Posts made in julho, 2004


Copacabana já tinha sido bem aproveitada. O próximo destino era a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), em Paraty, cidade onde anos atrás Jesus havia encharcado seus ladrilhos históricos com o resultado depurado de litros de cerveja.

Já na chegada, Maria foi correndo pegar um autógrafo de Alessandro Garcia, sentado em uma cadeira de praia na Praça da Matriz da cidade, enquanto Milton Hatoum ministrava uma oficina de Romance.

Na janta, Deus encontrou Paul Auster que estava a jantar com Chico Buarque e, da mesa onde estava sentado, por pouco não teve a impressão de ouvir um sussurro da mesa onde estavam sentados Milton Ribeiro, Cláudia Antonini e Stella van der Klugt dizendo “bobão!” à mesa do renomado cantor de música popular brasileira.

Jesus chegou atrasado dizendo que tinha ganho uns pilas por um “freela” jornalístico que fizera, mandando algumas informações por telefone ao Juremir Machado da Silva, que estava em Porto Alegre, pois não havia sido convidado para a FLIP.

Quando estavam quase de saída da última oficina, no último dia da FLIP, chamaram o “Hermeto Pascoal” para tirar o som de algumas folhas de papel. Esclarecido o engano – e já que Deus já estava no pequeno palco – pediram que declamasse uma poesia de sua autoria. Deus, mesmo um pouco encabulado – e contrariado – cedeu ao olhar amável e ao mesmo tempo incisivo que só Maria sabia fazer e soltou o verbo:

“- Batatinha quando nasce…”

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Comece dizendo que o autor foge do hiper-realismo. Que mantém uma escrita sóbria sem concessões ao coloquialismo excessivo.

Siga afirmando que não usa linguagem chula nem escatológica, tão comum em nossos dias que está prestes a formar uma nova corrente.

Diga que é um representante legítimo do ideário contemporâneo. Se escreve textos curtos, diga que são fortes porque concisos. Se os textos são longos, diga que são fortes porque se esmeram em detalhes.

Lembre o leitor que (não) há nuances de experimentalismo.

Se for um contista, diga que os contos de Fulano de Tal invadem a realidade, recriando-a num espelho de múltiplas faces.

Em caso de romances, afirme que nos textos do autor, o leitor é convidado a participar, quer seja pela ambigüidade intencional do discurso ou pelo “subtexto tramado com perícia”, acentuando que esses são “reflexos óbvios da prática do conto” (se o autor não for conhecido por seu trabalho como contista, suprima este trecho ou insinue que o mesmo tem um manancial de contos guardados em suas gavetas).

Se possível identifique algum cacófato e o enumere.

Refira que o autor usa (evita) doses maciças de humor, privilegiando o trocadilho, a metalinguagem e a paródia.

Para concluir, diga que o autor consegue com primor evitar filigranas e pirotecnias, usando adequadamente a força intrínseca das palavras. Termine com “O escritor Fulano de Tal mostra, assim, consciência de seus instrumentos de criação, mantendo a coerência durante toda sua obra”.

Na próxima crítica, ajuste o nome da obra e do autor, inverta a ordem de aparecimento das sentenças e dê uma enfeitada aqui e acolá com passagens da obra e pronto: mais uma crítica literária fresquinha estará saindo do forno!

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Não estranhem o simples “despejar” de textos aqui no Escrever Por Escrever, com um bom tanto de impessoalidade e de diálogo com meus 5 leitores (pegando a mania do Milton Ribeiro!). Ao contrário do que possa parecer – que estou sem tempo para escrever e que estou escrevendo pouco – estou escrevendo muito, em quantidade e densidade (pelo menos é o que por ora penso). Tais escritos e leituras que estes mesmos escritos me obrigam ter – afinal quero fundamentar minhas palavras sobre solo pétreo, mesmo que para tanto esmaeça um pouco a plena originalidade, – tem tomado muito do meu tempo.

As idéias fervilham e não posso deixar que um transatlântico carregado com elas passe à minha frente e eu fique, literalmente, a “ver navios”!

Assim, o Escrever Por Escrever será, na mesma freqüência de sempre, abastecido com alguns textos de minha autoria, algumas fotos tiradas aqui e acolá e um ou outro Diálogo com Deus. É claro, sempre que um novo amigo for feito com o “Dízimo Solidário – Não Seja 100, seja 110% – Manifesto Anti-Individualista”, colocarei aqui também uma nota e as fotos.

A idéia de ING está tomando substância. Em breve, descrevo aqui com detalhes o que pode (e será) ser feito!

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Pois lá estava ele, em Copacabana, estirado em sua cadeira de praia, óculos escuros e calção de banho vermelho, chapéu de palha e bebendo água de côco.

Maria havia saído para caminhar e Jesus jogava num fliperama ali perto.

Àquele momento, já o haviam confundido por mais de uma vez com o Hermeto Pascoal, e para evitar explicar toda história novamente, já estava até dando autógrafos em nome do multi-instrumentista.

Finda a água de côco, olhou de sobrolho para a direita e passou a admirar a bela vista que aquela praia carioca com suas “meninas do Rio” proporcionava. Já esboçava um pequeno sorriso em seus lábio e preparava um sonoro “fiu-fiu” quando percebeu que uma sombra se insinuava por sobre seus ombros. Era Maria. Havia segurado o assovio bem a tempo!

– Já não era sem tempo Maria! Estava sentindo sua falta!

– Ah é? Que amor, meu bijuzinho! Só você mesmo para ser assim tão descarado! Vai dizer que não estava olhando para o traseiro daquela morena ali adiante?

– Traseira? Morena? Onde?

– Que cara-de-pau!

(continua…)

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Despertar

Despertar


Posted By on jul 17, 2004

antigo gramophone.jpg

Quando as cores somem

Desaparecem como se nunca houvessem existido

Quando as luzes brilham

Mas não servem mais ao seu propósito

O vazio preenche todos espaços

Toma conta de tudo que resta

De tudo que sobrou, dos escombros

Agora em tons de cinza, escuro

Já não se ouvem passos, nem vozes

Somente um grito, surdo, ensurdecedor

Que me faz fechar os olhos

E ver coisas até então sem sentido

A distância agora consigo medir

Ela existe, e assusta

Tenho medo de não mais voltar

De não escolher o caminho certo

Sinto cheiro de café

E sinto necessidade de acordar

Deste sonho, que é uma vida

E viver, esta vida – que é realidade.

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Colocando as mãos na massa

Colocando as mãos na massa


Posted By on jul 13, 2004

Não adianta ter uma idéia e mantê-la guardada na gaveta, não acham?

Pois então, hoje tirei a tarde para iniciar meu projeto pessoal do Dízimo Solidário, descrito ali embaixo no Manifesto Anti-Individualista (ou Anti-Individualismo como quer meu amigo César).

Em primeiro lugar, fui na Escola Antônio Francisco Lisboa, aqui em Santa Maria. Havia lido no jornal uma reportagem sobre o fato de utilizarem na escola um programa de computador que imprime da tela do computador textos em braile, com uma impressora especial. O problema é que falta verba para comprar os formulários de papel especial, mais grossos que o usual, para a impressão.

Fui gentilmente levado pela Ana Paula para conhecer as dependências da Escola, muito bem estruturada apesar da carência de verba que estas instituições apresentam neste país – resultado da boa vontade dos que lá trabalha, com toda certeza.

Conheci a professora Marli Terezinha Schmitt, que estava a ensinar a aluna Adriana, de 19 anos em uma sala específica. Ambas com deficiência visual – professora e aluna – mostravam grande disposição em me ajudar a conhecer aquele ambiente.

Adriana.jpg

Adriana, concentrada estudando suas lições

Prontamente solícita, a professora me apresentou a impressora que faz a façanha de imprimir em braile textos previamente passados para o computador.

maquina braile.jpg

Impressora em braile (um pouco fora de foco)

Obviamente fiquei sensibilizado com a situação e minha vontade de ajudar só aumentou.

Fiquei de comprar 1500 folhas para auxiliar a Escola a seguir seu especial trabalho.

Saí de lá feliz da vida, rumo ao meu próximo destino: a casa de Rodrigo, o menino deficiente visual que superando todas as dificuldades, passou no vestibular para Letras Espanhol na Universidade Federal de Santa Maria, façanha que muitas pessoas sem suas restrições não alcançam.

Achar a casa de Rodrigo foi uma lenda: ele mora na periferia da cidade, em um conjunto habitacional de difícil acesso, em uma casa bastante humilde.

Uma faixa em frente a casa mostra todo o orgulho da família:

Faixa do Rodrigo.jpg

Na chegada sou recebido pelo tio e pelo avô de Rodrigo, que me diz que o mesmo encontra-se ansioso pela minha espera (havia combinado minha vinda por telefone na semana anterior).

Ao entrar na casa quem me recebe é Rodrigo ao lado de sua avó, que também é sua mãe, já que Rodrigo perdeu sua mãe biológica bastante cedo, em um acidente.

Me apresento e lhe entrego o gravador, pelo qual Rodrigo agradece efusivamente, certo de que lhe será útil durante sua faculdade.

Rodrigo.jpg

Este que vos escreve ao lado de Rodrigo com seu livro em braile e seu novo gravador portátil

Atendendo ao pedido de sua avó, Rodrigo leu para mim um livro de Espanhol em braile que havia ganho do Cipel, cursinho local que lhe ajudou nos estudos pré-vestibulares.

Depois de lhe desejar muito sucesso nesta nova batalha que começa (Rodrigo ainda está na luta para conseguir transporte para a UFSM, já que seu curso é noturno) no próximo mês, fui embora, certo de que ainda nos veremos em muitas ocasiões.

Na volta para casa, parecia estar flutuando, tamanha satisfação e felicidade que tomaram conta de mim.

No princípio, ainda pensava nas coisas que estaria deixando de adquirir ao fazer estas doações. Pensava nas minhas lentes fotográficas e também nos filtros para as mesmas, que ainda não tenho. Pensava na troca de meu carro, na aquisição de minha casa própria, que está tão distante. Pensava em roupas e sapatos novos e, quem sabe, alguns DVDs a mais.

Agora, estou pleno de certeza de que, realmente, estas coisas podem esperar e que existem planos da realidade que necessitam de atenção mais urgente do que minha vaidade ou desejo de consumo.

Que siga o baile! Vou dançando sem parar esta nova música que meus ouvidos finalmente conseguiram compreender.

E nesta noite, meu sono será diferente, assim como meu sonhar. Se eu invadir seus sonhos, hoje ou amanhã, dando petelecos na sua consciência, não estranhe. Foi assim que começou comigo: aos poucos, como quem não quer nada…

A propósito: àqueles que por aqui chegaram e são novos, leiam o Manifesto Anti-Individualista. Aos que são recentes e estranham minha demora de 4, 5 ou 6 dias entre um pôust e outro, queiram ter a gentileza de lerem pôusts antigos. Muitos deles não perdem a validade com o tempo! Vale a pena fuçar!

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