Posts made in janeiro, 2004



Publicado Por em jan 27, 2004

Hoje é dia de crítica cinematográfica. Deixei de comentar 21 gramas e Adeus Lênin vistos no cemeço do ano, mas não vou deixar passar esses dois:

O sorriso de Mona Lisa

Bom filme. Sei que não se começa uma crítica assim, mas isso é passado e vamos logo às explicações.

Ìamos ver “O último Samurai” e, por decisão de minha namorada, que ouvira falar deste filme -onde uma professora vai a um colégio conservador e tenta mudar suas alunas-, decidimos – juntos – assisti-lo prioritariamente (sem muita expectativa, como é de se esperar e como deveria ser, para evitar grandes tombos – todos já aprendemos!).

Depois do início lento do filme, característica imanente de grande parte dos dramas, passamos a perambular por nuances humanas de várias gradações: encontramos o protótipo da mulher ideal da sociedade norte-americana da década de 50, jovem casada com sua dedicação total ao matrimônio; a jovem solteirona “que ninguém quer” que encontra seu amado e os percalços de sua vida de recém-amante; a jovem fácil e fogosa que além de apaixonada pelo professor faz de sua vida um jogo com vários homens; a brilhante jovem que tem sua chance de seguir carreira naquilo que escolheu mas deixa o sonho de lado pela imagem idealizada de um futuro com marido e filhos; e a professora subversiva – Julia Roberts – inicialmente encantada com toda pompa e circunstância da escola Wellselley e depois desiludida pelo excesso de rigidez e conservadorismo, ao descobrir que a escola não formava líderes e seres pensantes, mas sim boas donas-de-casa.

O ponto chave do filme certamente diz respeito ao título do filme ( poderia ser diferente?) em que é feito um questionamento de suma importância: o que importa realmente: o que somos e sentimos ou o que parecemos ou demonstramos sentir? Através do sorriso do quadro Mona Lisa, desenvolve-se uma crítica àquela sociedade estabelecida, onde as mulheres submetiam-se aos desejos da sociedade machista – com o auxílio mesmo de suas mães – sendo muitas vezes o retrato de uma mulher que, em público, transparecia satisfação quando em verdade, em sua vida íntima, estava quebrada em fragmentos. Seu ser desejante era impiedosamente massacrado pelo estabelecido e pouco restava de sua essência.

Mona Lisa estará sorrindo ou parece estar sorrindo? Somos realmente aquilo que demonstramos ou também usamos máscaras?

Bom filme.

Eu fui ver ” Mansão Mal-Assombrada”!

Era uma quinta-feira comum, a não ser pelo fato de que pela manhã iria trabalhar em Novo Hamburgo, das 10:00 às 14:00 e à tarde seguiria para São Leopoldo, cidade vizinha, para trabalhar das 16:00 às 20:00.

Por um desejo macabro não consigo imaginado e impetrado por quem, acabaram por não marcar meus pacientes em Novo Hamburgo. Pronto! Era só o que faltava! O que faria eu das 10:00 às 15:00? Voltar para Porto Alegre? Com o absurdo preço da gasolina? Nem pensar! Só havia uma solução: atravessar a rua e me esbaldar no Shopping Center. Foi o que fiz.

Depois de perambular por todo shopping, cansei os olhos e as pernas. Afinal de contas, meus cromossomos são XY e não XX (estes últimos conferem uma resistência absurda para longas aventuras em locais como shopping-centers, feiras de fábrica ou qualquer lugar onde estejam expostos roupas e sapatos). Comprei algumas revistas e resolvi sentar na Praça de Alimentação, para ler e esperar a fome chegar. Com a fome, veio uma idéia: por que não comer algo e passar as próximas duas horas no cinema, assistindo um filme? Boa idéia! Lá fui eu!

Almocei e me dirigi de pronto em direção ao cinema. Para meu pesar, só poderia assistir a um filme que estava sendo exposto no horário das 13:00: Mansão Mal-Assombrada. Ei, mas espera aí: comédia com Eddie Murphy! Deve ser bacana! (até aquele momento, não havia visto ou lido nenhum comentário acerca do filme, e fui com tudo comprar meu ingresso!).

Comprei meu ingresso, uma pipoquinhas e refrigerante e, quando faltavam dez minutos para o filme fui para a fila. Na fila, começou a bater o pavor. Na minha frente, meia dúzia de pré-adolescentes entre 12 e 13 anos. Atrás de mim ia se formando uma fila parecida, com exceção de um casal de jovens adolescentes entre 16 e 17 anos. Começou a vir um calor, que depois se transformou em frio e percorreu toda minha espinha, alojando-se em algum lugar entre a boca do meu estômago e minha testa, não podia definir bem.

A moça que pega os ingressos começo seu trabalho. Naquele momento, caminhando em direção à sala de cinema, me sentia qual gado indo para o matadouro. Já nem pensava mais no dinheiro gasto nem no tempo perdido, apenas na minha burrice. Note-se aqui uma forte carga de preconceito e também uma expectativa negativa criada pelo público assistente, diferente do meu grupo etário.

Para meu alento, vi entrarem na sala mais 3 adultos, sendo que um era um gigante que entrou com aqueles kits de pipoca gigante e refrigerante gigante (sozinho) e mais duas senhoras que acompanhavam suas filhas. O que ainda me deixava (um pouco) tranqüilo é que o filme tinha censura (12 anos, mas tinha!).

Quanto ao filme, bem, não foi tão ruim assim, mas, a não ser que realmente não tenha mais nada a fazer, não assista. Explico: quase não damos risadas, não é nem um pouco engraçado para um filme com Eddie Murphy e classificado como comédia além do mais, conta uma história decididamente esgotada por contos de fadas e histórias mil que ouvimos desde a infância.

Não cheguei a entrevistar criança alguma na hora da saída, mas não havia nem empolgação quanto menos excitação nos seus olhos ao sair da sala de cinema. Mas, colocam dinheiro fora em tanta coisa, não é mesmo Melhor que seja com algo que se aproxime de cultura. Mastigada, repetida e normalizada, mas cultura.

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Publicado Por em jan 22, 2004

São Paulo: 450 anos

Ao comemorarmos os 100 anos de algo ou alguém, nos referimos ao seu centenário, assim como ao completarmos 150 anos temos o sesquicentenário. Com 200 anos, comemoramos o bicentenário. Mas e com 450 anos?

Creio que na Língua Portuguesa brasileira não há denominação para utilizar nestas ocasiões. Seria quadrisesquicentenário (ou isso seria referente a quatro períodos de 150 anos, e conseqüentemente 600 anos? Epa, então que tal trisesquicentenário???)?

É possível que em Portugal, país definitivamente mais antigo e mão (pai?) de nossa língua, exista nomenclatura adequada para nos referirmos adequadamente aos 450 anos da cidade de São Paulo.

Digníssimos amigos portugueses, que a esta hora significam 5,6% dos acessos ao Escrever Por Escrever, se puderem, me ajudem!

A propósito, a estrela deste pôust é o último! Não deixem de ler, por favor!

Sugestão de visita 001

A partir de hoje começarei, ocasionalmente, a sugerir alguns sítios ou blógues de grande interesse pelo seu conteúdo artístico, literário, político, antropológico, enfim, de alguma humanidade qualquer.

O primeiro sítio que indico é o Brinquedo de Palavras editado pelo grande webdesigner (vê-se isso pelo site) Pipol.

No site, que para ser visualizado é necessário possuir Flash MX instalado, encontramos trechos literários que demonstram a absurda sensibilidade do artista entremeados de imagens linda e brilhantemente conectadas, fazendo do site um verdadeiro teatro digital.

Confiram! Ah! E não deixem de ler o último pôust!

Serviço Militar Obrigatório: uma indecência?

Indecência Militar

(Gabriel O Pensador)

.

Na porta do local do alistamento militar

Esperando pela hora de entrar

de saco cheio, estava eu lá (que paciência!)

Sem nenhuma mulher pra agarrrar e nem um som pra escutar

E um monte de marmanjos do meu lado eu vi

Então pensei “Pô o que que eu tô fazendo aqui?”

Pergunta sem resposta, e raiva batendo

Foi assim que eu fiz um rap pra passar o tempo

Serviço militar obrigatório é uma indecencia

Um ano sem mulher batendo continencia

Escravidão numa democracia

É uma incoerência

Um ano sem mulher batendo continencia

Serviço militar obrigatório é uma indecencia

Um ano sem mulher batendo continencia

Um ano sem mulher só ralando

E o salário?

Não leve a mal mas isso é coisa pra otário

Alguns podem até gostar da brincadeira

Mas o serviço só é bom pra quem quer seguir carreira militar

Mas rapá, pro Pensador não dá!

Servindo o exército, marinha, aeronáutica ou qualquer porra dessas

Não interessa eu ia ser um infeliz

Ia ficar revoltado como eu nunca quis

Servindo quem montou a ditadura aqui no meu país

Usando farda e lavando o chão

Sem reclama de nada pra não ser jogado na prisão

Hum mas que situação! Então

Batendo continencia e fazendo flexão

Para os caras que prenderam meu pai

E mataram tantos outros institucionalizando a repressão

Não! Agora acorda e concorda com esse refrão!

E porque não?

Nas mãos dos militares muito jovem já morreu

Não quero ser soldado! Quem manda em mim sou eu!

Esse é o defeito da nossa sociedade

Um ano da minha vida não pode ser gasto assim

Escravizado por quem nunca fez nada de bom por mim

Essa contradição me repudia

Serviço obrigatório não combina com democracia

A porta abre e todos entram

Tô torcendo pra sobrar enquanto isso dá vontade de cantar

Olha aí rapaz, como você fala das nossas instituições democráticas!

Instituições o que?

Ih! Eu acho que eu tô doidão, eu ouvi “democráticas”!

Ah tá…

Decidi escrever sobre este tema pois nos dois últimos dias passei pela experiência de uma seleção para a Aeronáutica, no V COMAR (Comando Regional da Aeronáutica), em Canoas, Rio Grande do Sul.

Depois de 10 anos que incluíram 6 anos de graduação em Medicina, 2 anos de especialização em Medicina Interna e 2 anos de especialização em Endocrinologia, sempre solicitando adiamento para realização de minha formação profissional, finalmente chegou a hora de “prestar contas à Pátria Amada Brasil”.

A obrigatoriedade do Serviço Militar não é exclusividade do Brasil, onde somente a população masculina presta necessariamente 1 ano de trabalhos para as forças armadas (em alguns países chega a dois anos a obigatoriedade).

A questão que se impõe paira sobre esta mesma obrigatoriedade: trabalho comunitário instituído ou indecência restritora de liberdade?

Existem bons argumentos que defendem cada ponto de vista.

Na defesa da obrigatoriedade, surgem vozes que reproduzem as necessidades da sociedade brasileira (defesa das fronteiras, proteção em caso de conflitos civis, acesso da saúde em áreas remotas, etc.), a responsabilidade que o recruta adquire ao servir (pfúú!) e, no caso dos formandos de Medicina, Farmácia, Odontologia e Medicina Veterinária, o retorno necessário a ser dado por esta pequena parcela da população que concluiu o terceiro grau graças ao financiamento ou subsídio do Estado.

Do lado oposto, gritam as vozes da Revolução Francesa e também interpretações radicais (quem sabe deturpadas) de Hannah Arendt, na defesa da liberdade do indivíduo enquanto membro de uma coletividade. Sugerem que deveria inexistir a obrigatoriedade de um serviço militar pois o mesmo seria inclusive uma contradição aos princípios liberais expressos na própria Constituição brasileira.

No caso de profissionais da área da saúde, a grande maioria que se apresenta especificamente à Aeronáutica é composta de muitos odontologistas e farmacêuticos voluntários, principalmente do sexo feminino, sendo menor a freqüência de voluntários na área médica.

Além do mais, conhecendo um pouco da estrutura e do funcionamento das forças armadas e sua relação com a comunidade, afirmo que seria praticamente impossível reduzir de pronto a quantidade de seu efetivo.

Então, deixa assim e vamos parar de falar desse assunto, chato pra caramba! Além do mais, você, raro cidadão que chegou até este ponto na leitura deve estar se perguntando: para que serve o que acabei de ler aí em cima… Ta bom, concordo! Este foi um legítimo exercício de escrever por escrever, que não acrescentou nada a ninguém… Deixa eu ir pro banho que ainda estou com a roupa com que fiz o teste físico lá na aeronáutica hoje…

Leia o próximo pôust!

Esquerda, Direitos e Devires

Pouco mais de um ano depois da mais aclamada vitória democrática da esquerda na história política recente da América Latina, cabe aqui uma discussão acerca da definição e da nova posição ocupada por esta esquerda.

Em rodas de amigos ou mesmo em discussões acadêmicas, muitos usualmente dizem que esquerda no poder deixa de ser esquerda para tornar-se direita e que, a partir de então, quem se tornaria esquerda seria a oposição (previamente no poder).

Teimo em discordar e para tanto buscarei basear minha argumentação em dois grandes amigos do pensamento contemporâneo: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Juntos, os dois pensadores escreveram obras clássicas como “Mil Platôs” e “O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia

De acordo com seu pensamento – e aqui me forço a uma interpretação pessoal – podemos chamar de ¿esquerda¿ todas aquelas forças oriundas das minorias negligenciadas pela ordem instituída que buscam, através da produção incessante de singularidades, encontrar seu lugar.

É na perene batalha entre instituinte e instituído que encontramos a verdadeira força (pulsão) da esquerda.

Guattari e Deleuze chamam de devires os constantes movimentos instituintes destas minorias, criando alguns devires que aqui posso exemplificar, como o devir homossexual, o devir negro, o devir mulher, o devir molecular só para citar alguns. Em nosso contexto sócio-econômico-político poderia eu acrescentar o devir sem-terra, o devir aposentado, o devir pequena empresa e o devir paciente na fila do SUS (embora todos exceto o primeiro dos últimos citados com pequeno poder de gerar tensão suficiente para incomodar o instituído).

Na busca de seu espaço, estes devires são geradores de tensão na superfície do estabelecido, naquilo que chamam de “Capitalismo Mundial Integrado“, representado pelas instituições oficiais dos Estados, Escola, Igreja e meios de comunicação de massa, entre outros.

No momento em que a minoria é açambarcada pelo meio instituído – ou se integra a ele voluntariamente – esta deixa de produzir subjetividade e se mescla à grande massa sem individualidade e normalizada pela ordem vigente.

Aqui, podemos ver que o governo que temos hoje em nosso país certamente deixou de ser esquerda, pois aceitou tacitamente algumas das ferramentas da organização instituída a que se filiou mas, ao mesmo tempo, não pode ser considerado direita (permanecendo parcialmente esquerda, então), pois germinam ainda, dentro de si, forças que buscam modificar o estabelecido, gerar o novo.

Recentes eventos, como a fissão dentro do próprio Partido dos Trabalhadores mostram bem essa faceta a qual me referi acima – e da qual só foi visualizada porção correspondente à ponta de um iceberg.

Nessa guerra de titãs entre a simbiose hoje estabelecida em nosso Estado e as cada vez mais gritantes “forças desejantes” das minorias, percalços são previsíveis mas a busca dos direitos – ou como preferem Deleuze e Guattari, do espaço para exercer a singularidade – não deve cessar, pois essa mesma é a essência da realidade.

Apesar de vozes da ultra-direita pós-diretas já tentarem se amplificar, o bom-senso e juízo crítico da direita moderada foi capaz de ouvir o clamor popular, a grita desta bastante suficiente minoria – não em número mas em voz ativa -, o que possibilitou grandes mudanças no contexto sócio-econômico, principalmente no que diz respeito às reformas previdenciária e tributária.

Finalmente, a forma que hoje se apresenta constituído, o governo brasileiro, outrora denominado ¿esquerda¿, encontra-se provisoriamente em um limbo cuja melhor definição seria “esquerda-direita”, ou, porquê não, “centro”, já que do centro é o melhor caminho para chegar às duas extremidades e seguir realizando o governo de coalizão pelo qual se caracteriza a atual administração. Há que se concordar, indubitavelmente, que ambas correntes – conciliadora e revolucionária – atuam simultaneamente na direção do país.

Quem sabe a escolha desse caminho – o caminho do meio do taoísmo chinês – não seja, enfim, aquele que nos levará a dias melhores em um futuro breve?

* imagem inspirada na capa do livro Sociologia e Antropologia, de Marcel Mauss, publicado originalmente em 1950 e reeditado em português em 2003 pela Editora Cosac & Naify

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Publicado Por em jan 16, 2004

Para hoje não consegui tempo suficiente para escrever nada original. Na verdade, escrevi várias coisas mas não consegui terminar nenhuma. Isso quer dizer que teremos uma sessão revival (pelo menos para mim!). Disporei aqui alguns textos já apresentados ou publicados em tempos idos em outros meios ou locais. No próximo pôust, textos inéditos.

Segue a agenda das postagens até 29 de fevereiro. A partir de então, não teremos mais datas fixas de postagem. As datas a seguir servem para guiar o amigo leitor para que não se ocupe de entrar neste blógue por mais de uma vez sem que o mesmo esteja atualizado (claro que é muita imbecilidade minha acreditar que alguém vá anotar estas datas e se utilizar delas, sendo mais fácil simplesmente dar um clique em um línque e “dar uma olhadinha” para ver se tem novidade… Mas, mesmo assim…

Pôust 7 – 16/01

Pôust 8 – 22/01

Pôust 9 – 27/01

Pôust 10 – 02/02

Pôust 11 – 07/02

Pôust 12 – 13/02

Pôust 13 – 18/02

Pôust 14 – 24/02

Pôust 15 – 29/02
(2004 é ano bissexto!)

Obesidade: a Epidemia dos Tempos Modernos

(texto originalmente publicado no Jornal Deutsche Integration de Agudo-RS)

A Obesidade, até há bem pouco tempo, passava despercebida entre a vasta gama de enfermidades que assolam o ser humano. Isso porque, até muito recentemente, era encarada como sinal de personalidade fraca, combinação de glutonice e maus cuidados com o próprio corpo. A relutância da própria Medicina em encarar a Obesidade como doença levou a uma demora na identificação de métodos eficazes para o seu controle. Tanto demorou que hoje vivemos uma epidemia, na qual cerca de um terço (33%) da população adulta brasileira apresenta sobrepeso e um quarto (25%) é obesa (e esses números estão crescendo ano após ano!)

Mas se consideramos a Obesidade uma doença, por que isso ocorre? Basicamente porque a presença de obesidade está associada ao surgimento em maior freqüência de uma série de enfermidades, como a hipertensão, o diabete melito, infarto do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais (derrames), gota, câncer de útero, osteoartrose de quadril, joelhos e tornozelos, cálculos na vesícula, varizes, cálculos renais, câncer de mama, irregularidades menstruais, excesso de pêlos e também infertilidade e morte prematura.

O que mudou nos últimos anos? Passou-se de uma visão permissiva para uma mais intromissiva no que tange a Obesidade. Sabe-se que praticamente a totalidade dos pacientes obesos apresentam algum transtorno do humor, quer seja o humor deprimido levando ao sedentarismo e a pouca busca por atividade física saudável e necessária, ou a ansiedade, associada a hábitos alimentares compulsivos e outros comportamentos auto-destrutivos.

E quais são as causas da obesidade? Além dos fatores genéticos, herdados de nossos pais e avós, temos a influência importante de fatores ambientais, quais sejam: ingestão de alimentos e atividade física.

As pessoas gordinhas e com a família também gordinha têm uma tendência herdada de gastar menos a energia ingerida do que uma pessoa magrinha com um mesmo grau de atividade física. A isso chamamos de metabolismo basal diminuído. É por isso que a pessoa obesa deve se esforçar mais (comer menos ou se exercitar mais) que uma pessoa com tendência familiar a ser magra.

Em relação ao ambiente, um dos fatores mais notórios associados à epidemia da obesidade diz respeito ao desenvolvimento tecnológico e o aumento do conforto de nossa sociedade ocidental contemporânea. Desta feita, controles remotos para aparelhos eletrônicos, direções hidráulicas e vidros elétricos nos automóveis, lavadoras de roupa e de louça, tele-entregas e outras comodidades jogam a favor de uma economia de energia e conseqüente ganho de peso. Não é mais preciso caçar, pescar ou colher o alimento. É só esticar o braço na prateleira do supermercado.

As comidas gordurosas nunca estiveram tão em voga: fast-foods, pizzas, hambúrgueres, massas, queijos, carnes… Que gostosura! É claro, comer é bom, todo mundo gosta, dá prazer! É por isso que é tão difícil perder peso: temos que castrar (ou pelo menos limitar) um de nossos maiores prazeres!

É tarefa difícil mas de jeito algum impossível! Com uma boa reeducação alimentar, trocando alimentos mais por menos calóricos, aprendendo a lidar com a compulsão, realizando exercícios físicos regulares de forma adequada e, ocasionalmente, com auxílio inicial de alguma medicação, podemos vencer esta batalha contra o excesso de peso e tornar a vida de muitas pessoas mais saudável e prazerosa.

(apesar da abordagem “popular”, é um texto simples que tem muito a dizer…)

Pensamentos Privados

Faço força para não pensar

Enquanto caem das minhas entranhas

Sentimentos digeridos e absorvidos

Que já não me servem mais

Libero, em toda minha impaciência

O vil odor que agora assola o ambiente

O hálito pensante sobrenada cansado,

Inerte, só, desesperado

Não quero mais essa angústia

Limpo minh’alma e sigo andando

Há muito que sei o meu caminho

Ele eu sigo, sorrindo contente

(esse poema foi o primeiro de uma série de 5 poemas escritos para participar de um concurso nacional promovido pela Editora Shan. Está publicado em “Antologia Poética Brasileira 1999”, da Série Gaivota e na edição 008 do site Simplicíssimo. O mesmo foi literalmente escrito sentado em uma privada, durante o ato de evacuar, e é uma reflexão profunda sobre o referido ato.)

Resenha do Texto “O Homem e a Câmera”, de Jean Rouch

(para a cadeira “Seminários Livres em Antropologia Visual” do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, apresentado em 8 de junho de 2001)

No texto “O Homem e a Câmera”, Jean Rouch traça um painel histórico do cinema na Antropologia, encarando essa entrada do seu ponto de vista extremamente peculiar e certamente validado pelo fato de que ele mesmo participou de grande parte da história do cinema etnográfico.

Para tanto, percorre os caminhos trilhados desde 1872, quando Eadweard Muybridge fez a primeira sequência fotográfica de um cavalo trotando, passando por Étienne-Jules Marey com seu cronofotógrafo, que trouxe movimento à fotografia, por Félix Regnault, que em 1900 foi o primeiro a usar os cilindros de Edison para gravar sons e chegando, na década de 20 aos “precursores” do cinema antropológico: Dziga Vertov e Robert Flaherty (ambos fazendo etnografia sem saberem!)

Flaherty, filmando um esquimó, Nanook, por volta de 1920, inserido no meio da cultura esquimó, inventou a “observação participante” e, com sua idéia de partilhar seu trabalho com os esquimós, criou o “feedback”, ou seja, o retorno da informação captada através das imagens para a própria cultura que havia sido focada pelas lentes.

Vertov trabalhando na mesma época, preocupou-se em filmar pequenas partículas da realidade, ao invés de embrenhar-se em um ambiente hostil e distante. Foi Vertov que criou o “cine-olho”, ou seja, uma perspectiva através da qual o espectador via nas imagens através dos olhos do etnógrafo, do cinegrafista. Vertov ia atrás dos acontecimentos à medida que estes iam se desenrolando, filmando as cenas cruas, sem preparações, introduzinho assim o “Cinéma-vérité” (cinema verdade), ou seja: a realidade em movimento.

Na década seguinte, com os progressos técnicos, ficou muito mais fácil a realização das filmagens, mas também, com o recém criado cinema falado, o cinema comercial “tomou conta da cena”. Em vez de ir ao encontro das pessoas, o novo cinema trouxe as pessoas para perto das câmeras, para dentro dos estúdios. Citou a crise do cinema etnográfico tentando se mesclar com o cinema comercial e os desastrosos resultados dessa tentativa naquela ocasião, como os filmes de Marcel Griaule e Patrick O¿Reilly.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de câmeras mais leves e equipamentos de som com gravação simultânea com as imagens, o desenvolvimento do cinema foi rápido. Em 1955, Rouch tenta definir o filme etnográfico, que entre outras coisas teria a função de imortalizar algum aspecto de uma cultura, um aspecto da realidade atual.

A partir de 1960, com equipamentos modernos, a qualidade dos filmes etnográficos cresceu. A partir daqui, Rouch começa a comentar alguns aspectos interessantes desse “Cinema etnográfico”.

Comenta o fato de a distribuição de filmes etnográficos ser restrita, ao contrário dos filmes comerciais, apesar de técnicas semelhantes serem usadas em ambos, excetuando-se documentários sensacionalistas como “Mondo Cane”. Questiona se o melhor seria um etnógrafo-cinegrafista ou um etnógrafo com uma equipe de filmagem, decidindo-se pelo primeiro, pela menor “invasividade” e pelo fato de que o etnógrafo seria o único a saber exatamente quando e para onde apontar a câmera. Acredita que a perda técnica resultante disso não seria problema tendo em vista os benefícios.

Compara câmeras em tripés com câmeras seguras somente pela mão e inclusive o uso de zoom ou somente de lentes fixas (necessitando assim o cinegrafista aproximar-se mais da cena para dar a impressão de “cine-eye”).

Passa pela edição das imagens, a inclusão de comentários, legendas e música e toca na questão da exposição do filme pronto à população estudada. Critica a exposição de muitas informações orais por parte do cientista, que poderiam dar uma interpretação (muitas vezes errada) daquilo que se está vendo e se pode interpretar com os próprios olhos. Também o faz em relação a legendas muito extensas e ao fato de que, muitas vezes, músicas e sons são inapropriados a determinadas cenas, citando o exemplo de Bataille sur le grand fleuve, onde ele próprio colocou músicas com instrumentos de cordas para dar um clima de ¿caçada¿ mas, quando mostrou o filme aos caçadores, estes solicitaram que a música fosse retirada, tendo em vista que a caçada necessitava extrema concentração e silêncio!

Analisando os comentários dos filmes desde 1930, verifica que eles passaram de um aspecto “barroco colonial” para um de “aventura exótica” e chegaram à “secura de um relato científico”.

Rouch pergunta-se: para quem os filmes são feitos? Para quem? Para quem? E por quê? Encontra algumas respostas, nenhuma definitiva. Talvez para si próprio, por achar que em certos lugares, em certos momentos e com certas pessoas que a câmera seja necessária. E porquê? Para deixar registrados aspectos de culturas que estão rapidamente mudando ou próximas da extinção, para demonstrar comportamentos em situações de revolta, para gravar um gesto, uma face que não pode deixar de ser filmada ou, simplesmente porque existe uma necessidade súbita de filmar. Mais tarde conclui que os filmes etnográficos devem ser feitos para a maior audiência possível, para todas as pessoas.

Assim, através da demonstração de conceitos interessantes como o da “câmera participante”, o da “antropologia compartilhada” e do “cine-eye”, Jean Rouch nos impregna de conhecimento e estímulo em busca da construção de um novo tempo no mundo do cinema antropológico, fornecendo a base e deixando em aberto o futuro, com uma visão: a de um tempo onde a câmera passará às mãos daqueles que hoje são estudados, e os mesmos farão o trabalho por si próprios, não sendo mais o antropólogo o indivíduo a monopolizar a observação das coisas.

PRÓXIMOS PÔUSTS: “Esquerda, Direitos e Devires”, “Serviço Militar Obrigatório – é uma indecência?”

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