 a 18 de setembro. Não sei bem ao certo como vai ser a logística do evento tampouco meu tempo livre, mas seria interessante um encontro para “desvirtualizar” nossa relação.

Se alguém estiver no Seminário Vivo, por favor me procure: sou o baixinho de óculos com gravata borboleta verde-limão, camisa grená e calça de veludo cor de cáqui. Para a eventualidade de mais alguém estiver vestido assim, vou estar com um relógio no pulso esquerdo, para me diferenciar da multidão.

Um abraço e até breve,

Rafael Reinehr

Ago 10

A riqueza intrínseca e latente da humanidade – Piotr Kropotkin

By Rafael Reinehr | Apontamentos Anarquistas

“Somos ricos, muitíssimos mais ricos do que cremos.
Ricos pelo que possuímos agora,
ainda mais ricos pelo que podemos conseguir com os instrumentos atuais,
infinitamente mais ricos pelo que poderíamos obter de nosso solo,
de nossa ciência e de nossa habilidade técnica,
caso se aplicassem a procurar o bem estar de todos.”

Piotr Kropotkin