Jan 05

Das delícias de preparar um pôust

Não sabia se escreveria em prosa

Ou ousaria tentar em poesia

Este pôust que versa sobre as delícias

Proporcionadas pela nova tecnologia

Decidi fazer uma mistura

Entre essas duas formas de escrever

Para tentar mostrar a quem lê

Como um blógue pode nos dar prazer

O bom blogueiro é um grande comentador. Pega o mundo, seleciona os principais ingredientes, coloca-os em um caldeirão e com temperos tirados de sua bolsa mágica de idéias cria pratos magníficos para alimentar e deliciar seus interlocutores.

Delícia que podemos comparar a um prato no seu sentido real, a uma música recém-composta e cheia de viço , a um quadro ou escultura cuidadosamente criados e saborosos de ver. Há também, é claro, aqueles feitos com desleixo, sem preocupação alguma com transferência de conhecimento, geração de informação estética ou ética e acabam por ser unicamente depósitos de acontecimentos do dia-a-dia, com relativamente pouco valor.

Neste mundo interessante

Que reúne iniciantes e iniciados

Existem blógues com muito humor

E outros mais embotados

Muitos versam sobre cinema, música e teatro

Outros sobre política, democracia e anarquia

Outros ainda sobre esportes

Tantos mais obre filosofia

E assim seguem os muitos

Sobre assuntos sem fim

Nesta mixórdia que agrada

A ele, a você ou a mim

O fim da residência médica e a perspectiva que se abre

Em 31 de dezembro último acabei minha residência médica em Endocrinologia e Metabologia, concluindo uma etapa de 10 anos dedicados majoritariamente à Medicina.

A formação do médico exige grande dedicação tanto no que se refere ao tempo diário necessário dispensado quanto ao cuidado e responsabilidade sobre aquilo que ele pretende lidar: a saúde e a vida de seres humanos.

A responsabilidade necessária requer uma personalidade apta a lidar com as demandas que ocorrem na vida de um médico, que deve estar pronto a cada – e em todo – momento para realizar sua tarefa. O tempo necessário para chegar à tranqüilidade de poder oferecer a cura para parte, alívio para muitos e o conforto para aqueles onde a Medicina ainda não chegou é definitivamente extenso.

O conhecimento técnico necessário para uma boa prática médica é volumoso e, nos dias de hoje, cresce assustadoramente e já se encontra fora do controle mesmo do mais dedicado profissional. Esse problema pode ser resolvido a contento mantendo-se atualizado através da leitura dos principais periódicos da área (que “resumem” as grandes novidades em suas páginas) e freqüentando Congressos médicos.

Aqui, defendo a necessidade de uma especialização para manter o atendimento primoroso de meu paciente. De outra forma, é impossível açambarcar o novo conhecimento gerado e proporcionar a forma mais rápida e precisa de diagnóstico e a terapêutica mais resolutiva e isenta de efeitos colaterais. Com isso, veja bem, não estou dizendo que só devam haver especialistas, PELO CONTRÁRIO!

A porta de entrada no sistema de saúde deve se realizar através de capacitados médicos generalistas, aqueles que sabem “um pouco de tudo” e conseguem resolver satisfatoriamente pelo menos oitenta por cento dos problemas de saúde que encontramos atualmente. No caso de encontrarem dificuldade, saberão qual o melhor especialista ao qual encaminhar.

Mas a questão chave de todo meu discurso inicia agora, justamente fundamentada em duas leituras que realizei durante a faculdade de Medicina: a “especialização ou fragmentação do conhecimento” e a falta da religação dos saberes abordados por Fritjof Capra e Edgar Morin.

Em todas áreas, a ciência fratura o conhecimento em pedaços cada vez menores, criando especialistas que sabem cada vez mais de cada vez menos. Tem em suas mãos, ao final, um pequeno mundo sob seu domínio que é incomunicável aos “outros mundos” dominados por seus colegas de outras áreas do conhecimento. Foi criada uma quase total incapacidade de se conhecer o mundo como um todo. Desmontamos o relógio, conhecemos a função de cada uma de suas peças mas não conseguimos mais montar o relógio e faze-lo funcionar!

Muitos de nós, ainda inspirados pelo pensamento cartesiano que nos foi imposto goela abaixo durante o ensino fundamental só consegue ver o mundo como uma caixa fechada onde os interruptores de luz só podem estar em duas posições: ligada ou desligada. O que temos dificuldade em perceber é que, este mesmo interruptor pode estar na posição “ligado” e a lâmpada queimada não irá acender; pode estar na posição “desligado” e um circuito cruzado por um inseto faz a lâmpada acender; ou, ainda, pode ocorrer da chave seletora ficar no meio do caminho, presa por uma “sujeirinha” e a lâmpada acender ou não. Assim é o mundo real: complexo e não composto de variáveis que podemos determinar em sua totalidade a todo instante.

É aí que entra a magia da arte!

Perceber este mistério, esta necessária incompletude que a Natureza e o real nos impõe e tratar de “nos completar em união à essência primeira” é um dos nossos principais objetivos. Nos dar conta das interrelações entre todas as coisas e percebermos que todas as coisas são Um é fundamental para que possamos lidar de forma verdadeira e justa para com os semelhantes e para com o mundo.

Assim, dada uma brevíssima introdução a minha forma de pensar esta Natureza que compartilhamos, posso voltar ao tema que me propus.

Como já disse, é findo um ciclo: o de aprendizado técnico intensivo, científico da Medicina. A busca furiosa e incessante de meus colegas cientistas médicos, físicos, químicos, biólogos não vai parar – e eu agradeço por isso. A mim cabe, de forma a otimizar meu tempo disponível, encontrar um local que sintetize este conhecimento e me ofereça de forma parcialmente digerida para que eu possa seguir tratando meus pacientes da forma mais “up to dated” possível.

Finalmente poderei dedicar-me de forma mais intensa àquilo que descobri ser peculiar à minha essência ( e que fica mais forte à medida que o tempo passa): o estudo das humanidades e tudo que lhes diz respeito: sua arte, sua forma de relacionar, sua produção econômica, política e social, sua cultura enfim. Já me dediquei a isso de forma incipiente durante a faculdade de Medicina em cursos realizados espontaneamente e através de leituras afins. Durante meu primeiro ano de especialização em Medicina Interna, em 2000, acabei prestando vestibular para Filosofia e cursei as cadeiras disponíveis deste que era um curso diurno. Ao término do semestre, sem mais cadeiras com horários compatíveis, pedi transferência para as Ciências Sociais, que, apaixonado, cursei por três semestres, até a ganância – entenda-se trabalhos noturnos remunerados em plantões e atendimentos ambulatoriais acabaram por suprimir.

Agora, tenho por certo que nos anos vindouros, contando a partir deste, poderei utilizar parte mais substanciosa do meu tempo à leitura de obras há tanto enfileiradas como fundamentais em minha longa lista de espera; poderei dedicar-me com mais afinco à pintura, negligenciada por tanto tempo; dedicar-me-ei mais à música tanto na apreciação quanto na composição ¿ o que já realizo há mais de 10 anos e ficou em segundo plano neste tempo todo; poderei quem sabe incursionar com mais vigor no reino da sétima arte, pondo em prática roteiros escritos e guardados na gaveta; destinarei parte do tempo para o cuidado com meu corpo, receptáculo material do meu intelecto, que me dá liberdade de ir e vir em busca de minhas conquistas e garante o pão que como e que meus filhos comerão; invadirei com ímpeto o mundo da fotografia, para o qual estou prestes a fazer um grande investimento para aquisição da máquina, lentes e material adequado para meus propósitos; seguirei mantendo o Simplicíssimo como uma porta de entrada para novos escritores e seus escritos; tratarei de organizar juntamente com o Eduardo Sabbi e o Milton Ribeiro um Sarau Literário em minha cidade, onde novos escritores poderão dar asas a sua produção e mostrar em público sua obra; seguirei minha missão de buscar solucionar os problemas do corpo em meus pacientes – sempre com a clara noção de que não posso dissociar uma célula de seu órgão, um órgão de seu corpo e seu corpo do meio social onde este vive, nem tampouco de sua produção subjetiva; deixarei o espírito aberto para que novas possibilidades de criação se aproximem e tenham seu lugar em minha vida.

Portanto, 2004 aponta para mim uma nova perspectiva, um horizonte fantasticamente repleto de atividades culturais e incrivelmente fértil em produções artísticas. Vinde a mim 2004!

A impossibilidade do SUS (parte I de II)

O SUS (Sistema Único de Saúde) brasileiro é uma grande utopia que já dura mais de 16 anos.

Nosso sistema de saúde é baseado em vários princípios básicos, sendo dois deles fundamentais: o da UNIVERSALIDADE e o da INTEGRALIDADE.

O princípio da UNIVERSALIDADE prega que todo e qualquer cidadão brasileiro tem direito de acesso gratuito à saúde e o princípio da INTEGRALIDADE diz que esse acesso deve ser irrestrito desde a consulta médica mais simples, até o exame diagnóstico mais elaborado e o tratamento mais complexo e caro disponível.

Tais princípios – e vou me ater somente a eles pois já provam meu ponto de vista – são bloqueados por alguns aspectos que discutirei agora.

O primeiro deles diz respeito à distribuição dos médicos pelos diferentes espaços do país. Todos sabemos que há médicos de todas especialidades sobrando nos grandes centros ao mesmo tempo em que há carência em muitas cidades do interior ou zonas rurais, causando o “fenômeno da multiplicação de ambulâncias e vans”, no qual grande parte da verba de um dado município é destinada não a programas de assistência à saúde no próprio município mas na compra e manutenção de veículos e serviços de assistência social para organizar o transporte de enfermos para cidades vizinhas (o que é muito mais barato) – sobrecarregando assim a rede pública do outro município.

O segundo aspecto diz respeito a este mesmo assunto: há insuficiência de leitos em hospitais de assitência secundária e terciária à saúde em praticamente todas as capitais, sem citar leitos de Unidades de Tratamento Intensivo adultos, infantis e neonatais.

Devido a essa mesma falta de especialistas nos locais afastados dos grandes centros foi criado um sistema de encaminhamento onde o paciente da Unidade de Saúde periférica é encaminhado, através de um gerenciamento centralizado das consultas, para consultar nos locais onde existem estes profissionais. A questão permanece: pela insuficiência de profissionais contratados – ou pela grande demanda, você quem escolhe o ponto de vista – acabam agendando consultas com espera de 6 meses ou mais para várias especialidades.

Existe ainda outra questão fundamental que devemos abordar: a insuficiência do dinheiro destinado à saúde.

Ano após ano os custos com despesas de saúde aumentam, quer seja pelo surgimento de novas tecnologias e métodos que se tornam necessários para o melhor diagnóstico das enfermidades ( e que não substituem e toa somente acrescentam ônus aos exames anteriores ) quer seja pelo custo dos tratamentos com novos fármacos que já surgem com preços exorbitantes para compensar os custos da pesquisa farmacêutica.

Nem mesmo grandes potências e países considerados desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e França conseguem manter um sistema de saúde público universal e integralmente gratuito. Não há disposição humana nem condições financeiras para sua manutenção.

Daí, surgiu a idéia para um novo SUS, melhor estruturado e pago, conforme as condições de cada usuário, ferramenta inclusive para uma melhor distribuição de renda no país, assunto já parcialmente abordado por mim no Editorial da edição número 34 do Simplicíssimo* e tema da parte II deste pôust.

* A propósito das auto-citações: quem me acompanha aqui no Escrever Por Escrever deve ter percebido que sou afeito a auto-citações. Tenho consciência que as mesmas são, senão forma de auto-promoção pelo menos uma ferramenta utilizada por alguém que escreve mais do que lê e muitas vezes acha que saba mais do que na realidade sabe. Tratarei de corrigir isto durante o ano, intensificando minhas leituras.

É mister também que evitemos extensas e cansativas citações, que muitas vezes tentam demonstrar um nível adquirido de cultura que soa brutalmente pegajoso e é desnecessário. Podemos fazê-lo para evitar injustiças quando nos utilizamos da obra de outrem, mas nunca de forma proposital para inflarmos as percepções de outros a nosso respeito ou para tentar induzir um proselitismo demasiada. Todos, de uma forma ou de outra, tentamos catequizar nossos leitores – espertos que somos – mas não devemos levar isto a extremos que ultrapassem a simples sugestão de uma idéia.

Também pretendo daqui para frente limitar o uso das mesóclises, com as quais inadvertidamente indiquei um nível de controle da língua portuguesa que não tenho. Quando as utilizar, tenham por certo que será por questão de estilo e estética e não uma busca constante de um linguajar culto necessariamente (puta que o pariu!).

Bem, é isso. Creio que o excesso de tempo livre neste “fim-de-semana prolongado” me deixou deveras prolixo. Tentarei me conter nas próximas ocasiões!

PRÒXIMOS PÔUSTS: “A impossibilidade do SUS” (parte II de II) e “Uma Tentativa de uma Breve Análise Sócio-Psicológica das Letras de “Admirável Chip Novo”, “Máscara”, “O Lobo” e “Do Mesmo Lado”, de Pitty”

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