A Pré-História do Escrever Por Escrever – Joe Volume

By rafaelreinehr | Uncategorized

Abr 26

Hoje pela manhã estava fuçando em arquivos antigos de uma pasta chamada “O Passado está Aqui” que tenho em meu HD e me deparei com alguns textos que me renderam muitas gargalhadas.

Em uma pasta chamada Joe Volume, encontrei os primeiros rabiscos de um projeto de uma espécie de “jornalzinho” ou fanzine, que, sem saber, seria o avô deste Escrever Por Escrever.

O Joe Volume foi idealizado em julho de 1998 mas a primeira edição só saiu efetivamente em grande escala (10 impressões em HP Deskjet 695C) em julho de 2000.

Sempre fui muito autocentrado. Naquela época então, meu umbigo era meu universo. Tínhamos uma banda chamada The Brains, que era a chamada principal da capa. Nem havíamos gravado nosso CD ainda, mas já pensávamos em espalhar as fitas-demo (em uma época em que elas ainda eram usadas) mundo afora.

Em julho de 2000 saiu então a primeira edição impressa, com textos que estavam guardados desde 1998, acredite quem quiser! O objetivo do e-zine era ser impresso por conta própria, xerocado, lido por quem tivesse interesse e/ou passado adiante para quem pudesse ter. Eu imaginava que alguém poderia ter interesse nas minhas viagens.

Sinceramente, creio que também não estava muito preocupado na aceitação do fanzine, mas muito mais no próprio processo criativo e nos benefícios que ele me trazia.

Aí embaixo vemos a primeira página do fanzine, que foi originalmente impressa em folha tamanho carta e distribuida entre amigos e conhecidos.

Na mesma época, em 3 de junho de 2000, surgia o Escrever Por Escrever “Versão HD”. Na ocasião eu tinha um Notebook que comprei com dinheiro da minha bolsa de iniciação científica. Dois anos inteiros guardando e ainda tive uma ajudinha de minha tia Solange. Naquele Toshiba modelo não me lembro qual, brotaram as primeiras palavras que, em forma de diário, levariam à criação do Escrever Por Escrever como vemos hoje. As primeiras palavras escritas fazem até hoje o título introdutório ao site (transcrevo na íntegra os primeiros 2 dias do “Escrever Por Escrever em HD”

{03/06/2000 – Sábado – 23:28}

Certo dia ouvi dizer, em uma aula de Introdução à Filosofia que houve um certo escritor grego que escrevia cerca de 500 linhas por dia. Ao final da vida, havia escrito cerca de 700 livros. Bem, quanto à qualidade de seus escritos, não ponho a mão no fogo mas, certamente, foi esta uma idéia interessante! Há algum tempo já havia me surgido a idéia de escrever um livro que tratasse de assuntos de interesse da maioria das pessoas, como convívio social, política, bem-viver, virtude, justiça, sentido da vida e de nossas ações e humanismo em geral. Depois de vários textos isolados escritos e arquivados em meu computador, peguei a idéia daquele escritor grego e resolvi escrever um pouquinho todos os dias, de forma contínua, sem correções posteriores ao texto já escrito, mas com a possibilidade de corrigir informações ou idéias em novos escritos subseqüentes. Com certeza meu objetivo não é escrever 500 linhas por dia, mas apenas aquilo que minha criatividade ou a necessidade de expressar ou deixar registrado exigisse. Assim foi que surgiu este (para você que está lendo o livro pronto, se é que isto se tornou um livro) livro: repentinamente e ao mesmo tempo muito aos poucos. Hoje tive a idéia de colocar a data em que escrevi cada passagem e também o horário de começo e de término do escrito. Acho que isso pode ser interessante para quem ler, pois dará a noção de tempo e, quem sabe, de história, já que pretendo relatar junto com minhas idéias, leituras, citações e demais rabiscos alguns acontecimentos cotidianos atuais, tanto meus como de outras pessoas, pessoas que fazem a história.

Acho que uma coisa interessante a fazer no princípio desses meus escritos é localizar o leitor sobre quem está com ele conversando (prometo que a minha biografia será curta [pelo menos nesse momento!]). Meu nome é Rafael Luiz Reinehr, nasci na cidade de Agudo, Estado do Rio Grande do Sul, na Região Sul do Brasil, maior país da América do Sul (e, dizem alguns, país emergente do ponto de vista econômico [agora até quer fazer parte do G8!]). Estudei lá na minha cidadezinha até os 14 anos, quando vim para Porto Alegre para fazer o segundo grau e aumentar minhas chances de entrar na faculdade via Vestibular. Entrei em meu primeiro Vestibular na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, concluí a faculdade, passei no concurso de residência médica no Hospital Nossa Senhora da Conceição e agora estou trabalhando como residente de primeiro ano nesse hospital. No começo desse ano prestei novo Vestibular, desta vez para Filosofia e, mesmo sem estudar nada relativo ao meu ensino primário e secundarista, passei em 5o lugar, novamente na UFRGS. Agora estou cursando 2 cadeiras deste curso nos fins-de-tarde de Segunda a Quinta-feira. Além disso, gostaria de deixar expresso aqui o meu gosto pela música. Tenho uma banda chamada The Brains, e estou tentando aprimorar meu conhecimento e habilidades musicais. Bom, chega de autobiografia por enquanto.

Bom, tenho que escolher um assunto para começar a falar. Estou aqui no meu quarto deitado na cama de lado, me arriscando a desenvolver uma escoliose, teclando em meu Notebook com a televisão ligada em um canal brasileiro. Isso me traz uma impressão que gostaria de deixar registrada: a falta de uma maior programação cultural e educativa em nossa televisão, que atualmente se baseia em programas de auditório com animadores, apresentação de artistas musicais, de telenovelas, programas que apresentam escândalos e besteirol dos mais variados tipos. É rara a quantidade de programas com uma qualidade mínima que nos traz alguma informação ou mensagem útil ou ao menos não agressiva e fútil. Não que eu não goste de programas divertidos, que dêem prêmios aos participantes e que tenham apresentações artísticas de qualquer forma, mas esses que aí estão, além se serem em número excessivo e ocuparem a parte nobre da programação, são vulgares e de muito mau gosto. Uma coisa que é importante ser dita agora e vale para todas as coisas que escreverei daqui para diante é que tudo isso trata-se apenas de uma opinião pessoal e não necessariamente corresponde ao que é verdadeiramente bom, verdadeiramente belo, verdadeiramente justo e verdadeiramente verdadeiro. Esse conjunto de verdades é o que estou (entre outras coisas) buscando. Mas não se esqueçam que tenho 23 anos e não sou nenhum mestre chinês ou lama tibetano, por isso não aspiro conhecer a verdade sobre as coisas, ainda mais agora! {04/06/2000 – Domingo – 00:32}

{04/06/2000 – Domingo – 19:50}

Chega de falar em televisão por enquanto mesmo porque, lendo hoje o que eu escrevi nessa madrugada não fiquei muito contente. Acho que não consegui expressar em minhas palavras o que penso. Já estou sentindo o cheiro de um hambúrguer que minha mãe está fazendo lá na cozinha. Faz cerca de 2 meses que estou morando com minha mãe novamente, depois de 6 anos em que morei sozinho. Agora ela se separou do meu padrasto e então, dei o meu apartamento para ele para podermos ficar com esse apartamento no qual estamos agora, que é bem melhor. PS: daqui a pouco, quando chegar minha janta, vou interromper meus escritos, mas volto logo a seguir…

Acho que não preciso ficar dando essas justificativas… Se for analisar bem, acho que só escrevi aquele “PS” para justificar porque, provavelmente, escrevi/escreverei tão pouca coisa em tão pouco tempo. Não vou mais fazer isso (muito) daqui para a frente.

Uma pessoa que admiro bastante hoje em dia é Luís Fernando Veríssimo. É incrível como ele consegue transmitir tanta espirituosidade em suas crônicas, opiniões e colunas – e com tanta inteligência. Acho que ele é, de certa forma uma inspiração para mim. Outra pessoa que esses dias descobri que escreve muito bem seus pensamentos é o Tarso Genro. Em um Zero Hora de outro dia, ele escreveu com muito sentimento sobre um passageiro de ônibus que solicitou ao motorista que parasse o ônibus, desceu e ajudou um velhinho (ou velhinha) que queria atravessar a rua em uma esquina movimentada. Incrível como de uma simples observação corriqueira do dia-a-dia se consiga escrever sobre sentimentos tão profundos como a fraternidade, altruísmo e compaixão.

Por que muitas pessoas são más? Ou melhor: por que tantas pessoas são más intencionalmente? Será que elas leram “A República” de Platão e simpatizaram com as idéias de Trasímaco que dizia que a virtude, a moral era justamente o contrário do que bom-senso o determina? Para ele, o que fazia um homem virtuoso era a esperteza, a fraude, a vitória pela força, pela trapaça, pois só esse tipo de homem realmente se dá bem na vida. Você compartilha dessa forma de pensar? Eu não. Volto a falar mais sobre isso outra hora.

Amanhã vou começar a ler a “Crítica da Razão Pura” de Immanuel Kant pela terceira vez. Dessa vez eu vou até o fim! Além desse livro, também estou lendo “Por que ler os Clássicos” de Ítalo Calvino e “Os Analectos” de Confúcio. Acho que uma coisa interessante que eu poderia fazer era tecer alguns comentários sobre trechos que eu achasse interessante desses livros. Vou fazer isso!

Uma coisa interessante em relação a Confúcio é a sua extrema atualidade, sua modernidade. Apesar de ter vivido de 551 a 479 a.C., suas mensagens políticas e humanas são mais do que aplicáveis aos nossos dias. Deixe-me incluir algumas coisas que constatei das leituras dos capítulos 1 a 4 do seu “Os Analectos”:

Montesquieu, no século XVIII, desenvolveu noções que recuperaram o ponto de vista de Confúcio de que um governo de ritos (bom senso, costumes) é preferível a um governo de leis; Montesquieu considerava que um aumento da atividade de promulgação de leis não era um sinal de civilização mas, ao contrário, indica um colapso da moralidade social. É sua a famosa afirmação: “Quand un peuple a de bonnes moeurs, les lois deviennent simples” [Quando um povo tem bons costumes, as leis se tornam simples].

Segundo Confúcio, um rei lidera por seu poder moral {lembrar Thomas Hobbes  contrato social}. Se ele não consegue oferecer um exemplo moral, ele perde o direito à lealdade de seus ministros e à confiança de seu povo. O trunfo último do estado é a confiança do povo em seus dirigentes: quando essa se perde, o país está condenado.

Na China, por mais de 2000 anos, existiu o governo dos eruditos, onde o império era dirigido pela elite intelectual, elite essa que tinha acesso ao poder político através de exames do serviço civil, aberto para todos. É interessante notar que esse foi o sistema de governo mais aberto, flexível, justo e sofisticado conhecido na História até hoje.

“O importante não é a pessoa acumular informações técnicas e habilidades especializadas, mas desenvolver sua própria humanidade. Educação não se refere a ter, mas a ser”.

“Guia-o por meio de manobras políticas, contém-no com castigos: o povo se tornará dissimulado e desavergonhado. Guia-o pela virtude, contém-no pelo ritual: ele desenvolverá um senso de vergonha e um senso de participação”

“O membro da elite moral prega apenas o que pratica. Ele considera mais o todo do que as partes. O homem pequeno considera mais as partes do que o todo.”

“Estudar sem pensar é fútil; pensar sem estudar é perigoso”

“O membro da elite moral busca a virtude; o homem pequeno busca terra. O membro da elite moral busca a justiça; o homem pequeno busca vantagens.”

Quando ler mais, comento mais essa e outras obras que nossos governantes e legisladores não leram ou leram e esqueceram… {04/06/2000 – Domingo – 21:26}

Esse foi, para mim, certamente um grande passo na organização de meus pensamentos. Me ajudou a me colocar de volta na rota do mundo. Me fez sentir realmente trilhando um caminho. Seguindo uma meta. Ali, no Escrever Por Escrever, eu poderia despejar toda minha crítica, meus sentimentos, dúvidas, aprendizados, questionamentos e novos conhecimentos adquiridos, criando uma espécie de Painel Rafael Reinehr.

E assim foi, até 24 de setembro de 2002, uma terça-feira, o dia do último registro no “Escrever Por Escrever no HD”. Era o fim? Ainda não…

Um mês depois, em 25 de outubro de 2002, surgia o e-zine Simplicíssimo. Um projeto não mais de um, mas de vários. Dizem que duas cabeças pensam melhor do que uma, então por que não várias cabeças pensando consoante ou mesmo dissonantemente?

O começo foi difícil, ô se foi. Difícil fazer com que as pessoas mandassem textos com a regularidade exigida. Acabou acontecendo que nas primeiras edições, a maior parte dos textos eram meus. Hoje acho extremamente divertido voltar lá naquelas primeiras edições e ler os textos que escrevíamos. Muitos continuam tendo um grande valor, pois são atemporais. Outros, nem tanto!

O sítio permaneceu como e-zine, sendo enviado a uma lista que começou com amigos, depois amigos de amigos e finalmente com desconhecidos que passaram a “assinar” o e-zine e recebê-lo semanalmente. Em 26 de junho de 2003, finalmente, surgiu o site do Simplicíssimo. Era a edição de número 29 do e-zine.

Olhando para trás: 3 comentários em 1 dos textos. Nos demais, zero! Claro que na época nem tínhamos sistemas de comentários. Acho que eles foram criados lá pela edição de número trinta e poucos, mas isso não vem ao caso.

Dois anos e meio de e-zine, quase 2 anos de site. E uma história inteira antes disso. Daqui pra frente, algo em vista?

Com certeza! Os próximos 2 meses estão preparando muitas mudanças. O Simplicíssimo vai mudar de casa, o Escrever Por Escrever vai mudar de casa… Já antecipo, está ficando tudo um brinco!

Quando estréia a “nova casa”? Hehehe! Primeiro de Julho, é claro!

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