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Pequeno guia para o futuro médico.
jul 01

Pequeno guia para o futuro médico, por Rafael Reinehr

By rafaelreinehr | Bem-estar , Buscando a si mesmo , Novidades! , Quase Filosofia

Hoje estou completando 40 anos de idade.

Como gosto de dizer, estou chegando ao final do primeiro quarto da minha vida. Vamos aos 120 faltantes!

Nos últimos anos, questionei meu próprio lugar na profissão que escolhi, lá nos meus 16 ou 17 anos: a Medicina.

Muito deste questionamento adveio da desilusão  em relação à indústria da Medicina: a mecanização e desumanização do atendimento, o farmacocentrismo do tratamento, diagnósticos cada vez mais superficiais em função de uma atenção cada vez menor ao que os sinais e sintomas do paciente tem a nos dizer, a falta de desejo verdadeiro dos próprios pacientes em buscar a melhora de suas condições (ou pelo menos a motivação insuficiente em realizar as mudanças de hábito de vida necessárias a uma vida saudável) e a consciência de que as ferramentas que me haviam sido passadas na Medicina Alopática Ocidental eram, apesar de poderosas, francamente insuficientes para cumprir a missão à qual havia sido designado.Pedras harmonia

Mas, curiosamente, nos últimos 2 anos, começou a surgir uma percepção diferente de como eu poderia gerar uma reação a este modelo medicocêntrico e recuperar o “tesão” pela promoção da saúde, de uma forma nunca antes experimentada por mim nestes últimos 16 anos de formado.

Essa reação veio na forma de duas iniciativas. A primeira delas, o Medictando, um portal de Educação em Saúde, Qualidade de Vida, Bem-estar e Felicidade. Em resumo, um portal que tem como missão ajudar as pessoas a Bem Viver; a segunda, a ser lançado ainda neste mês de julho, a ZenNature, um espaço onde efetivamente o bem viver é representado pelos produtos que consumimos e que trazemos para dentro de nossa casa, para nossa família e para dentro dos nossos corpos.

Para bem além do conceito de “ausência de doença”,

a abordagem de saúde que busco promover é aquela inspirada pelo Benson-Henry Institute, de Boston: criar as condições para que cada ser humano atinja sua potência plena na face da terra, enquanto um ser vivo integral em suas dimensões física, mental, emocional, social e espiritual.

Passei quatro décadas aprendendo. É hora de devolver ao Universo um pouco da sabedoria que me foi concedida, ao mesmo tempo em que sigo, continua e dedicadamente, absorvendo e aprendendo com todo estímulo possível que me é ofertado.

E em breve, tenho um convite muito muito especial a te fazer. Vou te convidar a participar junto comigo desse sonho e desse caminho, como meu apoiador ou minha apoiadora, lá na página do Patreon que estou criando para possibilitar que esta jornada, que esta aventura seja a mais intensa, duradoura, profunda e abrangente possível. Te quero parte dessa tribo de pessoas que acreditam no humano como força propulsora de sua própria vontade, como catalisador da mudança de um estado atual para outro, melhor.

Estou preparando um texto, que vou transformar em vídeo, para te explicar melhor como você pode me ajudar! Fique atento(a) nos próximos dias!

Pedras equilíbrio harmonia

Para que este escrito aqui não se transforme em um romance, me despeço recuperando aqui um pequeno textículo que escrevi em 21/08/1998, quando ainda era estudante do nono semestre de Medicina da UFRGS. Creio que ele serve como ponte para o momento atual que vivo e que vivi naquela época, há 18 anos:

Pequeno guia para o futuro médico

  1. O médico ocupa-se com um único organismo, o sujeito humano, em luta para preservar sua identidade em circunstâncias adversas;
  2. Curiosidade intelectual é essencial; apenas o médico curioso pode progredir em relação à doença do paciente assim como na ciência da Medicina;
  3. A prática da Medicina é uma arte tanto quanto uma ciência; a habilidade de um médico em ajudar um paciente depende não apenas de seu conhecimento mas da maneira que ele o utiliza;
  4. As ferramentas mais importantes do médico continuam sendo seus olhos, mãos e ouvidos; as capacidades básicas em cuidar de pacientes requerem inspeção, palpação e, mais importante, a escuta atenciosa;
  5. Nem sempre se pode curar uma pessoa, mas sempre podemos confortá-la;
  6. Tornar-se médico não é apenas completar a faculdade e a residência: é antes de mais nada escolher por um modo de vida, permeado e determinado por questões morais e éticas, para o resto da vida;
  7. Cada palavra que pregamos, cada ato que realizamos, irradia de nossos corpos e vai se espalhar, distribuindo à Natureza nossos sentimentos, sentimentos esses que são por ela captados e devolvidos integralmente. Só quando todos nos dermos conta disso poderemos, finalmente, curar uma pessoa. Até lá, nos resta seguir aprendendo.

 

Gratidão!
maio 19

Hoje sou grato! #sougratohoje

By Rafael Reinehr | Bem-estar , Buscando a si mesmo

Existem dias em que a gratidão nos inunda.

Em outros nos entorpece. Tem ainda aqueles dias em que somos ingratos. Noutros, esquecemos dela. Mas ela sempre nos busca, lá do cantão da desesperança e nos traz de volta para o mundo cheiroso e iluminado dela.

Na semana que passou senti-me profundamente grato por vários acontecimentos muito intensos que ocorreram. Vou destacar três deles.

Sou grato hoje

O primeiro, a bem da verdade, começa com a gratidão de outra pessoa para comigo. Uma paciente, cujo nome vou preservar, ao final da consulta, resolve abrir seu coração e me conta o quão profundamente grata ela se sente em relação ao tratamento que lhe ofereci. Segundo ela, fui responsável por salvar seu casamento, que estava por um fio. Fiquei surpreso com a declaração, pois o objetivo primário da consulta dela era emagrecer. Cerca de 16kg a menos haviam, segundo ela, reativado a vontade de viver, o desejo pelo marido – que se tornou recíproco – e a autoestima e a vontade de se relacionar socialmente aumentou significativamente. Bem… Aquela consulta serviu para gerar um efeito fantástico em mim: o sentimento de gratidão que eu mesmo senti, ao ouvir aquelas palavras – por minha paciente ter aberto seus sentimentos – acabou por respingar em todos pacientes subsequentes ao longo do dia. Foi mágico. Saí pensando: “Como fazer com que possamos – todos – viver com essa sensação intensa de gratidão e vontade de fazer bem e bem fazer a todas pessoas?”

Essa pergunta ainda está à minha volta, e por mais que tenha pistas, ainda não sei ao certo como imprimir de forma indelével as características necessárias à um “estado de gratidão perene” ao desejável bem viver em harmonia social que todos almejamos.

O segundo evento da semana que me remete a um profundo estado de gratidão re conecta com uma dádiva que recebi: fui agraciado, por uma paciente, ao acesso a uma consultoria de alta qualidade, por dois anos, gratuita, no processo de fruticultura de nogueiras que estou realizando na Fazenda Bom Encontro, em Araranguá – SC. Esta paciente, sempre tão gentil e positiva, está passando pessoalmente por uma fase bastante difícil, em luta com um câncer ao qual ela, com toda vibração positiva que seu corpo e espírito apresentam, certamente irá debelar em breve. Disse ela, também ao final da consulta: “O dia em que o senhor sair de Araranguá, continuarei sendo sua paciente, pois você terá que voltar para cuidar das nogueiras, então sempre poderemos nos ver”. Pronto. Meus olhos se encheram de lágrimas e precisei dar-lhe um forte abraço para ajudar a conter a alegria e a gratidão por ter recebido estas tão gentis palavras.

O terceiro momento em que me senti profundamente grato foi ao encontrar uma pessoa bastante especial, que aparentemente “caiu do céu” ou “entrou como uma luva” dentro de uma necessidade recente de um projeto que estou realizando. Sabe quando você faz um pedido e ele é atendido? Pois é… Talvez ainda seja cedo para falar, mas já estou grato pela perspectiva que se apresenta.

Nem preciso dizer que sou grato a cada dia que posso estar próximo a aqueles que amo,

filhos, namorada, família, amigos… Saber que todos estão bem e que ainda tem(os) algum tempo para passear e experimentar esta vivência enquanto não são chamados para surfar alhures, longe do Samsarão.

Na verdade, enquanto escrevo este texto, começam a vir lembranças e instantes e mesmo pessoas e momentos atuais que me fazem ser grato por tudo que tenho, construo (construímos) e até mesmo pelo que ainda está por vir.

Enfim e em suma #sougratohoje por estar vivo e por ter a companhia, nesta jornada planetária, de pessoas que continuamente me ensinam como devemos e também como não devemos viver, ao mesmo tempo em que também tenho o privilégio de deixar um pouco de mim nessa jornada.

A felicidade e o motivo para ser feliz.
abr 21

Viktor Frankl e O Sentido da Vida

By rafaelreinehr | Medicina e Saúde , Medictando

Não é verdade que o homem, propriamente
e originalmente, aspira a ser feliz? Não foi o
próprio Kant quem reconheceu tal fato, apenas
acrescentando que o homem deve desejar ser
digno da felicidade? Diria eu que o homem
realmente quer, em derradeira instância, não
é a felicidade em si mesma, mas, antes, um
motivo para ser feliz

(Viktor Frankl)

Viktor Frankl

foi um psiquiatra austríaco que, durante a Segunda Guerra Mundial, passou por quatro campos de concentração, inclusive Auschwitz, sobreviveu e compartilhou suas experiências conosco, em um fabuloso livro chamado Man’s Search for Meaning (Em Busca de Sentido, no Brasil).

sentido-da-vida

Neste livro Frankl afirma que  é uma orientação em direção ao futuro – em direção a uma tarefa, uma tarefa pessoal, que esteja nos aguardando para ser realizada no futuro; ou alguma outra pessoa que estejamos amando, a ser encontrada novamente, a se reunir conosco novamente no futuro – isto foi o que decisivamente manteve as pessoas vivas na experiência do campo.  A questão não foi apenas de sobrevivência, mas tinha que haver uma razão para a sobrevivência. A questão era sobreviver para quê; a não ser que houvesse alguma coisa ou alguém, uma causa pessoal pela qual viver, a sobrevivência era altamente improvável.

Aplicando este conceito para nossa vida rotineira, Frankl lembra que nossa sociedade de “bem-estar social” se propõe a satisfazer e gratificar cada uma das necessidades humanas, exceto uma delas – talvez a mais fundamental que exista no ser humano: a necessidade de um significado. As sociedades de consumo, estão até mesmo criando necessidades, mas a necessidade de significado – ou, como ele costuma dizer – o desejo de encontrar um significado – permanece inatingido.

E não é isso mesmo que percebemos ao nosso redor? Pessoas cada vez mais ansiosas, cada vez mais deprimidas, cada vez mais apressadas e, ao mesmo tempo, desprovidas de um norte essencial, ou, como diz Humberto Maturana, de um “sul” fundamental. Falta um sentido para organizar todas estas atividades. Ao final do dia, cansados, muitas vezes silenciamos as perguntas que nos martelam mesmo sem sentir: “Para quê”? “Para quem”?

Se conseguimos encontrar um sentido, um algo a ser realizado para si ou para alguém e se estamos cientes disso, então ficamos fortes e aptos a sofrer, a trabalhar, a nos sacrificar e prontos a enfrentar o estresse, a tensão e as dificuldades cotidianas, sem que, fazendo isso, estejamos pondo em risco nossa saúde. Por outro lado, se não conseguirmos perceber um significado para nossos esforços, todo e qualquer dispêndio de energia pode representar um peso insuportável, gerando infelicidade e, até, enfermidades.

Em uma entrevista, Frankl relembra: “Hans Selye, o homem que criou o conceito de stress, recentemente publicou um estudo em que ele diz que o stress é o sal da vida, que o homem necessita de tensões – eu diria de forma mais cautelosa que o que ele necessita é de uma quantidade saudável de tensão. Não tensões muito grandes, nem tensões muito pequenas, mas uma dose, uma dose saudável de tensão, tal como a tensão que se estabelece em um campo polar em que um pólo é representado por um homem e o outro pólo por um significado único e específico que esteja aguardando por ele para ser realizado, e exclusivamente por ele.”

Não é possível discutir Qualidade de Vida sem antes nos aventurarmos pela investigação do Sentido da Vida. Com a queda dos valores tradicionais e universais que nos diziam o que fazer – a Igreja passa a exercer um constrangimento cada vez menor, por exemplo – muitos deixaram de saber o que tem que ser feito ou o que deveria ser feito e, algumas vezes, até o que desejariam fazer. Como consequência,  acaba-se por fazer o que outras pessoas estão fazendo (conformismo) ou então fazendo apenas aquilo que outras pessoas querem que se faça (totalitarismo). É preciso identificar, em nós mesmos e em nossos pacientes, se nos encaixamos nesta ou naquela vertente e, mais importante, precisamos “sulear”, encontrar um sentido para nossa existência.

A partir daí, todos nossos diálogos, com o outro, com a sociedade e com a Natureza, deixam de ser vazios e repetitivos e passam a ser cheios de significado, significado esse produzido pela nossa singularidade, resultado do exercício genuíno da nossa característica mais valiosa:

nossa humanidade.

Do jeito que eu queria x do jeito que eu precisava
dez 31

2014, o ano do jeito que eu precisava; 2015, o ano de entrar no fluxo

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Esse ano não aconteceu do jeito que eu queria…

Mas provavelmente, deve ter sido do jeito que eu precisava…

Essa reflexão que serviu para mim, talvez tenha servido para você também. Muitas das escolhas que fazemos não são as mais sábias, ou mesmo que sejam, não são bem compreendidas por quem convive conosco.

As mudanças que se imprimem sobre nossas vidas nem sempre são controláveis ou contornáveis: respondem a várias variáveis e são determinadas pelo ambiente, por outras pessoas, por fatos e eventos distantes e sim, uma parte delas cabe a nós determinar.

Quem acha que, a qualquer momento, tem a situação toda sob controle, ainda não sofreu com a força do vento.

Que em 2015 tenhamos a sabedoria de andar com o fluxo, de ouvir e aprender, de se aquietar mas também de irromper e agir na hora certa. Que possamos conviver com a maior dádiva que temos que é o Agora, com nosso maior presente que é o Presente. Não vamos deixar para depois…

Neste mesmo ano que me trouxe perdas e afastamentos, foi também riquíssimo em encontros, reaproximações e novas possibilidades.

Que os ventos da mudança continuem soprando e nos levem até as praias paradisíacas que só nos sonhos mais desviantes conseguimos imaginar.

Ficam os votos de um excelente início de 2015 a todxs meus amigxs, familiares e conhecidxs. As portas do Solar das Lagartixas, da Fazenda Bom Encontro e do Aconchego das Dores estarão abertas para todxs.

Um abraço fraterno, solidário e libertário,

Feliz 2015.

Rafael Reinehr

 

Sancho, a vida e ida de um cão.
dez 05

A vida e a ida de um cão

By Rafael Reinehr | Bichinhos

Hoje cheguei em casa com um pedaço a menos.

Era dia de enterrar o Sancho, meu querido golden retriever, doce, amado, inteligente e sensível cãozinho.

Cheguei em casa e precisava de conforto. Precisava encher a casa de vida. Fui pra cozinha, preparar algo para comer. Tinha que ser algo no forno, que inundasse a casa de cheiros bons. E que me permitisse tempo para organizar as outras coisas que tinha a fazer. Enchi uma taça de vinho tinto. Coloquei um som cheio de energia no toca discos. Trouxe minha cadela, a Bhali, para dentro de casa. Precisava de vida.
Hoje é quinta-feira. Cheguei em casa na segunda-feira à noite, depois de um final de semana delicioso com meus filhos, que estão morando com a mãe no Rio Grande do Sul. Quando cheguei, fui trocar a água dos cães e ver se tinham comida. A Bhali, minha labradora, feliz e agitada como sempre. O Sancho, por sua vez, estava letárgico, não quis comer nada do que lhe ofereci, mesmo petiscos deliciosos que nunca recusava. Estava vomitando com frequência, babando uma secreção espessa, branca, e dos olhos saía um pouco de secreção negra. Chequei se estavam confortáveis, abri a portinha da parte de trás da casa para que pudessem se alojar no deck. Já era tarde, pensei: primeira coisa a fazer pela manhã é ligar para a veterinária.

Foi o que fiz. Nossa veterinária prontamente foi buscar o Sancho lá em casa, e começou a investigar o que poderia estar havendo. Isso foi na terça-feira. Hoje, depois de perguntar por notícias do Sancho, recebi a seguinte mensagem:

“Rafael, infelizmente não tenho boas notícias o Sancho não resistiu e faleceu.”

Tentei manter-me tranquilo. Estava no meio da tarde, em meio a uma série de atendimentos que só viriam terminar depois das 19 horas. Solicitei à veterinária para que pudesse pegar meu cãozinho hoje mesmo, para poder enterrá-lo perto de mim, nos fundos de casa. Apesar de causar-lhe transtorno, ela se ofereceu para levá-lo para sua casa, onde passei para pegá-lo depois do trabalho.
Envolto em saco plástico preto, lá estava ele, inerte, sem vida. Meu querido Sancho, amado cãozinho que veio para nossa casa em 2008, um mês depois da Bhali, nossa amada cadela. Em 2008, casei com a Carol, e nos mudamos para uma casa no bairro Jardim das Avenidas, casa esta que chamo de Solar das Lagartixas. Ali, com um pátio bem grande, surgiu o desejo de ter um cãozinho. Veio a Bhali, sapeca e arteira e, logo, a percepção de que um irmãozinho pra ela faria bem. E chegou o Sancho, uma pequena bolinha de pêlos, lindo e, desde o comecinho, supersensível e observador. Olha só algumas fotos deles: http://reinehr.org/blog/2008/08/21/fotos-de-quinta-036-21082008/
Foram seis anos de alegrias com este cão maravilhoso, extremamente afetivo, por vezes arteiro mas que sabia quando fazia arte e já se escapulia sorrateiramente quando ouvia seu nome sendo chamado em volume alto e duro. Mas as estripulias nem se comparavam ao carinho, companheirismo e alegria com que sempre flanava por entre nós nestes anos.
Chegar em casa com meu cão em meus braços, apresentá-lo sem vida a sua irmãzinha Bhali, que o cheirou desde que chegou, enquanto ainda estava no porta-malas do carro, deixá-la percebê-lo sem vida. Vê-la passar por instantes de confusão, deixá-la acompanhar a preparação do leito no qual o Sancho viria a ser enterrado, junto à nossa antiga composteira, despedir-se dele, cobri-lo com terra e afastar-se do seu túmulo, sem olhar para trás, tudo faz parte de um ritual que nos leva ao entendimento de algo que já sabemos, mas que sempre nos traz dor: a morte é uma certeza cuja chegada é, para todos nós, incerta.
Desejaria não estar viajando tanto nestes últimos meses, para poder estar mais perto e aproveitar melhor todo o carinho de meus cães. Desejaria que meus filhos pudessem acompanhar o envelhecimento dos amiguinhos que estiveram com eles desde seu nascimento. Desejaria poder estar mais presente e, quem sabe, detectar a doença do Sancho com maior antecedência, para que desse tempo de fazer algo para salvá-lo. Desejaria que mais amor estivesse presente nesta casa, para que nosso amado e sensível cão não sentisse a falta desse sentimento que nos nutre a todos, seres vivos.
Seu corpo era frágil, sua vida material se foi. Seu espírito, esse eu sei que continua por aí, vivo, doce, feliz, sensível e incrivelmente inteligente, animando crianças e adultos onde quer que esteja. As lágrimas que agora correm em minha face são a prova de que ainda vives, e vais viver não só na minha memória mas também nas memórias da Carol, do Benjamin, do Conrado e de todo mundo que você encantou e enterneceu, Sancho amado.
Pode deixar que vou cuidar muito bem da Bhali, ela está aqui do lado, ainda sem entender muito bem tudo o que aconteceu. Acho que, para ela, ainda não caiu a ficha. Espero que possa cuidar da tristeza que ela certamente sente pela sua falta, a falta do irmãozinho querido com a qual brigava e brincava intensa e amorosamente.
Fique bem e fique por perto. Quero continuar te sentindo e sentindo teu amor por muitos e muitos anos ainda, meu cão amoroso e companheiro.

Que tenhas paz, muitos petiscos e brinquedos aí por onde andas. Te amo muito.

Com carinho,

Rafael

 

Sobre um fim. Sobre um começo.
out 27

Sobre um fim | Sobre um começo

By Rafael Reinehr | Carolina

Sobre um fim

Confesso que não gostaria de estar escrevendo estas linhas…

Por várias razões, aqui estou eu, coração sôfrego, espírito titubeante, encarando uma das tantas realidades possíveis…

 

Estas palavras são soltas no momento em que percebo que perdi a conexão com o grande amor da minha vida. Não sei se deveria apresentá-la assim, mas é assim que a sinto hoje. Sempre fui um cara romântico, mas uma série de desventuras me tornaram mais duro, e frio. E foi quando a conheci. E ela foi minha companheira amada e dedicada por muito tempo. Tivemos dois lindos filhos, que são a razão das nossas vidas.

 

A partir de hoje, precisaremos aprender a como fazê-los crescer de forma saudável e feliz, sem que estejamos os dois, ao mesmo tempo, próximos deles, como uma família. Não consigo deixar de lembrar como foi minha infância, com pais separados, passando um final de semana aqui e outro ali, parte das férias cá e outras lá. Sobrevivi, não posso dizer que tenha dado errado. Me formei, constituí família… Que se despedaçou.

 

Onde erramos? Já nos perguntamos e nem todas as respostas conseguimos encontrar e tornar claras. De todo modo, o sentimento que uma vez houve, já não existe mais. Continuo a desejar uma vida em família, mas não é este o sentimento que recebo de volta, então chegou a hora de deixar o rio fluir. Sem mais contenções, diques, desvios, barreiras…

 

Já sofri muito nos últimos meses, amigos, familiares, terapeuta, todos são testemunha da dor que tenho sentido. Tanto pela solidão quanto pela incerteza, pela falta da retribuição de afeto e pela distância. Agora preciso sair deste espaço no qual me coloquei, de sofrimento.

 

Preciso ajustar minhas respostas físicas e espirituais a um novo contexto, no qual eu possa ao mesmo tempo sentir-me calmo, contente, dedicar-me a cuidar de quem precisa, e me tornar mais uma vez criativo, em sinergia com quem sou verdadeiramente.

 

Minhas energias precisam fluir para onde são desejadas, e necessárias.

 

Espero que as escolhas que fizermos nos deixem tanto ou mais felizes do que as que faríamos ficando juntos.

 

Deixo aqui meu amor, respeito e boas lembranças, e sigo meu caminho.

Rafael Reinehr, 22 de outubro de 2014.

 

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Sobre um começo

Confesso que estou radiante por escrever estas linhas…

Por várias razões aqui estou eu, coração acelerado, espírito radiante, encarando uma de tantas realidades possíveis…

 

Estas palavras são soltas no momento em que começo a me reconectar com o grande amor da minha vida. Certamente devo apresentá-la assim, pois é assim que a sinto hoje, e sempre.

Sempre fui um cara romântico, mas uma série de desventuras que aconteceram antes de conhecê-la, me tornaram mais duro, e frio. Ela foi minha companheira amada e dedicada por muito tempo. Tivemos dois lindos filhos, que são a razão das nossas vidas.

 

Em um dado momento, precisamos nos afastar. O amor tinha dado uma pausa. Mas a partir de hoje, estamos ambos nos dedicando a aprender a deixar o amor brotar novamente, e nos dedicar a fazer nossos filhos crescerem de forma saudável e feliz, nós dois juntos, próximos deles, como uma família. Conseguimos dar a volta por cima e evitar que acontecesse com nossos filhos o mesmo que aconteceu comigo, na infância, e mais tarde, com meu amor, quando nossos pais se separaram, e tivemos que sofrer juntos. Sobrevivemos, constituímos família, passamos por uma grande crise, mas o desejo de estarmos juntos prevaleceu.

 

Como acertamos? Nos perguntamos isso e a resposta estava dentro de cada um de nós. Revisamos nossos conceitos, nossas potências, nossos desejos e devires. O sentimento que uma vez houve, não existe mais. Em seu lugar um outro, novo, a ser cultivado e desbravado, junto com a nova família que se forma. Mesmas pessoas, novas relações. Deixar o rio fluir, sem mais contenções, diques, desvios, barreiras…

 

Sofremos muito nos últimos meses, amigos, familiares, terapeutas, todos são testemunha do que passamos. Tentávamos nos acertar, mas estávamos desconectados, em frequências e intensidades diferentes. Mas precisávamos sair deste lugar que nos colocamos, de incompreensão.

 

Precisamos agora realizar ajustes finos, sabendo que estamos ali, um para o outro e para nossos filhos. Ajustando nossas posturas comportamentais e espirituais a um contexto no qual ambos sintam-se plenamente respeitados, livres para ser quem realmente desejamos ser e felizes, usando nosso carinho um pelo outro como o combustível para nos apoiar mutuamente em nossa jornada juntos.

 

Nossas energias fluirão para onde desejarmos, para onde julgarmos necessário.

 

Com a certeza de que as escolhas que fizermos nos deixarão tanto ou mais felizes do que as que faríamos ficando separados, trazemos conosco nosso amor, respeito, boas lembranças e sonhos compartilhados, e sigamos nosso caminho comum.

Rafinha, 22 de outubro de 2014

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Duas possibilidades, uma escolha.

 

O que aconteceu com o cristal?
set 28

O que aconteceu com o cristal?

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

(esta história relaciona-se com uma passagem bem particular da minha vida, e qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência).

O que falta responder?

Falta descobrir o que aconteceu com o cristal. O cristal quebrou? Ou ele está envolto em uma grossa camada de barro, oculto embaixo dela? Se quebrou, não tem como ser consertado. Não tem mais como ser “aquele cristal” de antes. Sem jeito. Se está coberto de barro, basta lavá-lo, cuidadosa e persistentemente. O barro vai sair e o cristal continuará lá, lindo e transparente.
Mas a complexidade da imaginação humana consegue, ainda encontrar mais soluções além destas duas que surgem à primeira vista (aceitar a perda do cristal ou tirar-lhe a sujeira).
Podemos adquirir outro cristal ou então, ao invés disso, podemos “remixar o cristal”. Adquirir outro cristal pode ser o caminho mais fácil. Nos desapegamos do cristal antigo e buscamos, quer seja em um antiquário ou então em uma loja qualquer, um cristal para substituir aquele que quebrou. O novo cristal é a negação do antigo. É a busca de outra história, mesmo que seja repetindo os mesmos caminhos (queremos, novamente, um cristal).
Mas existe ainda uma quarta solução, advinda da cultura japonesa, chamada Kintsugi. Kintsugi é a arte de reconstruir cerâmicas quebradas com uma resina misturada com pigmentos de ouro, prata ou platina. (Veja algumas imagens em http://www.pinterest.com/egurian/kintsugi-repaired-in-gold/). A filosofia por trás do Kintsugi nos ensina que o quebrar e reparar se torna uma parte da história do objeto, ao invés de simplesmente rejeitá-lo.
O Kintsugi pode se relacionar à filosofia japonesa do “no mind”, que encompassa os conceitos de desapego, aceitação da mudança e destino como aspectos da vida humana.
Significa respeitar e abraçar amorosamente a história do objeto, e buscar o novo através de novos caminhos – já não precisamos de um cristal perfeito, mas valorizamos a história daquele cristal que a partir de agora, é único, não mais “fabricado em série”.
Saberemos ser artesãos de nossas próprias vidas? Ou buscaremos outros cristais, outras histórias, para logo ali na frente descobrir que estamos repetindo o mesmo padrão de sempre?

A resposta encontra-se dentro de cada um, e somente cada um de nós consegue submergir e resgatá-la.

Bom mergulho!

(este texto foi escrito para uma pessoa muito especial, que está em um caminho de descoberta, compreensão e busca de si mesma, mas serve como reflexão para cada um de nós, em nossas próprias buscas pessoais)

Viena, 18 de setembro de 2014.

 

Para ser feliz, desista!
abr 07

Para ser feliz, simplesmente desista

By Rafael Reinehr | Medictando

Publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2010 na Revista DOC

Muitas vezes, a forma mais fácil de solucionar um determinado problema é não participar dele. É desistir. Desistir muitas vezes significa respeitar seus desejos mais íntimos. Significa recusar pressões sociais e tornar-se quem você realmente é. Da próxima vez que surgir um problema, desista:

–    Desista de ser legal;
–    Desista de ser alguém famoso;
–    Desista de querer ser diferente apenas para ser único;
–    Desista de tentar ser perfeito;
–    Desista de manter relações com pessoas das quais você realmente não gosta;
–    Desista de ser o centro das atenções;
–    Desista de tentar ser importante (focar na comunidade é usualmente mais engrandecedor);
–    Desista de buscar uma série de objetivos voltados ao ego;
–    Desista de se preocupar em possuir uma montanha de coisas legais, que distraem você do fato de que você não gosta do que você está fazendo com a sua vida;
–    Desista de tentar ser muito feliz todo o tempo: em vez disso, busque ser mais tranquilo;
–    Desista de ser tudo para todo mundo;
–    Desista de sacrificar sua vida atrás de um grau que lhe dê a ilusão de que você é superimportante;
–    Desista de ser ultraprodutivo, especialmente se a produtividade lhe deixa esgotado;
–    Desista de aperfeiçoar-se constantemente: muitas vezes, aperfeiçoamento exagerado nos faz perder a vista do aqui e do agora;
–    Desista de pensar que você não tem tempo ou habilidade para tornar seus sonhos realidade;
–    Desista de tentar viver conforme a expectativa de seus pais, seus amigos, seu chefe ou seus colegas;
–    Desista de ter um corpo perfeito, um rosto perfeito, ou um guarda-roupas perfeito: preocupe-se mais em embelezar sua mente e ser uma pessoa que faz belas ações.

Tentar fazer as coisas acontecerem a todo tempo cria uma ansiedade desnecessária. É estressante tentar negar aquilo que é. Quando eu desisto, aceito a vida como ela é, sem desejar que as coisas sejam diferentes. Se uma ação é necessária, eu aceito. Eu faço. Mas podemos desistir de deixar nossa felicidade depender de uma coisa ou de alguém. É interessante perceber como parecemos ter tantos problemas e tantos dilemas. A maior parte das vezes, no entanto, a resposta para resolvê-los é não fazer nada. Simplesmente desistir.

Bom… Jogar (e ler) um monte de frases soltas em tom de aconselhamento realmente é algo fácil de fazer. Transformar teoria em prática são outros quinhentos. Nossas crenças ou nossa hierarquia de prioridades pode até estar parcialmente afinada com algumas mudanças que esperamos para nossas vidas, mas daí, para tornarmos realidade aquilo em que acreditamos, seguir uma série de passos se torna necessário.

Gostaria de deixar uma pergunta e um convite ao leitor da DOC: como você faz para transformar ideia em ação? Como transladar teoria em prática? Se você tem uma boa resposta a estas perguntas, envie-a para o e-mail <medictando@revistadoc.com.br> e na próxima coluna faremos uma síntese do pensamento dos leitores, enriquecendo nosso diálogo. Até lá.

*Rafael Reinehr é endocrinologista. Idealizador e fundador da Colmeia – Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e ações altruístas

dez 31

O ano da empatia

By Rafael Reinehr | Quase Filosofia

Está no ar um grande sensação de que tem algo sobrando e, ao mesmo tempo, tem algo faltando.

A cada dia, mais e mais pessoas estão deixando de morder o anzol da máquina publicitária, que vende como ideal uma vida repleta de posses, pautada por um consumo infinito que, ao mesmo tempo, consome todo o nosso dia. Exemplos advindos dos quatro cantos do mundo mostram como é possível construir uma vida mais significativa, baseada em laços de solidariedade, apoio mútuo, confiança, empatia e gratidão.

Estamos progressivamente mais antenados com as vantagens mas também com as limitações que uma vida altamente tecnológica nos impõe. Ao mesmo tempo, temos nossas distâncias encurtadas, toda comunicação acontece de forma extremamente rápida. O mundo em uma casca de noz. Ao mesmo tempo, a hiperinformação nos deixa mais confusos e estabanados do que nunca. Não sabemos como processar tantos dados e estímulos. Estamos sofrendo de fadiga de escolha. Todas as escolhas que aqueles que dizem nos governar tem sistematicamente feito, não tem ajudado a reduzir a injustiça, a violência, a opressão e a desigualdade e, em alguns casos, tem feito aumentar. A percepção deste “abandono” por parte das instituições oficiais, que estão mais preocupadas em se autogovernar e se autossustentar do que prover as necessidades – mesmo as básicas – à população que outrora nelas confiava, tem gerado uma “corrida às montanhas”, uma busca de alternativas por parte de um grupo de pessoas que não irá esperar o barco afundar para depois telefonar de seu micoPhone encomendando um par de salva-vidas furado da China.

Estas pessoas estão se organizando em coletivos, movimentos, redes e grupos de afinidades através das planícies, colinas e urbes. Estão decididamente criando novas-velhas formas de se relacionar, baseadas em uma série de princípios libertários, que negam a opressão, a dominação e a hierarquia para fundar uma nova base, horizontal, colaborativa, empática e entremeada pela confiança mútua, há muito perdida na sociedade contemporânea. Este retorno a práticas ancestrais precisa ser celebrado.

Junte-se a nós no Solar das Lagartixas para um jantar e potluck comunal. No dia 22 de janeiro iremos cozinhar um jantar vegano simples, mas encorajamos outros a trazerem coisas para comer: frutas, vegetais para cozinhar ou comer crus, pães e queijos, vinhos e sucos, sobremesas ou o que desejar.

— Será um momento para compartilhar alguns momentos juntos, fora dos espaços nos quais nos encontramos sempre instrumentalizando, profissionalizando e racionalizando nosso tempo, relações, decisões e vidas.

— Um tempo para comer, falar, encontrar uma o outro, para diretamente se contrapor à fragmentação social, individualismo e solidão que vemos em qualquer lugar para o qual olhamos.

— Para nos mover em direção a nos sustentarmos coletivamente fora das nossas relações individuais com o mercado e o estado; para conquistar uma maior autonomia material coletivamente Isso significa iniciar e prosseguir com uma série de práticas e relações; ser consistente e confiável; estabelecer uma fundação forte para uma nova forma de vida. Isso é parte de uma estratégia para resistir ao que nossas vidas se tornarão se não nos organizarmos.

Nós queremos uma política que leve a sério nossa prória realidade como base para a auto-organização. Uma política que reconheça que se organizar coletivamente ao redor das nossas necessidades com amigos, camaradas, amantes, vizinhos, colegas de trabalho e membros da família se tornará a base para as nossas comunas. Nossa habilidade de sobrepujar a degradação trazida pela atual crise social, política, econômica e ambiental se dá na medida da nossa capacidade para sermos solidários e do nosso desejo em estarmos auto-organizados.

Em 2014, mostraremos que nossa capacidade de comunicação e articulação está mais vicejante do que nunca. E é só o começo.

22 de janeiro de 2014, 20 horas
Solar das Lagartixas
Rua Sergipe, 339
Jardim das Avenidas
Araranguá – SC
(Sacola mágica estará recebendo contribuições espontâneas para a Coolmeia)

Ou em qualquer local e horário perto de você. Inspire-se: conspire!
Referências:

 Referências:  1. Inspiração para convite: jantar de solstício do The Base, NY - dezembro de 2013 2. BAUWENS, M. - Reestruturando a economia com a empatia em seu centro  - bclog.p2pfoundation.net/restructuring-the-economy-with-empathy-as-its-center/2013/12/29 3. Center for Building a Culture of Empathy - http://cultureofempathy.com/