Posts made in julho, 2004


Despertar

Despertar


Publicado Por em jul 17, 2004

antigo gramophone.jpg

Quando as cores somem

Desaparecem como se nunca houvessem existido

Quando as luzes brilham

Mas não servem mais ao seu propósito

O vazio preenche todos espaços

Toma conta de tudo que resta

De tudo que sobrou, dos escombros

Agora em tons de cinza, escuro

Já não se ouvem passos, nem vozes

Somente um grito, surdo, ensurdecedor

Que me faz fechar os olhos

E ver coisas até então sem sentido

A distância agora consigo medir

Ela existe, e assusta

Tenho medo de não mais voltar

De não escolher o caminho certo

Sinto cheiro de café

E sinto necessidade de acordar

Deste sonho, que é uma vida

E viver, esta vida – que é realidade.

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Colocando as mãos na massa

Colocando as mãos na massa


Publicado Por em jul 13, 2004

Não adianta ter uma idéia e mantê-la guardada na gaveta, não acham?

Pois então, hoje tirei a tarde para iniciar meu projeto pessoal do Dízimo Solidário, descrito ali embaixo no Manifesto Anti-Individualista (ou Anti-Individualismo como quer meu amigo César).

Em primeiro lugar, fui na Escola Antônio Francisco Lisboa, aqui em Santa Maria. Havia lido no jornal uma reportagem sobre o fato de utilizarem na escola um programa de computador que imprime da tela do computador textos em braile, com uma impressora especial. O problema é que falta verba para comprar os formulários de papel especial, mais grossos que o usual, para a impressão.

Fui gentilmente levado pela Ana Paula para conhecer as dependências da Escola, muito bem estruturada apesar da carência de verba que estas instituições apresentam neste país – resultado da boa vontade dos que lá trabalha, com toda certeza.

Conheci a professora Marli Terezinha Schmitt, que estava a ensinar a aluna Adriana, de 19 anos em uma sala específica. Ambas com deficiência visual – professora e aluna – mostravam grande disposição em me ajudar a conhecer aquele ambiente.

Adriana.jpg

Adriana, concentrada estudando suas lições

Prontamente solícita, a professora me apresentou a impressora que faz a façanha de imprimir em braile textos previamente passados para o computador.

maquina braile.jpg

Impressora em braile (um pouco fora de foco)

Obviamente fiquei sensibilizado com a situação e minha vontade de ajudar só aumentou.

Fiquei de comprar 1500 folhas para auxiliar a Escola a seguir seu especial trabalho.

Saí de lá feliz da vida, rumo ao meu próximo destino: a casa de Rodrigo, o menino deficiente visual que superando todas as dificuldades, passou no vestibular para Letras Espanhol na Universidade Federal de Santa Maria, façanha que muitas pessoas sem suas restrições não alcançam.

Achar a casa de Rodrigo foi uma lenda: ele mora na periferia da cidade, em um conjunto habitacional de difícil acesso, em uma casa bastante humilde.

Uma faixa em frente a casa mostra todo o orgulho da família:

Faixa do Rodrigo.jpg

Na chegada sou recebido pelo tio e pelo avô de Rodrigo, que me diz que o mesmo encontra-se ansioso pela minha espera (havia combinado minha vinda por telefone na semana anterior).

Ao entrar na casa quem me recebe é Rodrigo ao lado de sua avó, que também é sua mãe, já que Rodrigo perdeu sua mãe biológica bastante cedo, em um acidente.

Me apresento e lhe entrego o gravador, pelo qual Rodrigo agradece efusivamente, certo de que lhe será útil durante sua faculdade.

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Este que vos escreve ao lado de Rodrigo com seu livro em braile e seu novo gravador portátil

Atendendo ao pedido de sua avó, Rodrigo leu para mim um livro de Espanhol em braile que havia ganho do Cipel, cursinho local que lhe ajudou nos estudos pré-vestibulares.

Depois de lhe desejar muito sucesso nesta nova batalha que começa (Rodrigo ainda está na luta para conseguir transporte para a UFSM, já que seu curso é noturno) no próximo mês, fui embora, certo de que ainda nos veremos em muitas ocasiões.

Na volta para casa, parecia estar flutuando, tamanha satisfação e felicidade que tomaram conta de mim.

No princípio, ainda pensava nas coisas que estaria deixando de adquirir ao fazer estas doações. Pensava nas minhas lentes fotográficas e também nos filtros para as mesmas, que ainda não tenho. Pensava na troca de meu carro, na aquisição de minha casa própria, que está tão distante. Pensava em roupas e sapatos novos e, quem sabe, alguns DVDs a mais.

Agora, estou pleno de certeza de que, realmente, estas coisas podem esperar e que existem planos da realidade que necessitam de atenção mais urgente do que minha vaidade ou desejo de consumo.

Que siga o baile! Vou dançando sem parar esta nova música que meus ouvidos finalmente conseguiram compreender.

E nesta noite, meu sono será diferente, assim como meu sonhar. Se eu invadir seus sonhos, hoje ou amanhã, dando petelecos na sua consciência, não estranhe. Foi assim que começou comigo: aos poucos, como quem não quer nada…

A propósito: àqueles que por aqui chegaram e são novos, leiam o Manifesto Anti-Individualista. Aos que são recentes e estranham minha demora de 4, 5 ou 6 dias entre um pôust e outro, queiram ter a gentileza de lerem pôusts antigos. Muitos deles não perdem a validade com o tempo! Vale a pena fuçar!

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Abriu uma casa de samba nova na Vila Celestial do Andaraí chamada Sobradinho. E lá foram Deus e Maria, como “zeladores da vizinhança”, conferir a novidade. Já na chegada, encontraram seu Aristides, maior fofoqueiro desta e de todas paróquias e contratado como host da festa.

– Óóóóóólha só quem vem chegando! Ilustríssimo senhor Deus e sua graciosa esposa! Sejam bem-vindos!

Deus resignado acenou com a cabeça. Coube à Maria a parte diplomática:

– Muito obrigado seu Aristides. Será que ainda conseguimos um lugar sentados?

– Sentados? Mas não vão requebrar este esqueleto enferrujado?

Deus levanta um olhar furioso e puxa Maria para dentro do estabelecimento. Seu Alcides segue com seu trabalho sem aperceber-se da ânsia que causou.

Lá vem chegando Maria Clara de mãos dadas com Laura, sócias-gerentes da casa e amicíssimas, por sinal:

– Sejam bem-vindos senhor Deus e dona Maria! Temos um lugar especial reservado para vocês! – e foram levados para uma mesa no canto do salão.

À Maria coube um lugar com boa visibilidade do palco, mas Deus ficou exatamente atrás de uma pilastra, ao que indagou, indignado:

– Vou ficar sentado aqui? E como vou ver o show?

– Mas o senhor não é aquele que tudo vê, tudo sabe e tudo o mais? Achamos que não iria se importar, levando em conta seus superpoderes…

– Grrrrr – “Não é o meu dia” – pensou.

Depois de cerca de duas horas de espera, finalmente o primeiro “xô” da “náite”: um grupo de pagode da periferia chamado “Os Travesseiros”.

Em cima do palco, um grupo de 5 manos armados de pandeiro e cavaquinho eram comandados por um mano de cabelo loiro e viseira de praia verde-limão, que cantava “laia-laiá” até não poder mais.

Ao fim da primeira música, a impaciência divina já era notada, pois raios e trovões relampejavam e tronitroavam fora do Sobradinho.

Mas a paciência acabou mesmo quando entrou o segundo grupo, um tal de SERASA, SPC, ou algo assim. Ao sentir que mais um laia-laiá estava para começar, não deu outra:

– Maria, se sairmos daqui te dou aquele microondas novo com douador que você tanto quer…

– Fechado! Já não era sem tempo!

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